Capítulo seis: Família

Por Kami-chan

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Emi

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Me espreguicei mais uma vez na desconfortável cadeira da praça de alimentação do Shopping, onde esperava por Takamasa. Um muxoxo de tédio saiu por meus lábios e meus dedos escorregaram pelo cardápio em cima da mesa, logo o pinçando pela beirada, trazendo-o para frente dos meus olhos.

Pela primeira vez a longa lista de diferentes invenções de cafés pareciam] me seduzir. Meu afilhado estava atrasado e isso não contava ao seu favor, uma vez que eu já estava possessa com ele por ele ter me dito que havia desistido da escola.

Acenei para a mocinha que fazia os pedidos e dei mais uma passada rápida com os olhos pelo longo cardápio. Precisava de algo com álcool, mas por incrível que pareça aquela lista enorme de café só tinha acompanhamento com licores péssimos. A menina se postou ao meu lado com um palm top em mãos, esperando que eu lhe pedisse algo.

– Um... – Pensei – AbsinttE, grande com chantilly.

– Café, absinto e chantilly, isso não pode dar boa coisa Emi-san – Ouvi a voz meio rouca vindo por trás da menina.

E pensei em todo o meu mau humor se esvaindo em uma vontade insana de começar a rir. Se não fosse pelos traços únicos de Takamasa, eu não o reconheceria.

Lentes de contado coloridas, cabelo mais colorido ainda. Para completar a imagem carregada, a regata enorme e quase transparente deixava bem evidente que meu afilhado tinha conhecido e se associado a algum tatuador sem muito talento.

Bom, eu já tinha visto esse filme antes. Takamasa e Takanori não ficaram tão diferentes assim, mesmo com toda a distância.

– Quer beber alguma coisa, Taka? – Perguntei com ternura, não tinha jeito, aquele moleque tinha um carisma diferente, precisava só sorrir pra fazer as pessoas esquecerem que estavam brabas com ele.

– O mesmo que ela, por favor. – Dirigiu-se à moça, mas eu tive que intervir.

– Nada disso, você ainda é menor de idade. Pode escolher entre um cappuccino e um achocolatado.

–Hm não deu. – Disse e logo se voltou para a moça de novo. – Eu quero aquele chocolate quente que o copo é forrado de chocolate, bem grande, com chantilly e mashmellow. Sabe como é, fase de crescimento. – Riu alisando a barriga.

Crescimento? Isso porque o adolescente na minha frente estava quase do tamanho de um poste já. De repente uma onda de saudades de sua mãe me atingiu em cheio, se ele soubesse o quanto eram parecidos.

– Desculpe pelo atraso Emi-san, sabe como é eu quis inovar no meu trabalho e acabei queimando uma forma de cookies. Aquelas porcarias queimadas não desgrudam da forma nunca. – Fez um bico indignado enquanto se jogava contra o encosto da cadeira.

– Hm então quer dizer que além de parar de estudar você está trabalhando também? O que houve Taka, por que está fazendo isso? E seu sonhos, como vai correr atrás deles sem terminar seus estudos.

– Eu parei de estudar justamente para trabalhar Emi-san. Os sonhos podem esperar, às vezes eu toco na filial do bistrô onde eu trabalho. Voz e violão, da pra matar a vontade.

– Num bistrô, Takamasa. Com todo o dinheiro que sua mãe te manda você larga os estudos em uma das melhores escolas do país pra trabalhar em um bistrô.

– O bistrô do cinema do shopping. Faltava só um ano mesmo. Eu não tenho mais o dinheiro que a mamãe me manda. – Disse baixando o olhar.

– Não está chegando até você? Você devia ter falado comigo, eu sei que ela lhe manda o dinheiro todo o mês.

– Não, não é isso. – Ele suspirou rápido e logo voltou a falar, palavras com um peso a mais. – Vovó está muito doente, o dinheiro que a mamãe manda está sendo usado pra comprar seus remédios. Bem na verdade, eu saí da escola porque o dinheiro não dava mais também.

Eu fiquei pasma, nunca me importei com a avó dele. Sua mãe lhe mandava dinheiro e eu o visitava sempre, sempre garantindo seu bem estar da melhor maneira possível.

Aquela velha fora ruim com sua própria filha, foi ela quem impôs que Takamasa estudasse em um internato se fosse pra ficar sob responsabilidades dela. No começo até deu certo, mas as pessoas mais antigas tem um pensamento muito retrogrado em relação alguns assuntos, polêmicos, por assim dizer.

