M
aureen já tinha tudo preparado para a nossa chegada. Nós éramos os únicos nos aproximando dos limites de Nova York; todos os outros carros estavam deixando a cidade, causando um engarrafamento incomum. Quando entramos na cidade, não se via mais nenhum carro. E também não se via nenhuma pessoa. Todas as lojas e restaurantes estavam fechados. Até os apartamentos pareciam desocupados.Avistamos Maureen antes mesmo de chegarmos ao Empire State Building. Havia uma espécie de palco montado no meio da rua 33. Raphael Young, Karen Leroy, Allan Morgan e vários dos seus outros asseclas estavam por ali. Perto dela, dois garotos continham Peter. Nós paramos a van a alguns metros deles e descemos. Maureen quase sorriu quando viu Hannah e eu, mas ficou furiosa ao ver John.
- O que isso significa? – ela rosnou e um dos dois garotos que estavam segurando Peter apontou sua espada para o pescoço dele.
Hannah ia avançar em cima deles, mas Hector a impediu.
- Não significa nada, Maureen. Eu e Hector só viemos buscar o irmão de Hannah. – disse John.
- Ainda não. – ela estava desconfiadíssima. – Só quando eu conseguir o que eu quero.
- O acordo era que nós devíamos vir até aqui. Liberte o Peter agora! – Hannah exigiu.
- Tudo bem. Mas tem uma condição: só o Madison pode ir embora; você vai ficar aqui Nelson, só para eu ter certeza de que você não vai desonrar o nosso acordo.
- Eu fico. – John estava excessivamente calmo, o que só podia significar duas coisas: ou ele tinha um plano infalível para nos tirar daquela ou ele estava rezando para os deuses nos ajudarem. - Agora deixe o garoto ir.
- Vocês dois: - Maureen apontou para mim e para Hannah. – vão até ali. – indicou o palco.
Peter começou a se debater para escapar; parecia estar tentando nos alertar sobre algo, mas os guardas ficavam tapando a boca dele.
- Me deixem falar com ela! – Peter conseguiu empurrar os dois caras e correu até Hannah. Eles se abraçaram. – Hannah! O que você pensa que está fazendo?!
- Peter, eu...
- Você não pode se sacrificar! Não pode ceder à chantagem dessa garota!
- Eu não tenho escolha, Peter.
- Tem sim! Você acha que o mundo vai sobreviver se ela levar essa maluquice adiante? Não vai. Você precisa detê-la!
- Eu não vou conseguir fazer nada se eu perder você... – ela acariciou o rosto dele. – Sinto muito que tenha que passar por isso. – ela deu mais um abraço nele e foi andando até o palco sem olhar para trás.
Ele me encarou como se quisesse que eu fizesse algo para impedi-la, mas eu não podia fazer nada, então só continuei andando. Hector veio e conduziu Peter até a van. Vê-lo se arrastar até lá com os olhos cheios de lágrimas enquanto encarava Hannah foi uma das coisas mais terríveis que eu já presenciei.
Subi no palco esperando ser engolido por alguma armadilha, mas passei alguns segundos só pisando com cuidado em volta sem que nada acontecesse. Estava ficando mais frio e, quando estava gelado de verdade, eu entendi o que estava acontecendo: correntes invisíveis haviam envolvido eu e Hannah aos poucos, até que nós nos encontrávamos imobilizados de pé no meio do palco. Elas só se tornaram visíveis quando já estavam bem apertadas em torno de nós; eram grossas e feitas de bronze. Mas elas não foram as únicas coisas a ficarem visíveis; quando eu olhei para a minha esquerda para checar Hannah, eu vi mais duas pessoas ao lado dela: Percy e Thalia. Os dois também estavam acorrentados, mas eu francamente não sabia porque isso era necessário: cada centímetro do corpo deles estava machucado, suas roupas estavam esfarrapadas, Thalia parecia desorientada e Percy estava completamente apagado; eles não pareciam ter forças para ir a lugar algum.
- O que é isso?! – John nos encarou boquiaberto.
- Uma Dádiva. As correntes absorvem a energia deles. – Raphael explicou, satisfeito.
Não sei se a Dádiva já estava funcionando antes, mas, quando Raphael falou, eu imediatamente me senti tonto.
