U
ma das paredes laterais explodiu quando eu já estava bem perto. Uma figura negra se ergueu com dificuldade dos escombros.- Alecto? - chamei.
Ela olhou para mim por uma fração de segundo e se virou abruptamente para a mansão. Sombras imensas que pareciam mãos vieram a toda na sua direção e por pouco não a agarraram. Alecto alcançou vôo precariamente; uma de suas asas estava machucada. As sombras subiram até certo ponto, mas recuaram. Eu ia aproveitar a trégua para perguntar o que estava acontecendo, mas aí Allan Morgan saiu do buraco formado pela explosão, armado com Dádivas até os dentes e pretendendo atacar Alecto outra vez. Não pensei duas vezes e investi contra ele.
Ele nem havia me visto ali, por isso tomou um susto tão grande. Eu não era um assassino, não feri mortalmente nenhum semideus nessa guerra, mas confesso que estava apenas aguardando uma oportunidade de poder enfrentar Allan; não fui nem um pouco cauteloso, eu queria me vingar depois de tudo que ele fez com Hannah e com Eve. O ataque surpresa me deu alguma vantagem inicial, mas ele era tão rápido que conseguiu desviar de todos os meus golpes e me empurrar para longe dele.
Toda a raiva que eu sentia dele me deixou absurdamente ligado, eu nem hesitei antes de partir para cima dele outra vez depois do empurrão. Mas foi no meio do caminho que eu finalmente olhei para dentro da casa. E o que eu vi lá me deixou tão desnorteado que eu me esqueci por alguns instantes que estava no meio de uma luta. Só despertei quando senti garras puxando meus ombros e, quando meus pés já nem estavam tocando o chão, senti um ardor na barriga.
Alecto voou comigo por uma curta distância e me largou no chão. Depois foi em direção ao Allan com toda velocidade e esbarrou nele com força. Ela voltou logo, quando eu estava avaliando o ferimento na minha barriga. Doía pouco, mas incomodava consideravelmente, como um corte provocado por papel. Parecia mesmo com um desses, exceto pelo comprimento e pelas bordas levemente esverdeadas. Alecto encarava o ferimento parecendo apreensiva.
- O que é isso? - perguntei a ela.
- Problema. - disse. - Magia de Hermes. Muito traiçoeira.
- Traiçoeira?! Mas...
- Você tem algum tempo. - ela me interrompeu, encarando o interior da mansão. - Precisa ajudar o seu pai agora.
Me levantei e fiz de conta que acreditava que teria tempo para me salvar do que quer que fosse aquilo. De qualquer maneira, minha prioridade era parar Maureen e salvar o máximo de pessoas que eu pudesse; eu já havia me conformado com a minha morte próxima. Alecto me carregou até lá e teve que voltar a lutar com Allan, me deixando sozinho para encarar a coisa absurda que estava acontecendo na mansão.
Meu pai estava parcialmente envolvido pelas mesmas correntes de bronze que prendiam os outros deuses; suas pernas estavam completamente mergulhadas nas correntes, seu braço direito estava livre e o esquerdo estava preso pelo pulso, diretamente ligado pela corrente ao pulso de Maureen. Cérbero servia como escudo para todos os ataques que Maureen mandava usando as Dádivas e tentava atacá-la por todos os ângulos, sem sucesso.
- Finalmente! – foi dessa maneira calorosa que o meu pai me recebeu. – Por que demorou tanto?
- Eu... – não tive tempo de dar uma resposta apropriada porque Maureen apenas esticou o braço direito na minha direção e uma roseira gigante cheia de espinhos mortais veio rastejando velozmente e eu tive que agir rápido para cortar todos os ramos até a planta parar de crescer.
- Chegou tarde demais, Di Angelo. – a voz de Maureen soou mais fria do que nunca, assim como o seu olhar.
Ela estava diferente. Eu não sabia explicar muito bem de que maneira. Ás vezes ela parecia mais alta, mais magra e mais bonita, como uma deusa; outras vezes sua aparência era a mesma de sempre, mas uma espécie de aura dourada a envolvia e seus olhos lembravam os da própria Atena.
- Não! – eu corri até onde eles estavam para cortar as correntes, como Eve havia feito, mas dei de cara com uma barreira invisível a uns cinco metros dos dois.
Fiquei batendo na barreira como um idiota, o que fez Maureen rir.
