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er filho do deus da morte não fazia de mim um especialista no assunto. Eu, como qualquer mortal, não sabia como era morrer; eu imaginava que de repente tudo ficava escuro e você ficava na escuridão para sempre. Mas, sabe-se lá quanto tempo depois, uma luz fraca me ofuscou. Achei que estava chegando nos Campos Asfódelos, onde não era tão escuro, mas, quando meus olhos conseguiram entrar em foco, eu me deparei com um quarto de paredes cinzentas. Pelo que eu conseguia ver, era espaçoso, com alguma mobília. Minhas sensações foram retornando aos poucos: era abafado ali, mas era melhor assim já que eu ainda sentia um pouco de frio; haviam vários cobertores sobre mim, mas o meu braço esquerdo estava mais aquecido que o resto do meu corpo. Experimentei mover os dedos da mão direita antes de arriscar virar o pescoço. Me deparei com uma cascata de cabelos castanhos claros cobrindo o meu braço e a pessoa que estava dormindo sobre ele. Meu coração saltou de imediato: eu estava vivo!

- Bem vindo de volta à vida. – uma voz familiar me tirou da minha comemoração silenciosa.

Virei a cabeça para o outro lado abruptamente, quase provocando um torcicolo. Hades estava parado ao lado da cama, com uma caneca preta na mão.

- Ah, não! – olhei para ele e depois para Hannah, fazendo o trajeto inverso em seguida. – Onde eu estou? Isso aqui é o mundo inferior?!

- É. – ele deu de ombros.

- Mas Hannah, ela... – entrei em pânico.

- Ela está bem viva, não se preocupe.

Toda a minha agitação a acordou. Ela levantou a cabeça, tirou o cabelo do rosto e esfregou os olhos. Ela tomou um grande susto ao me ver acordado.

- Nico! – ela se jogou em cima de mim. – Graças aos deuses você está vivo!

- Aaaai! – alguma coisa doeu absurdamente no meu abdome. – Hannah, sai de cima!

- Desculpa, desculpa, desculpa! – ela voltou a se sentar em uma cadeira ao lado da cama.

- Muito bem, mocinha. É hora de você sair. – Hades gesticulou em direção a porta.

- Não, eu estou bem! Eu juro! – Hannah parecia mais cansada do que nunca. Estava pálida e magra, com os olhos fundos.

- Nós fizemos um acordo, lembra? Você podia ficar aqui até ele acordar. Ele acordou e está ótimo, como você já pôde perceber. Agora você pode ir.

Hannah se levantou relutantemente. Hades a conduziu até a porta, praticamente tendo que empurrá-la, já que ela ficava se voltando para mim a cada passo.

- Eu posso só... – ela começou quando já estava na porta.

- Não. Não tenha pressa, você terá toda a eternidade para aproveitar o mundo inferior. – dito isso, Hades fechou a porta na cara dela. – Ela é muito persistente! Quase me enlouqueceu para deixá-la ficar aqui até que você acordasse!

- E os outros? Eles estão bem? – me sentei lentamente.

- Agora estão. Mas foram muitos dias de batalha intensa; estavam todos exaustos.

- E Maureen? – perguntei, apesar de ter medo da resposta.

- Morta. Fazendo companhia a Cronos no Tártaro.

- Zeus a matou?

- Não, claro que não. – Hades riu um pouco, como se eu tivesse contado alguma piada.

- Então quem...?

- Sua namorada.

- Hannah?! – eu me mexi bruscamente, magoando o ferimento na minha barriga.

- E quem mais poderia ser? Ela estava destinada a isso desde o princípio. Zeus só estava blefando quando disse que mataria Maureen. Ele sabia que seria Hannah; Hera sabia.

- A profecia...

- "Os arquitetos do poder se erguerão

A soberania do ocidente ficará ameaçada

Os deuses serão afrontados por seus próprios frutos

Porém um desses frutos, filho da traição, receberá o poder para enfrentar o mal

E cabe a esse fruto garantir a força do Olimpo" – ele citou. – Se cumpriu perfeitamente: Hera concedeu uma Dádiva para que Hannah pudesse deter Maureen no último minuto.

- Aquelas linhas douradas...

- Um arco e uma flecha. Hannah foi, sem dúvida nenhuma, o instrumento mais importante nessa guerra. Ela entendeu o propósito dela: ser a razão pela qual todos vocês se uniriam contra Maureen.

- Caramba...Isso é muito legal!

-"Legal"? É surpreendente, isso sim.

- Pois é, eu...Eu sempre achei que eu seria a peça mais importante. A outra profecia dizia que "o presente chegará no momento da vingança". Achei que eu receberia uma Dádiva para me vingar de Maureen.

- Você nunca foi o principal alvo de Maureen, Nico. Hannah era. Nada mais justo que fosse ela a se vingar no final das contas. Mas você teve o seu papel.

- Ah, sim: "O príncipe dos mortos escreverá certo por linhas tortas". – não pude deixar de me sentir um pouco inútil nessa história toda.

- Todos os erros que você pensou ter cometido no final conduziram vocês à vitória.

