Capítulo oito: Alguém especial

Por Kami-chan

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Ruki

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– Meu Deus vocês parecem crianças comendo deste jeito. – Não me aguentei em comentar, precisava contra argumentar o excesso de piadinhas direcionadas a minha pessoa.

– Pronto, a mamãe chegou! – Brincou Kai.

– Ruki? Não Kai, nossa mãe é você! – Uruha entrou no clima da brincadeira.

– Ha. Ha. Ha. – Foi a resposta irônica do covinhas.

– É Kai, não venha passar suas responsabilidades de mãe para mim. – Era divertido quando eu não era o centro da chacota, tanto que eu até conseguia entendê-los.

– É mesmo, já pensou o Ruki cozinhando no seu lugar Kai? – Brincou Aoi.

– Comida do Ruki? – Uruha perguntou de forma realmente assustada, causando uma onda de risos em todos na mesa, incluindo a mim.

Esse é o tipo de brincadeira no qual eu não importava de ver meu nome no meio. Primeiro porque me imaginar cozinhando era algo realmente cômico, e segundo porque era algo leve e descontraído.

Não era como as brincadeiras idiotas deles de ficar fazendo comentários ou dando indiretas envolvendo algo entre Reita e eu. Na verdade, nem quando eles faziam chacota com o fato de eu ser o único que sequer tinha beijado outra pessoa ali dentro dos nossos dezesseis anos de vida eu me sentia irritado, claro, havia a resposta à altura sobre qualquer comentário, mas apenas quando Reita era envolvido a brincadeira me irritava de verdade. Estranho.

– Aoi tem razão! Ruki pare de tentar roubar o meu lugar no grupo! – Disse Kai com o dedo indicador apontado para mim, realmente como se estivesse passando um sermão.

– Ei cabeça de vento, foi você quem começou com isso. – Disse rindo. – Aliás, como você convenceu minha mãe a deixar você cozinhar sozinho comigo e o Uru-pon por aqui?

– Primeiro eu tive que provar para ela que a lasanha era feita no micro-ondas, ela nunca deixaria você e o Uruha chegar perto demais de algo que exploda. Depois tive que assumir a responsabilidade de que não deixaria vocês dois entrarem na cozinha de jeito nenhum! – Disse de forma simples.

– Simples assim? – Disse Reita com humor, nos fazendo rir novamente.

– Hey Reita, esta não foi uma missão simples! – Respondeu como se estivesse muito cansado, causando uma nova onda de risos.

Era disso que eu gostava. Todos juntos rindo de coisas bobas e sem sentido.

– Sabe, essa de vocês sempre encontrarem um meio de tirar uma com a minha cara cansa, sabe! Realmente parecem crianças. – Fiz birra, apenas para retomar o comentário que tinha dado origem a toda a discussão.

– Ih o Ruki emburrou! – Disse Uruha apontando para mim.

– Ahh se o Ruki acha que somos crianças, devíamos agir realmente como crianças. – Disse Aoi.

– Kai devia ter feito rostinhos felizes de cheddar na lasanha. Eu fiz os meus com ketchup. – Disse Uruha indicando o próprio prato.

– Aí seríamos crianças de oito anos, talvez devêssemos regredir somente até os treze e jogar verdade ou consequência novamente. – Kai disse rindo, e ninguém além de mim na mesa entendeu, mas ele sabia que nada tirava mais o meu humor do que aquela brincadeira sem sentido.

– O que? Vocês não jogam isso desde os treze? Eu adoro este jogo! – Disse Aoi tão empolgado que seu sorriso mostrou quase todos os dentes em sua boca; tinha que ser o idiota mesmo.

– É! Mais uma prova dinâmica da sua maturidade Yuu! – Não pude me conter, simplesmente não posso perder uma chance de alfinetá-lo,

Como meu tom foi ácido e irônico igualzinho ao meu humor costumeiro, todo mundo entendeu minha fala como brincadeira e riu. Mas ele entendeu, e eu me fodi. Eu pensava que apenas o Kai sabia do meu ódio por aquele jogo idiota, mas foi só Aoi abrir a boca para responder ao meu comentário que eu lembrei que eu e ele também nos conhecemos desde sempre.

– Ah Reita é uma pena você ainda não ter entrado na escola quando tínhamos treze e quatorze anos, cara, o Ruki "adorava" este jogo, as rodas com ele eram sempre as mais divertidas. – Despejou em resposta.

– Na? O Ruki alguma vez na vida gostou de algo que o deixasse exposto na frente de outras pessoas? – Perguntou Uruha empolgado, lento do jeito que é asseguro que ele não percebeu a ironia na fala do beiçudo. – Vamos jogar, vamos jogar! – Disse com toda empolgação pulando sentado na cadeira.

– Claro! Eu e o Reita estamos dentro. – Disse Aoi tão empolgado quanto.

Fala serio, Reita não tem vontade própria não? "Eu e Reita estamos dentro"

Se foder Aoi você se quer foi convidado pra vir e fica aí de mimimi. Ahh como eu queria poder levantar da mesa e dizer isso em voz alta, bem alta, muito alta.

Foda-se Aoi e seu ego do tamanho do Brasil. É. Eu queria poder disser isso rosnando, mas o Kou ia me estripar antes de eu terminar.

Amigos. Quem mais fode com a sua vida de um jeito tão notável?

