N

ão foi nenhuma entrada triunfal. Havia um muro idêntico uns quatro metros atrás do outro.

- Então essa é a grande proteção da Maureen? Muros? – Sam debochou. – Não se fazem mais inimigos como antigamente.

Ele ia esticar o braço para destruir mais aquele, mas Hector o segurou.

- Espere!

Hector ficou olhando em volta enquanto o restante de nós ficou imóvel como estátuas. De repente ele disse:

- Isso é um labirinto. – falou devagar e baixo, mas sua voz revelava aflição. – Se espalhem em silêncio e sem chamar atenção. Maureen já sabe que entramos.

Acho que todo mundo tinha a intenção de seguir sem chamar atenção, como Hector recomendou; estávamos todos nos afastando na velocidade de uma lesma. Mas aí um barulho mínimo, provavelmente uma pedra minúscula se desprendendo do muro destruído, fez com que nós disparássemos feito loucos labirinto adentro. E imediatamente vieram as explosões.

Não sei quem as desencadeou. Na verdade, não queria nem saber. O importante era que estava tudo explodindo atrás de mim e se eu desacelerasse só um pouco ia ser pego. Alguém havia corrido na mesma direção que eu, mas havia desaparecido logo. Não prestei atenção ao caminho que estava seguindo, apenas fui virando para a direita e para a esquerda aleatoriamente até as explosões pararem. Fiquei ouvindo meus amigos gritarem o tempo inteiro. Daniel não parou de gritar nem por um segundo; Hector chamou por Eve algumas vezes; Owen mandou alguém tomar cuidado. Quando as coisas se acalmaram, eu me encostei em um dos muros e desabei no chão, completamente sem fôlego e tentando desesperadamente absorver um pouco de oxigênio no meio de toda aquela fumaça.

Me escondi nas sombras quando uma luz passou bem próxima de mim. Havia uma coisa do tamanho de um gato voando baixo sobre o labirinto. Não era apenas uma; dezenas estavam espalhadas por todos os lados, iluminando as passagens com luzes que saiam dos seus olhos, tão potentes quanto a melhor lanterna do mundo. A coisa próxima de mim sobrevoou o lugar em que eu estava várias vezes e depois se afastou. Era uma coruja prateada, mas não podia ser de verdade, devia ser um autômato. Provavelmente foram elas que Hector viu.

Levantei quando achei que já era relativamente seguro e procurei ver minhas opções: o caminho da direita era idêntico ao da esquerda; os dois pareciam levar ao infinito. Apanhei uma pedra no chão e joguei para a esquerda. O barulho atraiu uma porção de corujas para lá e eu fiquei livre para correr para a direita. Os caminhos se bifurcavam a cada metro e às vezes faziam curvas malucas que me levavam de volta para o início, onde as explosões ocorreram; não dava para ver se havia algo no centro do labirinto, nada que me desse uma dica de onde Maureen pudesse estar. Eu estava tentando ir para o centro ou para cima, mas, quando as passagens se inclinavam para cima, eu acabava voltando para o começo.

Pelo menos eu não estava me deparando com armadilhas ou monstros, ao contrário dos meus amigos. Eu escutava seus gritos e sons de batalha; um monte de pó se levantou quando várias paredes foram destruídas, com certeza por Sam. As corujas se dirigiam em bando para qualquer lugar em que houvesse movimentação e começavam a atirar bombas. Eu não podia simplesmente ficar parado enquanto eles estavam em perigo; quando um grupo de corujas passou por cima de mim e se dirigiu para a direta, eu as segui. Nem me preocupei em ser discreto, corri o mais rápido que pude.

Bom, eu corri nos primeiros instantes. Depois minhas pernas ficaram cada vez mais pesadas até que eu não consegui dar nem mais um passo. Foi só quando eu parei que eu percebi que não havia nada de errado com as minhas pernas, mas sim com o chão: ele havia ficado mole e engolido minhas pernas até os joelhos. Pensei logo que se tratasse de areia movediça, mas eu não estava afundando mais, eu estava grudado. Tentei desprender uma das pernas com o auxílio das mãos e consegui, mas perdi o equilíbrio e caí, precisando me apoiar com as duas mãos, que afundaram e ficaram presas. Foi durante essa situação que Hector me encontrou.

- Nico! Caramba... – ele me viu lutando ridiculamente com o chão. – Fica calmo, eu vou tirar você daí.

Ele sacou sua tocha e a apontou para o chão, quase me deixando cego com aquela luz. O que estava me prendendo soltou uma espécie de rugido e se afastou com certa lentidão; aquela coisa estava viva. Eu mal pude me levantar e Hector já me puxou pela camisa e me arrastou correndo para longe dali.

- O que foi?! – perguntei enquanto tropeçava pelo caminho.

- Agora estão vindo atrás de nós! – ele apontou para as corujas no ar.

Corremos feito loucos por mais alguns quilômetros, tentando despistá-las. Paramos depois de muito tempo, esgotados.

- Não adianta... – eu falei quando já havia recuperado um pouco do fôlego. – Nós não conseguimos chegar a lugar algum!

- Já percebi. – disse Hector. – Mas acho que só tem uma solução.

- Qual?

- Hannah vai nos odiar por isso.

Ele nem precisou dizer mais para que eu entendesse.

- Vai. – concordei. – Mas não temos outra alternativa.

Hector me encarou por alguns segundos como se estivesse esperando que eu desistisse, mas eu não voltei atrás. Ele pegou fôlego e gritou o mais alto que pôde:

- SAM, DESTRUA TUDO!

Não demorou nem meio minuto e o chão começou a tremer. As corujas foram para o lugar onde Sam estava e, quando uma se preparou para lançar mais uma bomba, uma lança afiadíssima feita de pedras decolou e a atingiu em cheio. As outras se agitaram, mas não fugiram; se organizaram em formação e avançaram para cima de Sam. Uma mão de pedra gigantesca emergiu e deu um tapa nas corujas, como se elas fossem moscas. Escutei Sam gritando em comemoração e acho que ele estava chamando mais corujas para serem destruídas; eu teria rido se o céu não tivesse se iluminado todo com os raios e logo depois sacudido com os trovões.

- O que aquele garoto fez?!

Daniel apareceu todo sujo de terra e com rasgões em sua roupa; parecia ter estado correndo e seu olhar era de puro medo.

- Estamos mortos! Ela está vindo atrás de nós! - ele se desesperou.

Ele nem precisava ter dito isso; os raios e trovões já haviam me dado a dica.

- E agora? Corremos? - Hector perguntou, relativamente calmo.

Fiquei esperando ver de onde Maureen viria, isso provavelmente nos levaria até a família de Hannah. Mas eu comecei a sentir uma coisa esquisita nos tornozelos. Olhei para baixo e vi plantas cheias de pequenos espinhos envolvendo nossos pés e crescendo cada vez mais.

- É, corremos. - falei.

