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ós estávamos treinando arduamente há quase duas semanas. Praticamente só parávamos para comer ou dormir à noite. John estava uma pilha de nervos porque a outra equipe de busca ainda não havia voltado e também não tinha mandado notícias; tudo levava a crer que Maureen os havia pego e muito em breve ia nos atacar, por isso Hannah e eu precisávamos estar prontos o mais cedo possível.

Nossas tentativas de combinar os nossos poderes estavam sendo um fiasco. E a culpa era toda dela. Hannah não havia mudado seu comportamento com relação a mim desde que chegamos e, se no começo eu decidi respeitar o tempo dela, depois de todos aqueles dias eu já não suportava mais aquela situação. Aquilo era ridículo: estávamos prestes a ter que encarar uma guerra e ela se recusava a cooperar minimamente. John cansou de dizer que, para unirmos os nossos poderes, nós precisávamos nos concentrar e unir os nossos pensamentos. Ele desenhou uma linha no chão e nos mandou criar uma fenda exatamente em cima dela. Praticamos isso durante horas; eu sempre conseguia, mas Hannah sempre desviava para um lado.

- Isso é complicado e desnecessário! – um dia, ela desabou de cansaço. – Estamos perdendo tempo com isso. Eu devia estar praticando as minhas habilidades originais.

- Não é desnecessário. – eu disse. – Não adianta nada criar uma fenda em qualquer lugar; você precisa ter um alvo. Caso contrário vai acontecer o mesmo que aconteceu com a gente na estrada para Nova York.

Como sempre, ela me ignorou. John marchou até ela e falou:

- Levanta. Agora.

Ela se levantou de má vontade, ele pegou o braço dela e a levou até onde eu estava. O que ele fez em seguida surpreendeu a nós dois: ele pegou a minha mão e a dela e nos forçou a ficar de mãos dadas.

- O que você está fazendo?! – Hannah tentou se afastar, mas John apertou nossas mãos com força.

- Já que vocês parecem incapazes de estabelecer uma conexão mental, vamos ser obrigados a recorrer a uma conexão física. É o meio mais primitivo de concentrar os poderes, mas parece que não temos outra escolha. Criem uma fenda nessa linha agora. Não vamos parar até que vocês consigam.

Ele se afastou, mas eu e Hannah permanecemos de mãos dadas.

- Está pronta? – perguntei e ela assentiu.

Fechei os olhos. Achei que aquela coisa de conexão física era bobagem, mas eu pude sentir o poder fluindo de mim para Hannah e vice-versa; era algo quase palpável. Obedeci ao meu instinto e esperei que aquela energia ficasse mais estável e só aí eu me senti seguro para libertá-la. O chão a nossa frente tremeu e se partiu com um grande "crack!". Senti o mundo inferior querendo me sugar para dentro dele.

- Muito bom! – John bateu palmas e pareceu contente como não parecia em muitos dias.

Hannah largou minha mão e desapareceu dentro da escola.

- Deuses! – John lançou um olhar enviesado para ela. – Que garota difícil!

- Nem me fale.

- Mas não precisa se preocupar, hoje foi um bom começo. O restante do treinamento será mais fácil.

Isso aconteceu dois dias antes de tudo virar de cabeça para baixo. Eu estava treinando com Sam no meio das casas destruídas durante uma tarde. O garoto estava preparado para lutar uma guerra sozinho, se querem saber a minha opinião, mas mesmo assim os irmãos dele continuavam lançando desafios cada vez mais mortais. Nós estávamos tentando desempatar a nossa luta quando três pessoas apareceram do nada na metade do caminho entre a escola e o local onde estávamos.

Nós corremos até lá para ver o que estava acontecendo. Dois garotos e uma garota estavam caídos na grama, machucados e ofegantes. Um dos garotos estava com um grande corte na cabeça e estava desacordado nos braços da garota.

- Vocês voltaram! O que houve com vocês? – Lionel os ajudou a levantar.

- Nós precisamos falar com o John. Rápido! – disse o outro garoto.

Nós os ajudamos a chegar na escola. Muita gente ficou tensa quando eles apareceram. Alguns providenciaram uma maca para socorrer o que estava desacordado e outros direcionaram a garota para dentro da escola por causa de um ferimento na perna. Alguém foi chamar o John e ele apareceu de olhos arregalados:

- O que aconteceu?!

- Nós a encontramos... – o garoto ainda não havia recuperado o fôlego. – Nós encontramos a base.

Nem ele nem John sorriram, mas o restante de nós comemorou com gritaria. Eu estava muito feliz até reparar que uma espécie de conversa silenciosa se desenrolava entre aqueles dois. Aquela não era uma boa notícia.

- Conte-me tudo. – pediu John.

- Não dá tempo. Precisamos nos preparar. Acho que vai haver uma invasão.

John ficou pálido como papel. Eu não devia estar muito melhor do que ele. O pessoal entrou em pânico e todo mundo começou a encher John de perguntas. O caos estava instalado e o barulho era tão grande que ninguém se deu conta de que alguém estava mandando uma mensagem de Íris para nós. Foi só quando John se virou para responder a pergunta de alguém que ele viu.

