Capítulo sete: Random

Por Kami-chan

Sabe aquela sensação comum nos filmes de terror, de uma casa grande e branca, com algumas madeiras meio podres e toda aquela aura nublosa m torno de si? Tudo isso em uma noite fria e cheia de serração. É, eu tava de frente para ela.

Mesmo sabendo que a noite não estava fria, não havia serração e os fantasmas dali existissem apenas na minha cabeça, mesmo assim, eu tinha muito receio em descer do carro. Eu sabia que a mobília estaria do mesmo jeito que eu me lembrava, pessoas velhas não apreciam mudanças.

– Emi-san? – Ouvi a voz doce do adolescente me chamando com receio – Tem certeza de que quer mesmo entrar? Vovó está muito diferente, está pior, ela com certeza vai...

– Relaxa Taka, eu conheço a Mitori-san há bem mais tempo que você imagina. – O cortei, ele de fato não fazia ideia das coisas que eu e a mãe dele já passamos dentro daquela casa, e nem saberia.

Não, eu não queria descer e entrar naquele lugar, não queria ter que encarar aquela velha. Querendo ou não, ali eu sempre me sentiria a adolescente contrariada. Mas simplesmente não tinha escolha.

– Ne Taka-chan...

– Miyavi. – Me cortou contrariado. – Emi-san se acostume ne – E eu só pude rir.

– Ok Miyavi – Concordei, havia um bom motivo para eu me lembrar que não era eu a adolescente dessa vez, um bom motivo para eu não sentir receio. – Você entra e vai logo arrumar suas coisas enquanto eu converso um pouco com sua avó, pode ser?

– Mas Emi...

– Por favor. – Pedi, deixando claro que aquilo era uma ordem e devia ser cumprida.

– Ta bom. – Concordou com um bico.

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Eu sabia o caminho, conhecia aquela casa como se fosse minha. Em cada corredor dobrado apenas lembranças sombrias, eu tinha tanta saudade da minha amiga. A porta de correr estava aberta, e Mitori estava deitada na baixa cama.

Os olhos desfocados pareciam encarar o nada e tudo ao mesmo tempo. Ela se quer me notou ali. Uma onda de frio passou por mim e por apenas um minuto pensei em meu pai. Eles tinham apenas um pouco menos de idade que a avó de Miyavi.

Eu nunca tinha ido o procurar depois do dia em que saí de casa. E nem nunca iria.

Uma vez ou duas tinha lido o nome de minha madrasta em colunas sociais, mas fingi que não conhecia. Mas ver a mãe de Ishihara Hiroki me fez pensar se algum dia as coisas poderiam ter sido diferentes.

Mas que besteira a minha, eu sabia que nunca seriam!

– Mitori-san – Chamei com a mão mexendo seu ombro, não quis acender a luz, não precisava exigir demais daquela velha.

– Saia da minha casa! – Ela disse ao me reconhecer.

Um fiapo de voz esganiçado, apenas isso tinha sobrado da oriental de voz altiva. Triste, muito triste.

– Saio depois de conversarmos sobre o seu câncer. – E a velha franziu a testa com a menção da doença, então resolvi continuar, quanto menos eu a ouvisse, mais tempo minha paciência duraria. – Takamasa foi me pedir ajuda, vou ligar para sua filha e ela virá, mas enquanto isso iremos amanhã cedo a um especialista, o tratamento...

– Eu não quero a sua ajuda! Eu não pedi por ajuda! Eu quero que você saia da minha casa, Akuyuu. Você é um demônio que apareceu na vida da minha filha e a desgraçou, você é uma desgraça na vida de todo mundo que te cerca. Você é uma desgraça Emi Cristina Vontrükel.

Arranhava-me os ouvidos ser chamada por meu nome de batismo, fazia tanto tempo que Matsumoto Emi havia matado Emi Cristina Vontrükel que parecia que Mitori estava falando de outra pessoa. Suspirei.

– Você se dá valor demais Mitori, eu não sou mais a adolescente que tem que ouvir tudo quietinha. Não estou aqui para lhe oferecer ajuda, eu estou aqui porque o meu afilhado me pediu, e porque você o deixou sem dinheiro e sem estudos. Estaremos indo amanhã a um especialista porque estou levando Takamasa daqui comigo e você não tem condições de ficar aqui sozinha. Quero saber que tipo de tratamento você está fazendo, onde estão seus remédios?

– Leva, leva o bastardinho daqui, ele enche o saco! E sai logo daqui, para de poluir o ambiente da minha casa, leve Takamasa pro seu covil do inferno. – E apesar de sua voz estar tão fraca, aquilo soou quase como um grito.

Como se não fosse o dinheiro e os esforços dele que tivesse a mantendo viva.