– Senta a bunda magra nessa cadeira o loira burra. Francamente Kouyou, tanto descolorante tá te deixando cada dia mais lerdo. – Cuspi toda a minha indignação em Uruha,

Quer tomar as dores do Aoi? Então vai ter que engolir a minha fúria. Foda foi que ele olhou de volta pra mim sem entender porra nenhuma.

– Kouyou, Ruki simplesmente odeia este jogo. – Kai esclareceu as coisas para o mais alto.

– Ah como eu me lembro daquele ano, todas as festinhas de aniversário tinham um momento para este jogo. Foi com ele que eu dei o meu primeiro beijo. – Disse Aoi.

– Pobre da garota. – Reclamei apenas por hábito.

Após perceber que o Uru só estava se sentindo empolgado em fazer algo que "todos" achavam legal, eu me acalmei um pouco.

– Eu acho que todo mundo saiu beijando que nem louco com esse jogo! As meninas sempre nos arrastavam pra jogar isso, mas as consequências eram sempre beijos. – Disse Reita.

Eu não gostei de ouvir aquilo, mais uma vez ele me pareceu alguém sem opinião própria, igual a quando Aoi decide pelos dois as coisas. Quer dizer, o que você realmente quer fazer? "Todo mundo saiu beijando como louco".

Nem todo mundo. Na minha opinião, se você não quer fazer algo não é um jogo idiota que vai te obrigar fazer, ainda mais beijar alguém. Não gostava desta ideia, beijar alguém apenas por que você e esta pessoa foram apontados pelo mesmo objeto. Você tem que ter um motivo muito bom para querer beijar alguém, mas meus pensamento foram roubados quando Kai chamou meu nome.

– Ruki você lembra quando Rebeca Rose obrigou você a jogar porque era aniversario dela e tudo o que ela mais queria era um beijo seu? – Ele perguntou e eu senti vontade de revirar os olhos, interrompeu meus pensamentos por isso?

– Kai não faça isso, não conte esta história... – Praticamente implorei, mas quem disse que adianta.

Amigos...

– No fim o Ruki ficou com pena da cara de choro da menina. Só ele não tinha percebido que o jogo não ia terminar até que ela conseguisse cair em uma consequência com Ruki.

– Hey hô hô pera aí, para tudo por um minuto! O Ruki já beijou alguém? – Perguntou Uruha sem acreditar no que ouvia, cara ele é mesmo muito ingênuo.

– Espera o Kai terminar de contar a história, eu estava nesta festa também. Foi hilário! – Disse Aoi tendo uma crise de risos como que se estivesse revivendo aquela noite.

– A gente ficou bem umas quatro horas jogando aquilo e o Ruki estava muito mais interessado em fazer carinho no gato da menina do que em qualquer outra coisa ou pessoa daquela festa. Quando a Rebeca finalmente conseguiu o que queria, a melhor amiga dela ia desafiar o Ruki, mas ele estava tão concentrado no gato ronronando no colo dele que só respondeu um "ahan" quando a Julia perguntou se podia ser um desafio.

Naquele momento todos os meninos pararam para rir da imitação de Kai sobre uma de nossas colegas. Era estranho, conhecíamos aquelas pessoas, mas ao mesmo tempo, era como se não as conhecêssemos. De fato, era engraçado ver o Kai fazer voz fina em qualquer situação.

– O Ruki só acordou de verdade quando ela disse "desafio você a beijar Rebeca Rose". Foi a melhor cena da minha vida, a garota estava lá toda vermelha se ajeitando pra ficar ajoelhada e poder se inclinar da direção do Ruki e a cara dele sem saber se empurrava a garota ou se corria. Na verdade, eu acho que ele queria fazer os dois. – Disse Aoi tendo uma crise de risos.

– Ele ficou catatônico! Só acordou quando a menina já estava até encostando a ponta do nariz no dele. – Kai parou para rir e logo retomou o assunto. – Ele levou um susto que jogou o gato pra cima de um jeito que o bicho se assustou e arranhou toda a menina. A Rebeca começou a gritar e o Ruki saiu correndo mais rápido que o gato.

– Foi a única vez que eu joguei esta porcaria. – Disse emburrado e todos explodiram de rir.

– Também é por isso que você nunca beijou ninguém Ru-san. – Kai brincou.

– E vamos combinar, a Rebeca Rose ainda é a menina mais bonita da nossa escola. E decente, o que é raro. Ela é uma das poucas meninas que não fica se jogando pra cima de tudo quanto é cara. – Disse Aoi com pesar.

– Isso quer dizer que você nunca ficou com ela? Eu não sabia que ainda havia meninas naquele lugar que ainda não tivessem passado por você. – Disse Reita tirando com a cara do amigo.

– Você é que não acredita na minha inocência, eu já disse que meu único problema é não saber dizer não. Eu não faço com aquelas meninas nada além do que elas querem.

– Ruki deu um fora na menina mais linda e decente da escola, parabéns. – Gozou Kai.

– E ela ainda é apaixonada pelo ele. Lembra Ruki quando eu disse que tinha colegas minhas que gostavam de você, na verdade estava falando dela. –Disse Reita, fazendo Aoi olhar para ele com um ar de reprovação que eu não entendi.

– Uma menina bonita e decente ao mesmo tempo. Isso ainda existe? – Questionou Uruha.

– Existe. O Ruki deu um fora no último exemplar. – Aoi riu.

– Bem o tipo do Ruki mesmo. – Disse Uruha.

– Não culpem a menina, o Ruki da fora em todo mundo mesmo. Ninguém no mundo é bom o bastante para ele. – Disse Kai.

