E
ra de se pensar que após meses e meses de combate nós teríamos pelo menos alguns dias para descansar e tentar colocar nossas vidas no lugar, mas era impossível seguir adiante sem que algumas providências fossem tomadas. Eu mal saí do meu chalé naquela manhã e Hector, depois de perguntar como eu estava, avisou que nós estávamos indo para o Olimpo ter uma conversa com os deuses. Não era preciso ser gênio para adivinhar o tema daquela "conversa".Os deuses pediram que elegêssemos alguns representantes para ir até Nova York e no final nós tínhamos um grupo de quase trinta pessoas. John estava lá, é claro. Na verdade, os filhos de Atena estavam em peso, o que não era nenhuma surpresa. De resto, apenas o líder de cada chalé e um outro representante. Quando estávamos na entrada do acampamento, nos acomodando nas vans, notei que faltava uma pessoa que definitivamente deveria ter uma conversa com os deuses.
- Onde está Hannah? – perguntei ao Hector.
- Hannah? – a reação dele estragou qualquer tentativa de disfarce; ele parecia estar morrendo de vontade de fugir dali. – Ah. Ela...Está no Texas, com a família. Sabe, depois de tudo que aconteceu, eles tinham muito o que conversar e os avós dela ficaram bastante perturbados, então...
- Entendi. – tentei fingir que aquilo não havia me abalado nem um pouco. Desconversei e entrei em outra vã. Eu conhecia Hector o bastante para saber que ele ia se sentir mal com a minha cara e ia acabar falando o que eu ainda não estava preparado para ouvir. Assim que o meu pai me contou a verdade sobre Hannah, comecei a ser assombrado pela possibilidade de ela, assim como eu, querer se distanciar para sempre daquela loucura. E ela tinha muito mais motivos para aquilo do que eu.
Nova York estava em obras. O trânsito estava um caos com todas aquelas máquinas de construção ocupando a rua. Eu conseguia perceber um certo ar assustado no pessoal que andava pelas ruas e eu não os culpava nem um pouco por aquilo, afinal, para eles, a cidade havia sido atingida por terremotos e aquilo havia ocasionado explosões de gás e diversos incêndios. Se eu fosse um deles, eu também ficaria com medo de que uma nova catástrofe atingisse a cidade nos próximos anos; parecia que aquilo já estava virando tradição.
O Olimpo também estava se reconstruindo. Estava bem melhor do que da última vez em que estive lá, os palacetes estavam quase prontos e as fontes e as estátuas estavam sendo montadas. Os deuses nos aguardavam em seus tronos. Poucos além dos doze olimpianos estavam lá; Hades, por exemplo, não estava, o que eu achei ótimo. Zeus não esperou para começar a falar: se desculpou pela ausência dos demais deuses dizendo que eles tinham compromissos importantes e depois fez um grande discurso de agradecimento pela nossa luta, nossa coragem e todos os sacrifícios; disse que mais uma vez nós provamos ser os pilares do Olimpo e que cada um de nós seria lembrado eternamente.
Eu não me emocionei nem um pouco. Acho que ninguém gostou daquilo, na verdade. Era pouco demais diante de tudo que nós passamos e, principalmente, diante de quantos amigos morreram. Mas Zeus continuou falando sem parar e até os outros deuses pareciam desconfortáveis com aquela situação. Percy estava ao meu lado e eu o vi trocando olhares com Poseidon como se estivesse dizendo "Sério? Essa é a atitude que Zeus vai tomar?". Poseidon sacudiu a cabeça discretamente. Percy suspirou e resmungou alguma coisa que eu não entendi.
- Então, novamente, nós agradecemos a vocês, heróis. – Zeus finalizou o seu discurso e deu início a uma salva de palmas para nós.
- John, tenha calma... – ouvi alguém cochichar enquanto as palmas ainda estavam rolando.
Olhei e vi uma garota tentando segurar John, mas ele puxou o braço e disse:
- Não! Não vou deixar que isso seja tirado da gente! – ele deu um passo a frente e falou antes que os aplausos terminassem. – Com licença, senhor Zeus!
O olhar de Zeus não foi nem um pouco amigável. Quem estava na frente se encolheu discretamente, provavelmente achando que ele ia nos eletrocutar.
- Sim?
- Eu acredito que certas questões deveriam ser discutidas aqui e agora. – disse John.
