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aniel e outras pessoas que estavam em volta caíram no chão. Parecia que o Plaza ia desabar sobre nós, tamanha foi a sacudida. No começo todos pensamos que Maureen havia começado a invasão e sacamos nossas armas e corremos para o lado de fora. Mas nós, que estávamos cheios de coragem, simplesmente amarelamos quando vimos o que estava acontecendo.Ele era enorme. Não tinha forma definida; era como um bolo de lama com quatro patas. Sua pele era meio amarronzada, cheia de dobras como um daqueles cachorros Shar-Pei e parecia ter verrugas. Os olhos eram minúsculos diante do resto do corpo, mas sua boca podia engolir quase todo o nosso exército de uma vez só. Resumindo: era a coisa mais asquerosa que eu já vi na minha vida.
Depois do choque inicial, o pessoal se preparou para atacar. Annabeth era a única que não estava armada. Ela estava parada no meio da rua, encarando o monstro que Percy havia se tornado. Hannah estava perto dela, com o seu arco preparado.
- Isso é muito ruim... – ouvi Owen engolindo em seco, perto de onde eu estava na calçada.
Aquilo era péssimo. Eu estava até otimista com a possibilidade de Klaus voltar a tempo e assim nós poderíamos reaver a Dádiva do Hector e curar o Percy. Mas as coisas definitivamente não saíram como planejado. Nós teríamos chances se a vida de Percy não estivesse em jogo, mas aquilo mudava tudo.
Demorou algum tempo até que Percy fizesse alguma coisa depois do rugido. Ele ficou respirando rapidamente e encarando o asfalto. Depois pareceu se estabilizar. Ele levantou o olhar, encarou quem estava na frente do Plaza por poucos segundos e em seguida não tirou os olhos de Annabeth. Ela sustentou o olhar dele, receosa.
- O que você acha, John? – Owen perguntou.
- Talvez...talvez ele a reconheça... – mas ele parecia mais incerto do que nunca.
Annabeth respirou fundo, endireitou os ombros e falou:
- Percy...? – sua voz estava rouca.
Ele estreitou os olhos.
- Sou eu: Annabeth. Você se lembra de mim?
Ele grunhiu e tremeu um pouco.
- Lembra, Percy? – ela foi se aproximando dele com passos lentos. – Lembra de quem você é? Você é um herói. Você mora nessa cidade com a sua mãe. O seu pai é Poseidon.
Ela estava perigosamente perto dele. Percy estava tremendo loucamente naquele momento e parecia ganir.
- Annabeth... – John a alertou, mas ela o ignorou e continuou se aproximando.
- Nossos amigos estão aqui, Percy. Nós lutamos juntos nesse mesmo lugar há alguns anos atrás. Nenhum deles quer machucar você. E eu sei que você também não quer nos machucar.
Percy rosnou com fúria. Nós recuamos, mas Annabeth permaneceu onde estava.
- Annabeth, saia daí agora! – John ordenou.
- Percy, lute. – mais uma vez ela ignorou John. – Você pode fazer isso. Eu preciso que você faça.
Acho que todos nós previmos o que ia acontecer. Mas, de alguma maneira, a determinação de Annabeth nos passou a segurança de que aquilo iria funcionar e ninguém pensou em reagir.
Percy se movia bem rápido para uma criatura tão grande. Ele teria abocanhado Annabeth se Hannah não tivesse atirado uma flecha à queima roupa no último segundo. A flecha atingiu o canto da boca dele, fazendo com que ele recuasse a cabeça, mas por muito pouco ele não lançou as duas para o outro lado da cidade com uma patada; Hannah havia corrido e se jogado no chão junto com Annabeth.
Tudo aconteceu muito rápido em seguida. John gritou "Atirem!" e os arqueiros posicionados nos apartamentos lançaram uma saraivada de flechas nos flancos de Percy.
- NÃO! PAREM! – Annabeth, ainda no chão, chorava e lutava para se desvencilhar de Hannah e ir em direção a ele outra vez. Hannah precisou de uma força sobre-humana para contê-la sozinha até que outras pessoas chegassem para ajudá-la.
Eu também fiquei preocupado; mesmo como monstro, ainda era Percy quem estava ali e estava sentindo a dor de dezenas de flechas. Mas olhei melhor e vi que não eram flechas, eram dardos.
- Os dardos do Owen? – perguntei ao John.
Ele assentiu.
- Vamos torcer para que isso dê certo.
Mas não parecia que ia dar certo. Na verdade, só serviu para deixar Percy mais descontrolado: ele cambaleou um pouco, mas foi o suficiente para se chocar nos prédios vizinhos. Alguns de nós, em uma tentativa desesperada de afastá-lo, o espetaram com lâminas e lanças. Ele se enfureceu mais ainda e destruiu os andares mais baixos dos prédios com um só golpe de suas patas. Por muito pouco todos conseguiram correr a tempo de não serem soterrados.
- Nico, vamos prendê-lo! – Sam correu para a pista e eu o segui.
