Capítulo três: Cego por opção
Por Kami-chan
Peguei os papeis das mãos da professora e depois daquele sorriso apenas fingi que estava interessado naquelas porcarias que, na verdade, eu nem estava lendo. Então o segui, apenas deixando minhas pernas serem guiadas por meus olhos que por algum motivo muito injusto não conseguiam se desviar daquele cara. Era tão estranho que chegava a ser desconfortável. E eu sequer sabia quando isso tinha começado.
Nunca nos falávamos apenas não conseguia parar de olhar para ele. Isso era tudo o que eu fazia durante todo o meu intervalo escolar todos os dias, não importava para onde Uruha ou Kai me puxassem ele sempre estava por perto, ao alcance dos meus olhos. E mesmo com os, quem sabe, mil jovens que estudavam ali e dividiam os mesmos espaços, mesmo que em um minuto de razão eu percebesse o quão estúpido era ficar apenas admirando uma pessoa e me focasse em meus amigos, sem avisos ele sempre acabava entrando em meu campo de visão. Atraía toda a minha atenção.
Tanta atenção que aos poucos a criatura foi contaminando meus pensamentos e imperceptivelmente seu nome foi roubando minhas falas. Uruha era o que parecia gostar mais disso, sempre me alfinetando dizendo coisas absurdas e justificativas indecentes para a forma e a frequência em que eu era pego o olhando. Grande absurdo.
Mentiria se dissesse que já não havia pensado em me aproximar e dar inicio a uma amizade, mas me perdia por não saber o que lhe falar. Engraçado era que de contrapartida havia sim uma centena de perguntas que eu naturalmente sentia vontade de lhe fazer, todas envolvendo seus gostos, suas camisetas de bandas e a aparente admiração por Sex Pistols.
Mas estava até tudo bem pra mim desse jeito, com essa distância. Essa coisa que assim como me atraía, me repulsava dele. Era algo que eu não entendia e pensar sobre o assunto me deixava irritado. Ainda por cima, gostaria de continuar o resto da minha vida sem poder entender, assim não teria roubado sua faixa ontem, não teria saído correndo do meu novo 'amigo' sem nenhuma explicação a lhe dar e principalmente não estaria assim tão mais confuso agora andando ao seu lado.
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Memórias de Ruki
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– Cara, você entende mesmo sobre os Sex Pistols! – Ele disse admirado com um sorriso realmente bonito nos lábios.
Claro que eu entendia, minha mãe era uma incurável admiradora da banda, mas eu não ia dizer isso pra ele, sabe, por mais legal que sua mãe seja nunca é um bom assunto pra se puxar. Ainda mais quando eu estava conseguindo finalmente conversar com Reita depois de tanto tempo sofrendo daquela síndrome que fixava meus olhos nele onde quer que ele estivesse.
Admirado, era muito fácil conversar com ele. Meio quieto, meio na dele, mas era só falar qualquer coisa envolvendo música que ele se soltava e eu não estava errado, ele tocava mesmo baixo na mesma banda em que o Aoi tocava guitarra. Brincando brincando me assustei quando ouvi o sinal tocar e todos os alunos se levantarem, nós conversamos os dois períodos da aula de inglês e eu nem vi o tempo passar. Na verdade, diria que não havia se passado nem cinco minutos que vi Aoi lhe entregando o CD que me deixou eufórico e deu início à nossa conversa.
Olhei por cima, Uruha e Kai me olharam já da porta com sorrisinhos típicos. Eu ia sofrer nas mãos deles mais tarde com certeza, Uruha especialmente estava com um sorriso quase bobo olhando para mim e para Reita. Fechei a cara e virei para pegar todo o meu material e flagrei Reita fazendo sinais para Aoi, coisas que não entendi e algo como um obrigado ou coisa do tipo, curioso procurei o moreno beiçudo com o canto dos olhos e vi desenhar em seus lábios palavras que não foram dignificadas à sua voz.