Precisamos fazer um pouco de força para escapar daquelas plantas, mas nunca achei que fosse ser tão doloroso. Nós três tivemos que dar uma pausa para respirar fundo depois de sentir cada um daqueles micro espinhos rasgando a nossa pele como de fossem arpões.

- Maureen caprichou dessa vez... - Hector comentou, franzindo o cenho. - Será que essa coisa é venenosa?

- Acho que nem Maureen seria tão cruel. Vamos embora! - falei.

Saímos correndo dali, com aquelas plantas aparecendo no caminho sempre que nós reduzíamos a velocidade.

- Daniel, alguma idéia de como chegar até a família de Hannah?

Perguntei porque Sam estava destruindo muros desde aquela hora e, como ainda não havia parado, com certeza não havia encontrado nada.

- O labirinto é mágico, igual ao labirinto de Dédalo, ele está sempre se modificando. Maureen o criou exatamente para que ninguém jamais encontrasse o caminho até ela.

- Então Hannah deve ter algo parecido com o fio de Ariadne para se guiar aqui.

- Provavelmente.

- Precisamos encontrá-la.

- Ela não quer ser encontrada, Nico, esse é o problema.- disse Hector. - Tenho certeza de que ela está furiosa com a gente por termos entrado aqui e mais ainda por termos debochado da ameaça de Maureen.

- Agora ela simplesmente vai ter que aceitar a nossa ajuda. Acho que sei o que podemos fazer; nós podemos...

- Psiu! – Hector me interrompeu. – Estão ouvindo isso?

Demorei para ouvir qualquer coisa. Estava tentando identificar um som que se aproximava, mas Daniel foi mais rápido do que eu:

- Isso parece...um rio.

- Vem de lá. – Hector apontou para o caminho a nossa frente. – Vamos voltar!

- Não! Está cheio de espinhos! – lembrei.

- Para onde, então?

- Vamos em frente. Deve haver uma bifurcação. – disse Daniel.

Sem opção, nós corremos atrás dele. Hector havia acertado a direção de onde vinha a água; conforme nos aproximávamos o barulho aumentava e nós não estávamos encontrando uma bifurcação. O chão começou a ficar úmido e logo depois lamacento, nos fazendo escorregar o tempo todo. Já estávamos correndo com água pelos joelhos quando avistamos um caminho à esquerda, uns dez metros a nossa frente.

- Não vamos conseguir... – Daniel desacelerou.

- Vamos sim! – Hector agarrou o braço dele e começou a puxá-lo.

Eu fui obrigado a desacelerar também, já que os dois ficaram parados lá atrás.

- O que estão fazendo?! Corram!

- Anda logo! Você vai matar a gente! – Hector empurrou Daniel.

Hector voltou a correr, mas Daniel continuou devagar. Quando já estávamos a meio caminho da entrada, escutei as ondas se chocando com força contra os muros.

- Não vai dar... – foi a vez de Hector desistir.

Mas eu nem dei ouvidos. Estalei os dedos e abri uma fenda pouco depois da curva de onde a água surgiria. Achei que aquilo fosse nos dar tempo mais que suficiente. Até Daniel ficou esperançoso e voltou a correr. Mas, quando uma onda gigantesca passou pela fenda e só ficou cerca de meio metro mais baixa e nem um pouco menos forte, eu vi que não teríamos tempo nenhum. Nós três constatamos isso tarde demais para parar de correr; quando toda aquela água surgiu nós literalmente corremos em direção a morte.

Esperei sentir o impacto forte e depois mais nada. Mas a sensação que eu tive foi de que haviam jogado alguns baldes de água em mim. Ainda havia água passando pelas minhas pernas, mas a correnteza foi diminuindo cada vez mais até desaparecer. Abri os olhos e me deparei com a água escorrendo por uma fenda de dois metros de largura bem na minha frente. Achei que aquele havia sido mais um daqueles momentos milagrosos em que os meus poderes davam o ar da graça de maneira fantástica; mas aí vi Hannah na bifurcação a nossa frente, encarando a minha fenda minúscula perto da que ela havia feito.

- Aquilo nunca ia dar certo. – ela disse e veio caminhando na nossa direção.

- Grande, Hannah! – Daniel a abraçou, aliviado.

- Como sabia que estávamos aqui? – Hector perguntou.

- Estava aqui perto e escutei vocês gritando. – ela me encarou. – Por que vieram aqui? Vocês estragaram tudo!

- Maureen já sabia que não íamos ficar de fora. E você também sabia. – eu disse.

- Mas eu estava quase alcançando Maureen! E aí vocês chegaram e ela parou de me guiar.

- E é aí que o nosso plano vai por água abaixo... – Daniel resmungou.

- Como? – ela perguntou.

- Nós achávamos que você tinha uma espécie de "fio de Ariadne". Se encontrássemos você, chegaríamos até Maureen e acabaríamos com ela. – expliquei.

- Ela havia me dado uma bússola, mas uma daquelas corujas a roubou quando as primeiras explosões começaram.

- Bom, Sam destruiu um monte de corujas. Talvez a bússola esteja caída em algum lugar. – disse Hector.

- Procurar uma coisa minúscula nesse labirinto? Não é uma boa idéia. – Daniel falou.

- Tem uma idéia melhor?

- Eu tenho. – disse Hannah. – Vamos seguir as armadilhas de Maureen. – ela apontou para o extremo leste do labirinto, onde colunas de chamas se erguiam.

Nós corremos a toda para lá, torcendo para que o labirinto não mudasse e nos levasse para o outro lado.

- Então Sam está ali. – Hannah apontou para a nuvem de poeira que ficava para trás conforme ele destruía as paredes do labirinto. – Será que os outros quatro estão juntos perto do fogo?

- Hã...Na verdade, não tem quatro. Só dois. – respondi.

- Como assim "só dois"? – sua voz ficou tensa, como se estivesse pressentindo o pior.

- John e Karen pularam fora. Ou melhor, John achou que já estávamos derrotados, Karen apenas o seguiu.

- Depois daquele discurso? Fala sério! – Hannah revirou os olhos.

Mesmo que eu não pudesse enxergar, eu teria percebido que havíamos chegado ao lugar certo só pela temperatura; parecia que havíamos entrado em um forno! Fiquei coberto de suor quase que imediatamente. Eu podia ouvir metal se chocando com metal, então imaginei que Maureen tivesse mandado alguns de seus soldados para lutar com a gente; mas aí um rugido rouco e alto me fez mudar de idéia. Depois ouvi o som ensurdecedor de metal se arrastando pelas pedras e depois parte de um muro foi destruída.

- Você está bem, Eve? – escutei Owen perguntar.

Eu, Hector e Hannah praticamente apostamos corrida até lá.

- Estou bem, estou bem! Por que as pessoas se preocupam tanto comigo? – Eve reclamou.

- Eve! – Hector foi o primeiro a chegar lá.