Eu o encarei, incrédulo.

- É verdade! – ele me garantiu. – Matar Tobey Grant salvou a vida de Eve, não é mesmo?

Ele estava certo. Sempre achei que iria me arrepender daquele ato para o resto da minha vida; mas, se Eve tivesse morrido, nós provavelmente não teríamos conseguido vencer. E perder Eve seria mais do que eu, Hannah e Hector poderíamos suportar.

- "Um se sacrificará em nome da amizade sincera"; foi o que Eve fez. Se ela não tivesse se sacrificado, na primeira vez para proteger Hannah de Allan Morgan, e na segunda vez para proteger você, Hannah e Hector, poderíamos ter perdido uma outra peça fundamental da profecia. – ele continuou, diante do meu silêncio.

- Mas perdemos Tobey.

- Tobey Grant já havia cumprido a função dele. "Um realizará o seu desejo mais profundo e irá renegá-lo depois". Ele era sim um agente duplo: se juntou a Maureen achando que era o que ele mais queria, mas no fim ele escolheu o lado de vocês e, se não fosse pelas intervenções dele, Hannah não estaria viva e Maureen não teria sido derrotada.

Suspirei e me encostei na cabeceira da cama. Era muita informação para absorver de uma vez só! Fiquei revendo os fatos na minha cabeça, tonto com tudo finalmente se encaixando. As coisas demoraram tanto a acontecer que eu cheguei a pensar que nunca teria as respostas para as minhas perguntas.

- Qual é o problema? – Hades perguntou depois de eu passar tanto tempo devaneando.

- Eu não entendo...Pensei que eu tivesse...

- Morrido? Ah, você chegou bem perto.

- O que aconteceu?

- A partir de que ponto você quer saber? – o olhar de Hades se tornou vago.

- Eu não sei. As coisas pararam de fazer sentido há algum tempo.

- Beba isto aqui. Vai deixá-lo mais forte. – ele me entregou a caneca preta.

Dei um gole. Tinha gosto de Coca-cola, mas eu sabia que era Néctar. Hades demorou a dizer alguma coisa. Ficou andando pelo quarto, parecendo desconfortável. Isso era um sinal de que eu tinha que me preparar psicologicamente para ouvir coisas não muito agradáveis.

- Nico...Você sabe o que acontece com as pessoas que ficam presas no Lótus Hotel e Cassino?

- Sei. Já me contaram.

- Tenho certeza que a versão que lhe contaram foi um pouco distorcida.

- Provavelmente. Talvez seja por isso que eu ainda estou vivo.

- Não exatamente. Quando uma pessoa fica presa no Lótus Hotel e Cassino, sua mente é confundida e sua aparência permanece a mesma enquanto ela estiver lá. Se essa pessoa nunca sair, ela não vai viver mais que as pessoas normais; vai apenas continuar com a aparência jovem enquanto, por dentro, seu corpo vai seguir o curso natural da vida e vai morrer. Mas, quando alguém deixa o lugar, passa a envelhecer de forma normal, sem que o processo seja revertido. E foi o que aconteceu com você: você passou décadas preso e, quando saiu, apesar de aparentar ter só dez anos, era um velho por dentro.

- Ok... – foi tudo que eu consegui dizer depois de o meu pai praticamente afirmar que eu era a versão semideus do Benjamin Button.

- No começo, eu não me preocupei muito com isso. Confesso que todas as minhas atenções estavam voltadas para a sua irmã. Eu só precisei tomar uma providência depois que ela morreu e você começou a usar os seus poderes.

- Que providência?

- Haviam profecias envolvendo você, o que significava que eu não podia deixá-lo morrer. Dois fatores estavam contribuindo para adiantar a sua morte: o envelhecimento no Lótus Hotel e Cassino e os seus poderes que literalmente consumiam a sua vida cada vez que você os usava. Resolver o primeiro problema foi relativamente simples: eu só precisei fazer alguns favores para Hebe, a deusa da juventude, e Higéia, a deusa da saúde. Encontrar uma solução para o segundo problema foi muito mais difícil.

Novamente ele ficou mudo enquanto perambulava pelo quarto.

- E que solução foi essa? – exigi.

- Você precisava de um suporte, alguém com quem você pudesse dividir a carga dos seus poderes para que eles não acabassem com você. Tinha que ser um semideus, é claro, mas não podia ser qualquer um. Nem todo semideus nasce com a capacidade de lidar com certas habilidades. A verdade é que alguns são mesmo mais fortes que outros, como os filhos dos Três Grandes. Minha primeira idéia foi de compartilhar os seus poderes com a filha de Zeus ou o filho de Poseidon.

- Thalia e Percy.

- Isso. Mas seria muito arriscado. Eles já tinham a própria carga de poderes para suportar e podiam não resistir a esse compartilhamento. Cheguei a pensar que não havia solução, mas então eu soube que Hera havia tido uma filha com um mortal.

Comecei a entender antes mesmo de ele terminar.

