E

u já não estava mais me agüentando. Estávamos parados há quase uma hora e o exército de Maureen estava acabando com o nosso; eles não paravam de chegar, vindos de todas as direções, cercando o Olimpo. Pelo menos eram só os monstros criados pela tatuagem amaldiçoada que estavam surgindo; nossos guerreiros, inteligentemente, deviam estar dando atenção somente aos semideuses. Era revoltante ter que ficar assistindo enquanto Manhattan era destruída. Eu podia ver os quatro gigantes praticamente agrupados nas margens do rio Hudson, nas proximidades do Chelsea. Os filhos de Atena deveriam separá-los, mas era óbvio que eles não estavam tendo sucesso. Não dava para ver o que eles estavam fazendo lá embaixo, mas os gigantes estavam enfurecidos destruindo os prédios com chutes e tapas. Havia muito barulho vindo do Rockefeller Center, onde os telquines deveriam estar. Uma espécie de nuvem de areia cobria aquela região. "É um bom sinal. Significa que estão dizimando os monstros.", René, filho de Hefesto, me disse. Assim como eu, ele também estava louco com aquela situação. Ele tinha um detonador nas mãos; assim que Percy estivesse a salvo, todo o perímetro do Empire State ia explodir.

- Eles devem ter tido algum problema. – me levantei, impaciente.

- Quem? – Owen perguntou.

- Karen e Hector. Eles estavam com o lençol negro; podiam entrar no cofre de Apolo diretamente, certo? O que pode estar demorando tanto?

- Talvez eles já tenham voltado para a cidade. Só não estão conseguindo chegar até aqui.

- Ou talvez Maureen tenha mandado alguém ou alguma coisa para Chicago para impedi-los de trazer a Dádiva de volta. – Owen ergueu as sobrancelhas. – Ela não está sempre uns vinte passos a nossa frente?

- Eu espero que você esteja errado, Nico... – ele estremeceu e abraçou os joelhos.

Eu não teria reclamado daquela calmaria se tivesse idéia de que as coisas iam passar daquilo para o verdadeiro caos logo depois. Não tenho certeza de como começou, mas a primeira coisa que eu vi foi uma saraivada de flechas vinda de um prédio a umas cinco quadras de distância do Empire State Building; logo em seguida mais flechas foram atiradas dos prédios mais próximos. Nossas defesas haviam sido acionadas, mas eu ainda não conseguia ver o que estava acontecendo. O walkie-talkie do Owen chiou e eu só escutei ele respondendo "Não é possível!".

- O que foi?! – perguntei.

- Você: - ele apontou para René. – é melhor guardar esse detonador. Tem um grupo grande de semideuses vindo para cá; vamos ter que entrar em ação.

- Cara, pense bem no que nós estamos fazendo... – René estava tenso. – Se nós explodíssemos tudo agora, venceríamos. Estamos pondo toda a civilização ocidental em risco para salvar uma pessoa e nós nem sabemos se ele ainda vai voltar a ser o que era antes.

Eu dei um passo a frente, pronto para discutir com René, mas Owen segurou o meu ombro e me lançou um olhar de aviso.

- São as ordens que recebi até agora. – ele explicou ao René. – Já estava tudo planejado e mudar a estratégia vai atrapalhar tudo. Vamos esperar mais um pouco pela Dádiva.

- Beleza. Só espero que a culpa não caia sobre mim depois.

- Isso não vai acontecer. Talvez seja melhor você me dar o detonador. – Owen estendeu a mão.

René pareceu se sentir insultado, mas eu achava que Owen estava agindo certo; eu não confiava no temperamento do René. Depois de hesitar um pouco, ele entregou.

- Agora avise aos seus irmãos para se deslocarem; vamos pôr em prática a estratégia beta. Nico, nós vamos entrar agora.

Maureen não pareceu surpresa de nos ver por ali. Ela se virou ansiosa para os seus guerreiros que chegavam com alguns dos nossos em seu encalço. Conforme a minha equipe chegava, nós liberávamos os que haviam perseguido os aliados de Maureen para voltar para os seus postos; alguns deles quiseram ficar, como Eve. Hannah e alguns dos arqueiros que estavam nos prédios também desceram para nos ajudar. Maureen pegou a flauta de Julia Hawkins e começou a tocar, fazendo com que os monstros formassem uma barreira nos impedindo de alcançar as portas do Olimpo. Raphael veio para o meio da batalha.