Owen e Eve estavam de pé, suas roupas estavam esfarrapadas e chamuscadas, mas eles não pareciam gravemente feridos. Um monte imenso de metal brilhante estava inerte ao lado deles, com fumaça escapando por toda sua extensão.

- Estou ótima! – Eve garantiu, aborrecida, enquanto Hector a sufocava com um abraço.

- Como vocês estão? – Owen nos perguntou.

- Vivos, por muito pouco. – disse Daniel, deslizando exausto até o chão.

- É. Tivemos uma coisa grudenta, espinhos e até um rio tentando nos matar. – falei.

- Fui atacado pelo meu reflexo em um espelho. – disse Hector.

- Um javali gigante me perseguiu! – disse Daniel.

- E você derrotou o javali? – Eve perguntou, surpresa.

- Eu não sou completamente inútil, Eve.

- Qual o plano, Nico? – Owen se impacientou. – Maureen vai continuar mandando adversários para nos matar e, pelo que eu estou vendo, Hannah também não conseguiu chegar até ela. O que vamos fazer agora?

- Na verdade...acho que tem uma maneira de chegar até Maureen. – disse Hannah, hesitante. – Ou pelo menos de chegar até onde minha família está.

Ela puxou um celular do bolso.

- Hã...você tem noção de que isso vai atrair todo o estoque de monstros e armadilhas que Maureen possui até nós? – Owen perguntou, olhando para o celular, apavorado como se ele fosse mordê-lo ou coisa parecida.

- Bastante. Mas eu não vejo outra alternativa. – ela respirou fundo e discou um número.

Ficamos em torno dela, vendo o nome "Vovó" piscar na tela.

- Achei que você fosse ligar para o Peter. – disse Eve.

- Peter nunca lembra de trazer o celular e o meu avô é alérgico a tecnologia. Já a minha avó carrega o dela para todo lugar e deixa no volume máximo porque ela não escuta bem. – Hannah explicou.

- Hannah, por mais alto que seja o volume do celular da sua avó, duvido muito que qualquer um de nós possa escutá-lo, a menos que ele esteja realmente muito perto de nós. – Daniel falou.

- Vocês não vão ouvir; mas minha mãe não só me curou do meu problema – ela apontou para a orelha. – como também me deu uma audição aguçadíssima, muito mais sensível do que a de qualquer humano. Ou seja, eu vou ouvir perfeitamente.

Ela mal terminou de falar e se voltou para a nossa direita. Se concentrou durante alguns segundos e falou, satisfeita:

- Eles estão ali. Vamos.

Hannah se precipitou imediatamente para o caminho da direita, mas Hector a fez parar.

- Aconteceu alguma coisa. Sam parou. – ele apontou para a nossa esquerda.

E ele tinha razão. Sam esteve fazendo barulho destruindo o labirinto aquele tempo todo e naquele momento estava tudo muito quieto.

- Ele pode ter se esgotado. – falei.

- Não. Ele lutou sem parar em Manhattan e nem isso o esgotou. Deve estar com problemas. Nós precisamos ir para lá.

Hector encarou Hannah; os dois ficaram suplicando silenciosamente. Por fim, Hannah, muito a contragosto, disse:

- Vamos encontrar o Sam e depois vamos todos tirar a minha família daqui.

- Obrigado, Hannah. – disse Hector, aliviado.

E todos nós corremos para onde havíamos visto o rastro de destruição de Sam pela última vez. Não demorou muito até que Hannah pudesse ouvir algo que nos desse uma pista do que estava acontecendo; de repente ela reduziu o passo para ficar ao meu lado e cochichou para mim, tensa:

- Maureen o encontrou.

Engoli em seco e gesticulei perguntando se não devíamos contar ao Hector. Ela balançou a cabeça. Continuei correndo, aflito. Hannah estava com a testa franzida, provavelmente ainda escutando o que estava acontecendo; sua expressão era cada vez pior. De vez em quando ela trocava um olhar preocupado comigo, e Hector nos flagrou algumas dessas vezes. Quando estávamos chegando perto do nosso destino, Hannah parou de correr e falou mais alto do que deveria:

- Não, Sam!

Antes que alguém pudesse reagir, o Olimpo sacudiu numa intensidade que ultrapassava e muito o maior grau da escala Richter. Cheguei a pensar que íamos ser lançados para fora do monte, porque, além do tremor, uma ventania se instalou, lançando pedras e outras coisas para cima de nós. Nossa única opção foi ficarmos estendidos no chão até que aquilo parasse; Owen e eu precisamos segurar Hector quando ele tentou se levantar e ficou chamando Sam.

O terremoto e a ventania se extinguiram tão de repente quanto surgiram. Ainda demorei uns três minutos para arriscar dar uma olhada no que tinha acontecido. Para começar, o chão não era mais apenas terra; estava calçado com as mesmas pedras dos muros. E não havia mais muros, só ruínas por todo lado. Mesmo estando tudo em pedaços, dava para perceber que aquilo não tinha mais o formato do labirinto; havia se transformado em algo diferente, mas muito familiar.

- SAM?! – Hector gritou, acabando com o silêncio macabro. – O que aconteceu com ele?! – ele agarrou Hannah pelos ombros e a sacudiu.

- EI! – eu o empurrei para longe dela.

- SAM! – Hector se afastou do grupo.

- Hector, volte para cá! – Hannah chamou, olhando ao redor, nervosa.

- O que aconteceu com o Sam, Hannah? – Eve exigiu.

- Eu não sei. Não estou ouvindo mais nada. Maureen queria que ele dissesse qual era a nossa estratégia, mas é claro que ele recusou; ela tentou convencê-lo de todas as maneiras e no final disse que ele ia pagar o preço de não ter cooperado com ela.

- Ele não está morto, eu tenho certeza. – falei.

- Nenhum zumbido? – Eve perguntou.

- Nenhum zumbido. Seja lá o que Maureen tenha feito, Sam conseguiu escapar.

- Então onde ele está agora? – Hector voltou.

- Você conhece o seu irmão, ele é esperto; com certeza está esperando o melhor momento para agir sem atrair Maureen.

- Exatamente, Nico. Eu conheço o meu irmão e eu sei que ele ataca, ele nunca espera nada. Então, se ele não está atacando, tem alguma coisa muito errada acontecendo aqui.

Hector me encarou e eu fiquei em silêncio, sem compartilhar completamente da convicção dele.

- Vamos procurar por ele, pessoal. – Owen quebrou o clima horrível.

Nós começamos a segui-lo, mas uma explosão logo atrás de nós nos fez parar imediatamente. Uma cratera foi aberta em um dos muros que ainda estavam quase intactos e, junto com as pedras, Sam foi lançado para fora. Ele rolou violentamente, mas nem hesitou antes de se levantar e correr em direção à Hannah, pegando-a pela mão e a levando as pressas para longe dali. Os dois correram e desapareceram em uma curva, se salvando por muito pouco de serem esmagados por um pilar que desabou. Nós tentamos ir atrás deles assim que nos recuperamos do susto, mas outra pilastra caiu no nosso caminho e Daniel nos empurrou para a direção oposta.

