Capítulo quatro: O segredo de Uruha

Por Kami-chan

– Cara, olha lá o Uruha com o seu amigo. – Disse pasmo, sentados em um dos degraus das arquibancadas do estádio o loiro e o moreno pareciam divertidos um de frente pro outro claramente fazendo as tarefas da aula. Credo e ele ainda tinha a audácia de chamar o Kai de cdf.

– É, seria legal se nossos amigos se dessem bem. Não é?

– Por quê? – Fiz uma careta em sua direção, definitivamente não queria ter que aguentar a voz do Aoi mais do que o necessário.

– Err.. eu não sei, mas acho que não te entendi.

– Qual é, eu já estudo na mesma sala que o moreno beiçudo arrogante. – Despejei assim sem pensar.

Droga, falei mal do melhor amigo do cara! Mas que merda, porque tinha que ser o melhor amigo do cara?

– Foi mal aí.

– Ele gosta de você e dos seus amigos. E ele é um pouco egocêntrico, mas não é assim tudo isso que você fala. O cara é legal, você devia dar uma chan...

– Ta ta.. vai defendendo o teu noivinho aí, quando parar de falar eu vou estar nas arquibancadas te esperando. – E deixei ele pra trás, pô, não quero ouvir ele defendendo o beiçudo líder de fangirls da escola.

Algum problema? Nada além da minha cara fervendo de vermelha. Raiva, ódio, vergonha, sei lá, só não gostava de o ouvir falando assim do Aoi pô. Aliás, problema só um: sua mão se fechando no meu pulso na mesma hora. Ahh e aquele riso debochado estampado em sua cara, se ele não fosse tão maior e atleta, juro que arrebentava a cara dele numa boa.

– Escuta Ruki, quem sabe agente deixa pra falar de amigos mais tarde. O que achou do CD?

E ali começou de fato mais um período de inglês ao lado de Reita, por mim os períodos divididos com ele poderiam se estender a limites que decorressem para fora do tempo. Mais uma vez os minutos de aula passaram muito rápidos, Reita não questionou mais sobre meu sumiço súbito do dia anterior e nem eu fiquei me apegando a esses detalhes infundados. Estava fazendo um amigo precioso ali, em cada nova informação trocada era possível ver o quanto éramos ao mesmo tempo tão parecidos e tão diferentes.

Via algumas vezes Uruha me lançar de seus olhares, mas pouco me importava. Tentar colocar na cabeça dele que grandes amizades possuíam sentimentos muito fortes e ao mesmo tempo desprovidos daquele ar malicioso que ele insistia em ver, sei lá eu aonde, era algo realmente impossível e que eu por momento prefiro esquecer. Na verdade estava mais focado na constatação tão especial de que estava mesmo presenciando o nascimento de uma amizade verdadeiramente forte.

Não que o que tivesse com Kai e Uruha fosse pequeno, mas ali era diferente. Era quase como se tivesse encontrado um pedaço perdido de mim mesmo.

Outra coisa bizarra eram os risinhos que o Uruha dava com Aoi, era raro vê-lo rir daquele jeito tão... sei lá. Com certeza vou usar isso como linha de defesa mais tarde na hora do intervalo se ele vier me encher o saco.

A aula passou rápido, se quer tínhamos feito a tarefa de aula, mas não estava ligando para isso. Reita foi para a sala dele e caminhei com Uruha para nossa. Agradeci aos céus por Aoi ter acompanhado Reita até que o da faixa chegasse em sua sala, não queria ter que andar por aí com o moreno. Kou parecia pensativo, mais perdido em seu mundo que o normal e por isso andamos em silêncio até nos unirmos à Kai na sala de aula.

Esse era outro que não estava normal, tinha uma expressão triste anormal na face e por muitas vezes levava a mão ao peito como se algo ali o machucasse ou coçasse. As aulas decorreram com o mesmo tédio de sempre, não gostava daquilo e por mim tocaria aquilo tudo para o alto, mas tinha consciência que a mensalidade bem salgada não era um dinheiro alheio que a dona Emi poderia jogar pro alto.