– Isso não é verdade! O que vocês não entendem é que não gostava verdadeiramente de nenhuma dessas pessoas. – Disse olhando para Uruha. – E não sou o tipo de pessoa que fica com qualquer pessoa simplesmente para ficar com alguém. – Disse olhando para Kai e finalmente me voltei para Aoi. – E podem tirar com a minha cara o quanto quiserem, mas não vou sair pegando qualquer pessoa por aí só pra não ser o único que não beijou ninguém. – Dei de ombros. – Por mais idiota que pareça para o resto do mundo, eu acho que estou esperando a pessoa e o momento certo. Alguém especial. Ninguém vai me convencer a mudar isso. – Disse com convicção.

– Own esse é o nosso Ruki. – Disse Uruha me abraçando. – Um pedaço de mau humor ambulante, mestre em piadas sádicas, mas com o coração mais lindo do mundo.

– Uruha para de tomar hormônios femininos, você está ficando mais fresco a cada dia. – Rebati.

– Correção. – Disse Kai com o dedo indicador apontado para cima. – ESTE é o nosso Ruki, doce em um momento e azedo dois segundos depois. – E todos riram.

– Tá, mas a gente não ia jogar aquele jogo? – Questionou Aoi.

– NÃO! – Disse eu.

– SIM! – Disseram todos os outros em coro.

– Vão se foder todos vocês!

– Claro! – Disse Aoi sem lhe dar atenção. – O cabo pergunta e a ponta responde. – Disse indicando uma faca sobre a mesa.

– Isso não tem propósito! – Prossegui, vai que eu mato eles de cansaço.

– Não Ruki, isso tem todo um propósito. – Disse Uruha, ele acha que eu não vi o sorriso sacana que ele lançou pro Kai.

– Tem tanto propósito que chaga a ser de propósito Ruki. – Disse Kai sem nem tentar esconder o mesmo riso sacana pro Takashima.

Ahh eu conhecia aquela porcaria de sorriso, e não gostava dele, não gostava mesmo. Principalmente com Aoi e Reita aqui. Da última vez, tinha acabado em um banheiro com Reita nu.

– Vocês ficaram sabendo do show dos abomináveis? – Perguntei apenas pra ver se adiava o momento em que Aoi ia girar a porcaria da faca.

– Não vai dar certo Ru-chan, podemos falar do show, mas vamos jogar do mesmo jeito. – Disse Kouyou.

– Amigos, fodendo com a minha vida desde que o Uruha se mudou pra casa da frente.

– Ai que drama Ruki, é um jogo descontraído pra conhecer melhor os podres dos amigos. – Revidou a loira de farmácia.

– O Ruki não vai querer jogar? – Perguntou Reita.

– Pera aí que eu resolvo este problema em um minutinho. – Disse Kouyou com uma voz doce antes de se virar para mim mais uma vez com a maior cara de cão sem dono. – Por favor, Ruki faz isso por mim eu não sei em que momento será possível para mim ficar tão próximo do Aoi. Não estou nem dizendo que acho que é possível conseguir um beijo dele, porque não acredito nisso, mas por favor... – Choramingou de forma que somente eu ouvisse o seu apelo.

Então eu me lembrei do dia mais cedo, e de mim fazendo ele passar vergonha na frente da escola toda. Eu odiava aquele jogo, mas amava meu amigo e já o tinha feito sofrer mais cedo. E tudo bem, eram apenas eles ali o que de improvável poderia acontecer?

– Vamos jogar. – Eu disse sem vontade, era patético o que amigos poderiam fazer comigo.

– É disso que eu to falando. – Disse Aoi empolgado. – Eu começo! – E após relembrar que cabo perguntava e ponta respondia, girou aquela bagaça.

– Kai! – Aoi disse cheio de segundas intenções quando viu que seria o moreninho que jogaria com ele.

Vi os olhos de Aoi brilharem, os de Kai se arregalarem e os de Uruha se estreitarem, fala serio. Reita riu e eu fiquei olhando todos eles sem saber exatamente como reagir. Aoi já tinha dado um milhão de indiretas para Kai naquela noite e eu sabia que se o beiçudo beijasse o Kai na frente de Uruha seria muito difícil reestabelecer a paz no mundo.

– Verdade! – Gritou Kai antes mesmo de o outro perguntar.

Pelo menos Kai tinha bom senso. Porque se dependesse do Aoi...

– Calma gatinho, eu ainda nem perguntei. Você tem certeza de quer..

– Tenho certeza que não quero nenhuma consequência com você Aoi. – O cortou de forma rápida, finalizando com sorriso único seu.

– Ah tá – Disse em tom ofendido. – Então vejamos... estão dizendo por aí que o Nao-kun te pediu em namoro. Isso é verdade?

– O que? Como você pode já saber disso? Sim, ele pediu hoje no intervalo.

– Nani? Por que não me disse isso quando te perguntei o que o Nao queria? – Perguntou Uruha indignado.

– Porque eu queria falar hoje à noite quando você e Ruki estivessem juntos.

– Parece que o Nao se empolgou mais que você pra sair contando. Disse ainda tentando digerir o fato de que hoje pela manha nós quase não falávamos sobre o assunto "ficar ou namorar" e agora ele parecia estar pauta em todos os momento, e o pior meus dois amigos estão falando em fazer isso com outros garotos.

