-G

rande Hannah! – Owen veio até nós atravessando a chuva, dando risadas.

- O quê? – Hannah ainda estava confusa com o que tinha acontecido.

- Eu vi o seu show celeste. O raio foi poderoso, mas a chuva...foi linda! – tive a impressão (quase certeza) de que ele queria completar a frase com "linda como você", mas acho que ele tinha noção de que o momento não era adequado. – Foi como a chuva que Hera provocou no Jardim das Hespérides. Zeus a pediu em casamento logo depois. – ou não. Owen tinha que ficar babando em cima de Hannah a todo instante.

- Ah... – Hannah ficou sem graça.

- Enfim, vocês duas fizeram um ótimo trabalho. O Olimpo ficará seguro por mais um tempo.

- Mas Maureen conseguiu passar; ela já está lá em cima. Não devíamos mandar uma equipe até lá? – perguntei.

- Eu tentei falar com o John, mas parece que as coisas estão muito complicadas para ele e os outros filhos de Atena. Alguém disse que chegaram reforços da Maureen.

- Os que não estavam na base. – deduzi.

- Pois é. Não posso esperar as ordens do John. Por enquanto, eu estou no comando. Mandei metade dos filhos de Hefesto dessa área e do Rockefeller Center para o rio Hudson. Só há telquines no Rockefeller Center; é só uma questão de tempo até que a área esteja limpa. O pessoal do Central Park está quase sobrecarregado e, se as coisas se complicarem por lá, eu não vou ter reforços para mandar. Ainda vou precisar de uma equipe aqui para impedir que outros se juntem à Maureen no Olimpo, caso consigam passar pelos guerreiros do perímetro. Annabeth, você seria muito útil junto com os seus irmãos.

- Não vou deixar o Percy. – ela disse logo.

- Foi o que eu pensei. – Owen suspirou. – Então fique aqui, use seu boné da invisibilidade e surpreenda qualquer um que tentar passar por essas portas.

Annabeth se deu por satisfeita e desapareceu.

- Hannah e Thalia, vocês vão ficar aqui para manter o Percy sob controle, certo? – elas concordaram. – E você, Nico...

- Eu vou ficar aqui também.

- Não, você vai para o Plaza. – foi Hannah quem respondeu, autoritária. – Owen, ele se machucou feio lutando com o Raphael Young, depois abriu fendas para o mundo inferior e foi atacado por Ártemis. Ele precisa se recuperar. Diga isso a ele.

Eu não sabia como começar o meu protesto e Owen falou primeiro:

- Nico, eu não vou mentir e dizer que não precisamos da sua ajuda. Mas a verdade é que as coisas vão piorar e vamos precisar de você muito em breve. Então dê um tempo no Plaza e descanse o máximo que puder agora, porque eu não faço idéia de quando você vai ter outra oportunidade assim.

Owen, Hannah e Thalia ficaram me encarando com aquelas caras de mães mandonas e eu não tive escolha senão fazer o que eles queriam.

- Se alguma coisa acontecer, me chame. – eu disse ao Owen.

- Vou chamar. Agora vá.

Ironia do destino ou não, eu fiquei na fila das suturas bem ao lado de Dione. Ela estava lá com um corte acima da sobrancelha e um talho na perna. Os feridos eram muitos e os curandeiros de Apolo estavam sobrecarregados, por isso organizaram um sistema de filas de acordo com a necessidade de cada um. Hannah tinha toda razão: eu não tinha a menor condição de lutar; entrei no Plaza cambaleando e me levaram para um dos quartos com duas camas. Dione estava descansando na outra.

- Você está péssimo. – ela, por ser muitíssimo mais civilizada do que eu, começou a falar.

- É, eu... As coisas estavam difíceis perto do Olimpo. – fiquei nervoso quando o filho de Apolo que tinha me levado até lá saiu, me deixando sozinho com Dione. – Mas, e você? Também está complicado no Central Park?

- Demais. Pensamos que íamos ficar ali só para o caso de precisarem de reforços, mas parece que lá é um ponto bastante estratégico para o exército de Maureen. Primeiro vieram os telquines e já foi bem difícil lutar contra eles. Quando finalmente conseguimos dominá-los, vieram os semideuses. Maureen também tem filhos de Deméter ao lado dela, você sabe, e eles precisavam daquela área verde para pôr suas habilidades em prática. É muito difícil lutar contra um irmão, Nico... Agora eu entendo porque Barbara esteve tão deprimida nos últimos tempos. Aquela garota Karen, namorada do John, era a melhor amiga dela. Ainda bem que ela está do nosso lado porque eu acho que lutar contra ela seria mais do que Barbara poderia suportar.

- Tem razão. Barbara havia me contado isso. Acho que as duas ainda nem tiveram tempo de conversar.

- E não acho que vão poder fazer isso tão cedo. Agora a pouco tinha um cara acabando com as Dríades usando uma espécie de lança chamas; devia ser uma Dádiva. Felizmente, começou a cair a maior chuva que eu já vi e ele não conseguiu mais usá-lo.

- Foi Hannah quem fez. – lembrei, meio sonhador.

- O quê?

- A chuva. Hannah fez chover.

