N
osso grupo caminhou meio devagar até o Central Park. Fiquei me lembrando da última vez em que estive ali próximo ao The Pond: foi quando eu levei Percy para o rio Estige, antes da batalha contra Cronos. Ele não disse "boa sorte" quando eu estava saindo do Plaza; ele disse apenas "Sei que você pode fazer isso.". Eu não estava tão certo quanto ele, mas estava disposto a tentar qualquer coisa.Não tive grandes despedidas com ninguém, nem mesmo com Eve e Hector. "Não precisamos dizer adeus." foi a fala otimista de Hector, que se aplicava perfeitamente a ele porque, se alguém poderia sobreviver àquela guerra, esse alguém era Hector. Se tudo desse errado naquela noite, ele sobreviveria e lideraria um exército para tentar acabar com a tirania de Maureen. Mas o que me fazia sentir melhor era saber que alguém ali cuidaria de Eve se eu não estivesse mais lá.
Hannah e eu não conversamos mais. Só caminhamos de mãos dadas durante todo o percurso e, de vez em quando, ela me dava um beijo no rosto. Karen sorriu de leve para nós ao ver isso; lamentei por Karen ter demorado tanto tempo para se revelar uma aliada, acho que teríamos sido bons amigos se tivéssemos tido mais tempo. John estava de mãos dadas com ela e eu sabia que estava fazendo o impossível para esconder seu medo, mas não estava conseguindo. Owen e Dione eram os mais calmos; haviam colocado os dois para serem uma dupla e eles pareciam preparados para enfrentar o que quer que viesse.
Chegamos ao monte de pedras também conhecido como "A porta de Orfeu para o mundo inferior" e eu disse para o líder dos sátiros:
- Faça as honras.
Os sátiros pegaram suas flautas de bambu e começaram a tocar uma música; coincidência ou não, parecia muito com uma marcha fúnebre. Todos deram um pulo para trás quando as rochas se moveram e eu fui o único que se dirigiu imediatamente para a escadaria que levava para a escuridão enquanto eles ficavam encarando aquilo, imóveis.
- Não acho que vamos ter problemas por enquanto, mas cuidado com os degraus. – avisei aos outros e entrei.
Era esquisito me sentir apavorado com a idéia de entrar no mundo inferior; eu já estive lá tantas vezes que costumava fazer piada dizendo que nem ia perceber a diferença quando estivesse morto. Na verdade, era o que eu encontraria por lá que me deixava apreensivo. Maureen, cheia de poderes, havia invadido o lar dos mortos e sabe-se lá que tipo de catástrofe ela provocaria se interferisse ali; me senti doente só de pensar que ela podia até mesmo ressuscitar os seus aliados mortos ou os caras perigosos dos Campos de Punição. Mas o que estava me deixando mais preocupado, por incrível que pareça, era o meu pai. Nós semideuses não achamos que algo verdadeiramente ruim possa acontecer com os nossos pais imortais, afinal eles são deuses; mas eu fiquei pensando em que tipo de chance ele poderia ter contra uma garota que havia absorvido o poder de todos os outros deuses.
Eu me sentia um pouco melhor com Hannah apertando a minha mão. Ela descia os degraus cautelosamente e ficava olhando para os lados como se algo de repente fosse saltar em cima dela. Sua pele estava fria e ela tremia.
- Está tudo bem? – perguntei.
- Está. Eu só estava pensando que...
- O quê?
- Todos nós vamos ser capazes de enxergar os mortos? Quero dizer, se é que nós vamos para onde os mortos ficam.
- Estamos indo para os Campos Asfódelos, que é um dos lugares onde os mortos podem ficar. Mas vocês não podem vê-los com precisão; eles são mais como...borrões.
Hannah ficou em silêncio e, mesmo no escuro, eu pude ver suas sobrancelhas franzidas.
- Por que? – eu quis saber.
- Hum, por nada.
Olhei para trás para que ela pudesse ver a minha cara de incredulidade.
- Por causa do meu pai. – ela disse, derrotada. – Eu estava pensando que talvez eu pudesse falar com ele.
- Não acho que ele tenha permissão para fazer isso.
- É, foi o que eu pensei. – ela suspirou e continuou parecendo muito pensativa.
Eu não disse nada, mas sabia que o pai não era a única pessoa que ela queria ver. Mas confesso que, depois de Eve ter voltado à vida e tudo mais, eu também precisava ter uma conversa com Tobey Grant.