Um silêncio constrangedor tomou conta do lugar. Ninguém dizia a Zeus o que fazer. Ninguém. Mas acho que John havia parado de se importar com aquele tipo de regra há algum tempo. Senti vontade de aplaudir, mas achei que o momento não precisava de mais tensão.
- As Dádivas, senhor Zeus. O que vamos fazer com elas? – John exigiu.
- Essa questão será discutida em breve. – Zeus não perdeu a compostura. - Nós, deuses, faremos uma votação e...
- Isso quer dizer que nós não vamos participar?!
- John! Ficou louco?! – alguém o repreendeu.
- Essa é uma questão interna. Nós assumimos toda a responsabilidade pelo acontecido e vamos fazer o que for necessário para evitar que isso aconteça outra vez.
- Ou seja...Vocês vão destruir todas as Dádivas e nunca mais nenhum semideus irá recebê-las. – John estava tão furioso que praticamente rosnou essa frase.
- John... – Atena lançou um olhar solidário para ele.
- Exatamente. – Zeus respondeu, seco. – Nós ainda não votamos, mas eu acredito que essa seja a vontade da maioria.
- Qual maioria?! Porque com certeza o senhor não está falando da gente!
- Essa decisão não cabe a vocês! – Zeus começou a usar o mesmo tom de John.
- Mas é claro que cabe! Nós precisamos das Dádivas para salvar vocês, não precisamos? Como você acha que nós vamos ser capazes de combater uma ameaça maior sem elas?!
- Essa ameaça nem teria existido se não houvessem Dádivas!
- Mas as Dádivas também foram fundamentais para a vitória sobre Cronos! Admita, senhor Zeus: isso não passa de um medo seu de que o que aconteceu há poucos dias volte a acontecer!
- Então você não tem medo de que aquilo aconteça outra vez?! Achou que foi simples acabar com aquele problema?! Pois eu acho, John Nelson, que é você que precisa admitir que não quer perder a sua Dádiva! Afinal, é muito cômodo para você ter a habilidade de ver além do óbvio!
Zeus havia atingido o ponto certo. John o encarou por alguns instantes, meio chocado e talvez um tanto envergonhado, mas continuou:
- Eu não tenho problema nenhum em admitir o quanto valorizo a minha Dádiva. Mas eu acho que o senhor deveria apenas cuidar para que Dádivas muito poderosas, como a que foi usada para trazer Eve García de volta a vida, não fossem mais produzidas, e não destruir Dádivas inofensivas como a minha.
- Não existem Dádivas inofensivas! Todas as Dádivas devem ser destruídas! Porque todos vocês acham que ter uma Dádiva é estar um passo mais próximo de se tornar um deus! Aquela garota Maureen apenas levou isso muito a sério, mas todos vocês têm o mesmo objetivo que ela: o poder infinito!
Nós começamos a olhar uns para os outros. Eu não havia pensado naquilo. Talvez porque eu não tinha Dádiva, mas devia ser realmente muito tentador possuir certas habilidades. Quem garantiria que em pouco tempo um outro semideus não fosse dar início ao mesmo projeto insano de Maureen?
- Então não, John Nelson, eu não vou permitir que vocês opinem nesta questão. – disse Zeus. – Vocês foram fortes o bastante para lutar e defender o Olimpo, mas são fracos demais para resistir ao poder.
Mesmo com aquele discurso um tanto esquivo, Zeus conseguiu convencer a mim e a maioria dos semideuses ali. Alguns estavam de cara feia, resmungando entre si, e eu fiquei imaginando se algum deles, depois de ter passado pelo que passamos, seria capaz de fazer o mesmo que Noel e Maureen fizeram. Algo me disse que sim e eu agradeci a Zeus em silêncio por ele ter tomado aquela decisão.
Parecia que tudo ia terminar por ali, mas John surpreendeu outra vez quando retomou a palavra:
- E quanto aos filhos dos Três Grandes? Eles são tão poderosos quanto os próprios deuses; se nós vamos ficar sem as nossas Dádivas, acho que nada é mais justo do que eles também ficarem sem poderes.
Novamente o silêncio tenso caiu sobre nós. John nem mesmo olhou para mim, Percy e Thalia.
- Filho da... – Percy começou antes que alguém desse uma cotovelada nele.
- Golpe baixo, Nelson. – Owen murmurou, desapontado.