Ela ofendeu e negou a própria filha, ofendeu a mim e meu filho dentro de sua própria casa e por fim, cuidava do neto por obrigação. Na última vez que tinha falado com ela, a briga foi feia, não suportei ouvi-la ofendendo e difamando minha amiga e seu amado filho.

Takanori e Takamasa eram muito pequenos naquele tempo, mas sei que mesmo crianças eles entenderam o que estava acontecendo. Eu nunca mais levei meu filho para perto daquela mulher, nem Takamasa voltou mais do internato para casa nas férias. E veja só como são as coisas, era o dinheiro do neto bastardo que ela desgostava tanto que estava a mantendo hm. Será que ele se lembrava das coisas discriminatórias que a avó fazia com ele?

– Sua avó tem uma gorda aposentadoria. – Foi tudo o que disse, mesmo não gostando dela, nunca fiz ou disse nada que influenciasse no que ele poderia sentir por ela.

– Eu sei que você não gosta dela Emi-san, ela também nunca foi boa pra mim. Minha mãe em outro país e você indo me ver sempre que podia, sempre fizeram mais por mim do que ela já tentou pelo menos fingir que se importava. Ainda assim não posso deixar ela doente sem pensar em nada.

– Foi ela quem lhe pediu dinheiro? A tua mãe sabe disso? – Quis saber, e senti-lo ficar constrangido.

– Na verdade, eu só soube no que meu dinheiro estava sendo usado quando o diretor me chamou pra dizer que a mensalidade não havia sido paga. Não quero aborrecer minha mãe, vovó está impertinente e não quero que as duas briguem, elas sempre brigam quando se encontram. Eu estou dando conta Emi, o dinheiro da mamãe e mais a aposentadoria da vovó dão pros remédios e pras coisas da casa, e assim eu consigo me sustentar com o meu salário.

Massageei as têmporas, era coisa demais pra eu absorver. Eu não acredito que depois de tratar o menino tão mal ela ainda teve a cara de pau de usar o dinheiro que era dele, sem se quer pedir, avisar ou pedir emprestado. O café chegou bem nessa hora, o que me fez bem, meus pensamentos estavam fervendo.

Cara, a mãe dele ia pirar quando soubesse disso tudo. Enlouquecer em saber que seu menino estava tendo que trabalhar tanto assim, não apenas com o tal emprego que ele tinha arrumado, mas com certeza cuidando de casa e da avó também. Sem falar que tinha parado de estudar.

Havia um motivo para eu ser madrinha desse garoto, não é? Eu simplesmente não podia deixá-lo naquela situação, e se eu já tinha planejado tudo pra ele ir morar comigo e Taka, agora, isso seria uma ordem.

– Há quanto tempo isso está acontecendo?

– Desde o começo do ano. – Respondeu.

– E você só me ligou agora por quê? – Surpreendi-me com a resposta.

– Encontrei os últimos exames dela, mas não tenho ideia do que eles dizem. Trouxe eles para mostrar a você, penso que ela precisa ir para um hospital, mas ela não me ouve. Na verdade, ela parece ser outra pessoa, surta de uma hora pra outra, grita grosserias, arremessa coisas em mim enquanto xinga. – E vi-lo morder os lábios ao parar de falar.

Ele havia se emocionado, começaria a chorar se continuasse falando. Man, devia estar sendo pesado demais tudo que ele estava passando.

– Deixe-me ver isto. – Estiquei a mão para pegar os ditos exames.

O diagnóstico era de um câncer agressivo no intestino, mas o exame em minhas mãos continham imagens da cabeça. Diagnóstico, metástase no cérebro. Era uma massa enorme, não era à toa que ela estivesse tendo ataques de fúria, devia estar sentindo muita dor.

Era absolutamente primitivo que uma pessoa com um diagnóstico daqueles estivesse fora de acompanhamento em um hospital. Fazia sentido agora, os remédios serem tão caros, tudo me indicava que avó dele tinha aceitado o tratamento químico, mas não completamente, afinal numa pessoa daquela idade tanto quimioterapias quanto radioterapias eram feitas com a paciente internada.

Não estava adiantando e pelo o que eu via, recorrer à internação agora também não adiantaria muito, na minha modesta opinião, ela iria morrer de qualquer jeito. Penso que em um hospital ela estaria bem cuidada e o inevitável aconteceria com ela sentindo menos dores.

