Capítulo cinco: A sogra

Por Kami-chan

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Ruki

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Levando em consideração todas as novas informações do dia de hoje, até que o dia nem foi lá tão cheio assim de complicações. Tá, eu acabei com a reputação do Uruha, mas o povo logo se esquece dessas coisas. E agora estávamos indo pra casa, Kai ainda passaria na casa dele pra pegar os livros das aulas de amanhã e umas roupas, mas até metade do caminho iríamos os três juntos.

Kai e Uruha pareciam que tinham me esquecido, bastou Kouyou abrir a boca pra dizer que era gay, e Kai não esconder que ficou algumas vezes com o Murai pra que a conversa deles ficasse bem específica. E na boa, eu não preciso ficar ouvindo o quanto o traseiro e as coxas do Nao são gostosas quanto suas bochechas pra apertar.

Eu estava ficando propositadamente pra trás quando ouvi uma risada de deboche muito conhecida vinda de um grupinho no quiosque. Mas a risada não vinha do grupinho, e sim de Aoi que estava em pé escorado em um bando, ao lado de Akira. Eles estavam perto do grupo de escandalosos, mas não reconheci aquela gente como sendo seu grupo de amigos, e Reita estava completamente emburrado.

Com certeza o moreno estava rindo da cara do loiro de moicano, e ele não estava gostando nada disso. Eu seria o seu herói se o tirasse dali agora?

Sorri abobado, sem saber exatamente o motivo vendo a cena dos dois. Não sei quanto tempo fiquei ali parado apenas olhando os dois, mas foi tempo suficiente pra chamar atenção do da faixa. E bastou apenas isso para ele me sorrir daquele jeito que eu estava começando a achar que deveria ser proibido. Porra, que sorriso lindo. E logo ele deixou Aoi pra trás para vir na minha direção.

– Seus amigos te deixaram pequeno? – Perguntou sorrindo.

– É, eles não vão sentir minha falta tão cedo. – Respondi-lhe com um sorriso gêmeo ao seu.

– Vamos lá, eu te acompanho. Estou indo pro trabalho mesmo. – Disse realmente caminhando ao meu lado na direção do portão da escola.

– Eu não sabia que você trabalhava. – Comentei realmente surpreso e também curioso em saber que tipo de coisa ele fazia.

– Hm. Eu moro com minha mãe e minha vó, o colégio a bolsa dá um jeito, mas a aposentadoria da vó vai toda nos remédios dela, e o salário da mãe pra todo o resto. E sobra pra mim arrumar o meu. – Respondeu com bom humor, eu adoro essa simplicidade e sinceridade que ele tem.

– Eu também sou bolsista aqui, mas já que somos apenas eu e a dona Emi, ainda da pra eu abusar da boa vontade dela. – Ele riu da resposta. – Mas eu gostaria de trabalhar, entretanto a coisa mais próxima disso que eu já fiz foi cobrar do Uruha pra fazer algumas tarefas que a mãe dele queria que ele fizesse. Você trabalha aonde? – Ele riu, eu sabia que não precisava explicar o quanto as famílias de Kai e Kou eram ricas, Aoi também entrava nesse grupo.

– Ahh eu trabalho em uma loja de instrumentos musicais. Pena que eu não sabia que você queria trabalhar, meu chefe tava precisando de mais uma pessoa pra ajudar na loja, a única pessoa de confiança que eu conhecia na ocasião era o Aoi.

Uma loja de instrumentos musicais. Por que isso me soa absolutamente original e a sua cara hm? O que será que ele fazia? Atendia os clientes, afinava os instrumentos... se não ficasse tão estranho eu me interessar demais pelo trabalho dele, perguntaria o endereço da loja apenas para que pudesse vê-lo trabalhando. Como seria um Akira serio e respeitoso tratando com um cliente?

– O que o Aoi faz trabalhando? – Perguntei meio curioso demais, convenhamos, ele não fazia o tipo trabalhador orgulhoso.