- Mas isso é... – eu podia ver o quanto assistir àquilo deixava John furioso; ele cerrou os punhos como forma de se controlar para não agir. – Maureen, o que você fez com as pessoas da cidade?!
- Eu convenci todas elas a visitar seus parentes mais distantes. – ela mostrou a ele uma flauta negra com detalhes dourados: a Dádiva de Julia Hawkins. – Você achou mesmo que eu ia expor os mortais à fonte gigantesca de poder que vai se instalar bem aqui daqui a pouco?
John não respondeu. Ele suspirou, nervoso.
- Percy? Percy! – Hannah lutava para se libertar das correntes enquanto chamava por Percy, chorando.
Eu não podia dizer a ela, mas eu mal conseguia enxergar a aura de vida dele naquele momento: Percy estava perigosamente perto da morte. Thalia olhou para ele, desolada.
- Eu não acho que ele vá acordar... – uma lágrima solitária escorreu pela sua bochecha.
- Não, Percy! Você precisa reagir!
Eu havia me esquecido disto, mas foi Percy quem levou Hannah para o acampamento pela primeira vez. Ele, Tobey e um grupo foram até o Texas para averiguar o que tinha feito um gigante atacar uma família. Quando chegaram lá, encontraram apenas o corpo do pai de Hannah e já estavam indo embora quando ouviram ela gritar por socorro debaixo dos escombros. Percy a tirou de lá, cuidou dela no caminho de volta para o acampamento e não saiu de perto dela na enfermaria até que ela estivesse melhor. Eu me lembro que Hannah chorou durante vários dias, não conseguia aceitar o que havia acontecido e se sentia muito confusa com tudo ali no acampamento.
Pensar nisso me colocou em uma espécie de transe, provavelmente também era um efeito daquelas correntes, e eu de certa forma voltei ao passado, para um dia em que eu estava passando por perto da enfermaria e Percy me viu da janela e me chamou.
- Hannah, esse aqui é o Nico. Ele é filho de Hades. É o único aqui no acampamento. – ele falou assim que eu entrei.
- Oi, Nico. – ela já estava lá há mais de dez dias e por isso já havia se acalmado. Mas sua voz ainda estava rouca por causa de todo o choro dos últimos dias. Apesar de tudo, ela conseguiu sorrir um pouco quando me cumprimentou.
- Oi. – eu tinha treze anos naquela época; ainda era tão criança que levei alguns anos para entender porque o meu coração bateu de um jeito esquisito quando ela sorriu para mim.
- Eu preciso resolver uma coisa, Hannah, mas o Nico pode te contar como é essa coisa de ter um chalé só para você. Acho que ser filha de Hera não é tão diferente de ser um filho de Hades. Vocês dois vão ter muito o que conversar. – Percy saiu da enfermaria me deixando cara a cara com Hannah e foi nesse dia que eu acabei me tornando amigo dela.
Aos poucos, Hannah foi fazendo amizade com outras pessoas e ficou menos dependente de Percy, mas ela sempre teve um carinho muito grande por ele. Não era de se surpreender que ela estivesse tão desesperada diante do estado em que ele se encontrava.
- Por que está fazendo isso com eles? – John perguntou à Maureen, me despertando do meu transe.
- Eu tive bastante tempo para fazer o ritual de transferência com o filho de Poseidon e com a filha de Zeus, mas os seus amigos invasores me obrigaram a agir imediatamente, então eu precisei usar um meio mais rápido de tomar os poderes do filho de Hades e da filha de Hera.
- Isso vai matá-los? – John parecia estar a ponto de explodir.
- Muito em breve.
Meus joelhos estavam quase cedendo; eu não sabia por quanto tempo mais eu ia agüentar ficar de pé. Hannah estava de cabeça baixa e parecia prestes a desabar a qualquer momento. Enquanto isso, aliados de Maureen surgiam de vários pontos da cidade carregando grandes sacos. Só descobri o que havia dentro deles quando um dos semideuses deixou o seu cair e um monte de itens mágicos rolou pelo asfalto: Dádivas.
Um trovão ribombou no céu. Olhei para o topo do Empire State Building e nuvens acinzentadas se aglomeravam como se quisessem proteger o Olimpo do ataque iminente.
Estava começando.
