E
u despertei com batidas leves na porta do quarto. Não era como se eu tivesse realmente conseguido dormir; na verdade, eu tentei me manter acordado para não ter pesadelos. Hannah também parecia estar naquela fase intermediária entre o cochilo e a vigília; ela estava apertando a minha mão com tanta força que as pontas dos meus dedos estavam azuladas. Continuavam insistindo na porta, então eu me movimentei o mínimo possível para descer da cama sem acordar Hannah.Me deparei com um Hector de olhos vermelhos e inchados diante da porta entreaberta.
- Como ela está? – ele deu uma olhada em Hannah.
- Acho que ela dormiu. – achei que um comentário neutro o deixaria mais tranqüilo.
- Precisamos conversar. Feche a porta.
Fiz o que ele pediu e a primeira coisa que eu observei foi o livro das Dádivas nas mãos dele.
- O que houve? – perguntei.
- Eu estive pensando a respeito de algumas coisas que aconteceram e que até agora eu não entendo, como a conversa de Tobey e Hannah pouco antes de ele morrer e ela ser capturada. Você me contou que ele disse que ia fazer algo que salvaria uma vida: a dela ou a de alguém que ela gostasse muito.
- Certo.
- Passei muito tempo imaginando o que ele fez, mas só agora acho que descobri.
- Mesmo?
- Reconhece isto? – ele abriu o livro das Dádivas e me mostrou uma página.
Era a figura de um punhal prateado. E, logo abaixo, os dizeres:
"Arma feita por Hades, o senhor do mundo inferior. Retira a vida de um, dando-a a outro."
- Meu punhal... – tateei a minha cintura em busca dele, só para me lembrar que o havia deixado no quarto.
- Você tem certeza? É o mesmo? – Hector pressionou, agitado.
- Tenho certeza, mas então... – as idéias vinham num turbilhão dentro da minha cabeça; eu nem conseguia colocar a minha conclusão para fora.
- Você a usou em outra pessoa além de Tobey?
- Não, eu...
- Agora tudo se explica! – Hector deu uma risada, satisfeito. – Tobey Grant era um gênio, afinal de contas! Aposto que foi ele quem nos mandou para o lençol negro e deixou o punhal na ilha de Lemnos para que você o encontrasse.
- Então...ele já sabia que eu o mataria?
- Ele fez de propósito, Nico. Maureen já desconfiava dele e era óbvio que ela o mataria mais cedo ou mais tarde. Ele resolveu tornar a morte dele útil para alguma coisa: para salvar Hannah.
Comecei a me lembrar dos detalhes da nossa luta: Tobey podia ter acabado comigo naquele dia, mas ele hesitou, como se estivesse me dando a chance para sacar o punhal e matá-lo; ele devia saber que eu só o mataria para me defender. Realmente, tudo começou a fazer sentido: Tobey foi sincero com Hannah; ele só me desafiou porque queria que eu o matasse antes que Maureen o fizesse; ele morreu como nosso aliado.
- Ou alguém de quem ela gostasse muito. – Hector completou.
Nós nos encaramos, determinados.
- Pegue a Dádiva. Eu vou descer e garantir que não tem ninguém por perto. – disse ele.
- Eu devo acordar Hannah?
- Melhor não. Se isso não der certo... – ele não terminou a frase, mas eu sabia muito bem o que ele quis dizer: Hannah poderia não suportar.
Aquilo teria que dar certo, porque Hannah já estava bem acordada quando eu abri a porta do quarto; já estava vestida com um jeans e uma camisa xadrez e estava terminando de amarrar os tênis.
- Hannah, você... – eu comecei.
- Eu ouvi tudo. E vocês não podem me deixar de fora. – ela se dirigiu para o banheiro e começou a arrumar o cabelo.
Antes que eu reagisse, ela já estava pegando minha espada e o punhal, que eu havia deixado sobre uma cadeira, e abriu a porta dizendo:
- O que você está esperando?