- O que está fazendo?! Eles foram para o outro lado! – Hector protestou.

- Vamos encontrar com eles indo por esse lado também; é um atalho! – disse Daniel.

- Como você sabe disso?!

- Isso é uma réplica do castelo que Maureen construiu no lençol negro; conheço esse lugar como a palma da minha mão!

- Mas por que o castelo está aqui agora? – Eve quis saber.

- Não tenho certeza...Mas acho que já sei o que aconteceu com o Sam.

Nós podíamos ver qual caminho Hannah e Sam estavam seguindo por causa dos ataques que não paravam; Maureen estava mandando raios, fogo grego e mais um monte de coisas que eu mal pude identificar.

- Você acha que eu estou brincando, Sam Madison? O que mais você quer perder? – a voz de Maureen, fria e distante, ecoou por todo o lugar.

Nesse instante, senti os pelos da minha nuca se arrepiarem e tive um pressentimento horrível. Só tive tempo de agarrar o braço de Hector e gritar "Corram!" para os outros antes de me transportar pelas sombras. Não calculei quão longe gostaria de ir e fui parar a uns quinhentos metros de onde os outros estavam. Exatamente como eu desconfiei, um raio caiu ali. Hector ficou estático encarando a fumaça.

- Maureen tentou...me matar? – ele balbuciou.

Não respondi. Minha visão escureceu e eu caí no chão.

- Nico! – Hector me sacudiu, tentando me manter acordado.

Ele me deu o último gole de Néctar que tinha, mas mesmo assim eu demorei para me recuperar. Eu nunca fiquei tão mal depois de um transporte pelas sombras; aquilo me deu a certeza absoluta de que aquele era só o começo da minha morte. Me levantei com dificuldade e permaneci tonto, mas fingi que tinha melhorado.

- Vamos sair daqui antes que Maureen ataque de novo. – falei. – Ela está atrás de Hannah outra vez; precisamos encontrá-la primeiro.

- Nico, quando Maureen perguntou o que mais Sam queria perder...Isso quer dizer que ele já perdeu alguma coisa, certo? E de repente o cenário mudou...Você acha que Maureen, de alguma forma, retirou a Dádiva dele? Isso é possível?

- Eu não tenho certeza, mas... – minha cabeça parecia girar, eu nem conseguia me concentrar direito. – Pode ter acontecido. Maureen absorveu os poderes dos deuses; fazer a mesma coisa com um semideus deve ter sido moleza.

- Isso é péssimo! Sem as habilidades do Sam nós ficamos mais vulneráveis ainda. E agora você... – ele me avaliou. – Você não parece bem.

Havia uma grande poça de água no chão e mesmo a imagem muito distorcida mostrou que eu não enganaria mais ninguém: minha pele estava tão pálida que parecia esverdeada, meus olhos estavam fundos e meus machucados pareciam infeccionados.

- Ah...Você acha? – disse com ironia.

- Talvez seja melhor você ficar aqui e...

- Hector, não. – eu o cortei. – Eu não vou agir como um covarde. Até porque não adiantaria nada; isso é uma questão de tempo, não vai mudar nada se eu tirar um tempo para descansar.

- Mas você está...

- Morrendo! Eu sei! – explodi.

- Sinto muito, Nico. – Hector não se alterou nem um pouco. – Mas eu não vou deixar você voltar para lá. Se você prestou a menor atenção a alguma aula que tivemos no acampamento, você sabe que nós temos a obrigação de não permitir que um colega que não tem condições vá para a batalha.

- É...Acho que me lembro de Quíron mencionando isso uma vez ou outra. Mas sabe como é, Hector...Eu posso até estar morrendo e posso não ser capaz de derrotar você em uma luta, mas eu ainda sou um filho de Hades...E você tem que concordar comigo quando eu digo que isso me dá uma certa vantagem.

Eu desapareci nas sombras deixando Hector para trás com uma expressão que unia surpresa com fúria. Mas, ao contrário da última vez, eu sabia exatamente para onde eu queria ir. Me concentrei bastante e consegui fazer uma chegada relativamente "suave": não tive uma piora significativa no meu estado, mas cheguei em meio a explosões e desabamentos por todos os lados.

Fiquei desnorteado por alguns instantes, tentando localizar Hannah e Sam, mas todos os três caminhos a minha frente estavam tão devastados que eu não sabia dizer qual deles eles haviam escolhido. Meu transporte pelas sombras acabou não sendo tão preciso quanto eu imaginei, então eu tive que correr adiante e arriscar.

Esbarrei violentamente nos dois bem na intersecção dos caminhos. Só tive tempo de empurrá-los para o caminho de onde eu tinha vindo, já que uma criatura gigantesca de metal estava correndo atrás deles e cuspindo fogo.

- Uma daquelas muralhas cairia bem agora, Sam! – gritei para ele, enquanto corríamos.

- Eu perdi os meus poderes! – ele gritou de volta. – Por que veio atrás de nós?! Maureen quer tomar os poderes de Hannah e os seus também!

- Precisamos tirar a família de Hannah daqui! Todos esses poderes que Maureen absorveu estão fora de controle!

- Apoiado! – Hannah freou bruscamente, sacou uma granada do seu bolso e a atirou em cima da coisa que nos perseguia.

Qualquer pessoa pensaria que ela havia dado sorte, mas eu sabia que ela havia mirado para acertar. Hannah já havia voltado a correr bem antes de a coisa explodir em mil pedacinhos.

- Tem mais aí? – ela perguntou ao Sam.

- Foi a última. – os dois trocaram um olhar de preocupação. – E o Hector? – ele me perguntou.

- Ele está bem.

- Então, qual é o plano? Libertar a família da Hannah e depois...? Como eles vão sair daqui?

- Transporte pelas sombras! – Hannah respondeu, confiante.

O meu silêncio me entregou.

- Certo, Nico? – ela exigiu.

- Eu, hã...Certo.

Uma sombra de preocupação surgiu na expressão de Hannah. Foi só aí que ela olhou bem para mim, para o meu estado. Desviei o olhar quando senti que ela ia dizer algo a respeito, mas ela não disse nada, provavelmente por causa de Sam. Mas ela com certeza já estava ciente de que, se ela não conseguisse se transportar pelas sombras sozinha, teria que encontrar uma maneira alternativa de salvar sua família.

Aos trancos e barrancos, e com isso eu quero dizer enfrentando todo tipo de ataque de Maureen, nós conseguimos chegar aonde queríamos. Hannah não conseguiu ouvir o toque do celular de sua avó tão facilmente como da outra vez, por causa de todo barulho perto de nós e também dos ataques aos nossos amigos que aconteciam em outros pontos do castelo; ela precisou fazer várias chamadas e nós erramos o caminho algumas vezes. Quando ela exclamou "Eles estão ali!", apontando para o que deveria ser o jardim do castelo, eu e Sam sacamos nossas armas, prontos para encarar a maior ameaça que Maureen pudesse criar. Mas quando eu vi o que nos esperava, abaixei Stygian imediatamente. E o motivo não foi outro além de medo.