- E Hannah foi mesmo a solução perfeita: forte como uma filha dos Três Grandes, porém sem poderes próprios. O único detalhe era que, para que vocês pudessem compartilhar seus poderes, vocês precisavam estar próximos. Você estava no Acampamento Meio-Sangue e ela estava no Texas com o pai dela que não permitiria que ela fosse para o acampamento. Então eu... – ele suspirou e me olhou nos olhos. – Eu tive que fazer algo a respeito.

A caneca que eu segurava deslizou das minhas mãos e se despedaçou no chão. Eu apenas o encarei, boquiaberto. Tentei dizer alguma coisa, tentei fazer alguma coisa, mas eu estava paralisado.

- Nós deuses sabemos de tudo que acontece. E eu sabia, todos sabiam, da organização que estava sendo formada por alguns semideuses após a batalha contra Cronos. Maureen e os outros membros da organização sabiam da profecia e sabiam que Hera havia tido um caso com um mortal; eles só não sabiam onde encontrar a filha de Hera. O que eu fiz foi...

- Você contou a eles...CONTOU A ELES ONDE HANNAH ESTAVA! – gritei e me levantei da cama, ignorando a dor no meu machucado.

- Nico, eu...

- O PAI DELA MORREU POR SUA CAUSA!

- Nico, eu sei, mas...

- Mas isso não tem a menor importância para você, não é mesmo?!

- Você não podia morrer, Nico...

- E o pai dela podia?! A vida dele vale menos que a minha porque eu sou seu filho?!

- Eu sei que você quer que eu diga que cometi um erro, Nico, mas isso não é verdade. Assim como você, eu escrevi certo por linhas tortas.

- "Certo"?! Não tem nada "certo" nessa história! Você interferiu no curso natural da vida! Ser o deus da morte não te dá esse direito!

- Dá sim. Somos deuses, podemos interferir em qualquer coisa.

- Vocês são uma piada, isso sim! – escutei um trovão sacudir até o mundo inferior, mas eu não estava nem aí para a ira de Zeus. – Deviam fazer do mundo um lugar melhor para os mortais e não fazer dos mortais os seus brinquedinhos!

- Não é assim que funciona. Eu não agi em benefício próprio; eu fiz o que fiz porque o mundo precisava de você. Se você tivesse morrido, Maureen teria assumido o controle e transformaria o mundo em um verdadeiro caos! Você acha que isso seria melhor para os mortais?!

- Eu não sei. Eu não me importo mais. – encontrei um par de All Star no chão e comecei a calçá-los.

- Como assim você não se importa mais?

- Isso quer dizer que eu estou caindo fora. – me levantei e peguei um casaco jogado sobre uma cadeira.

- "Caindo fora" de onde?

- Dessa vida, dessas mentiras, das loucuras dos deuses.

- Você não pode escapar da sua própria vida.

- Não? Me assista! – dito isso, bati a porta atrás de mim e deixei Hades sozinho.

Saí do palácio andando cada vez mais rápido, apesar de saber que Hades jamais iria implorar para que eu voltasse. Eu não sabia ao certo o que eu estava sentindo: raiva, vergonha, decepção. Eu só sabia que não queria passar por aquilo de novo. Na verdade, eu queria esquecer que tinha ouvido tudo aquilo. Pensei em mergulhar no rio Lete, mas mudei de idéia porque queria poder justificar a minha decisão caso perguntassem depois. O mundo inferior estava quase reconstruído e eu tive que afastar o sentimento de "lar" que eu nutria por aquele lugar. Caminhei sem rumo durante algum tempo, atravessando os fantasmas e chutando as pedras preciosas que eu encontrava no chão, até que um fantasma brilhante, diferente dos demais, se colocou no meu caminho. Eu não ia dar atenção, mas aquele fantasma me provocou uma sensação calorosa, e eu olhei para cima.

- Bianca?! – eu arfei.

- Olá, Nico! – ela sorriu e aproximou sua mão fantasmagórica do meu rosto, como se fosse acariciá-lo.

- Mas você...Eu nunca mais soube de você e... – as palavras se atropelavam na minha mente.

- Estive bastante ocupada. Mas agora tudo se acalmou. Com exceção do seu coração, não é mesmo?

Tentei segurar, mas o nó na minha garganta estava quase me matando, e eu não consegui evitar algumas lágrimas. Bianca me conduziu até uma rocha e eu sentei ali.

- O nosso pai disse algumas verdades muito duras, não? – o olhar dela era de preocupação.

- Se foram duras para mim, imagine como Hannah se sentiria se soubesse.

- Ela sabe.

- Sabe?!

- Você esteve dormindo por quatro dias; ele contou a ela.

- E como ela reagiu?

- É claro que ela ficou cheia de ódio no começo, mas depois ela compreendeu que a morte do pai dela foi necessária.

- Duvido que ela tenha aceitado tão bem assim.

- Esse não é o tipo de coisa que se aceita, Nico; coisas assim nós podemos apenas compreender. E você vai compreender também. O nosso pai teve que pagar um preço por ter sido tão injusto com o pobre Eric... – ela olhou para trás, para a varanda do palácio, onde o fantasma de Eric Pope encarava o horizonte.

- Que preço?

