Capítulo dois: Adorável rotina

Por Kami-chan

Dei um suspiro alto, o calor e a maciez dos edredons me mantêm nesse estado onde não sei dizer ao certo se ainda durmo ou já estou desperto. Não me lembro de quanto tempo faz que não tinha uma noite tão aconchegante e gostosa. Sei que fui enlevado por sonhos a noite toda, mas pouco me lembro, de cada um deles guardo apenas uma sensação gostosa de aconchego e... terremoto?

– Acorda de uma vez bonequinha de sexo! – Ah sim essa voz é com certeza do Uruha e o terremoto com certeza são meus ombros que são chacoalhados independente da minha vontade.

– Porra Kou eu estava dormindo tão bem. – Virei de lado na cama sem me importar com o barulho do corpo do loiro gigante que caiu no chão no processo, puxei mais o edredom sobre o meu rosto para esconder o risinho que se curvou leve em meus lábios.

– É. Bom dia pra você também chatinho. – Disse-me ainda do chão – Sabe como é fui obrigado a vir acordar você porque já é 07h15min.

– COMO É QUE É? – Gritei já pulando da cama, voando para o armário enquanto podia observar o vulto de Uruha se sentando na beirinha da minha cama rindo muito provavelmente do meu estado. – Puts Kou a aula começa às 07h30min, se viu que eu tava atrasado porque não veio aqui antes. Olha pra mim – Virei pra ele – Eu não to nem maquiado. Merda. – Não esperei ele responder, corri pro meu armário em busca de roupas, acessórios e tudo mais que precisaria.

– É... er.. Ruki, não é por nada não amigo, mas você está maquiado sim e de uniforme. Aliás, o mesmo de ontem. Tomar banho faz bem, porquinho.

– Un? – Olhei para minha própria imagem de demolição refletida no espelho. – Merda, merda, merda... Eu ainda não tinha tomado banho ontem quando a minha mãe me fez dormir. – Passei rápido a mão por uma toalha e uma peça íntima limpinha, já tava correndo pro banheiro quando ele me fez para no meio do caminho mais uma vez.

– Como é? Emi-san ainda coloca você pra dormir chibi? – Disse agora torcido de tanto rir da minha cara.

– Não, ela não faz isso não. – Respondi vermelho, de raiva e não de vergonha, não tinha problemas em ressaltar que adorava os carinhos de Matsumoto Emi, é ela ficou com o nome do meu pai depois de ser expulsa de casa por ter se casado com o mesmo.

E tinha menos vergonha ainda de agir assim diante dos meus dois únicos e excelentes amigos, Kouyou e Yutaka. Eu sei que os dois gostam tanto dela quanto eu e morrem de inveja da minha mãe super compreensiva.

– Pera aí Takashima, você pulou uma pergunta seu idiota, você não é de se atrasar então porque deixou pra me chamar na última hora? – Quase gritei apontando para ele de maneira acusativa.

– Ahh a mamãe fez waffles, não pude deixar ela lá tomando café sozinha enquanto você ficava aqui apagado. Perdi a hora, os waffles estavam ótimos. – CARA DE PAU.

Sim a 'mamãe' a quem ele se referiu é a MINHA mãe, porra. Até ela estava nesse complô contra mim?

– MÃÃÃE! – Gritei e logo a morena de estatura baixa apareceu na minha porta, já pronta para o trabalho vestindo um jeans justo com as botas de couro preto sobrepostas cobrindo-lhe até o joelho, o corpo cheio de curvas coberto apenas pela básica justa de mangas longas preta e um lenço vermelho no pescoço apenas pra dar uma cor entre o tecido preto e os cabelos longos soltos de mesma cor e a maquiagem super leve, diferente da minha que era super carregada sempre. Mas ela se vestia pra trabalhar e eu apenas vou para escola.

– Bom dia Takanori, não precisa gritar a casa não é tão grande assim e nem os vizinhos precisam escutar nossos assuntos. – Ela se escorou no batente da porta e ficou me olhando enquanto tomava um gole de café.

– Mãe, porque não me acordou. Não posso me atrasar pra primeira aula tem prova. – Ela me olhou confusa e eu pude ver com o canto do olho Uruha se segurar pra não rir.. aí tem.