O jardim era imenso, como tudo naquele castelo. Devia ter sido muito elegante antes da destruição, mas naquele momento parecia um cenário de filme de terror, com plantas mortas e secas, estátuas de mármore semi destruídas e um chafariz de pedra sem água. Mas não foi nada disso que me assustou. As estátuas estavam enfileiradas, com partes de seus corpos faltando, a maioria havia perdido metade da face como se tivessem sido atingidas por uma marreta. Mesmo destruídas, ainda era possível identificar perfeitamente quem eram aquelas figuras: os deuses gregos. E os deuses verdadeiros estavam envolvidos completamente por correntes de bronze, aos pés das estátuas, que haviam perdido aquelas expressões sérias e soberanas e pareciam encará-los com tristeza e sofrimento. Ao lado daquele ninho de correntes de bronze, sobre um altar de pedra, estava uma jaula dourada e brilhante, com grades tão finas e espaçadas que qualquer pessoa magra poderia passar por entre elas.

- Hannah! – Peter se levantou com um pulo quando nos avistou e se agarrou nas grades com um olhar assombrado.

Hannah suspirou aliviada e começou a caminhar na direção da jaula, mas uma voz fria a deteve:

- Eu preciso admitir, Hannah...Você até que se tornou uma garotinha bastante desafiadora. Descumpriu o nosso acordo e conseguiu chegar até aqui viva e quase sem ajuda. Parabéns. – Maureen estava de pé diante de uma daquelas mesas com um tabuleiro de xadrez embutido. Ela movia o indicador direito delicadamente, movimentando as peças com um sorriso tranqüilo de escárnio.

Foi justamente a aparência de Maureen que me fez ficar com medo. Ela oscilava entre uma garota normal de jeans, tênis e uma camiseta azul e uma mulher adulta com feições perfeitas porém cruéis, usando um vestido longo de seda azul. Essas eram as aparências não assustadoras. Assustador mesmo era ver partes do rosto dela mudando para partes dos rostos dos deuses: ás vezes ela tinha um dos olhos cinzentos de Atena, outras vezes o nariz pontudo de Hermes ou as cicatrizes de Ares e etc. Era como um Frank Stein divino!

- O Madison mais velho está bem ocupado com a réplica do Leão da Neméia. Não deve nos incomodar por mais algum tempo. – uma voz conhecida me tirou dos meus devaneios.

O fantasma de Raphael Young estava ao lado de Maureen, também movendo as peças do jogo de xadrez, sorrindo como se nunca tivesse morrido.

- Ótimo! – Maureen exclamou, satisfeita. – O que você acha disso, Sam? Acha que o seu irmão pode dar conta do Leão da Neméia?

- Deixa eu adivinhar: - Raphael se intrometeu. – a resposta é sim! Sam acha mesmo que aquele irmão fraco dele é tão poderoso quanto Hércules! Você deveria se envergonhar de ser irmão de sangue de um filho de Apolo! Escória divina! E ainda dizem que ele é mais forte que você! Por que você não o mata e acaba logo com isso? Prove quem é o filho e o deus mais forte!

- Quanta hipocrisia, Raphael! – disse Hannah. – Você ajudou Maureen a capturar e tomar os poderes do seu pai e ainda sim faz questão de venerá-lo! A morte não te deixou nem um pouco menos idiota!

Sam segurou o riso.

- Acho que eu não estava falando com você, filha da deusa de coisa nenhuma. – Raphael rebateu.

- Não ligue para ela, Raphael. – disse Maureen. - Ela só está muito convencida por saber que a mãe dela é a única que continua resistindo ao meu domínio. Mas acho que ela não sabe que Hera se escondeu atrás de todos os outros deuses, até o menor deles, antes de se transformar nessa gaiola de mortais. Vocês duas têm muito em comum, Hannah.

Hannah gritou de frustração e estalou os dedos, abrindo uma fenda bem debaixo de Raphael. Ele foi sugado de volta para o mundo inferior antes mesmo de poder xingar alguma coisa.

- Quanta infantilidade, Hannah... – Maureen encarou com desdém a cicatriz que a fenda deixou. – Você pode até ter se livrado dos comentários idiotas do Young, mas as habilidades dele ainda estão comigo. E agora tem uma Hidra perseguindo Eve. – ela riu discretamente.

- Eu quero a minha família! Agora! – Hannah ordenou.

- Sinta-se a vontade para libertá-los. – Maureen deu de ombros. – Eu não vou impedi-la. – ela ficou absolutamente concentrada no tabuleiro de xadrez, como se nós nem estivéssemos ali.

- E você vai deixá-los sair daqui em segurança? – Hannah perguntou, desconfiada.

- Ah, isso já é outra questão! Vamos fazer um novo acordo.

-O acordo é você não machucá-los e deixá-los irem embora.

- Você não está em posição de fazer exigências. Eu dou as ordens aqui.

- O que você quer, Maureen? – Hannah falou, cansada.

- Posso deixar sua família em paz para sempre, mas você não pode ir embora com eles; quero os seus poderes.

- NÃO! Hannah, não faça isso! – Peter gritou.

- E eu quero os poderes do Di Angelo também. Vocês dois vão ficar aqui. – completou Maureen.

- Isso não é justo. Faça o que quiser comigo, mas deixe o Nico ir. – disse Hannah.

- É pegar ou largar. Não existe acordo alternativo.

Hannah me encarou com tristeza, parecendo lamentar muito.

- Não se preocupe. Eu vou ficar. – garanti.

Maureen riu, deliciada.

- Viu? Nenhuma objeção. Ou você achou que esse garoto não te amava tanto a ponto de fazer esse sacrifício?

- Não é nenhum sacrifício. – falei. – É uma estratégia.

Antes mesmo que Maureen pudesse imaginar o que eu quis dizer com aquilo, um escudo veio voando do topo de um dos muros e arrancou o tabuleiro de xadrez da mesa. O tabuleiro deslizou até os pés de Sam, que o agarrou e correu para longe dali. Hannah se aproveitou do choque de Maureen para correr em direção a jaula em que seu irmão e seus avós estavam. Quando Maureen finalmente se ligou, John desceu de uma biga voadora bem na frente dela e a golpeou com o cabo da espada antes que ela pudesse reagir.

- Mas você... – Maureen tentou falar, totalmente perplexa, enquanto se levantava.

- Surpresa, Maureen? – perguntou John. – Você achou mesmo que eu os abandonaria em algum momento? Esse é o tipo de coisa que eu esperaria de você, mas eu nunca faria isso; eu trabalho em equipe, ao contrário de você que apenas usa os outros.

- Sempre fazendo entradas triunfais, não é mesmo? – cumprimentei John.

- São a minha marca registrada.

- Mas Eve é uma atriz muito melhor que você.