– Então Emi-san, você entende. É grave? – Me perguntou temeroso.

– Pessoas velhas ficam doentes com facilidade, faz parte da vida. – Disse tentando lhe sorrir.

– Mas Emi se você a visse, ela...

– Eu sei Taka, eu sei. – O cortei.

– É sério, não é?

– Em uma idade avançada todas as doenças merecem mais atenção. Não se preocupe, nós vamos levá-la a um amigo meu, ele é especialista na doença da sua avó, e eu garanto para você que ela terá o melhor.

– Será que ela vai ter que ficar internada?

– Sim, ela vai. E você, vai lá pra casa.

– Não quero lhe dar trabalho Emi. O que ela tem afinal?

– Você não me dá trabalho, ao contrario, você e Takanori dentro de casa me trarão apenas alegria. Tenho certeza que sua mãe vai concordar.

– Não quero contar nada disso para ela. – Resmungou.

– Ah mas eu vou contar sim. Não se preocupe, confie em mim. Eu sei conversar com ela. Mesmo porque, o senhor vai parar de trabalhar. Se não quiser voltar para o internato não precisa, mas terá que estudar.

– Mas Emi-san, o ano letivo já começou faz tempo. Não tem mais como eu voltar. – Apontou.

– Dá sim, você estudou a vida inteira em uma das melhores escolas do país, vou pedir seu histórico escolar, você é inteligente. Vou explicar a situação para o diretor da escola do Taka e quem sabe conseguimos que você fique lá, assim não perde o ano.

– Eu vou mesmo morar com você e o Taka? – E finalmente, vi um sorrisinho nascer ali de novo.

– Vai sim, arrumei um quarto pra você antes de sair de casa, e também, Joe disse que a guitarra de Masahito tem que ser tocada, vive desafinada por desuso. Bem na verdade, vai ser uma troca de favores hm – Ele sorriu novamente.

– Eu vou ficar feliz em lhe fazer esse favor. Será que o Joe me ensinar outra vez?

– E as aulas de música no internato?

– Tiraram a guitarra, no fim eu só podia escolher entre violão, violino, violão celo, flauta doce ou piano.

– Mais do que o Joe, acho que Uruha também vai adorar tocar com você.

– O amigo do Taka? – Me surpreendi com o comentário.

– É, é um amigo do Taka sim. Você os conhece?

– Não, nunca vi Kai nem Uruha, mas o Ruki fala muito deles no Skype. – Sorri.

– Acho que vocês todos irão se dar muito bem. Kai toca bateria e Uruha, guitarra.

– Ah Emi-san, pode me chamar de Miyavi.

– Ok posso memorizar mais um apelido. Daqui um pouco vou criar um para mim também. – Sorri.

– Nee você acabou não me dizendo o que a vovó tem. – Droga, eu bem que tentei, mas ele não esqueceu o assunto.

– Isso porque nós primeiro vamos conversar com o médico. Eu conheço o diagnóstico, mas não sou nenhum médico, você ia me encher de perguntar que eu não saberia lhe responder. Então nós dois ficaríamos gastando nossos pensamentos em busca de respostas que não temos para um assunto que nem entendemos. Vamos amanhã mesmo ao médico, não se preocupe por antecipação.

– Obrigada Emi.

– Vamos pra casa, Taka está lá com seus amigos. Você tem sorte, vai jantar a comida do Kai, se eles já não tiverem comido tudo.

– Nós podemos apenas dar uma passada na casa da vovó? – Me perguntou cabisbaixo.

Fazia anos que eu não via e nem queria ver aquela mulher imprestável, mas sabia que isso agora seria irremediável. Não se pode deixar uma pessoa idosa e doente sem cuidados, sem o mínimo de atenção. Ainda assim, seria muito difícil ser gentil com alguém que apenas lhe menosprezou a vida inteira. Suspirei.

– Claro, você tem que pegar umas roupas e nós temos que ter certeza de que sua vó vai passar bem a noite. Amanhã, logo cedo nós voltaremos e a levaremos ao médico. – Disse alisando seus cabelos.

– Obrigada Emi-san. – Ele praticamente voou da cadeira onde estava sentado para me abraçar.

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Takanori

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Então depois de todo o dia confuso e cheio de informações, tudo o que eu queria depois que a minha mãe saiu de casa para encontrar com o Taka era um banho morrno e uma tarde calma até Kouyou e Kai chegarem aqui.