Eu dei um passo e ela disparou em direção aos elevadores. Ela não disse mais nada durante o percurso. Ela nem mesmo olhava para mim. Eu não sabia se ela estava chateada por Hector e eu termos planejado deixá-la de fora ou se a menção de Tobey a abalou.
Nós passamos pelo saguão quase vazio e eu a guiei para o salão nobre de baile do Plaza, onde os mortos estavam. Hector nos aguardava parecendo bastante nervoso.
- Eu dissepara não acordá-la. – ele me disse.
- Eu não estava dormindo. – Hannah respondeu.
- Vamos logo com isso. – eu pedi.
Nós três ficamos em volta do corpo de Eve, ainda coberto com um lençol branco. Alguns segundos se passaram enquanto tentávamos decidir em silêncio quem puxaria o lençol. Mesmo para mim, sendo filho do deus dos mortos, a idéia de ver alguém que eu gosto morto é apavorante; mas devia ser infinitamente mais aterrorizante para Hannah e Hector. Muito hesitantemente, eu puxei o lençol. Hector olhou por uma fração de segundo antes de desviar o olhar para o livro das Dádivas. Hannah conseguiu encarar, mas eu a vi apertando suas pernas com força para controlar a tremedeira.
- Então...como eu faço isso? – perguntei, desembainhando o punhal.
- Aqui não diz, mas...Acho que só há uma maneira. – Hector murmurou.
Fiquei mudo de incredulidade. Foi Hannah quem falou:
- O quê?! Apunhalá-la?!
- Hannah, se você não pode lidar com isso, saia. – Hector estava com os nervos a flor da pele.
- Eu posso lidar com isso! Só estou dizendo que essa idéia é absurda.
- Então o que você sugere?
- Não sei. Talvez a lâmina só precise tocar na pele dela ou algo assim.
- Nico já tocou nessa lâmina milhares de vezes e nada aconteceu. Hades não seria estúpido a ponto de fazer uma Dádiva que ressuscita as pessoas se elas apenas tocarem nela.
- E como Eve supostamente pode voltar a viver se ela vai ganhar um novo corte?!
- Hannah, eu não sei!
- Então por que você fica dando sugestões insanas sem pensar nas conseqüências delas?!
A briga deles não me permitia nem raciocinar direito. Como eles conseguiam ficar gritando um com o outro num momento como aquele? Eu até tentei interferir, mas era impossível. Então, movido pelo desespero e sem pensar duas vezes, eu apunhalei Eve exatamente sobre a ferida que a havia matado.
Hannah e Hector pararam de discutir imediatamente e me encararam, pasmos. Eu retirei o punhal rapidamente, como se aquilo pudesse fazer alguma diferença. Um minuto inteiro se passou sem que nenhum de nós reagisse. Achei que Hannah fosse me estrangular, mas Hector apontou para Eve:
- Olhem!
De fato, algo estava acontecendo. A pele ultra branca de Eve estava se tornando mais corada aos poucos; seus lábios pálidos estavam ficando mais rosados; seu tórax começou a se movimentar, de início muito discretamente, mas com pouco tempo seus movimentos respiratórios já eram visíveis; o corte entre suas costelas estava se curando, com os tecidos se unindo; apenas eu podia ver a aura da vida dela se tornando cada vez mais intensa, surgida do nada.
Nós só esperamos enquanto Eve literalmente ressuscitava. Aqueles minutos podiam muito bem ter sido séculos. Foi só quando os olhos dela fizeram menção de abrir que eu finalmente larguei o punhal e Hector jogou o livro das Dádivas de lado. Eu jamais poderei descrever com perfeição a sensação que eu tive quando vi aqueles olhos verdes brilharem outra vez.
Eve passou algum tempo só nos encarando, receosa. Depois ela se sentou, tocou seu rosto, suas pernas, deu uma olhada no local onde havia o corte e arfou:
- Eu estou viva! – ela parecia mais assustada do que feliz.
- Sim, você está! – Hannah abriu o maior sorriso do mundo e deu um abração em Eve.