Eu só rezei para que o menor não estivesse escutando. Me abaixei ao lado da cama e peguei as várias caixas de remédios que ela tinha ali, logo lendo sua composição. Não havia neoplásticos ali, apenas fortes remédios para dor e antidepressivos. Em cada caixinha tinha a hora certa para cada remédio ser tomado, e bem na hora em que acabei de ler, ignorando os resmungos de Mitori, ouvi a campainha tocar.

Dei uma última olhada para a velha senhora, era triste de verdade a sua situação, e saí do aposento fechando a porta de correr, levando seus medicamentos para a sala junto comigo. Vi Miyavi descendo as escadas com duas grandes mochilas nesse mesmo momento.

– Você pode ir levando suas mochilas pro carro enquanto eu recebo a enfermeira que eu chamei pra passar a noite aqui?

– Ne são só essas duas. – Ele disse, eu sabia que todo menino era curioso, ele queria era ouvir o que falaria com a enfermeira, fala sério.

– Que bom, mesmo assim, eu não tenho nem travesseiros e nem cobertores sobrando, você vai ter que levar os seus. Busque-os para podermos ir logo. – Finalizei, enquanto eu fosse a mãe esperta de um adolescente como Takanori, ele não ia conseguir me enrolar não.

Vi ele largar suas mochilas no meio da escada e voltar emburrado para seu quarto. Eu aproveitei para abrir a porta e receber a menina que eu tinha chamado.

– Boa noite Sabrina. – Disse ao ver a menina de baixa estatura e sorriso doce aparecer do outro lado da porta recém aberta.

– Boa Noite Emi, está tudo bem? Você me chamou com tanta pressa.

– Oh me desculpe ter ligado tão em cima da hora, eu realmente não sabia que iria precisar. Mas é só por essa noite, amanha cedo eu já passo aqui para levá-la ao especialista.

– Sem problemas, você teve sorte por não ser noite de plantão. – E ali estava uma coisa sobre se viver em um mundo cheio de pessoas que eu realmente odiava, a formalidade.

Aquela menina seria educada comigo mesmo que eu tivesse a tirado do meio de um jantar romântico para que ela estivesse ali para mim. E eu lhe seria igualmente educada, sorrindo de forma falsa. Isso se parecia tanto com a menina que a Matsumoto matou, ah como eu a odeio Emi Cristina.

– Veja bem Sabrina – Olhei para a escada para ter certeza de que Takamasa não estava ali escutando. – O nome dela é Mitori Ishihara, é japonesa, mas fala o nosso idioma fluentemente, entretanto, duvido muito que ela troque uma palavra com você Ela tem um câncer agressivo no intestino e metástases no cérebro. Peço para que tenha paciência, você sabe como são as reações pelas dores que isso causa, ela pode perder a lucidez, ficar um pouco mal educada, gritar coisas que normalmente não diria – mentiras e mais mentira – mas é tudo por conta da doença, Mitori é realmente uma boa senhora, por isso cuide muito bem dela pra mim, OK. Esses aqui são os remédios dela, os horários estão nas caixas, ela precisa de um banho também. Eu volto amanha as oito para levá-la ao oncologista.

– Pode ficar tranquila dona Emi, eu vou cuidar muito bem da sua avó. – Sorri de forma forçada.

Dona Emi? Minha vó? Eu vou matar essa garota.

– Muito obrigada.

Dei às costas a ela e subi meia escada, onde estavam as mochilas de Miyavi. Dali dei um grito baixo para apressar o adolescente, que apareceu não apenas com travesseiro e coberta, mas também com mais uma mala. E fomos embora, eu já tinha feito tudo o que podia pela mãe da Hiroki.

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– Hey Kai, você perguntou antes se todo mundo gostava de atum? – Perguntei olhando aquela pasta fedorenta, que era cremosa, mas não me apetecia.

– Você perguntou se queríamos mais convidados? – Uruha se meteu brabo.

Era claro que ele não estava nem um pouco infeliz com a presença de Reita e Aoi ali. A briga na cozinha, enquanto os outros dois estavam na sala jogando vídeo game, era pelo fato de eu não ter avisado, e Kouyou se sentir vestido de maneira inadequada para receber Aoi. Vê se eu mereço!

– É serio, se vão brigar, saiam da cozinha. Eu prometi a Emi que a casa ainda estaria inteira quando ela voltasse. – Kai interveio.

– Não vou brigar. – Disse apenas.

– Claro, porque você 'tá todo arrumadinho né jaguara. – Essas alfinetas do Uru já estão me deixando com a bunda furada.

– Mas que criaturinha irritante que tu é mesmo, viu. Quer saber, combina mesmo com o Aoi – disse me levantando da banqueta onde estava sentando, vendo Kai trabalhar. Eu ia pra sala.