Eu queria e precisava pensar. Continuar negando para mim mesmo que tinha algo estranho quanto ao que eu sentia na presença de Reita seria, como Kai e Uruha tinham dito, burrice.

Por outro lado, eu simplesmente não podia deixar aquilo ir adiante, admitir para mim mesmo que havia algo servia apenas para usar essa clareza de pensamentos para acabar de uma vez com essa palhaçada. Reita podia ser um bom amigo, nada além disso. Por mais que essa ideia forme um aperto no meu peito, esse coração idiota tem que entender o que pode sentir, e o que não pode.

Eu gostava do silencio de Emi. Ele seria estranho se não tivéssemos tanta intimidade, se ela fosse o tipo de mãe que não soubesse se expressar ou que pensasse que há 'coisas' que não são feitas para serem faladas e discutidas com os filhos. Ou se eu fosse o tipo de filho que escondesse as coisas dela. Não era nem e nem outro, tudo o que tínhamos era ao outro, e não nos escondíamos um do outro.

Éramos amigos acima do laço de sangue que nos unia. Claro que ela também tinha aquela mágica que deixava bem claro que caso eu saísse da linha, ela não ia me deixar ficar na boa. Sair da linha, mais uma mágica da Emi, com seu jeito, ela soube me educar bem, eu acho. Quer dizer, não sou do tipo que entra em encrencas e nem dá problema, nunca ofendi e nem botei a prova a educação dela.

E nem nunca iria. Eu nunca, sob hipótese alguma iria decepcionar aquela mulher que largou a vida e os sonhos para poder cuidar de mim e dar a nos o padrão de vida que temos. Nunca.

"Nee Taka, você sabe que eu vou estar sempre aqui quando decidir que quer conversar, não é? É o segundo dia consecutivo que você chegou chorando em casa. Eu fico preocupada." Foi só o que ela disse, e era apenas isso que eu precisava naquele momento. Mas não dei importância, assim que conseguisse organizar as coisas em minha cabeça, conteria as lagrimas e nem teria mais nada a conversar e preocupar Emi.

Foda foi que eu simplesmente não tive tempo de nada. Depois daquele abraço longo e silencioso da minha mãe, que durou até que cada gotinha de lágrima se esvaísse, Emi saiu após se certificar de que eu ainda não estava pronto para lhe falar nada, mas bem o suficiente para ficar sozinho. Antes que eu tivesse tempo de terminar de lavar meu rosto Kai e Uruha já estavam esmurrando a minha porta.

Uke vestindo um agasalho fino do seu time de futebol favorito e Uruha com um micro shorts que na verdade era uma calça velha rasgada e uma regada justinha de banda, ambos cheios de quês e porquês de eu ter sumido. Coisa que eu nem me prestei a responder. Falar sobre isso me faria chegar ao assunto Reita, e eu estava tentando evitar isso por agora.

– Ahh agente tinha combinado que ia ser luta sem esses combos, imbecil. – Acertei-o com um cotovelasso sem parar de apertar as sequências no controle do vídeo game.

– Saiu sem querer Ruki. – Kouyou choramingou, devolvendo a cotovelada.

– Ahh de novo seu veado! – E larguei o controle uma vez que a luta tinha acabado e eu perdido.

– Aí isso é preconceito. – Mostrou a língua rindo da minha cara.

– Não é só porque você é veado que eu vou parar de chamar você de veado, veado. – E avancei pra cima dele.

– Você tem é que aprender a perder Taka-chan. – Se defendendo.

– Não baka, você que tem que aprender a jogar limpo. Roubando assim é fácil ganhar.

– Eu já disse que foi sem querer! – Disse tentando me bater em igual proporção, vulgo, sem forca alguma nos golpes.

– Todas as quatro vezes? – respondi o empurrando.

– Nossa foram tantas? Eu devo ser distraído demais mesmo. – debochou.

– Ahh idiota.

– Idiota é o Taka chibi que não quis retrucar e usar os combos também nee. – Disse na maior cara de pau. – Tá na hora de aprender a fazer eles nee Ruki.

– Você – Apontei para ele. – É um japonês de cabelo descolorido e coxas grosas absolutamente morto Kouyou. – E dessa vez, avancei nele pra matar.

– Hey vocês dois, nunca vão aprender a jogar sem brigar? – Kai interveio entrando na sala.

– Não até que o Uruha aprenda a jogar sem roubar. – Respondi.