Eve estava confusa demais para abraçar de volta, mas Hannah não se importou. Ela olhou para mim como se buscasse uma explicação, mas eu só a sufoquei com um abraço. Depois ela olhou para Hector e ele sorriu para ela. Confesso que fiquei com ciúme por ele ter sido a única pessoa que ela tomou a iniciativa de abraçar, mas eu só entendi o que estava acontecendo quando, ao invés de abraçá-lo, Eve deu o maior beijão na boca dele.
- Não acredito que eu morri sem ter feito isso... – ela se afastou dele o suficiente para falar.
Hector ficou absurdamente vermelho. Ele definitivamente não esperava por aquilo. Bom, e nem eu. Olhei de lado para Hannah, achando que talvez Eve tivesse compartilhado alguma informação com ela, mas ela parecia tão perplexa quanto eu. Alguns segundos de silêncio se passaram antes que Hector envolvesse o rosto de Eve com as duas mãos e retribuísse o beijo. E logo eles estavam se agarrando na nossa frente.
- Mas o que é que está acontecendo aqui?! – falei baixo, só para Hannah escutar.
Ela começou uma crise de riso que há muito tempo eu não presenciava. Comecei a rir também. E comecei a entender tudo: a maneira como Hector e Eve foram ficando esquisitos um com o outro; o fato de Hector não parecer ter se incomodado com Karen namorando John. De repente me senti meio revoltado:
- Ela contou alguma coisa a você? – perguntei à Hannah.
- Não! Hector contou a você?
- Até parece.
Eles não estavam nem aí para o que estávamos falando. Chegou um momento em que Hannah se meteu no meio dos dois dizendo:
- Ei, casal, dêem um tempo, sim? Temos assuntos urgentes para resolver. – Hannah precisou se sentar entre os dois para que eles se focassem minimamente em outra coisa além deles mesmos.
- É. Não podemos divulgar que temos essa Dádiva. Maureen com certeza está procurando por ela, e se ela a roubou deve ser porque tem alguma utilidade. – eu falei. – Então ninguém pode saber que Eve está viva. Talvez ainda tenhamos espiões do nosso lado.
- Está dizendo que eu vou ter que ficar de fora da batalha?! – Eve protestou.
- Oficialmente, sim. Mas você será o nosso elemento surpresa. Vai estar conosco o tempo todo, mas não pode deixar ninguém vê-la. Quando o momento certo chegar, você entra.
- Tudo bem, mas...acho que vocês precisam saber que eu...não tenho mais a maldição de Aquiles.
- O quê? Tem certeza? – não consegui esconder o meu desapontamento.
- Acho que sim. Me sinto diferente.
- Então você não vai entrar na batalha. – Hector determinou.
- Por que não? – Eve ficou indignada.
- Porque você está vulnerável.
- Eu lutava muitíssimo bem antes da maldição de Aquiles!
Hector respirou fundo, pronto para lançar um monte de argumentos, mas eu não deixei.
- Nós vamos precisar do maior número de guerreiros, Hector. E, se Eve se sente bem, ela vai lutar.
Ela lançou um olhar satisfeito e desafiador para ele.
- Beleza. Estou indo para a reunião no Palm Court. – Hector ficou furioso e saiu de lá.
- Não ligue. – Hannah disse à Eve. – Isso só mostra o quanto ele gosta de você.
- Eu sei. – as duas trocaram aquele típico olhar irritante entre garotas e riram.
- Hannah, vá pedir o boné da invisibilidade da Annabeth para Eve usar. Nós temos que ir para a reunião também. – Hannah saiu e eu me voltei para Eve. - Agora é sério, Eve: ninguém pode saber que você está viva. Hector tem toda razão em ficar preocupado. Então não faça nada estúpido. – eu disse.
- Não vou fazer. Até porque...Eu já escapei da morte vezes demais. – ela suspirou e ficou um tanto séria.
- Você está bem?
