E

m dias normais, se um grupo de 30 adolescentes surgisse do nada na frente do Plaza as pessoas iriam pirar e sair correndo. Mas a nossa chegada indiscreta causou um alvoroço positivo. Parte dos nossos reforços havia chegado durante o pouco tempo em que estivemos fora e já estavam reunidos em volta do balcão da recepção do hotel com um mapa de Nova York estendido. Quando chegamos, eles pararam o que estavam fazendo e vieram correndo na nossa direção. Amigos e irmãos se reencontravam emocionados; eu conhecia a história de alguns daqueles prisioneiros: atacados quando voltavam da escola, capturados durante uma missão ou descobertos como agentes duplos. Mas nem todo mundo ficou feliz: alguns começaram a chorar quando não encontraram quem estavam esperando.

- Ele ficou lá? - John perguntou enquanto abraçava Karen. Ela apenas assentiu. Depois de ter dito algumas coisas para acalmá-la, ele veio conversar com a gente. - Vocês conseguiram libertar todos eles?

- Todos os que estavam na prisão. - eu respondi. – Por que? Havia mais prisioneiros em outro lugar?

- Não. Mas nove semideuses não estão aqui...Maureen perdeu completamente o bom senso; está matando qualquer um que não esteja do lado dela.

- Isso significa que... - Hannah estremeceu.

- Ela deve ter matado os nove. Mas nós não podemos nos abater; temos muito trabalho pela frente. Sam está direcionando o nosso exército e Owen está preparando o Plaza para ser usado como base. O pessoal do acampamento e da base na Carolina do Sul já está a caminho. Conseguimos convocar alguns semideuses mais velhos para nos ajudar também e...

- Hector! – Hannah avistou Hector no meio da confusão e ele veio falar com ela. – O meu irmão? Como ele está? Você conseguiu levá-lo para um lugar seguro?

- Bom, eu... – Hector era um misto de preocupação e, ao mesmo tempo, de uma leve distração. – Ele está em segurança, e os seus avós também, mas...

- Hector. O que aconteceu? – ela falou entre dentes.

- Acho que a sua mãe aconteceu. – ele a entregou um bilhete.

Pelo tamanho do papel, a mensagem obviamente era curta, mas Hannah não tirou os olhos do bilhete de imediato. Parecia estar relendo várias vezes. Depois ela suspirou.

- Algum problema? – John quis saber.

Ela passou o bilhete para ele e foi embora. John não pareceu se surpreender com o que estava escrito e me entregou o bilhete logo depois. Estava escrito o seguinte:

Sua família é minha família também. Eu os trouxe para o Olimpo. Espero que você reconheça que o seu lugar também é aqui. Boa sorte na batalha.

Hera.

- Devemos nos preocupar com isso? – perguntei, um tanto transtornado.

- Não. Eu tenho certeza de que, independente do que aconteça, Hera vai sempre ter Hannah em alta estima. Ela significa muito para a mãe, acredite.

- Como foi que você conseguiu esse bilhete? – perguntei ao Hector.

- Peter estava comigo na van e de repente houve um clarão e ele não estava mais lá. Só havia a mensagem. Hera pode estar cheia de boas intenções, mas ela não consegue fazer nada de forma sutil e alguém sempre acaba tendo problemas. Eu bati com o carro em uma árvore! Ainda bem que eu estava dirigindo devagar porque senão... – Hector empalideceu de repente. – Eve.

Eve havia nos deixado logo que chegamos para levar um dos prisioneiros para cuidar de alguns ferimentos. Ela parou na metade do caminho de volta quando viu Hector.

- Então é verdade? Você colocou Maureen para correr com um exército de zumbis? – fala sério: Hector era conhecido como um dos maiores conquistadores de toda a história do Acampamento Meio Sangue, e era isso que ele tinha para dizer para uma garota que todos chegamos a pensar que estava morta?!