– Amor desculpe você não costuma demorar tanto pra se arrumar e bem... – Ela trocou a xícara de café da mão direita para a esquerda e virou o pulso em busca do relógio – É recém 6h30min – E agora eu não a ouvia mais, o riso descontrolado de Uruha tomavam conta de todo o quarto.

E eu fiquei olhando aquela peste, esperando ele se acalmar. Reparando finalmente na calça do uniforme verde escuro contrastando com o preto dos coturnos pretos que se sobrepunham à calça um pouco abaixo dos joelhos. Aliás, calça que está ficando cada vez menor no Kouyou, principalmente nas coxas onde o tecido parece se afinar cada dia mais e no comprimento já que aquelas pernas não param de crescer.

A barriga dele estava de fora porque ele estava jogado de qualquer jeito na minha cama e convenhamos, aquela peça compõe o uniforme infantil porque mesmo em posição normal, bastaria ele erguer um braço para deixar o abdome exposto. Os punhos também estariam de fora se ele não estivesse usando luvas de meio dedo da mesma cor do moletom e estas cobriam a região.

Visual este que poderia ser desastroso para qualquer outra pessoa que não fosse aquele loiro de traços perfeitos. Não, eu não estou secando meu amigo, isso é apenas uma observação. E minha mãe parada na porta, sorrindo diante as gargalhadas gostosas do monstro loiro.

– Ahh a parte dos waffles não era mentira. Estavam uma delícia Emi-san – Disse recuperando o ar e minha mãe riu ainda mais.

– Ahh eu vou te matar Uruha – Gritei largando todas as coisas que tinha em mãos e voei pra cima dele para matá-lo...

De cócegas, porque minha mãe estava olhando. Mais tarde eu me vingaria dele de maneira mais adequada.

– Hei... hei.. não Taka... para com isso e... hei isso aqui não é do Reita? – Nós estávamos literalmente rolando e bagunçando toda a cama quando ele parou de rir pra sair com aquela frase que congelou todos os meus movimentos quando encontrou o pequeno tecido perdido entre as minhas cobertas.

– Que mane Reita, Uruha? – Puxei a faixa que eu tinha roubado, sem querer, de Akira. Dormi tão bem e fui acordado tão mal que nem me lembrava mais dela... e do CD.

– Cara, por isso que ele estava reclamando ontem que estava sem faixa pra trocar depois da aula de educação física. Meu que nojo, você fez o cara ficar com a faixa suada pelo resto da manhã.

– Cala boca Kouyou, eu nem sei do que você tá falando. Isso deve ter caído na minha mochila quando ele me emprestou o CD. – É eu estava sim vermelho, mas como estávamos rolando e rindo até poucos minutos atrás eu acho que isso não é nada anormal.

– OK Ruki não precisa mentir. Cara, eu sabia que você tinha uma quedinha pelo Akira, mas aponto de roubar uma faixa? – Ele voltou a rir balançando o pedaço de toalha de cortina que Reita usava no rosto.

Que inferno, quedinha? Que quedinha? Eu não tenho quedinha por ninguém. E minha mãe, o pon não se toca não das coisas que fala com minha mãe ali escorada na porta?

– CALA A PORRA DA BOCA KOUYOU. Eu não tenho queda por ninguém, muito menos por Akira. Já disse isso deve ter caído na minha mochila. – Ele conseguiu, palmas para Takashima Kouyou que é capaz de me deixar de mau humor antes das sete horas da manhã.

– Aí Ru-chan, pode continuar mentido pra mim, mas não faz isso com você não. Ultrapassa os limites da bichisse. Além do mais – Ele colocou um dos dedos entre os lábios. – Eu acho que o Reita já sabe, ele é bem inteligente.

– Você quer mesmo morrer não é? Olha as merdas que você ta insinuando aí.

– Ruki ser gay não é defeito! – Ele disse indignado.

– URRRRGG – Passei a mão no travesseiro e comecei a bater nele com força com o mesmo. – Vê se te olha bem no espelho antes de me chamar de viado ô Ana Hickmann oriental, URU-DIVA!

Minha mãe. Eu juro que só lembrei que ela estava ali quando vi ela interpor-se entre mim e Kouyou para acabar com a palhaçada. Não que ela fosse contra resolvermos nossas diferenças do nosso jeito, mas bem na verdade ela morria de medo que eu extrapolasse e machucasse o pon.

O medo era de que a mãe louca dele a processasse ou coisa do tipo, elas não se davam bem. A mãe do Uru era meio paranoica e às vezes fica meio que julgando a forma como minha mãe cuida de mim.

