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eus pigarreou para chamar a nossa atenção. Os outros deuses, com exceção de Hera e Atena, nos olharam com cara feia. Nós nos levantamos e ficamos perto de John, que segurava Maureen com a espada em seu pescoço.

- Deve haver um julgamento! São as leis! – Atena suplicava a Zeus, em voz baixa.

- Não existem leis que protegem esse tipo de ameaça! – Zeus respondeu rispidamente, sem encará-la.

- Por favor, meu senhor...

- Não interfira, Atena! Foi a sua fraqueza que nos levou a essa situação!

Atena se calou e abaixou a cabeça.

- Maureen Lewis: - Zeus falou para todos ouvirem. – você cometeu incontáveis crimes. A maioria deles relativamente comuns entre os semideuses e, portanto, passíveis de julgamento. Mas você...Você passou de todos os limites ao desafiar a nossa soberania e, principalmente, ao tomar os nossos poderes e a nossa casa.

Maureen sorriu de maneira maldosa, como se tivesse acabado de ouvir um elogio.

- Os seus aliados serão todos submetidos a julgamentos e, enquanto estiverem vivos, permanecerão presos; serão julgados outra vez no mundo inferior depois de mortos. – Zeus continuou. – Quanto a você, não lhe serão concedidos os benefícios do julgamento e da prisão. Você irá direto para o Tártaro.

Uau. Achei que tinha ouvido errado e repassei aquela fala mil vezes na minha cabeça para ter certeza de que Zeus havia mesmo dito aquilo. Porque mandar um semideus para o Tártaro, onde os seres mais terríveis viviam, era realmente algo inédito; alguns deuses também se surpreenderam com aquela decisão e começaram a cochichar entre si.

- Silêncio! Esta decisão não está em votação!

- Zeus, isso é cruel! – disse Atena. – Não é dessa maneira que as coisas devem ser resolvidas! Você está dando um péssimo exemplo para essas crianças e para as próximas gerações de semideuses!

Zeus a encarou.

- Você está ficando emotiva, minha cara. – falou. – Não podemos nos permitir certos graus de envolvimento com mortais.

- Sim. Eu reconheço que o que aconteceu teve uma grande parcela de culpa minha. E é por isso que eu peço que divida a punição entre mim e Maureen, assim será mais justo.

Novamente um burburinho percorreu os deuses.

- Silêncio! – pediu Zeus. – A punição foi dividida, minha cara Atena. É por isso que Maureen será morta aqui e agora, para que você não se esqueça do seu erro.

Atena abriu a boca, mas não disse mais nada. Nenhum de nós disse.

- Se o seu outro filho, John Nelson, assim desejar, ele poderá matá-la. – Zeus falou com uma frieza inacreditável.

- Não. – John respondeu prontamente. – Não quero ser o responsável por isso. – ele tirou a espada do pescoço de Maureen e se afastou um pouco.

John tinha uma expressão dura, mas eu sabia que tudo aquilo estava acabando com ele.

- Algum de vocês gostaria de fazê-lo? – Zeus olhou para Hector, Eve, Sam, Owen, Hannah e eu.

Nós baixamos a cabeça como forma de negação.

- Pois bem. Será feito por mim. – disse Zeus e seu raio mestre surgiu em sua mão. – Tem algo a dizer? – ele perguntou à Maureen.

Maureen voltou o seu olhar maligno para Hannah e disse:

- Eu posso até ir para o mundo inferior agora, mas...Não vou sozinha!

Aconteceu numa fração de segundo. Maureen empurrou John, roubou sua espada e correu na nossa direção. Na direção de Hannah, para ser mais exato. Ninguém foi rápido o bastante para impedi-la logo, nem mesmo os deuses. Eu estava ao lado de Hannah, segurando sua mão; nenhum dos outros estava tão perto. Então eu me dei conta de que Maureen estava derrotada, o Olimpo estava salvo, mas eu ainda estava morrendo. E a única maneira de a minha morte não ser tão revoltante era se eu salvasse a vida de Hannah. E foi o que eu fiz: vi Hannah, vi a espada e me coloquei entre as duas. Maureen hesitou e me encarou rapidamente para logo depois me atingir em cheio.