- Mesmo? Como Hera no Jardim das Hespérides?

- Exatamente.

- Uau... – ela disse, mas não parecia tão impressionada.

Logo vieram dois filhos de Apolo para suturar os nossos cortes e nos dar um pouco de Ambrosia e Néctar. Ficamos em silêncio enquanto eles faziam o trabalho, não só porque eles estavam nos atualizando sobre a guerra, mas também porque Dione havia deixado o clima pesado com o tom que ela usou.

- Dione, eu... - falei quando os filhos de Apolo saíram. - Nós nunca conversamos sobre o que aconteceu...

- A gente não precisa falar. - ela ficou encarando o teto, inexpressiva.

- Precisa sim. Eu não fui legal com você.

- Não é bem assim. No fundo eu sabia que você não sentia o mesmo, mas ainda sim... Sei lá. Pensei que as circunstâncias fariam você mudar de idéia.

- E eu mudei de idéia, pelo menos durante algum tempo. Eu queria que fosse diferente, Dione, queria mesmo. - disse com sinceridade.

Ela finalmente olhou para mim e sorriu de leve.

- Eu preciso te confessar uma coisa. - ela falou como se estivesse segurando o riso.

- O quê?

- No seu aniversário, quando a gente se beijou, eu...Bom, fui eu que mudei de idéia.

Eu fiquei tão sem graça que parecia que eu estava queimando, como se tivesse comido muita comida dos deuses. Eu até tentei fazer um comentário desencanado para entrar no clima de descontração em que Dione se encontrava, mas só consegui ficar gaguejando enquanto ela morria de rir. Eu deixei ela zombar de mim porque...bom, porque eu meio que merecia aquilo.

- Desculpa! - ela falou sem conseguir parar de rir. - Eu não imaginei que você fosse reagir assim. - depois de uns cinco minutos de uma crise de riso, ela enxugou as lágrimas e se acalmou.- Você ficou chateado?

- Hã...Não. - menti.

- Não mesmo? Porque eu não sei se você entendeu o que eu quis dizer.

- Eu entendi perfeitamente que você achou meu beijo tão ruim que perdeu o interesse em mim.

- O quê? Não! Não tem nada de errado com o seu beijo, Nico.- ela riu, mas ficou séria logo depois. - O que aconteceu naquele dia me fez perceber que o que eu sentia por você não era bem o que eu imaginava. Talvez eu já tenha sido apaixonada por você, há bastante tempo atrás; mas muita coisa mudou e isso também. Eu esperava sentir alguma coisa muito forte quando ficamos juntos, mas eu não senti. Na verdade, eu só conseguia pensar...em outra pessoa.

- Quem? - foi automático, não consegui conter minha curiosidade.

- Isso não importa. - foi a vez de Dione ficar vermelha.

- Ah... - eu estava tão, tão, tão aliviado! Meu beijo não era uma droga e eu não havia partido o coração de Dione; passei a acreditar que há esses dias excepcionais em que a vida lhe sorri.

- Aposto que foi a mesma coisa para você. Sabe como é, naquele dia você estava pensando em Hannah.

- Estava. - não tive vergonha de admitir.

- Espero que dê tudo certo para vocês, Nico. Espero mesmo. - ela sorriu para mim e estendeu a mão para que eu segurasse. Eu a peguei e sorri de volta.

E, pela primeira vez em muito tempo, ficar perto de Dione não me deixou desconfortável. Muito pelo contrário, eu sentia que estava ali com uma grande amiga, como Eve. Eu fiquei tão relaxado que demorei para voltar à realidade quando uma mensagem de Íris se formou na nossa frente. Achei que fosse Owen me chamando de volta, mas não foi nada parecido.

Na entrada do Olimpo, logo após a escadaria, Maureen estava frente a frente com uma mulher alta de cabelos escuros e cacheados e olhos cinzentos. As duas eram o tipo de pessoa que você sabe que é inteligente só de olhar. Atena parecia estar tentando encontrar o olhar da filha, mas Maureen continuava desviando.

- Você não vai me matar. – Maureen afirmou, tentando parecer confiante, mas sua voz tremia.

- Não. E nem os demais olimpianos, pelo menos por enquanto. Eu pedi a eles para que me dessem uma chance para tentar convencê-la de que está cometendo um grande erro.

- Está perdendo seu tempo. Eu não vou voltar atrás. Sei que estou fazendo a coisa certa.

- "A coisa certa"? – Atena sorriu de um jeito dolorido. – Você matou, Maureen. Você roubou, você traiu, você mentiu. O que há de certo em qualquer um desses atos?

- Os fins.

- Me destruir é um desses fins.

- Zeus destruiu Cronos.

- Você acha que me pareço com Cronos? – era estranho ver Atena daquela maneira; das outras vezes em que eu a vi ela estava sempre muito segura de si e parecia que nada poderia atingi-la; naquele momento ela parecia muito frágil, tanto física como emocionalmente.

- Seus erros são diferentes dos dele, mas são igualmente importantes.

- É por causa de um erro meu que você chegou até aqui? – Maureen não respondeu, apenas suspirou. – Nós podemos corrigir isso, Maureen. Apenas me diga como ajudá-la e eu...