- Agora estou. É só que...morrer de verdade foi muito assustador. Eu não imaginava que haveria uma alternativa, achei que ficaria ali para sempre. Você não tem essa sensação quando vai para o mundo inferior?
- Não. Deve ser algum tipo de privilégio dos filhos de Hades.
- Por falar em filhos de Hades, eu meio que fiquei procurando a sua irmã.
- E você a encontrou? – minha voz soou trêmula, apesar de eu ter tentado conter a minha ansiedade.
- Não. Mas eu perguntei por ela. Os mortos disseram que ela não estava lá. Eu também perguntei pelo Tobey e disseram que nunca o viram. Como isso é possível? Os mortos podem deixar o mundo inferior? Ou as pessoas podem não ir para o mundo inferior quando morrem?
- Talvez. Eu acho. Mas é melhor a gente deixar esse assunto para depois. Toda essa coisa de morte já está me deixando farto.
Aqueles de nós que ainda estavam em condições de lutar se reuniram no Palm Court do Plaza por volta das seis da noite. Nosso exército teve uma quantidade exorbitante de membros gravemente feridos, apesar de as baixas terem sido poucas. Apenas sessenta de nós ainda podiam lutar. Mas, mesmo sem grandes machucados visíveis, quem estava lá estava emocionalmente destruído por causa das mortes. Dione tinha o olhar vazio, assim como alguns de seus irmãos sentados perto dela; Eve não foi a única filha de Deméter morta, a batalha no Central Park matou vários deles. Sam parecia estar fazendo um esforço imenso para estar ali; os outros filhos de Ares ficavam gritando promessas de vingança, mas isso só o fazia se sentir pior. Até onde eu soube, não houve baixas entre os filhos de Apolo, mas eles estavam acabados porque Maureen não ajudou nenhum dos seus feridos e deixou todos os mortos para trás, de modo que eles ficaram responsáveis por cuidar deles também; os que haviam se recuperado estavam sendo mantidos presos ali mesmo no Plaza e os mortos, que foram muitos, estavam no salão nobre de baile junto com os nossos.
René, filho de Hefesto, comentou a respeito da nossa munição escassa. Mesmo pegando de volta as flechas que encontraram nos monstros e nos corpos, ainda era pouquíssimo diante do que precisaríamos na próxima luta. Espadas, lanças, arcos e escudos foram destruídos nas batalhas e não deu para recuperar quase nada. O estoque de fogo grego estava no fim. Um filho de Atena disse que nossa melhor e talvez única chance era usar fogo contra fogo, ou seja: Dádiva contra Dádiva.
- O exército de Maureen ficou extremamente reduzido; só estão com ela os seus melhores guerreiros equipados com várias Dádivas. Vamos tentar fazer lutas de um contra um para evitar baixas do nosso lado, mas nós teremos uma espécie de equipe de apoio nos cobrindo. Aqueles que possuem Dádivas enfrentarão os guerreiros da Maureen e podem escolher uma ou duas pessoas para acompanhá-lo.
Todos aceitaram a proposta. John começou a falar:
- Eu tentei chegar até o Olimpo, mas Maureen montou um esquema de segurança extrema lá em cima. Precisaríamos de todo o nosso exército muito bem preparado para romper aquele cerco e eu acredito que o esforço não vale a pena; nossas baixas seriam muitas e é claro que precisaríamos enfrentar uma Maureen muito poderosa depois disso. Felizmente, nós temos uma alternativa: começar a batalha em outro lugar e fazer com que os inimigos que estão no Olimpo sejam obrigados a descer para reforçar o exército deles.
Novamente, a proposta foi bem aceita. Ele continuou:
- O grande problema é que eu achei que teríamos ajuda de alguns deuses que Maureen não tivesse conseguido capturar ainda, como Ártemis, mas eu descobri que ela também foi capturada, assim como todos os deuses menores.
A sala ficou barulhenta com as exclamações dos presentes. A maioria estava se perguntando como foi que Maureen conseguiu fazer isso. Demorou até que John conseguisse retomar o controle.