Quando nós chegamos à base do penhasco, eu mal reconheci o mundo inferior. O caos estava instalado: não havia mais as três grandes filas de sempre nos portões de Érebo; os mortos que chegavam ficavam espalhados diante do muro negro, parecendo muito confusos; os ghouls não estavam ali para controlar tudo e Cérbero também não. Então eu só pude concluir uma coisa:
- Maureen já está aqui. Vamos! – e corremos em direção à entrada.
Saquei Stygian e a apontei para os mortos para que eles abrissem caminho para nós. Assim que pisamos nos Campos Asfódelos, uma estalactite imensa despencou do teto da caverna, não nos atingindo por muito pouco.
- Ali! – John apontou para o telhado do palácio: um grupo de três garotos havia lançado uma bomba no teto e isso fez a estalactite cair.
Eu não havia escutado a bomba porque um barulho muito maior vinha de uma batalha nas portas do palácio: fúrias, ghouls, cães infernais e outras criaturas do mundo inferior combatiam o exército de Maureen. Eu ia correr até lá, mas John me impediu.
- Espere! Nós precisamos de um plano.
- Não temos tempo para... – comecei a protestar.
- Está tudo cheio de armadilhas! Eu posso ver! – me lembrei dos seus óculos. - Precisamos ficar juntos por enquanto, para que eu possa mostrar onde as armadilhas estão. Vamos seguir para o palácio e impedir aqueles semideuses de entrar lá.
- Façam isso. Eu não vejo meu pai nem Maureen; vou procurá-los.
- Nico, não. – John parecia estar morrendo de vontade de me dar um soco. – Você não pode ir sozinho e eu não vou permitir que outros corram esse risco desnecessário. Se agirmos rápido, vamos conseguir conter a situação do palácio logo e você pode ir ajudar o seu pai.
Todos os outros estavam me olhando com cara de quem diz "Pare com esse drama e vamos nos mover antes que eles nos esmaguem!". Olhei para Hannah; ela parecia querer se posicionar ao meu favor, mas acho que também não estava disposta a se arriscar nas armadilhas. O tempo estava passando e eu não conseguia raciocinar direito. Fazia um calor insuportável ali, como se todos os rios de lava dos Campos de Punição estivessem se aproximando de nós; talvez eles estivessem mesmo, talvez Maureen tivesse dado um jeito de drená-los para toda parte. Por falar em Campos de Punição, havia uma espécie de calmaria lá; eu não podia enxergar nada, mas algo me dizia que as coisas haviam saído do normal. Pior do que isso: eu sentia algo muito ruim se agitando no Elísio.
- Tudo bem. – eu disse, finalmente. – John, nos guie até o palácio. Vamos deixar equipes escondidas em lugares estratégicos no meio do caminho; o objetivo é expulsar os inimigos dos portões e encurralá-los para que eles não fujam do mundo inferior.
John respirou aliviado e conseguiu sorrir.
- Muito bem. – ele bateu no meu ombro. – Sigam-me e fiquem juntos.
Os mortos dos Campos Asfódelos pareciam ter encolhido; não estavam no nosso caminho e o mundo inferior parecia quase vazio. Andamos o mais depressa possível, evitando minas terrestres, plantas literalmente carnívoras (uma cortesia dos filhos de Demeter inimigos), fios conduzindo centenas de volts de eletricidade e estalactites voadoras. Os óculos do John não mostravam cem por cento das coisas e também não mostravam nada claramente; um filho de Dioniso quase perdeu o braço para uma planta carnívora e todos nós fomos levemente eletrocutados em algum momento. Pensei que havíamos chegado a salvo nas proximidades do palácio, mas, antes que alguém pudesse gritar um aviso, um cão infernal imenso saltou por cima de nós e todos precisamos nos jogar no chão para desviar. Ele aterrissou e ficou rosnando para nós, em posição de ataque. Me levantei aos tropeços e mostrei Stygian para ele.
- Calma, garoto! Nós viemos ajudar!
Ele ainda ficou desconfiado por um bom tempo, cheguei a achar que ele fosse me atacar, mas, depois de se aproximar perigosamente para me cheirar, ele relaxou. Todos voltaram a respirar depois disso. O cão infernal começou a latir e me empurrar com o focinho em direção à batalha.