- Não dá para corrigir nada! – Maureen gritou, entre lágrimas. – Não importa quantas guerras aconteçam nem todo o sacrifício que nós, semideuses, fazemos por vocês; tudo que ganhamos é um prêmio de consolação! Somos um mero exército! Nossos pais mortais são apenas diversão para vocês! E no final nós temos uma vida curta e infeliz! Vocês, deuses, levam muito a sério o significado da palavra; vocês governam o mundo e deveriam cuidar dos mortais e não usá-los para satisfazer seus caprichos!

- Maureen...

- Eu participei da guerra contra Cronos e vi muitos dos meus irmãos morrerem. E como foi que o Olimpo retribuiu os nossos esforços? Permitindo que criassem mais chalés no Acampamento! Você é a deusa da justiça; acha que isso é justo?

- Não, eu não acho. – apesar de tudo, Atena se manteve firme. – Mas também não é justo que você nos condene por todos os males. Você se esquece de que há humanidade em nós e isso nos leva a cometer inúmeros erros e injustiças.

- Mas são os mesmos erros há milênios! Se vocês não aprenderam com eles até agora...Eu não acho que vão aprender algum dia. – o olhar de Maureen se tornou sombrio e ela estalou os dedos.

Escutei um rugido muito alto; eu não sabia se vinha da mensagem de Íris ou do lado de fora. O céu se tornou tempestuoso e raios começaram cair. A mensagem se desfez.

- Nico, o Owen... – um filho de Apolo apareceu no quarto.

- Já estou indo! – não esperei ele terminar para pular da cama.

- Eu vou mandar reforços! – Dione gritou quando eu já estava no corredor.

Peguei Ambrosia de uma bandeja no saguão do Plaza e não pensei duas vezes antes de me transportar pelas sombras.

Fui parar bem no meio da confusão. Acho que não precisei da Ambrosia. Não tenho certeza porque não tive tempo para avaliar isso, pois fui obrigado a correr para desviar de Percy que estava aos pinotes na frente do Empire State Building. Hannah e Thalia também estavam correndo por ali, mandando raios para atingir Percy; mas ele estava tão agitado que quase nunca era atingido. Owen se esgueirava pelos flancos e o espetava com sua espada na tentativa de impedi-lo de ir causar estrago outros lugares. Annabeth era incapaz de fazer outra coisa senão pedir a eles para tomarem cuidado. Fiz a única coisa que parecia estar ao meu alcance: convoquei duas dúzias de guerreiros mortos para ajudar Owen. Sabia que estava abusando dos meus poderes, então não foi surpresa nenhuma desabar no chão assim que os guerreiros nativos americanos surgiram. Eu não tive forças nem para dar a ordem, por isso eles ficaram parados, me encarando com suas órbitas vazias. Annabeth me pegou pelos braços e começou a me arrastar para longe dali, para que Percy não me esmagasse; mas isso só fez com que os guerreiros achassem que Annabeth estava me atacando, então eles vieram correndo com suas flechas e machados para atacá-la.

- Não... – tentei falar, mas minha voz era quase inaudível.

- Nico, faça alguma coisa! – Annabeth me sacudiu.

Gastei o resto da minha energia tentando fazê-los voltar para o mundo inferior, sem sucesso. Eu já estava beirando a inconsciência.

- Guerreiros! Contenham esse monstro! – Hannah gritou.

Primeiro achei que estava delirando, mas, quando Annabeth respirou aliviada, eu percebi que Hannah havia mesmo conseguido comandá-los. Eu já sabia que ela havia herdado uma porcentagem dos meus poderes quando ganhou o meu anel, mas não sabia que ela poderia controlar os mortos tão bem quanto eu.

- Ambrosia...No meu bolso... – falei para Annabeth. Ela revirou os meus bolsos e me deu um pedaço.

- Melhor? – ela me perguntou.

- Hum...Não muito. – minha cabeça ainda girava e minha visão era um borrão; levantar o meu braço era como levantar um peso de cem quilos.

- Você precisa voltar para o Plaza. – Annabeth olhou em volta como se estivesse procurando alguém relativamente desocupado; era óbvio que não havia ninguém disponível. – Hannah, venha aqui!

- Mas o Percy... – comecei a protestar.

- Os seus guerreiros vão segurá-lo por enquanto; e Thalia pode cuidar disso sozinha.

- Owen não devia ter chamado você. – Hannah disse quando chegou.

- Nós precisamos manter o Percy calmo ou então Ártemis vai voltar. – Annabeth a lembrou.

As duas me levantaram e nós caminhamos em direção ao Plaza. A Ambrosia devia estar fazendo efeito, pois eu já não precisei me apoiar nelas quando já estávamos na metade do caminho.

- Vamos voltar. Já estou melhor. – eu disse.

- Nico, vá para o Plaza e descanse. – Hannah revirou os olhos, achando que eu estava mentindo. – Ainda está tudo sob controle.

- Hã... – Annabeth estava olhando para trás com cara de susto. – Na verdade, não está.