Ele disse 'falei que ia dar certo' e saiu da sala deixando Reita para trás. Juro que não entendi, então continuei colocando todo o meu material dentro da mochila com toda calma do mundo, a próxima aula era de educação física, sabe aquela que você não faz questão de chegar cedo.
Assim como idiomas, educação física era divida por módulos. A intenção disso era deixar as equipes da escola mais afiadas, sabe se os alunos jogarem sempre apenas o esporte que escolheram, os alunos dos times da escola também estariam fazendo um tipo de treino extra. Mas diferente de idiomas, cada aluno podia escolher que esporte faria.
Eu estava no módulo de futebol, bem como Kai, Uruha e bem, Reita. A diferença é que eles estavam no time da escola e Kai e eu não, na verdade até gostava bastante de futebol, mas só tinha entrado naquilo ali porque Kai e Uruha também tinham escolhido.
– E aí pequeno, vamos ou você resolveu matar a educação física? – Olhei assustado, sinceramente achei que ele já tinha ido atrás do Aoi, que a propósito agora ia pro basquete.
– Claro. Então Reita-kun do que você gosta mais, do futebol ou do baixo? – perguntei apenas por perguntar, ele tinha se mostrado bem receptivo respondendo todas as minhas perguntas até agora. E nem me importei com o fato dele parecer gostar de me chamar de pequeno mesmo sabendo meu nome, sobrenome e apelido.
– Música, sempre a música. – Ele sorriu, cara ele era sempre tão sério, tão quieto, mas tem um sorriso tão bonito. – Demo, eu sei que o Uruha toca guitarra e Kai bateria, mas eu nunca vi você tocando nada.
– Eu toco bateria também e um pouco de violão, mas é que eu gosto mesmo é de cantar, criar, compor, essas coisas. – Falei dando de ombros, meio que querendo esconder o quanto aquilo era importante pra mim, tentando fazer da minha boba declaração algo banal.
Mas pelo olhar dele minha tentativa foi inútil, pelo menos ele não fez nenhuma piadinha com a declaração. Acho que ele realmente é uma pessoa que leva a música tão a sério quanto eu. Um silêncio meio incômodo se formou, estávamos quase no ginásio. Também não sei por que estava dando respostas desse tipo pra ele, elas eram sinceras e absolutamente diretas. Normalmente responderia qualquer coisa inútil que apenas fizesse o questionador calar a boca e não perguntar mais nada.
Fazia isso até com Uruha às vezes. Mas Reita era diferente.
– Estranho. – Ele disse do nada, me fazendo olhar assustado pra ele.
Como assim, eu estava sendo absolutamente sincero com ele e tudo o que ele diz é estranho?
– Calma, não acho você estranho. É só que você disse gostar de cantar, mas seus olhos brilharam quando falou da bateria. Abri e fechei a boca umas cinco vezes eu acho, via o motivo pra não falar demais sobre mim na minha frente. Respostas sempre geram mais perguntas. – OK pequeno, você não precisa responder não.
– Não, é só que me surpreendeu. – E como um bobo perdido, não sabia por que, mas estava continuando a lhe dar respostas. – Minha mãe toca bateria, meu pai morreu antes de eu nascer então sempre foi apenas eu e a dona Emi. Acho que ela me ensinando a tocar bateria é a melhor lembrança da minha infância, na verdade era a brincadeira mais divertida.
– Agora sou eu quem está impressionado. Desculpe se mexi em lembranças.
O assunto morreu ali porque entramos no ginásio, ainda bem, pois não estava gostando do rumo da conversa. Esse tipo de coisa me deixa meio sensível e não era o tipo de conversa que eu queria ter com ele. Procurei Uruha e Kai, na verdade procurei Kai já que com aquela coisa de times da escola e afins o professor tinha estabelecido que os jogos seriam sempre o time oficial da escola contra os outros alunos. Uruha fazia parte dele então eu já procurava Kai automaticamente.