Então fiquei pensando, como um cara chega do nada pra outro cara e pede ele em namoro? Isso não existe, e sabe o que mais, fiquei muito puto com Kai agora. Porque é obvio que não se chega do nada em alguém e a pede em namoro, isso quer dizer que o Kai estava ficando com esse cara há algum tempo já e nunca disse nada. Ahh eu ai surtar com certeza mais tarde quando ficássemos sozinhos, quem o Kai pensa que é pra não dividir algo grade assim comigo?

– Da pra saber qual foi a sua resposta só de ver a sua cara culpada. – Aoi riu me tirando do transe.

– Você tinha direito a uma só pergunta Aoi e ela já foi respondida. – Disse Kai emburrado. – É a minha vez de girar essa coisa. – É parece que o Nao levou um fora dos grandes, só o Kai consegue se sentir culpado por esse tipo de coisa.

Aquilo me deixou pensando mais. Se Kai estava ficando com o Nao, será que a pessoa do cinema também era um garoto? Ele nunca negou que ficava indo até lá por causa de alguém que chamava sua atenção. Isso tá ficando cada vez mais confuso e...

– RUKI! ACORDA AVOADO. – Acordei com o tapa de Kouyou no meu braço.

– Que foi? – Reclamei

– Kai está falando com você!

– Que? – Perguntei impaciente para o covinhas.

– Verdade ou desafio?

– Hn?

– Verdade ou desafio? – Merda como eu odeio este jogo.

– Verdade! – Disse, porque eu nunca mais na minha vida respondo desafio.

– Então Ruki-chan é verdade que o seu coraçãozinho difícil de agradar está finalmente apaixonado?

– Santa putaria! Vocês só sabem fazer perguntas deste tipo é?

– Responde caralho! É pra este tipo de pergunta que este jogo foi criado! – Respondeu Kai, delicadamente.

– Não! Kaizinho querido, o meu coraçãozinho difícil de agradar não está apaixonado! – Respondi na mesma delicadeza.

– Mas que mentiroso Ruki, quem mente no jogo paga dobrado! – Apontou Uruha.

– Eu não estou mentindo!

– Está sim! – Disseram Kai e Uruha ao mesmo tempo.

Aí eu me pergunto; Qual a utilidade deste jogo mesmo? Ahh é, nenhuma!

De que adianta porra, se eles vão ficar duvidando de mim?

– Prova que é mentira! – Gritei.

Não quis olhar para Reita, mesmo que meus olhos parecessem ter imãs em sua direção enquanto falava. Seria bom se eu não ficasse vermelho daquele jeito idiota neste momento.

– Eu provo! – Disse Uruha se levantando. – Reita você vai ser o juiz do meu argumento, levante-se. – Declarou com sorrisinho malvado.

Filho de uma puta frígida! Gelei. Odeio a criatividade do Uruha quando quer provar que está certo de algo, ainda mais com aquele riso odioso nos lábios e os olhinhos brilhando pura maldade.

– Não! – Levantei. – Senta Reita – Disse apontando para o loiro que estava se levantando para atender ao pedido de Uruha. – Senta Takashima. – Fiz o mesmo com Kouyou assim que Reita se sentou imediatamente após minha ordem. – Eu cometi a besteira de deixar Kai e Uruha perceberem que há uma pessoa que chama a minha atenção mais do que as outras. Isso na opinião deles é estar apaixonado; na minha não é. Satisfeit..

– Não! – Emburrou Uruha.

– A pergunta foi feita pelo Kai e não por você bicha loira. – Retruquei. – Satisfeito?

– Não, mas serve. – Respondeu o de covinhas. – Sua vez de se divertir.

E sem vontade nenhuma, girei a porcaria da faca. E é aí que mora a sacanagem, porque eu definitivamente não vim ao mundo para me socializar com ele, não sirvo para essas porcarias.

Por isso era claro que todo mundo ali ia brincar bonitinho, mas pra mim sempre ia dar merda. Pois a porra da faca rodopiou na mesa e se parou ente mim e Kouyou, eu podia ter pego a faca e ter corrido atrás dele, mas me cortaria já que merda da ponta ficou apontada pra mim. Azar assim, eu juro, nunca vi.

– Verdade! – Falei antes que ele perguntasse, visivelmente irritado.

– Então Ruki, que não está apaixonado, já que você foi tão enfático em dizer que temos definições diferentes sobre este assunto, explica pra mim a sua definição de estar apaixonado.

– Como eu vou saber, nunca me apaixonei por ninguém. – Dei de ombros.

– Então como pode ter tanta certeza de que não está?

– Arg! Lá vem ele de novo, mas que droga Uruha já disse pra parar de tomar hormônio feminino até o teu papo já é de garota! Que saco!

– VAI SE FERRAR RUKI! – Gritou, mas eu nem dei bola, só coloquei minha mão sobre a faca para girá-la novamente. Mas fui parado.

– Ei pera aí, você não pode girar duas vezes seguidas. – Disse Aoi, fala sério.

– Ahh tá, mas responder essas perguntas idiotas duas vezes seguidas eu posso né.

– Liga não, o Aoi está em abstinência de ser o foco das atenções. – Disse Reita e todos rimos, e eu é claro, girei a faca que apontou para Aoi de forma adequada.

– Eu vou ser o primeiro macho dessa mesa que vai aceitar um desafio. – Disse orgulhoso de si batendo a mão com força na mesa.

– Você gosta de jogar esta merda só por causa do desafio, não é? – Falei meio que pensando em voz alta e nem sei se alguém respondeu, pois o desafio ideal para Aoi se ascendeu em minha cabeça. – Koron-chan – Chamei, espero que minha fofura de cachorro não me odeie após isso. – Então Aoi beiçudo que se acha o pegador da escola, quero ver você beijar o meu cachorro!