E se tinha algo pelo qual jamais me perdoaria em vida era magoar, ofender ou fazer qualquer coisa que prejudicasse minha mãe. Escola era um saco, mas ela se desdobrava em múltiplas para manter aquele padrão de vida e dar valor a tudo isso era o meu dever mínimo.

– Yes! – Acho que minha voz saiu mais alta que o que eu planejava quando o sinal para o intervalo tocou, afinal metade da sala me olhou ao mesmo tempo.

– 'Vambora Ruki, não quero pegar fila na cantina. – Disse Kai quase me puxando.

– Nee vamos mesmo, que preciso falar algo com os dois juntos hm.

– Uhul, Uruha vai contar segredinho. – Completei pulando em suas costas, fazendo Kai rir e o loiro tentar me bater pra me tirar de cima de suas costas.

– Kaizinho, hoje é sua vez de parar na fila. – Kouyou praticamente jogou seu dinheiro em cima do moreninho e me puxou para o pátio da escola.

– Tá tá calma aí Uruha. – Disse fazendo a mesma coisa e deixando Kai sozinho na zona que era a fila do bar.

Não era por maldade, cada dia era um de nós que ficava. Isso porque assim como a zona era grande ali naquele momento, depois que tinham comprado seus lanches, aquela meninada toda tinha que se instalar em algum lugar bom pra comer e era isso que fazíamos. Enquanto o mundo se matava tentando algo para comer, nós estávamos lá garantindo o nosso lugar ao sol. Literalmente.

E entre as quadras e pátios o lugar onde o sol brilhava mais quentinho era no palquinho onde ficavam os mastros das bandeiras da escola. Ficava bem no meio da escola e dava pra ver quase todo mundo dali, ao mesmo tempo em que era mais alto que um banco ou qualquer outra coisa, era confortável e geralmente nos fazia não querer voltar para a sala de aula depois do recreio.

Eu juro que fiquei tentando imaginar se Reita viria em algum momento se aproximar de nós, sabia que assim como podíamos ver todos dali, o da faixa seria capaz de nos encontrar com a mesma facilidade. Mas não, Reita nem parecia nos conhecer cercado por seus amigos que apenas se sentaram em um amplo círculo nos tijolinhos que contornavam um canteiro. O máximo que via era ele olhar de canto em nossa direção, quase como se não quisesse ser percebido ou coisa do tipo, eu devia ter dito a ele que poderia se aproximar sempre que quisesse afinal.

– Comida! – Gritou o moreninho se aproximando, equilibrando os três lanches.

– Foi você quem fez? – Perguntou Uruha debochado.

– Não mesmo. – Kai respondeu praticamente jogando a comida nos peitos do maior.

– Faz tempo que o Kai não faz uma janta pra gente. – Comentei pegando o que era meu de suas mãos.

– Ahh minha mãe anda um porre com essas coisas que alimentação e bla bla bla, dando peti por qualquer coisinha que eu invente pra comer. – Ri ao ver o moreno revirar os olhos.

– A minha não da peti quando você cozinha, na verdade, acho até que ela gosta bastante. – Disse bem como quem não quer nada.

– OK então. Kai você vai nos fazer um jantar na casa do Ruki. – Uruha decidiu.

– Que bom que me perguntaram antes de decidir.

– Como se você fosse ir contra. – Disse Kai.

– Tá, depois vou ligar pra minha mãe. Mas tenho quase certeza que ela não vai gostar do Kai voltar tarde pra casa sozinho.

– Então eu durmo lá. – Kai respondeu de pronto.

– Ahh não.. não é só porque eu sou o teu vizinho que vou ficar de fora da festa completa. Casa, cama e comida. – Ri de verdade ao ver Uruha choramingar.

Eu amava de verdade meus amigos. Infelizmente ainda era meio de semana e eu sabia bem de verdade que nem mesmo a minha mãe ia ficar muito feliz com isso, afinal, nós três unidos nunca dormíamos cedo e ainda teríamos aula no dia seguinte. Agora, se a minha mãe já não curtia muito a ideia, imagina só a louca da mãe do Uruha e mais a mãe do Kai.