E, francamente, eu também estava muito decepcionado com ele. Em outras circunstâncias, eu acharia que o objetivo dele era somente garantir a segurança, mas depois daquilo eu percebi que John era muito parecido com Maureen. Ele não era um ladrão e muito menos um assassino, mas todo aquele apego com as Dádivas não tinha outra razão senão compensar a inferioridade que ele sentia diante dos poderes dos filhos dos Três Grandes.
- Se Thalia Grace não vai mais poder controlar os raios, você vai perder completamente a sua habilidade de montar estratégias. É isso mesmo que você deseja? – a voz desafiadora de Atena ecoou pela sala.
- O quê? – eu nunca vi John parecer tão bobo.
- Sim, porque não são só os filhos dos Três Grandes deuses que possuem habilidades especiais. – Atena continuou. – Os meus filhos são sábios estrategistas, os filhos de Ares são os melhores guerreiros, os filhos de Deméter controlam as plantas, os filhos de Hefesto são inventores. Vocês têm certeza de que desejam abrir mão dessas habilidades?
Imediatamente todos começaram a dizer "Claro que não" e "De jeito nenhum" e a se desculpar com os deuses. Zeus pediu silêncio e falou:
- Nenhum de vocês vai perder essas habilidades. Elas nascem com vocês, ninguém pode tirá-las. E é claro que todos vocês, filhos de todos os deuses, têm as suas; as habilidades dos filhos dos Três Grandes deuses são apenas mais óbvias e se manifestam mais intensamente com mais facilidade. Você, John Nelson, conseguiu desenvolver a sua muito mais que a maioria dos seus irmãos e não foi por causa dos seus óculos; foi o treinamento. As Dádivas chegam até vocês para ajudá-los a aprimorar suas capacidades; elas não são as suas habilidades.
John voltou para o seu lugar com a expressão mudada. É claro que alguns ali iam levar mais tempo para aceitar aquela situação, mas eu tinha esperança de que nós não voltaríamos a ter sérios problemas entre filhos dos Três Grandes e os filhos dos outros deuses.
Depois que os ânimos se acalmaram um pouco, Zeus pediu que aqueles que tivessem Dádivas as entregassem naquele momento. Foi algo difícil de se ver em certos casos, como o de Owen; aquela Dádiva significava um bocado para ele. Karen ficou feliz em se livrar da dela. Sam havia recuperado os seus poderes quando Maureen foi derrotada e ele não ficou muito satisfeito com a idéia de perdê-los outra vez. Enfim, as reações foram diversas, algumas bastante negativas, mas quando terminou eu me senti mais seguro. Acho que toda aquela coisa de Dádivas havia fugido do controle permanentemente; as pessoas nunca iam deixá-las de lado se elas não fossem destruídas. Pelo menos daquela vez os deuses haviam tomado uma atitude decente.
Mais um compromisso estava a minha espera quando nós voltamos para o acampamento. Quíron pediu um momento durante o jantar daquela noite e comunicou a todos que a mãe de Tobey Grant havia convidado todos nós para prestar uma homenagem a ele na casa deles em Baltimore, Maryland. Por causa da guerra e tudo mais, quase ninguém estava presente no dia em que a mortalha dele foi queimada no acampamento; além disso, todos pensavam que ele era um traidor naquela época. Mas, quando todos souberam que ele salvou a vida de Eve, de Hannah e provavelmente de muitos de nós, sentiram a necessidade de fazer uma despedida adequada.
- Então...Você vai? – Hector me perguntou quando estávamos deixando o pavilhão do refeitório.
- Não sei. Provavelmente não.
- Achei que você havia superado tudo que aconteceu depois do julgamento no mundo inferior.
- Eu só fiz o que era certo. E também não tem nada a ver com isso.
- O que não tem nada a ver?
- Não é por causa da guerra e da traição e do fato de eu ter matado ele. É só que...Nós nunca fomos amigos e seria estranho aparecer na casa dele como se eu fosse.
- Um monte de gente nem mesmo o conhecia, e eles estarão lá.
- Eu sei. Mas acho que o meu caso é diferente.
- Tudo bem. Mas ainda acho que você deveria ir. Hannah vai estar lá e vocês podiam aproveitar para...sei lá. Acho que vocês precisam se ver.
- É... – demorei para responder. Toda vez que alguém mencionava Hannah eu sentia meu coração se contorcer. - Eu vou pensar nisso. Talvez eu mude de idéia.
Hector sorriu com a certeza de que havia me convencido e foi para o seu chalé. Eve invadiu o meu chalé ainda naquela noite e ficou me perturbando até eu dizer:
- Se isso vai fazer você me deixar em paz, eu prometo que vou.