Foda era que Kai estava de costas pra mim e isso parecia ser de propósito e Uruha na maior cara dura fazia que não me via. Belos amigos que eu arrumei, na verdade belo Uruha, com o perdão da redundância, que entrou na minha vida e parecia ter um prazer sádico de me deixar em frias.
Ele me lançava sorrisos que eu com certeza ia desmanchar à socos quando fossemos pra casa depois. Por quanto tempo ele ia insistir nessa paranoia absurda de 'só você não vê que está apaixonado blablabla' imbecil. Sei que ele ta me deixando pra trás em tudo hoje desde a hora em que comecei a conversar com Reita só pra me encher a paciência de tarde e me atordoar com perguntas irritantes.
Detalhes da aula inútil editados, pela primeira vez no ano o professor veio com o papo de que não jogaríamos para fazer uma aula de treino físico. What the fuck.
Obviamente procurei Kai mais uma vez, mas tudo que encontrei foi um moreninho de cabelos repicados abraçando a cintura de Uruha que passava os braços pelos ombros do mesmo, ambos com as cabeças encostadas olhando pra mim com sorrisos bagaceiros enquanto se piscavam da forma mais ridícula que podiam. Só me lembro de ser tirado do transe quando ouvi a voz do Reita mais uma vez do meu lado.
– Seus amigos parecem legais. Ah peguei uma bola de couro se você não se importa.
E eu nem sabia que tinha diferença entre ser de couro ou de plástico. Não respondi apenas me afastei um pouco, o suficiente para começarmos passes de bola e me vi então diante de mais um período inteiro de aula em que passaria conversando com ele.
Mais uma vez a conversa fluiu fácil, principalmente porque ele não tentou voltar ao assunto que tivemos da sala de aula até o ginásio. Falamos de música mais uma vez, cara ele sabe de muita coisa e me surpreendi ainda mais ao saber que ele também compõe, na verdade errei o passe ao receber aquela informação. Ia lhe dar uma bela resposta àquela descoberta, mas o sinal tocou mais uma vez naquele dia me deixando com a ideia de que não tinha muita noção de tempo, pois pra mim nós não estávamos ali conversando por mais de cinco minutos.
– Você não vai para o vestiário do time? – É mais essa, alunos do time escolar tinham um vestiário separado, eu já tinha entrado lá com o Uruha e as únicas diferenças eram os armários e os bancos que não tinham no nosso.
A boa disso era que desafogava a quantidade de pessoas no mesmo espaço. Mas Reita via os alunos saindo da quadra e não se movia, estava ali na minha frente fazendo embaixadinhas e brincando com a bola às vezes passando essa para mim.
– Muita gente. A maioria dos garotos do time são meio.. sei lá, lesados. Estão mais pra patetas do que pra atletas. – Ri.
– Pensei que fosse o único a achar isso.
– Bom, se você ficar aqui agora quando eu for lá não vai ter ninguém que te expulse.
Esse garoto tem parafusos a menos por acaso? Será que ele não percebeu que está me convidando indiretamente pra tomar banho com ele? Não, muito obrigada.
– Er.. na verdade eu preciso mesmo falar com Kai, sabe é importante mesmo. Mas amanhã tem inglês de novo né. – Sorri mesmo achando que alguma coisa nele estava diferente, ele parecia menos radiante, sei la.
– Certo. – Disse e continuou com aquelas embaixadinhas e me virei pra pegar minhas coisas na lateral de quadra e me despedi de longe.
Tomar banho não era uma tarefa demorada, ainda mais no chuveiro gelado da escola. Agradeci aos céus por Uruha não usar o mesmo vestiário que eu mesmo sabendo que ainda teria que lidar com Kai. Ele não era tão chato quando o loiro, mas eu sabia que Uruha já tinha contaminado toda sua cabecinha com aquela ideia infame que relacionavam à mim e Reita e pior, já deveria ter instruído o moreninho sobre como me aporrinhar.
– Kai por favor, pela enésima vez: NÃO! – Coloquei minha camiseta extra, já não tinha mais ninguém no lugar, é o Kai tinha feito o banho ficar longo, muito longo.