– Hei hei meninos sem demonstrações de afeto tão marcantes, por favor. Amor vai logo tomar o seu banho ou vão se atrasar mesmo pra escola, está chovendo e vou levá-los de carro se você estiver pronto na hora em que eu saio pro trabalho.

– Ahn então danou-se o Kai sempre se atrasa pra chegar aqui. – Disse com simplicidade, como se nunca estivesse tentando esmagar Kouyou com o travesseiro.

– Ele ligou. A mãe dele vai levá-lo porque parece que ele vai fazer uns exames de sangue e essas coisas. Kou querido porque não vem me fazer companhia enquanto o Taka-ruki- porquinho toma banho, un.

– Claro Emi-san. – Uruha assentiu de forma respeitosa, é sério, ás vezes passávamos algum tempo na casa dele e ele DEFINITIVAMENTE não era assim por lá. – Não demora Rukiko, ou vou comer seus waffles todos.

.:.

Uruha

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E então eu ouvi a voz da mãe do Ruki e minha fixa caiu, eu tava ali tirando uma da cara do filho dela, chamando o pequeno de viado na maior cara de pau. Eu melhor do que ninguém devia saber cuidar dessas coisas já que já vi com meus próprios olhos o quanto pais em geral reagem mal a essas coisas.

Eu respeito muito Emi-san, mesmo que de um jeito meio estranho ela cuida melhor de mim do que minha própria mãe e tenho certeza que da mais liberdade pro Kai do que a mãe dele. A última coisa que eu queria nesse momento era deixá-la braba com algo estúpido, ou pior, sabe-se lá como ela interpretaria tudo o que disse e me obrigasse a me afastar do Ruki. NÃO!

Mas ela parecia tranquila, e esse era o ruim da mãe do Ruki. Ela SEMPRE estava tranquila e sabia fazer tudo daquela forma. Já tinha recebido sermões dela bem medonhos, não se engane, ela é estouradinha. De onde você acha que o Ruki saiu. Ainda assim, mesmo quando se irritava ela tinha uma coisa diferente, ela sabia se fazer respeitada sem maiores dificuldades.

– Acho que vou fazer mais waffles, então vocês podem levar para o Yutaka também, esses exames de sangue são feitos em jejum. – Ela disse assim que saímos do quarto, com um dos braços por cima dos meus ombros. Fala sério, ela não vai surtar por eu ter chamado o filho dela de gay?

– Senhora Matsumoto? – Ignorei o que ela tinha dito, de repente fiquei com medo, mas ao mesmo tempo com uma vontade enorme de conversar com ela.

– Credo, faça-me um favor Kou-chan meu filho querido, respeite as rugas que ainda não apareceram e meus cabelos que ainda não ficaram brancos e nunca mais me chame de senhora. – De repente me vi rindo, podia mudar tudo o que pretendia falar ali, mas tinha que continuar.

– Certo, Emi-san gomen ne por tudo. – Falei tentando evitar olhar para a mãe de Ruki, daqui uma ou duas falas ela estaria me expulsando de sua casa.

– Ahh que isso, você conhece o Taka, ele acorda assim de mau humor, mas logo logo ele acorda direitinho e volta a ser o mesmo de sempre, amável e instável. – Cara a mulher sofria de perda de memória recente? Só pode.

– Eu me referia às coisas que insinuei sobre ele e o Akira. – Então precisei olhar para ela novamente. – Ele não é gay. – Embora eu acreditasse firmemente no contrario, nunca vi Takanori com uma garota, todavia nunca o vi com nenhum garoto também então não podia afirmar nada sobre o pequeno.

E ela não falou nada. Isso era de matar qualquer um, como eu ia continuar se não tivesse um chão por onde me guiar? Merda de mãos suando por nervosismo.

Olhei mais uma vez para o rosto daquela mulher longe de se tornar uma senhora, talvez pela última vez. Gostava muito da curta família Matsumoto, até do falecido pai do Ruki eu tinha um certo orgulho de tão bem que falavam dele. Às vezes tinha uma pontinha de ciúme do Taka, mas ele nunca se importou em dividir sua mãe comigo, seria bem doloroso perde-los por algum motivo.

Mas eu tinha começado, não?