- Ele teve que permitir a interferência de Eric. Como no dia em que ele falou com você e lhe deu o medalhão do Estige. Já que ele perdeu a vida e não pôde mais cuidar de Hannah pessoalmente, nosso pai permitiu que ele usasse outras pessoas, como você, para protegê-la.

- Isso não anula o que ele fez.

- Não, mas nós nem sempre podemos substituir uma coisa por algo idêntico. Você não pode me ter de volta, Nico, mas a vida lhe trouxe Eve e, desde que ela surgiu, a dor da minha perda não o assombra mais.

- É verdade... – não pude deixar de sorrir ao pensar em Eve como minha irmã.

- Essa guerra fez com que muitos de vocês perdessem pessoas importantes, mas vocês vão encontrar outras pessoas para amar e amenizar a dor da perda. E isso inclui você! Não tome nenhuma decisão agora, Nico. As coisas ainda estão retornando para os seus devidos lugares. E não perca sua fé no nosso pai e nos outros deuses; eles fizeram muito por você.

- Está falando de Hebe e Higéia?

- Estou falando do nosso pai outra vez. Eric não foi o único que ele permitiu que interferisse; eu também contribuí para que você tomasse as melhores decisões.

- Como?

- Mostrando a você coisas que você não podia entender se não visse com seus próprios olhos.

- As mensagens de Íris misteriosas!

- Sim. Como você pode ver, o nosso pai fez o que pôde para reduzir os danos causados pela atitude dele.

Aquela insistência de Bianca de que o nosso pai era um poço de bondade estava começando a me irritar, então eu fiquei em silêncio.

- Acho que já falamos o bastante sobre esse assunto. – ela riu. – Como eu disse antes, não decida nada agora; você tem a vida toda pela frente.

- Tenho mesmo? – eu não havia deixado Hades terminar de explicar o que ia acontecer comigo dali para frente. Eu não sabia se tinha tido sorte daquela vez, mas poderia morrer em breve, ou se meu problema havia acabado.

- Bem...Eu vou lhe dizer algo que talvez influencie bastante na sua escolha. – Bianca pareceu triste.

- Eu ainda estou morrendo, não é?

Ela ergueu as sobrancelhas, talvez surpresa com a minha relativa frieza.

- Hannah é como o seu suporte de vida, Nico. Ela esteve aqui nos últimos dias para que você pudesse se recuperar a partir das energias dela. Na verdade, são as suas energias que foram compartilhadas com ela; você apenas pegou de volta o que já era seu. Você se lembra o que acontecia quando ela estava sofrendo os efeitos da tatuagem amaldiçoada e você a tocava?

- Ela piorava.

- Sim, porque você estava tirando as energias dela. E quando você estava fraco e ela se aproximava, você melhorava instantaneamente.

- Eu não havia me dado conta disso, mas... – comecei a lembrar de todos os momentos esquisitos em que eu estava péssimo e melhorava de repente. Nunca dei muito valor àquilo, sempre achei que fosse sorte, mas Hannah realmente sempre esteve presente em todos esses momentos. – Caramba!

- Pois é.

- Então isso quer dizer que eu nunca posso me afastar dela? E o que aconteceria se ela morresse?

- Se Hannah tivesse morrido nessa guerra, por exemplo, você teria morrido pouco tempo depois. Mas não por causa da falta dessas habilidades curativas, e sim porque você teria que suportar sozinho toda a carga dos seus poderes outra vez. Você estava bem antes de todo o problema com Maureen começar, Nico. Estava há anos sem usar seus poderes e, mesmo assim, metade deles estava com Hannah. Você começou a deteriorar quando precisou voltar a usar os seus poderes com muita freqüência e começou a morrer quando entregou seu anel para Hannah. Quando ela ganhou o anel, ativou não só os próprios poderes como também os seus. E então boa parte dos poderes que vocês dividiam voltou para você, e isso te deixou mais poderoso mas, ao mesmo tempo, muito mais debilitado.

- E agora?

- E agora voltamos à situação inicial: você vai ficar bem desde que não use mais os seus poderes. Hades e Hera criaram um outro objeto para ajudar no controle dos poderes, e agora Hannah vai poder manter os poderes dela e parte dos seus, sem prejuízos para ela, para que você não fique sobrecarregado. E, respondendo a pergunta de antes, vocês não precisam mais estarem próximos para que isso funcione. Aparentemente vocês desenvolveram uma conexão...emocional.

Meu rosto começou a queimar, apesar de eu não ter certeza se Bianca estava falando sério ou se ela estava fazendo uma brincadeira atribuindo um sentido romântico para aquilo tudo. Eu respirei aliviado pelo menos por uma coisa: eu não estava mais morrendo. E, como Bianca mesma disse, aquelas informações iriam sim influenciar a minha decisão quanto ao futuro. Ela pareceu ler os meus pensamentos, porque disse:

- Venha comigo, Nico. Tem mais uma coisa que você precisa ver antes de deixar o mundo inferior.