Então ela começou a revirar o meu guarda-roupa tentando encontrar alguma roupa adequada para a ocasião. Como quase tudo que eu tinha era preto, não foi tão difícil, mas eu tive que pedir uma camisa emprestada ao Hector, já que eu praticamente só tinha camisetas de banda.
Novamente nós usamos as vans do acampamento para fazer a viagem. Eu ia me juntar a Hector e Eve daquela vez, mas Quíron tocou no meu ombro quando eu estava embarcando e disse:
- Por que você não se junta a mim na outra van, Nico? Acho que essa está um pouco cheia.
A van não estava tão cheia assim, mas eu não discuti e embarquei na outra. Quíron não disse nada no começo do percurso, mas quando o restante do pessoal na van começou a conversar entre si, ele começou:
- Eu fiquei muito surpreso ao ver você junto com os outros esta manhã. Está fazendo algo muito corajoso, Nico.
- Não me sinto muito corajoso. Eu só vim porque Eve e Hector insistiram.
- Mesmo assim. Uma pessoa mais fraca não estaria aqui hoje.
Consegui sorrir um pouco.
- Obrigado. Só espero que eu não desabe quando chegar lá.
- Não tem problema nenhum se você desabar. – Quíron falou com convicção. – Na verdade, eu acho que você precisa enfrentar essa situação. E se não der certo hoje, você deve continuar tentando até conseguir. Uma coisa eu garanto a você, Nico: isso não vai te assombrar para sempre.
Deixei a última frase se repetir várias e várias vezes na minha mente, como se fosse um mantra, na esperança de que eu me convencesse daquilo.
- Será? – perguntei a ele.
- Bom, você não vai esquecer; mas o sentimento que a lembrança provoca vai mudar.
Quíron não tocou mais no assunto pelo resto da viagem. Fechei meus olhos com força e tentei dormir, na esperança de estar menos abalado quando chegássemos em Baltimore.
Foi triste e doloroso. Na verdade, "triste e doloroso" é uma forma muito simples de descrever aquele momento. Formamos uma multidão em torno do túmulo de Tobey Grant no cemitério. O lugar era bonito, muito verde, e o dia estava ensolarado e fresco. A Sra. Grant tentou dizer algumas coisas, mas as lágrimas não permitiram e Quíron assumiu o lugar dela. Alguns irmãos de Tobey no acampamento também disseram algumas palavras. Todos o elogiaram bastante, ninguém disse nada a respeito da traição. Muitos mencionaram um lado de Tobey que eu nunca conheci: um amigo divertido e, acima de tudo, uma pessoa generosa. Eu sabia que não era mentira: enquanto um falava, outros assentiam; e eu lamentei verdadeiramente só ter conhecido o lado ruim dele. Quíron ressaltou sua coragem e disse que poucos guerreiros haviam morrido com tanta honra. A Sra. Grant, que se manteve relativamente controlada até aquele instante, começou a chorar muito e pareceu que ia desmaiar. Hannah apareceu naquele momento e a abraçou. Eu ainda não a havia visto, cheguei a pensar que ela não iria; mas alguém disse que a idéia da despedida foi toda dela.
Depois nós seguimos para a mansão dos Grant. A maioria, os que não o conheciam, acharam melhor ir embora. A família de Tobey era dona de uma montadora de automóveis, ou seja, eram podres de ricos. Serviram um lanche para nós em um salão bonito e com tantas coisas que pareciam caras que eu tentei nem me mexer muito para não quebrar nada. Hannah desapareceu com a Sra. Grant assim que chegamos. Depois de algum tempo elas desceram; Hannah me cumprimentou de longe e passou o resto da manhã andando de um lado para o outro, organizando tudo. Eu tentei me aproximar sem dar muita bandeira, mas ela realmente estava sem tempo para mim.
Sem mais nada para fazer, eu fiquei perambulando pela mansão. Foi enquanto eu caminhava que eu acabei esbarrando na Sra. Grant, fazendo com que ela derrubasse um álbum de fotografias no chão.
- Sra. Grant, eu...Me desculpe por isso. Eu estava distraído e...Desculpe. – devolvi o álbum a ela e fui obrigado a encará-la.
Ela era bastante jovem e bonita também. Era branca, com cabelos loiros curtos e o mesmo rosto redondo de Tobey. Eles tinham o mesmo olhar, o que me deixou menos a vontade do que eu já estava.