– Emi-san vai perguntar se as mães de vocês sabem e concordam. Eu não vou mentir pra ela.

– Então você diz que nós ainda vamos falar com elas. Aí depois damos um jeito. – Disse Kai bem animado.

– Ok, Ok! Hey Pon, o que você acha da ideia? – Perguntei, mas Uruha não me ouviu.

Eis que o loiro estava distraído demais olhando na direção do grupinho de Reita, do qual Aoi se aproximava equilibrando um generoso pedaço de bolo junto com mais dois garotos. Aí só pode ser palhaçada, o que estava dando no Kouyou afinal?

– Uru, você ficou quieto. – É, e isso é uma coisa que não tem como não se notar.

– Ahh – Ele suspirou pesado, desviando o olhar para nós. – Lembram que eu disse que tinha algo a contar? Bom eu tava aqui tentando encontrar a melhor forma pra começar. – Ele foi falando e a voz foi baixando, nossa, fosse lá o que ele tinha feito era sério.

Será que tinha roubado um caixa eletrônico ou algo do tipo?

– Kou-nee, fala pra fora infame. – Falei o pegando pelos ombros e o chacoalhando.

– Er.. a questão é que.. – Uruha suspirou buscando forças – Eu me apaixonei. – Disse assim meio bobo, com a maior cara de pimentão.

E eu fiquei louco pra curtir com a cara dele, mas não deu. Porra, a cara de apavorado que ele tava fazendo olhando de mim pro Kai dava pena, ele estava morrendo de medo e de vergonha que nós tivéssemos a reação que eu estava pensando em ter.

Bom, todos nós sabíamos exatamente o tipo de monstros que éramos. E foi então que me coloquei no lugar de Uruha.

Abrir a boca e dizer em alto e bom tom ' eu estou apaixonado' soava tão ridículo e tão passível de um deboche que precisava de muita coragem para ser dito. Ainda mais por um cara como o Kouyou, ele é absolutamente tímido com essas coisas. Eu sei que talvez eu não teria coragem de uma atitude dessas.

momento só pude ter certeza de duas coisas. Uma, Uruha está realmente muito apaixonado. Dois, ele confia mesmo em nós dois.

– Nee isso é uma coisa muito legal mesmo Kou-chan. – Kai me tirou dos devaneios e sorri para ambos , concordando com o covinhas.

– Ruki, você não vai tirar uma com a minha cara não? – Man, ele estava mesmo convicto disso. Ri.

– Imagino que você precisou de muita coragem pra falar isso, mesmo sendo seus melhores amigos. – Silencio geral.

Morreu alguém por acaso? Olhei os dois boca abertas –literalmente- me olhando. É, mas pro meu azar eles não teriam comigo a mesma empatia que eu tive com o Uruha.

– Ruki você poderia repetir isso, eu tenho que gravar. Emi-san precisa ver isso. – Sim, foi o próprio Takashima quem disse isso.

– Kou-chan, veja só, o nosso bebezinho está crescendo. Tão bonitinho.

– Ahh vão pro inferno vocês. – Emburrei.

– Não, sério Ru-chan, isso foi lindo. Eu diria até inspirador. – Disse Kou me abraçando.

– É quase um foco de esperança nee Kou, quem sabe as palavras inspiradoras pudessem inspirar alguém mais a admitir e aceitar algumas coisas que podem ser boas. – E aquela ceninha do cavalo dando um coice veio na hora em minha humilde cabecinha.

Tudo bem, no caso do Kai eu imaginava sempre uma égua. É o que dá querer ser legal com os amigos, eles riem enquanto jogam você pros coiotes. Eu tava começado a me cansar de toda conversa entre nós três terminar com alguma indireta bem direta sobre mim na minha direção.

– É sabe que você tem razão! Quando eu me apaixonar por alguém prometo que vocês serão os primeiros a saber, mas até esse dia chegar, por que agente não mata esse tempo com um cineminha hem Kai-chan. – Bem na tua cara infame.