Segui Bianca por um caminho que eu ainda não conhecia. Eu sempre soube da existência daquele lugar, mas nunca tive interesse em conhecê-lo pessoalmente. Chegamos a uma caverna pequena próxima a entrada do mundo inferior. Entrei inocentemente, sem fazer a menor idéia do que me aguardava. O lugar foi organizado de forma circular, com três púlpitos elevados nos fundos da caverna, em frente à entrada, e arquibancadas de madeira completando o círculo. Obviamente só havia gente morta ali. Dois fantasmas ocupavam o púlpito do meio e o da esquerda: um homem com cabelo, barba e bigode brancos e compridos na altura dos ombros e uma jovem usando armadura. Antes que eu me perguntasse quem eram aqueles, me deparei com um fantasma de pé no centro da caverna. O fantasma se virou na minha direção e eu confesso que ele era uma das últimas pessoas que eu esperava ver ali.

- T-Tobey?! – eu não falei alto, mas todos os fantasmas ficaram em silêncio bem naquele instante, então todo mundo prestou atenção em mim enquanto eu o encarava que nem um idiota.

- Desculpem o atraso. Eu precisei resolver algumas coisas. Mas agora o terceiro juiz já está aqui. – Bianca apontou para mim.

- Terceiro juiz? Mas...O quê?! – eu continuava agindo como um idiota.

- Um vivo como juiz dos mortos? Isso não é permitido! – protestou o barbudo no púlpito do meio.

- Abriremos uma exceção hoje. É um caso especial. – disse Bianca.

- Não! Temos regras aqui e eu exijo que elas sejam cumpridas! – o barbudo estava irredutível.

- Ah, você exige? Será que eu preciso chamar Hades aqui? Ele está muito ocupado, não acho que vai gostar de uma interrupção desnecessária... – Bianca fixou os olhos nele de forma ameaçadora.

- Tudo bem, tudo bem. – o homem suspirou. – Agora eu entendo porque ficamos adiando esse julgamento durante tanto tempo...Venha logo até aqui, garoto! – ele fez sinal para que eu me aproximasse.

Bianca sorriu para mim como se eu apenas devesse aceitar um sorvete que alguém estivesse me oferecendo. Passei ao lado de Tobey, sem encará-lo. Assim que eu me sentei, a jovem do outro púlpito sorriu para mim de forma gentil.

- Podemos começar agora. Todos em silêncio. – decretou o barbudo. – Julgamento de Tobey Grant, semideus filho de Hefesto. Os juízes serão Joana D'Arc, Nico Di Angelo e Leonardo Da Vinci.

Quando descobri quem eram aqueles dois, eu só conseguia pensar em uma coisa: "O que é que eu estou fazendo aqui?!".

- Vamos à revisão dos fatos: - começou Leonardo Da Vinci. – Tobey Grant foi membro importante e um dos idealizadores e fundadores da organização que objetivava roubar Dádivas dos semideuses que se recusassem a colaborar com a idéia de destronar os deuses, tomar seus poderes e adquirir o controle do mundo. Correto? – ele perguntou ao Tobey.

- Sim. – Tobey murmurou, de cabeça baixa.

- Nesse meio tempo, Tobey Grant elaborou e forneceu armas para que os roubos e também os assassinatos fossem realizados. Correto?

- Sim.

- Também foi incumbida a Tobey Grant a tarefa de se aproximar de uma semideusa filha de Hera, mentindo sobre seus sentimentos e fingindo estar apaixonado pela garota, para que conseguisse sua confiança e pudesse obter informações que, no futuro, seriam usadas para prejudicá-la. Correto?

- No começo sim, mas...

- Vamos assistir a uma cena que comprova a veracidade dos fatos. O medalhão, por favor? – Leonardo Da Vinci estendeu a mão para mim.

Demorei uma eternidade para entender o que ele queria. Tateei os meus bolsos, sem muita esperança de encontrar o medalhão ali, mas acabei encontrando. Entreguei a ele e Leonardo o abriu, fazendo com que ele se transformasse em um data show, projetando a imagem em uma das paredes da caverna.

A imagem mostrava um garoto moreno de cabelos curtos e escuros, de costas, meio escondido atrás de uma das pilastras do pavilhão do refeitório do Acampamento Meio-Sangue. Ele espionava um grupo de campistas que conversavam animadamente, sentados em uma das mesas. Dentre eles estavam Hannah e Allan. Allan viu que estava sendo observado, pediu licença, se levantou e veio em direção ao garoto, que se escondeu completamente atrás da pilastra.

- Você ainda não foi falar com ela? – perguntou Allan, de braços cruzados, com ar superior.

- Não! – respondeu Tobey, como se aquela idéia o apavorasse.

- Ela não vai morder você, seu covardão!

- Maureen devia ter escolhido outra pessoa para fazer isso. Esse plano estúpido nunca vai dar certo! Como eu posso fingir estar apaixonado por aquela garota?!

- Qual o problema? Ela é bonita e é bastante simpática.

- Então por que você mesmo não vai lá e a chama para sair?

- A missão é sua, Grant. Dê um jeito.

- Maureen é completamente louca! Ela é minha namorada e quer que eu finja estar namorando com outra!

- Porque ela confia totalmente em você. Quem garante que qualquer outro não iria se apaixonar de verdade pela tal da Hannah?