- Apenas um deus ainda não foi capturado, e é atrás dele que Maureen está indo. – ele disse.
Todos os olhares se voltaram para mim imediatamente. Mesmo sem isso, eu já sabia de que deus ele estava falando.
- Hades. O exército dela foi em direção a Los Angeles, onde a entrada para o mundo inferior se encontra. E é para lá que nós precisamos ir, interceptá-la antes que ela o capture, porque, se ela conseguir isso, será o fim. Nico, você pode nos levar até lá, certo?
- Certo. – ninguém ali parecia animado com essa parte; escutei gente perguntando a quem estava do lado se isso significava ser atirado em uma fenda.
Começaram a determinar quem iria para a frente da batalha. Eu, John, Owen, Sam, Thalia, Klaus e outras pessoas que eu não conhecia bem se ofereceram. Percy nos ajudaria muito, mas ele ainda estava fraco demais para lutar. John designou Hector para liderar a equipe de apoio. Karen escolheu ficar no apoio, pois ainda não havia recuperado sua Dádiva. Foi quando estávamos planejando a batalha que eu notei que Daniel estava me encarando. Deixei o grupo discretamente e passei ao lado dele indicando que ele me seguisse.
- Maureen me disse uma coisa. – falei quando chegamos a um lugar vazio. – Mas eu quero ouvir a sua versão.
A face de Daniel se contorceu em pesar.
- Eu sinto muito, Nico. Eu fiz o possível para que você soubesse por mim e não por ela.
- É verdade então? – um nó se formou na minha garganta.
- É.
- Como você soube disso? Quem contou a você?
- Ninguém me contou; eu descobri sozinho. Eu sou um filho de Atena, Nico; sou curioso por natureza. Quando você chegou ao acampamento e me contaram que você passou décadas no Lótus Cassino e Hotel, eu simplesmente tive que pesquisar sobre isso. Você não faz idéia de quanta coisa sobre os deuses nós podemos encontrar nos lugares mais banais, como uma biblioteca pública; além de tudo que Quíron guarda na Casa Grande. Você não foi o único herói a ficar preso naquele lugar; muitos outros também ficaram e acabaram morrendo depois de muitos anos. Eu também pesquisei mais sobre os filhos de Hades, sobre como eles eram poderosos demais; muitos não viviam muitos anos porque tanto poder os consumia. Eu não fiz isso para ajudar Maureen, eu juro. Era uma pesquisa só minha, para matar minha curiosidade, mas Maureen a roubou do mesmo jeito que fez com o livro das Dádivas do Sr. D. E depois ela me seqüestrou. Ela queria que eu descobrisse mais sobre você, Percy, Thalia e até mesmo sobre Hannah. Desculpa. Eu sei que é tarde demais para contar isso.
- Não precisa se desculpar. Qualquer um poderia ter descoberto isso. E, sabendo ou não, eu vou acabar morrendo.
- Talvez haja uma maneira de parar isso ou até mesmo reverter completamente.
- Não há. É a ordem natural das coisas. Todo mundo tem que morrer um dia.
- Os deuses podem lhe conceder a imortalidade quando essa guerra acabar. Como forma de gratidão.
Eu ri um pouco do otimismo de Daniel.
- Eles não transformariam um filho de Hades em um deus. Eles já me consideram uma ameaça muito grande mesmo eu sendo um semideus. Isso não tem importância. Se for preciso me sacrificar para acabar com essa guerra, eu vou fazê-lo. Só me faça um favor: não conte isso a mais ninguém. Eu não quero um velório antecipado.
Daniel hesitou bastante, mas acabou assentindo com tristeza.
Eu ainda dei um tempo sozinho depois que Daniel saiu. Eu fiz o possível para soar conformado diante da minha situação quando estava na frente dele; ninguém precisava sentir a raiva e outras das piores sensações que eu estava sentindo. Mas eu também não podia ficar me sentindo o cara mais miserável do mundo; eu precisava dar um jeito de colocar na minha cabeça que a minha morte serviria para alguma coisa, assim como a do Tobey. Resolvi parar de sentir pena de mim mesmo e saí para encontrar os outros, mas alguém me puxou pela camisa e me empurrou com força na parede.
