E
u me olhei no espelho naquela manhã e, novamente, como em todos os dias, lá estava a horrorosa cicatriz que Maureen havia deixado na parte baixa da minha barriga. Todas as outras haviam desaparecido, mas aquela não dava nem sinal de que desapareceria algum dia. Mais de um mês já havia se passado desde que tudo acabou e, lentamente, nós estávamos nos recuperando.Quase tudo que lembrava Maureen e sua organização foi extinto. Todos os semideuses haviam sido convocados para entregar suas Dádivas, mas, no fim das contas, somente as mais perigosas foram realmente destruídas. A maioria foi enviada para o Banco das Dádivas, que não se localizava mais em um shopping de Chicago; os deuses escolheram uma nova localização, que provavelmente não ficava mais tão acessível aos mortais. Só restou um exemplar do livro das Dádivas: o de Zeus. Somente ele poderia autorizar que o livro fosse visto ou que uma Dádiva fosse criada. Sim, nós não havíamos perdido o privilégio de receber uma Dádiva quando estivéssemos em um momento de grande dificuldade; mas ela seria tomada de nós assim que a tarefa dela fosse cumprida. Isso agradou bastante ao John e aos outros que haviam ficado inconformados com a decisão inicial de Zeus.
Os prisioneiros da guerra foram obrigados a revelar onde ficavam as bases da organização que ainda não havíamos descoberto e, em poucos dias, nós havíamos destruído tudo: todas as instalações, todos os mapas, todas as armas, todas as informações. Parecia que eu estava respirando melhor enquanto assistia tudo aquilo ser queimado em uma grande fogueira. Os túneis que saiam dos chalés e levavam até a base dos inimigos no acampamento também foram completamente destruídos. Mesmo assim, eu duvido muito que alguém um dia fosse capaz de esquecer completamente os meses em que tiveram que lutar contra seus próprios irmãos.
Depois de tudo isso, acho que se podia dizer que as coisas tinham voltado ao normal. O acampamento ainda passou algum tempo bem lotado com o pessoal que ainda estava por lá cuidando de tudo. Percy e Annabeth ficaram para ajudar; assim como John, Karen, Owen e muitos outros semideuses que já haviam deixado o acampamento, mas retornaram para ajudar na batalha. Mas, como já não havia mais nada a ser feito, todos estavam voltando para suas vidas normais fora do acampamento.
Owen estava de partida naquele dia, então Dione havia organizado uma super festa de despedida para ele; apesar de que eles iam continuar se vendo sempre, já que haviam assumido o namoro. Foi uma surpresa para todo mundo descobrir que eles se gostavam, menos para Barbara, que passou muito tempo trabalhando com os dois na missão e, quando eles anunciaram que estavam juntos, ela só disse "Finalmente!". Eu achei que essa foi a solução perfeita para a espécie de quarteto amoroso que existia entre eu, Hannah, Owen e Dione; não havia mais aquele clima estranho entre nós.
John e Karen também estavam deixando o acampamento por aqueles dias. Foi engraçado ver John com a expressão tranqüila, sem ficar olhando mapas nem dando ordens; eu conheci um lado dele completamente diferente naqueles últimos dias e acabei descobrindo um grande amigo. Ele disse que ia tentar continuar com a faculdade, já que toda aquela coisa com a organização acabou fazendo com que ele se afastasse completamente. Karen ia tentar se transferir para a Flórida para ficar perto dele. Mas os dois garantiram que iam continuar sempre ligados ao que acontecia no acampamento.
Aquele era o último verão de Hector no acampamento; ele havia sido aceito na NYU. Quíron lamentou estar prestes a ficar sem o melhor assistente que ele já teve, mas já havia começado a treinar Sam para ser seu novo braço direito. Hector e Eve também haviam assumido o namoro, o que deixou muitas garotas loucas da vida, mas Eve estava tão feliz que nem dava valor aos olhares atravessados. Eu também estava muito feliz por eles dois, apesar de não ter entendido como tudo aquilo aconteceu sem que eu percebesse. Eve me confidenciou que sempre foi apaixonada por ele, mas não queria demonstrar porque achou que não tinha chance. Já o Hector me disse que começou a prestar atenção nela durante a missão, mas ficou tentando esquecer porque achou que a diferença de idade entre eles era grande.
- E é mesmo. – eu disse a ele. – E ela é uma garota de respeito, Hector; não é uma dessas garotas vagabundas. Por isso, não ache que eu não vou fazer nada se perceber que você anda folgando demais para o lado dela.