Tobey encarou Hannah de longe mais uma vez.

- Ah, por favor, pare de bancar o garoto sem jeito! As garotas do acampamento morrem por você! E Hannah está tão frágil que vai cair nos braços de qualquer um que for relativamente legal com ela. – disse Allan. – Só chegue lá e se apresente. Pergunte se ela está precisando de alguma coisa. Depois dê alguns presentes para ela; tenho certeza de que ela vai adorar, parece com as minhas irmãs!

Tobey continuou indeciso.

- Sabe, Maureen vai ficar uma fera se outro se aproximar dela primeiro. – Allan falou como quem não quer nada.

- E quem se aproximaria? Ela é uma chorona!

- Parece que as coitadinhas atraem os coitadinhos...

- Está falando de quem?

- Do Di Angelo. Está na cola dela desde que ela chegou aqui.

- É mesmo? Aquele esquisitão nunca fala com ninguém.

- Pois é, mas parece que "aquele esquisitão" abre exceção para garotas bonitas. – Allan riu.

- Vou lá falar com ela. Agora mesmo. – parece que o fato de Allan ter mencionado meu nome deu motivação o suficiente para Tobey estufar o peito e sair de trás da pilastra em direção à Hannah.

Leonardo Da Vinci fechou o medalhão e a projeção terminou.

- Como eu disse antes: foi incumbida a Tobey Grant a tarefa de se aproximar de uma semideusa filha de Hera, mentindo sobre seus sentimentos e fingindo estar apaixonado pela garota, para que conseguisse sua confiança e pudesse obter informações que, no futuro, seriam usadas para prejudicá-la. O réu realmente discorda de algo que foi dito?

- Eu ia dizer que no começo foi assim, mas as coisas mudaram depois. – Tobey explicou, aborrecido.

- Mudaram? Como? – perguntou Joana D'Arc.

- Eu me apaixonei de verdade por ela. Eu a amava. Eu não teria morrido da forma como morri se eu não a amasse.

- "Amor"? Não me venha falar de "amor", Sr. Grant! Isso é o tribunal dos mortos, não é uma novela!

Os fantasmas das arquibancadas começaram a fazer barulho. Alguns riram e aprovaram a fala de Leonardo Da Vinci, enquanto outros gritaram insultos e o mandaram honrar sua função de juiz.

- Silêncio! – gritou Joana D'Arc. – Quando, exatamente, as coisas mudaram, Sr. Grant?

- Não sei dizer quando exatamente. Depois que eu voltei oficialmente para o lado da Maureen eu comecei a me dar conta, com o passar dos dias, de que eu havia feito a escolha errada. – o olhar de Tobey ficou vago, como se ele sofresse ao relembrar daquilo.

- Vamos discutir esse ponto: você era um agente duplo. Oficialmente fazia parte da organização e levava informações para lá; mas, quando uma missão para investigar o desaparecimento de Daniel Evans foi montada, você contribuiu significativamente com o grupo, apesar de ter continuado a passar algumas informações para a organização. Afinal, Sr. Grant, de que lado você estava? – Joana D'Arc quis saber.

- Bem...Como você mesma disse, eu era um agente duplo. No começo, antes e algum tempo depois de Hannah aparecer, eu trabalhava exclusivamente para a organização. Mas, quando eu comecei a fazer parte do grupo da missão, eu fiquei dividido; eu ajudei no que pude para o andamento da missão, mas ainda fui obrigado a colaborar com a organização para que eles não percebessem que eu estava em dúvida.

- E depois que Hannah Pope traiu você? Como ficou sua situação?

Mesmo sem nenhuma imagem vinda do medalhão do Estige, os fantasmas me encararam; como eles sabiam que Hannah havia traído Tobey por minha causa?

- Eu fiquei inteiramente do lado da organização. Mas foi por pouco tempo.

- Explique melhor. – pediu Joana D'Arc.

- As coisas haviam evoluído muito na organização. Quando eu comecei a fazer parte dela, nossos planos eram outros, muito mais simples. Eu não concordei com certas atitudes, como o seqüestro e a tortura da filha de Zeus e do filho de Poseidon. Desde então eu comecei a ajudar Hannah e os outros.

- E foi logo depois disso que você planejou a própria morte, usando para isso o aqui presente filho de Hades, Nico Di Angelo, deixando-o sem escolha a não ser matá-lo para salvar a própria vida. – Leonardo da Vinci finalizou.

- Sim. – no único momento em que eu senti necessidade de encarar Tobey, ele abaixou a cabeça, completamente envergonhado.