A imagem de Maureen se encontrava atrás de nós, nos limites do ginásio. Ela parecia bastante aborrecida.

- Agora vocês finalmente conseguiram me tirar do sério. – foi a primeira coisa que ela disse.

Todos se viraram assustados para ela.

- Mas a ousadia de vocês vai custar bem caro, podem apostar nisso. O que você esperava, John? Que eu fosse simplesmente ignorar todas as invasões?

- Maureen, desista dessa loucura. – ele suplicou e eu tive a impressão de que ele já havia dito aquelas palavras muitas vezes antes.

- Você só me pede isso porque sabe que não tem a menor chance contra mim. Eu estava disposta a encontrar uma alternativa para não ter que dizimar vocês, mas os seus três amiguinhos me obrigaram a esquecer essa idéia. Por isso agora eu vou ter que recorrer aos piores métodos possíveis. – ela esticou o braço e puxou algo para perto dela.

Maureen segurava pela camisa um garoto de uns catorze anos, com cabelos claros e olhos cor de mel.

- Ah, não...Peter! – Hannah choramingou.

- O que isso significa, Maureen?! – eu gritei, furioso.

- Vocês podiam ter cooperado comigo no início. Mas parece que vocês só colaboram diante de ameaças. Pois bem, seu irmão está comigo, Hannah, e eu tenho uma equipe de olho nos seus avós no Texas; se você quiser que todos eles fiquem vivos, esteja em Nova York antes do pôr do sol de amanhã. E se o seu namoradinho não estiver lá também, não tem acordo. E se você tentar alguma gracinha, John, é a família de Hannah quem vai sofrer as conseqüências.

Dito isso, a mensagem se desfez. Hannah começou a andar de um lado para o outro em desespero.

- Como ela pôde fazer isso?! Como ela tem coragem de ameaçar a minha família?!

- Hannah, calma. Nós vamos encontrar uma solução. – disse John.

- Não! Você não ouviu o que ela disse? Se vocês armarem alguma coisa ela vai matar o meu irmão e os meus avós!

- Ninguém vai ser morto aqui, Hannah: nem eles e muito menos você. Se Maureen precisou recorrer a um seqüestro, ela deve estar com problemas e eu vou descobrir a fraqueza dela.

Ela não conseguiu mais conter as lágrimas e correu para dentro da escola. Eu a segui.

- Hannah, não fique assim...Eu vou até Nova York com você. Maureen não vai machucar o Peter. John vai dar um jeito de escondê-lo e deixá-lo seguro antes de fazer qualquer coisa.

- Você não entende. A minha família está correndo perigo e eu não posso ficar tranqüila e muito menos arriscar alguma coisa.

- Eu entendo sim. Percy está lá; na verdade, ele está sofrendo nas mãos da Maureen há muito tempo e ele é praticamente um irmão para mim. Eu não estou tranqüilo, mas eu confio no John e nos outros porque eu sei que eles se importam com esse tipo de coisa.

- Bom, e se o John e os outros não conseguirem? E se acabarmos todos mortos? E se a minha mãe estiver certa e eu tiver cometido um erro ao desistir da imortalidade? Você se dá conta de que isso tudo será culpa sua, não é?

- Como é que é? Minha culpa?! Por que? – eu quase ri de tanta indignação.

- Porque foi você quem me convenceu a interromper o processo de imortalidade.

- Hannah, você precisa parar de descontar todos os seus problemas em mim! – aquilo foi a gota d'água. – Eu agüentei todo o seu desprezo, o seu mau humor e as suas frescuras todos esses dias, mas agora chega! Um monte de coisas ruins aconteceram com você, é verdade, mas eu não provoquei nenhuma delas; cada coisa que eu fiz foi para tentar proteger você.

- Para me proteger? Você me subestimou! Mentiu para mim para me afastar de uma missão por achar que eu era fraca demais! Você não tinha esse direito! Maureen matou o meu pai e depois tentou me matar; como eu poderia deixar que outras pessoas resolvessem isso para mim?!

- Você está me condenando por ter feito a mesma coisa que o seu pai fez: ele quis mantê-la longe do acampamento para proteger você, porque ele não queria que você sofresse.

- Isso se aplica à Eve também? – Hannah não se comoveu nem um pouco com o que eu disse. – Acho que não, porque você a obrigou a ficar lá me protegendo a todo custo e agora ela está...Ninguém sabe o que aconteceu com ela! Ela ainda estaria aqui se não fosse por você!

- Ótimo. Já são dois crimes. Qual o próximo, Hannah? A morte do traíra do Grant?

- Ele me protegeu! E encontrou uma maneira de fazer isso sem precisar deixar ninguém em perigo!

- Claro que sim; ele é um anjo! – falei com sarcasmo.

- Pare com isso! - Hannah me empurrou com força.

- Só quando você deixar de ser tão mal agradecida. – eu segurei os braços dela antes que ela me batesse.

- Eu nunca pedi para você fazer nada por mim!

- Eu sei, mas eu procuro ajudar as pessoas de quem eu gosto; e eu sou um ser humano e seres humanos cometem erros. Se você não entende isso, eu sinto muito. Mas a partir de agora eu não vou mais tentar ajudar você. Cansei de ser o seu saco de pancadas!