- Algo do tipo. – Eve deu de ombros e sorriu de um jeito gracioso. Os olhos dela pareciam exageradamente verdes. Acho que todo aquele tempo que ela passou no mundo inferior sem ver a luz do sol a deixou tão pálida que os olhos acabaram ganhando um destaque extra.

A expressão preocupada de Hector desapareceu. De repente ele parecia ter acabado de acordar de uma noite perfeita de sono. Eve se atirou em cima dele; eu não sabia quem estava sufocando mais o outro com o abraço.

- Que bom que está de volta... – ele disse, ainda sem largá-la.

- É ótimo estar de volta... – Eve estava radiante de verdade.

Nesse momento Karen apareceu, entregou uns mapas ao John, olhou para Hector e Eve e disse:

- Que bonitinho! – e riu.

John também riu um pouco. Eu não sabia o que era tão engraçado. Mas, por causa disso, eles finalizaram o abraço e Hector disse que precisava ajudar a montar o arsenal. Eve também disse que tinha uma coisa para fazer. No final das contas, só ficamos John e eu ali.

- E o Percy?

- O Percy... – John pareceu murchar naquele instante. – Eu já avisei à Annabeth no acampamento. Ela vai chegar a qualquer momento. O pior de tudo, Nico, é que...Se Percy se transformar em um monstro, nós não vamos ter chance alguma. Odeio admitir isso, mas Maureen está sempre uns dez passos a nossa frente, e fazer a tatuagem amaldiçoada nele foi uma maneira de garantir que o Olimpo seria destruído com ou sem a presença dela.

- Como você pode ter tanta certeza de que Percy terá todo esse poder? Quero dizer, não é como se ele fosse se transformar em uma réplica do Tifão.

- Não é a força dele que me preocupa. Pense comigo: monstro ou não, você acha que um de nós vai ter coragem de feri-lo? E você acha que Poseidon vai permitir que os outros deuses matem o filho dele?

- Ah, não...Eu não tinha pensado nisso.

- Nós só vamos poder assistir enquanto Percy destrói tudo. Mas os deuses...Bem, eu sei que a maioria deles não vai hesitar em matá-lo e isso pode provocar uma grande guerra entre Poseidon e os outros. O que significa...

- ...que o Olimpo vai se destruir de uma forma ou de outra. Precisamos falar com o Hector agora mesmo! A Dádiva dele é a nossa única esperança.

- Vou falar com ele, mas não agora.

- "Não agora"?! O que você está esperando?!

- Não temos mais o lençol negro, esqueceu? Como vamos mandar Hector até Chicago? E o mais importante: como vamos fazer com que ele entre e saia do Banco das Dádivas rapidamente e sem chamar atenção?

- Então só nos resta torcer para que Klaus consiga voltar para cá o mais rápido possível?

- É.

- Tem que haver outra alternativa.

- Não há, Nico. Olha, eu sei como você está se sentindo, sei que ficar sem fazer nada acaba com você, mas por enquanto nós só podemos nos organizar da melhor maneira possível e esperar que tudo ocorra ao nosso favor. Vamos aguardar mais um pouco até que cheguem mais reforços e depois vamos começar a reunião. Aviso a você quando chegar a hora. Agora você devia descansar um pouco. – ele deu uns tapinhas no meu ombro e foi embora.

- Estou te procurando há um tempão! – Eve se sentou ao meu lado na varanda do penúltimo andar do Plaza.

Se eu não estivesse tão chateado eu teria conseguido sorrir, porque eu havia sentido falta daquele jeito de Eve; ela simplesmente não conhecia o significado da expressão "quero ficar sozinho".

- Eu vim aqui porque o telhado e a cobertura estão ocupados. – expliquei.

- Foi o que eu pensei. Está precisando colocar as idéias no lugar?

- É.

- Então vamos colocar as idéias no lugar juntos. Seu problema número um?

- A maioria dos meus problemas está brigando nesse momento para ver qual deles vai ocupar o primeiro lugar.

- Sei. Quase todo mundo está assim. Então...vamos começar trabalhando no mais simples. O que não é prioridade agora?

