K

laus surgiu atrás de nós sem fazer o menor barulho. Nós havíamos acabado de sair do Plaza quando uma voz perguntou:

- Vocês estão prontos?

- Estamos. – Karen respondeu. - Como estão as coisas por lá?

- Um verdadeiro caos. Mas isso vai ser uma vantagem para nós. – ele sacou o lençol negro. – Vocês três: - ele olhou para mim, Hannah e Eve. – sigam o plano. – e jogou o lençol por cima de nós.

A viagem não foi tão turbulenta; acho que eu já estava me acostumando com aquelas viagens usando a Dádiva do Klaus. Estava esperando por uma aterrissagem leve, mas eu senti que havia sido imprensado em uma lata de sardinhas. De repente estávamos praticamente grudados uns nos outros.

- Isso é um armário de vassouras?! Klaus, que idéia foi essa?! – Karen reclamou enquanto lutava por um pouco de espaço.

- Desculpe, mas eu achei que só viria uma pessoa com você e não três. Esse foi o lugar mais discreto e isolado que eu encontrei e não dava para mudar o plano de última hora.

- Cara, tanto faz. – eu arfei porque Eve estava apertando minhas costelas com o cotovelo. - Eu consigo alcançar o trinco da porta; será que dá para eu abri-la agora mesmo?

- Abra logo! – Eve grunhiu, frustrada. Por ser a mais baixa, era quem mais estava sofrendo.

Eu abri e todos nós saímos tentando absorver o máximo de oxigênio possível. Reconheci aquele lugar imediatamente: as paredes de pedra, os corredores largos e o teto alto; eu já havia sonhado com aquele lugar.

- Então esta é a base principal? – perguntei.

- Sim. – confirmou Karen.

- Parece um castelo. – Hannah observou.

- É um castelo. Uma réplica de algum famoso castelo medieval. Maureen escolheu por causa da arquitetura.

- Sem conversa. Precisamos ser rápidos. – disse Klaus e disparou na nossa frente.

Nós corremos para alcançá-lo, mas esbarramos porque ele parou de repente no final do corredor.

- Amadores. – Karen explicou quando ele nos olhou com cara feia. – Isso aqui não está abandonado, pode aparecer alguém a qualquer momento e nós não podemos ser vistos. Garota, - ela falou com Hannah. – mantenha os dardos a postos; vamos precisar deles ao longo do caminho.

Hannah abriu a mochila, pegou alguns dardos com sonífero que John deu a ela e prendeu o dispositivo de atirar dardos no braço. Klaus verificou se havia alguém no corredor transversal e sinalizou para nós apontando a direção com um dedo. Seguimos em fila, rápidos, mas cautelosos. Passamos por arsenais enormes e salas cheias de mapas e fotos. De vez em quando precisávamos entrar correndo em alguma sala porque havia guardas se aproximando. Outras vezes não dava tempo para nos escondermos e Hannah entrava em ação, apagando quem cruzasse o nosso caminho. Como Klaus havia dito, a base estava um verdadeiro caos: semideuses corriam de um lado para o outro recolhendo tudo que fosse importante e gritando ordens. Em um trecho mais tranqüilo, Karen olhou de um jeito esquisito para Hannah e comentou:

- Achei que você fosse surda.

Hannah a encarou como se estivesse prestes a socá-la na cara, mas apenas disse:

- Não sou mais.

- Hum...Deixa eu adivinhar: sua mamãe te curou. – eu estava convivendo com Karen há poucas horas, mas eu já havia percebido que ela não tinha a intenção de ser grosseira, aquele era o jeito dela.

- Você devia tomar cuidado com o que fala, Karen. A gente ainda não esqueceu que você costumava ser assecla da Maureen. – disse Hannah.

- É. O que fez você mudar de lado, afinal? – Eve quis saber.

- O amor. – Klaus respondeu, tentando conter o riso.

- Cala a boca, Klaus. – Karen ficou toda vermelha e sem jeito.

- Amor?! – Eve e Hannah exclamaram em uníssono.

Eu não sei qual é o problema das garotas. Por que a simples menção de palavras como "amor", "namoro" ou "casamento" faz com elas fiquem histéricas?

- Então vocês não perceberam? – Klaus riu. – Você realmente é muito discreta, irmãzinha.

- Ai, meus deuses! Você largou a organização por causa de um cara?! – parecia que Hannah ia derreter a qualquer momento.

- Estamos em uma missão arriscada e vocês vão estragar tudo se não calarem a boca agora mesmo. – Karen nem mesmo olhava para nós. Ela andava depressa, mas as meninas ficavam na cola dela.

- É melhor você contar a elas; não está parecendo que elas vão desistir. – disse Klaus.