– Er... nee o Uru ainda não disse por quem é que ele se apaixonou nee.

E bastou Kai desconversar o assunto pro Uruha que estava rindo como um idiota das nossas trocas de farpas, ficar bem quietinho. É minha gente o sorriso mais retinho do oriente morreu na mesma hora e o guri ficou naquele vermelhão cômico de novo.

Kou abriu e fechou a boca umas vinte vezes sem dizer nada, nome nenhum. E aquela empatia toda que tinha me iluminado mais cedo, escapuliu. Eu estava prestes a começar a deixar a situação ainda pior para o portador dos genes mais bonitos do grupo quando o mesmo mirou o olhar fixo em algo, e se possível, ficou ainda mais travado.

E qual não foi a minha surpresa ao olhar na mesma direção em que o loiro. E quem se não Aoi, o próprio Shiroyama Yuu em pessoa invadiu meu campo de visão.

A pessoa não anda, desfila e segundo próprio, não vive, brilha. A pessoa só não sente mais por falta de centímetro quadrado. Ele vem andando, os pescoços das meninas vão virando, o sorriso e o ego dele vão aumentando, a coloração do rosto de Kouyou está piorando e aminha careta de nojo tá entortando. Chega.

– Nee... Kouyou-kun você esqueceu o seu I-pod comigo na aula de inglês. Ficou ruim de te entregar no meio das outras aulas, vocês três sentam muito longe. – E esticou o aparelhinho pro loirinho coxudo.

E Kouyou estava tremendo. Ahh ta de brincadeira comigo nee. E o Kai cadê? Sorrindo feito um bobo, só faltava chorar de emoção e bater palminhas.

– ´Cê tá de brincadeira comigo né Kouyou? – Quase gritei minha indignação depois que o moreno sensação foi embora.

E não, eu não tava nem aí que era um garoto. O Uruha tinha cara, jeito, corpo e alma gay. Só não precisava ser logo o Shiroyama. Mais de cem garotos e cento e cinquenta garotas na escola e ele tinha que escolher logo o beiçudo convencido.

– Ruki, não seja maldoso. Eu fico ainda mais feliz pelo Uru estar confiando ainda mais na gente. – Disse Kai abraçando a cintura de Kouyou e este encostando a cabeça no ombro do moreno.

– Não é isso Uke, é só que... porra... é o Aoi! – Disse tentando deixar clara minha indignação.

– Não exagera Ruki. E nem liga Kou-chan, o Taka tem uma cisma com o Yuu desde o jardim de infância.

– Não é cisma é...

– ... Kai? – E eu vou matar o infeliz que me cortou, como assim, quem chega assim num grupinho alheio na hora do recreio e ainda por cima interrompendo um belo debate.

– Nao- kun – O moreninho disse surpreso, na verdade, era um quase desespero.

– Será que eu posso falar um minutinho com você? – Perguntou meio sem jeito.

– Claro. – Kai continuava a responder calmo e então olhou para Uruha e para mim. E aí vem a hora chata.

– Nee Ruki eu também tinha uma coisa importante pra falar com você – Disse Uruha, e pelo tom que ele usou eu não subi dizer assim de cara se era verdade ou se era assim uma dessas saídas estratégicas pra deixar os dois conversarem sozinhos.

– Ahh eu preciso ir ao banheiro, por que você não me acompanha? – Verdade ou não, se o Kai queria conversar com o garoto a sós, bom, fui.

.:.

– Nee Ruki – Uruha me chamou no tom mais debochado – Será que o Nao-chan já trabalha em algum lugar?

– Como eu vou saber? Hey hey, pera aí você não ta achando que o Murai é a paixão secreta do Kai?

– Ué eles ficaram algumas vezes nos últimos dois meses. – Disse com simplicidade.

– Como é? – Dessa eu não sabia, isso sim é uma bomba nos meus pés. – Como sabe disso?