- Minha vida amorosa? – falei por falar, mas confesso que aquilo também estava me perturbando.

- Bingo! Você vai me contar o que aconteceu entre você e Hannah ou eu vou ter que arrancar as respostas de você aos poucos?

- Vocês duas ainda não colocaram a fofoca em dia? Que milagre!

- Ainda não. Acho que Hannah...Ela realmente tem muita coisa na cabeça nesse momento. Eu prefiro ouvir a sua versão dos fatos.

- Uma versão resumida dos fatos é que ela me odeia. Na verdade, eu estou surpreso por você também não me odiar.

- Por que você está dizendo isso? – Eve ficou indignada.

- Você viu, Eve: eu matei o Tobey.

- Ah... – uma sombra da tristeza que eu presenciei em Eve através daquela mensagem de Íris tomou conta do seu semblante naquele instante. – Eu nunca tive tempo para processar isso; aconteceu minutos antes de o Allan nos atacar. E agora que eu voltei parece meio sem sentido procurar reviver essa situação. Mas, se você quer saber a minha opinião, eu não acho que seja esse o motivo de Hannah estar tão hostil ultimamente.

- Não é o único motivo, mas parece ser o principal. Também sei que o tempo que ela passou com a mãe no Olimpo, os poderes, a traição de Allan, tudo isso a afetou. Mas ela não foi a única que mudou nos últimos meses.

- Como assim?

- Eu tive tempo para pensar a respeito do que eu sentia por ela.

- "Sentia"?

- Não tenho certeza absoluta de que ficou tudo no passado, mas quando eu penso nela agora...pouca coisa boa me vem à cabeça.

- Nico, esse é o momento totalmente errado para decidir esse tipo de coisa. Você só está confuso e...

- Eu beijei a Dione, Eve. – eu a interrompi.

Eve ficou me encarando muito séria, em silêncio, durante quase um minuto. Parecia em choque. Quando ela voltou a reagir, disse:

- Você fez...o quê?

- Você me ouviu.

- Quando foi isso?

- No meu aniversário.

- É...Parece que muita coisa mudou mesmo durante o tempo em que eu estive no mundo inferior. – no passado, aquela notícia teria feito Eve explodir de tanta alegria; mas ela parecia chateada naquela hora. – O que houve? Você e Dione ficaram em um mesmo grupo ou algo parecido?

- Não, nós...Sei lá. Ela é muito legal. Acabou acontecendo.

- "Acabou acontecendo"? Uau...Dá pra ver que tem um monte de sentimentos nisso aí. – ela foi irônica.

- Qual é o problema, Eve?

- O problema é que você não é assim! Desde quando você fica com uma garota só porque ela é "legal"?

- Eu...

- Desde nunca, Nico! Você só ficou com a Dione porque as coisas com a Hannah estão ruins!

- E o que eu deveria fazer? Passar o resto da minha vida me perguntando o que eu poderia ter feito para não perder Hannah?

- Você ainda não a perdeu!

- Sinto muito se isso contraria as suas expectativas, Eve, mas eu não quero ver como essa história vai acabar. A minha vida inteira foi cheia de angústia com relação a alguém: primeiro Bianca, depois a minha mãe e agora Hannah. Eu não posso mais viver assim! Se nós vencermos essa batalha...eu vou embora.

- Embora de onde?

- Embora do acampamento e para longe de tudo que tenha a ver com ele. Qualquer lugar em que as pessoas não me reconheçam como "o filho de Hades".

- Você está sendo radical e eu sei por quê: porque você se importa; é por isso que você quer fugir.

- Provavelmente. Acho que eu cometi um erro enorme quando resolvi ficar no acampamento.

- É mesmo? – Eve pareceu se magoar com aquela afirmação. – Que pena, Nico... – e saiu do quarto, me deixando sozinho com o restante dos meus problemas.

Me arrependi do que disse menos de cinco minutos depois. Eve estava certa: aquele era o momento totalmente errado para tomar qualquer decisão que não tivesse a ver com a batalha. É claro que eu falei verdades, mas eu fui radical demais. Corri atrás dela, mas Eve já devia ter descido pelo elevador. Acabei esbarrando no Hector.