- Mas o que...Hannah!
Hannah estava me encurralando com lágrimas nos olhos, mas ela parecia mais furiosa do que triste. Antes que ela falasse, eu já sabia exatamente o que havia acontecido.
- Você precisa parar de escutar atrás das portas. – aquilo me deixou mais irritado do que eu já estava.
- Não! Isso é exatamente o que eu preciso continuar fazendo, já que você esconde tudo de mim!
- Hannah...
- Você não pode usar os seus poderes, Nico!
- Eu preciso usar! Maureen está absorvendo os poderes dos deuses e usando Dádivas; não vou derrotá-la só com uma espada!
- Você não está sozinho nessa e sabe disso!
- Eu sei, mas não muda nada. Não vamos ter essa conversa, Hannah; já está tudo decidido. – tentei escapar, mas ela me empurrou de novo.
- Eu vou contar ao Hector e à Eve também; eles não vão deixar você fazer isso.
- Todo mundo precisou se sacrificar nessa guerra; Eve até morreu. Por que tem que ser diferente comigo?!
Hannah me olhou nos olhos e, muito séria, disse:
- Porque o meu pai está morto e o Tobey também; o resto da minha família está preso no Olimpo e eu não faço ideia de se eles ainda estão vivos; até a minha mãe imortal pode não sobreviver. Você não pode se sacrificar, Nico, porque você é a última pessoa que ainda está ao meu lado e, se você morrer...eu não vou ter mais ninguém.
Ela finalmente me liberou, mas começou a chorar. Eu a puxei para mim.
- Isso que você está fazendo comigo não é justo, sabia? – falei, cansado.
- Mas eu falei a verdade. – ela me abraçou mais forte. – Se você contasse ao John, eu tenho certeza de que ele descobriria uma maneira de te ajudar.
- Não comece...
- Você precisa tentar alguma coisa! Ou você não liga para o que eu acabei de falar?
- Caramba, Hannah, eu ligo sim! – eu a afastei. – Só que não existe alternativa para isso.
- Nós não sabemos. Daniel disse que podia pesquisar e...
- Não temos tempo para pesquisa! A batalha vai começar agora!
- Tudo bem. Vamos encontrar a solução depois da batalha. Durante a batalha eu vou cuidar disso.
- Como assim? – eu sabia que não seria coisa boa.
- Eu me candidatei para ser sua dupla.
- Você fez o quê?!
- O John aprovou. E, mesmo que ele não tivesse aprovado, eu iria de qualquer jeito.
- Não. De jeito nenhum. Você não vai. – fiz o possível para manter a calma.
- Eu tenho a melhor pontaria, caso você não esteja lembrado; John não ia me deixar de fora, ele precisa de mim lá. – não podia argumentar contra aquilo, então ela continuou. – Além do mais, nós vamos precisar unir forças se quisermos derrotar Maureen. Acho que dessa maneira você não vai ficar sobrecarregado.
- Você pode ser meu apoio, mas não vai usar os poderes.
- Por que não?
- Hannah, pense bem: se eles acabaram comigo, podem acabar com você também. Eu sou um filho de Hades, há alguma coisa na parte divina do meu DNA que me permite suportar esses poderes; mas você deve ser muito mais vulnerável a eles.
- Eu quase não os usei. E, se tudo der certo, só vou precisar usá-los uma vez hoje. Isso não vai me matar.
Nada que eu dissesse faria Hannah desistir, então eu não insisti mais. Ela parecia muito satisfeita e eu fingi que tinha aceitado a idéia dela, mas eu decidi que não daria chance para ela entrar na batalha.
- Vamos terminar isso juntos. Do mesmo jeito que começamos. – ela me disse e me deu um último abraço antes de partirmos.