Leonardo Da Vinci e Joana D'Arc começaram a conversar baixo entre si, me excluindo completamente. Outros fantasmas também estavam conversando enquanto lançavam olhares acusatórios para Tobey. Eu não pude fazer nada a não ser me sentir péssimo. Não sabia por que Bianca havia me obrigado a presenciar aquilo; ninguém pediu minha ajuda ou minha opinião, então porque eu tinha que ficar assistindo o cara que eu matei ser condenado no tribunal dos mortos?! Ela estava de pé na entrada da caverna me olhando de forma ininteligível. Bom, ela era minha irmã, ela me amava; não podia estar fazendo aquilo para me torturar. Já que ela não me dizia nada, desviei o olhar. Observei a platéia em busca de outros fantasmas de personalidades importantes até que me deparei com um rosto familiar. O fantasma de uma menina franzina e morena olhava Tobey com piedade. Fiquei encarando-a por tanto tempo que ela se virou para mim. Não achei que ela fosse ter alguma reação específica, já que nós dois nem mesmo nos conhecíamos direito quando ela estava viva, mas ela sorriu e piscou para mim. Lancei um sorriso meio estranho de volta. Para minha surpresa, ela saiu do seu lugar e veio até o meu púlpito.

- Ah...O-oi, Julia. – cumprimentei.

- Que bom que você está vivo, Nico! – Julia Hawkins sorriu com sinceridade.

- Obrigado. Então...Como funciona isto aqui? Qualquer um de vocês pode vir assistir os julgamentos ou...

- Os que estão nos Campos de Punição não podem. – ela esclareceu.

- Ah...E você está...?

- Nos Campos Asfódelos. Os últimos dias têm sido movimentados; muitos julgamentos de pessoas conhecidas.

- Os membros da organização.

- Sim. E alguns heróis também. – ela ficou triste por alguns instantes.

Eu estava me sentindo estranho tendo aquela conversa com ela. Era óbvio que aqueles julgamentos a faziam sofrer, afinal aqueles membros da organização já foram amigos dela.

- Você está muito em dúvida, Nico? – ela me perguntou. Achei engraçada aquela pergunta vinda dela que era uma filha de Jano, o deus da Dúvida.

- Deixa eu adivinhar: existem dois caminhos, sendo que um me leva a um lugar maravilhoso e o outro a um lugar terrível.

- É verdade que existe um caminho maravilhoso e um caminho terrível, mas eles não são os únicos. Há dezenas de outros caminhos entre esses dois e nenhum é tão maravilhoso ou tão terrível quanto aqueles dois, mas mesmo assim você precisa escolher bem. Nada é feito de uma coisa só, Nico; não existe só o preto e o branco, a luz e as trevas, a maldade e a bondade. Nem mesmo entre os deuses as coisas são exatas. Você tem o direito de errar e até a escolha que parece maravilhosa não vai ser vista assim por todo mundo. Eu não estou aqui para julgar, nem para influenciar a sua escolha, só para lhe esclarecer que existem vários caminhos. Você foi trazido aqui porque, nas condições atuais, é o único capaz de tomar a decisão certa hoje. Então faça isso. Você tem todas as informações, sabe de todos os acontecimentos. Só precisa pensar nos demais, como você sempre fez.

Julia voltou para o seu lugar quando Leonardo Da Vinci voltou a pedir silêncio.

- Silêncio, por favor! – ele gritou. – O júri tomou sua decisão, Tobey Grant.

Tobey nos encarou, apreensivo. Um silêncio mortal caiu sobre o tribunal dos mortos.

- Por causa dos crimes de conspiração contra os deuses, roubo de itens mágicos poderosos, fornecimento de armas e subsídios para tais atos, traição, inatividade diante de atos de roubo, seqüestro, tortura e assassinato e por ter induzido uma pessoa a matá-lo... – Leonardo da Vinci fez uma pausa irritante. – Você está condenado aos Campos de Punição por toda a eternidade!

Alguns fantasmas aprovaram a decisão e até comemoraram, mas a maioria ficou em silêncio. Dois ghouls chegaram para levar Tobey dali. Julia me encarava loucamente. Bianca parecia querer impedir os ghouls, mas sabia que não podia. Meu coração estava acelerado, batendo tão forte que, se os fantasmas não estivessem fazendo barulho, daria para ouvi-lo perfeitamente. A voz de Julia não saía da minha cabeça: "Você foi trazido aqui porque, nas condições atuais, é o único capaz de tomar a decisão certa hoje.". Minha cabeça estava a ponto de explodir quando eu dei um soco no púlpito e me levantei.

- ESPEREM!

Os ghouls pararam a centímetros de distância de Tobey.

- A decisão ainda não foi tomada! Existem três juízes, certo? Eu não dei a minha opinião ainda!

Julia abriu um grande sorriso. Bianca me olhou intrigada. Tobey parecia não estar acreditando que eu havia feito aquilo. Na verdade, eu também não estava acreditando.

- Pois bem. Então se pronuncie, Nico Di Angelo. – Leonardo Da Vinci revirou os olhos.

- Não vou dizer que discordo da sua fala, Sr. Da Vinci, mas acho que você e a Srta. D'Arc esqueceram de levar em consideração certos aspectos. – me controlei o máximo que pude para não parecer um adolescente mimado falando.

- Quais aspectos, Sr. Di Angelo? – Joana D'Arc me olhou com atenção.

- Como todos sabem, o réu era um agente duplo. E, como agente duplo, ele obviamente contribuiu tanto para a ascensão quanto para a queda da organização. Ele lutou ao nosso lado e salvou não só a missão como a nossa vida inúmeras vezes. Acho que isso não pode ser ignorado.