– Não até que o Ruki aprenda a jogar. – Respondeu.

– Morto! – Voltei a bater nele.

Ninguém mais se assustava com aquelas cenas, Uruha e eu éramos ótimos amigos, mas nunca conseguimos terminar uma partida de qualquer jogo que fosse sem brigar. Eu já tinha pegado uma almofada grande que tinha ali entre nós para sufocá-lo quando senti a mao grande do Kai espalmada na minha testa, e vi mesmo que de forma distorcida, que fazia a mesma coisa com Uruha. Afastando-nos um do outro.

– Chega! Caralho vocês são piores que crianças birrentas. – O moreninho disse assim que estávamos longe o suficiente um do outro. – Ru tua mãe vai demorar? Eu já queria começar o jantar, to com fome. – mordeu o lábio com a mão cobrindo a barriga.

– Ahh acho que ela vai, ela foi encontrar com o Taka, afilhado dela. Pela forma como ela tava irritada com ele quando saiu daqui não vai voltar até colocar ele na linha de novo. Seja lá o que ele tenha feito. – terminei pensativo, constatando que não fazia ideia do que ele tinha feito pra deixar a mãe assim.

A última vez que eu tinha falado com Miyavi foi no Natal. Minha mãe não tinha conseguido ir ao internato vê-lo por conta do trabalho, e depois disso ele nunca mais tinha entrado no Skype. Achei que ele tinha ficado chateado com isso, afinal, seria o primeiro ano que não conseguimos ir vê-lo no natal, mas com o excesso de coisas que estavam acontecendo comigo, eu nem tava entrando na internet tanto assim.

Mas então outro pensamento invadiu minha mente. Kai estava com fome e já queria jantar?

– Ne Kai-chan, mas jantar assim tão cedo? – Perguntei.

Parecia tão pouco tempo que eles tinham chegado ali e roubado a tarde que eu tinha tirado pra sentir pensa de mim mesmo. O que até foi bom afinal, Kai e Kouyou conseguem manter minha cabeça aérea, desfocada às preocupações.

– Ô Ruki, já são 18h40min, nem é tão cedo assim ne.

– É Kai-chan, eu também já estou ficando com fome. – Completou Kouyou.

18h40min. Isso me deixava com a clara impressão que tinha algo que eu tinha que lembrar. Mas o que seria? Pera aí, pera ai deixa eu recapitular as coisas aqui...

Fiquei ali tentando me lembrar, mas nada vinha. Kai e Uruha já estavam ali comigo, Emi tinha dado todas as instruções, e nós estávamos as seguindo. Puta que pariu, do que eu to esquecendo?

Kouyou falava coisas com Kai, e este concordava com tudo, meneando a cabeça enquanto concordava com o que lhe era dito. Yutaka pegou o telefone na mesinha e Uru foi até a janela olhar a rua, e foi aí que as memórias começaram a se desencadear.

– Oh.. – E com apenas tão pouco Takashima conseguiu toda nossa atenção.

– Emi chegou? – Kai perguntou fazendo menção de desligar o telefone caso o loiro lhe confirmasse.

– Ah? Iie, eu sabia que o Aoi morava ali na outra esquina, mas o que o Reita faz na nossa rua?

Minha boca abriu sem emitir qualquer som, ai meu hide-sama, eu tinha convidado o Reita pra vir jantar conosco. Ai meu hide-sama, e ele veio.

Minha mão voou pro meu peito sem que eu conseguisse conter meus movimentos, olhei para mim mesmo vestindo um par de meias encardidas e o uniforme da escola. Velho, tinha até mancha de coca cola que o Uruha tinha batido no meu braço de propósito.

Nem pensei antes de girar no próprio eixo do corpo com os calcanhares erguidos. Eu não podia receber o cara na minha própria casa assim. Ouvi Uruha dizer mais alguma coisa, ainda olhando pela janela, mas realmente não ouvi. Neste momento já estava pisoteando os degraus da escada com pressa.

Tirei a roupa no caminho mesmo, passei reto quarto adentro, correndo direto para o banheiro. Joguei a roupa no cesto, se acertei amanha eu descubro, liguei o chuveiro pra ir esquentando, passei a mão por um removedor de maquiagem e algodão. E peguei também uma daquelas toucas de plástico ridículas pra por na cabeça, não dava tempo de lavar o cabelo.