Bom, "fora de controle" é apenas um eufemismo diante do que aconteceu nos poucos minutos em que estivemos longe. Antes Percy era o único problema naquela região, mas, de alguma forma, quando olhamos de novo nossos piores pesadelos estavam de volta: Maureen, Raphael Young, Allan Morgan e mais pelo menos quinze dos semideuses mais poderosos aliados de Maureen. Nós corremos de volta para lá.

Chegamos bem a tempo de ver Maureen soprando a flauta negra e fazendo Percy se acalmar. Allan e Raphael estavam ao lado dela; olhei em volta imediatamente, procurando por Sam e Eve e os encontrei sentados no chão como se alguém os tivesse empurrado. Os outros semideuses chegaram com suas espadas no pescoço dos nossos guerreiros; um cara grandalhão veio arrastando dois desacordados pelo asfalto. Do nosso lado, John e seus irmãos de Atena estavam na frente. Não havia mais nenhum sinal dos gigantes e o único ponto em que ainda parecia haver luta era o Central Park.

- O que você fez, Maureen? – a voz do John estava trêmula, mas ainda sim era intimidadora.

Eu sabia exatamente o que ele queria dizer: da última vez em que eu vi Maureen ela estava frente a frente com sua mãe, na entrada do Olimpo. Como ela conseguiu escapar?

- Lincoln! – ela chamou um garoto alto de cabelos escuros. Lincoln cortou a garganta do garoto que ele estava segurando, assassinando-o friamente, e foi até onde Maureen estava. – Por favor. - ele pôs a mão no bolso da calça e de lá seus dedos saíram cobertos de um pó dourado. Ele soprou e a pequena nuvem se transformou em uma imagem, como uma mensagem de Íris.

Todos nós ficamos sem fôlego ao assistirmos os Olimpianos envoltos pelas mesmas correntes que estiveram envolvendo Hannah, Percy, Thalia e eu. Mas, no caso deles, as correntes tinham quilômetros de comprimento e se enroscavam neles dos pés à cabeça, dando a impressão de que eles estavam se afogando no meio daquelas correntes de bronze. Os deuses estavam se debatendo, mas não parecia que iam conseguir se libertar. Eu tive que me conter para não perguntar à Maureen como ela havia conseguido fazer aquilo, caso contrário pareceria admiração.

- Respondendo à sua pergunta... – ela se dirigiu ao John. – Eu ainda não terminei o que vim fazer. Mas vocês podem ficar à vontade para assistir usando uma mensagem de Íris. – ela sorriu cinicamente. – Vocês podem vir. – disse para os seus aliados.

Quando Raphael fez menção de ir para o elevador, Sam se levantou num pulo para atacá-lo, mas Maureen fez um gesto pequeno com a mão e ele voou até a próxima quadra. Antes que qualquer um de nós pudesse entender o que aconteceu, John já havia matado a charada:

- Você está absorvendo os poderes deles! – ele a acusou.

- É só o começo. Agora venham. – ela chamou seus asseclas.

É claro que nós não íamos deixar aquele pessoal chegar até o Olimpo. Então fizemos uma barreira.

Foi a pior idéia de todas. Mais dois dos nossos guerreiros caíram mortos no chão.

- O que pensa que está fazendo?! – gritei, furioso, para ela.

- Saiam da frente se não quiserem ter que assistir a um verdadeiro banho de sangue. – ela ameaçou.

Não tivemos escolha e abrimos caminho enquanto os semideuses de Maureen passavam por nós em direção às portas do Empire State Building. Nunca me senti tão impotente em toda a minha vida; acho que nenhum de nós. Éramos um bando de semideuses cheios de ódio que não podiam fazer outra coisa senão cerrar os punhos ou morder os lábios. E eu nem podia usar o meu ódio como fonte de energia para mandar todos aqueles traidores para o mundo inferior porque aí eu também estaria mandando vários dos nossos amigos.

- Percy. – Maureen chamou com uma voz cantada e soprou a flauta negra. Percy começou a subir o Empire State Building outra vez.

Thalia se mexeu impaciente.

- Melhor ficar bem quieta aí, filha de Zeus. – disse Maureen.

Os semideuses caminharam lentamente até o elevador, atentos a todos os nossos movimentos, prontos para matar mais um dos nossos caso tentássemos alguma coisa. Eu estava assistindo àquela cena deprimente quando percebi que John não estava olhando para eles. Quero dizer, ele estava olhando naquela direção, mas seus olhos pareciam ter outro foco.

Demorei muito até perceber um segundo par de pés atrás de cada um dos semideuses. Esfreguei meus olhos achando que minha visão devia estar comprometida, mas eles continuavam lá. Tinha alguma coisa muito esquisita acontecendo; os pés nem mesmo eram iguais! Enquanto os pés do semideus estavam usando botas, o segundo par estava de All Star. Só compreendi o que estava acontecendo quando mãos surgiram por trás deles e os seguraram com uma gravata. E logo não eram só mãos e pés: eram os nossos aliados! E, entre eles, Karen e Klaus.

Os inimigos foram obrigados a libertarem seus reféns e o plano de Maureen estava indo por água abaixo: não tínhamos mais motivos para ficarmos parados, então corremos para o Empire State Building para mandar aqueles caras para bem longe. Antes que os alcançássemos, Maureen gritou:

- Young!