Imediatamente ele começou a erguer barreiras enormes em volta de Percy. Fiz o melhor que pude, mas as minhas rochas não eram muito altas, só espessas. Mas nada disso adiantou. Percy derrubava as barreiras antes mesmo que pudéssemos contorná-lo por completo. Mesmo assim nós insistimos e fizemos círculos de diâmetro cada vez maior em torno dele.
- Não vai segurar! – disse Sam.
- Não mesmo.
- Arqueiros?
- Não. Só vai fazer ele destruir mais coisas. Vamos deixá-lo quieto.
Sam e eu nos afastamos e voltamos para a calçada.
- Acho que você tem razão, Nico. – disse John. – Vamos esperar para ver o que ele vai fazer.
Quando todos pararam de atacar e de fazer barulho, Percy realmente se acalmou. Ele ficou rosnando com desconfiança para nós e depois deu meia volta e foi calmamente em direção ao Empire State Building. Me juntei a um grupo que o seguiu discretamente e o vi circundando o prédio, mas depois ele seguiu pela Broadway e parou na Times Square. E ficou ali, sentado sobre duas patas, sem fazer nada durante um bom tempo. Mais precisamente, durante meia hora. Nós já havíamos nos sentado na calçada de tão cansados que ficamos de ter que olhar a mesma cena. Mas a cena mudou bruscamente.
De repente a Times Square não estava mais deserta; de repente parecia a hora do rush em Nova York. E não eram pessoas comuns ou carros ocupando todo centímetro quadrado do lugar; eram semideuses, gigantes, telquines e monstros feitos a partir de rochas e árvores. Não sei dizer quem ficou mais surpreso: nós, que ficamos cara a cara com os inimigos, ou o exército de Maureen, que parecia não estar entendendo como foi parar ali. Eu tinha um bom palpite: Klaus, apesar de estar cercado com um grupo de seis semideuses por boa parte daquele exército, havia conseguido recuperar o lençol negro. Ele se aproveitou do atordoamento inicial de quase todos e escapou do cerco junto com os seus aliados. Maureen foi uma das poucas que não se deixou abalar por aquela viagem inesperada e ficou toda vermelha de raiva e berrou:
- PEGUEM AQUELE LENÇOL!
Acho que ela nem mesmo se deu conta de que eu estava ali. Ela não tirou os olhos de Klaus, que passou correndo por nós e deu meia volta quando viu que não estávamos correndo junto com ele.
- Por que estão parados aí?! Corram, otários!
Ninguém ousou desobedecer. Logo estávamos correndo feito loucos de volta para o Plaza. O barulho deve ter atraído o nosso exército para lá e nós acabamos nos encontrando no meio do caminho. Finalmente havia chegado a hora da batalha.
Klaus desapareceu no meio do nosso exército. John surgiu logo depois e ficou à frente de todos, o que não foi muito difícil de se conseguir porque o pessoal realmente se intimidou com o exército inimigo. Percy veio correndo e derrubando tudo que estava na sua frente, ou seja, nós. Ele estava se dirigindo a toda para o Empire State Building e ninguém parecia disposto a tentar impedi-lo.
- Sigam o plano! Escolham os seus alvos e vão para os seus postos agora! – John ficou gritando.
Apesar de boa parte do exército de semideuses de Maureen ainda não ter nos alcançado, os monstros e os seus aliados mais poderosos estavam com ela bem atrás de Percy. Ela nem mesmo se deu ao trabalho de encarar qualquer um de nós; Raphael criou uma espécie de escada feita do asfalto e a ajudou a subir nas costas de um dos monstros de pedra. Maureen sacou a flauta de Julia Hawkins e a levou aos lábios; imediatamente o monstro começou a seguir Percy até o Olimpo.
- Essa não! Dione, impeça-os! – John ordenou.
Dione, que estava liderando seus irmãos, os filhos de Dioniso e os espíritos da natureza, não perdeu tempo. Com um assovio, todos eles entraram em ação e a Broadway e suas adjacências ficaram verdes. Cipós, videiras, trepadeiras e mais um monte de plantas começaram a envolver Percy e o monstro que carregava Maureen. Eles também ergueram uma muralha bloqueando a Broadway e separando os exércitos. Não achei que as plantas fossem segurá-los, mas chegou um momento em que até mesmo Percy ficou imobilizado depois de se debater bastante.
Maureen teve que saltar do monstro para não ser engolida pelas plantas. Ela cortou as raízes que se prendiam nos seus pés com sua espada. Dione e seus irmãos pararam, exaustos.
- Vou dar um conselho: - disse Maureen. – não desperdicem suas energias com esses truques estúpidos. Nenhum de nós está aqui para brincadeiras e eu prefiro não ter que esmagar cada um de vocês.
Dito isso, Raphael Young criou uma espécie de onda no asfalto que desmanchou a muralha verde em dois tempos. Enquanto isso, Maureen cortou os cipós que prendiam Percy e o monstro e os libertou, e eles seguiram o seu caminho com Raphael os escoltando e impedindo qualquer um de se aproximar.