E o que é pior, diferente do que eu esperava e provavelmente diferente do que Uruha devia tê-lo instruído ele pouco falou de Reita. Falou apenas de mim e me jogou uma centena de perguntas que eu respondi com a mesma resposta, mas que eu sabia que ficariam martelando em minha cabeça por semanas. Esse era o Kai, provavelmente ele não estava nem aí pra Reita ou para o que Uruha falava, no fundo no fundo ele só se preocupava comigo.
"Você nunca procurou uma resposta para ter dezesseis anos e nunca ter se interessado por garota nenhuma?"
"Você nem tenta as conhecer, apenas rejeita todas, mas é fixamente obcecado por esse garoto"
"Você pelo menos se masturba?"
"No que pensa quando faz isso?"
"Você já notou que às vezes do nada você só abre a boca pra falar do Reita, tanto que à vezes até enche o saco"
Eram perguntas desse tipo que ele me fazia e depois de quase ficar zonzo com as mais de mil perguntas que ele me fez foi que o interrompi enquanto me vestia.
– Não pra quem Ru-chan, pra mim ou pra você? Pode negar o quanto quiser pra mim, pro Uruha e pra quem mais quiser, mas vai sofrer muito se continuar negando pra você.
– Deu Kai, chega! Cara você ta sendo ridículo, eu já entendi onde está querendo chegar OK e não, eu não sou gay e não estou interessado no Reita. Vem cá, quando fiz amizade com o Uruha você também pensou que eu estivesse afim dele?
– Você não era obcecado pelo Kouyou e eu não duvido que queira mesmo a amizade do Reita, afinal isso é a base de tudo. Mas admita que é diferente, admita que depois que começou a conversar com ele você esqueceu de tudo.
– Cara, a paranoia do Kou está te contaminado. – Admitir, jamais.
– Então tá. Só me responde de maneira plausível por que você não ficou lá com o Reita tendo a oportunidade de ficar mais tempo conversando com quem você há tanto tempo queria conversar, mesmo sabendo que aqui eu ia te encher de perguntas?
– 'Qualé' Yutaka o cara me convidou pra tomar banho com ele. – Fiz uma careta desenhando uma resposta que na minha cabeça era clara e óbvia.
– OK então você toma banho uma vez por semana com pelo menos vinte garotos, mas só tem vergonha de fazer isso na frente do Reita. É.. realmente é a mais pura amizade o que você sente por ele. – E ele ainda teve a audácia de tirar com a minha cara.
– Ahh vai pra... – Ok, não ofenda a mãe do seu amigo de infância – Quer saber, vai encontrar outro saco pra encher.
– Eu paro se você for lá. – Disse me encarando assumindo um tom muito sério na voz, Kai tinha um dom nato pra liderança e isso às vezes me assustava.
– Eu já tomei banho. Sinto muito, se está curioso vai lá você.
– Não importa se você já tomou banho, isso agora é o que estou impondo à você. Eu paro completamente de te encher o saco se você for lá e me provar que o que sente pelo cara não passa de amizade.
– Você só pode estar de brincadeira.
– Não, eu não estou.
– Ah tá, eu vou entrar e dizer 'E aí Reita beleza. Daí cara voltei, mas não liga não eu já tomei banho, só to aqui pra te assistir e provar pro meu amigo Kai que não sou gay. Vai aí amigão, relaxa e se ensaboa' – Ri de mim mesmo, mas Kai permaneceu sério.
– Você é mais criativo que isso. Acho na verdade que você está com medo.
– Só se tiver mais de vinte e cinco centímetros. – Ri mais uma vez, mas parei de brincar ao ver que o moreno permanecia quieto e sério. Suspirei pesado e cansado. – Ok, se isso vai fazer você parar de me aporrinhar.
– Ótimo. Vamos agora então. – E só então covinhas tão fofinhas -e odiosas em certos momentos- apareceram me fazendo o responder com um riso cínico e claramente forçado nos lábios enquanto o seguia e por algum motivo o fazendo rir mais ainda.