– O que combina comigo? – OK! Tinha um moreno invadindo a cozinha, e se sentando no moxinho que eu tinha acabado de desocupar, da forma mais folgada possível.

Eu hem, Aoi acha que ta na casa da sogra. Ô filho errou o endereço, ela mora na casa da frente.

– Nada não – Disse a loira kouxuda, tão vermelho quanto poderia ficar. Eu precisava mesmo sair dali.

– Ne Kai, eu vim te ajudar. Posso fazer uma salada? – Perguntou o moreno empolgado e sim, depois dessa eu saí de vez da cozinha. Era demais pra mim.

Fui pra sala e encontrei Reita coçando a nuca de forma distraída enquanto olhava os jogos pro x-box. Me joguei no sofá em silencio, apenas observando quanto tempo ele levaria para se decidir por algo.

– Vamos desse aqui? – Perguntou com o encarte em uma mão, se virando para mim com uma linda cara de espanto. – Err.. eu achei que fosse o Aoi – Riu – Você tem jogos bons aqui, quer jogar o que?

Sorri, concordando com ele com um aceno com a cabeça. A maioria daqueles jogos nem eram meus, mas do Uruha. A mãe dele não o deixava ter um, porque era da opinião de que jogos deixavam os adolescentes agressivos. – pausa para pensar em nós dois jogando – Er... o importante é que a minha mãe, como a maioria das pessoas normais, não neuroticava com essas coisas.

E claro, ele tinha que escolher aquele jogo de merda que eu não sabia jogar direito. Sabe, eu nem gosto tanto assim de jogos de luta.

Pausa para a minha questão de múltiplas escolhas:

Alternativa A: Fingir que eu adoro esse jogo para não contrariá-lo e passar vergonha por não saber jogar meu próprio jogo.

Alternativa B: Ficar quieto e jogar, fingindo que o motivo por eu perder todas é que ele é muito bom e não eu muito ruim.

Alternativa C: Minto dizendo que já joguei esse jogo tanto que já enjoei, e corro o risco de deixá-lo constrangido, ou desconfortável.

Alternativa D: Digo que aquele jogo é horrível, comprei, mas não gostei de jogar. Alternativa E: Posso mentir que o cd não ta abrindo direito, mas depois o Uruha pode vir aqui e abrir tudo numa boa e me deixar com cara de tacho.

É. Agora a pausa pra cara dele me encarando, esperando uma resposta com aqueles olhos pequenos quase se rasgando de tão abertos que estavam. Grandes e redondos. Brilhantes e pidões com a caixinha do jogo nas mãos. Man, ele queria mesmo jogar aquela porcaria.

– OK, só não vai rir da minha cara quando eu perder todas, vou te avisar antes que o expert desse jogo é o Uruha. Eu não tive oportunidade de pegar as manhas das sequencias ainda.

– Nem eu. – Ele sorriu – Eu tinha ele no play 1 e 2, mas ainda não lançaram pro 3, e eu nunca joguei ele no x-box. A gente podia revezar no history né, daí ia pegando a manha juntos.

E algo realmente muito estranho caiu nos meus olhos neste momento, porque tudo ali assumiu, de repente um tom mais brilhante. Igual a outra coisa inexplicável que se apossou dos meus lábios, e estava me fazendo sorrir de um jeito estranho enquanto ele se jogava ao meu lado no sofá. Algo muito incontrolável, como a forma como me encolhi entre meus ombros, ao sentir que, de repente, aquela sala estava quente demais, e mais estranho ainda, todo o calor era sentido apenas pelas minhas bochechas e orelhas.

É, havia algo realmente muito bobo ali. Mas provavelmente, esse algo era apenas eu.

– Toma, escolhe o personagem. – Disse lhe estendendo o controle.

– Nada, começa com você.

Dei de ombros e comecei com um personagem famoso, na verdade, o único que eu sabia um único golpe. O jogo nem era tão difícil assim, mas continuava sendo chato. Porém isso pouco contava, pois como sempre, conversar com Reita era uma coisa muito fácil.

E eu estaria mentindo se dissesse que não estava adorando estar ali com ele. Seria ingenuidade demais tentar negar que a presença dele me agradava muito mais do que qualquer outra, bem como sua falta doeria muito além.

Num clima leve e descontraído, eu sei que apenas me deixei levar, mas... que mal há? Eu não jogava tão mal quanto imaginava, e ele estava à altura do Uruha. Suas risadas eram muito mais gostosas do que seu belo sorriso, os toques sutis camuflados por brincadeiras. E o sorriso besta que tinha simplesmente congelado em meu rosto. Ah droga, eu estou tão fodido.