– Tá me tirando, não é?

– Se negar o desafio será dobrado. Eu tenho dois cachorros sabia, posso chamar o Sabu-chan aqui também, ou posso exigir que tenha língua no beijo. Mas sim, de qualquer forma, eu to te tirando. – Ri pegando o Koron no colo. – Eu vou tirar uma foto deste momento. – Disse passando o cachorro para ele e pegando o celular no bolso. – Liguem seus Bluetooth.

– Isso não é justo, não é esse o objetivo do jogo. – Reclamou.

– Alguém se opõe? – Questionei, mas ninguém se manifestou.

– Reita... – Choramingou o nome do amigo, mas este estava distraído mexendo no telefone, certo que estava ativando a câmera ou o Bluetooth.

– Ahh cara eu odeio essas bolas de pelos barulhentas e fedorentas. Ele tá com os pelos de baixo da boca molhado e grudado, mano que nojo eu não vou fazer isso.

– Eu vou dobrar o seu desafio!

– Vamos lá Aoi, não foi você o macho que pediu desafio? – Kai botou mais pilha ainda, é nesses momentos que eu lembro porque ele é meu melhor amigo.

Todos ficamos estáticos quando Aoi com toda sua cara retorcida por nojo encostou o focinho do Koron em seus lábios e logo o largou no chão desajeitadamente. Correndo em direção ao banheiro enquanto fazia sons bem altos de quem estava prestes a vomitar, mas acho que não vomitou de verdade.

– É bom que não tenha lasanha vomitada no carpete da minha mãe! – Gritei.

Eu sabia que Aoi odiava animais de estimação, e fiz isso de propósito. Mas sabia também que isso logo teria volta e que não seria nada leve sua vingança.

Quase não consegui conter o meu riso quando ele voltou com a maior cara de brabo olhando com olhos cerrados e cenho franzido para mim. Ele pode ficar brabo o quanto quiser, primeiro porque mão me assusta e segundo, porque a cena anterior foi impagável.

– Ok! – Disse o moreno muito sério. – Vamos deixar este jogo mais interessante! Toda vez que desafio for pedido, um beijo obrigatoriamente deverá ser trocado!

– Certo, assim todo mundo sabe que não é pra pedir desafio. – Respondi.

– Nada disso, quero novas regras. Após alguma quantidade de verdades o jogador obrigatoriamente terá que pedir desafio!

–Fala sério Aoi, só tem a gente aqui! – Briguei.

– E daí, somos todos amigos. – Contrapôs.

– É isso que faz com seus amigos? – Perguntei exasperado, olhando dele para Reita, que era seu melhor amigo.

– Nem pensar! Eu beijo o Koron e Sabu-chan, mas o Aoi eu não beijo! – Disse Akira com pressa.

– Sabe cara, isso dói. – Disse Aoi se fazendo de ofendido. – Mas vou deixar passar seu argumento.

– Acho que ia ficar estranho demais a gente se beijando! – Disse Kai, e o chute que o Uruha deu nele por baixo da mesa foi audível por todos. – É sério, sinto ferir seu orgulho Aoi, mas não quero beijar você, não me imagino beijando meu amigo Ruki quem conheço desde o jardim de infância. E não se ofendam Reita e Uruha, eu não sou um puritano como o Ruki, mas também não gosto de distribuir beijos por aí atoa...

–Ok, então vamos fazer o seguinte, nós vamos girar a faca somente mais dez vezes e o jogo acaba. Cada um tem o direito a duas verdades, a terceira vez vai ser um beijo com a pessoa do outro lado da faca. As chances de sair um beijo são quase nulas, e mesmo que sejamos amigos, se sair um beijo no jogo será muito engraçado. – Sugeriu Uruha.

– Por mim OK! – Disse Aoi.

– OK, mas se um dos dois não quiser pode ser só um selinho. – Disse Kai. – Ruki?

– Quer mesmo que eu responda? – Disse.

Não era como se alguém ali realmente pensasse que eu ia aceitar isso numa boa. Mas Uruha se virou pro meu lado, me puxando para perto de si pelo braço. De novo.

– Por favor Ruki, é a minha única chance de dar um beijo no Aoi. – Cochichou de forma que apenas eu ouvisse. De novo.

Na minha opinião, se o próprio Aoi tinha começado aquilo ali era porque não se importaria de dar uns beijos avulsos nos amigos, e já é um fato conhecido que basta pedir para ficar com ele, então... não, aquela não era a única chance do Uru de beijar o beiçudo. Mas era uma oportunidade de fazer isso sem se expor, e suspirei derrotado, mesmo sem entender o motivo pelo qual alguém quisesse algo desse tipo com um cara como ele.

Aoi não valia nada, mas a cara de implorão do Uruha me olhando esperando minha resposta não tinha como ser evitada. De novo. Aquilo era besteira, eu sabia que se aquele merda de faca apontasse para mim mais uma vez eu não teria escolha, eu era o único que já tinha respondido duas verdades, e ainda assim, com Uruha pedindo eu nem pensei duas vezes. Mesmo sem entender como um cara como Kouyou foi se apaixonar por alguém como o Shiroyama, a vontade de um amigo era mais forte do que a minha incompreensão. E de novo, respondi pensando nele e não em mim.

– Tá. – Concordei em voz alta para que todos escutassem.