– Você diz, além de paquerar todas as clientes? Bom, ele baba nas guitarras e afirma cada vez mais o único relacionamento que ele leva a sério, e ao qual é totalmente fiel. – Ri da primeira parte, mas logo olhei incrédulo para ele. Como assim Aoi tinha um caso ao qual era completamente fiel? – O caso de amor dele com o dinheiro. – Continuou rindo. – Yuu não precisa trabalhar, mas se tem algo que faça ele ganhar um pouco mais de dinheiro, ahh pode crer que ele está dentro. – Ri de verdade.

– Nee nee Akira, você tá sabendo do show dos 'ABOMINÁVEIS' que vai rolar no anfiteatro por essas semanas? – Comentei realmente a fim de saber se ele ia, ou quem sabe até convidar ele pra ir comigo né, por que não, somos amigos e temos os mesmos gostos musicais.

– Ahh sim, pena que não vão liberar a entrada pra menor né, nem quem tem autorização. O único jeito de um menor entrar é acompanhado de um maior responsável.

Ah aí vinha aquela dúvida cruel, eu dizia ou não dizia pra ele que a essa altura minha mãe já devia ter ingressos suficientes para todos nós? Até que minha linha de raciocínio foi cortada por ele.

– Mas eles já estão na cidade sabia, e estão treinando no teatro algumas noites, e o ensaio é liberado pra quem tem aquelas autorizações. Se você tivesse afim... – Ele começou e meio que travou coçando a cabeça, tive a ligeira impressão de que sua boca ficou seca devido ao som estranho que ele fez. – Nós... poderíamos combinar de irmos... juntos. Nee, se você quiser? – Oh, ele me convidou pra sair?

Certo, eu tinha me resolvido. Não ia falar nada sobre a Emi-san pro Reita, nós iríamos aos ensaios e daí eu falaria com minha mãe primeiro. Tenho certeza que ela não ia perder o show por nada. Mas antes disso, eu tenho que conseguir controlar melhor a minha respiração, cara, tá falhando.

– Eu vou adorar ir aos ensaios dos ABOMINÁVEIS com você Akira. – E eu juro que o sorriso que ele deu depois dessa foi o mais bonito de todos que eu vi até agora, eu até me senti um pouco aquecido, droga, eu devia estar corado. – Quando vai ser? – Tentei mudar o assunto, ou pelo menos a atenção dele do meu rosto.

– Ahh hoje à noite. – Ele sorriu, mas eu travei.

– Hoje? Me desculpe Reita, mas hoje eu não posso. Eu já tinha combinado algo com os meninos. – E apesar das bochechas dele serem magrinhas, eu pude ver com clareza um balão cheio murchar em dois segundos.

– Ahh – E lá estava ele coçando a cabeça de novo. – É. Sair tarde em pleno dia de semana nem é legal mesmo, agente ainda tem aula amanhã né. – Sorriu amarelo.

– Você não vai? – Perguntei surpreso, por acaso ele só estava indo porque eu ia?

– É.. er.. não sei, acho que ainda vou pensar. – Então eu tive certeza, ele queria a minha companhia, e não, se eu não fosse ele também não ia.

E por algum motivo, além de me sentir triste por deixá-lo triste, me senti também feliz. É tá, eu mudo o que eu disse, o dia de hoje foi cheio demais de informações, eu tava mesmo saturado já. Olha as merdas que eu to pensando.

– Mas olha, se você mudar de ideia sobre sair em dia de semana, o Kai vai fazer uma janta lá na minha casa hoje. Não é divertido como um show e nem uma festa, não vai ter ninguém só o Kai, o Uruha e eu. Mas seria legal se você fosse.

– Tá, eu vou ver. Vou pensar. Eu tenho que dobrar aqui. – Disse muito encabulado apontando para a sua direita, acho que a faixa no rosto dele é que estava me privando de ver seu rubor. Mas que merda, eu não gostei disso, isso era... era um absoluto desânimo nos olhos dele?

Acho que ele pensou que eu apenas o convidei por educação ou coisa do tipo. Não foi, eu queria muito sair com ele, ir ao show, assim como queria ele mais próximo do grupo, queria Akira presente na minha casa junto com Uke e Takashima. Mas ele já tinha me dado às costas, magoado.

Que coisa, nem sei o que foi de fato que me moveu, apenas não podia ir embora assim, tendo a certeza que ele tinha ficado triste ou coisa parecida. Ou com alguma coisa mal resolvida.