Hannah e eu caímos de joelhos no chão quase ao mesmo tempo. Minha cabeça parecia girar e minha visão estava turva. Quanto tempo de vida eu ainda tinha? E será que ela ia mesmo acabar daquela maneira? Com um sacrifício que não ia salvar ninguém, pelo contrário, ia destruir toda a humanidade? Eu ia falar com Hannah; nós iríamos morrer mesmo, qualquer que fosse o motivo da nossa briga não fazia mais sentido continuar daquele jeito. Mas Hannah estava olhando para o céu e murmurando alguma coisa, provavelmente rezando. O único deus que se importava minimamente comigo não estava no Olimpo, então eu olhei para o chão e pedi em voz baixa: "Por favor, pai, se você puder ajudar mais essa vez...".
Quatro aliados de Maureen se posicionaram em frente a mim, Percy, Hannah e Thalia. Eram eles que iriam tomar o nosso lugar quando morrêssemos.
- Maureen, eu preciso implorar a você mais uma vez que desista disso. – o tom de John era urgente. – Pense no quanto isso é vergonhoso para o nome da nossa mãe; não foi para fazer esse tipo de coisa que ela nos abençoou com a sabedoria.
- E para quê foi?
- Somos guerreiros, mas devemos trazer justiça às batalhas. E essa batalha que você está prestes a travar não é justa, Maureen.
- Cala a boca, John! – Maureen perdeu a paciência. – Nada que você diga vai me fazer voltar atrás! Eu vou criar a Era da Justiça e você vai se arrepender por não ter me ajudado a construí-la!
- Não, eu não vou! – John sacou sua espada e investiu contra Maureen.
Ela tomou um susto, mas conseguiu se esquivar dos primeiros ataques e depois o atacou com sua própria espada. Eu não sabia o que John estava pensando, aquilo não parecia um plano infalível. Na verdade, parecia que ele estava prestes a pôr tudo a perder. Raphael Young se juntou à Maureen e os dois conseguiram derrubar John em pouco tempo: ela abriu um talho em seu joelho, obrigando-o a se curvar, e Young bateu na cabeça dele com o cabo da espada. John caiu de costas no chão e sua espada voou para a entrada do Empire State Building; Maureen apontou a espada para o peito dele.
- Eu estou tão cansada de ter que lidar com você... – ela o encarou, séria. – Poupei sua vida quando você estava preso na esperança de que você fosse mudar de idéia, mas parece que você é exatamente o que todos dizem: um medroso. Mas agora, John, eu não me importo mais com o fato de você ser meu irmão. Você se tornou apenas um empecilho e eu vou dar a você o mesmo tratamento que dei a todos os empecilhos que apareceram... – ela recuou a espada para intensificar o ataque. – Aproveite o mundo inferior! – Maureen investiu com toda a força e John fechou os olhos.
- NÃO! – mas o ataque nunca se concretizou, porque a lâmina de Karen Leroy o interceptou.
Eu procurei em volta, olhei para o rosto de cada pessoa na rua 33 em busca de alguém que não parecesse surpreso com o fato de Karen Leroy ter se colocado entre John e Maureen. Mas eu não sabia dizer quem estava mais estupefato com aquela cena: John, Maureen, Raphael, Hannah ou eu.
- Karen...?! – Raphael balbuciou.
Não posso dizer que ela tinha tomado aquela decisão com facilidade. Sua expressão era de puro medo e lágrimas caiam dos seus olhos. Mas ela encarava Maureen com determinação.
- Então era você! – Maureen tremia de raiva. – Você o ajudou a escapar da prisão! Você deu a ele informações sobre a organização! Você nos traiu!
Ouvi Hannah arfar do meu lado. Se para mim era difícil acreditar que aquela garota que fez uma emboscada para nós e depois quase matou Hannah estava do nosso lado, imagine para ela.
- Sim, Maureen. – John se levantou com dificuldade. – Você não era a única a ter um agente duplo muito bem infiltrado.
- Não dá para acreditar... – Raphael continuava olhando para Karen que nem um idiota.
- Eu devia ter imaginado. Você sempre foi uma grande chorona. – Maureen debochou.
- Não sou mais. – Karen garantiu. – Meus motivos para chorar acabaram. – e sorriu para John. Ele sorriu de volta e os dois investiram contra Maureen e Raphael.