Raphael fez brotar verdadeiros icebergs de asfalto bem onde Karen e os outros estavam contendo os semideuses e isso os obrigou a correr. John chegou bem a tempo de impedir um garoto de atingir Karen com sua espada. Estava tudo uma enorme confusão. Qualquer ataque seria arriscado, já que aliados e inimigos corriam para todos os lados. Para dificultar ainda mais as coisas, Thalia atingiu Percy com um raio e ele caiu do prédio. Maureen esbravejou e gritou o mais alto que pôde:

- PLANO 18! PLANO 18 AGORA!

Depois disso ela assoviou e eu avistei sua biga azul ao longe, vindo em direção a ela.

- Ela vai fugir! – gritei, para ninguém em especial. Eu nem mesmo conseguia encontrar alguém conhecido no meio daquela loucura. Fiz o que pude para chegar até onde ela estava, mas era quase impossível correr a uma velocidade aceitável. De qualquer maneira, a biga não era para Maureen. Quando pousou, seis de seus asseclas a lotaram e ela sumiu dali em dois tempos.

Uma explosão vinda do Central Park fez o chão tremer.

- Lá! Lá! – Owen ficou apontando para a fumaça. – Equipes três e sete lá!

Por um lado, isso foi bom: o campo começou a esvaziar. Eu via algumas filhas de Afrodite aliadas de Maureen tentando fugir dali enquanto as nossas aliadas corriam atrás delas e as puxavam pelos cabelos para impedi-las; parecia um daqueles dias no acampamento em que uma acusava a outra de ter dado em cima do namorado dela. Acho que eu estava entendendo o plano 18: fugir. Os aliados de Maureen estavam tentando desaparecer no meio daquela selva de edifícios que era Manhattan. Nossos guerreiros perseguiram quantos podiam, mas eu sabia que uma hora ou outra eles os perderiam.

Começaram a atirar fogo grego por ali. Eu não sabia se era o nosso pessoal ou os inimigos. Aproveitei a fumaça para chegar sorrateiramente até Maureen. Eu estava escolhendo os caminhos mais perigosos, e por isso mesmo menos suspeitos, para chegar até ela e quase fui pisoteado por Percy quando alguém passou correndo por mim e acabou me empurrando (de propósito ou não). Eu ia deixar pra lá, mas vi essa pessoa entregando algo brilhante para outra. Quando a fumaça se dissipou mais, eu reconheci as pessoas: Owen e Hector. E o objeto brilhante era nada menos que a Dádiva perdida do Owen! Não pude ouvir bem, mas acho que Hector disse "Não fique exibindo ela desta vez." e passou a corrente fininha com o pequeno pingente de prisma para ele. Logo depois ele correu, deixando Owen encarando sua Dádiva, completamente pasmo.

Eu acabei perdendo Maureen de vista. Entrei em pânico só de pensar que eu a havia deixado escapar, mas a localizei outra vez por causa do Hector. Ele estava frente a frente com ela, encurralando-a com sua espada.

- Acabou para você. – ele disse.

- C-como você conseguiu voltar? – Maureen pareceu perplexa ao vê-lo.

- O quê? Achou que ia me parar com os seus... – Hector puxou o lençol negro de Klaus, enrolado no seu bolso, e o sacudiu. Seis garotos bastante familiares caíram de lá, amarrados juntos com uma corda. – "brinquedinhos"? – aqueles eram os garotos que explodiram a casa do Owen.

Maureen olhou para eles com desprezo e se recompôs.

- Acha mesmo que acabar com tudo que eu conquistei vai ser tão fácil assim, Madison?

- Eu nunca disse que seria fácil. Mas vai ser muito gratificante! – dito isso, ele investiu contra ela.

Como sempre, Maureen estava preparada para lutar. Mas naquele dia, por estar absorvendo os poderes dos deuses, ela estava muitíssimo mais mortal; eu não podia deixar Hector encará-la sozinho. Corri até lá e a ataquei de qualquer jeito, sem esperar uma boa oportunidade; eu queria acabar logo com aquilo, não podia permitir que as coisas piorassem. Cada investida que Maureen bloqueava era como se eu tivesse batido num bloco maciço de ferro. Minha espada só não voava da minha mão porque eu a segurava com bastante força, mas mesmo assim ela vibrava. Nem mesmo os ataques espertos de Hector a atingiam. E o pior de tudo é que eu sentia que ela nem estava dando o melhor de si naquela luta. Ela observava seus aliados fugindo e parecia apreensiva sempre que um dos nossos os impediam. Era como se ela não tivesse a menor intenção de fugir até que todos eles estivessem bem longe. Aquilo parecia mais uma distração, então eu disse ao Hector:

- Vá livrar o Percy da maldição! Eu cuido dela!

Ele não discutiu e, depois de dar uma boa pancada na cabeça dela com o cabo da espada, correu para o lugar onde Thalia ainda tentava apagar Percy. Maureen apenas cambaleou de leve com o golpe, mas eu aproveitei esse tempo para convocar alguns mortos. Primeiro foram dez.