- Ei! Você andou pisando nos calos da Eve ou coisa parecida?

- Você falou com ela?

- Hã...Mais ou menos. Ela disse algo sobre você ser um imbecil e que ela devia ter quebrado a sua cara. O que você fez?

- Nada. Eu só estou nervoso com tudo isso.

- Normal. Mas, é sério, tente ficar frio. Se você surtar, isso pode afetar os seus poderes e nós vamos precisar muito deles.

- Eu sei. Eu estava tentando dar um tempo a mim mesmo, mas aí Eve apareceu e começou a tentar fazer psicanálise comigo; e você sabe que ela é especialista em trazer assuntos delicados à tona.

- Ah, sim. – ele riu um pouco.

Hector estava esquisito. E não era o esquisito do tipo "preocupado com a guerra iminente"; ele ainda parecia um tanto distraído.

- Você está bem? – perguntei.

- Na medida do possível. – ele deu de ombros.

- Hum, olha, sem querer ser intrometido, mas...Eu sei que deve estar sendo um pouco estranho para você.

- O quê? – ele parecia não estar entendendo.

- Ela ter voltado agora. – eu diminuí o tom de voz, mesmo não havendo mais ninguém naquele corredor.

- Não, não é estranho. Eu estou muito feliz por ela ter voltado. Por que seria estranho?

- Bom, porque...Hector, eu sei, tá legal? Sei que você gosta dela.

Hector ficou muito vermelho. Passou um tempão gaguejando e indo e voltando pelo corredor. Ele estava agindo que nem um garoto de dez anos, o que era muito surpreendente, já que, quando eu estive na mesma situação que ele, eu me recuperei bem rápido.

- Cara, fique calmo. Por que você ficou desse jeito? Eu não vou espalhar, se é com isso que você está preocupado.

- Você ficou chateado? – quando ele finalmente relaxou um pouco, ele me indagou.

- Claro que não. Por que eu ficaria chateado? Não tem problema nenhum nisso. "A gente não manda no coração", não é isso que dizem?

- Acho que sim, mas...É muito complicado. Eu queria ter contado a você antes, Nico, mas...Não é que eu não confie em você; eu só não tinha certeza de que era isso mesmo que estava acontecendo.

- Tudo bem. E se você precisar de alguma ajuda para...não sei. Se você quiser conversar, pode me procurar. Você sempre me escutou quando o assunto era Hannah, então nada mais justo que eu te escute também.

- Valeu mesmo, Nico. – ele bateu no meu ombro; parecia agradecido de verdade. – Mas, só por curiosidade: alguém te contou isso ou você simplesmente descobriu? Porque, sem querer ofender, mas a sua percepção para esse tipo de coisa é tipo...nula.

- Hã, não ofendeu. Eu sei que isso é verdade. Foi Eve quem me contou.

- Eve?! Ela sabe?! – o queixo dele caiu.

- Sabe.

- Caramba...Acho que a percepção dela é mesmo sobrenatural.

- Bem, ela me disse que foi Hannah quem contou a ela.

- Nesse caso, eu até entendo; Hannah tem um faro para essas coisas. Mas eu esperava que ela viesse falar comigo primeiro. Você acha que ela contou para mais alguém?

- Provavelmente não. Mas eu tenho certeza de que ela não comentaria isso com o John.

- E o que é que o John tem a ver com isso?

- Hã... – eu fiquei confuso. – Muita coisa, eu acho. Espera...você não sabe que ele e a Karen estão juntos?

- Então eles estão juntos mesmo? Achei que aquelas filhas de Afrodite estavam inventando.

- Não, é verdade. Foi a própria Karen quem nos contou. Mas o que você vai fazer a respeito? Vai conversar com a Karen e dizer o que está sentindo?