– Mas o que ele falou é bem verdade eu.. etto... eu sou mesmo sabe. Mas eu nunca chegaria perto do Taka eu juro que sequer falo dessas coisas com ele.. eu, eu... – Eu estava era falando tudo atrapalhado, com uma palavra pulando por cima da outra.

– Calma filho, respira. – Ela se parou na minha frente com as duas mãos nos meus ombros, eu já estava quase da altura dela e eu tentei obedecer a ela, caso contrario talvez desmaiaria ou sairia correndo dali sem ouvir a reação dela, melhor do que ouvir palavras rude de alguém que você aprendeu a amar de certa forma. – Nossa! – Ela começou falando de forma bem pausada, um clássico 'nossa' de puro espanto. – Você está pálido Kouyou, sente-se. – Me guiou até um puff que tinha no corredor e se ajoelhou em minha frente.

Cara, será que ela não tinha ouvido, compreendido ou já tinha esquecido?

Eu por outro lado sentia como se meu corpo estivesse super pesado, a cabeça como se estivesse cheia de ar e um aperto engraçado nos pulsos, aquela sensação que as cores mais à periferia do campo de visão estavam sumindo por trás de uma fina névoa cinza escura, quase preto. Uma vez no puff ela me induziu a abrir as pernas e forçou meu tronco entre as mesmas com as mãos colocadas bem firmemente em minha nuca.

– Force a cabeça pra cima com força querido, sua pressão deve ter caído. – E eu a obedeci. Ela repetiu isso umas duas vezes e quando olhei pra ela novamente tudo estava normal de novo, ela permaneceu ajoelhada em minha frente como que se me observasse com certa preocupação.

– Emi-san eu disse que sou gay.

– Sim querido eu entendi, não precisa desmaiar por isso.

– Mas você não vai me xingar, dar lições de moral, me expulsar de sua casa e impor que eu nunca mais veja o seu filho? – Olhei para ela e ela estava rindo quase como que se eu tivesse contado uma piada, daí me lembrei que estava diante da personalidade que deu origem a um ser que se autodenomina Ruki.

– Que horror! – Ela disse entre o riso – Isso o amedrontou tanto ao ponto de você quase desmaiar? Sinto-me ofendida Takashima Kouyou, faz-me ter uma imagem de mim mesma como um monstro cheio de tentáculos. Quem faria ou diria coisas assim de alguém tão adorável?

– Meus pais. – Fui-lhe sincero e ela parou de rir na hora.

– Como assim? – Ela me olhou incrédula, como se isso fosse a pior coisa do mundo e me peguei imaginando a adolescente que fugiu e enfrentou todas as pessoas que conhecia para ficar e constituir uma família com o Matsumoto-san.

– Foi por isso que nos mudamos assim da noite pro dia, minha irmã mais velha chegou um dia em casa com a notícia que estava namorando uma menina. A cena foi bastante triste, eu esta escondido, mas ouvi palavras que me fizeram sentir envergonhado quando busquei pelo significado. Minha irmã foi posta para fora de casa sem suas coisas, sem poder se despedir. Sem nada além da roupa que vestia, mas mesmo assim ela conseguiu comprar uma casinha com a namorada dela e na cidade pequena logo se espalhou a notícia da Takashima lésbica. Minha mãe mudou, ficou amargurada, casou minha outra irmã quase que à força e disse que se eu desse sinais ela me colocaria em um colégio desses católicos internos. Então nos mudamos de cidade para deixar a vergonha da desonra para trás.

– Lado bom de morar no Brasil e não no Japão, lá se atinge a maioridade mais tarde. – Ela tentou brincar como sempre fazia, mas eu percebi que tinha um brilho faltando ali como que se a história que eu contava a atingia de maneira direta. – Não se preocupe querido, não vou tratá-lo de maneira diferente. Mas acho que devia confiar mais nos seus amigos para conversar sobre isso, é uma idade cheia de dúvidas hum.

– Eu não tenho dúvidas quanto a minha sexualidade. Apesar de nunca ter passado de beijos e amassos, sei o que me atrai. – E lá estava eu mais uma vez com aquele dedo entre os lábios, tinha que largar esse hábito.

Mas é que aliviado queria conversar ainda mais com Emi-san. É muito ruim não ter com quem conversar e dividir sua vida, no fundo no fundo tinha medo de dividir isso com Ruki e Kai.