Hector se posicionou bem no campo de visão de Percy e sacou sua tocha. Ela brilhou forte imediatamente. Percy reagiu como se seus olhos estivessem queimando e passou a arranhar desesperadamente o próprio rosto com as patas. Hector continuou se aproximando e Percy tentou fugir daquela luz, mas Owen e o que restou dos guerreiros nativos americanos o impediram de se mover muito. Thalia também mandava um raio para assustá-lo sempre que ele tentava saltar para alguma direção. Sem escolha, ele começou a destruir o asfalto com patadas, praticamente cavando uma cratera na rua. Todos tiveram que se afastar para não serem atingidos.

Maureen destruiu os meus guerreiros esqueleto com a maior facilidade. Ela os partiu em pedaços antes que eu pudesse sequer recuperar o fôlego e veio investir contra mim outra vez. Eu já não estava muito bem depois de ter convocado aqueles guerreiros e não consegui me defender antes que ela abrisse um talho acima do meu joelho. Isso fez com que ela baixasse a guarda por uma fração de segundo e eu a feri, mesmo que de muito mais leve, no pescoço e na clavícula. Eu precisava dar mais tempo aos outros, então convoquei o dobro de mortos.

Depois que Percy se acalmou um pouco, Hector voltou a apontar a tocha na direção dele, repetindo tudo outra vez.

- Não parece que esteja funcionando... – Karen observava a cena, consternada.

- Tem que funcionar! Tente de novo! – Annabeth ordenou ao Hector.

Hector tentou, mas Percy só ficava com mais raiva.

- Talvez ele não queira voltar a ser o que era antes. – disse Karen.

- O que está dizendo?!

- Estou dizendo que talvez ele não tenha mais consciência de que costumava ser um semideus. A Dádiva devia fazer essa parte dele prevalecer, mas se essa parte não está lá...

Annabeth empalideceu. Achei que ela fosse começar a chorar, mas, ao invés disso, ela marchou decididamente até ficar bem na frente de Percy.

- Escute aqui, Cabeça de Alga: você é um filho estúpido de Poseidon que salvou o mundo da destruição completa há cinco anos atrás; você tem a maldição de Aquiles; você é meu namorado e eu te amo. Trate de se lembrar de tudo isso ou então tudo que você fez no passado não vai servir de nada se você deixar Maureen te controlar para destruir o Olimpo. Você precisa voltar a ser o que era antes!

Maureen transformou os meus guerreiros em pó outra vez, lançou minha espada para longe e apontou sua espada para mim, me encurralando, e debochou:

- Você e seus poderezinhos já não são ameaça. – ela disse.

- Pelo menos eu não os consegui matando nem roubando.

- Como você acha que Zeus chegou onde está? Até mesmo Cronos matou Urano e roubou sua foice para chegar ao poder. É a ordem natural das coisas.

- Você não pode se comparar a Zeus! Ele fez o que fez para salvar os irmãos e o mundo inteiro de um tirano. Os olimpianos não são tiranos, mas se você for adiante vai nos levar de volta às trevas! Tudo isso que você armou não passa de uma maneira doentia de atender os caprichos da pessoa invejosa e megalomaníaca que você é!

- Sua opinião não me interessa, Di Angelo. Você não vai estar aqui para conhecer a nova era mesmo.

- É você quem não vai estar! Mesmo que não seja eu, alguém vai impedi-la!

- Tenho bastante certeza de que não vai ser você. – ela riu. – Acho que o seu amigo Daniel não contou a você a verdade, não é mesmo?

- Que verdade? – não me abalei; tinha quase certeza de que ela estava só blefando.

- Bem, o que você acha que acontece com as pessoas no Lótus Hotel e Cassino? Uma hora elas têm que morrer, porque, se elas não morressem, o lugar estaria explodindo com tanta gente dentro.

- E daí?

- E daí que você não é exceção. Quanto tempo você passou lá? Uns setenta anos? Você pode até ter a aparência de um adolescente, mas está podre por dentro. E os seus poderes? Eles só pioraram as coisas, sugando sua vida toda vez que você os usava. Você só não morreu há alguns anos porque resolveu ficar no acampamento e passou muito tempo sem precisar usá-los. E agora você já devia ter morrido. Fiquei esperando todo esse tempo que você simplesmente virasse pó, mas tem alguma coisa...alguma coisa mantendo você vivo. E assim que eu descobrir o que é...

Maureen foi interrompida por um rugido de Percy. Imaginei que Hector estivesse fazendo uma nova tentativa, mas era Owen quem estava diante de Percy, segurando a corrente de sua Dádiva. Eu deletei completamente aquela conversa com Maureen e só conseguia pensar "O que é que ele está fazendo?". Porque já fazia uma eternidade desde que a Dádiva dele havia sido roubada e, que eu saiba, Maureen nunca a usou. É bem provável que ela não tenha conseguido fazê-la funcionar, mas eu também pensei que ela não havia encontrado um propósito para ela. Então foi estranho ver Owen tentando fazer Percy voltar ao normal com aquele prismazinho que colocava sonhos na nossa cabeça e...Foi quando eu entendi. Owen podia nos fazer pensar em qualquer coisa; ele podia nos colocar em qualquer lugar do mundo; podia tirar qualquer coisa da nossa memória. E era exatamente isso que ele estava fazendo com Percy: as lembranças que Annabeth citou ainda estavam ali, ele só precisava trazê-las à tona.