- Isso não foi ignorado, Sr. Di Angelo. – disse Leonardo Da Vinci. – Nós apenas concluímos que suas contribuições para a organização foram muito mais relevantes que as contribuições para o combate à organização.

- E o que me dizem de ele ter elaborado um meio de evitar que Hannah Pope caísse nas mãos da organização, permitindo assim que, no final, ela pudesse acabar com Maureen, a líder? Inclusive, ele deixou uma arma para ela, algo que a ajudou bastante na luta.

Peguei o medalhão do Estige e o abri, fazendo com que ele mostrasse a pulseira prateada que Hannah usou para dar um belo soco em Maureen. Vi Tobey Grant sorrindo levemente com aquela cena.

- O réu também escondeu a mim e aos meus amigos no lençol negro e deixou lá uma Dádiva para que eu encontrasse e usasse para garantir que, se alguém morresse, poderia retornar.

- Sr. Di Angelo... – Joana D'Arc tentou me interromper.

- E sim, ele me usou para isso; ele me deixou sem escolha a não ser matá-lo. E eu passei um bom tempo o odiando por isso, principalmente porque eu achava que ele tinha feito isso para me deixar mal com Hannah. Mas depois, quando Eve foi assassinada e eu pude trazê-la de volta...Por mais que eu quisesse continuar odiando ele, eu não podia porque valeu muito a pena ver Eve voltando a vida. Na verdade, se eu estou relativamente são hoje, é porque ela continua viva. E, mesmo que eu ainda me sinta terrível por ter matado alguém com quem eu convivi e em quem eu confiei e mesmo que Hannah nunca me perdoe por isso, eu acredito que fiz a coisa certa.

- Tudo bem. Vamos retirar a última acusação. – Leonardo da Vinci falou, simplesmente.

- Eu ainda não acabei. – lancei a ele o mesmo olhar ameaçador de Bianca. – Quero também que vocês levem em consideração que ele abriu mão da vida dele para salvar a de outra pessoa, a de Hannah ou de quem ela quisesse. E, por ter encurtado a sua vida, ele obviamente não teve a oportunidade de fazer mais para se redimir e não é justo condená-lo por isso.

- Mas a vida não é justa com ninguém, Sr. Di Angelo. – disse Joana D'Arc. – Por isso o rio Estige é cheio de sonhos e esperanças perdidas.

- Mas outros membros da organização tiveram a chance de corrigir seus erros! Vejam Julia Hawkins! – apontei para ela na platéia. – Ela esteve na organização desde o começo, ela conspirou contra os deuses, ela assistiu roubos e assassinatos sem interferir! Ela teve um destino tão diferente do que vocês pretendem dar ao Tobey Grant só porque viveu alguns dias a mais depois de ter oficialmente deixado a organização?! Isso não é justo!

- É isso aí! Se o Tobey vai para os Campos de Punição, nós também vamos! – Julia gritou e mais um monte de outros fantasmas a apoiaram.

Reconheci alguns deles do acampamento ou até mesmo da batalha em Nova York. Era uma cena inacreditável: um bando de fantasmas exigindo ir para os Campos de Punição!

- Já chega! Ordem! ORDEM! – Leonardo da Vinci gritava, mas ninguém dava ouvidos.

O silêncio só se restabeleceu quando Joana D'Arc bateu com seu escudo do púlpito.

- Houve uma mudança na decisão do júri. – ela declarou.

A platéia comemorou.

- Houve?! – Leonardo da Vinci a encarou, perplexo. – Mas nós ainda precisamos discutir a respeito e...

- Não, não precisamos. O Sr. Di Angelo expôs muito bem os seus argumentos e eu mudei a minha opinião.

- Mas eu não mudei a minha!

- São dois votos contra um, Sr. Da Vinci.

- Ah... – Leonardo deitou a cabeça sobre o púlpito. – Essa coisa de juiz dos mortos não é para mim! Vão em frente, façam o que quiserem... – ele resmungou.

- O réu está condenado a passar o resto da eternidade nos Campos Asfódelos!

Tobey sorriu aliviado e assentiu para mim como forma de agradecimento antes que Julia Hawkins e outros fantasmas invadissem o centro do tribunal em comemoração.

- Que gesto admirável, Sr. Di Angelo! – Joana D'Arc sorriu para mim antes de deixar o tribunal.

Eu ainda fiquei atrás do púlpito por um tempo, aproveitando a sensação de ter escolhido não o caminho maravilhoso, mas aquele que seria bom para a maioria dos envolvidos. Apesar de eu achar que a única pessoa que não gostou muito daquilo foi o Leonardo Da Vinci.

- Nico! Nico! – alguém estava gritando meu nome lá embaixo.

Vi Bianca comemorando junto com os outros fantasmas, muito sorridente, me mandando beijos com as duas mãos.

- Muito bem, irmãozinho!

E essa foi a última lembrança que eu tive do mundo inferior antes de acordar no meu chalé no acampamento, olhar para a bagunça em que ele se encontrava e pegar no sono outra vez.