E por um motivo daqueles bem idiotas, senti algo estranho dançar no meu estomago ao perceber que apenas o Reita precisava concordar com as novas regras do jogo. Era idiota, mas era como se caso ele aceitasse era porque estava disposto a seguir as regras.

Sem sentido eu sei, mas de todos ali eu era o que tinha mais chance de acabar tendo que beijar alguém; que ironia. E veja só, Reita era a pessoa em minha frente, quer dizer, se a faca apontar para mim sem se mover na mesa, apontaria também para ele.

A matemática de Kouyou favorecia a todos ali, menos a mim. E ao invés de ficar brabo com isso, eu não consegui nada além de ficar nervoso.

– Certo. – Disse Reita e sabe-se lá por qual motivo, senti minha respiração falhar.

– Bom, ainda é minha vez de girar isso. – Disse Aoi em um tom superior.

– Vou manter o Koron-chan no meu colo, vou logo avisando que se essa bosta apontar para mim e para ele mais uma vez, ele vai beijar o cachorro de novo.

– Hahaha.. que engraçadinho! Eu já disse que vai ter volta Ruki. – Ralhou em birra e girou o objeto que fez um movimento semelhante de quando tive que responder para Uruha, mas entre ele e Reita, apontando para o de faixa.

– Eu já disse que não quero saber dos seus lábios de mel, Yuu-chan.

– To sabendo. Aliás, houve uma pergunta hoje à noite nesta mesa que eu gostaria de repetir para você. Reita é verdade que o seu coraçãozinho difícil de agradar finalmente está apaixonado?

– Mas que falta de originalidade. – Brincou Kai, ao ver que ele havia repetido a pergunta que o covinhas tinha feito a mim mais cedo.

– Reita eu não sabia que o seu coraçãozinho também era difícil de agradar, viu mais uma coisa que você e o Ruki tem em comum. – Disse Uruha empolgado, mas porque ele disse isso mesmo?

– Vão deixar meu amigo responder a pergunta, ou não? – Aoi disse alto, fazendo todos na mesa prestar completamente atenção em si. Mesmo com a faixinha deu para perceber que ele ficou constrangido.

Filho da puta! Essa carinha me deixou... quente? Melhor eu comer, ou simplesmente colocar mais um pedaço de lasanha no meu prato e ouvir o "sim é verdade" do Reita de cabeça abaixada mesmo, antes que eu acabe ficando vermelho sem motivo na frente desses trolls horrorosos.

Eu estava levando comida à boca quando ele respondeu. Sim, era verdade. Foi ele quem respondeu.

E por dois segundos isso doeu porque, sim, ele estava apaixonado por alguém. Havia alguém, talvez até mesmo alguém que eu conhecia que podia fazê-lo feliz. A ideia de vê-lo feliz mimando uma menina qualquer da nossa escola cobriu meus olhos, não sei por que, mas a bela imagem de Rebeca Rose estampava o rosto da menina ao lado dele.

Mas isso também era bom, porque eu não podia mais negar para mim mesmo que eu sentia algo por aquele cara. Algo estranho. E saber que ele era afim de alguém era um motivo a mais para eu esquecer essas ideias estranhas que me vem à cabeça quando penso nele. Reita devia mesmo conseguir ficar com esta menina, ela tem que ser legal e aí então... mesmo que eu fraqueje por dois minutos, ele estará fora do meu alcance.

É, definitivamente era isso. Reita devia ficar com esta pessoa.

Suspirei e levei uma garfada da lasanha à boca, meu problema está começando a se resolver. Ou pelo menos era isso que eu pensava até perceber a cara de debochado do Uruha quase arrancando meu braço para chamar minha atenção.

Sabe quando você percebe que perdeu algo importante da história? É, eu com certeza perdi algo importante da história. Pessoas, não me deixando pensar a dezesseis anos.

– Que? – Questionei sem humor.

– Você já respondeu a sua cota de verdade e não vai arregar agora! – O loiro disse firme apontando para mesa. Medo, muito medo nesta hora.

Aí eu olhei pra mesa e tinha uma faca apontada pra mim. Instintivamente me agarrei ao Koron-chan, mas apertei tanto que o bicho pulou do meu colo e foi para longe. Se fosse o Aoi ia ter que chamar o Sabu-chan.

Eu sei que minha cara era de muito espantado, e muito idiotamente olhei para o cabo da faca e como se houvesse uma linha imaginária sobre a mesa, indicando com luz neon Reita do outro lado da mesa. E foda-se a faixinha, ele estava muito vermelho. Dava pra ver.

Não sei por qual motivo, razão ou circunstancia olhei para meus dois amigos ali, não era como se eu esperasse algum tipo de apoio vindo deles neste momento. Na verdade posso apostar um rim que Uruha estava cintilante de felicidade. De fato não foi nenhuma novidade ver aquelas carinhas com olhos esbugalhados e brilhantes, sem nem tentar disfarçar o sorriso sacana. Eu não tinha mesmo como fugir?

– Anda Ruki levanta, se não cumprir o desafio duplica. – Disse Aoi e a cara dele estava igualzinha a dos outros dois.

Respirei fundo e levantei, por que serio, eu não queria descobrir o que seria duplicar este desafio. Neste momento ouvi uma risadinha muito afetada vinda de Uruha, como se tivesse apostado sua guitarra que eu não ia levantar e ainda estivesse feliz por ter perdido a aposta.