Eu senti uma dor aguda no meu abdome e depois mais nada. Minha visão escureceu e eu tombei para trás, caindo nos braços de Hannah.

- NICO! NICO! – Hannah começou a chorar desesperadamente.

Nossos amigos afastaram Maureen dali imediatamente. Ela não resistiu nem um pouco. Apesar da minha visão turva, eu pude vê-la sorrindo satisfeita; aparentemente acabar comigo foi igualmente gratificante.

- Nico, você está me ouvindo?! – Hannah alisou meu rosto. – Por que você fez isso?!

Minha cabeça tombou para o lado.

- Não...Por favor...Não faça isso comigo! – ela me abraçou e eu pude sentir suas lágrimas caindo sobre mim.

Eu queria dizer alguma coisa a ela, mas não conseguia. Eu nem mesmo sentia boa parte do meu corpo.

- Eve! – Hannah chamou. – Fique com ele.

As mãos de Eve me seguraram.

- O que você vai fazer? – ela perguntou com a voz apreensiva.

Ela não respondeu e se afastou.

- Hannah, volte aqui!

Hannah enxugou as lágrimas enquanto marchava em direção a Maureen. Ela empurrou os garotos segurando Maureen e deu um grande tapa no rosto dela.

- Ah, meus deuses... – Eve murmurou.

Ouvi uma risada deliciada de Ares. Hector e Owen seguraram Hannah antes que ela partisse para cima de Maureen.

- Deixem ela! – Hera ordenou.

Hector e Owen olharam para Zeus e ele assentiu. Assim que eles afrouxaram o aperto, Hannah se atirou em cima de Maureen e começou a atacá-la sem arma nenhuma, só com as mãos. Maureen a empurrou e começou a bater nela também.

- Eve...Faça alguma coisa! – tirei forças sabe-se lá de onde e consegui falar.

- Nico, você... – ela tomou um susto.

- Vá! – implorei.

Ela estava se levantando quando Hera falou:

- Fique aí mesmo, garota. Essa luta é de Hannah.

Hannah conseguiu dar um soco em Maureen e afastá-la.

- De que é que isso adianta? – Maureen perguntou antes que Hannah atacasse de novo. – Ele vai morrer. Você não pode salvá-lo.

- Por que?! – Hannah pegou Maureen pela blusa e a sacudiu. – Por que você fez isso com ele?!

- Porque não teria graça simplesmente matar você. Eu quero que você viva muito, Hannah. Espero mesmo que você tenha uma vida longa e cheia de sofrimento, afinal, você perdeu o seu pai, depois o Tobey e vai perder o Di Angelo muito em breve. E eu vou ficar muito feliz no Tártaro por toda a eternidade.

Hannah a empurrou com força sobre uma coluna de mármore semi destruída.

- Por que você me odeia tanto? O que eu fiz para você?

Maureen tocou a parte de trás de sua cabeça e sua mão ficou ensangüentada.

- Você ficou no meu caminho desde o começo! – Maureen se levantou e a empurrou. – Porque tem sempre um heroizinho querendo proteger essa coisa inútil que você é! Ninguém entendeu os meus objetivos; eu queria que os semideuses fossem iguais, que eles não morressem porque os seus pais divinos não os acham dignos de receber uma Dádiva! Mas agora, por sua causa, nada disso vai acontecer; vocês vão continuar se sentindo menos privilegiados de que os filhos dos Três Grandes e do que aqueles que possuem Dádivas! Aproveitem esse mundo ridículo, seus otários! – ela disse para nós.

Maureen se afastou de uma Hannah chocada, mas foi puxada pelos cabelos logo em seguida.