- Não adianta. Você não pode passar por ela. Só um deus poderia fazer isso.
Olhei para o meu pai em busca de alguma ajuda, mas ele mesmo estava tendo problemas demais: as correntes já envolviam seu peito.
- Onde está aquela garota?! – ele gritou. Achei que ele estivesse tendo algum tipo de delírio; seus olhos ficaram desfocados e mais loucos do que o normal por alguns instantes. – Alecto! Ela está no palácio! Vá buscá-la!
Alecto o obedeceu imediatamente. Eu só tive tempo de pensar "Mas quem está no palácio é..." antes que Allan me atacasse. Consegui mantê-lo ocupado o suficiente se defendendo para perguntar ao meu pai:
- O que você fez?!
Ele não respondeu. Desabou no chão logo depois. Maureen suspirou satisfeita.
- Falta pouco agora, Allan. Acabe com ele! – ela disse.
Allan tirou uma ostra do bolso e a jogou no chão, próximo aos meus pés. Ela se abriu e um monte de pérolas começou a sair de dentro dela, se espalhando por todo o lugar. Felizmente, eu não me movi. Esperei para ver o que acontecia e logo duas das pérolas colidiram e causaram uma explosão, desencadeando várias outras logo depois. Não tive escolha a não ser ficar parado; se eu corresse ia acabar ficando sem as pernas. Mas aquelas coisas não iam parar de explodir e estavam se aproximando cada vez mais de onde eu estava; olhei em volta, desesperado por uma saída, mas eu estava longe de todas as janelas. Se pelo menos eu pudesse pular por uma janela eu não me machucaria tanto, as paredes amorteceriam a explosão. Mas...era isso!
Eu não podia convocar os mortos, mas talvez ainda tivesse alguma das minhas habilidades mais simples. Allan e Maureen pareciam certos de que eu não ia escapar daquela; os dois me deram as costas e estavam assistindo a decadência do meu pai. Apontei meus dedos para o chão, como se fosse puxar algo do solo. Eu estava conseguindo; depois de alguns segundos senti um peso e o chão começou a tremer levemente. Não foi nem um pouco fácil; no passado eu fazia rochas surgirem instantaneamente na superfície, naquele momento parecia mais um elevador velho tentando chegar ao andar mais alto de um prédio. Se aquela coisa não fosse rápida, Allan perceberia o que eu estava tentando fazer e me impediria. Não havia mais nenhum deus para o qual eu pudesse rezar e duas pérolas estavam prestes a colidir em câmera lenta bem ao meu lado, então eu murmurei a primeira coisa que me veio a cabeça:
-Young, seu imbecil! Eu sei que é você quem está me atrapalhando! Vamos fazer um trato: você me ajuda agora e eu prometo que essa sua boa ação vai ser mencionada no tribunal e você não vai para os Campos de Punição.
Imediatamente, senti a rocha ficando leve como uma pluma; ela iria chegar a superfície sem dificuldade nenhuma. Estava prestes a comemorar, mas senti uma presença fria ao meu lado. Raphael Young era uma espécie de névoa cinzenta e bastante assustadora.
- Promessa interessante... – ele riu e sua voz parecia vir de um lugar muito distante. – Você vai cumpri-la se sabe o que é bom para você...Afinal, você acaba de perceber que uma força como a minha nunca morre... – e ele desapareceu, dando risada.
A presença dele me distraiu completamente. Quando voltei a me focar na minha situação, as pérolas haviam acabado de se tocar. Eu só tive tempo de me encolher quando tudo a minha volta explodiu. Senti que havia ganhado algumas queimaduras leves, mas as rochas surgiram para me proteger no momento certo. Elas não ficaram incólumes às explosões; na verdade seus fragmentos desabaram em cima de mim.
- Só pode ser brincadeira... – escutei Maureen resmungar enquanto eu ainda estava sob os escombros. – Achei que ele não tivesse mais poderes.
- Deve ter sido o último ato heróico dele. Se não morreu por causa das explosões, seus poderem devem tê-lo esgotado. – disse Allan.
- Não vou esperar para ter certeza. Vá lá e dê um fim nisso. – ela ordenou.
Eu não podia levantar a cabeça para não mostrar a eles que ainda estava vivo; só me restou esperar que Maureen mandasse Allan voltar e eu tivesse a chance de correr. Mas ele continuava vindo na minha direção, eu podia ouvir seus passos.