Deixei todo meu corpo ser molhado enquanto tirava a maquiagem, terminei essa tarefa deixando o demaquilante em qualquer lugar e enfiei o rosto debaixo da água para lavá-lo. Logo peguei o sabonete e esfreguei por todo o meu corpo, enxaguando cada parte limpa logo em seguida e, pronto, o banho mais rápido da minha vida.

Fiz uma molhaçada no banheiro, mas cuidei pra não cair até alcançar o armário de toalhas. Sequei o rosto e logo o corpo de qualquer jeito, jogando a toalha no chão mesmo. No meio do caminho passei pela base de rosto e despejei a quantidade rotineira na palma da mão, agradeci por meu guarda roupas estar escancarado, pois já me encaminhei a ele esfregando a base no rosto, aproveitando para analisar todas as roupas ali dentro. Cara, como pude me esquecer de ter convidado o Reita.

Tantas roupas, tantas roupas, nada que me agrade. Arranquei a touca de banho que ainda estava na minha cabeça e puxei uma camiseta preta de banda.

Eu tinha que estar bem vestido, mas nada exagerado, afinal era apenas um jantar com meus amigos de escola em minha própria casa. Minhas calças de brim são justas demais, não são do tipo "confortáveis para andar dentro de casa", uma vinil parece que estou indo a uma festa. Caralho, o que eu visto? Bom, uma cueca pra começar já ia ajudar.

Enfiei a primeira cueca que apareceu pela frente, e acabei passando a mão por uma calça de tecido. Ela era confortável e larguinha, mas bem colada nas coxas, o tecido era fofinho por dentro e lisinho por fora, em um preto brilhoso. Tirei a camiseta de banda e joguei dentro do roupeiro, ela era muito larga. Peguei uma outra, essa era vermelha e era bem justinha e de mangas curtas.

Me olhei no espelho... é, eu tava até que bonito de uma forma bem simples. Puts, na pressa me esqueci de tirar todas as correntes, brincos, pulseiras e anéis pra tomar banho, tomara que não estraguem. Tirei todos os excessos, ficando apenas com um dos colares e uma das pulseiras. Tirei também as lentes de contato douradas que estava usando no dia. Não ia passar maquiagem além da base, apenas um pouco de pó quem sabe.

Diante do espelho estava um Takanori completamente diferente daquele que ia pra escola, sem a maquiagem pesada e a aparência carregada. Era apenas eu, com uma roupa simples e confortável, mas de bom gosto, que não deixava de realçar certos pontos do meu corpo que eu gostava. E de certa forma, sentia que era aquilo mesmo que eu queria que Reita visse quando me visse em minha casa, eu como realmente sou.

Faltava só o perfume e dar uma ajeitada no cabelo que a toca amassou quando meu quarto foi, literalmente invadido. Só olhei pra figura que atravessava o portal aberto e passei a mão no frasco de perfume, logo direcionando o biquinho do espirrador nas direções de pontos específicos.

Uruha franziu as sobrancelhas e me olhou dos pés a cabeça umas mil vezes. Então se jogou na minha cama com as pernas pra cima, os pés apoiados na parede.

– Vim ver se você tava bem, saiu correndo da sala. Achei uma meia tua no meio da escada, tudo isso só pra tomar banho? – Perguntou ainda com o olhar analítico.

– É. – Concordei sem olhar para ele. – Er.. é que eu me perdi no tempo, não gosto de deixar pra tomar banho quando já é de noite, você sabe disso.

– Mas precisava correr daquele jeito antes mesmo do Kai conseguir falar com tua mãe no telefone?

– O Kai estava com a minha mãe no telefone? – Quando? Vi ele suspirar e se endireitar na cama até ficar sentado olhando na minha direção.

– Você está em mundo em besta? Emi-san pediu para esperássemos ela chegar em casa pra ficar lidando na cozinha, Kai e eu estávamos com fome já e resolvemos ligar e explicar que o que o Kai quer cozinhar é simples, não vamos se quer usar fogão. E que o Kai vai manter eu e você longe de tudo que possa acabar com um acidente domestico.

– Ahh foi mal, nem percebi. Só queira tomar um banho rapidinho.

– Voando você quer dizer. Tomou banho, se vestiu, se arrumou, ficou todo bonitinho e cheirosinho... por que hem Ruki?

– Como por que imbecil, não toma banho não? – Respondi rindo.