Quase todo mundo já estava ocupado com um adversário. Eve veio desde sabe-se lá onde lutando com Allan. A maldição de Aquiles não estava dando tanta vantagem assim a ela; Allan devia estar equipado com pelo menos cinco Dádivas e o jeito como ele atacava me fez perceber que ele esteve se fingindo de fraco durante todos aqueles anos no acampamento. Além de ser extremamente ágil, seus golpes eram precisos; ele passava a maior parte do tempo na defesa e só atacava quando tinha certeza de que aquele golpe realmente prejudicaria o oponente. Antes eu duvidava de que tinha sido ele quem havia deixado Eve naquele estado pouco antes de ela ser levada para o mundo inferior, mas, assistindo aquela luta entre os dois, eu só podia agradecer aos deuses por ela ter a maldição de Aquiles. Ele não parecia saber disso, só parecia confuso toda vez que sua espada ricocheteava antes de tocar na pele de Eve. Aquelas Dádivas pareciam deixá-lo mais resistente também; por mais que Eve o levasse para longe de Maureen, ele sempre dava um jeito de tentar ultrapassar a barreira dos monstros.

Raphael Young se preparou para lançar mais um dos seus truques para cima de nós, mas eu investi contra ele antes que ele pudesse fazer alguma coisa. Ataquei com Stygian sem piedade, o objetivo era não deixar ele se concentrar nas suas habilidades. Ele confiava tão cegamente nelas que naquele dia nem mesmo carregava uma espada, foi Maureen quem atirou a dela para ele quando viu que eu estava me aproximando. Apesar de tudo, Raphael era um oponente difícil; era cheio de artimanhas e seus golpes eram fortes. Passado o susto inicial, ele já conseguia bloquear e devolver os meus ataques com muita rapidez; era como lutar contra a minha imagem no espelho. Nenhum de nós conseguia fazer mais do que arranhar de leve um ao outro e não íamos agüentar mais muito tempo daquela luta.

Vi alguns filhos de Hefesto se esgueirando pelas esquinas, carregando fogo grego. Também vi alguns nas coberturas dos prédios. Deviam estar pensando em uma maneira de destruir a barreira dos monstros. Mas não seria tarefa simples; nossos guerreiros estavam bem ali, tentando arrastar os inimigos para longe, e destruir os monstros ia nos atingir também.

Eu sabia que Maureen estava se contendo ao máximo para não interferir. Eu podia ver os olhos dela percorrendo todo o campo de batalha, atentos a todos os movimentos; seus punhos se fechavam toda vez que um dos seus aliados chegava bem perto mas não conseguia passar. Não estávamos ganhando aquela batalha, mas estávamos atrasando Maureen.

Hannah estava tendo problemas. Por mais que ela tivesse sido treinada, ela continuava não sendo uma espadachim à altura dos guerreiros de Maureen. Dois garotos e uma garota a estavam cercando, o que só podia significar que Maureen queria capturá-la outra vez. Owen até tentava ajudá-la, mas sempre vinha alguém para tirá-lo dali. Eu precisava fazer alguma coisa; se Maureen usasse Hannah como refém, nossa situação ficaria ainda pior, se é que isso era possível; mas eu também não podia deixar Raphael entrar em ação. Fiz umas manobras um tanto arriscadas para tentar encontrar alguém que pudesse me ajudar: baixei a minha defesa por uma fração de segundo para empurrar Raphael com a lateral do corpo. Deu certo; ele cambaleou por tempo o suficiente para eu achar Lionel brigando com os seus irmãos aliados de Maureen. Não dei tempo para Raphael se recuperar e investi contra ele levando-o para o mais perto de Lionel possível, o que não foi tarefa fácil: ele tinha a mesma estatura que eu, mas era infinitamente mais pesado; era como empurrar um carvalho. Quando eu consegui chegar mais ou menos onde eu queria, meu corpo todo doía e eu mal conseguia respirar; Raphael fez um corte profundo no lado direito do meu tórax, mas eu consegui bater na cabeça dele com o cabo da espada e ele caiu no chão, completamente tonto.

- Chame o Sam! – disse enquanto golpeava um dos caras que estava atacando Lionel.