- Espera. Não é meio perigoso nós simplesmente chegarmos lá e começarmos a lutar? – disse Karen. – Quero dizer, se esse cão tentou nos atacar, todos os outros também podem achar que somos inimigos.
- Bem lembrado. Eles não vão saber a diferença se o Nico não estiver bem do nosso lado. – disse John.
- Mas você pode controlar as criaturas do mundo inferior, não pode? – Owen perguntou.
- Posso controlar um exército de mortos. Mas as criaturas...eu não sei se posso controlar um exército delas. Meu pai é o senhor delas, eu só herdei uma fração mínima das habilidades dele.
- Bom... – a voz de Hector soou trêmula. – Você tem que tentar e, diante da nossa situação... – vi o que estava deixando Hector nervoso: um grupo de ghouls estava marchando na nossa direção. – acho bom você conseguir controlá-los.
- O que são essas coisas? – Naomi, uma filha de Afrodite, se arrepiou toda.
- Não é hora para ser covarde, garota. – Thalia a repreendeu, mas ela mesma não parecia muito confiante.
- Se ser covarde significa ter vontade de salvar minha vida, então eu sou mesmo uma covarde.
- Ah, pelos deuses, quem foi que achou que era uma boa idéia trazer a "Barbie" para a guerra?
Tentei ignorar a confusão que se instalou depois disso e fixei o meu olhar nos ghouls. Apontei Stygian para eles e falei:
- Afastem-se. Nós não somos inimigos.
Mas eles continuaram avançando.
- Talvez isso não seja o bastante. – John falou. – Maureen deve ter roubado algumas Dádivas de Hades no banco das Dádivas, então as criaturas não estão respondendo a outra fonte de poder que não seja a do próprio Hades por questão de segurança.
- E o que você sugere?
- Eu... – ele franziu as sobrancelhas – Eu não sei.
Enquanto isso, Thalia e Naomi continuavam brigando. Como alguém poderia se concentrar com aquelas garotas discutindo sobre o que era ser uma heroína de verdade? Continuei fazendo tentativas com os ghouls: insisti que era um filho de Hades e que eles precisavam me deixar comandá-los. Mas acho que eles nem mesmo estavam me escutando com toda aquela gritaria. Eu ia me virar para mandá-las calarem a boca, mas Hannah se adiantou:
- Ei! Se vocês não podem ajudar então não atrapalhem quem pode! - Hannah costumava ser muito meiga, mas quando resolvia colocar ordem nas coisas...bom, vamos só dizer que ninguém se atrevia a contrariá-la. Ela veio para o meu lado parecendo bem calma, mesmo com todos os olhares sobre ela, e disse: - Vamos fazer isso juntos. Cada um tenta controlar metade deles, certo?
- Certo. - eu queria muito não ter que envolvê-la naquilo, mas, além de eu estar ficando sem alternativas, preciso confessar que a companhia dela fazia com que eu me sentisse mais leve.
Eu respirei profundamente, tentando seguir o exemplo de Hannah e ficar calmo, e estendi a mão para ela. Fechei os olhos antes que nossas mãos se tocassem e senti um choque moderado quando nossos dedos se encontraram, mas não abri os olhos. Eu precisava me concentrar totalmente, precisava esquecer todas as outras questões da minha vida e canalizar todos os meus pensamentos para o problema daquele momento: a soberania do meu pai estava ameaçada e eu era o único que poderia assumir o lugar dele. Eu tinha que ter força para fazer isso; todos os outros deuses me consideravam uma ameaça por algum motivo e tinha que ser porque eu era capaz de assumir o lugar de um deles, inclusive o do meu pai.
De repente eu não estava mais escutando o barulho da batalha nas portas do palácio. Houve alguns instantes de silêncio e depois parecia que um exército destrambelhado estava marchando na nossa direção. Abri os olhos, apreensivo, e vi que não apenas parecia; era um exército desorganizado e composto de criaturas que se locomoviam de maneiras diferentes marchando na nossa direção e derrubando o exército inimigo.
- Funcionou? - Naomi cochichou.
Foi um dos membros da frente do exército, uma das benevolentes, Tisífone, quem respondeu:
- Nico Di Angelo, rei dos fantasmas, você agora é o comandante das nossas tropas, o senhor do mundo inferior. - e fez uma pequena reverência.