Eve disse para eu não me preocupar com isso; ela era forte o bastante para acabar com a raça dele se fosse necessário. Hector disse a ela que não ia ser necessário e eles começaram a se agarrar na minha frente. Esse era o tipo de coisa que acontecia o tempo inteiro, e era uma droga porque eles eram os meus amigos mais próximos e eu não podia mais passar tanto tempo com eles. Quero dizer, eles faziam o possível para não me deixar de lado, mas eu sabia que aquilo era terrível principalmente para Eve, que queria aproveitar os últimos dias com o namorado sem ninguém por perto. Apesar de que eles não iam ficar tanto tempo sem se ver, porque Hector havia ganhado uma biga voadora de presente do John e poderia visitar Eve no Novo México todos os dias, se ele quisesse. Então eu passei a me esconder no acampamento, para que eles não se sentissem na obrigação de ter que me fazer companhia ao me ver ali sozinho.
E era o que eu estava fazendo naquela tarde. Bom, pelo menos eu tentei. Eu estava aproveitando a sombra de uma árvore perto do rio e logo depois eles apareceram usando roupas de banho e ficaram nadando por ali. Não devem ter percebido a minha presença e eu também estava com muita preguiça para procurar outro lugar. Na verdade, não adiantava sair dali porque todos os outros lugares estavam ocupados pelos vários casais que haviam se formado no acampamento. E ver isso o tempo todo estava me matando. Porque Hannah não havia voltado para o acampamento.
Eve e Hector não falaram nada sobre isso. E eles sabiam muito bem o que estava acontecendo, porque Eve ajudou a arrumar tudo que havia no chalé de Hera para entregar para os avós de Hannah, que vieram buscar as coisas há duas semanas. Eles vieram bem cedo; quando eu os vi na entrada do acampamento, eles já estavam guardando as últimas caixas no carro e partiram uns cinco minutos depois. Eu não perguntei nada à Eve; ela tinha me visto ali e sabia que eu havia percebido, mas fingiu que nada estava acontecendo. Ninguém, nem mesmo Quíron, comentava sobre Hannah. Eu não sabia se era mais doloroso perguntar a eles ou permanecer em silêncio, fingindo que estava numa boa com o que quer que tivesse acontecido.
Eu estava devaneando sobre isso quando uma voz atrás de mim me fez despertar:
- Você está vigiando Eve ou coisa parecida?
E aí Hannah se sentou ao meu lado e sorriu. Ela parecia ótima: tranqüila, sorridente, descansada e, é claro, bonita. Havia cortado o cabelo um pouco abaixo dos ombros e ele estava preso em uma trança lateral; usava um vestido branco com um casaquinho florido por cima. Eu a encarei por alguns segundos, meio sem acreditar que ela estava ali.
- Eu...não. Claro que não. – respondi.
Ela riu.
- Melhor não. Eve ficaria muito aborrecida se apenas desconfiasse que você está bancando o irmão mais velho super protetor.
- Eu sei.
Ficamos em silêncio por algum tempo, só assistindo Eve e Hector brincarem na água. Hannah suspirou e disse:
- Eles formam um casal muito lindo.
Eu assenti e nós continuamos em silêncio. Fui eu quem o quebrou:
- Como estão Peter e os seus avós?
- Agora estão bem. Passei as últimas semanas com eles para dar apoio. As coisas estão voltando ao normal aos poucos.
- Pois é. Por aqui também.
- Você está bem? – o olhar dela se tornou preocupado.
- Estou. Enquanto eu não usar os meus poderes, vou ficar bem.
- Você está muito melhor. Parece até bronzeado.
Não pudemos evitar uma risada. Depois disso o silêncio caiu novamente sobre nós. Eu tinha tanta coisa para falar e sentia que ela também tinha, mas eu estava com medo de ouvi-la. Começamos a falar ao mesmo tempo e nos desculpamos. Eu disse a ela para começar.
- Me desculpe por ter desaparecido. – ela me encarou. – Eu queria ter dado notícias, mas eu realmente precisava de um tempo e...eu ainda não sabia o que dizer a você.
- Tudo bem. Todo mundo estava precisando de um tempo. – eu dei de ombros.
Devo ter agido com muita indiferença; ela interpretou as minhas palavras da forma errada.
- Por favor, não fique com raiva de mim... Eu sinto muito mesmo!
- Eu não estou com raiva. – tentei suavizar a minha expressão. – Eu quis dizer que entendo o fato de você precisar de um tempo para colocar a cabeça no lugar. Não precisa se apressar por minha causa. Eu não estou mais com os dias contados, lembra? Podemos conversar outro dia, quando você achar melhor.
- Eu já tive tempo o bastante para pensar; vim aqui hoje só para falar com você.
- Então...você não voltou? – perguntei só por perguntar; eu já sabia a resposta.