– Espera só até eu descobrir quem é o ser que trabalha naquela porcaria de cinema e você vai sentir na pele o que é massacre emocional Yutaka – Resmunguei baixinho, mas alto o suficiente pra ele ouvir.
Bingo, ver suas bochechas fofinhas ficarem bem vermelhinhas nha. Tá, parei.
– Quem trabalha no cinema? – O dono da pergunta e surgiu do nada atrás de Kai quando já tínhamos saído do banheiro e já nos dirigíamos ao vestiário dos times. Me assustei tanto que quase caí em cima de Reita.
– O amor platônico do Kai. – Respondi desaforado.
– Hey e quem disse que é platônico? – O moreninho pareceu realmente ofendido com a afirmação.
– Sua página pessoal ainda mostra você como solteiro. – Mostrei a língua.
– Ué estamos nos conhecendo. – Justificou o indignado enquanto Reita apenas acompanhava a pequena e controlada discussão olhando de um para o outro. Ri da resposta do Kai.
– Hey Reita, sabe como eles estão se conhecendo? Todo dia o Kai vai até o cinema e pede um pacotinho de bib´s com um guaraná de latinha. O diálogo mais produtivo é quando em resposta ele escuta um 'obrigado e tenha um bom lanche'. – Ri e para meu deleite Kai estava muito irritado com o rosto mais que vermelho.
Bem feito, quer me meter em fria vai ter o troco à altura. E para minha surpresa o loiro de faixa riu também.
– Nee nee Reita, cara você ainda não tomou banho. Assim não vai conseguir entrar mais na aula. – Disse Kai querendo acabar com a pequena chacota.
– Etto perdi a noção do tempo, mas tava indo agora pro banho. Depois tem aula de literatura e cinquenta minutos de silêncio debruçado em um livro, eu não vou.
– Olha Ruki-chibi-chan encontrou alguém pra te fazer companhia. – Kai disse com um repentino sorriso largo em seu rosto, ahh como eu sabia que aquilo estava repleto de cinismo e segundas intenções.
– O que? – O susto cuspiu a pergunta que pareceu ter sido ignorada pelo outros dois ali.
– Você também está com planos de matar aula Ruki? – Perguntou Reita.
– Er... é, tava pensando em matar sim? Você não ia ficar também Kai? – Apelei para o bom senso do moreno esperançoso que ele desistiria daquela ideia absurda. Ow fuckin´ flying shits, onde é mesmo que eu estou me metendo?
– Ahh não, agora que você tem companhia eu vou escapulir mais cedo daqui pulando o muro. Sabe Ru-chan, eu tenho que dar uma passadinha no shopping e é claro no cinema também. – Maldito sádico que causou muita dor à mãe na hora do parto.
Por que mesmo eu tinha que satisfazer meu ego tirando com a cara dele? Agora ele estava se cobrando.
– Mas não tinha um assunto pra resolver... aqui? – Tentei, achei mesmo que ele iria ficar ali comigo porra.
– Ah eu vou saber tudo o que preciso depois. Cuide bem dele Reita-kun. Até mais. – E me deu as costas o infeliz me deixando ali sozinho.
– Até. – Dissemos Reita e eu em coro, acho que a cara de 'não entendi' dele tava pior que a minha de desespero. Aliás, desespero infundado, diga-se de passagem.
– Conversa estranha. – Comentou ele.
– Você achou mesmo? – Disse debochado, e ri quando o vi fazendo o mesmo.
– Bom eu ainda tenho que tomar banho chibi. – Disse me dando as costas. – Você vem? – Travei ao vê-lo para onde estava indo e virar apenas o tronco para trás, os polegares enroscados nas alças da mochila.
Bem do tipo bad boy por fora e doçurinha da mamãe por dentro. Ri com o pensamento e o segui.
– Você e seu amigo demoraram um tempo no banho né.
– Estava cuidando por acaso? – O tom era de brincadeira.