As outras criaturas fizeram o mesmo. Mas o que me surpreendeu foram os meus amigos se curvando também. Hannah sorriu para mim e depois se virou para Naomi:
- Parece que funcionou.
Mas toda aquela "comoção pós nomeação de senhor do mundo inferior" durou pouco; os inimigos haviam se recuperado daquele bando de monstros passando por cima deles e estavam invadindo o palácio. Não perdi tempo e disse a Tisífone:
- Esses são os nossos aliados. – apontei para o grupo atrás de mim. – Será que vocês podem tentar não atacá-los enquanto eles defendem o palácio?
Tisífone estreitou os olhos rapidamente para cada um deles, de um jeito que pareceu não inspirar confiança nos meus amigos, e depois garantiu:
- Enquanto o mundo inferior precisar de ajuda eles estarão seguros; mas é melhor não estarem aqui quando Cérbero voltar para o posto dele. – e sorriu de um jeito um tanto maligno.
Escutei o pessoal engolindo em seco.
- Hã...Certo. – Owen parecia mais pálido do que o habitual. - Acho melhor nós...andarmos logo com isso.
Ninguém se atreveu a contestá-lo e em dois tempos todos estavam correndo em direção aos portões com armas a postos.
Os aliados de Maureen eram totalmente preparados para qualquer situação adversa; o susto que eles tomaram não os atrapalhou nem um pouco, alguns já estavam dentro do palácio quando os alcançamos. Owen estava usando sua Dádiva para colocá-los num estado de transe, mas só conseguia hipnotizar um de cada vez, talvez por causa da energia que as próprias vítimas emanavam por também serem possuidores de Dádivas. Dione controlava as plantas do jardim de Perséfone para aprisioná-los, do mesmo jeito que uma de suas irmãs que estava ajudando Naomi, cuja Dádiva era um perfume que deixava os inimigos completamente atordoados. O problema eram os filhos de Deméter inimigos, que pareciam ter tido informações prévias sobre que tipo de coisa encontrariam no jardim, e nos atacavam com plantas venenosas e aumentavam o poder de atração das árvores com frutos bonitos porém perigosos. Karen, Klaus e outros filhos de Hécate se juntaram para fazer uma mágica que amenizasse aquilo.
Mal pudemos nos livrar desse problema e, por muito pouco, uma estalactite não atingiu Karen em cheio; John a empurrou para longe no último segundo. Escutei as risadas dos garotos no teto do palácio.
- Vou tirar aqueles palhaços dali. – Thalia olhou fixamente para eles e estalou os dedos.
Mas nada aconteceu.
- Mas o que... – ela ficou estalando os dedos várias vezes seguidas, furiosa.
- São as leis dos Três Grandes: - Hector explicou. – um não pode interferir no território do outro a menos que tenha permissão para isso.
- Maravilha. – ela resmungou. – Era de se esperar que isso tivesse sido anulado já que todos eles foram subjugados.
- Meu pai ainda não foi. – falei isso mais como se estivesse tentando convencer a mim mesmo.
- Ou talvez você tenha que dar permissão. – sugeriu Hector.
Escolhi as palavras e falei, olhando para o teto da caverna:
- As forças dos céus estão autorizadas a agir também no mundo inferior.
Imediatamente, todo o mundo inferior sacudiu com um trovão e nuvens cinzentas começaram a se formar sob o teto.
- Isso é muito esquisito. – Hannah observou.
- E perigoso também. – John olhou para longe, onde estava localizado o Tártaro. – Uma concentração tão grande de forças pode despertar seres malignos.
- Cronos. – Thalia estremeceu.
John parecia achar que Cronos não seria o pior dos nossos problemas, mas só disse:
- Temos que agir rápido. Quanto mais cedo essa guerra acabar e os deuses restabelecerem o equilíbrio, melhor.
Outra estalactite caiu. Dessa vez quase atingiu os próprios inimigos espalhados no jardim. Os que estavam no telhado com certeza não conseguiam enxergar os alvos com todas aquelas nuvens. Thalia estalou os dedos e um raio abriu uma cratera no telhado, mas não acertou os garotos, que já estavam caindo fora. Ela continuou mandando raios atrás deles enquanto eles tropeçavam perigosamente no telhado.
- Pare! – disse John. – Não precisamos matá-los. Klaus, venha comigo!