- Ele está cuidando dos gigantes; precisam dele lá! – Lionel tomou a lança de um dos inimigos e perfurou a coxa do outro.

- Não, precisamos dele aqui! Só ele pode combater o Young; eu preciso cuidar de outras coisas.

Lionel finalizou perfurando a barriga do dono da lança. Ele me encarou sério, depois pegou o walkie-talkie de má vontade e disse:

- O Nelson não vai gostar disso. – falou rapidamente com quem estava do outro lado e me informou que Sam estava a caminho.

- Valeu! – avaliei rapidamente a situação de Raphael e concluí que teria tempo até ele se recuperar.

Corri até onde Hannah estava, abri uma pequena fenda do asfalto e seis guerreiros esqueleto das cruzadas surgiram. Eles se posicionaram em fila diante de mim e eu ordenei:

- Protejam aquela garota! – e apontei para Hannah.

Eles foram até lá imediatamente e os três que estavam atacando Hannah fugiram às pressas, de medo, eles nem mesmo lutaram. Eu não os culpo; até Hannah se encolheu toda quando os viu chegando.

- O que isso significa? – ela me perguntou, esfregando os braços e tentando não esbarrar em nenhum deles.

- Maureen ainda não desistiu de você. Melhor tomar cuidado.

- Estou tomando cuidado, ao contrário de você. – ela olhou para o meu corte.

- Ah...Não é tão ruim como parece.

Hannah se aproximou mais de mim para dar uma olhada.

- Isso está bem feio, Nico. Vá para o Plaza; os filhos de Apolo vão cuidar disso bem rápido.

- Não, eu só preciso de um pouco de Néctar. Você tem?

Ela me entregou um cantil e eu tomei um gole um pouco maior do que deveria; me senti com febre.

- Assim que as coisas se acalmarem um pouco vá para o Plaza.

- Tudo bem. – menti.

- Prometa. – ela apertou o meu braço e me encarou com severidade.

Olhei para o lado e vi Raphael começando a se levantar. Afastei a mão de Hannah e disse:

- Só vou ser sincero com você daqui pra frente, Hannah. – e corri de volta para a minha batalha.

Maureen olhou para mim e deu um grito de frustração.

- YOUNG! LEVANTE E ACABE COM A RAÇA DO DI ANGELO AGORA!

Raphael não estava tão mal quanto deveria; parecia que ele havia acabado de despertar de um cochilo repousante e não de um desmaio depois de uma pancada na cabeça. Achei que eu não teria forças para manter o ritmo de antes, mas foi consideravelmente fácil segurar e repelir o ataque do Raphael. Ele não parecia ter problemas para se concentrar em uma luta enquanto uma histérica ficava berrando ameaças para ele; na verdade, isso parecia motivá-lo. Ele estava investindo contra mim a partir de todos os ângulos possíveis: tentava acertar minha barriga, meu pescoço, minhas pernas. Estava ficando impossível me defender; ele conseguiu me deixar com vários talhos espalhados pelo corpo. Até que eu fui obrigado a me jogar no chão para não ser partido ao meio.

- Ainda bem que Maureen desistiu de tentar trazer você para o nosso lado. – Raphael disse, com sua lâmina apontada para o meu pescoço. – Matar você vai ser como ganhar um troféu: o meu primeiro grande feito como o novo deus da guerra!

- Vai sonhando! – antes que Raphael rasgasse minha garganta, uma lança feita do asfalto surgiu e pareceu atravessar o braço dele, fazendo-o recuar e a espada de Maureen ir parar bem longe.

Sam estava poucos metros atrás de nós, completamente detonado da luta com os gigantes, mas parecia mais satisfeito do que nunca.

- Pirralho...! – Raphael tinha puro ódio no olhar.

- Obrigado por ter segurado ele até eu conseguir acabar com metade dos gigantes. – ele me disse enquanto eu levantava. Olhei para trás e vi apenas dois gigantes perto do rio. – Pode deixar que eu assumo daqui pra frente. – ele me lançou um dos seus sorrisos típicos de "pirralho" e partiu para atacar Raphael.

Não perdi mais tempo e corri em direção ao Empire State Building. Eu estava fraco, mas consegui abrir uma fenda grande o suficiente para mandar um daqueles monstros que formavam a barreira direto para o mundo inferior. Os outros se agitaram e isso me permitiu ultrapassar o cerco e ficar cara a cara com Maureen.

