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annah ainda tentou sacudir Eve mais algumas vezes, na esperança de que ela abrisse os olhos novamente.

- Não! Eve, você não pode morrer desse jeito! - ela gritava. - Eu preciso de você aqui!

- Acabou, Hannah...Venha, vamos sair daqui. - Owen tentou fazer com que ela levantasse, mas Hannah se agarrou em Eve, chorando histericamente.

Hector foi até ela e ficou dizendo algumas coisas em voz baixa durante algum tempo. Ela foi se acalmando aos poucos e largou o corpo de Eve.

- Nico, leve Hannah para o Plaza e fique por lá também. - Hector me disse. - Eu vou...resolver as coisas por aqui.

Eu só podia agradecer aos deuses por Hector existir; ele era o único que estava com a cabeça relativamente no lugar para fazer alguma coisa além de chorar. Passei um braço em torno de Hannah e a levei para o Plaza.

O saguão estava lotado. Com a pausa em quase todas as batalhas, o pessoal tinha aproveitado para cuidar dos ferimentos. Hannah havia recomeçado a chorar no meio do caminho, e quando entramos no Plaza todo mundo olhou pensando que aqueles gritos eram por causa de algum machucado muito sério.

- O que houve com ela?! - uma filha de Apolo veio até nós imediatamente.

- Eve García...está morta. - a garota ficou pasma. – Você pode cuidar dela? Ela tem vários cortes e...precisa descansar.

- Claro. Venha, Hannah. – ela a levou gentilmente para o elevador.

Eu esperei para ser suturado mais uma vez. Havia muita gente esperando para ser atendida e enquanto isso eu fiquei ouvindo as notícias: o pessoal do Central Park ainda estava tendo que lidar com alguns telquines, mas os que estavam mais gravemente feridos já haviam ido para o Plaza; um grupo ia permanecer por lá mesmo que não houvesse mais sinal de inimigos, assim como em outros pontos da cidade; a captura de inimigos estava baixíssima, quase insignificante; a destruição de Manhattan, por outro lado, foi tão séria quanto na última guerra; havíamos conseguido recuperar muitas Dádivas roubadas e não havíamos perdido nenhuma.

Eu tentava me concentrar nesses assuntos porque eu não conseguiria continuar lutando se pensasse em Eve. Eu só precisava agüentar até o fim da batalha. E eu estava muito certo de que Maureen não iria passar impune por mais essa; eu podia até morrer numa luta enquanto usava os meus poderes, mas eu a levaria para morte junto comigo e garantiria que ela pagasse por tudo que fez nos Campos de Punição. Ela disse que havia algo me mantendo vivo, e naquele momento eu tinha bastante certeza de que era o ódio. O ódio dela e de tudo que ela havia feito. Mas assassinar Eve...Aquilo foi a gota d'água. E era o que me daria forças para acabar com Maureen.

Meus devaneios foram interrompidos quando o chão tremeu. Não foi nada comparado a quando Percy se transformou num monstro, mas mesmo assim o pessoal correu para as janelas para ver o que era.

Raphael e Sam ainda estavam lutando. Os dois banhados em sangue. Lionel e mais quatro semideuses estavam ajudando. Raphael lançou um olhar cruel na direção do Plaza; eu sabia exatamente o que ele pretendia: acabar com os feridos e reduzir o nosso exército a menos de um décimo do total. Talvez fosse esse o objetivo de Maureen quando bateu em retirada.

Young mandou rochas médias em direção ao Sam e os outros, só para afastá-los tempo o suficiente para ele criar uma verdadeira tsunami de escombros e mandá-la para cima do Plaza. Nos afastamos correndo das janelas e parecia mesmo que seria o fim. Lionel e os outros começaram a atirar fogo grego na tentativa de reduzir os danos, mas não ia adiantar muita coisa. No último segundo, Sam se pôs entre o espaço estreitíssimo entre o Plaza e o tsunami e ergueu uma verdadeira muralha, da altura do prédio, impedindo que o estrago fosse muito grande; mesmo assim, janelas quebraram e Sam foi atingido pelos escombros que conseguiram ultrapassar a muralha.