- Definitivamente.

Nesse instante, Hannah tocou na jaula dourada e ela foi desaparecendo aos poucos. Maureen observou aquilo e tentou escapar, mas nós a seguramos. Uma espécie de nuvem dourada e brilhante foi se formando, como se partículas da jaula fossem se desprendendo e se acumulando. Quando o último resquício da jaula sumiu, Hannah se atirou nos braços de Peter.

- Você está bem?! Ela fez alguma coisa com você?! – ela começou a mexer no rosto e nos braços dele.

Peter deu uma risada nervosa.

- Estou bem. Estamos todos bem. Ela não conseguiu nem chegar perto de nós. – ele disse. – Só a vovó ficou um tanto nervosa e...

- Vovó! – Hannah correu para abraça-la. – Você vai ficar bem! Vou tirar você daqui agora mesmo! Vovô, como você está? – ela abraçou o avô.

- Provavelmente maluco! Os últimos dias foram os mais estranhos de toda a minha vida! – ele falou de um jeito meio rabugento, mas parecia realmente muito confuso com tudo aquilo.

Hannah ficou tentando tranqüilizá-los um pouco e eu e John acabamos nos distraindo com aquilo. Eu estava sentindo tanto a falta de uma cena que não envolvesse batalhas que não notei quando Maureen fez um gesto com a mão. Só despertei quando John me empurrou para o lado.

Um raio caiu entre nós dois, nos cobrindo de pedras e levantando uma grande nuvem de poeira. Eu fui bastante atingido pelas pedras porque não me distanciei o bastante, então custei a me levantar e correr atrás de Maureen. Mesmo John não foi rápido o bastante. Quando a poeira baixou um pouco eu vi Maureen a cinco metros de Hannah. Eu pressenti o pior, achei que Maureen fosse matá-la. Mas, quando Maureen já estava bem próxima e estendeu a mão, a nuvem dourada que se originou da jaula de Hera disparou na direção de Hannah e se chocou contra o corpo dela, sendo absorvida rapidamente.

- Ah, meus deuses... – John murmurou, pasmo.

Hannah arregalou os olhos e se curvou como se tivesse levado um soco no estômago. Depois ela começou a tremer e ficou cambaleando em volta, completamente tonta.

- Não se aproximem! - John falou quando Peter e seus avós tentaram chegar perto dela.

- John...o que é que está acontecendo? - perguntei, desesperado.

- Ela...ela... - ele não conseguiu completar a frase. Parecia perplexo demais vendo Hannah parecer lutar consigo mesma, segurando e sacudindo a cabeça enquanto tropeçava.

Foi Maureen quem me respondeu.

- Ela vai morrer... - falou sem emoção nenhuma. Ela não parecia satisfeita com isso e muito menos triste; mas parecia muito assustada.

Eu não tinha noção do que estava acontecendo para discordar dela e afirmar que Hannah não iria morrer, então só pude ficar assistindo até que ela voltasse ao normal. Isso aconteceu aos poucos; ela passou a tremer cada vez menos até que parou e caiu de joelhos no chão. Depois disso, John respirou aliviado, Maureen ficou boquiaberta e eu, Peter e os avós dele ficamos sem saber como reagir. Hannah passou um tempo de cabeça baixa, com a respiração irregular, e Maureen não se atreveu a tentar nada. Mas, algum tempo depois, ela pareceu voltar ao normal e se levantou devagar, tirando o cabelo do rosto.

- Minha filha... - a vovó Pope olhava para ela, transtornada. - Você está bem?

O rosto de Hannah brilhava de suor e seu olhar era de exaustão, mas ela parecia bem. Ela respirou fundo e assentiu para a avó. Maureen não esperou mais e atacou.

O altar em que eles estavam se partiu e lava começou a escorrer rapidamente da fenda, como um vulcão. Hannah fez com que sua família descesse dali e disse com severidade:

- Saiam daqui. É sério.

Não sei se foi a lava ou a forma como ela falou, mas Peter e seus avós apressaram o passo imediatamente. John correu até onde eles estavam para guiá-los, mas antes me disse que a nossa estratégia ainda estava valendo e que eu devia ficar ali para ajudar Hannah.

Se Sam ainda tivesse os poderes dele, poderia ter resolvido aquele problema num piscar de olhos; mas ele estava tão concentrado no tabuleiro de xadrez que nem parecia se dar conta do que estava acontecendo. Hannah olhou para o céu por alguns instantes e pouco tempo depois uma chuva torrencial começou a cair. Isso fez com que o fluxo da lava ficasse bem mais lento e ela não se espalhasse mais, evitando incêndios, mas não foi o suficiente para acabar com aquele projeto de vulcão. Eu corri até lá e peguei a mão de Hannah, pois sabia que usar meus poderes no estado em que eu me encontrava ia acabar comigo; é claro que eu ainda ficaria debilitado, mas dividir a carga amenizaria um pouco.

- Precisamos de rochas. – eu disse a ela.

Ela assentiu e nós nos focamos na rachadura diante de nós. Achei que seria coisa rápida, mas eu havia me esquecido do empecilho eterno que era o Raphael Young. Foi como no mundo inferior: eu podia sentir que as rochas negras estavam a centímetros da superfície, mas elas estavam cem por cento travadas ali. Achei que eu fosse o único escutando a risada de Raphael, mas Hannah estreitou os olhos, furiosa.

- Sempre presa no nível básico, não é, Hannah? – Maureen debochou. – Eu cheguei mesmo a pensar que você seria capaz de alguma coisa do nível intermediário depois de ter absorvido energia divina...Mas parece que, se essa energia vem de uma deusa de quinta categoria, não faz muita diferença.

O chão tremeu e eu achei que Hannah estivesse fazendo mais uma de suas proezas, mas não era ela. Karen saltou do nosso lado enquanto três monstros de pedra se dirigiam, em fila, para cima da lava brotando.

- E por falar em deusa de quinta categoria... – Karen girava sua Dádiva entre os dedos da mão. – Aí está você, Maureen: passou de uma filha de Atena desesperada por atenção para essa colcha de retalhos divinos! Francamente, você está se sentindo melhor consigo mesma agora?

Maureen encarou os monstros deitando sobre a fenda no altar e acabando com a ameaça de vulcão.

- Já chega de brincadeiras, Maureen. – Karen falou, séria. – Nós sabemos que você não pode controlar todos esses poderes que você absorveu; é só uma questão de tempo até que você perca tudo. Então porque você não desiste agora? Você já perdeu. – ela apontou para o ninho de correntes de bronze atrás de Maureen.

Cinco autômatos de titânio estavam mastigando as correntes. A aparência de Maureen ficou oscilando loucamente, mal dava para distinguir o verdadeiro rosto dela.

- Vamos ver quem perdeu aqui... – ela rosnou e rochas afiadas começaram a brotar de todos os pontos do jardim, abrindo novos mini vulcões em toda parte.