- Isso acaba aqui. – declarei. – Aquele monstro só serviu de exemplo; vou mandar você e o resto deles para o mesmo lugar se não se render. – tudo bem, eu estava blefando, mas eu precisava arriscar.

Maureen não se abalou. Ela continuou parada diante de mim com os braços cruzados e me encarando com aquele olhar frio e assassino. Isso só me fez perceber o quanto eu passei a temê-la; antes eu apenas a desprezava.

- Acho que você ainda não entendeu que isso não é um jogo, Di Angelo. Eu avisei para vocês não interferirem. Agora eu sou obrigada a deixar a "sutileza" de lado. – ela levou a flauta de Julia Hawkins aos lábios e tocou uma melodia bonita, mas um tanto macabra.

Foi como se eu tivesse adormecido por alguns instantes. Todo aquele barulho da batalha se transformou no silêncio mais absoluto e até mesmo o asfalto parou de sacudir devido à luta de Sam e Raphael. Talvez todos tivessem adormecido junto comigo. O negócio é que quando eu finalmente voltei ao normal, sabe-se lá quanto tempo depois, os meus amigos estavam todos olhando para cima e apontando para alguma coisa, boquiabertos; Maureen estava dando tchauzinho para mim de dentro do elevador do Empire State Building, pouco antes de a porta fechar; e Percy estava escalando o prédio em direção ao Olimpo.

Imagine uma versão sombria e tremendamente esquisita de King Kong; a cena que eu estava presenciando era algo do tipo. Percy não escalava rápido; na verdade ele era desajeitado e ficava escorregando bastante; ele quebrava as janelas e usava as salas como apoio para suas patas. Eu estava me perguntando como ele chegaria até o Olimpo já que havia um vazio considerável entre ele e o topo do Empire State Building, mas Maureen não o mandaria fazer aquilo se não tivesse certeza de que ia funcionar.

As lutas pararam por pouco tempo. Depois de todo mundo ter dado uma olhada no que estava acontecendo, voltaram a duelar. Raphael e Sam estavam destruindo Manhattan completamente; eu não conseguia mais vê-los, só escutava o barulho e via os prédios desmoronando. René deu as ordens e os seus irmãos estavam usando tudo que tinham contra os monstros da tatuagem amaldiçoada. Eve e Allan continuavam naquela luta tão rápida que eu mal podia acompanhar seus movimentos.

Eu estava em choque. Maureen estava bem na minha frente e eu não consegui detê-la. Ao invés de agir eu fiquei me culpando por tudo ter dado errado. Foi Hannah quem me tirou daquela:

- Nico, a minha família está lá em cima! – ela me sacudiu. – Dê um jeito no Percy; eu vou atrás da Maureen!

- O quê?! Mas é claro que não!

- Ela vai matá-los!

- Hannah, Maureen está sozinha contra todos os Olimpianos; não importa quantas Dádivas ela tenha, ela não pode acabar com todos eles!

- Eu não vou esperar para ver! – e saiu pisando duro em direção ao elevador. Eu fiquei tentando segurá-la, mas ela me batia.

- Tenha paciência, filha de Hera. – uma voz bonita e severa falou.

Não sei explicar o motivo, mas eu simplesmente sabia que não era uma pessoa qualquer falando. Nem mesmo era uma pessoa; era uma divindade. Uma mulher de mais ou menos vinte e cinco anos estava parada na porta do Empire State Building; ela tinha cabelos vermelhos, era alta, usava um vestido prateado e carregava um arco. Junto com ela havia mais umas vinte garotas e alguns lobos.

- Lady Ártemis. – eu fiquei praticamente sem voz. Era a primeira vez que eu ficava cara a cara com ela desde que Bianca se juntou às Caçadoras. Me senti péssimo, lembranças ruins começaram a me assombrar como já não faziam há algum tempo.

Ártemis não lançou mais do que um olhar de relance para mim. Ela se dirigiu até Hannah e prosseguiu:

- Me perdoe pela demora, eu tinha os meus próprios inimigos para combater. Mas agora vou ajudá-los. Sua família ficará segura, assim como o Olimpo.

Hannah começou a responder, mas outra voz surgiu e falou primeiro.