Quando viu Sam se esgueirando com vida por trás da muralha, Raphael se encheu de fúria e lançou a muralha sobre o Plaza. Junto com os outros, Sam fez o possível para despedaçá-la. Daquela vez as coisas não foram tão bem: os andares mais baixos do hotel tiveram suas paredes destruídas e os quartos ficaram expostos.

- Desista, garoto! – Raphael caçoou. – Você não pode me vencer. Eu tenho anos de prática e você, só alguns meses. A melhor coisa que você pode fazer agora é se juntar ao lado vencedor.

- Não deve estar falando do seu lado, é claro! – Sam rebateu.

- Esquece o que eu disse. Ninguém ia agüentar você por lá, mesmo. Você não passa de um pirralho chorão que o nosso pai escolheu para dar poderes e se divertir enquanto me assiste acabar com você.

- Pois eu acho que o nosso pai deu poderes ao Sam porque queria vê-lo acabando com você! – disse Lionel.

- Ah, mas você tinha que se meter, não é, Lionel? Como sempre você, sendo o filho sem poderes e sem nada de especial, tem que puxar o saco de alguém que valha alguma coisa! Acho que você não sabe, Sam, mas foi o Lionel quem me treinou logo no começo, do mesmo jeito que fez com você.

- É verdade. E foi a maior besteira que eu fiz na vida. Eu nem imaginava que você ia se transformar num perfeito idiota.

- Por que? – Raphael deu risada. – Porque eu estou fazendo tudo aquilo que o nosso pai mais preza?

- Você ainda se importa com o nosso pai?! É engraçado ouvir você falando dele com tanta devoção, já que é por sua causa que ele está acorrentado no Olimpo e aquela filha de Atena maluca está absorvendo os poderes dele. – a ficha só pareceu cair para Raphael naquele instante. – Se ele sempre foi um pai tão exemplar para você, porque você pretende tomar o lugar dele?

- Eu... – Raphael vacilou. – O plano sempre foi acabar com todos os deuses e Ares não poderia ser exceção.

- Você diz que Sam e eu somos fracos, mas é você que é: se sentiu ameaçado quando a Megan recebeu uma Dádiva e a matou!

Raphael ficou pálido. Eu podia dizer que ele estava mesmo vendo fantasmas.

- O quê?! – Sam encarou Lionel, incrédulo.

- Ele pensava que era o favorito do nosso pai, mas Ares o repudiou depois de assassinar sua própria irmã e foi aí que ele resolveu se juntar à Maureen.

- Cala essa boca! – a terra começou a sacudir diante do ódio de Raphael.

- Qual é o problema? Achei que você se orgulhasse muito das suas ações. Não passa de um covarde!

A morte estava quase palpável naquele dia. Mais uma vez eu a senti chegando e não pude fazer nada para impedir. Mas Raphael atacou com tanta sutileza que quem o conhecia razoavelmente bem não acharia que ele havia sido o autor. Com todo o barulho que ele estava fazendo com aquele terremoto, ninguém ouviu uma única janela se quebrar, e um pedaço grande de vidro veio voando a toda velocidade e atravessou o tórax de Lionel passando pelo lado de sua coluna.

Ele caiu de joelhos no chão, sua respiração estava irregular; Lionel ainda pôs as mãos ao redor do caco, avaliando se podia retirá-lo, mas o sangue que já havia ensopado sua camisa o fez desistir. Sam praticamente se materializou ao lado dele e alternava o seu olhar entre Lionel e o pedaço de vidro.

- Ele está ferido! Venham ajudá-lo! – um outro garoto gritou para quem estava dentro do Plaza.

Dois filhos de Apolo foram até o lado de fora e o seguraram para levá-lo para dentro, mas Lionel pediu um tempo.