- Ela vai sozinha? O que ela vai fazer? – Owen perguntou.
- Eu prefiro não ter que descobrir. – murmurou John. -Vamos seguir a nossa estratégia: eu quero os nossos melhores guerreiros e arqueiros defendendo o Olimpo.
- Vocês ouviram o cara: para os seus postos agora! – Owen gritou para o nosso exército.
Maureen podia não estar mais lá para comandar o seu exército, mas eles pareciam saber exatamente o que fazer. Os nossos guerreiros mal tiveram tempo de se organizar e já foram atacados pelos gigantes. A idéia de os nossos grupos escolherem os alvos havia ido para o espaço; nós éramos os alvos. Ninguém estava conduzindo os inimigos para lugar algum, estávamos só correndo para qualquer lugar para desviarmos dos pés dos gigantes.
- Hannah! – John a agarrou pelo braço no meio daquela confusão. – Você é rápida; encontre os líderes de cada grupo e diga para eles reunirem seus guerreiros. Separados nós não vamos conseguir!
Hannah assentiu e abriu caminho por entre as diversas batalhas que estavam se desenrolando. Eu a perdi de vista depois que ela se esquivou de ser pisoteada por um gigante.
- Atena! Comigo! – John chamou seus irmãos.
- John! John! – Annabeth veio correndo com Karen a tiracolo. – O garoto... – ela estava sem fôlego. – O filho de Hécate...ele está aqui. Precisamos recuperar a Dádiva do Hector para salvar o Percy.
- Klaus está ferido. – Karen trazia o lençol negro nas mãos. – Não é nada sério, mas ele precisa descansar. Eu vou até Chicago.
- Eu vou com você. – Annabeth disse logo.
- Precisamos de você aqui, Annabeth. – John explicou. – Além do mais, com o lençol negro, Karen pode cuidar disso sozinha. Não pode? – ele perguntou a ela.
- Bem, na verdade...eu estava pensando em chamar outra pessoa... – Karen olhou para trás, onde Hector estava combatendo um semideus inimigo.
Ele o nocauteou bem naquele instante e olhou para nós como se alguém o tivesse chamado. Hector veio até nós e Karen sorriu para ele.
- E aí, garotão? Pronto para pegar a sua Dádiva de volta?
O queixo dele caiu, mas o choque durou pouco tempo. Ele praticamente se iluminou com aquelas palavras e disse:
- É claro que sim.
Karen abraçou John como despedida e cochichou alguma coisa no ouvido dele. Ele a encarou apreensivo por alguns instantes. Logo depois ela jogou o lençol sobre si mesma e Hector e os dois desapareceram.
- Nico, você e Owen vão atrás da Maureen. – John determinou. – Eu preciso me juntar aos meus irmãos para derrubar os gigantes. Owen está no comando; ele vai passar toda a estratégia para você. – ele mal terminou de falar e foi obrigado a se afastar porque um monte de telquines começaram a atacá-lo.
- Vamos, Nico. – Owen começou a me empurrar.
- Talvez seja melhor eu ficar aqui e tentar atrasar os inimigos pelo menos um pouco até o nosso exército conseguir se estabelecer.
- Não. Precisamos de você para combater Maureen. – fui relutantemente conduzido para longe da batalha.
Não havia como nós nos locomovermos mais rápido do que Maureen e, de qualquer maneira, uma aproximação direta era muito arriscada. Nos espalhamos silenciosamente pelas ruas ao redor e, aos poucos, formamos um cerco ao Empire State Building. Os filhos de Ares estavam bem atrás de Maureen, prontos para um ataque direto assim que ela, Raphael e os monstros fossem surpreendidos pelos filhos de Hefesto, posicionados em grupos por todo o perímetro esperando o momento certo de acionar suas armadilhas. Maureen já havia descido do monstro e estava de pé encarando as portas do Empire State Building quando chegamos.
- O que ela vai fazer? – perguntei ao Owen.
- Nada. Ela só precisava chegar primeiro para conseguir uma posição estratégica. A ação só vai começar quando os seus aliados mais poderosos chegarem aqui.
- Achei que Percy seria capaz de destruir o Olimpo sozinho.
- Ele é. Mas Maureen quer destruir os deuses e não apenas a casa deles.
- Não estragamos os planos dela quando conseguimos nos libertar daquelas correntes?
- Ela ainda tem as Dádivas, não tem? Acho que só o que importa agora para ela é destruir os deuses, independentemente de quem faça isso.
- Nossa...Isso é muito animador.
- Nós ainda temos alguma esperança: se Karen e Hector voltarem antes que os semideuses cheguem aqui, podemos tirar Percy de cena e estaremos livres para atacar Maureen sem hesitar.
- E o que vamos fazer enquanto isso não acontece?
- Esperar. – Owen deslizou pela parede de um prédio e se sentou na calçada.
Inconformado, eu me juntei a ele.