E quando dei por mim, já tinha corrido atrás do loiro. Ta, ele não tava assim tão longe pra eu dizer que corri feito um desesperado atrás dele, mas foi o suficiente pra me fazer ofegar, OK. Até porque, eu conhecia bem aquele 'vou pensar', era uma saída pra dizer que não.

– Reita! – Chamei seu nome ao mesmo tempo que minhas duas mãos cercavam seu pulso, forçando-o a parar. – Eu não quero que você pense, eu quero que você vá.

Eu não devia estar fazendo isso no meio da rua, tinha consciência de que quando eu travei da corrida e ele se virou ao sentir minhas mãos em seu pulso, nós dois acabamos ficando muito próximos. Próximos o suficiente para me fazer travar. Caramba, ele podia parar de me olhar assim, eu estava começando a tremer, e eu juro, juro que dava a impressão de que ele queria se aproximar ainda mais.

Eu devia até estar meio que tendo uma crise de labirintite, anormalmente causada por todas as vezes que minha respiração parou e voltou naqueles poucos minutos de conversa, porque eu podia jurar que ele estava sim chegando cada vez mais perto de mim. Aí é claro que eu o soltei, e ele pareceu entender que eu queria uma resposta para deixá-lo ir.

– Você mora na mesma rua que o Aoi, não é? – Me perguntou com um sorrisinho ameno nos lábios.

– Isso, umas duas quadras acima, o número é 728. É uma casa bege com marrom bem clarinho, sem cerca. – E fiquei realmente muito feliz ao ver que eu era capaz de falar ainda, porque de verdade, com a sequência de coisas que aconteceram ali, eu não tinha mais noção alguma dos meus sentidos.

– Que horas? – E por que é que ele tem essa mania de falar olhando lá dentro do fundinho dos meus olhos, mano isso me deixa nervoso.

– Ahh o Kai e Uruha só vão pegar umas coisas e já vão pra lá, então a hora que você puder ir está bom. – E o pior, incapaz de quebrar a porcaria do contato visual.

Eu provavelmente parecia uma versão oriental da dona Florinda olhando para o professor Girafales. Principalmente da forma como eu tinha que literalmente olhar pra cima pra poder encará-lo. Hey professor Girafales de faixinha, vamos até minha casa tomar uma xícara de café. Tá parei, e voltei ok.

– Tá então, eu saio do trabalho às 19h hoje por coincidência. Só vou em casa tomar um banho e logo apareço na tua casa chibi.

– Tá. – Sorri-lhe realmente feliz, acenei-lhe meio tímido e fui embora. Reita ia na minha casa.

REITA IA NA MINHA CASA!

E no caminho sem querer comecei a pensar, pensar em Kai, em Uruha e em Reita. Eu estava sendo bobo demais, Kou e Yutaka estavam certamente querendo me ajudar a ver algo que eu simplesmente não queria enxergar. Mas era verdade, eu não conseguia me controlar perto do Reita, eles sabiam disso, eles tinham percebido isso muito antes de mim.

Senti meus olhos arderem e peguei os óculos de sol na mochila, andar pelas ruas aos prantos não faz bem o meu estilo. Eu podia entender o que meus amigos sentiam, eu podia admitir para mim mesmo que nunca havia me interessado assim antes por ninguém, eu podia até admirar Reita em silêncio, mas eu não podia levar aquele sentimento adiante. Eu não podia ser assim. Não podia.

Mesmo que doesse. Que eu soubesse que olhar para o corpo de meninas bonitas para admirar-lhes não me dava a mesma sensação de desejo que um simples movimento daquele loiro antissocial do capeta conseguia arrancar de mim, de nada adiantava, eu tinha que ignorar isso. Era meu dever.

Mas isso era tão difícil, e cada vez mais difícil. E não que eu nunca tivesse me sentido excitado antes, mas ao sentir-me completamente duro por ve-lo tomar banho ontem me assustou. Me assustou de verdade, pois nunca senti algo tão intenso. E foi ali que percebi o quanto eu não conseguia me controlar.

Você já se sentiu assim, tão fora de si Reita? Você me deixou assim.