- Não, Nico. E... – ela suspirou. – eu não vou voltar.
Ela parecia convicta, mas triste.
- Talvez seja a melhor opção. – eu tirei forças sabe-se lá de onde para falar.
- É. Talvez. Meu pai nunca quis que eu viesse para cá e agora os meus avós acham que eu devia me afastar. Eu pensei muito e vi que eu nunca gostei muito disso aqui; pelo menos não mais do quanto eu gostava de ser apenas uma garota normal.
- Você nunca vai ser "apenas uma garota normal". – lembrei a ela.
- Eu sei. Mas eu preciso tentar. Eu quero entrar em uma faculdade de medicina.
Não pude esconder o meu espanto.
- Pois é. – ela continuou. – E para isso eu preciso estudar em uma boa escola e tirar notas excelentes. Sei que vai ser difícil, mas é isso que eu quero.
- Então você não vai mais estudar em Del Rio?
- Não. Eu quero recomeçar, Nico. Não é só o acampamento que me traz lembranças ruins; sempre que eu estou em Del Rio, a morte do meu pai me assombra. Hesitei muito em tomar essa decisão, mas percebi que eu não vou conseguir seguir em frente se continuar lá. Preciso deixar tudo isso para trás. Eu vou para Nova York com o Peter.
Precisei me encostar na árvore para assimilar aquilo com calma. As coisas estavam acontecendo exatamente como eu havia previsto, mas mesmo assim eu não estava conseguindo lidar com elas com serenidade.
- Isso é ótimo, Hannah. – falei com toda sinceridade.
Porque eu estava feliz de verdade por ela. Talvez eu estivesse até com um pouco de inveja por ela ter encontrado o caminho dela e eu não fazer idéia de como seria a minha vida dali para frente. Mas era uma atitude corajosa e eu estava orgulhoso dela.
- Acho que você está fazendo a coisa certa. – acrescentei. Por mais que eu quisesse que ela continuasse ao meu lado, eu não podia mentir e dizer que ela estava fazendo uma besteira. Lembrei do que Tobey havia escrito na carta que deixou para mim: "se ela não quiser mais você na vida dela, não insista.". Hannah ia ser feliz, era isso que importava.
Hannah pareceu se sentir mais a vontade depois do que eu disse. Acho que ela estava preocupada demais com a possibilidade de a minha reação ser negativa. Sua expressão ficou mais leve e ela se encostou na árvore. E ficamos em silêncio por mais um bom tempo.
- Você vai embora agora ou vai passar a noite aqui? – perguntei.
- Por que?
- Por nada. Eu só queria saber.
- Está querendo me ver pelas costas, Nico Di Angelo? – seu tom era brincalhão, ela fingiu estar ofendida.
Tentei entrar no clima da brincadeira, mas não consegui. Eu estava decepcionado com ela: ela não foi ali para resolver como as coisas ficariam entre nós, ela foi apenas me comunicar que ia embora da minha vida para sempre. Desde que ela chegou, agiu como se nós fôssemos apenas amigos; acho que ela não queria ter aquela conversa comigo e ia apenas deixar que eu interpretasse o comportamento dela. Aparentemente, não existia mais "nós" e eu era apenas parte de um passado doloroso que ela queria esquecer.
- Eu quero saber o que você ainda está fazendo aqui. Afinal, você já me disse que não vai mais voltar. O que está esperando para ir embora?
Eu nunca fui tão ríspido com ela. Mas não estava arrependido. Eu não podia agir como se ela não estivesse fazendo nada demais; eu merecia respostas, eu merecia uma conversa. Imaginei que aquilo fosse fazer com que ela partisse imediatamente, furiosa comigo para sempre, mas Hannah não pareceu ficar chateada com o que eu disse. É claro que ela não gostou do meu tom, mas parecia que ela só estava diante de uma criança birrenta.
- Deixei algumas coisas importantes aqui. Vim buscá-las. – disse, simplesmente.
Ela voltou a ficar em silêncio enquanto observava Hector e Eve. Eu já estava irritado com aquela situação! Por que ela ficava me torturando daquela maneira?!
- O que você acha disso aqui? – ela me entregou um papel que estava dobrado em sua mão.
Era um panfleto anunciando o preço de um apartamento em um prédio de esquina em Nova York, em Tribeca.
- Legal. É aí que você vai morar? – devolvi o panfleto a ela.
- Não. O meu prédio fica a duas quadras desse. É aí onde você vai morar.
Eu fiquei em absoluto estado de choque. Será que eu havia entendido direito? Será que ela havia mesmo dito aquilo? Porque eu não esperava por essa. Do jeito que as coisas estavam, eu achava que só havia duas opções: Hannah ficar no acampamento ou Hannah ir embora para sempre. Nunca achei que ela me pediria para ir embora com ela.