- Você está se saindo muito bem. – ele disse ao Sam. – Pode acabar com ele. Faça isso por Megan, pelo nosso pai...e por mim também.

- Eu não quero ser um assassino. – o olhar de Sam estava mais assustado do que nunca.

- Eu sei. Mas é a única maneira de detê-lo.

Sam parecia estar em conflito entre seguir os seus princípios e realizar o último pedido de Lionel.

- Você não é igual a ele, Sam. – Lionel o encarou com firmeza. – O fato de o nosso pai ter dado a vocês a mesma Dádiva foi uma forma de mostrar que você é melhor do que ele: mais corajoso e com o espírito verdadeiro de um guerreiro de Ares.

Lionel tossiu e sangue jorrou da sua boca.

- Vamos levá-lo agora. – os filhos de Apolo o levantaram.

Sam se levantou também e disse em alto e bom som:

- Obrigado por tudo, irmão!

Lionel virou a cabeça com dificuldade, mas sorriu e ergueu o polegar para ele antes de desaparecer dentro do Plaza.

Raphael ficou inabalável diante do que aconteceu. Ele só assistiu tudo com o olhar frio de um assassino. Ouso até dizer que ele parecia muito satisfeito por ter feito Lionel se calar daquele jeito.

Sam fungou, arregaçou as mangas do casaco e apontou para ele:

- Prove que Lionel estava errado: lute comigo sem usar seus poderes. Vamos ver quem é melhor na espada.

- Que bom que reconheceu que seus poderes são só uma sombra dos meus. – como o perfeito covarde que era, Raphael se esquivou.

- Vai lutar ou não?

- Claro, garoto. – ele riu, tentando esbanjar despreocupação.

Raphael caminhou para mais perto de Sam com a espada desembainhada e tentou cortar as pernas dele antes mesmo que ele sacasse sua espada; mas Sam foi bem rápido e saltou.

- Não é só usando os meus poderes que eu jogo sujo. Só uma dica.

Sam atacou alto, mas Raphael o bloqueou e o empurrou. A diferença de altura entre os dois fazia com que Raphael atacasse com bem mais facilidade enquanto Sam só podia ficar na defesa. Os únicos momentos em que Sam conseguia feri-lo era quando ele caía e podia golpear com as pernas também, assim ele empurrava Raphael e fazia cortes nas panturrilhas dele. Quando Raphael percebeu que derrubar Sam não era um bom negócio, já que ele desviava muito bem, começou a tentar guiá-lo para armadilhas. Ele ia usar os poderes quando Sam estivesse mais vulnerável, eu tinha certeza. Sam tinha o equilíbrio de Hector saltando de costas para evitar buracos no asfalto, mas mesmo assim Raphael conseguia atingi-lo de vez em quando. Ele não conseguia contra atacar e andava de costas por cima dos escombros escorregadios e perigosos. Em um certo momento, ele até conseguiu escapar da marcação cerrada de Raphael quando este tropeçou, mas Sam acabou escorregando mais na frente.

- Que decepção, pirralho...Achei mesmo que você seria um desafio à altura, já que fez tanta questão de lutar contra mim só com esgrima.

- Quem disse que eu estou perdendo?! – Sam correu para um campo limpo.

Raphael o alcançou e o derrubou no chão com um golpe na cabeça. Foi um golpe forte, me surpreendi por Sam não ter desmaiado; ele rastejou para longe de Raphael, que deu risada enquanto assistia.

- E então, garoto? Que tipo de morte você vai querer? Rápida ou lenta? Limpa ou bastante...sangrenta?

- Ainda é muito cedo para eu escolher! – dito isso, Sam deu uma rasteira em Raphael e partiu para cima dele, lançando sua espada para longe.