- O que eu faço com ele? – Allan perguntou.
- Que tal aquela Dádiva de Apolo? Vai transformá-lo em cinzas.
- Boa idéia!
Seria uma boa hora para ser corajoso e me levantar de qualquer jeito, mas eu fiquei paralisado só de pensar em que tipo de Dádiva podia me transformar em cinzas. Ouvi um som baixo de uma máquina sendo ligada e depois um silêncio. "É agora", eu pensei. Mas não aconteceu nada comigo.
Não posso dizer o mesmo de Allan. Escutei o som de uma pancada forte e ele gritou. Aproveitei a deixa e me levantei de vez, com Stygian em punho, pronto para atacar. Mas Eve já estava fazendo isso. A garota o havia derrubado no chão e estava acabando com ele com os próprios punhos e pés, sem armas. Ele nem conseguia se defender, de tão atordoado que ficou. O boné da invisibilidade estava caído no chão, assim como uma máquina fotográfica dourada, provavelmente a Dádiva que me transformaria em cinzas.
- Você devia estar morta! – Allan tentava afastar Eve.
- Só depois que você estiver, seu lixo de Afrodite!
Eu ia ajudá-la, mas Hannah surgiu de repente e me puxou pelo braço para longe deles, me levando em direção à Maureen.
Finalmente as coisas pareciam estar dando certo para o nosso lado. Alecto chegou junto com Hannah e foi ajudar Eve a acabar com Allan. Meu pai despertou enquanto Maureen assistia, pasma, o seu aliado número um ser massacrado; ele moveu o braço esquerdo com dificuldade e agarrou a corrente, puxando Maureen.
- Não! Você não pode fazer isso! – aquilo definitivamente não estava nos planos dela.
- Já estou fazendo! – meu pai debochou enquanto as correntes se desprendiam dele pouco a pouco.
- Um deus não pode tomar o poder de outro! São as leis! – Maureen parecia uma criancinha assustada.
- Ah! Então agora você quer recorrer as nossas leis? Não eram essas leis que você queria revogar?
Aquilo pareceu servir de estímulo para Maureen.
- Eu ainda vou fazer isso! – ela agarrou a corrente do lado dela, com raiva.
Meu pai fraquejou. Ele olhou para mim e para Hannah, parados diante da barreira invisível, e disse:
- Vocês podem...Venham rápido!
- Como vamos passar por isso? – Hannah bateu na barreira.
- Maureen disse que só um deus pode ultrapassá-la. Eu me tornei o senhor do mundo inferior e mesmo assim não consegui. Achei que talvez você tivesse se tornado uma deusa, no final das contas; achei que meu pai tivesse mandado Alecto trazer você aqui por causa disso. Mas você também não consegue passar...
Hannah pensou por alguns instantes.
- Nico, você é o senhor do mundo inferior, mas não tem poderes; eu tenho. Todo deus tem poderes e uma esfera de atuação. Talvez a gente só precise juntar as duas coisas.
Era uma idéia tão simples que tinha tudo para não funcionar, mas eu não tinha nada melhor em mente; então segurei a mão de Hannah e toquei a barreira com a outra. Ela fez o mesmo e logo nós a atravessamos.
Não pudemos nem apreciar o nosso sucesso porque uma sensação muitíssimo dolorosa quase nos fez desmaiar assim que entramos. Era como estar levando descargas elétricas sem parar.
- Rápido! – meu pai me fez despertar; Maureen estava quase reassumindo o controle.
Hannah estava quase caindo, mas eu a segurei e a arrastei até próximo da corrente. Saquei Stygian e me preparei para dar um fim naquilo.
- Allan, faça alguma coisa! – Maureen gritou desesperada.
Mas Allan já não podia fazer mais nada. Alecto e Eve já o haviam dominado completamente. Foi bem nesse momento que um dos aliados de Maureen que estava na frente do palácio entrou na mansão correndo.
- Maureen! Carrie está morta! – ele nem pareceu se importar com tudo que estava acontecendo ali, se é que ele percebeu alguma coisa diante de todo aquele pânico. – Quase todos foram presos! Nós perdemos!