- Obrigada. – ela passou alguns segundos me encarando antes de pegar o álbum de volta.
Mas ela não foi embora. Foi um momento muito estranho onde nós dois ficamos em silêncio enquanto eu tentava fugir do olhar dela e ela buscava o meu. Por causa do comportamento dela, eu me perguntei se ela não saberia a verdade. Quíron havia me garantido que a família de Tobey só sabia que ele havia morrido durante uma batalha, ninguém havia dito nada sobre a minha participação nisso. Mas Hannah estava tão fria comigo...E se ela tivesse contado a Sra. Grant que o cara que havia matado o filho dela estava ali presente?
- Sra. Grant, eu... – comecei sem querer. Achei que ela estava esperando que eu dissesse mais alguma coisa. – Lamento muito pelo que aconteceu. – achei melhor não falar demais para o caso de ela não saber mesmo a verdade. – Se a senhora precisar de alguma coisa e eu puder ajudar... – também preferi não dizer o meu nome.
Ela só me encarava e eu já não estava mais suportando aquilo.
- Bem, desculpe mais uma vez e...Com licença.
Eu me virei para ir embora dali, mas ela segurou o meu braço delicadamente.
- Você é o Nico? – ela me perguntou.
"Ela sabe", foi o pensamento que quase me fez entrar em colapso. Fiz o possível para controlar minha tremedeira e, quando me virei de volta, tentei não deixar transparecer o meu nervosismo.
- Sim. – minha voz saiu mais alta do que eu pretendia.
A Sra. Grant me surpreendeu com um sorriso leve.
- É muito bom conhecer você, Nico. Tobey falava muito de você.
Ela estava tirando uma com a minha cara, com certeza. Ou Tobey tinha um grande amigo também chamado Nico.
- E-ele falava? – tentei soar natural.
- Ah, sim. – ela riu. – Parece que vocês dois tinham uma pequena...rivalidade?
Ela continuava sorrindo, o que me deixou um pouco menos tenso.
- Ah, é. Nós dois meio que...gostávamos da mesma garota. – ela não precisava saber que a nossa rivalidade ia muito além disso.
- Eu sei. Hannah é mesmo uma garota adorável. – disse com sinceridade.
Eve sempre aparecia em momentos inconvenientes. Por que ela não aparecia naquele também?
- Bem, Nico, depois que as coisas se acalmaram um pouco eu separei algumas coisas no quarto do Tobey. Eu guardei algumas coisas para mim e para o avô dele, mas a maioria eu deixei para Hannah e os amigos dele. Por que você não vai lá em cima e vê se alguma coisa lhe interessa?
- Eu não sei se essa é uma boa idéia, Sra. Grant...Como a senhora sabe, nós não éramos exatamente...
- Ele deixou uma coisa para você.
- Deixou? – aquilo me surpreendeu imensamente.
- Sim. Venha comigo. Eu vou lhe mostrar. – ela foi em direção às escadas e eu a segui.
Uma das portas no corredor estava aberta e René e vários outros amigos de Tobey estavam dentro de um quarto enorme com uma TV gigante, vídeo games, instrumentos musicais e todos os sonhos de consumo de qualquer garoto.
- Pode ficar aí. Eu já volto. – a Sra. Grant me disse e caminhou em direção ao final do corredor.
Nunca me senti tanto como um peixe fora d'água como no quarto de Tobey junto com os amigos dele. Eles estavam pegando desenhos, peças, ferramentas e fotos e eu só dei uma olhada em volta por curiosidade, não havia nada que eu quisesse pegar. A mãe dele voltou e me chamou para o lado de fora.
- Aqui está. – ela me entregou um envelope branco com o meu nome escrito com caneta preta.
- Tem certeza de que é para mim? – eu analisei o envelope, receoso.
- Sim. Ele foi bem claro quando pediu para que eu lhe entregasse isso.
- Quando foi isso?
- Pouco antes de morrer. – ela ficou triste outra vez. – Ele apareceu aqui em casa para...se despedir. Eu não entendi naquela época, mas depois eu percebi que ele já sabia que algo ia acontecer com ele. Ele escreveu algumas cartas para alguns amigos e me entregou todas. Hannah passou os últimos dias aqui e nós resolvemos organizar esse dia para que eu pudesse entregar as cartas. Eu já estava ficando preocupada porque não conseguia encontrar você, e Tobey disse que era muito importante que você recebesse a sua.