Karen e Maureen eram lutadoras bastante rápidas e a luta delas era quase impossível de se acompanhar. John fazia o possível para não dar espaço para Raphael usar seus poderes, e isso logo o deixaria exausto. Assistindo aquilo eu tive a certeza absoluta de que John não tinha um plano; acho que ele ia esperar um milagre acontecer, mas a conversa com Maureen o fez perder o controle. Ele e Karen estavam conseguindo se virar só porque Maureen não permitiu que os outros semideuses ajudassem, ela queria que eles dessem continuidade ao plano; mas os dois não iam vencer sozinhos.
Infelizmente, John se cansou cedo demais e Raphael assumiu o controle da situação. O asfalto se transformou em afiados arpões que não atingiram em cheio Karen e John por pouco, mas os deixou repletos de arranhões, além de atordoados o bastante para que fossem encurralados.
- Acabe com eles, Young. – ordenou Maureen, enquanto se recompunha.
- Eu fico com o Nelson e você com ela?
- Não, os dois. Eu tenho mais o que fazer.
- Mas... – Raphael olhou hesitante para Karen.
Maureen entendeu o que estava acontecendo.
- Ela nos traiu, Young! – ela bateu nele. – Não seja estúpido, acabe logo com ela!
Raphael ficou pensativo por alguns instantes, depois sacudiu a cabeça e olhou para Karen, decidido. Hannah desmaiou. Eu era o único dos quatro que continuava acordado, mas eu já estava perdendo a consciência. "Acabou", eu pensei.
- ATAQUEM, ZUMBIS!
Uma voz muito familiar gritou. Primeiro eu achei que estava só tendo uma alucinação pré-morte, mas Hannah despertou e arregalou os olhos.
- Eve...? – ela piscou, confusa.
Se aquilo havia soado estranho para Hannah também, então não podia ser só uma alucinação minha. Eu fiz todo o esforço do mundo para conseguir virar o pescoço o suficiente para ver o que estava acontecendo atrás de mim. E, quando meus olhos entraram em foco, eu comecei a repetir na minha mente sem parar "Obrigado, pai! Obrigado, pai! Obrigado, pai!".
Havia um exército de aproximadamente cento e cinquenta guerreiros mortos ocupando a rua 33. E Eve estava bem viva liderando todos eles. Os aliados de Maureen que estavam em frente ao palco entraram em pânico e correram quando os mortos vieram na direção deles. Alguns até tentaram usar as Dádivas para se defender, mas foi tudo tão rápido que eles acabaram se atrapalhando e não conseguiram.
Quando o choque inicial passou para Maureen e Raphael, já era tarde demais. John e Karen já haviam corrido na nossa direção e estavam fora de alcance para qualquer ataque. Maureen não teve escolha a não ser reunir os seus asseclas e fugir dali usando o lençol negro de Klaus.
Eve subiu no palco e cortou as nossas correntes com sua espada. A sensação foi de ser envolvido por um monte de cobertores depois de caminhar pelo pólo norte. Mas eu estava tão fraco que só consegui ficar esparramado no chão enquanto Eve dava um pouco de Néctar para Thalia, Percy, Hannah e por último para mim.
- Você está viva! – eu ri de tanta euforia, provavelmente causada pelo excesso de Néctar.
- Eu disse que viria ajudar você, não disse? – ela se jogou em cima de mim, rindo também.
- Disse mesmo, mas...Espere um pouco. Então aquilo não foi um sonho?
- Não, eu estava mesmo falando com você. É uma longa história, eu...
- Eve! – Hannah se recuperou mais rápido do que eu e se levantou para abraçar Eve. E, para variar, ela começou a chorar. – Você quase me matou de tanta preocupação!
- Awn, me desculpem pelo desaparecimento. Prometo que vou explicar tudo a vocês.
- Pessoal, precisamos sair daqui! – John subiu no palco, todo nervoso. – Me ajudem a levar Percy e Thalia para um lugar seguro.
Nós carregamos os dois até o Plaza. Entrar ali depois de quase cinco anos desde a guerra contra Cronos me provocou calafrios. Da última vez em que estive ali havia semideuses mortos cobertos por mortalhas no saguão e os quartos estavam sendo ocupados pelos feridos. Alguma coisa me dizia que eu ia ter uma espécie de dèjavu em breve.