Barbara Keating surgiu atrás dele e o golpeou na cabeça com o cabo da espada, fazendo com que ele apagasse. Logo depois dela o restante do nosso exército surgiu, perseguindo os poucos inimigos que restaram. Dione finalizou com Allan, envolvendo-o em um monte de raízes. Hector passou por ali e fez o gesto da vitória bem na frente de Maureen.
- NÃO! – ela gritou entre lágrimas, cheia de ódio, e agarrou a corrente com as duas mãos.
A sensação de dentro da barreira se tornou ainda pior, eu mal conseguia respirar e minha cabeça parecia prestes a explodir. Meu pai não estava muito melhor do que eu: ele havia desmaiado outra vez e as correntes voltaram a envolvê-lo; apenas as pontas dos seus dedos ainda tocavam a corrente.
- Pai, acorde! – eu gritei. – Nós precisamos de você!
Mas ele não reagiu. Maureen, por outro lado, ficava cada vez mais com aparência divina; a aura dourada em volta dela era tão intensa que podia nos cegar a qualquer instante. Tentei chegar até ela para combatê-la, mas toda a energia que ela emanava me impedia de me aproximar. Também era impossível chegar perto da corrente; e, mesmo que eu conseguisse, rompê-la naquele instante não faria bem algum; meu pai precisava tomar a força dele de volta, caso contrário Maureen teria o poder de todos os deuses de forma irreversível.
Hannah mal conseguia ficar de olhos abertos. Nossos amigos estavam do lado de fora da barreira, nos incentivando a reagir.
- Se pelo menos eles pudessem entrar... – ela suspirou.
E isso me deu uma idéia.
- Eles não podem, mas...Tem algumas pessoas que podem. – eu cochichei o meu plano no ouvido dela.
Ela ergueu as sobrancelhas. Não sei se estava impressionada ou se havia achado aquilo um absurdo. De qualquer forma, ela estava disposta a tentar. Entrelaçou os dedos nos meus e fechou os olhos para se concentrar. Eu também fechei os meus e só abri quando o ar ficou mais frio ali dentro.
Maureen arfou, mas não soltou a corrente. E ela não foi a única a tomar um susto ali; Hannah parecia profundamente arrependida de ter convocado todos aqueles mortos.
- Com medo, garota? – o fantasma de Noel, o filho de Hermes que deu início à organização, surgiu ao lado de Maureen.
- Noel...? – sua voz praticamente sumiu.
- Sim...Por que a surpresa? Você chegou ao topo, Maureen; chegou mais longe do que eu jamais imaginei chegar...e achou que eu não ia estar presente num momento como esse? - ele parecia calmo, porém traiçoeiro.
- Eu não tenho medo de você!
- Não estou aqui para assustá-la. Só para lembrar que tudo, absolutamente tudo que você conquistou foi a custa de mortes...Das nossas mortes.
Uma verdadeira multidão de fantasmas se reuniu em torno de Maureen. Muitos rostos conhecidos; pessoas que eu sempre acreditei terem morrido em acidentes. Outras pessoas eu nunca cheguei a conhecer, mas já havia visto suas fotos na lista de alvos de Maureen.
- Você me usou... – Julia Hawkins surgiu. – Me fez acreditar que o objetivo final disso tudo seria para o bem maior...E eu morri achando que eu estava errada! Pensei que talvez eu precisasse morrer para não ficar no caminho de vocês...Mas agora eu posso corrigir parte dos meus erros. – Julia estendeu a mão e sua Dádiva, a flauta negra, saiu do bolso de Maureen e foi completamente destruída quando tocou a mão de Julia.
Outros fantasmas se aproximaram. Todos semideuses que morreram por causa das suas Dádivas. Eles fizeram o mesmo que Julia e logo todas as Dádivas que Maureen e os seus aliados roubaram estavam virando pó.
Maureen sumiu no meio daquela confusão. Eu podia ouvi-la gritar por ajuda e mandar os fantasmas irem embora; ela acabou largando a corrente, meu pai despertou e toda aquela energia que estava nos matando ficou bem mais leve. Hades agarrou a corrente com as duas mãos outra vez e foi se libertando. Até que finalmente ele parecia completamente recuperado. Ele me encarou e disse:
- Agora!
Me levantei num pulo e golpeei a corrente de bronze com Stygian, sem piedade. Uma luz intensa tomou conta do lugar e eu fui arremessado para longe depois de ter tomado um choque tremendo.