- O que isso significa?! – Annabeth tirou o boné da invisibilidade e marchou até Ártemis, indignada. – Como você vai nos ajudar?

- Não há espaço para sentimentalismo numa situação como essa, Annabeth.

- Porque é uma guerra? Podia ser o fim dos tempos! Mas isso não mudaria a minha forma de pensar. Percy não mudou a dele na última guerra. É por dar valor à vida de todos que ele se tornou um grande herói.

- Eu valorizo sim a vida de todos. Mas eu sei reconhecer uma causa perdida e eu não vou arriscar toda uma civilização para poupá-lo.

- Causa perdida...?! Como você ousa?! – Annabeth quis avançar para cima da deusa, mas eu a contive.

- Annabeth, não é assim que nós vamos resolver isso. Por favor, se controle! – não foi nada fácil impedi-la de atacar Ártemis, mas parecia que a mesma também estava fazendo esforço para controlar a si mesma.

- Não estou aqui para pedir permissão, Annabeth. E não posso perder mais tempo. Pense na família de Hannah: se o monstro chegar até o Olimpo, eles serão mortos.

Annabeth e Hannah trocaram um olhar receoso. Annabeth deve ter reconhecido que não seria justo pedir que Hannah cedesse porque disse:

- Tem que haver outra maneira. – ela havia começado a chorar.

- Não há. – Ártemis nos deu as costas e se dirigiu às Caçadoras. – Se posicionem.

As garotas se organizaram numa espécie de losango torto, como se quisessem acompanhar o formato de monstro de Percy. Ártemis se colocou bem no centro da formação e sacou uma grande flecha que brilhava e parecia ser feita de um céu noturno. As outras colocaram em seus arcos flechas prateadas que não pareciam mágicas, mas mesmo assim pareciam mortais. Annabeth não olhou; escondeu o rosto nas mãos enquanto chorava. Talvez aquilo não fosse fazer a menor diferença, mas Ártemis não parecia se sentir tranqüila naquele momento; sua expressão simplesmente não correspondia ao que ela disse à Annabeth. Eu queria muito impedi-la de alguma forma, mas não fiz nada por dois motivos: primeiro porque eu sabia que ela não ia dar mais valor a minha opinião do que deu a de Annabeth e segundo porque eu não podia menosprezar a vida da família de Hannah. Por dentro eu estava em guerra comigo mesmo e, quando Ártemis e as Caçadoras miraram, eu sabia que ia me odiar para sempre depois daquilo. Covardia ou não, eu fechei os olhos. O som que eu ouvi em seguida não foi o que eu estava esperando:

- Não! Há outra maneira!

Quando abri os olhos, vi Hannah desmanchando a linha de frente das Caçadoras e parando em frente à Ártemis.

- Como disse, filha de Hera? – a deusa fez um gesto com a mão para que as garotas abaixassem os arcos.

- Eu disse que há outra maneira de resolver isso. Nós já tínhamos um plano antes de a senhora chegar, Lady Ártemis, e vamos continuar com ele.

- E que plano é esse?

- Um filho de Apolo recebeu uma Dádiva capaz de anular os efeitos da tatuagem amaldiçoada e foi até Chicago para buscá-la. Nós vamos tentar controlar o Percy até que ele volte.

- Lamento. Mas vocês já tentaram tudo que estava ao alcance de vocês e falharam. Isso não é mais responsabilidade dos mortais. Agora nos dê licença, filha de Hera. – Ártemis tocou de leve no braço de Hannah, fazendo com que ela se deslocasse rapidamente até onde eu estava. Elas se posicionaram outra vez, puxaram o batente de flecha e dispararam.

Mas as flechas nunca atingiram Percy. Porque no último segundo uma enorme fenda se abriu bem diante da formação e sombras sugaram as flechas para o mundo inferior.

Eu só me dei conta de que fui eu quem fez aquilo porque todo mundo ficou me encarando de queixo caído. Foi só depois disso que eu me senti fraco e tive a sensação de que uma corrente elétrica esteve percorrendo o meu corpo. Eu cambaleei e Hannah e Annabeth vieram me apoiar. Ártemis franziu o cenho e veio marchando na minha direção com cara de quem ia me matar.

- Obrigada, obrigada, obrigada! – Annabeth falou baixinho enquanto me abraçava.