Não vi seu rosto porque estava largando minha mochila no banco, mas na ausência de uma resposta ou qualquer grunhido que denunciasse que ele tinha recebido a brincadeira numa boa resolvi o encarar.
– Desculpe, eu faço muitos comentários idiotas, mas é tudo brincadeira.
– Sei. Eu até que gosto desse seu humor.
– Hn. Então seu amigo Aoi deve estar sentido sua falta também não é, vocês nem conversaram por hoje.
– Ele é forte, vai sobreviver. – Disse enganchando os dedos na barra da própria camiseta e a tirando repentinamente e a jogando em cima de sua mochila aberta.
Tentei, juro que tentei não prestar atenção em seus atos, mas quando percebi que todo esforço seria em vão e eu não resistiria a admirar o corpo recém descoberto levantei de forma desajeitada olhando na direção dos armários, indo até aquele que tinha o nome de Kouyou na frente. Apenas espero que ele não me ache maluco.
– Nossa, alguém deixou uma carta aqui pro Kouyou – Puxei o papel que estava no vão da porta do armário.
– Deve ser dos admiradores do seu amigo. Isso irrita muito Takashima-san.
– Kou tem admiradores no vestiário da escola? – Fiz uma careta – Essa informação sim é rara pra quando ele vier me encher a paciência por falar em... – Fiquei mudo no ato.
Não acredito que quase concluí a frase que ia terminar com o nome do cara li na minha frente. Para meu espanto ele riu.
– Falar em que? – Disse o loiro tirando a calça do uniforme, a calça Jesus, a calça. – Sua namorada?
– Eu não tenho namorada. – Falei o olhando desaprovador, me arrependendo no mesmo instante ao vê-lo seminu apenas de meias, faixa e a boxer cujos polegares já adentravam para remover a peça.
Eu não precisava ver isso. Reita tinha belas pernas. Não eram fartas como as de Uruha ou roliças como as minhas, elas eram delgadas e compridas, firmes com um bela linha curva que desenhava na coxa uma reentrância antes de chegar no joelho. Por que esse filho de uma mãe cheia de atributos tinha que ser jogador de futebol mesmo?
– Namorado? – Perguntou com a maior naturalidade e lhe olhei assustado, como assim, até ele agora? – Calma pequeno, brincadeira. Sabe, tem umas três colegas minha que passam a manhã falando em você. Acho até que você tem um fã-clube.
– Se for, não deve ser maior que o seu. Hey o que você está fazendo? – Perguntei apavorado, não apenas pelo fato que desde que me virei não consegui mais tirar os olhos dele, mas ele estava tirando a cueca na maior naturalidade.
− Você toma banho de cueca? – Perguntou tirando a peça. Por que mesmo eu aceitei vir aqui?
− Mas precisava tirar isso aqui na minha frente? – Fechei os olhos e ainda os cobri com minhas mãos, grande coisa já tinha visto e memorizado a coisa. Ele riu de um jeito diferente, era uma risada gostosa e satisfeita. Ele parecia quase deliciado. Provavelmente por perceber partes rubras em minha face sob minhas mãos.
− Sabia que mesmo com esse humor ácido você até que é bem meigo, pequeno. – Ouvi o barulho de água caindo e só então descobri meu rosto e abri meus olhos.
E por que descobri meus olhos? Os braços esticados até que as mãos se espalmassem na parede e a cabeça pendida com os olhos fechados, apreciando a sensação da água batendo em seu pescoço. O líquido transparente percorrendo o caminho entre seus ombros... e pela ponta de trás da faixa?
− Você não vai tirar isso não? – Eu não tinha grandes interesses em ver o que ele escondia debaixo daquilo, po, se o cara que é o cara prefere esconder. Quem sou eu pra querer tomar susto?
− Com você aqui? Nem fodendo. – Ele sorriu um riso aberto, mostrando-me todos os dentes e só então abriu os olhos.