– TA NA MESA! – Ddei um pulo no sofá. Quando foi que eu deixei de prestar atenção no resto da casa?

Kai tinha acabado de colocar a travessa fumegante no centro da mesa de jantar, que estava milimetricamente perfeita. Ou apenas do jeitinho da Kai, se você preferir. Sentamo-nos todos em volta daquela maravilha dos deuses, Kai na ponta da mesa, se preocupando em cortar pedaços da lasanha que ele mesmo tinha feito, eu logo ao seu lado, ocupando com Uruha ao meu lado uma das laterais da mesa, e ficando de frente para Reita. Sendo que ao lado deste, e de frente para Uruha, estava Aoi.

– Poxa Kai, isso está cheiroso mesmo! – Disse Reita babando pelo queijo derretido que se esticava todo enquanto Kai tentava servir o prato do mesmo.

– A comida do Kai é excepcional, mas essa lasanha é o ponto forte dele. Nem parece que foi feita em micro-ondas. – Completou Uruha, vendo nosso amigo fazer os mesmo movimentos que tinha acabado de fazer com o prato de Reita, com o de Aoi.

– Minha mãe faz tudo no micro-ondas – Disse Aoi pegando seu prato de volta das mãos de Kai – Eu nem sei mais a diferença das coisas feitas em forno normal. – Acabamos por rir do comentário do moreno, isso enquanto Kai pegava o meu prato dessa vez.

– Cara, tem MUITO queijo aqui. – Disse rendido, aquilo era cheiroso e apetitoso demais.

– E MUITO requeijão. – Disse o moreninho sorrindo, mostrando à mesa suas covinhas tão fofas. – Eu adoro requeijão. – Completou devolvendo o prato de Uruha e se preparando para servir a si mesmo.

– E está realmente tão gostoso quanto aparenta Kai-chan. – Disse Aoi com um sorriso que me fez olhar diretamente para Uruha e seu olhar zangado.

– Obrigada Aoi-chan. – Kai respondeu de forma educada, nada além disso.

Kouyou deixou cair os talheres ao perceber a forma como o moreno beiçudo não parou de olhar para Kai. Sinto problemas, espero que Kouyou não fique brabo com Kai, afinal o sem noção da mesa era o Aoi. Olhei para Kai no mesmo momento e o vi lançar um olhar cheio de cólera para mim e Uruha assim que Aoi voltou a dar atenção ao seu prato.

Mas é claro que quando Kou-chan deixou cair os talheres todos olharam para ele, dei-lhe um cutucão discreto na perna com meu pé e o vi suspirar. O loiro abriu um sorriso sapeca e pegou o Ketchup no meio da mesa, logo despejou o mesmo em quase todo o seu prato mordendo o lábio inferior, com um ar muito sapeca. Realmente um ótimo ator, me pareceu convincente que ele teria largado os talheres de propósito para alcançar aquele frasco.

– Bem melhor! – Exclamou Uruha olhando de forma satisfeita para a cobertura de ketchup em sua lasanha.

– Se não fosse você, eu ia me sentir ofendido U-chan. – Kai disse indignado, olhando para todo aquele mar vermelho manchando o amarelado cremoso.

– Pra quem não sabe, esse aí vive de ketchup e nada além. – Complementei, tentando dar uma explicação básica para os outros dois.

– Parem de falar de mim! – Emburrou a mona. – Fala sério, nós cinco aqui juntos na mesma mesa, tem coisa mais interessante pra se fazer do que ficar falando da comida dos outros nee. – E logo o clima estranho nem existia mais, como se nunca tivesse existido.

– Tipo? – Respondi meio que sem pensar, feliz que estávamos interagindo todos mais uma vez.

Pois bem, grave esse momento magnífico, onde eu, Matsumoto maravilha Takanori fiz a grande pergunta da noite.

– Ora, você e Kai se conhecem desde de sempre, mas eu me mudei pra cá no começo do ano, você e Reita começaram uma amizade agora e Reita-san trouxe Aoi junto para o grupo. Com certeza tem muitas coisas sobre cada um aqui que os outros não sabem.

Certo tudo isso para que ele especulasse a vida do Aoi, ah, pensa que me engana princesa? Ia protestar quando o próprio Uruha me devolveu aquele cutucão com a perna. Ganhei de brinde ainda um olhar que me dizia claramente para não contestar. E eu não pude enxergar naquele momento que estava errado, ele não estava afim só de conseguir mais informações de Aoi.

Eu pensei que Uruha pouco tinha entendido daquele meu desabafo anterior em meu quarto, mas o principal ele tinha entendido direitinho. E o seu foco principal naquela mesa, era acima de tudo eu. Ou Reita, não interessa qual dos dois desde que esteja ambos na mesma frase.