Eu não era capaz de controlar nem mesmo ações simples perto dele, mas ficar tão excitado era assustador. E eu não podia.

E era por isso que não podia também contar com Kai e Uruha. Eles não entenderiam, jamais entenderiam o que era sentir o que não me era permitido sentir. Eles podiam, eu é que não.

As lágrimas corriam silenciosas molhando todo o meu rosto, eu não fazia questão de limpa-las, só queria chegar em casa e tomar um longo e aconchegante banho. Uruha devia ter ido com Kai quando eles perceberam que eu não estava com eles. Demorei um pouco pra conseguir acertar o buraquinho da fechadura por causa da visão embaçada, funguei, tirei os óculos e passai o dorso da mão nos olhos e logo me vi dentro do meu refúgio, e larguei todas as coisas de qualquer jeito em cima do sofá.

Alguns barulhos de louça me assustaram, mamãe não devia estar mais em casa. Funguei mais uma vez e limpei o resto das as lágrimas mais grossas e segui para a cozinha. E não é que ela estava lá, toda distraída com os fones de ouvido enquanto lavava a louça.

Não me contive em me aproximar e fazer algo o qual eu necessitava muito naquele momento e apenas Emi-san poderia me dar. Um abraço.

Envolvi sua cintura, meio que por trás, meio que pelo lado e escorei minha cabeça em um de seus braços. Ela se assustou no princípio, mas logo retribuiu ao ver que era eu ali. Tirou os fones do ouvido e me abraçou com força, o foda era que ali, dentro daquele abraço em especial todas as lágrimas que eu tinha conseguido fazer parar de cair voltaram com força total.

Minha mãe era uma guerreira e nunca, nunca, iria decepcionar aquela mulher. Era por ela que eu não poderia cair em sentimentos tão limitados.

E como esperava, ela apenas me deixou chorar. Se palavras tivessem que ser ditas, ela estaria ali para ouvir, sem me pressionar. Emi sabia me fazer entender que ela sempre estaria ali para quando eu estivesse precisando de suas palavras. Mas como pedir por suas palavras dessa vez? Não podia.

– Não achei que você estivesse em casa ainda. – Disse assim que consegui falar.

– Ah o Joe teve que remarcar comigo e, consequentemente, eu tive que remarcar com o Takamasa.

Joe: Amigo de longa data da minha mãe. Ele foi um dos poucos que acompanhou a história de Emi desde o começo, apoiou as loucuras que ela fez e o casamento dela com meu pai. Até escondeu os dois na véspera e por mais uns dias depois do casamento. Ele era meu padrinho, tinha uma mega loja de artigos musicais, é artigos mesmo, na loja dele tem desde piercings e camisetas até instrumentos, CDs e, adivinhem, uma casa de shows meio que embutida na loja. Ela ainda não estava completamente pronta, mas o projeto era parte dele e parte da minha mãe. Ele também conhecia muita gente grande, sabe daquelas que atuam por trás de bandas grande, sem falar que era um ótimo artesão de guitarras.

Takamasa: Afilhado de minha mãe. A mãe dele também foi uma das poucas pessoas que deram apoio à minha mãe, principalmente depois que meu pai morreu. Isso porque ela tinha passado por algo semelhante antes da minha mãe, e parece que a Emi foi a única que apoiou ela. É... a história é confusa mesmo, mas o ponto principal era que a mãe de Takamasa tinha engravidado muito cedo também, igualzinho à minha mãe, a diferença era que o Coreano que fez o 'trabalho' deixou dela assim que soube que ela estava grávida. Aí a mãe do Takamasa teve que fazer algo realmente racional e difícil, pois sabia que não dava pra se sustentar e sustentar um bebe quando se tem quinze anos e não se pode trabalhar por conta da criança, então ela deixou seu filho com a avó.

Não que o Taka não tivesse contato com a mãe dele, eles tinham. Ela conseguiu entrar em uma empresa e, quem diria, crescer nela, mas para isso precisou sair do país. A criança continuou com a vó, mas a mãe dele mandava dinheiro todo o mês e eles ainda tinham contato.