- Se você quiser, é claro. – ela falou, insegura diante do meu silêncio.
Eu ainda não conseguia falar. Estava pensando em mil coisas.
- Olha, Nico, eu não estou dizendo que, se você não quiser ir para Nova York, nós nunca mais vamos nos ver. Não vou me afastar de você por causa disso. Eu só pensei que você ia gostar da idéia porque achei que essa guerra havia mudado muita coisa para você, assim como mudou para mim; pensei que você também ficaria com vontade de recomeçar. E o Daniel conversou comigo há alguns dias atrás. Ele está indo para Nova York também, para estagiar em uma empresa que cria videogames, e ele não tem ninguém com quem dividir o apartamento. E eu sei que você gosta de videogames, então eu pensei que...
Eu a beijei antes que ela pudesse terminar. Ela se surpreendeu no começo, mas depois se empolgou e me empurrou, caindo por cima de mim.
- Isso foi um "sim"?! – ela se iluminou.
- É claro que foi! – eu sorri e a beijei outra vez. Eu estava tão feliz e com tanta saudade dela! Quando foi a última vez que nós ficamos juntos sem tristezas e sem preocupações? Acho que nunca. Aquela era a primeira vez e era tão diferente!
- Nico, eu... – Hannah interrompeu o beijo para falar alguma coisa, mas não pôde concluir porque nós dois tomamos um susto quando duas Náiades jogaram água em cima de nós.
Hannah gritou e se levantou, arrumando o cabelo desesperadamente. Ouvi risadas vindo do rio e me levantei para ver o que era.
- Vocês acabam com a nossa privacidade... – disse Hector.
- ...Nós acabamos com a de vocês! – Eve completou.
Os dois ficaram tendo um ataque de riso enquanto Hannah olhava para sua roupa, desolada. Não pude controlar o riso também.
- Ei, vamos para o meu chalé. Vou arranjar umas toalhas para você. – estendi a mão para ela.
Ela a segurou e me acompanhou, olhando feio para Hector e Eve.
- E aí? Tem salvação? – perguntei à Hannah enquanto ela se olhava no espelho do meu quarto.
Ela parecia realmente preocupada com o estado do cabelo dela.
- Muito engraçado! – ela revirou os olhos.
- Você continua linda, Hannah! – garanti.
Ela deu risada e me abraçou.
- Por falar em "linda"... O que você acha disso? – ela tirou a toalha dos ombros e me mostrou o seu colar.
Era finíssimo, de prata, com um pingente de coração de pedra preta.
- O que é? – perguntei.
- Me ajuda a controlar a parte dos seus poderes que estão comigo. Hades e Hera fizeram toda a parte mágica, mas eu que escolhi a jóia. – ela sorriu.
- Muito apropriado!
- Tem razão. E você sabe por quê? – ela me encarou, séria. – Porque eu te amo, Nico.
Ela me deixou sem palavras pela segunda vez naquele dia.
- Desculpe ter demorado tanto tempo para dizer isso. Eu tinha tanta certeza do que eu sentia pelo Tobey, e você apareceu na minha vida tão de repente e em um momento tão difícil que eu não tive tempo de analisar o que eu estava sentindo. Mas agora, e principalmente depois de você ter se arriscado por minha causa tantas e tantas vezes...Como eu poderia sentir alguma coisa diferente de amor?
Eu só consegui suspirar. Hannah conseguia me deixar verdadeiramente anestesiado.
- Esses seus silêncios me assustam, sabia? – ela brincou.
- Desculpa. Mas, então... – eu não queria estragar aquele momento, mas eu não podia ficar com aquela dúvida para sempre. – O que você sentia pelo Tobey?
- Eu gostava muito do Tobey e não queria que ele tivesse morrido, mas... – ela me surpreendeu por não ter mudado de assunto. – Mesmo que ele ainda estivesse aqui, nós não ficaríamos juntos. Não tinha nada a ver com a organização nem com Maureen; nós simplesmente não dávamos certo. Sendo bem sincera, Nico, eu amava o Tobey, mas de uma maneira muito diferente da maneira como eu amo você.
Respirei aliviado.
- Sinto muito por ter tocado no assunto. Mas eu precisava saber.
- Eu sei. Não tem problema. – ela enxugou uma lágrima.
Eu a abracei enquanto ela derramava mais algumas lágrimas.
- São as últimas pelo que aconteceu no passado, eu prometo. – ela disse.
- Vai dar tudo certo daqui pra frente, Hannah. Não vai haver mais lágrimas. Você vai ser muito feliz. Nós vamos ser muito felizes.