Fiquei parado no mesmo lugar em pé, não sei por quanto tempo, quando se está ansioso tudo parece demorar demais. Akira tinha que se levantar também e se ele não levantasse, significaria que tinha sido rejeitado, eu era o desafiado, ele não tinha o dever de aceitar aquilo. Entretanto, ser rejeitado doeria.

Mais uma vez a ideia dele ao lado de uma bela garota legal me invadia junto com a certeza de que aquilo que eu sentia por ele não era certo. Sorri com a ideia de que pelo menos eu tinha a chance de ter um beijo para lembrar, e logo após o meu sorriso ele levantou e deu a volta na mesa até o meu lugar.

Parecia justo, ele foi a primeira pessoa por quem eu senti algo, parecia bom ter em mente que seria com ele o meu primeiro beijo. E ao mesmo tempo eu não queria, este beijo não devia acontecer por causa de um jogo, meu primeiro beijo não poderia ser determinado por uma faca rodando sobre uma mesa e o escolhido foi você.

Aquilo era tão sem sentido. Eu queria beijá-lo, mas não sem que ele quisesse me beijar também. Eu queria que fosse com ele, mas não porque um jogo idiota mandou. E é claro que como previsto, eu surtei.

Meu corpo inteiro tremia, quanto mais ele se aproximava de mim, mais evidente era o beijo. E quanto mais evidente ficava o beijo menos eu queria que ele acontecesse.

Vi Reita fechar os olhos, mas eu não consegui fechar os meus, estava tremendo e com os olhos arregalados e, estupidamente, achava que ia chorar. Havia uma dor profunda e um vazio imenso que percorria minha barriga e todo meu abdome. Fechei minhas mãos com força e apertei meus braços contra o meu corpo, os flexionando para poder prender meus dedos no tecido de sua roupa, como que se tentasse me impedir de sair correndo dali.

Ele colocou a mão em um dos meus braços, quase na altura do ombro e percebeu que eu estava tremendo ridiculamente. Seus olhos se abriram e ele parou de se aproximar para me olhar e numa tentativa de fuga, fechei meus olhos com força demais, os espremendo ao limite. Logo senti a textura do tecido da faixinha e a ondulação de seu nariz roçando no meu.

Me reestabeleci quase instantaneamente, conseguindo até sorrir com o gesto. E assim que o "beijo" findou senti os braços dele se fechando sobre meus ombros e não pude deixar de sorrir mais em alívio, com o rosto espremido em seu peito. Ele ficou ali até que eu parasse de tremer por completo.

– Que bosta foi essa Akira? – Aoi questionou indignado.

– Beijinho de esquimó ué. – Respondeu

– Você nem nariz tem pra dar beijo de esquimó Suzuki. – Aoi continuou reclamando.

– Eu digo que tem. – Disse me soltando finalmente do abraço do outro, bem mais aliviado.

– Eu achava que o Ruki era bem idiota nesse assunto, mas eu estava errado, os dois são. – Disse Kai tão indignado quanto Aoi. – Depois dessa, até vou tirar a louça da mesa. – Disse pegando seu copo para tomar o resto de guaraná no mesmo.

Mas no mesmo momento em que ele se levantou uma buzinação doida começou na frente de casa, tá eu conheço o barulho do motor e da buzina do carro da minha mãe, mas ela não buzina nem pra barbeiro na pista. Olhei com estranheza para Kai e Uruha e corri pra garagem e ou pelo barulho de passos que estava sendo seguido.

Chegamos ao aposento a tempo de ver o portão se abrindo pela metade, sério, só pode ter dado pane no carro da Emi e ele está buzinando de forma adoidada. Mas foi só esperar mais um pouco e quando o portão terminou de abrir para o carro passar, e todos vimos a dona Emi rindo atrás do volante enquanto um braço magrela se punha em sua frente pressionando o botão da buzina. Eu não podia acreditar o que meus olhos viam e também não pude conter minha felicidade ao ver Takamasa no banco do carona.

– Takamasa! – Gritei indo até a lateral do carro para recebê-lo.

– Takanori! – Ele respondeu me abraçando.

– Eee que bonitinho, agora será que os Takas da vida da Emi aqui podem vir me ajudar com as malas.

– Malas? Você vai morar com a gente? – Perguntei sem conter o entusiasmo, ia ser bom demais ter ele por perto novamente.

– Ele vai, mas só se as malas saírem do carro! – Respondeu minha mãe. – Vamos Takashima e Yutaka, vocês também são os Takas da vida da Emi aqui, podem ajudar.

E foi só quando minha mãe disse isso que eu soltei ele de verdade, logo o puxando na direção dos meus amigos. Tinha certeza que eles iam se dar muito bem.

– Pode deixar tudo aí mãe, a gente tira. – Respondi. – Taka, estes são Reita, Aoi, Uruha e Kai o nome deles você descobre depois. Gente este aqui é o afilhado da minha mãe, e meu irmão de coração.

– Ah gosto que me chamem de Miyavi. – Disse sorrindo e logo Myv já era o centro das atenções, menos pela parte de Kai ele estava parado atrás de todo mundo quieto só olhando.

– Kai, você está bem? – Perguntei, mas a pergunta pareceu ter sido ouvida por todos, menos pelo dito cujo.

– Hey, é o garoto do sorriso de covinhas! – Disse Miyavi sorrindo na direção de Kai que acordou com o susto e acabou deixando cair o copo que estava em suas mãos.

Nunca vi ele tão estranho, logo se abaixou para juntar os cacos e sumiu dizendo umas coisas que nem deu pra ouvir o suficiente pra entender. Sumindo para dentro de casa.