– Ne, mas você geralmente apenas tomaria banho, vestiria a camiseta e o calção largos que usa pra dormir e ia descer de novo com o cabelo revirado e tudo. Mas você se vestiu, se arrumou e até deu uma melhoradinha na cara com uma base. – Bufei com o comentário, ele tinha entrado na minha vida no começo desse ano, mas eu já o conhecia bem demais.

– Quer parar? Aonde você quer chegar com esse papinho cheio de nehenhenhe? – Disparei as palavras contra si.

– Que você só se desesperou e saiu correndo quando eu disse que o Reita estava entrando na casa do Aoi. – Ele disparou contra mim no mesmo tom.

– Você disse que ele estava na nossa rua, não que estava entrando na casa do Shiroyama. – Quer dizer que eu tinha feito toda aquela mágica pra nada? Ele não tava vindo aqui, e sim na casa do puto de boca grossa?

Mas aí a forma como ele se levantou e cruzou os braços, estreitando aquele olhar de mona dele na minha direção foi que eu percebi que tinha feito um gol contra. Viu, era por isso que eu não jogava no time da escola.

– Não começa! – Adverti, apontando o indicador em sua direção. Já prevendo onde aquilo tudo ia acabar.

– Taka eu juro que eu tento, Yutaka e eu somos os seus melhores amigos, eu não entendo porque só você não quer ver o óbvio que está estampado bem na tua cara.

Apenas o ignorei dando-lhe as costas para guardar o perfume que ainda estava em minhas mãos e pegar o pente. Eu só tinha que fingir que não via o Uru pelo reflexo do espelho e me concentrar cem por cento no penteado e pronto, eu tinha certeza que aquela vontade de chorar absurda ia passar sem que eu derramasse uma lágrima se quer. Né?

Ele tinha razão, eram meus melhores amigos, mais que isso eram dois irmãos meus. Era ruim não dividir certas coisas, mas eles jamais entenderiam. Ahh merda, eu não era um chorão, mas tava batendo meu recorde essa semana, que saco.

Parei o que estava fazendo e suspirei pesado, e fechei os olhos. Sabe, agora é pessoal, eu contra mim mesmo, eu não vou chorar e ponto final.

– Ruki... – Ah merda, quem mandou o Uruha levantar, colocar a mão no meu ombro e falar desse jeito?

– Não! – O cortei antes que falasse qualquer coisa. Qual é a dificuldade deles entenderem que eu não quero falar sobre esse assunto, hide-sama.

– Não o que panaca? – Perguntou sem se afastar.

– Não use esse tom de pena comigo e não diga o que iria dizer. – Respondi sem abrir os olhos, mas o fiz no momento seguinte quando senti seus dedos no meu queixo, me forçando a olhar diretamente para ele.

– Você não é burro Takanori, então para de agir como um, por favor. Você só vai sofrer, e vai sofrer cada vez mais se continuar agindo assim. Eu sei o que tu tá sentindo Taka, no começo eu também tentei negar meus sentimentos, mas...

– Cala a boca Takashima! – Me soltei dele o empurrando com força – Tu não sabe o que eu to sentindo – E aí danou-se, eu já nem via mais direito, Uru era só um vulto, é eu to chorando – Ninguém sabe o que eu sinto. Eu não posso sentir isso, não posso, eu não vou fazer nada que decepcione… eu não vou, ela sacrificou tudo o que tinha e o que era pra me dar isso aqui tudo e a única coisa que eu não vou me permitir fazer é decepcionar...

E naquela altura das coisas eu já nem pensava mais direito, nem chorar mais eu chorava. De alguma nós tínhamos caído no chão, eu estava sentado em cima dele e minhas mãos fechadas em punho se chocavam contra seus ombros alternadamente.

Eu via em sua expressão de que Uruha não estava entendendo uma palavra se quer que eu estava dizendo. Talvez eu estivesse apenas gritando demais e de uma forma muito rápida, tenho certeza de que não conseguia controlar minha respiração, pois meu peito dói, devo ter cortado metade das palavras.

Mas mesmo sem entender uma palavra sequer daquilo tudo, o simples fato de eu estar colocando aquilo tudo pra fora fez com o loiro apenas se deixasse ser atingido enquanto eu gritava. De certa forma, gritar aquilo tudo estava me fazendo um bem danado.