Um brilho intenso surgiu do prisma, cegando temporariamente todos nós. Não tenho certeza, mas acho que até mesmo as minhas memórias estavam surgindo tão rapidamente que eu mal podia identificá-las. Percy sacudiu a cabeça várias vezes e depois começou a tremer loucamente.

- Agora, Hector! – Owen ordenou.

Hector se juntou a ele e foi como se a luz que saía da sua tocha queimasse Percy por inteiro. Fumaça negra começou a escapar do seu corpo e ele foi diminuindo com um grande rugido final. O monstro se desfez em uma gigantesca poça de água meio lamacenta, com algas e conchas marinhas.

- PERCY! – Annabeth correu para dentro da poça e se atirou de joelhos ao lado dele.

Maureen chegou muito perto de alcançar o seu objetivo naquele dia: me distraí completamente com toda aquela ação acontecendo e tudo que vi foi Eve se atirando em cima dela e as duas caindo no chão. Eve usava uma luva branca em apenas uma das mãos e, enquanto Maureen se debatia, ela pressionou a luva sobre o nariz dela e logo Maureen adormeceu.

- Quase... – Eve se sentou no chão, parecendo exausta e aliviada. – Maureen teria te decapitado se eu não tivesse aparecido a tempo.

- Valeu mesmo, Eve. – eu a ajudei a levantar. – Isso aí é uma Dádiva? – apontei para a luva.

- É. Peguei do imbecil do Allan.

- E onde ele está?

- Acho que fugiu. Ele é um covarde; fugir é o que faz de melhor. Ah, meus deuses! Percy está vivo! – ela se iluminou e correu para o aglomerado de gente na frente do Empire State Building.

Estava quase impossível enxergá-lo ali porque Annabeth não desgrudava dele nem por um segundo. Hannah e Thalia também estavam rindo e chorando ao mesmo tempo enquanto o abraçavam. John estava parabenizando Owen e Hector pelo ótimo trabalho e Karen chorava de alívio e dizia que ia destruir a porcaria da Dádiva dela assim que a recuperasse.

Percy estava envolvido pelos casacos esfarrapados de todo mundo e tremia de frio, mas sorria enquanto tentava acalmar Annabeth. Estava muito magro, abatido e machucado, mas eu podia ver sua aura de vida bastante intensa. Me aproximei, me ajoelhei ao lado dele e disse:

- Você vai ficar bem. – mas eu estava dizendo aquilo mais para me tranqüilizar do que a ele.

- Se é você que está dizendo...eu acredito! – ele riu e estendeu um braço para que eu o abraçasse.

Eu tive a sensação de ter deixado um peso de uma tonelada de lado. Ver o Percy esbanjando otimismo outra vez me dava a confiança de que nós podíamos resolver aquela situação. Todo o cansaço e as dores deixaram de ter tanta importância e eu me sentia preparado para qualquer luta.

Alguns semideuses ajudaram Annabeth e Thalia a levar Percy para o Plaza e estava parecendo que teríamos um pouco de paz por pelo menos algumas horas. Já não havia mais nenhum inimigo a vista, todos haviam desaparecido. Maureen continuava desacordada no asfalto. Os nossos guerreiros que não haviam partido para caçar os inimigos estavam por ali recolhendo armas e, infelizmente, alguns corpos.

- Está bem feio isso aí no seu joelho. – Hector observou.

Olhei para o corte que Maureen havia feito pela primeira vez: metade de uma perna da minha calça estava totalmente banhada em sangue e essa nem era a pior parte.

- Plaza. – Hannah começou a dar uma de mãe outra vez.

- Depois. Precisamos dar um jeito na Maureen e também libertar os deuses.

- Nós vamos fazer isso, Nico. – John falou por Karen também. – Você pode vir com a gente, Eve.

- É, pode dar um tempo. Não vai haver lutas agora. Nós precisamos descobrir o que Maureen planeja com essa fuga em massa. – disse Owen.

- Viu? Senta aí. – Hannah pressionou os meus ombros até eu cair no asfalto. Ela estava despreocupada e brincalhona como eu não via há muito tempo. – Deixa a gente dar uma olhada nesse corte. - Ela e Hector se ajoelharam ao meu lado.

Ninguém imaginaria que alguma coisa fosse acontecer naquele momento. Acho que ficaram todos anestesiados de tanta felicidade com a volta de Percy; apesar de também estar feliz, eu comecei a me sentir meio esquisito. Não sabia explicar o que era; achei que estivesse apenas começando a sentir os efeitos daquele corte, mas a sensação estranha foi ficando cada vez mais intensa. Eu tentei me manter alerta, mas Hannah apertou sem querer o machucado e eu vi estrelas diante de tanta dor. Me distraí brigando com ela enquanto Hector dava risada. Apesar disso, eu me sentia um tanto angustiado; era como se eu tivesse consciência do perigo mas não conseguisse escapar daquele clima tranqüilo que havia se instalado.