Karen ganhou um corte tremendo em todo o lado direito do corpo; ela não desviou rápido o suficiente. Sam ficou encolhido em um canto, com rochas pontiagudas a milímetros da pele dele; uma delas havia atravessado o tabuleiro de xadrez, fazendo com que ele perdesse aquele brilho mágico e se transformasse em um mero pedaço de madeira. Hannah segurou Karen antes que ela caísse, e depois a passou para mim quando os incêndios começaram. Ela aumentou a intensidade da chuva. Maureen já estava correndo em direção aos autômatos, mas tropeçou no meio do caminho.

- Que tal a sensação de ser "acorrentada"? – Eve perguntou enquanto fazia raízes grossas brotarem do solo e envolverem Maureen dos pés a cabeça.

Hector tambémhavia chegado, usando um casaco de pele de leão, com certeza uma lembrança de sua batalha com a réplica do leão da Neméia. Ele sacou sua Dádiva e a apontou em direção as correntes de bronze, iluminando todo o lugar tão intensamente que poderia ter nos cegado. Os autômatos começaram a arrancar grandes pedaços das correntes e eu já podia ver alguns deuses dentro daquele ninho.

Isso deu a Maureen mais motivação para escapar. Ela forçou as raízes e as transformou em migalhas, surpreendendo Eve. Maureen fez um gesto com uma das mãos e uma espada flamejante surgiu. Hannah correu para ajudar. Ela e Eve sacaram suas espadas, mas Maureen era tão ágil atacando que as duas nem conseguiam se aproximar.

- Vá destruir as correntes! – Karen me disse. – Eu vou ficar bem.

Ela estava sangrando muito e obviamente não estava nada bem, mas, quanto mais cedo os deuses fossem libertados, mais cedo nós poderíamos sair dali. Me juntei ao Hector e aos autômatos e comecei a partir as correntes com Stygian. Mas eu nem estava me concentrando no que estava fazendo porque Maureen estava acabando com Eve e Hannah. Como se já não fosse difícil o bastante se desviar da lâmina pegando fogo, elas ainda ficavam com os pés presos em raízes que Maureen fazia aparecer.

- Tendo problemas aí, Eve? Achei que você gostasse de plantas. – disse Maureen, depois de ter empurrado Hannah para longe e indo lentamente em direção a Eve, que estava presa em raízes até os joelhos.

Hannah estalou os dedos e abriu uma fenda entre Eve e Maureen. Meia dúzia de guerreiros mortos saíram de lá e investiram contra Maureen, mas ela os transformou em cinzas com um aceno.

- Preciso ir lá! – Hector falou e se virou para correr, mas caiu logo em seguida. – Mas o que...? – ele encarou seus pés completamente envoltos por raízes.

Olhei para os meus: Maureen realmente pensava muito além. Comecei a tentar cortar as raízes, mas aquelas não eram raízes normais; Stygian mal arranhou aquelas coisas.

Maureen chegou até Eve e a atacou, não a decapitando por muito pouco. Ela posicionou sua espada como se fosse um martelo e Eve se jogou para o lado. Hannah chegou bem a tempo e golpeou a mão de Maureen, obrigando-a a largar a espada flamejante. Maureen encarou o corte profundo em sua mão, cheia de ódio, e depois se voltou para Hannah, que não perdeu tempo e passou a investir contra ela de todos os ângulos, sem parar nem por um segundo. Maureen se desviava de forma sobre-humana, tentando dar início a mais algum truque, mas Hannah não deixava. Absorver Hera não havia feito dela uma espadachim melhor; na verdade, eu percebia que era só uma questão de poucos minutos até que ela ficasse completamente exausta e Maureen pudesse atacar outra vez. Karen estava, precariamente, ajudando Sam a se livrar da sua prisão; eles golpeavam as bases das rochas com suas espadas.

- Vamos continuar, Nico! – Hector se ajeitou e voltou a direcionar a tocha para as correntes.

Eu não podia fazer nada a não ser continuar cortando. Mas, quando me voltei para o mesmo lugar onde eu estava quase libertando Hermes, percebi que ele já não estava mais tão livre.

- Hector...As correntes estão se reconstruindo.

- O quê?

- É sério! Eu já havia soltado as pernas de Hermes e só os pés dele ainda estavam cobertos! Olhe agora. – apontei para Hermes coberto por correntes até as coxas.

- Então só estamos perdendo tempo aqui?!

- Não, mas eles precisam acordar. Se eles não lutarem contra as correntes vão continuar presos aí. – Daniel falou fracamente enquanto chegava, apoiado em Owen.

Ele estava muito machucado; Maureen com certeza pegou muito pesado com ele.

- Mas como? As energias deles foram completamente drenadas! Eles não vão acordar espontaneamente! – disse Hector.

- Talvez o seu pai possa ajudar, Nico. Se ele ceder um pouco da energia dele para os outros deuses... – a cabeça de Daniel tombou e ele apagou.

- Essa não...Daniel! – Owen o sacudiu.

- Leve-o para longe daqui; é mais seguro. – eu disse a ele.

Owen o carregou até onde Karen e Sam estavam.

- E então, Nico? Será que tem como você contatar o seu pai? – Hector me perguntou, apreensivo.

- Acho que não, mas...Eu tenho uma idéia melhor. – falei olhando para Hannah. – Owen! – chamei.

Ele voltou correndo depois de checar Karen.

- Será que você pode distrair Maureen com sua Dádiva por algum tempo? – perguntei.

- Quanto tempo? – ele analisou a luta entre Maureen e Hannah.

- O máximo possível. Precisamos de Hannah aqui.

Owen alisou o pingente de prisma e respirou fundo.

- Vou fazer o melhor que puder. – ele disse e foi até o altar.

Não sei se Maureen percebeu que ele estava se aproximando, mas ela nem moveu os olhos. Já Hannah se distraiu por uma fração de segundo e Maureen conseguiu agarrar a espada dela. As duas ficaram tentando assumir o controle, com a espada se aproximando perigosamente do rosto de cada uma alternadamente. Hannah surpreendeu a todos com aquela força que ninguém imaginava que ela tinha; ela estava resistindo tanto que eu cogitei em deixá-la acabar com aquilo sozinha. Mas eu sabia que aquilo tudo era para dar abertura para o Owen. Eu praticamente podia enxergar engrenagens trabalhando com toda potência na cabeça dele; ele estava andando em volta tentando encontrar um ângulo para interferir e tirar Hannah de cena. Maureen estava começando a se incomodar com a presença dele e quase deixou Hannah vencer algumas vezes. Owen finalmente parou a uns quatro metros de onde elas estavam; ele tirou a Dádiva do pescoço muito lentamente e começou a enrolá-la no pulso, também na velocidade de uma lesma. Enquanto ele fazia isso, o olhar de Maureen se voltou completamente para a Dádiva, era um olhar que eu só posso descrever como "faminto". Eu já havia entendido perfeitamente o que ela pretendia antes mesmo de ela segurar a espada com uma só mão e estender o outro braço na direção de Owen, que estava de cabeça baixa, completamente distraído.