Klaus correu até lá e os dois desapareceram dentro do palácio e surgiram logo depois em cima do telhado.
Sam estava lutando contra um garoto que podia transformar qualquer coisa em gelo e, pior ainda, construía armas feitas de gelo a partir do nada. Para combatê-lo, Sam estava depredando todo o palácio e mesmo assim estava perdendo feio: o outro garoto o fazia escorregar ou congelava partes do corpo dele, impedindo-o de se defender. Hector tentava derreter o gelo com sua tocha, mas a luz não era o bastante para isso; Sam aproveitou a distração e mandou uma rocha direto na cabeça do garoto, que ficou tonto e não foi rápido o bastante para se defender dos ataques do Hector. Demorou, mas os dois conseguiram retomar o controle da situação.
Os cães infernais e as fúrias estavam ajudando bastante: eles chegavam de surpresa quando os inimigos pensavam que haviam derrubado um de nós e os colocavam para correr. Mas os asseclas de Maureen não conseguiam ir tão longe porque nós havíamos deixado grupos escondidos pelos Campos Asfódelos, prontos para surpreendê-los e capturá-los. Em resumo, as coisas estavam indo relativamente bem. Mas é claro que só os mais fracos estavam fugindo; os inimigos mais fortes ainda estavam lá ocupando vários de nós ao mesmo tempo e sem dar indícios de que se renderiam.
Foi só quando eu tentei ajudar um grupo de garotos que estava sendo massacrado por uma garota usando dezenas de Dádivas ao mesmo tempo que eu percebi que não conseguia convocar os mortos. A garota, uma ruiva de cabelos cacheados e rosto angelical, ficou um tanto intimidada quando viu que eu estava me preparando para atacá-la; mas, quando ela percebeu o meu fracasso, suas feições se tornaram tão malignas que faziam as fúrias parecerem bonecas de porcelana. Ela estava mascando chiclete. Pelo menos eu pensei que fosse só chiclete. De repente ela cuspiu na minha direção e aquilo se transformou no que parecia ser uma bomba de canhão.
- TODO MUNDO PRO CHÃO!
Ouvi a voz de Dione e depois só senti alguém me jogando no chão e tudo ficou escuro. E a terra sacudiu com um tremendo "BUM!".
- Você está bem? – os olhos verdes de Dione pareciam duas tochas no meio da escuridão provocada pela cobertura de raízes que ela criou sobre nós.
- Eu... – foi tudo que o pouco de fôlego que eu tinha me permitiu dizer.
- Precisamos sair. Aquela garota vai perseguir você, então entre no palácio e se esconda. – ela ordenou.
- Me esconder?! Não posso fazer isso! Eu...
- Nico! Seus poderes não estão funcionando, não é? Isso significa que as forças do mundo inferior estão descontroladas. Você precisa descobrir o que aconteceu e tentar corrigir.
- Mas vocês...
- Nós vamos ficar bem. – ela parecia extremamente certa disso. – Confie em nós.
Uma segunda explosão seguida de gritos me deixou sem tempo para protestar. Dione desmanchou aquela cobertura rapidamente e mandou aquelas raízes na direção da garota ruiva.
A fumaça não me deixava enxergar direito, mas eu precisava aproveitar enquanto Dione estava distraindo a garota. Eu corri esbarrando em um monte de gente e em patas de cães infernais e já estava próximo de alcançar as portas do palácio quando a ruiva me avistou. Ela se preparou para mandar mais uma bomba, mas uma flecha vinda de trás de mim voou na direção dela. Ela não foi atingida por muito pouco, porque usava uma luva de titânio que ia até o cotovelo e permitiu que ela simplesmente afastasse a flecha com o braço. Mas teria sido um tiro certeiro: iria direto no coração da garota. Só uma pessoa atiraria no alvo tão bem àquela distância e, infelizmente, nossa inimiga sabia muito bem quem ela era:
- Garota de Hera... – ela rosnou como se estivesse enojada.
Hannah estava bem escondida nos galhos de uma árvore alta, mas aquele tiro denunciou sua posição. A garota ruiva não perdeu a oportunidade: cuspiu mais um chiclete-bomba. Ela sabia que Hannah só tinha duas opções: ficar onde estava e ser atingida em cheio ou se jogar da árvore correndo o risco de quebrar pelo menos metade dos ossos do corpo.