Minha mãe era madrinha dele e cuidava dele como se fosse mais um filho seu, nós íamos direto la na casa da vó dele no verão, que era quando ele passava as férias do internato em casa. Mas aí algumas coisas aconteceram que eu não sei direito, só lembro da briga entre minha mãe e a avó do Taka, nós estávamos escondidos ouvindo tudo, mas eu estava mais preocupado em fazer ele parar de chorar que em escutar e entender o que elas gritavam. Ele parou de voltar pra casa nos verões, preferia passar as férias lá no internato mesmo e só minha mãe ia visitá-lo. Fazia tempo que eu não o via e estava com saudade das nossas brincadeiras.

– Eu poderia ir com você? Tenho saudade do Taka-chan. – Disse a olhando.

– Desculpe filho, mas parece que ele está com problemas. Não vai ser uma conversa agradável com certeza, é melhor que você fique aqui. Mas se o que ele tem pra me falar combina com as poucas coisas que ele me disse por telefone, acho que vou convidá-lo para passar uns tempos morando aqui conosco. Você gostaria?

– Claro! – E mesmo sujo de lágrimas pude sorrir.

Eu sei que estava sendo ingênuo. Eu lembrava de uma criança, agora éramos adolescentes confusos, eu nem sabia se ele ainda o cara divertido que eu tinha conhecido.

Vai que ele olhe pra mim e diga algo do tipo 'não quero conviver com um carinha que usa maquiagem e pinta o cabelo'. Tá, eu conversava bastante com ele no skype, online ele era tão engraçado quanto eu lembrava, mas hey tudo era possível nee. Sem falar que eu nem sabia como ele estava agora, a imagem do perfil dele era a de uma menina meio estranha, tinha tanta cor naquela foto que eu pouco via da fisionomia da menina.

Entretanto no fundo, eu sentia que talvez ter meu amigo de volta poderia me fazer sentir melhor com relação a esse monte de coisa que eu to sentindo.

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Emi

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– Olá Joe – Cumprimentei o dono do estabelecimento que estava atrás do balcão dando uma conferida em alguns catálogos.

– Emi-chan – Ele deu a volta no balcão para me abraçar. – Como está? Estava esperando por você, sua guitarra está pronta. Olha é serio, você precisa tocá-la de vez em quando hum, estava horrivelmente desafinada.

– Ora por isso a trouxe pra você, o meu negócio não é com as cordas você sabe... – Ele sorriu – Ela apenas é muito importante pra mim.

– Eu me lembro do dia em que você veio aqui encomendar ela. Uma adolescente que não sabia nada sobre guitarras, você estava mais empenhada no desenho dela que na qualidade – Ele riu.

– Ué para isso eu contava com você. É ou não é o melhor artesão de guitarras Joe? – Não resisti a cutucar suas costelas, ele era tão magro que dava pra pinçar osso por osso.

– Você sempre foi minha cliente mais exigente e chata.

– Graças a isso ela ficou perfeita e meu marido adorou o presente de casamento. Então, onde está?

– Oh está lá em cima. Sabe como é, artesanais chamam mais atenção e tem uns garotos muito sem noção que andam por aqui achando que sabem tirar notas, mas não sabem nem respeitar as cordas. – Sorriu-me mais uma vez e olhou para a escada metálica em espiral que dava acesso ao estoque da loja no andar de cima. – Suzuki você está aí em cima ainda? – Gritou olhando para escada como se fosse capaz de ver seu empregado dentro do lugar.

– Hai – Respondeu a voz jovem.

– Traga essa guitarra que está aí. – Então clientes entraram na loja, o outro atendente estava ocupado e Joe finalmente me soltou do abraço – Emi, por favor, fique à vontade sim. Você sabe que é da casa.

Circulei pela loja, encantada com alguns pircings, separando um ou dois sobre o balcão. Entre eles alguns brincos para Takanori. E então fui olhar os CDs, estava tão perdidamente feliz entre vários títulos que nem vi que o atendente não tinha mais quem atender e estava vindo na minha direção, ele decididamente era novo ali, pois não me conhecia.

Já tinha separado uns três títulos que haviam me agradado quando o garoto falou ao meu lado. Agora o vendo tão de perto eu tenho certeza que este atendente é mesmo novo aqui, mas ao mesmo tempo sinto como se já o conhecesse de algum lugar.