- Nico, eu...tenho uma coisa para fazer. Você devia ir até o terceiro andar. Annabeth chegou há algum tempo e está arrasada. Acho que seria bom vocês conversarem um pouco.

Imaginei que a notícia de que Karen e John estavam juntos devia ter deixado Hector aborrecido demais. Sabia que ele estava dando uma desculpa para escapar, mas não insisti. Até porque eu precisava mesmo ter uma conversa franca com Annabeth. Hector subiu para a cobertura, onde estavam montando uma espécie de observatório, e eu desci para o terceiro andar.

A porta do quarto estava entreaberta. Thalia não estava mais ali; deviam ter levado ela para um outro quarto. Annabeth estava sentada em uma cadeira ao lado da cama de Percy, segurando a mão dele e chorando.

- Annabeth? – eu chamei.

- Nico. – ela olhou para trás. – Entre.

Eu puxei uma cadeira e me sentei no lado oposto ao dela. Não sabia o que dizer.

- Eles vão tirá-lo daqui logo. – ela disse, depois de algum tempo.

- Para onde vão levá-lo?

- Para fora do prédio. Porque se...se o Klaus não trouxer o lençol negro a tempo, ele vai...ele vai...completar a transformação. – Annabeth mal conseguia falar de tanto que chorava. – E se isso acontecer...é melhor que ele não destrua a base.

- É verdade.

- Nico...Você e Percy eram muito amigos...Acho que você sabe tão bem quanto eu o que ele iria querer. Sabe do que eu estou falando?

- Sei, mas...

- É a nossa única chance. Eu queria esperar, Nico, juro que queria; mas Percy está ficando sem tempo.

- Você está desistindo?!

- Não!

- Então como você pode sequer cogitar em matar o Percy?!

Annabeth escondeu o rosto nas mãos e chorou histericamente. Respirei fundo. Eu havia passado dos limites. Não era com acusações que nós íamos resolver aquela questão. Fui até onde ela estava e me ajoelhei ao lado dela.

- Ei...Sinto muito por isso...Tente se acalmar. Nós vamos pensar em alguma coisa. Vamos conversar lá fora. – e aí ela me surpreendeu com um abraço quando eu tentei levantá-la.

- Eu estou com tanto medo... – Annabeth estava me apertando com tanta força que eu mal conseguia respirar. – Estou tentando não ser egoísta e pensar no que é melhor para a maioria, mas a verdade é que...eu não quero perder o Percy.

- Não precisa ser desse jeito, Annabeth. Nós não precisamos sacrificar ninguém. – eu a conduzi para fora do quarto e fechei a porta. Eu me lembrava muito bem que Hannah podia ouvir tudo que dizíamos quando estava sob o efeito da tatuagem amaldiçoada; seria melhor se Percy não tivesse que sofrer mais ainda.

- Você tem alguma idéia?

- Ninguém sabe como funciona essa coisa de se transformar em um monstro; mas Percy é muito forte. Eu acho que ele pode ser capaz de se controlar. Veja: Karen só transformava pedras, árvores e coisas do tipo em monstros e eles só atacavam porque alguém dava a ordem.

- Então você está sugerindo que nós podemos simplesmente dizer a ele para não atacar?

- Não acho que vá ser fácil, mas é basicamente isso.

- Hum...Certo. – ela não parecia confiante. – Plano B?

- Ou nós podemos colocá-lo para dormir.

- Como?

- Ainda não sei, mas talvez seja a nossa melhor opção. Dormindo ele não vai atacar e os deuses não vão se sentir ameaçados; ele vai ficar inofensivo enquanto esperamos a Dádiva do Hector chegar.

- Melhor. Lutar contra ele não vai ser bom para ninguém.

- Vou falar com o John; ele com certeza vai ter alguma idéia brilhante para colocar o plano em prática.

Annabeth conseguiu sorrir um pouco.

- Muito obrigada, Nico. – ela me abraçou outra vez. – Sabe, ter você aqui é reconfortante. Eu não conheço a maioria desse pessoal e me sinto muito mais tranqüila sabendo que pelo menos uma pessoa que já lutou ao meu lado está cuidando da situação.