− Quer dizer que você não tem problema em tirar a cueca na minha frente, mas tem vergonha de mostrar o nariz. – E quando vi já estava sorrindo em reflexo ao sorriso dele.
− Gosto da forma como você entende as coisas rápido.
Disse e fechou os olhos novamente erguendo a cabeça para que esta fosse molhada. As mãos indo de encontro à mesma com os dedos se infiltrando entre as próprias mechas úmidas. Reita se virou de costas para pegar o xampu e logo depois seus braços se moviam para espalhar o produto pelos cabelos, seus ombros dançavam. Os músculos bem desenhados se moviam banhados pela tonalidade da espuma cheirosa.
Sentei de forma involuntária no banco de frente para ele, a mochila estava do meu lado em uma busca desesperada de encontrar outra coisa para olhar. O seu cheiro inebriava. Vi nesta fuga a faixa que ele colocaria depois do banho e não percebi o momento exato em que minha mão adentrou sua mochila e tomei o pequeno tecido entre meus dedos.
Mesmo sem perceber o quanto estava atento, vi com o canto dos olhos ele se mover. Parecia querer se livrar de qualquer vestígio de espuma que pudesse haver em seus olhos e com um suspiro jogou a cabeça pra trás para que a água caísse por seu peito enquanto a mão buscava cega pelo sabonete. Droga. Aí já é demais.
O próximo ato que tive consciência foi de estar correndo alheio já na rua, o barulho do freio do ônibus me despertou e estiquei o braço pedindo para que este parasse para eu subir. Minha cabeça estava literalmente rodando, estava me sentindo estranho, meio zonzo quem sabe. Talvez fosse aquele xampu usado por Reita, certamente era o seu cheiro que me causara alguma coisa. Não as imagens que não saíam de minha cabeça, isso jamais.
Claro que não. Ele era apenas um garoto e nada mais, como Kai, como Uruha... nada demais. E por que estou chorando, afinal? Vi antes que a primeira lágrima caindo que estava no ponto mais perto de casa e desci correndo.
Não vi quando foi que liguei o som tão alto, apenas queria não ouvir meus pensamentos enquanto oscilava entre querer ou não repassar todas as conversas que tivera com ele. Mesmo que tudo fosse inútil, aquele dia na escola passava e repassava em minha cabeça enquanto a faixinha roubada dançava entre meus dedos.
Aquilo era um absurdo. Só podia ser efeito das cosas que Uruha colocava em minha cabeça. Kai falou tanto em como não sentia atração pelas meninas da escola que minha cabeça deve ter entrado em pane, certamente não era por ser o Reita ali, talvez apenas aqueles músculos.
Apenas não entendia o porquê do meu corpo reagir assim. Fechei os olhos ao sentir o corpo desperto, excitado, negando-me a aceitar o que sentia. Não daria ao corpo alívio com as mãos, teria que se acalmar sem auxílio nenhum. Aquilo era inadmissível.
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Fim das memórias de Ruki
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− Está quieto pequeno, está tudo bem? – Vi-lo se virar para mim para andarmos lado a lado. – Você sumiu de repente ontem, não vi você indo embora.
− Ah está tudo bem sim. – Sorri-lhe, afinal, queria sua amizade, precisava de sua presença e ontem... ontem foi ontem e os ocorridos não testemunhados não seriam comentados com e por ninguém. – Desculpe por ontem, eu me lembrei de algo importante. Não tinha o seu número pra avisar que não voltaria.
Ele sorriu num misto de deboche e... admiração? Enfim, tomou meu celular do bolso do casaco canguru sem meu consentimento e cutucou algumas coisas no aparelhinho, logo, pode-se ouvir o som abafado do celular dele que estava na mochila.
− Agora tem. – Disse apenas me devolvendo o aparelho. – E eu tenho o seu também. – Sorriu.
Filho da puta. Por que sempre quando o observava ele era sempre o mais sério e mal humorado do grupinho dele, mas não parava agora de me dar esses sorrisos tão simples, fáceis e bonitos?