- Tudo bem... – Karen suspirou e passou a caminhar mais devagar. – Antes daquilo tudo em Boise, eu costumava trabalhar na base em International Falls. E lá eu era encarregada de cuidar dos prisioneiros. Eu só levava comida para eles e tentava conseguir algumas informações, mas aí... – ela sorriu levemente. – John acabou me convencendo a ajudá-lo.

- O John?! – foi a minha vez de ficar surpreso. – Então era você...Foi você quem o ajudou a escapar e também passou informações da organização para ele.

- Sim. – ela deu de ombros como se aquilo não fosse nada demais, mas aquilo era a prova de que Karen era sim uma garota muito legal.

- Puxa vida...O John Nelson! Eu nunca imaginei vocês dois juntos. – disse Eve.

- Por que? Fica estranho pelo fato de ele ser mais baixo do que eu?

- Não mesmo. Acho que vocês formam um casal extremamente fofo. – Hannah olhou para Karen com o respeito renovado.

- Concordo. Eu só imaginava que você tinha mudado de lado por causa do Hector. – Eve falou.

- O Hector? – Karen deu risada. – Essa coisa com o Hector foi há muito tempo atrás!

Ficamos tão distraídos com aquela conversa que só percebemos que havíamos chegado à prisão quando Klaus recuou bruscamente, esmagando nossos dedos dos pés.

- Droga...Maureen não se descuida nunca! – ele resmungou.

Estávamos diante da entrada da prisão. Havia uma grade bloqueando todo o corredor e quatro guardas vigiando. Depois da grade estavam as celas.

- Minha vez? – Hannah perguntou.

- Espere. Precisamos da senha para entrar e não sabemos qual é.

- Mas o sonífero dura menos de vinte minutos, os outros vão acordar a qualquer momento. Precisamos sair daqui logo.

- Ela tem razão. – disse Karen. – Apague os caras, Hannah. Como estão os seus poderes? – ela me perguntou.

- Isso depende do que você pretende.

- Transporte pelas sombras. Pode fazer isso?

- Klaus não pode nos levar lá para dentro? – Eve perguntou.

- Magia anti-Dádivas. Nós e nossos outros irmãos fizemos. – ele explicou.

- Que maravilha. Já fiz algo parecido em International Falls; mas quantos prisioneiros há aí?

- Vinte e seis. – disse Klaus.

Eu estremeci. Fazer algo daquela proporção podia me matar.

- Daniel Evans está lá?

- Está.

- Tudo bem. – aquilo me deu uma motivação repentina. – Eu vou tentar.

Ouvi o baque surdo do quarto guarda desmaiando. Hannah havia terminado o seu trabalho. Ela guardou o disparador de dardos e segurou a minha mão.

- Eu vou com você. Talvez juntos nós tenhamos mais chances.

Eu havia me esquecido daquela possibilidade, mas eu estava disposto a tentar qualquer coisa.

- Concentre-se no Daniel. – eu disse a ela. - Se tivermos sorte vamos parar dentro da cela dele.

Eu fechei meus olhos e deixei que as sombras me absorvessem. Eu não sabia se Hannah também havia herdado um pouco dessa habilidade de mim, mas ou eu estava mais forte ou ela também estava se transportando pelas sombras. De qualquer modo, não foi muito fácil; parecia que a magia anti-Dádivas dos filhos de Hécate também afetava os meus poderes. Quando eu senti o chão sob os meus pés outra vez, foi como se antes eu estivesse me afogando e finalmente tivesse conseguido alcançar a superfície. Hannah cambaleou e eu precisei segurá-la para que ela não caísse.

- Isso foi... – ela tremia e respirava profundamente. – horrível...

- Eu sei.

- É sempre assim?

- Não. Alguma coisa nos atrapalhou; quase ficamos presos para sempre nas sombras.

Ela me encarou abismada e estava prestes a dizer alguma coisa quando outra voz falou:

- Estou sonhando ou...vocês estão mesmo aqui?

Quando eu me virei para ver quem estava falando, achei que era eu quem estava sonhando, porque tanto tempo se passou que eu cheguei a pensar que nunca mais iria ver o Daniel.

- Daniel...! – o sorriso de Hannah se iluminou de um jeito que eu não via há meses. Ela praticamente se materializou ao lado dele e lhe deu um abração cheio de alegria. – Você está bem? Não está machucado? – ela ficou checando o rosto e os braços dele.

- Eu estou ótimo! – Daniel riu. – Melhor ainda agora que vi que vocês estão a salvo.

- Cara... – eu cortei as correntes que o prendiam. – Você quase acabou comigo, é sério. Pare de fazer essas maluquices, certo?