- Acho que vocês podem dar mais um pouco de comida dos deuses para eles. – disse John quando colocamos Percy e Thalia nas camas. – Eu preciso mandar umas mensagens urgentes. Volto logo. – e ele e Karen saíram.
Enquanto cuidávamos dos ferimentos, Eve nos contou a sua história:
- Depois que você partiu, Nico, as coisas ficaram muito complicadas no acampamento: as ameaças à Hannah, os espiões, nossos guerreiros morrendo...Eu simplesmente sabia que o acampamento estava vulnerável e não ia resistir a nenhum ataque. Então eu pedi ajuda à minha mãe. Todos os dias eu rezava para que ela me desse algo que me deixasse mais forte; uma Dádiva, para ser mais exata. Pedi durante muito tempo, mas não aconteceu nada até o dia em que o Allan atacou Hannah.
- Você foi engolida pela terra. – eu disse.
- Algo assim. Eu fui sugada para o mundo inferior. – ela falou aquilo tão calma como se tivesse dito "Eu fui ao cinema".
- O quê?
- A minha mãe falou com o seu pai e pediu a ele que me deixasse ser treinada ali. Ele acabou concordando, depois de uma certa insistência, e a minha mãe me deu a benção dela para que eu entrasse no rio Estige.
- No rio Estige?! Então isso quer dizer que você tem...
- Eu tenho a marca de Aquiles.
- Então você é tipo...imortal? – Hannah parecia prestes a surtar.
- Bem, não exatamente. Eu sou invencível nas batalhas, a menos que alguém acerte o meu ponto fraco.
Hannah suspirou e não disse mais nada. Eu também fiquei repentinamente interessado nos meus tênis.
- Ei, que reação patética é essa?! – Eve ficou com raiva.
Eu e Hannah nos encaramos tentando decidir quem ia falar e acabou sobrando para mim.
- É que isso é algo...perigoso, Eve. Você está, de uma certa forma, mais vulnerável do que o restante de nós.
- Eu sei, Aquiles me alertou. Mas eu fiz a minha escolha, assim como vocês dois também fizeram a de vocês. Estamos em guerra, caras! Somos obrigados a fazer escolhas difíceis e vocês sabem disso melhor do que ninguém.
- Tudo bem, Eve. – Hannah terminou de fazer os curativos de Percy e foi até onde Eve estava. – Só me prometa uma coisa: - ela olhou nos olhos dela. – nunca mais arrisque sua vida por minha causa.
Eve esbanjou um sorriso travesso.
- Não posso prometer uma coisa assim.
Hannah revirou os olhos, mas sorriu também.
- E depois o que aconteceu, Eve? Você ficou treinando no mundo inferior? – eu perguntei.
- Ah, sim. O seu pai é um ótimo treinador.
- O meu pai?!
- Ele me ajudou nos treinos algumas vezes, mas na maioria das vezes eu lutei com os guerreiros mortos.
- Acho que agora tudo está fazendo sentido...
- Como assim?
- Eu sonhei com você, Eve. Várias vezes. Eram sonhos estranhos e eu nunca entendi bem o que eles estavam mostrando, mas agora faz sentido: eu via você lutando contra um exército e outras vezes só com o meu pai; também vi você na margem do rio Estige.
- É, bem, eu não estava exatamente consciente durante o tempo que passei no mundo inferior; então você deve ter mais lembranças minhas do que eu.
- Como você não estava consciente?
- Eu não sei. Eu me lembro dos treinamentos, mas não lembro onde eu dormi, por exemplo. Foi como se eu só tivesse acordado quase agora; a única coisa que eu lembro perfeitamente é que o seu pai ordenou que eu viesse até Nova York para ajudar você. Ele permitiu que eu me comunicasse com você.
- Aquele sonho?
- Não era um sonho. O seu pai trouxe a sua consciência até o mundo inferior.
- Até o mundo inferior? Mas nós estávamos na arena do acampamento.
- Não, nós estávamos na margem do rio Lete. Talvez ele tenha trazido alguma lembrança à tona e isso alterou a mensagem.
Antes que tudo aquilo me deixasse mais atordoado, John estava de volta.
- Já mandei mensagens para a nossa base e para o acampamento. Todos virão para cá, mas nós vamos ter que agir enquanto Maureen está acuada. Acredito que ela vai voltar para cá em menos de dois dias; é só o tempo de ela montar uma nova estratégia.