- Eu estou tentando cuidar.

- Está se saindo bem. Eu queria ajudar, mas... – ela olhou para a porta atrás de nós. – Não quero deixar o Percy sozinho num momento como esse.

- Não se preocupe com isso; tem muita gente trabalhando. Fique com o Percy e converse com ele. Ele pode ouvi-la, então tente tranqüilizá-lo.

Ela assentiu com um sorriso leve e voltou para o quarto.

Todos se reuniram no saguão do Plaza para a reunião quando já passava das oito da noite. Não havíamos recebido notícias de Klaus, e Percy estava em uma maca do lado de fora. O clima era o pior possível.

- Bem, pessoal. – John começou. – De acordo com a Karen e os nossos espiões, Maureen tem um exército de telquines, quatro gigantes, um exército de monstros criados com uma tatuagem amaldiçoada, muita munição, além de, é claro, vários semideuses que possuem Dádivas poderosas. Não sabemos como eles vão proceder, mas nós designamos grupos para combater cada uma dessas frentes. Vocês vão precisar se deslocar para onde seus inimigos forem. Mas lembrem-se: o objetivo principal é mantê-los longe do Olimpo; então tentem fazê-los recuar para longe do Empire State e também do Plaza, que vai continuar sendo a nossa base.

- Telquines têm vantagem na água, então vamos mantê-los longe dos rios; eles devem ser encurralados mais ou menos no Rockefeller Center. – disse Sam, nosso general. – Os gigantes podem interferir com facilidade em qualquer batalha, então vamos levá-los para a periferia, ou seja, os rios; essa vai ser a tarefa dos filhos de Atena. Os monstros de pedra não vão fugir, então nós precisamos destruí-los; filhos de Hefesto: ataquem com tudo que vocês tiverem para acabar com eles o mais rápido possível. Os filhos de Deméter, de Dioniso, os sátiros, as ninfas e as dríades devem ir para o Central Park e tentar conter todos os inimigos que forem mandados para lá. Os demais devem ficar nos arredores do Empire State. Arqueiros: entrem nos prédios e procurem lugares estratégicos. Os outros guerreiros devem se dividir por todo o perímetro e formar uma concentração nas portas do Olimpo. Um grupo de curandeiros de Apolo tem que ficar no Plaza para cuidar dos feridos.

- Como vamos combater os semideuses que possuem Dádivas? – alguém perguntou.

- Escolham um alvo e formem equipes de quantas pessoas for necessário. Vocês podem combatê-los, só precisam trabalhar em equipe.

O pessoal se entreolhou com insegurança. Eu sabia que eles achavam que o fato de quase nenhum de nós possuir Dádivas era uma grande desvantagem. Sam também pareceu ler os pensamentos deles, pois falou:

- Não precisam ter medo das Dádivas; vocês todos são grandes guerreiros. Cada um tem uma habilidade especial e eu não estou falando de convocar os mortos: vocês são espadachins, arqueiros ou simplesmente faixa preta em karatê. Mas vocês precisam uns dos outros para vencer. Então esqueçam as diferenças entre nós: aqui não há filhos dos Três Grandes ou de Atena ou de Ares; não há ex-espiões; não há agentes duplos. Somos só um bando de semideuses querendo salvar o mundo. E nós podemos fazer isso.

As palavras dele deram uma injeção de ânimo em todo mundo. Logo estávamos todos aplaudindo e cantando gritos de guerra. John, Hector, Lionel e quem mais estava em volta começou a dar tapinhas nas costas de Sam e a bagunçar o cabelo dele. Ele havia se tornado um general de verdade. Muita gente hostilizava os filhos de Ares, mas isso era porque a maioria deles não entendia o que isso significava; Sam não só entendia como também representava o que havia de melhor nisso.