A Sra. Grant já estava visivelmente exausta de tudo aquilo, então eu fiquei aliviado quando anunciaram lá embaixo que nós já estávamos de partida.
- Muito obrigado, Sra. Grant. – falei. – Espero que a senhora fique bem.
- Vou ficar. – ela sorriu, com lágrimas nos olhos.
Me despedi e aproveitei que os demais estavam se despedindo dela também para procurar Hannah, mas não a encontrei em lugar nenhum. Entrei na van com Hector e Eve e nós ocupamos o banco traseiro. Eve estava com os olhos vermelhos; Hector disse que ela chorou o dia inteiro.
- Conseguiu falar com Hannah? – ele perguntou.
- Não. Ela estava muito ocupada. – suspirei.
- Então o que ficou fazendo? Eu procurei por você. – disse Eve.
- Bom, eu...Estive com a mãe do Tobey.
Eles me olharam como se eu tivesse acabado de dizer que estive nadando com tubarões e enguias elétricas.
- Ei, não façam essas caras. Ela foi muito legal.
- Ela sabia que...? – Hector falou super baixo.
- Não. Nós não falamos muito. Ela só disse que sabia de mim porque Tobey comentava a meu respeito com ela.
- Comentava o que?
- Não sei o quanto ele falou para ela. Mas ela sabia que nós brigávamos. De qualquer maneira...Ele me deixou uma carta. – tirei o envelope do bolso e mostrei a eles.
Eles ficaram tão surpresos quanto eu.
- E o que diz aí? – Eve quis saber.
- Ainda não sei. Eu não queria ler sozinho. – abri o envelope e desdobrei o papel que havia dentro, colocando-o em uma posição em que nós três pudéssemos ver.
"Eu sei que você me acha um covarde e eu também acho que eu seja um. Você merecia que eu dissesse o que vou dizer pessoalmente, mas eu não vou ter oportunidade de fazer isso, então você vai ter que se contentar com essa carta. Tomei uma decisão há algumas semanas, mas passei todo o tempo me perguntando se não seria melhor se eu simplesmente falasse com você e dissesse que eu havia me arrependido do que fiz e que queria voltar para o lado de vocês. Eu acredito que você confiaria em mim outra vez, porque você é esse tipo de pessoa, você sabe que nem tudo tem só dois lados. Mas essa seria a atitude mais covarde e eu morreria de qualquer maneira, então achei melhor morrer fazendo o que seria melhor para mais gente, ao invés de só para mim. Foi um plano audacioso demais até para mim, mas tem dado certo até agora, e eu espero que você faça sua parte. Se você está lendo isso, deve saber do que eu estou falando. Para começar, eu lamento por ter que fazer você pagar um preço tão alto por um erro que eu cometi. Reconheço que isso irá lhe trazer problemas, mas vou fazer isso com a esperança de que uma vida que valha mais do que a minha seja salva. Eu sei que foram as minhas escolhas que colocaram todos vocês nessa situação e eu sei que não há nada que eu possa fazer que vá apagar isso, mas eu quero que você saiba que eu me arrependi de verdade e que eu fiz tudo que era possível para tentar corrigir o meu erro. Espero ter feito a coisa certa e espero que você não se sinta mal pelo que vai acontecer comigo. A culpa não é sua, Nico, e eu não escolhi você para fazer isso por causa de qualquer ressentimento da minha parte, e sim porque eu sei como você deve se sentir com relação a mim depois do que eu fiz. Qualquer outra pessoa (Eve, Madison, John Nelson, não importa) não teria motivo o suficiente para me matar, mas você me odeia o bastante para fazer isso. Eu também achei que o odiava, mas nesses últimos dias eu me dei conta de que o problema era a inveja que eu sentia de você. Você nunca seria idiota a ponto de se juntar a um grupo de semideuses para acabar com outros. Acho que eu sempre quis ser como você e ter a coragem de escolher ficar sozinho ao invés de fazer algo só para agradar um bando de gente que não vale a pena. Depois de tudo que eu fiz, sei que não tenho o direito de pedir nada a você, mas isso é importante: não magoe Hannah e, se ela não quiser mais você na vida dela, não insista. Não sei como Hannah vai lidar com o que vai acontecer, mas sei que ela já está muito frágil. Apenas cuide dela. Eu sinto muito por todo sofrimento que eu causei. Espero que, algum dia, você possa compreender e me perdoar.
Tobey Grant."