Ninguém sabe o que é ser absolutamente sozinho no mundo. Emi era, ela não tinha família, tinha dois únicos amigos Joe que passava todo o tempo se dedicando a loja, e a mãe do Taka, que morava na Coreia. Ela era bem sucedida no trabalho, mas as pessoas mais antigas da vila, que a conheciam e sabiam de sua história apenas a recriminavam. A única pessoa que ela realmente amou e que a completava morreu antes de eu nascer.

Ela não teria nada que a prendesse nessa cidade que lhe entope a memória de coisas ruins, não teria nada que a impedisse de correr o mundo em busca de seus sonhos. Se não fosse eu.

Ela abriu mão de tudo para ter um bom emprego, uma boa profissão, nos manter em uma grande e linda casa, com todos os confortos que uma criança mimada pode querer ter, me deixar nas melhores escolas, fazer os melhores cursos e ter tudo o que bem quisesse ter. Há dezesseis anos ela abre mão do próprio conforto e das próprias vontades para que eu tenha do melhor.

Decepcionar essa mulher era a única coisa que eu não podia fazer.

Eu sonhava em aumentar a família dela, ampliar sua felicidade. Vê-la um dia quem sabe com uma pequena criatura nos braços, um neto ou dois, ou cinco. Eu sonhava em ver a minha mãe na forma que ela era quando eu era novo demais para lembrar, boba, fazendo caretas para arrancar sorrisos de uma pequena criança.

Eu sabia que no fundo ela queria isso, toda mãe quer, certo? Então eu tinha que dar isso a ela, eu tinha que retribuir tudo o que ela sempre fez por mim. Eu tinha que lhe mostrar em todos os aspectos o quando eu dava valor à sua pessoa.

Tudo bem, não ter interesse em nenhuma garota da escola, elas eram todas fúteis mesmo. Um dia eu encontraria alguma decente. Mas o que eu não podia era sentir essas coisas todas tão estranhas por um cara. Difícil era mandar no coração que insistia em doer, apertado, toda vez que uma voz que só existia em minha consciência me dizia que aquilo tudo que eu sentia.

Não importa o que eu sento. Eu não podia estar apaixonado por Reita.

– Eu não acredito que vocês estão brigando de novo! Se não fossem tão amigos, eu diria que são inimigos mortais. – A voz do Kai cortou meus gritos.

– Brigando? Eu achei que nós tínhamos interrompido as preliminares. – Outra voz soou em tom de deboche, e, eu conhecia aquela voz. E como odiava aquela voz.

– Aoi! – Uma terceira voz falou reprimindo o moreno beiçudo.

– Reita? – Parei de fazer o que fazia e me virei na direção da porta.

– Ruki? – Ouvi Uruha me chamar em um tom que questiona.

– Kai? – Chamei o moreninho afim de entender o que se passava ali.

– Reita? – Kai chamou, acho que querendo que o próprio explicasse porque estava ali.

– Ruki? – Esse me chamou, claro, eu tinha o convidado e putz, ele trouxe o Aoi

Ai meu hide ele trouxe o Aoi e eu me esqueci de avisar o Uruha. Mas também, eu não tinha convidado o beiçudo, tinha convidado só o Akira.

– Uru... – Choraminguei antes de começar a me explicar, mas fui interrompido.

– AOI – E todos olhamos para o moreno que se acha, que estava com os dois braços erguidos e rindo da nossa cara depois de ele mesmo chamar seu nome.

– Tinha que ser o engraçadinho – Disse sem humor algum. – Esqueci de avisar minna, eu convidei o Reita pra jantar com agente. Mas eu convidei o Reita, não o beiço descompensado ambulante ali. – Disse por fim saindo de cima do Kouyou.

– RUKI! – Uruha e Kai gritaram juntos para chamar minha atenção. O que? Não gosto desse moreno mesmo e não tem como mudar.

– Er.. desculpa eu que pedi pra ele vir comigo... – Reita disse e coçou a nuca, num sinal claro de nervosismo. Às vezes eu tenho a impressão que ele cora debaixo daquela faixinha. Enfim...

– Fica tranquilo Reita, o Yuu é muito bem vindo. O Ruki é que às vezes perde a oportunidade de ficar quietinho.

Eu? Que? Po Kai estamos na minha casa, e depois que o moreninho falou senti a mão do Uru voando na minha cabeça.

Me olhei no espelho, nem parecia que eu tinha chorado. Se o Uruha se esqueceu de toda a ceninha antes da entrada dinâmica dos outros três, eu não sei, mas o clima voltou a ficar leve. E eu agradeci por isso.