– Esse é realmente muito bom. – Ele disse se referindo à capa que eu tinha em mãos. – Essa banda é bem nova, é o primeiro álbum, mas é realmente muito bom. – Apenas sorri.

– Hey Yuu pra quem é a guitarra? – A voz vinha junto ao barulho estridente que a escada de ferro fazia ao ser pisada.

– Para mim. – Disse voltando-me para o local de onde vinha o som e quando pus os olhos sobre o garoto, parecia impossível, mas eu logo o reconheci.

Cara, eu era mesmo muito relapsa. Já fazia alguns meses que o garoto Suzuki trabalhava ali com o Joe, eu nunca dei muita atenção ao garoto esquisito, mas agora sua imagem me bateu em cheio. Motivos óbvios.

Bastou eu por os olhos naquela faixa estranha que o guri usa sobre o nariz para ter certeza de que esta era semelhante àquela que Takanori não largava e agora eu tinha quase certeza que o garoto Suzuki era ninguém menos que Reita. A possível grande paixão do meu filho.

E eu nem tentei disfarçar. Pela primeira vez desde que fora contratado por Joe, analisei o garoto dos pés à cabeça e orelha esquerda até a direita com as pontinhas cobertas pela faixa. Estava prestes a pedir para o garoto fazer a gentileza de virar ao avesso quando a voz daquele garoto metido soou entre nós.

– UAU cara essa é a guitarra mais linda que eu já vi. Por isso você não me deixou subir lá em cima essa semana né Reita seu imbecil – Disse realmente chocado com o amigo.

E pronto, ele usou o nome mágico, o periquito punk que trabalha pro Joe é mesmo o amorzinho do meu filho. Tsc, eles até que combinam.

– Se liga Shiroyama cabeçudo, não ia deixar você tocar a guitarra de uma cliente.

Shiroyama. Akira disse Yuu quando estava descendo. Analisei o moreno, céus, aquele baderneiro mirrado que eu tinha conhecido tinha se transformado nisso TUDO? O garoto é muito bonito minha gente. Tanto que se eu não tivesse o dobro de sua idade... er... edita.

– OK obrigada Suzuki por proteger tão bem a guitarra de Matsumotto-san. Pode entregá-la à Emi agora hm. Desculpe por isso Emi-chan, como disse antes, as artesanais chamam atenção demais. – Disse Joe se aproximando.

– Sem problemas Joe – Sorri sincera, mas vi o moreno Yuu arregalar os olhos e cutucar o faixudo sem nenhuma discrição.

É... conhecer a futura sogra é algo que devia causar impacto.

E acredite enfaixadinho, eu vou fazer você sofrer um impacto bem forte. Porque, se aquele garoto tem alguma intenção de se aproximar do meu filho, eu vou descobrir. E se tiver, pobre, pobre Reita, vai ter que me convencer que realmente merece cada lagrima que o meu filho anda derramando.

– A caixa que eu tinha comentado com você hoje mais cedo – Disse olhando para o Joe e pegando a guitarra do meu marido das mãos do meu possível genro.

– Hm. Eu sei do que você precisa, só não entendo pra que a quer. Quem vai tocar uma guitarra naquela casa? – Perguntou divertido.

É, quando o Takamasa me ligou falando por cima sobre problemas envolvendo sua vó, dinheiro e trabalho, eu já tinha planejado tintin por tintin pra ele ir passar o tempo que fosse preciso lá em casa. E sim, agora teríamos alguém pra tocar guitarra naquela casa junto com o Uruha.

– Acho que vou levar Takamasa pra morar lá em casa. – Disse de forma simples, Joe conhecia mais de mim do que qualquer pessoa.

– Seu afilhado? Lembro dele e do Takanori correndo por aqui quando crianças. Aliás, faz bem uns três meses pra mais que o Takanori não vem mais aqui.

– É ele mesmo. O Taka anda com a cabeça em outras coisas Joe, mas mais tarde eu converso mais com você sobre coisas importantes. – sim, quando me ligou mais cedo, marcamos de conversar durante um jantar, seria bom mesmo já que os meninos estariam todos lá em casa, aquilo ia virar um campo de batalha. – Só queria saber mais ou menos pra quando você consegue a caixa.