Todos nós prendemos a respiração: Sam estava com sua espada a um palmo de distância do coração de Raphael; aquilo ia finalmente acabar. Mas aí Sam surpreendeu a todos: ele se livrou de sua própria espada e deu um grande soco no rosto de Raphael, que começou a bater nele também e logo os dois estavam trocando chutes e socos como se não tivessem poder nenhum. No começo eu pensei que Sam havia ficado maluco, mas depois entendi que Lionel tinha razão: Sam era mesmo completamente diferente de Raphael; não foi a Dádiva que ele recebeu que fez dele um grande herói e sim, entre outras coisas, o seu caráter; ele se recusava a jogar sujo e só aceitaria a vitória naquela batalha se aquilo dependesse de sua própria força e não de golpes sujos.

Aquilo havia se tornado uma espécie de ringue de luta: muita gente saiu do Plaza para assistir a luta dos dois mais de perto e gritavam o nome de Sam. Aliás, estava muito óbvio que ele iria vencer: todo aquele tempo dependendo apenas da sua Dádiva ou, poucas vezes, de uma espada, fez com que Raphael ficasse enferrujado no quesito luta livre. Ele se cansou logo e Sam teve a deixa para fazer uma gravata nele. Raphael não resistiu muito tempo. Sam o largou assim que ele parou de se debater.

Não houve aplausos nem nada do tipo. Nós apenas ficamos aliviados. Até porque Raphael era apenas um dos nossos muitos problemas. Sam se levantou com dificuldade e caminhou devagar até o Plaza. Os filhos de Apolo começaram a se preparar para atendê-lo. Eu acreditei que finalmente as coisas se acalmariam e até me afastei da janela para voltar para o meu lugar. Mas eu mal havia virado e alguém gritou "Cuidado!".

Só tive tempo de ver Raphael a meio caminho de Sam com uma grande e afiada pedra da mão. Sam ficou confuso com os gritos de alerta e parou ao invés de correr; isso deu vantagem ao Raphael. Ele chegou tão perto que, no primeiro momento, eu não sabia se ele tinha conseguido atingir Sam ou não. Sam se virou num pulo quando o corpo de Raphael desabou bem atrás dele, atingido por uma flecha nas costas.

Logo depois foi muito confuso. Quem estava perto de mim ainda não havia entendido o que havia acontecido. Outros ainda gritavam, em pânico. Alguns poucos haviam visto tudo e estavam agradecendo aos deuses. Tive que forçar caminho no meio do pessoal para recuperar a vista da janela. De longe, vi Hector chegar carregando um arco. Sam mal o encarou; ainda não tinha conseguido absorver o acontecido e só conseguia ficar olhando para Raphael, boquiaberto. Hector deu uns tapinhas nas costas dele e o conduziu para dentro do Plaza. Eles passaram sem falar com ninguém. Eu podia jurar que Sam estava chorando. O que era a coisa certa a se esperar porque, mesmo que quase ninguém lembrasse disso, ele ainda tinha apenas doze anos.

Até aquele momento eu estava controlado. Estava até agradecido por aquela luta ter acontecido bem ali porque desviou os meus pensamentos por um tempo. Mas, pouco depois de Hector ter entrado, dois garotos chegaram carregando uma maca coberta com um lençol branco. Não era a primeira que havia chegado lá desde que os inimigos fugiram, mas quando uma mecha de cabelo negro ondulado apareceu por baixo do lençol...Eu não pude me conter mais.

Já haviam me dado um pouco de Néctar e suturado os meus ferimentos mais graves, então eu disparei para os elevadores e apertei qualquer botão. A primeira cena que vi quando a porta se abriu foi um grupo grande de filhos de Deméter em um dos quartos, incluindo Dione, chorando. Eu não consegui olhar para aquilo por mais do que dois segundos. Entrei no primeiro quarto desocupado que encontrei, tranquei a porta, me livrei das minhas roupas esfarrapadas e entrei no chuveiro. E, enquanto a água caía sobre mim, eu chorei.

Não sei quanto tempo fiquei debaixo do chuveiro, mas só saí quando me acalmei totalmente. Claro que a tristeza e a raiva não haviam passado, mas as lágrimas sim. Eu estava passando por um daqueles momentos em que você não quer esquecer que está sofrendo, quer que a dor, já que está lá, seja plena; era algo um tanto masoquista.