– Você conhece o Kai? – Perguntei.

– Só de vista, ele vai bastante no shopping. – Respondeu olhando para o vácuo deixado pelo moreninho, mas logo voltando a dar atenção ao Uruha que queria saber de tudo sobre ele, quase sem deixar o garoto espirar.

– Er.. acho que a gente já vai então Ruki. – Disse Reita coçando a nuca de um jeito encabulado.

– Tem certeza? – Perguntei, mas na mesma hora Miyavi me perguntou alguma coisa sem noção e quase nem pude dar atenção ao Reita.

– Claro, já está tarde pra dia de semana. Nos vemos amanha na escola. – Se despediu com um abraço.

Eu fiquei com a impressão de que ele queria me dizer mais alguma coisa, mas Miyavi não parava de tagarelar. E quando vi, ele e Aoi já estavam do lado de fora da garagem e assim que eles dobraram na direção da casa de Aoi eu baixei a mesma.

.:.

E parecia muito estranho, mas o silencio que tomou conta dos dois amigos assim que a porta atrás de ambos se fechou, quase os ensurdeceu. Reita suspirou e mirou o amigo que lhe sorriu em resposta, e logo passou um braço por suas costas, conduzindo-o para sua casa.

– Você vai dormir ali em casa hoje ne? – E apesar de ser uma pergunta, a voz do menino soou como uma afirmação.

– Você me empresta um uniforme amanha?

– Claro, só vê se não vai se apaixonar pelo meu cheiro nas roupas – Disse com humor.

– Você é o cara mais convencido que eu conheço, sabia – Resmungou em um falso mau humor.

– Ne Reita, você costumava gostar de mim, aí ó, já tá deixando o Ruki fazer tua cabeça. – Disse fazendo um drama exagerado. – Não sabia que você se rendia tão fácil por um docinho – Disse mais uma vez forçando o tom falsamente ofendido, fazendo Reita rir alto.

– Ne, desculpe-me pelas coisas que você ouviu. Eu não consigo mesmo entender por que o Ruki te odeia tanto.

– Ele não odeia. – Disse calmo. – Escuta, eu vou te explicar o que acontece. Você é um imbecil sem coragem apaixonado por outro imbecil sem coragem.

– Aoi. – Reita o repreendeu, franzindo o cenho, mas sem se alterar.

– Serio cara vocês são tapados iguais. O Ruki já não tem uma simpatia natural por mim, aí quando você chegou na escola foi colar logo em mim, transformou a não gostar dele em odiar.

– Acha que o Ruki tem ciúmes de você? – Perguntou em estranheza, o ego de Aoi estava indo bem longe agora.

– Sim, mas não só por você, a história é longa. Só que você ter ficado tão próximo de mim ajudou.

– Por que o Ruki tem ciúme de você?

– Porque ele é um idiota.

– Serio Aoi...

– Pelo o que ele acha que eu tenho, sabe... família completa e feliz com o pai que ele tem só na imaginação dele. Eu fui a segunda pessoa que ele tentou fazer como amigo, o Kai também não tem pai vivo e toda vez que ele ia na minha casa até o meu pai o mimava.

– Naquele tempo...

– Naquele tempo eu ainda queria acreditar que meu pai era uma boa pessoa, e minha mãe ainda não tinha ficado doente. – Cortou Aoi, escondendo a mágoa em sua voz com um sorriso odiava falar de sua família.

– Então você acha que ele te odeia porque você tem a família completa que ele queria ter e mais a mim? Aoi isso simplesmente não faz sentido.

– Falando assim não, mas a história completa é grande demais para contar. Mas é serio, vai por mim, na cabeça do Ruki eu sou alguém que não da valor a família que tem. Mas sou digno da amizade da pessoa que ele admira.

– Doideira Aoi...

– Tá ta esquece, tem outra parada no meio também. Você pegou o telefone do baixinho, não é? Se eu fosse você mandaria alguma sms para ele ainda hoje à noite.

– Eu queria ter falado com ele antes de sairmos, mas eles estavam lá empolgados com a chegada do outro garoto.

– O que fez o Nao levar um fora? – Disse e logo riu a da cara de desentendido de Reita. – Você viu o jeito que o Kai ficou quando viu o cara e como reagiu quando falou com ele. Ahh e tem o lance da tatuagem também, o tal Miyavi tem a mesma só que na mão.

– Como é que você pega tantos detalhes assim das pessoas Aoi. O cara tinha duzentas tatuagens e você conseguiu decorar números nas mãos? – Riu.

– Eu sou bom no que faço. Mas voltando ao foco, que merda de beijo de esquimó foi aquele cara? Você tinha que ter beijado o Ruki!

– Ele não queria, estava tremendo de medo. Então eu também não quis, e depois me lembrei do que ele disse no começo da noite, ele não ia gostar ser beijado somente por causa de um jogo.

– Ah é, ele está esperando por alguém especial. Mas você vai conseguir, pela quantidade de indiretas dadas pelo Kai e Uruha eu tenho certeza que estou certo, ele também gosta de você.

– Também se você estiver errado eu perco tudo né! Por que você tinha que colocar a faca na mesa sem girar e deixar pontada pra ele? Ele estava com a cabeça sei lá eu aonde, mas você viu a cara que Kai e Uruha fizeram.

– Eles vão ser cúmplices, isso se não se esquecerem da cena por conta da chegada do amigo do Ruki.

– Vamos logo pra casa, eu to com sono e pra ajudar o primeiro período de amanha é história.