- E ela vai voltar com todo o exército e as Dádivas. – disse Karen. – O que significa que a base principal não vai ter mais utilidade nenhuma, vai ser destruída.
- Os prisioneiros! – eu lembrei.
- Exatamente. Não podemos perder tempo. Você, Karen, Hannah e Eve devem ir até a base para libertar os prisioneiros. Eu vou ficar aqui para receber os outros. – disse John.
- Onde fica a base?
- No lençol negro.
- Dentro da Dádiva? – Eve estranhou.
- O esconderijo perfeito: impossível de ser encontrado e só há uma maneira de entrar e sair. Nosso grupo de busca o encontrou por acidente.
- Você disse que só há uma maneira de entrar e sair de lá. – falei. – Se o lençol negro está com Maureen, como vamos fazer isso?
- Maureen não é a dona do lençol negro; Klaus é. – Karen explicou.
- Então ele também está do nosso lado? Tem certeza?
- Eu tenho, mas vamos torcer para que Maureen não tenha.
- Klaus estará aqui daqui a pouco. Tem armas e suprimentos no saguão. Melhor se prepararem para qualquer situação.
Começamos a nos levantar para ir embora, mas Hannah permaneceu sentada na beira da cama de Percy e disse:
- Eu não vou a lugar algum com ela! – e olhou para Karen de forma acusadora.
- Hannah, eu sei que isso deve ser difícil para você por causa do que aconteceu no passado, mas você pode confiar na Karen agora. – disse John.
- Eu não acho que possa.
- Nenhum de nós está à vontade com essa situação, Hannah, mas não temos escolha; Karen conhece a base e nós vamos precisar de um guia. – eu disse.
- E o que te faz pensar que ela não vai nos matar assim que chegarmos lá?
- Olha, nós não temos tempo para ficar discutindo. O que eu preciso fazer para você confiar em mim, Hannah? – Karen perguntou.
- Pode começar explicando por que você faria isso – Hannah virou Percy de lado e nos mostrou as costas dele. – se está do nosso lado.
Por cima da escápula direita, Percy tinha uma ferida vermelha e pulsante do tamanho de uma mão espalmada. Aquela era muito mais horrenda do que a que Hannah teve.
- Eu não fiz isso. – Karen falou com calma, mas sua expressão era de dor.
- Ah, não? Pois se parece um bocado com a sua outra obra de arte. – eu rebati.
- Isso foi feito pela minha Dádiva, mas não fui quem fiz e também não foi por ordem minha.
Eu, Hannah e Eve a encaramos, incrédulos, mas John não parecia nem um pouco desconfiado dela.
- Maureen não confia em ninguém. Há algum tempo ela recolheu todas as nossas Dádivas e nós só podíamos usá-las sob a supervisão dela. Foi a maneira que ela encontrou de sair ganhando mesmo que um de nós a traísse.
- Então você está dizendo que foi ela quem fez isso com Percy? – Hannah quis saber.
- Sempre esteve nos planos dela usar um dos filhos dos Três Grandes para destruir o Olimpo. Você seria a melhor opção, - ela me disse. – mas acho que ela se desesperou e precisou recorrer ao filho de Poseidon. Eu não a vi fazendo isso e não sei quando ela fez, mas... – ela olhou para a ferida. – Agora nós temos motivos para ficarmos preocupados.
- Ele vai se transformar em um monstro? Ou esse coisa está apenas sugando a energia dele? – Hannah perguntou. – Porque, se for o segundo caso, a Dádiva do Hector pode acabar com isso.
Karen verificou a temperatura dele.
- Não acho que seja o segundo caso... – disse, com pesar.
- E, mesmo se fosse, a Dádiva do Hector não poderia nos ajudar. – lembrei.
- Por que não? – perguntou Hannah.
- Ele a perdeu. Quando invadimos o Banco das Dádivas.
Ela escondeu o rosto nas mãos, em desespero.
- Alguma idéia, John? Por favor, diga que tem. – eu implorei.
- Tenho algumas idéias; vou ficar pensando nisso, eu prometo. Mas agora vocês precisam ir.
Hannah deu um beijo de despedida na testa de Percy. Eu ocupei o lugar dela quando ela saiu e disse a ele:
- Cara...Agüente firme. Nós vamos dar um jeito de tirar você dessa.