– Uhum, mas quem garante que seus amigos não tem. Além do mais, se são amigos vão saber te entender filho.

– Mãe? Pon tá tudo legal com você? – Ruki apareceu já prontinho de uniforme, maquiagem e mochila. Correu até nós com olhinhos assustados.

– Calma Ru-chan, eu só me senti meio estranho, mas já passou.

– Bem feito... quem mandou comer meus waffles. Viu, fez mal. – Disse o pequeno em tom de falsa birra, inocente ante o assunto ao qual discutíamos ali.

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A sala de aula em completo silêncio, as classes afastadas para que não houvesse comunicação entre os alunos e apenas o típico som de lápis se arrastando pelas folhas branquinhas completavam aquela cena clássica de um turma em prova. Divisão celular, mitose e meiose. Aquilo nem precisava de prova, sério, além do mais deveriam criar uma lei estudantil que proibisse professores de aplicar provas em segunda-feira ou no primeiro período do dia, é um abuso ao cérebro dos estudantes. Olhei mais uma vez para a classe vazia ao meu lado, Kai não tinha chegado há tempo, será que estava tudo bem?

Olhei para o relógio que ficava no alto da parede, logo acima do quadro enquanto virava a página do meu mangá favorito. Dez minutos para o sinal, praticamente toda a turma já tinha terminado aquela porcaria há algum tempo, apenas era uma regra permanecer em silêncio e no lugar até o término do tempo, o máximo que se podia fazer era ler um livro se quisesse.

Todas as matérias tinham essa regra, era uma tentativa da escola em aproximar mais os alunos da leitura e por incrível que pareça, dava certo. até Uruha estava concentrado lendo um livro de capa bonita. Acho que era um dos títulos que a professora de literatura tinha dito que teríamos que ler até o final do semestre.

A proximidade do sinal me deixando um pouco nervoso e desistir de ler. A próxima alua era de inglês e então encontraria Akira.

Era um dos pontos bons da escola, os módulos de idiomas eram divididos por idade e então por níveis. Bom, quanto à idade, a escola unia todas as turmas de oitava ao terceiro ano e quanto ao nível todos os alunos faziam uma prova avaliativa no começo do ano letivo e isso nos dividia. Isso porque antes dessa divisão as aulas não eram produtivas, alunos que sabiam falar inglês ficavam apenas de brincadeiras enquanto quem não sabia... bom, naquela zona com toda certeza continuaria sem saber. Afinal quem abre mão de ficar de pernas pro ar com os amigos só porque não sabe umas coisinhas.

Kai, Uruha e eu estávamos no nível cinco do nosso módulo, quase exclusivamente para alunos que faziam inglês fora da escola. E isso deixava essa a melhor matéria que tínhamos, a professora não era burra o bastante para querer passar repeteco aos alunos o que nos deixava sem disciplina definida.

Assistíamos vídeos sem as legendas, traduzíamos músicas, às vezes a professora inventava umas ideias loucas nos fazendo criar peças de teatro sobre textos que tínhamos que debater. Ah sim fazer debates também era uma coisa que ela gostava muito. A única exigência da matéria era que falássemos apenas em inglês e frequentássemos a aula.

E foram nessas aulas que conheci Suzuki Akira, 3° ano, baixista, tão antissocial que chegava a ser popular. Sabe o bad boy mal encarado que todas as meninas gostariam de seduzir, ele mesmo.

Nós não éramos do mesmo grupo de amizades, não éramos próximos, não sentávamos nem perto um do outro e principalmente nunca tínhamos conversado um com o outro, mas algo naquele cara me chamava demais a atenção. Simples assim, ele emanava um ar de mistério que eu queria muito desvendar, queria me aproximar.. quem sabe ser seu amigo.

Ele usava camisetas de bandas que eu realmente adorava por baixo da camiseta branca do uniforme. Eu sabia que ele tocava baixo e música era a grande paixão da minha vida. Com certeza eu me esquecia de todo o resto quando o assunto era esse, influência da mãe? Ela toca bateria, eu até que tentei aprender, mas eu gostava mesmo era de cantar, me fazia me sentir mais parecido com meu pai.

O fato era que havia pouquíssimas pessoas que eu conhecia que gostassem daquelas bandas em especial. Akira parecia ser uma delas e eu queria conseguir me aproximar. Foda era que ele tinha uma coisa que sei lá, ao mesmo tempo em que quero me aproximar dele, tenho medo de tal ação. Mas não sei bem porque, também não sei o motivo por sempre que estava perto dele eu...