A árvore explodiu. Galhos e folhas voaram em todas as direções. E eu estava do lado de dentro do palácio. Com Hannah abraçada em mim. Em um segundo ela estava de pé e no outro ela desmaiou e eu quase não pude segurá-la.
- Hannah! Hannah, fale comigo! – eu a sacudi. Ela não estava completamente apagada, mas seus olhos mal se abriam e ela não conseguia sustentar o pescoço. – O que você fez?!
- Shhh... – ela colocou dois dedos sobre os meus lábios, mas eles escorregaram logo depois.
Ela se virou para um lado, me fazendo perder o equilíbrio e sentar no chão. Esperei durante alguns minutos até que a respiração dela normalizasse e ela recuperasse um pouco da cor.
- Viagem pelas sombras. – ela explicou, com a voz fraca.
- Entendi.
- Foi a única solução que encontrei.
- Foi muito bem pensado. Eu achei que você ia... – não consegui concluir a frase.
- Morrer no mundo inferior? Não, obrigada. Prefiro esperar até que a gente volte para a superfície.
- Então não faça mais essas loucuras!
- E o que eu deveria ter feito? Deixar você morrer?
- Podia simplesmente não atrair a ruiva psicopata para o seu lado.
- Nico, você não pode... – o princípio de briga deixou Hannah bem desperta; ela já estava se levantando.
- Você é que não pode. – interrompi. – Eu preciso procurar o meu pai. Fique aqui dentro e só volte para lá quando tudo acabar.
- O quê?! Mas...
Eu andei depressa e Hannah me seguiu pelo palácio, indignada. Fiquei entrando e saindo dos cômodos feito louco, na esperança de que ela se perdesse, mas não aconteceu. No fim, fui obrigado a trancá-la em um salão cheio de pinturas de guerras de todas as épocas.
- O que você pensa que está fazendo?! – ela esmurrou a porta no outro lado.
- Salvando a sua vida. Eu volto para buscar você depois.
- NICO DI ANGELO, VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO!
E eu fui embora ao som de socos e chutes na porta e a voz de Hannah dizendo o quanto ela me odiava e que eu ia pagar muito caro por aquilo.
Desde que eu havia chegado ao mundo inferior, uma espécie de aflição tomava conta de mim sempre que eu olhava para os Campos Elíseos. Algo terrível estava acontecendo ali, eu simplesmente sabia. Deixei o palácio pelos fundos e caminhei com cuidado até o meu destino, isso porque John não havia dado uma olhada naquela região em busca de armadilhas. Não havia nada lá. Se eu não estivesse com aquela sensação estranha teria certeza de que Maureen não havia chegado tão longe.
Mas eu senti o mal alojado ali desde a entrada: o ar era frio e parecia poluído, dificultando a minha respiração; as plantas haviam sido pisoteadas e destruídas; ao longe, as casas bonitas estavam em chamas ou não passavam de destroços; não havia sinal das almas boas que viviam ali.
Fui despertado dos meus pensamentos por um latido. Na verdade, foram três. Antes mesmo que eu pudesse me dar conta disso, aquela criatura enorme saltou diante de mim e serviu como uma muralha protetora, me impedindo de virar churrasco.
Cérbero ganiu de dor, mas continuou lá. Saí de trás dele achando que ia me deparar com um dos aliados idiotas da Maureen, mas acabei encontrando um velho conhecido.
- Aaah! - Caco chutou a terra, parecendo frustradíssimo. - Esse cão idiota! Sempre no caminho!
- O que você está fazendo aqui? - meu choque foi tão grande que eu quase derrubei Stygian, o que teria me deixado com mais cara de idiota ainda.
- Você me matou, garoto! Ou você já se esqueceu disso? - ele pareceu verdadeiramente ofendido com aquela possibilidade.
- Eu perguntei o que você está fazendo no Elísio; deveria estar sendo torturado nos Campos de Punição!
- Meus dias de tortura acabaram. - declarou, satisfeito. - Bom, pelo menos a parte de eu ser torturado acabou; vou continuar torturando os mortais.
- O que isso quer dizer?
- O mundo está sob um novo governo. As leis dos deuses não funcionam mais. Eu não sou mais obrigado a ficar aqui e ser torturado. Muito em breve eu nem vou estar morto! - ele riu.