– Tenho uma no estoque pra você Emi, mas não posso sair da loja agora para te ajudar a colocá-la no carro. Penso que posso levá-la a noite quando formos conversar hm?

– Que isso Joe, não se preocupe. Eu entendo perfeitamente que você não pode sair daqui, mas tenho certeza que o garoto Suzuki não se incomodaria em me ajudar, não é? – Terminei de falar olhando para o garoto apavorado, este pigarreou e fez uma leve e mensura ao chefe.

– É só me dizer de que peça se trata, senhor. – responsável, eu já tinha ouvido o Joe dizer várias vezes que ele era, agora, vamos ver até onde vai essa educação forçada também nee.

E eu estava louca pra aquele garoto ter que me acompanhar até o estacionamento. Longe dos olhos alheios, queria ver do que aquele menino era feito de verdade.

– Tenho a impressão que você estuda no colégio do meu filho. – Disse enquanto caminhávamos, desarmei o alarme do carro para que ele –com a coisa pesada nos braços- visse pra onde deveríamos ir.

– Ahh sim senhora, estou no terceiro ano, mas conheço o Ruki sim, quer dizer, Takanori. Conheço Takanori.

– É. Não me chame de senhora, meu nome é Emi, eu tenho menos da metade da sua idade. Ele nunca me contou que um dos seus amigos trabalhava pro Joe. – apenas comentei, o que eu queria de verdade era saber o quão próximo aquele cara era do meu filho.

– Não lembro de ver ele aqui depois que comecei a trabalhar, também não sei se haveria tempo suficiente de amizade entre nós. Sabe, eu realmente só me tornei amigo do Ruki essa semana. – e ele ia me dando todas as respostas assim, de lambuja.

Eu podia gostar disso, tinha que aprender a ler aquele menino. Gostava também da forma como ele sorria toda vez que falava o nome do meu filho, mesmo que nem percebesse que o fazia. E eu poderia chegar a cogitar a possibilidade de que ele também sentia alguma coisa pelo meu filho.

Mas eu não podia ficar perguntando coisas, além de estranho, simplesmente não me parecia certo. A vida era deles, eu não podia interferir. Entretanto, gostei das poucas palavras ditas por Akira, com cada expressão ele me dizia o quanto era simples e verdadeiro, eu queria que estas fossem qualidades reais daquele menino.

Queria poder dizer que ele era uma pessoa ótima, e que eu ficaria sossegada quanto a felicidade do meu filho. Mas se Reita era assim tão boa pessoa, por que Takanori estava chorando pelos cantos? O que havia de errado naquela história?

– O Taka fala muito bem da senhora – Ele arregalou os olhos ao me ver torcer o rosto em desaprovação, eu realmente odeio ser chamada de senhora. – Você, Joe também. Me faz pensar que Emi-san deva ser uma pessoa muito boa e corajosa. É admirável e inspiradora sua história Emi-san. – Ele disse baixinho, absolutamente e completamente tímido, se sua voz não fosse tão grave eu nem escutaria. Tudo bem, o garoto me conquistou com essa carinha de mau e com essa expressão de pânico e timidez.

– Joe e Takanori também falam muito bem de você, Reita. – Resolvi usar o apelido pelo qual me acostumei a ouvir Taka pronunciar. E me surpreendi com a magnitude do sorriso que ele me deu.

– Fala? – Perguntou-me com a voz quase falha, então pigarreou como um auxílio para recuperar o tom e se corrigiu – Falam?

Fechei o porta malas onde ele já tinha colocado a caixa amplificadora e cruzei os braços. Depois dessa, eu poderia esperar até que ele chorasse de emoção. Eu não acredito, esse garoto está mais bobamente apaixonado por Takanori, do que meu filho por ele. Será que meu pequeno não via nada disso? Adolescentes, quem os entendem.

– Espero vê-lo qualquer dia desses lá em casa. – Disse sorrindo.

E com a deixa ele me deixou sozinha assim que me viu pegando o telefone. Eu ainda tinha que conversar com Takamasa antes de ir pra casa me arrumar pro jantar com o Joe.

Aliás, que diabos o Joe quer com jantar em restaurante fino? Eu hem, é cada louco que me aparece.