Capítulo nove: Aquela voz que insiste em dizer que tudo está errado

Por Kami-chan

Quando Uruha, Miyavi e eu entramos em casa com todas as malas logo damos de cara com a mesa de jantar rearrumada como se fossemos simplesmente jantar agora. Não lembrava em nada a cena de demolição deixada por nós antes, até mesmo a toalha era outra, sem nenhuma mancha de ketchup.

Kai entrou na sala naquele exato momento carregando a mesma travessa de lasanha com toda a parte que tinha sobrado fumegando como se recém tivesse sido tirada do forno. Sério, ele fez macumba naquele negócio, trabalho, simpatia, milagre, magia wicca, sei lá... mas eu juro, até o cheiro de recém tirada do forno aquela coisa tinha. E o pior era que eu sabia que não tinha sido feita em forno nenhum.

– Você fez outra lasanha em dez minutos? – Perguntou Uruha de boca caída.

– Não. Apenas aqueci o que sobrou. – Kai disse com simplicidade.

– Eu...eu vou lavar minhas mãos! – Disse Miyavi quase correndo na direção do banheiro sem largar suas malas.

– Eu.. eu acho que vou comer de novo. Só mais um pedacinho. – Disse Uruha também correndo para lavar as mãos, mas diferente do Miyavi largou as malas que tinha em mãos ali mesmo.

E eu me aproximei da ponta da mesa, onde Kai estava em pé, me escorando na guarda de uma das cadeiras, observando a bela mesa pra dois que ele tinha arrumado para minha mãe e Miyavi. O nervosismo dele era evidente até mesmo para mim.

– Então... – Comecei. – Você vai ficar em silêncio? – Perguntei olhando sério para ele.

– Desculpe Ruki, nós temos uma conversa longa pra ter.. e discutir. – Riu, era normal a gente discutir. – Eu queria muito ter te contado, eu até tentei, mas você não me pareceu tão receptivo e eu acabei ficando com medo. Depois veio toda a história com o Reita e você se mostrou ainda menos receptivo.

– Como assim menos receptivo? O Uru ta aí, foi curto e grosso "sou gay e to afim do Aoi". Mesmo sendo incompreensível pra mim entender o que alguém vê no Aoi pra se apaixonar por ele.

– Eu sei, mas você pode perdoar o fato de eu não ser tão corajoso quanto o Uruha? Nós somos amigos desde antes de aprendermos a andar direito, perder essa amizade por algo assim ia doer um bocado, não consegui me arriscar.

– Baka, é por sermos amigos desde antes de aprender a andar direito que você tinha que confiar mais em mim.

– Você está fazendo a mesma coisa agora com relação ao Reita. Por que você só não..

– Pode parar por aí! Você e o Uru colocaram uma coisa na cabeça e isso não está deixando vocês enxergarem as coisas como elas realmente são.

– Eu não vou brigar com você agora porque o Myv e o Uru já vão voltar, mas você não vai escapar desta conversa. Por que eu sei que você sabe que é exatamente o oposto Ruki, você colocou uma coisa na cabeça e está se machucando para evitar a verdade.

– Myv é? Já deu até apelido pro teu amorzinho. – Zoei, com o Kai era assim, só ia conseguir desviar do assunto se deixasse ele constrangido. E.. ponto pra mim, ele ficou roxo de vergonha.

– É que mentalmente eu... – Começou a explicar, mas parou se atrapalhando todo e eu ri.

– O Nao não foi o primeiro não, é? – Eu podia aceitar tudo o que ele tinha dito sobre ter medo, e podia deixar a conversa longa para depois, mas pelo menos a introdução da história eu tinha que saber agora.

– Eu meio que tive uma coisa pelo Tora. Foi aí que eu percebi que as coisas seriam diferentes sabe, essa coisa de garotos. Mas ele meio que namora um moleque magrela da oitava série. Aí veio o Nao, eu fiquei com essa história de "outro garoto" na cabeça e tinha que experimentar pra ver se era isso mesmo. Foi legal com o Nao, nós ficamos algumas vezes. Muitas vezes.

– Sem você gostar dele?

– Eu tinha afeição por ele, mas fiz algumas coisas ruins. Porque mentalmente eu queria estar com outra pessoa, mas fisicamente só tinha ele. Acho que acabei passando os sentimentos que tinha por outra pessoa a ele e ele...

– Te pediu em namoro e você o rejeitou por culpa. E mentalmente você queria estar com o Miyavi? – Perguntei meio que tentando entender as reações de Kai e todo o mais.

– Tão evidente assim? – Respondeu sorrindo, e por aquele sorriso, eu não tinha motivos para ficar chateado ou coisa parecida com ele.

– Bom, eu me lembro dele ser um pouco tapado. Mas é, tá evidente sim. Perecia até eu quando simplesmente saiu correndo. – Tive que rir, mesmo que me autodepreciando.

– No fim você tinha razão, eu nunca fui capaz de conversar com ele, o máximo foi perguntar se era ele quem fazia os folhados do cinema. Você não estava errado em dizer que eu tinha uma paixão platônica no cinema. Mas ele gosta das minhas covinhas tá. – Disse em tom cômico e não pude me impedir de rir mais com aquilo.