- Mas eu sou o maluco do Capture a bandeira, lembra? Se eu não fizer mais maluquices vou perder o meu título!

Hannah deu uma risada acompanhada de lágrimas e o abraçou outra vez. Por mais que aquela coisa de "abraço grupal" fosse totalmente esquisito, eu tive que me juntar a eles. Daniel não estava com a aparência de quem esteve sendo maltratado durante meses, mas mesmo assim estava absurdamente magro.

- Nico, eu preciso conversar com você sobre uma porção de coisas. – ele disse, se recompondo. – Mas antes precisamos tirar os outros daqui.

Olhei em volta: todas as celas necessitavam de uma senha para serem abertas, inclusive a em que nós nos encontrávamos presos.

- Como vamos fazer isso?

Daniel caminhou tranquilamente até a grade de sua cela, esticou o braço para o lado de fora e digitou a senha. A porta se abriu imediatamente.

- Mas é claro que você sabe a senha...Tem alguma coisa que você não saiba? – brinquei.

- Provavelmente não. Mas eu sei que um alarme acabou de ser disparado e Maureen já sabe que a prisão foi invadida. A senha é 2378. Abram todas as celas o mais rápido que puderem!

Nós três disparamos pelo corredor da prisão digitando a senha feito loucos e depois cortando as correntes dos prisioneiros. Não ia dar tempo. Mesmo que conseguíssemos libertar todos, Maureen e seu exército chegariam até nós antes que alcançássemos os portões e tudo iria por água abaixo.

- Daniel, abra o portão da frente! Precisamos deixar eles saírem logo!

- Não posso. Quando a prisão é invadida o portão só pode ser aberto com uma chave que só Maureen tem acesso.

- E como vamos sair daqui?!

- Do mesmo jeito que vocês chegaram? – pela primeira vez na vida, Daniel não havia parado para pensar em uma alternativa. Estávamos perdidos!

- Vamos morrer! Vamos todos morrer aqui! – uma das prisioneiras começou a chorar e os outros começaram a falar ao mesmo tempo, desesperados.

- Quietos! – Hannah gritou com tanta autoridade que todo mundo se calou.

Ela ficou parada olhando na direção do portão e depois disse:

- Eles estão aqui.

- Nico, depressa! Me ajude aqui! – Daniel correu para libertar os prisioneiros que faltavam.

- E Eve, Karen e Klaus? Será que foram vistos?! – entrei em pânico enquanto destruía correntes.

- Não... – Karen surgiu da escuridão no final do corredor. Seu cabelo estava todo arrepiado e chamuscado e suas roupas também pareciam ter sido queimadas em alguns lugares. – Mas foi por muito pouco.

Klaus e Eve vieram logo atrás dela. Eve estava bem, mas Klaus também parecia ter sido eletrocutado.

- O que houve com vocês? – se a situação não fosse tão séria, eu teria rido.

- Nós conseguimos desfazer a magia anti-Dádivas. Mas não foi tarefa fácil. – Klaus respondeu, tentando extinguir o resto de fumaça que saia da manga do seu casaco.

- Timing perfeito! Pessoal, juntem-se aqui! – Hannah reuniu os prisioneiros.

Klaus se posicionou para jogar o lençol negro sobre todos nós.

- Você não vem? – Eve perguntou a ele.

- Bom, eu... – ele parecia estar escolhendo as palavras. – Eu ainda tenho uma batalha para lutar.

- O que você quer dizer com isso?

- Eu fiz uma magia de conexão com a Maureen há alguns anos atrás. Por causa dessa magia, ela pôde criar esse castelo e mais outras coisas dentro da minha Dádiva; é como se ela também fosse a dona do lençol negro. Se eu for com vocês, eu não vou poder levar a Dádiva comigo e Maureen vai se tornar a única dona, e isso provavelmente vai garantir a vitória dela na batalha. Preciso ficar e tentar resolver essa situação.

- Sozinho?

- Não estou sozinho. Karen e eu não somos os únicos que mudaram de lado. Tenho um grupo que vai me ajudar.

Eve me olhou como se quisesse que eu o impedisse, mas Klaus precisava fazer isso.

- Boa sorte, então. – Hannah disse a ele.

Eve e eu fizemos o mesmo.

- Tome cuidado, está bem? – Karen estava se desmanchando em lágrimas. – E volte a tempo para a batalha. Eu não consigo fazer nada sem você... – ela o abraçou.

- Ei...Sem choradeira, Karen! Vai dar tudo certo, eu prometo. – ele sorriu de leve e deu um beijo na testa dela.

Depois ele jogou o lençol sobre nós e a última coisa que eu vi foi o portão da prisão sendo aberto violentamente.