- Maureen...- sussurrei, mas ele escutou.
- É, parece que o nome é esse. Ela libertou todos nós. Estamos livres para nos vingarmos de quem nos mandou para cá. O que me lembra... - ele sorriu cruelmente para mim.
Caco ia vomitar fogo. Cérbero não ia suportar mais e eu não podia deixar o mundo inferior sem a proteção dele. Quando ele se posicionou para me defender, eu puxei um pouco do pelo dele e balancei a cabeça quando seus seis pares de olhos me encararam. Cérbero choramingou e hesitou em me deixar sozinho, mas depois saiu correndo em direção às casas em chamas.
- Sem truques dessa vez, não é mesmo, rapaz? Afinal, eu já estou morto; o que você pode fazer? – Caco debochou.
"De verdade? Nada.", foi o que eu tive vontade de falar. Mas eu não podia desistir sem tentar. Então eu investi contra ele.
Eu já havia lutado sozinho contra um gigante antes e Caco era até pequeno perto daquele; eu podia dar conta se conseguisse desviar do fogo. Mas o problema era que ele não dava uma trégua no fogo! Era de se esperar que ele precisasse de um tempo para "renovar as energias", mas não; ele parecia mais a versão de fogo das cataratas do Niágara. Não dava para atacá-lo de frente, eu precisava ser bastante rápido para dar um golpe certeiro nas costas dele. Mas eu só estava conseguindo ser rápido para levantar depois de ele ter me batido, isso para evitar que ele me transformasse em cinzas.
- Você não é nada sem uma corda, não é mesmo? - zombou Caco, depois de ter me empurrado de encontro a uma árvore. - Semideuses são todos iguais! Não passam de uns azarados que têm sorte grande uma vez ou outra e acabam sendo chamados de "heróis". Mas isso vai acabar! - ele me esmagou contra a árvore com o seu pé gigante. - Espere só aquela garota acabar com Hades! Eu é que serei um herói! Vou ter semideuses nas três refeições, pelo menos por algum tempo, enquanto vocês ainda existirem.
- Ela... - eu mal tinha fôlego para falar; lutei para afastar o pé dele. - Ela vai mandar você de volta para cá! Ela não vai dividir o poder com ninguém; só está usando você para se erguer!
Caco me apertou com tanta força que eu achei que fosse quebrar todas as minhas costelas e explodir os meus pulmões.
- E desde quando você se preocupa comigo? - ele ficou ainda mais furioso.
- Não me preocupo! Só quero que saiba que as coisas não vão mudar para você; vão ficar ainda piores! Você não ganha nada ajudando Maureen!
Ele deu uma braçada que arrancou a parte de cima da árvore, ao invés da minha cabeça.
- Moleque maldito! Me deixe matar você de uma vez! O que você acha que ainda pode fazer?
Não respondi. Eu não podia fazer mais nada, mas não queria me render como um completo covarde. Fechei meus olhos e esperei ele dar o golpe final. Senti o vento que se formou quando ele afastou o braço para me dar um soco. Mas, ao invés de levar um soco, eu apenas voltei a respirar outra vez. Alguém afastou Caco de mim.
Abri os olhos e vi que, na verdade, várias pessoas estavam dando uma surra nele enquanto ele xingava e se rebatia no chão. Não reconhecia nenhuma daquelas pessoas, principalmente porque muitas delas vestiam roupas esquisitas, como se fossem de outra época. Só entendi o que estava acontecendo quando um rosto familiar se agachou ao meu lado e perguntou:
- Você está bem, Nico?
- Eu... - fiquei tão surpreso que não consegui formular uma frase. - Sr. Pope?
- Já disse para me chamar de Eric. Anda, levanta. - ele estava bastante sério, bem diferente de quando eu o vi da última vez.
- Como é que... - cada centímetro do meu corpo estava dolorido. - Todas essas pessoas são...?
- Almas que vivem no Elísio. Sim. Não temos tempo para explicações; seu pai precisa de você.
- Onde...
- Lá. - Eric apontou para uma mansão branca ao longe. - Nós vamos mandar Caco para o lugar dele. Você precisa ir rápido.
Ele apanhou minha espada e me entregou.
- Eu...Obrigado. - disse e ele sorriu para mim com aquele sorriso típico de Hannah.
- Boa sorte! - ele gritou quando eu já estava correndo para a mansão.