O hóspede que esteve ocupando aquele quarto, antes de Maureen mandá-lo embora, deixou sua mala para trás. Vestíamos mais ou menos o mesmo tamanho, então eu peguei algumas roupas dele porque as minhas já eram.

Eu tinha acabado de me vestir quando bateram na porta. Uma voz de garota que eu não reconheci chamou o meu nome. Mesmo quando eu abri a porta e olhei para ela, demorei a lembrar quem era, por causa do momento tão ruim em que nos encontramos.

- Algum problema com Hannah? - perguntei para a filha de Apolo que havia ficado responsável por ela.

- Não... - ela não parecia muito segura disso. - Eu cuidei dos ferimentos dela, está tudo bem. Vim aqui porque ela queria saber se você está bem.

- Ah. Eu estou bem.

- Olha só, eu vou ter que descer para atender os outros e Hannah está sozinha no nono andar, então se vocês quiserem fazer companhia um ao outro...Bom, o quarto dela é o 904.

Eu agradeci e ela foi embora. Ainda relutei bastante em seguir a sugestão dela. Eu não seria boa companhia para ninguém num momento como aquele e eu também achava que Hannah estava querendo ficar sozinha. Resolvi dar uma passada no quarto dela só para que ela visse que eu estava bem e depois iria embora.

A porta estava só encostada. Eu bati de leve e ela se abriu, revelando a escuridão do quarto com todas as luzes apagadas; a única luminosidade vinha da varanda aberta. Hannah estava sentada no chão, usando roupão de banho, abraçada aos joelhos e olhando para a rua. Ela só olhou para mim algum tempo depois de eu ter me sentado perto dela.

- A garota que estava aqui disse que você queria saber como eu estava. – expliquei.

Hannah me avaliou rapidamente.

- Você esteve chorando. – disse, com a voz baixa.

- Pois é...Por mais que a minha vida seja cheia de morte, ela não deixa de me afetar. Talvez mais do que qualquer outra pessoa.

- Não tenho certeza quanto a isso. – ela suspirou.

- Como assim?

- Eles continuam morrendo...E parece que cada morte me afeta mais do que a anterior. – Hannah sempre voltava a encarar a rua. Mais especificamente, a mancha de sangue no asfalto.

- Lionel...Você viu?

Ela assentiu.

- E o Sam chegou bem perto. – ela tremeu. – Até quando eles vão se sacrificar? Quero dizer, se eu soubesse que Maureen chegaria tão longe, que ela mataria sem hesitar...Eu entregaria todas as Dádivas que ela precisasse e até mesmo me entregaria só para que tanta gente não morresse.

- Hannah, não diga isso. Eve se sacrificou para salvar você; e se ela achou que a sua vida valia mais do que a dela nesse momento, você devia fazer o possível para que a morte dela não tenha sido em vão. Se você cooperar com Maureen...Bem, só posso concluir que você não tem um décimo do sentimento que Eve tinha por você.

Hannah começou a chorar e eu não sabia se era porque eu tinha sido ríspido demais ou simplesmente porque eu falei de Eve. O negócio é que ela estava chorando como se alguém estivesse arrancando a pele dela.

- Eu sinto muito! – fui até onde ela estava. – Hannah, me desculpe! Eu não devia ter falado desse jeito, eu...Ah, meus deuses, você está congelando. Venha, vamos entrar. – eu a ajudei a levantar e fechei a varanda atrás de mim. Fiz com que ela se sentasse na cama e fui procurar cobertores. – Onde você estava com a cabeça quando resolveu ficar nesse vento frio logo depois de tomar banho?!

Ela não respondeu. Eu encontrei um cobertor no armário e coloquei sobre os ombros dela. Eu não estava querendo me aproveitar nem nada, mas foi instintivo: eu a abracei por cima do cobertor, com a intenção de aquecê-la mais rápido. Percebi que ela meio que se desconcentrou do choro por alguns instantes e tinha certeza de que ela ia me repreender, então comecei a me afastar dizendo:

- Eu vou tentar encontrar umas roupas para você...