– O Aoi me disse na aula de inglês. Engraçado é que ele disse que o Kai estava tentando se livrar do bochechudo.

– Nee falando em Aoi...

– Ruki, pega leve comigo vai – Ele me cortou, eu realmente odeio isso. – Não é algo que se escolhe nee.

– Ta ta. Só não quero ouvir você chorando depois, além de ser o maior pegador da escola, se liga Kou, aquele cara não é o tipo que se apaixona, fica junto e blábláblá.

Ele não falou nada, então busquei seu olhar. Ele estava chorando, e eu nem sei o que foi que eu fiz, porra. Nem quando eu quero ser legal, eu consigo ficar sem fazer caquinha? Arregalei os olhos na defensiva, mas nem tive tempo de falar mais nada, Uruha estava me esmagando entre seus braços.

– Ru-chan não precisa se preocupar assim comigo, não – Ele disse emocionado, ah eu não tinha feito merda, só tinha deixado ele emocionado.

– Para de ser gay Takashima. – O empurrei rindo para voltarmos a caminhar. – Então, você tinha mesmo alguma coisa pra me dizer ou era só pra deixar o covinhas e ursinho bochechudo sozinhos? – Perguntei enquanto tomávamos um caminho qualquer pela escola.

– Ahh sim. Nee Taka, hoje mais cedo quando eu fiquei conversando com a Emi-san, eu acho que você devia saber que eu contei pra ela o motivo pra minha família ter se mudado pra ca e sobre as minhas próprias opções. – Eu sabia da história da irmã e da mãe do Kou, aquilo era mais que um tabu, era uma ferida aberta no mais alto.

E aí uma mistura de coisas invadiu minha cabeça. E a principal delas envolvia a face assustada de Uruha ao contar que se via apaixonado, depois a repreensão de Kai ao achar que eu renegaria meu amigo porque ele tinha se apaixonado por um garoto e agora, Uruha mais uma vez.

Decepcionado, era isso que eu estava sentindo. Eu estava decepcionado com o fato dos meus dois únicos e melhores amigos estarem esperando o pior de mim em todo o momento. Qual é? Eu não era tão ruim assim, era?

– VOCÊ PREFERIU CONTAR PRIMEIRO PRA MINHA MÃE QUE VOCÊ É GAY. SEU AMIGO É QUEM URUHA? – Sim eu tava muito fora de mim quando gritei isso quase no meio do pátio da escola.

E as coisas foram muito rápidas, Uruha me olhou com o ar choroso e logo dezenas de piadinhas foram disparadas em nossa direção, vindas daqueles que se achavam os engraçadinhos da escola. Olhei apavorado tudo e todos ao nosso redor, pelo menos Reita e seus amigos pareciam um grupo a parte na confusão, eles não estavam falando nada, apenas olhavam o tumulto que se formava. Aoi nem parecia se abalar, continuava a comer um generoso pedaço de torta de chocolate.

Puxei Uruha pelo braço e entrei na primeira porta pelo caminho, por sorte a biblioteca. Ninguém entra lá. Vamos pensar, com sorte, daqui algumas semanas esse povinho besta esquece do que ouviu. Uruha é que talvez não fosse esquecer tão cedo. Man, como eu pude vacilar assim?

– Gomen gomen gomeneeee Uru-san. Eu falei sem pensar, eu só...

– Esquece Ruki, já foi vai. Senta aí. – Mas ao invés de sentar, me vi preso à necessidade de abraçá-lo, porra eu tinha pisado feio na bola.

– Ruki que show de horrores foi aquele? – Kai entrou às pressas no local, se juntando a nós.

– Não vem você também Kai, eu vacilei, pisei na bola, eu tava fora de mim de ciúme pelo Kou confiar mais na minha mãe que em mim. Saiu sem querer.

– Não é que eu confie mais na Emi que em você Taka, é só que você anda meio que... muito sensível se irritando com qualquer menção do assunto 'se apaixonar por um cara' – tentou justificar, eu podia ficar mais puto ainda com essa, mas não estava mais no meu direito. Já esgotei minha cota de erros por hoje.