Eu saí da sala e bati a porta atrás de mim, deixando Hannah sozinha no escuro.

Não sei como eu fui parar ali, mas quando dei por mim eu estava sentado na arena do Acampamento Meio-Sangue. E Eve estava ao meu lado.

Parecia um dia comum e tranqüilo no acampamento. Estava quente e dava para sentir o cheiro dos morangos praticamente assando debaixo daquele sol. Alguns campistas estavam lutando na arena e outros simplesmente passeando ao redor.

- Você foi muito idiota, Nico. Muito idiota mesmo. – Eve falou como se estivesse continuando uma conversa.

Eu ainda estava sem entender o que estava acontecendo, então não disse nada.

- Sabe, você é um cara inteligente. E não é aquele tipo de inteligência entediante dos filhos de Atena; é uma inteligência maneira. Mas quando tem Hannah na história você se transforma num completo idiota. Você não faz nada direito.

- Eve, o que aconteceu com você? Você está bem? Como eu vim parar aqui? – eu tropecei na palavras enquanto a sacudia pelos ombros.

- Agora você ficou maluco de vez! – ela afastou as minhas mãos. – Sério, Nico, agora o que você precisa fazer é se focar; se você ficar todo nervoso vai colocar tudo a perder. Se preocupe apenas com o que você pode fazer; deixe o resto para os outros.

- Do que você está falando? Isso é um sonho? Uma mensagem? O quê?

Eve bufou.

- Que saco! Olha, deixe tudo comigo. Eu vou resolver esse probleminha para você. – ela deu tapinhas nas minhas costas.

- Eve, me escuta! Eu preciso saber o que aconteceu com você! Onde você está?

Algo fez com que eu sacudisse para os lados e de repente eu não estava mais com Eve no acampamento. Eu estava dentro de uma van. Hector se levantou do banco da frente e veio até onde eu estava.

- Ei, está tudo bem? – ele perguntou enquanto se sentava ao meu lado.

- Eu...não sei. – minha cabeça doía. Aos poucos fui compreendendo o que tinha acontecido: eu havia pegado no sono, e despertei quando a van passou por cima de um buraco fazendo com que eu batesse a cabeça na janela.

- Você estava sonhando. E falando. – eu o encarei, meio envergonhado. – Achei ter ouvido "Eve".

- Eu estava sonhando com ela.

Hector sempre parecia estar no controle da situação. Ele quase nunca se desesperava, gritava ou exagerava em expressar qualquer emoção. Mas naquele momento ele pareceu se desarmar. Sua expressão ficou dolorida.

- É terrível que você esteja prestes a encarar o que está por vir sem ter notícias dela. Como você está se sentindo?

- Preocupado com todos vocês e com o destino do Olimpo. Eu não tenho medo de morrer.

- Nico, eu acabei de dizer isso à Hannah e vou dizer a você também: eu não vou deixar que Maureen faça mal a vocês. Essa ainda é a nossa missão e nós vamos completá-la e voltar para o acampamento juntos. Grant nos traiu e Eve desapareceu; eu não vou perder mais ninguém.

- Valeu, Hector... Podemos tirar alguma coisa boa dessa missão: se nada disso tivesse acontecido, nós dois provavelmente nunca teríamos nos tornado amigos.

- Para com isso. Não é uma despedida. – ele parecia estar tentando convencer mais a si mesmo do que a mim.

- Não vamos mais falar sobre isso. – eu precisava deixar o clima mais leve antes que eu perdesse o controle sobre o nó na minha garganta.

- Certo. – Hector conseguiu sorrir. – O que foi aquilo na escola? Disseram que você e Hannah partiram para a agressão física.

Olhei preocupado para o banco da frente da van, mas Hannah estava dormindo.

- Claro que não. Quero dizer, ela me empurrou, mas foi só isso. Quem disse isso?

- Sei lá, estavam comentando. Mas, se teve mesmo um empurrão, então a briga foi mesmo feia.

Eu dei de ombros.

- Eu não disse nenhuma mentira. E eu estava cheio dela...Ah, deixa pra lá. – a lembrança daquela discussão trouxe de volta toda a raiva que eu senti na hora.

- Você fez a coisa certa.

- Então...você não acha que eu sou um...como foi que aquelas meninas falaram? "Um grosseirão"?

- Não. Acho que já estava mais do que na hora de você reagir. Você não podia continuar deixando Hannah te maltratar daquele jeito.

- Sabe, há algum tempo atrás a idéia de fazer uma coisa assim com ela me pareceria completamente absurda. Mas, desde que eu a reencontrei...ela não parece mais a mesma pessoa. Eu não a reconheço mais, a verdade é essa.

- Ela pensa a mesma coisa de você.

- Como ela pode achar isso? Eu sou exatamente a mesma pessoa de sempre.

- Não é. Todos nós mudamos por causa de tudo que vem acontecendo e isso pode não ser bom.

- Como assim?

- Eu tenho medo de que a gente esqueça do que é mais importante quando as coisas ficarem complicadas.