Mas aí ela segurou o meu braço antes que eu a soltasse.

- Não precisa. – disse. – Lisa disse que tem malas no armário. Nós íamos escolher alguma roupa, mas foi bem na hora em que Raphael e Sam chegaram.

- Tudo bem. Então eu vou sair para você poder... – eu já estava de pé, mas aí Hannah agarrou o meu braço outra vez.

- Fique aqui. Por favor. – ela me encarou tão triste como eu jamais havia visto.

É claro que eu fiquei. Me sentei ao lado dela e nós nos abraçamos. Parecia que eras haviam se passado desde que nós tínhamos nos abraçado daquele jeito e foi só naquele instante que eu me dei conta de que eu também não queria ficar sozinho.

- Você não ficou chateada com o que eu falei?

- Não, eu...só estou confusa demais. – ela se desvencilhou de mim, enxugando as lágrimas.

- Hannah. Eu sei que esse não é o melhor momento, mas...Logo nós vamos voltar para a batalha e eu acho que será a última...E eu não sei o que vai acontecer com a gente. Então eu só queria que você me dissesse se... – meu coração disparou. – Se aquilo que você sentia por mim realmente deixou de existir por causa do que eu fiz.

Aquilo pegou Hannah de surpresa. Ela demorou bastante para responder.

- Eu tive fases. – disse, finalmente. Deu uma pausa e continuou. – Sabe, fases em que eu odiei você de verdade; fases em que eu tentei ignorar a sua existência e seguir com a vida como se nunca tivesse te conhecido; fases em que pensar em você me deixava triste e muitas outras. Quando a gente se reencontrou eu fiquei tentando descobrir qual delas prevaleceu e não consegui. Eu só sei que...de uma forma ou de outra eu nunca deixei de pensar em você. E agora que estamos aqui, eu acho que o que eu senti o tempo todo e sinto ainda mais agora é...saudade.

Eu não me lembrava como respirar.

- Nico, nós ainda temos muito o que conversar. E, se sobrevivermos, nós vamos fazer isso. Mas por enquanto eu só quero que saiba que o os meus sentimentos por você ainda estão aqui.

- É bom saber disso. – eu consegui sorrir, muito aliviado.

Eu segurei a mão dela e me surpreendi com o quanto ela ainda estava gelada. Ajeitei o cobertor ao redor dela e me vi abraçando-a para aquecê-la outra vez. Só que daquela vez eu não me afastei, porque Hannah se aninhou em mim e fechou os olhos. Fui relaxando aos poucos e acabei fechando os olhos também. E as coisas foram acontecendo devagar e naturalmente. Nós fomos ficando cada vez mais perto e, como na primeira vez, já não havia mais distância nenhuma entre nós dois.

Foi um beijo suave, mas ao mesmo tempo muito intenso; com sentimentos intensos. E a melhor sensação de todas foi me dar conta do quanto eu havia sentido falta daquele beijo; melhor ainda foi ter aquelas dúvidas que me atormentaram nos últimos meses extintas: se Hannah ainda gostava de mim e, principalmente, se eu ainda gostava dela. Eu me perguntei como foi que eu sobrevivi tanto tempo sem ela ao meu lado.

Durou pouco tempo, mas foi inebriante. Sempre havia algo errado nas nossas vidas quando Hannah e eu ficávamos juntos, o que só podia ser alguma tortura do destino para não deixar esses momentos serem perfeitos. A guerra e a morte de Eve tomavam conta dos meus pensamentos e com certeza dos de Hannah também. Nós encerramos o beijo, mas continuamos abraçados.

Aquilo havia me dado mais um motivo, uma força extra para lutar. Eu tinha que parar Maureen e tinha que continuar vivo. Porque eu e Hannah ainda tínhamos uma chance.