– Me desculpe mais uma vez. Nee Kai, você também não tem nada pra contar não? O Kou me contou umas coisas inesperadas sobre você e o bochechudo.

– Ee? E como é que você soube Kou? – o moreninho nos olhou surpreso.

– Aoi me contou hoje cedo, e eu contei pro Ruki. Achei que ele pudesse ser o seu misterioso amor. – Jogou o verde.

– Ta brincando? Era pra ser um passatempo, mas eu não consigo me livrar do Nao de jeito nenhum.

– Nao? – Brincou Uruha.

– Não!

– Nao! – Repetiu Uruha como um retardado.

– Não! – Eu ri da situação e acompanhei Uru na resposta que eu sabia que ele ia dar.

– Nao! – Quase gritamos.

– A brincadeira não tem graça e nem sentido. – Rebateu o moreno irritado.

– Nao tem graça! – Continuei, apenas porque aquilo estava fazendo Uruha rir.

– Chega Ruki! – Ele tava brabo mesmo.

– Nao! – Gritei fazendo bico, mas meu telefone toucou pra salvação do mister covinhas.

Os dois continuaram conversando, não me dei ao trabalho de sair da mesa onde estávamos. Pelas regras, não poderia atender ao telefone ali dentro, mas vá, nem a bibliotecária ficava ali.

– Nee Kai, é a minha mãe. Você vai mesmo fazer aquele janta pra agente?

– Nao. – Disse Uruha mais rindo do que falando. Como ele pode ter achado aquilo tão engraçado? Ri do tapa que Kai deu nele antes de se dirigir à mim.

– Eu to dentro! – Me disse.

– Mochi mochi.. sim mãe, ta tudo certo por aqui. É hora do intervalo. Ta, não se preocupa com isso, eu tava mesmo te ligando porque queríamos que o Kai fizesse uma janta pra agente la em casa. Como assim motivo, mãe? Desde quando se precisa de motivo pra comer? Mas eles podem dormir aí. Claro. Ta, valeu mãe. Você vai demorar? Sério? Que bom faz tempo que não o vejo. Ta, ta bom mãe, eu tenho que desligar agora. Uhum. Beijos.

– E aí? – os dois me olhavam apreensivos.

– Sem problemas, só que vamos ter companhia eu acho. Minha mãe recebeu uma ligação do afilhado dela, ele tem mais ou menos a nossa idade, mas mora com a vó. Sempre íamos lá nas férias, mas a vó dele não gosta da minha mãe e com o tempo agente deixou de ir, só minha mãe tem contato com o cara.

– Nas férias? Eu não lembro de ninguém da sua família Ruki.

– Ahh você nunca ia junto, era naquele tempo que você e sua mãe passavam as férias na casa da sua vó la no interior de não sei aonde. Ele é um cara muito legal, tomara que ele v ala em casa com a Emi, vocês vão adorá-lo. KAI! Você ta sangrando!

– Onde? – Uruha quase pulou da cadeira examinando o moreno, seu peito estava sangrando e sua camiseta estava manchando.

.:.

É quando um olhar vale por mil palavras, sabe. A coisa foi absolutamente instantânea, Ruki gritou, a confusão se formou e logo o menor foi puxando um Uruha de expressão chorosa em direção à biblioteca. Aoi buscou por Akira e bufou em desgosto ao ver o olhar desse preso em si, o moreno raspou a colherinha de plástico no fundo do potinho para poder saborear as raspinhas milagrosas de sua torta de chocolate.

– Eu juro que ainda vou cobrar por ser um amigo tão bom pra você Akira. – disse pro loiro de faixa assim que jogou potinho e colherinha no lixo certo.

O loiro apenas riu em deboche, Aoi estava certo, era mesmo um bom amigo que estava lhe dando todo apoio desde que descobrira sua atração por Ruki. Yuu não disse mais nada e nem olhou para trás para ver se estava sendo seguido por Akira e minutos depois ambos se viam na parte de trás do prédio da biblioteca.