- Mas o que é que esse idiota está fazendo?! – exclamei comigo mesmo.

Mas Owen não era nem um pouco idiota. Sua Dádiva saiu voando da sua mão em direção a mão de Maureen, exatamente como eu previ. O que eu não previ, mas Owen com certeza previu, foi o bracelete prateado que Hannah havia encontrado na caixa que Tobey deixou para ela adquirir diamantes pontiagudos e afiadíssimos que atingiram o rosto de Maureen em cheio por causa de um soco. Maureen cambaleou para trás com as mãos no rosto, dando tempo para Hannah pegar a Dádiva de Owen e jogar de volta para ele logo em seguida; ele assumiu o lugar dela diante de Maureen e sua Dádiva brilhou intensamente assim que Maureen ergueu os olhos.

Hannah correu até nós e perguntou:

- O que eu preciso fazer?

Ela e Hector me olharam com expectativa.

- Eu não sei! Foi Daniel quem deu a idéia! – falei.

- Owen não vai segurá-la por muito tempo; precisamos tentar qualquer coisa, rápido. – disse Hector.

Hannah se ajoelhou diante do corpo de Hermes quase que completamente livre das correntes. Ela colocou as mãos hesitantemente sobre o peito dele. De início não aconteceu nada, mas depois o deus foi recuperando um pouco do seu brilho até abrir os olhos bruscamente. Hannah se assustou e se afastou, mas ele agarrou o braço dela e continuou absorvendo sua energia, até que ele ficasse mais forte e conseguisse se levantar. Ele não disse nada, nem agradeceu; ele afastou as correntes próximas a ele e saiu caminhando em direção a Maureen.

Owen estava realmente fazendo um trabalho muito bom com sua Dádiva. Maureen ainda estava ajoelhada no chão, com o olhar vazio, completamente hipnotizada. Sem o controle dela, as raízes que nos prendiam e as rochas pontiagudas foram desaparecendo. Eve se levantou num pulo e veio nos ajudar a cortar as correntes. Sam também disparou na nossa direção.

Hermes não tomou nenhuma atitude. Ele só ficou parado encarando Maureen com uma carranca. Nós ficamos destruindo as correntes feito loucos, torcendo para Owen conseguir segurar Maureen por mais tempo. Hannah tocava os deuses quando nós os libertávamos e eles foram despertando aos poucos e se posicionando ao lado de Hermes.

John voltou e tomou um susto ao se deparar com Maureen sendo contida por Owen e, principalmente, com todos aqueles deuses ali parados. Achando que a situação já estava praticamente sob controle, ele foi cuidar de Karen, que estava muito pálida e quase desfalecendo. Mas aquela "calmaria" acabou quase que no mesmo instante.

- Pessoal... – Owen chamou. – Ela está resistindo!

Maureen começou a sacudir a cabeça e esfregar os olhos. A Dádiva do Owen brilhou mais ainda, mas não conseguiu manter Maureen hipnotizada por muito tempo.

- Andem logo com isso aí! – ele gritou.

Só restavam Atena e Zeus presos ali. Hannah tocou na mão de Atena e ela despertou preguiçosamente, bem diferente dos outros deuses. Ela tinha uma aparência frágil e abatida, e se juntou aos outros deuses lentamente. Seu olhar se fixou em Maureen e era de pura tristeza. Eu, Hector, Eve e Sam nos juntamos para partir as correntes que prendiam Zeus; ele estava mais acorrentado do que qualquer outro deus. Maureen se livrou por completo do efeito da Dádiva antes que nós terminássemos.

- Owen...saia daí agora... – disse John, se levantando devagar como se qualquer movimento brusco pudesse fazer Maureen nos matar imediatamente.

Owen foi se afastando quando uma corrente elétrica começou a percorrer o corpo de Maureen, sem provocar um choque nela.

- O que está fazendo?! – ele perguntou ao topar com John indo em direção a Maureen.

John ignorou e continuou andando. Owen se juntou a nós na tentativa de libertar Zeus. Uma ajuda muito bem vinda, já que nós não só mal estávamos conseguindo cortar as correntes como também estávamos sendo envolvidos por elas.

- John ficou louco? – perguntou Hannah.

- Ele está indo enfrentar Maureen sozinho ou é impressão minha? – disse Eve.

- Conhecendo ele como eu conheço...Sim, ele está! – disse Owen.

As mãos de Maureen pareciam um ninho feito de eletricidade. John sacou sua espada e nem se abalou quando um raio caiu a meio metro de onde ele estava; ele se desviou um pouco sem tirar o olhar furioso de Maureen. Ela continuou tentando atingi-lo, mas ele parecia repelir os raios. Até que ele chegou tão perto que, se ela tentasse eletrocutá-lo, seria eletrocutada também.

- Como você está fazendo isso?! – ela parecia amedrontada, e a eletricidade em suas mãos desapareceu.

- Não sou eu. Você simplesmente perdeu o controle. – ele explicou e agarrou o braço dela antes que ela tentasse outro ataque.

Maureen tentou escapar, mas John a segurava com facilidade como se ela fosse uma criancinha. Ele a empurrou para o chão e, com sua espada, destruiu a pulseira de bronze em seu pulso.

- NÃO! NÃO! NÃO! – Maureen ficou gritando e chorando, mas ela não podia fazer mais nada.

As correntes que envolviam Zeus finalmente se afrouxaram e nós pudemos destruí-las de uma vez por todas. Hannah pôs suas mãos sobre o deus e ele despertou, com raios e trovões sacudindo o céu. Os outros deuses estenderam suas mãos na direção da Maureen e, aos poucos, ela perdeu a aparência divina e voltou a ser apenas uma semideusa. As ruínas do castelo a nossa volta foram desabando e virando pó, enquanto um Olimpo destruído ocupava o espaço.

Hannah arfou e caiu de joelhos quando a energia de Hera a abandonou e voltou a sua forma normal. Hera sorriu discretamente para Hannah antes de se juntar a Zeus diante dos outros deuses já recuperados.

- Nós conseguimos... – disse Hannah, com os olhos já cheios de lágrimas.

- Sim... – desabei ao lado dela e apoiei a cabeça em seu ombro, completamente exausto, mas feliz de um jeito que eu nem me lembrava mais como era.

- Tão gratificante ver Maureen esperneando! – disse Eve.

- Muito! Alguém me empresta o celular para eu tirar uma foto? – Sam brincou.

- Ela não significa mais nada. Só merece o nosso esquecimento. – Hector abraçou os dois ao mesmo tempo.

- Essa união de vocês está me deixando deprimido. – Owen cruzou os braços. – Dione nem está aqui para comemorar junto comigo...

- Dione?! – Hannah e eu exclamamos ao mesmo tempo.

De repente estávamos todos rindo. Não deu para evitar: a vitória tem um sabor verdadeiramente alucinante.