– Acorda cabeçudo, deu o sinal e nós temos que descer pra aula de inglês. – Uruha é mesmo um poço de gentileza me dando uma mochilada pra me acordar. Perdi minha linha de raciocínio.

– Itai.. hei e o Kai? Ele perdeu aprova. – Disse tocando mangá, lápis, borracha e caneta pra dentro da mochila e levantando.

– Ah isso não vai fazer diferença pra ele, aquele nerd vai bem em tudo.

– Hey eu ouvi isso. – A voz soou atrás de nós.

– Kai-chan! – Uruha gritou pulando em cima do moreno, abraçando-o. – Então você ouviu eu falar o quanto você é especial hum. – E eu ri junto com Kai do pseudo elogio forçado do Uru para o moreno.

– Sei... vou lembrar de você me chamando de nerd quando estiver me perturbando em vésperas de provas de história...

– É e eu vou te lembrar mais uma vez de como você é especial. – E o próprio Uruha riu. – Porque demorou tanto, perdeu a prova de biologia.

– Ahh minha mãe ligou pra escola avisando que eu ia me atrasar porque ia fazer exames, o laboratório me deu um papel lá comprovando onde eu estava e por isso vou fazer a prova de biologia no período de inglês. Sabendo disso aproveitei pra dar uma passada lá no cinema... sabe. – Ele corou, era bem estranho, Kai nunca ia de fato assistir filmes diante da telona, mas sempre ia até o cinema – Só pra comer alguma coisa. – Eu tinha bem minhas teorias de que se algum dia me prestasse a dar uma passada no lugar, descobriria o nome do interesse dele pelo local. Ri cúmplice para Uruha, sei que ele pensou a mesma coisa que eu.

– Certo, vai pra sua prova, se nós demorarmos muito pra chegar na sala o pessoal da 8° pega todos os lugares bons. – Disse puxando Uruha para corrermos, deixando Kai pra trás.

– OK everyone, please wait a minute before sitting. Today we're going to do something different, I gonna cast lots random partners and you can go to the school gym just when I call you name. You gonna work better there.

Ok trabalho em dupla que ela sortearia no ginásio. O que ela quer dessa vez uma maratona de inglês? E então ela começou a chamar pelos nomes, cara sorteado mesmo, ela estava misturando louco da oitava com gente do segundo que nunca tinham conversado antes. A cada nova dupla ela estendia folhas xerocadas a um dos integrantes e a sala ia se esvaziando.

Dei uma olhada por cima, não via Reita em lugar algum por ali e comecei a viajar procurando pelo loiro. Até que voltei à Terra quando senti um encontrão no meu ombro que quase me levou junto, era Uruha. Cara, loiro mal educado nem pra dizer um 'foi mal chibi'.

Espera aí, ele tá... Olhei bem para meu amigo, aquilo não era normal, foquei bem em seu rosto, Uruha estava... corado? Pegou as folhas das mãos da professora e seguiu trotando de cabeça baixa ainda anormalmente corado, sendo seguido por seu par que espera, achei o Reita ao lado do parceiro do pon. Oh não, pobre Uruha vai ter que aturar o moreno beiçudo do Aoi. Arrogante, metido a pegador, não passa de um...

– Akira Suzuki? – Perdi a linha de raciocínio novamente, ele ergueu o braço. Cara ele está parelhinho com o Uruha no quesito 'roupas que só ficam bem em mim, chora otário' como pode o uniforme tão sem graça ficar tão bem numa pessoa? Isso é muito injusto com o resto dos alunos.

– Yutaka Uke? – Aí fui desviado pelo nome chamado e me direcionei à professora.

– He got consent with the principal to make a lost test now. – Respondi no lugar do aluno ausente.

– Ok no problem, so… – Eela riscou algo em sua lista – You can work with Akira, Takanori. – E estendeu a mão na minha direção para me alcançar os papeis com os quais trabalharíamos.

Me virei para o meu colega e lá estava ele, sorrindo. Por que ele estava sorrindo? Era muito estranho, aquela faixa em seu rosto destacava os dentes brancos formando aquele arco tão bem desenhado. Sorri meio torto só pra acompanhar e segui rumo a porta da sala sem dizer nada, percebendo-me seguido por ele.