- Fale a verdade, sua covarde! – Hannah a jogou no chão. – Isso tudo é por causa do Tobey, não é mesmo?

- O quê?! – Maureen tentou fingir espanto, mas acho que ninguém caiu nessa. – Tobey era um fraco sem ambição nenhuma! Não passava de um servo da pior espécie!

- Mentira! Você gostava dele! E você tinha ciúmes! Você não queria o bem dos semideuses, Maureen! Você só queria comandar o mundo e queria que o Tobey estivesse do seu lado! Você me culpa por ter dado tudo errado, mas a culpa é toda sua, sabe por quê? Porque você não sabe nada sobre união! Seus aliados se juntaram a você porque compartilhavam dos seus ideais e muitos ficaram do seu lado só porque tinham medo. Você passou a vida inteira caçoando de Hera, dizendo que ela é uma deusa inútil, mas aqui vai a verdade: o Olimpo não estaria de pé até hoje se não fosse por ela! Hera não é a deusa do casamento, Maureen; ela é a deusa da união. Nós vencemos porque ficamos unidos até o final; você perdeu porque esteve sozinha desde o começo.

As duas começaram a se estapear, mas não pareciam estar tentando se matar; parecia que elas só estavam extravasando a raiva que sentiam uma da outra durante todos aqueles anos. Em um certo ponto, Maureen empurrou Hannah contra uma rocha e ela bateu a cabeça. Não desmaiou, mas ficou tão tonta que não conseguiu se levantar. A espada dela havia caído perto de Maureen e ela a pegou, pronta para acabar com a vida de Hannah.

- Eu ia deixar você viver mais um pouco, Hannah. Mas você conseguiu me irritar e eu não vou desperdiçar uma oportunidade dessas.

Ela estava a meio caminho de atravessar Hannah com a espada quando Peter chegou correndo e quebrou um vaso de cerâmica na cabeça dela. Maureen cambaleou para longe, derrubando a espada.

- Peter, o que você está fazendo? Eu mandei você sair daqui! – Hannah se levantou com dificuldade e apanhou a espada.

- Vou sair. Só voltei para continuar fazendo o que o nosso pai sempre fez. Você consegue, Hannah. Acabe com essa esquisitona de uma vez por todas! – ele piscou para ela e se afastou.

Maureen se aproveitou da distração de todos para escapar por trás das ruínas de um pequeno palácio. Quando Hannah olhou em volta procurando por ela, a avistou se aproximando das escadas que levavam a saída do Olimpo. Hannah ainda correu atrás dela, mas Maureen já havia ganhado distância demais.

Nesse instante, comecei a piorar. Minha respiração foi ficando mais superficial e eu estava congelando.

- Nico! Nico, você precisa agüentar! Hector! – Eve gritou.

Hector se ajoelhou ali e alguma coisa fez com que ele erguesse as sobrancelhas.

- Eve... – ele começou.

- Não! Não diga nada ruim! Faça alguma coisa! Tente curá-lo!

- Eu...eu não posso, Eve. Eu sinto muito, mas...

Eve começou a soluçar.

- Eve, acho que ele ainda está consciente. Nós devíamos...

- HANNAH! – Eve berrou. – HANNAH, ELE ESTÁ MORRENDO!

Foi aí que o meu coração disparou e parecia que estava socando o meu peito por dentro. Minha visão passou de turva para um borrão. Eu ainda vi Hannah se abaixar perto de mim e dizer alguma coisa que eu não consegui mais compreender. Depois várias vozes começaram a gritar a mesma coisa e Hannah se levantou e se afastou. Duas linhas douradas apareceram sobre o vulto dela e logo depois ela flexionou um dos braços para trás e manteve o outro segurando uma das linhas. A última coisa que eu vi foi uma terceira linha dourada e brilhante sair voando a toda velocidade. E depois eu afundei na escuridão.