– Vai gato, por favor, seja breve – disse Aoi espalmando as mãos na alta parede do prédio empinando a bunda de forma sugestiva enquanto falava todo se piscando para Reita.

– Cala boca Aoi e vê se fica firme aí, não to a fim de me esborrachar. – respondeu ligeiro dando um tapa de leve na bunda do moreno, logo guiando as duas mãos para os ombros de onde tomou impulso para subir.

– Por que você não pode se interessar por uma boa garotinha boba e promíscua como os caras normais? – perguntou Yuu tentando se manter firme com o peso do corpo de Reita que tentava se equilibrar em seus ombros.

– Porque se eu me interessasse por essas, não restaria nehuminha pra você, seu gigolô peso pena.

– Ahh da um tempo Reita, eu não faço com elas nada além do que elas me permitem. Não tenho culpa se não se dão valor e ainda acham bonito a forma como não se dão ao respeito.

– Uhum, sei bem. Isso até você achar uma ou um que te coloque um cabresto. Você faz bem o tipinho pegador, mas... droga o Kai quase me viu.

– Tsc.. para de nhénhénhé aí e vê logo o que você quer. Meus ombros estão doendo Reita.

– Ahh o Kai entrou na biblioteca também, não dá pra ouvir direito que eles estão falando, mas o Ruki surtou por ver uma mancha de sangue na camiseta do moreninho... ou algo assim.

– É sério Akira, deixa de ser assim tão obcecado e convida o cara pra sair e coisas assim.

– Eu não to a fim de levar um fora não. Pera aí, o Kai ta tirando a camisa ahhhh, ele fez uma tatuagem no peito. Nada haver, 382. Quem faz um carimbo perpétuo em cima do peito com números.

– Che, outro viado. Em cima do peito esquerdo? Pode ser alguma coisa ligada a sentimentos.

– Sabia que o que você disse aí é bastante ofensivo? Fala como se não saísse com garotos tanto quanto sai com as garotinhas fúteis. E sim, é no peito esquerdo. Cara, aquele Kai é tão mirrado, não dava pra imaginar que tinha um corpo tão... assim... por baixo dos panos.

– Assim como? Eu não to vendo nada daqui Akira. Aliás, você devia era ficar com o Kai, ele é bem mais bonito que o Ruki-mini.

– Ta eu vou ignorar o que você disse agora.

– E por que, posso saber?

– Um, eu não sou você que sai com tudo o que se mexe. Dois, não to me atirando no ventilador pra ver onde eu grudo. E três, porra Aoi, achei que você já tinha entendido que eu gosto de verdade daquele pequeno. – disse descendo dos ombros de Yuu e não ficando mais na altura da janela da biblioteca, de onde via toda a cena.

– Ainda assim.. o Nao disse que o Kai está absolutamente aprovado.

– Como assim?

– Ahh me poupe do óbvio Reita.

– Nunca percebi nada – o loiro fez um bico ainda achando que Aoi estava lhe mentindo ou algo do tipo.

– Ahh mas eles já ficaram uma porção de vezes.

– Eu não sabia.

– E depois tem a cara de pau de me chamar de lerdo. Ahh Miyabi.

– QUE?

– 382, Miyabi. É um nome escrito em números... que gay.

– Eu nem me lembrava mais desse assunto. Sei lá deve ser o tal amor platônico que o Ruki disse, conhece alguém que trabalha no cinema?

– Eu conheço a Neka, mas ela não trabalha mais lá. – E Aoi virou os olhos ao perceber o olhar questionador de Reita. – Ela foi pega pelo lanterninha transando nas poltronas na sessão das 23:00 horas.

– Me recuso a perguntar sobre com quem ela estava transando. Né, Aoi tarado.

– Agora me diz, o que essa aventura adiantou pra que você se aproximasse mais do Ruki?

– Nada. – suspirou. – Isso devia ser mais fácil, sabia.

– É você que é um idiota, o garoto gosta de você só precisa de uns empurrões. Convida ele pra qualquer coisa que ele vai.