Aconteceu sem que ninguém percebesse. Eu devo ter visto um vulto, mas não dei atenção a ele. De repente Allan estava bem perto de nós, segurando um punhal contra o pescoço de Karen. Nós congelamos.

- O lençol negro! – ele falou, apertando Karen ainda mais. – Me entreguem o lençol se não quiserem ver essa daqui com a garganta cortada!

Hector pegou o lençol, hesitante. John assentiu para ele, com pesar. Sem escolha, Hector jogou o lençol para John.

- Largue ela. – John exigiu.

- Primeiro larguem todas as suas armas. – ninguém obedeceu. – Larguem as armas!

Todo mundo atirou as armas para o outro lado. Allan havia dado passos pequenos em direção à Maureen e chutou seu pé para que ela acordasse.

- Agora jogue o lençol.

- Não antes de você soltá-la. – disse John.

Karen gritou quando Allan pressionou a lâmina com força no pescoço dela.

- Eu não estou de brincadeira.

- Eu também não. – John pegou um isqueiro e ameaçou tocar fogo no lençol.

Allan entrou em pânico e se apressou em dizer:

- Tudo bem, venha até aqui. Devagar.

John caminhou até Allan, mantendo sua ameaça. Quando estavam bem próximos um do outro, Allan pediu que ele parasse. Maureen se levantou parecendo meio tonta, mas perfeitamente lúcida. Depois disso Allan estendeu lentamente a mão que segurava o punhal e foi permitindo que Karen saísse à medida em que John lhe passava o lençol. Terminada a troca, Karen se atirou nos braços de John, em prantos.

Depois disso acho que todo mundo pensou que havia acabado; que tudo que eles queriam era o lençol negro para escapar dali. Com certeza foi isso que a maioria pensou porque Hannah e Hector deram as costas e John ficou totalmente concentrado em Karen. E por que não pensaríamos que tinha acabado? Ora, todos vimos quando Allan jogou o lençol por cima dele e de Maureen. Quem iria imaginar que Maureen iria puxar o punhal das mãos dele e atirar na nossa direção pouco antes de desaparecer?

Aconteceu em pouco mais de um segundo, mas para mim pareceu que tudo estava em câmera lenta. Não sei quem Maureen pretendia atingir, se é que ela tinha um alvo, mas John e Karen, que estavam logo na frente, desviaram a tempo de não serem atingidos; alguns metros depois estavam Hannah e Hector e eles não viram o que estava acontecendo. Eu vi tudo, mas, por falta de tempo ou apenas porque eu fiquei paralisado de medo, não os alertei. Eu não pude dizer a eles para saírem do caminho. Os dois estavam completamente na minha frente e eu não pude determinar em que direção a lâmina chegaria. Eu perderia um deles naquele momento, aquela era a verdade. Minha boca se abriu no último centésimo de segundo. Eu ia dizer: "Abaixem!", mas o punhal acertou um alvo antes que eu pudesse fazer isso.

O corpo dela caiu no chão com um baque surdo. Foi só aí que as coisas pararam de acontecer em câmera lenta e todo mundo se mexeu. Eu fui o primeiro a chegar até ela; minha perna estava doendo, mas eu consegui ser mais ágil do que jamais fui.

- Eve! Eve, fale comigo! – minha voz estava trêmula.

Hannah e Hector se juntaram a mim. Owen, John e Karen correram até lá.

- Eve, está tudo bem, não está? Eles não acertaram o seu calcanhar de Aquiles, certo? – o punhal estava cravado no lado direito do tórax dela, um pouco acima de onde terminavam as costelas.

Lágrimas começaram a escorrer do rosto dela.

- Não...Eve, não! – Hannah começou a chorar e deitou a cabeça sobre o peito dela.

- Deve ter alguma coisa que possamos fazer! – eu me desesperei. – Hector, faça alguma coisa! Uma magia curativa, qualquer coisa!

Mas ele não fez nada. Ele só olhou para mim e balançou a cabeça.

- Por favor! Algum de vocês faça alguma coisa! – encarei John, Owen e Karen.

Karen apenas se ajoelhou no chão e apoiou a cabeça de Eve nas suas pernas, acariciando seus cabelos.

- Eve, reaja! Você é forte! Por favor, agüente enquanto nós procuramos uma solução...

- Nico... – ela colocou a mão levemente sobre a minha e falou com a voz fraca. – Eu sinto muito...Mas eu precisava fazer isso...Eu precisava... – a respiração dela falhou e seus olhos quase se fecharam.

- Não, Eve! – Hannah a sacudiu e ela abriu os olhos com dificuldade.

- Você... – Eve apertou o braço de Hannah. – Fique viva.

- Isso não é justo! Eu sempre fui a mais fraca, você é que deveria ficar viva!

- Hannah... – Owen tentou tirá-la de lá delicadamente, mas ela resistiu.

Os olhos de Eve foram se fechando outra vez. Não restava quase nada da aura de vida dela. Eu arfei. Hector deve ter entendido o meu gesto como o fim, porque pegou na perna dela como se tentasse mantê-la acordada. Mas Eve conseguiu abrir um pouco dos olhos pela última vez e dizer, com um sorriso leve:

- Hector...

E então dar seu último suspiro.