- Você é exatamente como o meu irmão descreveu, filho de Hades: ousado e rebelde. Mas, ao contrário dele, eu não acho isso engraçado. – Ártemis estreitou os olhos e apontou para Hannah e Annabeth, afastando-as de mim. Logo em seguida sua mão ficou em formato de garra e eu senti uma dor absurda.

- Lady Ártemis, pare! – uma voz gritou.

A deusa obedeceu e eu caí de cara no chão. Aquilo era diferente de todo tipo de dor que eu já havia sentido, parecia uma cãibra generalizada e cem vezes mais dolorosa. As garotas correram para perto de mim.

- Nico! Nico! Você está bem?! – Hannah deu tapinhas no meu rosto, aflita.

Eu estava fraco demais até para responder.

- O que você fez com ele?! – Annabeth encarou Ártemis.

- Annabeth, calma! – a voz que eu ainda não estava reconhecendo falou. – Ele vai ficar bem.

E eu estava mesmo melhorando. Elas ficaram observando em silêncio enquanto eu recuperava o fôlego. Hannah me deu um pedaço de Ambrosia. Quando minha visão não estava mais tão turva, eu me surpreendi ao ver Thalia ao lado de Ártemis.

- Thalia, você...você está melhor? – perguntei, com a voz fraca.

- Estou sim. – ela sorriu. – Os filhos de Apolo fizeram um excelente trabalho. Agora nós precisamos ajudar o Percy.

- Você trouxe alguma novidade? – Ártemis perguntou a ela.

- Trouxe: eles não tentaram tudo que estava ao alcance deles para parar Percy. Tem mais uma coisa.

- Thalia, por favor...

- Confie em mim, Lady Ártemis! – sem dizer mais nada, Thalia pegou Hannah pela mão e a levou para o lado de fora.

Thalia ficou falando e apontando para Percy durante algum tempo. Quando ela terminou de falar, Hannah a encarou, apreensiva. Thalia assentiu, otimista. Depois voltou para o lado de Ártemis e disse:

- Senhora, nós vamos precisar da sua ajuda para tirar esse pessoal daqui. Precisamos dessa área livre. Pode fazer isso?

- Claro. – e fez sinal para as Caçadoras a seguirem.

Em pouco tempo elas conseguiram fazer os inimigos recuarem, os atingindo com suas flechas; nossos guerreiros foram os maiores beneficiados. Thalia pegou a mão de Hannah outra vez e disse "Agora". As duas olharam para o céu, e poucos segundos depois começou a chover.

"Chover" é um eufemismo perto do que aconteceu de verdade; foi praticamente um dilúvio, era como se uma cachoeira estivesse caindo do céu. O Empire State Building tremeu: Percy, que estava quase no topo, começou a escorregar e suas patas imensas estavam se agarrando a tudo para que ele não caísse.

- Ele não vai desistir. Maureen o hipnotizou com aquela flauta negra. – disse Hannah.

- Ele vai descer. Não importa como. – Thalia o encarou, decidida. – Espero que o meu pai tenha ensinado um truque ou outro para a sua mãe, Hannah; se sim, espero que ela tenha ensinado a você. Agora concentre-se!

As duas fecharam os olhos e um trovão ribombou ao longe.

- Foco, Hannah. Tente canalizar suas energias. – Thalia reforçou.

Hannah apertou os lábios e algum tempo depois vieram relâmpagos fracos e dispersos.

- Quase lá. – Thalia estava a ponto de esmagar a mão de Hannah.

A chuva ficou ainda mais intensa, os clarões davam a impressão de que era dia e os trovões ficaram quase ensurdecedores. De repente tudo isso cessou por uma fração de segundo e um raio atingiu Percy em cheio, derrubando-o no chão com um estrondo. Thalia e Hannah correram bem a tempo de não serem esmagadas. Eu e Annabeth ficamos com os cabelos arrepiados. Eu havia sentido pelo menos um pouco daquela eletricidade e já foi bem ruim para mim, mas Percy nem mesmo desmaiou. Ele ficou deitado sobre a cratera que ele abriu no asfalto, parecendo apenas atordoado.

- Então essa era a sua grande idéia?! – Annabeth indagou Thalia, olhando para Percy, chocada.

- Vamos mantê-lo sob controle. – Thalia garantiu, parecendo satisfeita.