Vi Hannah de relance no meio da multidão. Ela olhava para Sam com um sorriso que eu nunca mais havia visto: um sorriso doce e tranqüilo. Ela já estava sofrendo com aquela história há tanto tempo que eu meio que havia me esquecido de quem ela costumava ser. Tirei proveito daquele momento: já que toda vez que eu estava por perto ela fechava a cara, eu fiquei olhando para ela de longe.

- Eu conheço esse olhar... – Eve, surgida sabe-se lá de onde, cantarolou.

- O quê?

- Você costumava ficar encarando Hannah com essa mesma cara de retardado lá no refeitório do acampamento.

- Ah, você não está mais querendo quebrar a minha cara?

- Não. Eu sei que você não quis dizer aquilo de verdade.

- Foi mais ou menos a verdade.

- Que seja. Você devia ir tentar falar com ela outra vez. – eu me preparei para protestar, mas Eve continuou. – Estamos prestes a entrar em guerra, Nico. E você não é ingênuo a ponto de achar que todos vão sobreviver. Nunca se sabe o que pode acontecer.

- Que péssimo argumento, Eve.

- Mas funcionou, não? Vá até lá. O que pode acontecer de tão ruim? – ela sorriu e me empurrou.

Quando dei por mim eu já estava caminhando por entre as pessoas em direção à Hannah. Eu jurei a mim mesmo que não tocaria no assunto "Tobey"; tinha que ser uma conversa amistosa. Meu coração estava enlouquecido quando eu cheguei bem perto dela.

- Hannah?

Ela se virou e me encarou um tanto surpresa; mas, felizmente, não foi mais um daqueles olhares de desprezo.

- Eu só queria... – por que eu ficava tão sem jeito perto daquela garota? Por que?! – Desejar boa sorte na batalha.

- Ah... – parecia que ela estava esperando ouvir uma coisa diferente. – Boa sorte para você também. Tome cuidado.

- Obrigado. – eu me virei devagar para ir embora, mas mudei de idéia. – E eu também queria dizer que eu sinto muito. Por tudo.

Aquilo afetou Hannah. De repente ela não parecia mais tão no controle da situação. Ela levou algum tempo para responder.

- Nico, eu...Eu te devo desculpas. Naquele dia na Carolina do Sul eu estava tão...Me perdoe. Nós somos amigos e eu não devia ter...

- Nico! – Daniel chegou aos tropeços. – Eu preciso falar com você. É muito importante.

Daniel parecia realmente desesperado e eu lembrava que ele havia me dito, ainda na prisão da base de Maureen, que nós precisávamos conversar. Eu havia aprendido da pior maneira que Daniel só insistia em alguma coisa quando o assunto era sério. Mas, por outro lado...Hannah e eu parecíamos estar prestes a fazer as pazes e eu não queria estragar aquele momento.

- Nico, por favor. – Daniel me encarou, suplicante.

- Conversamos depois? – perguntei à Hannah.

- Claro. – ela disse.

Segui Daniel até um lugar isolado no Plaza.

- Da última vez em que estivemos numa situação parecida você ficou desaparecido por meses. – lembrei a ele.

- Dessa vez eu não corro esse risco, mas me ouça, Nico: Maureen só me manteve preso esse tempo todo porque eu tinha informações valiosas para ela. Eu achei que conseguiria fugir logo ou que alguém iria me encontrar e eu não precisaria contar a ela.

- "Não precisaria"? Então você contou?!

- Eu sinto muito! O meu plano era coletar informações sobre a organização para depois passá-las a vocês, mas Maureen devia imaginar quais eram as minhas intenções e sempre me vigiou de perto. Eu não tive escolha: fui obrigado a contar um pouco do que eu sabia para me manter vivo, e um dia ela simplesmente ligou os pontos.

- Mas que informações são essas? O que você sabe?

- São informações sobre você, Nico.

- Sobre mim?! O que poderia interessar à Maureen? Os meus poderes?

- Não, é outra coisa. Nico, você...

Daniel falou, mas eu não escutei nenhuma palavra. Porque uma espécie de rugido ecoou e a terra tremeu. Eu só escutei uma garota gritando "Percy!".