– E quem não gosta dessas covinhas? – Minha mãe entrou na conversa, essa mulher só pode flutuar, porque eu nunca ouvia caminhando pela casa e sempre chegava nos lugares sem que ninguém percebesse.

– Você vai sair de novo mãe? – Perguntei finalmente prestando atenção na roupa que Emi estava usando, e com certeza não era pra jantar com a gente.

– Ahh o Joe ligou mais cedo, disse que tem negócios a tratar comigo.

– Que pena, eu fiz a lasanha que você adora Emi-san. – Disse Kai.

– É uma pena mesmo Kai, o cheiro está ótimo. Tenho certeza de que está deliciosa.

– O mãe, isso aí não é roupa de reunião de negócios e nem essa hora é hora pra isso. Acho que o Joe queria uma desculpa pra te levar pra jantar. – Disse, e no caso, Joe iria jantar com uma mulher muito bonita.

– Que isso amor, eu conheço o Joe desde que tinha dez anos de idade. É só o jeito dele mesmo, sabe, se temos que falar de negócios e o único horário que temos é esse... por que não fazer isso enquanto fazemos algo agradável como jantar com um amigo de infância?

– Mas que o Joe vai desfilar por aí com uma mulher muito bonita, isso ele vai. – Disse.

– Obrigada querido. Onde estão os outros meninos? – Questionou.

– Miyavi e Uruha estão lavando as mãos para comer. – Respondi.

– E o Shiroyama e o Suzuki? – Congelei. Desde quando minha mãe conhece o Reita?

– Er..eles foram embora. Mãe, de onde você conhece o Akira? – Porque o Aoi eu sei que ela conhecia da escola e da vizinhança.

– Ele e o Yuu-chan trabalham pro Joe. – Disse, e sim, ela adora o Aoi desde sempre.

– Reita trabalha pro Joe? – Perguntei em voz alta, mas eu queria mesmo era fixar essa informação para mim mesmo.

– Emi-san não vai jantar com a gente? – Perguntou Uruha vindo do corredor junto com Miyavi os dois rindo de alguma coisa enquanto Miyavi fechava os dedos contra as mãos como se fossem notas de guitarra e fazia sons com a boca meio que pra mostrar o som que estava imaginando. Coisas sobre tocar guitarra que eu nunca fui capaz de entender.

– Hoje não, mas vocês nem vão sentir a minha falta. Tem o Miyavi pra vocês encherem o saco. – Brincou. – Tá meninos eu to indo, e eu sei que vocês querem saber tudo da vida do Miyavi, mas amanha ainda tem aula e eu não quero ter acordar ninguém a força. Vocês vão ter tempo de conhecer ele bem, vai morar aqui e estudar na mesma escola que vocês.

– Estudar? – Disse Myv e...

– Na mesma escola que a gente? – Kai, Uruha e eu todos ao mesmo tempo.

– Sim estudar, só na tua cabeça oca que ia continuar trabalhando naquele lugar e deixar de estudar. E a escola que você estudava antes é a melhor do país, não vou ter problemas em transferir você. Amanhã mesmo eu peço teu histórico para conversar com o diretor da escola dos meninos. Boa noite.. – Disse e se sumiu. – Ahh e o senhor também tem que acordar cedo amanha Myv, você vai sair comigo e depois vamos ligar para a tua mãe. – Disse de longe sem nem voltar, tanto que a última frase dita não seria ouvida se ela não gritasse.

– Merda, ela vai mesmo ligar pra minha mãe. – Reclamou o tatuado.

– Bora comer Myv, antes que a comida esfrie. – Disse indicando a mesa.

– Fala sério, a comida do Kai é tão boa que até fria é uma delícia. – Disse Uruha já se servindo de mais. Pra onde vai tanta comida?

– Ahh eu sabia que você cozinhava. – Miyavi disse com um sorriso de orelha a orelha olhando da lasanha para Kai. – Só não entendo porque alguém que prepara coisas tão gostosas vai pro shopping comer bib's. – Disse já tomando a colher das mãos de Uruha e se servindo também.

– A mãe dele não deixa ele cozinhar muito, implica que tem cuidar do colesterol e mimimi. – Respondeu Uruha enrolando o queijo no garfo, enquanto eu e Miyavi ríamos.

– Nee Myv, por que você sumiu? Nunca mais entrou no Skype, não tem facebook e nunca mais deu sinal de vida. – Reclamei.

– Ahh eu saí da escola, tive alguns problemas coma minha vó e quando voltei pra casa vi que ela estava muito dente, acabei indo trabalhar pra ganhar um extra e me enrolei todo.

– Nossa isso explica o porquê da mãe estar uma fera hoje mais cedo quando disse que ia se encontrar com você.

– É, ela foi bem enfática quando me xingou por ter largado a escola, arrumado emprego e escondido algumas coisas bobas aí com relação a dinheiro. Mas eu tava bem, só não queria ter que passar preocupações pra minha mãe, e eu sabia que a primeira coisa que a Emi ia fazer se eu dissesse tudo pra ela era ligar pra mãe.

– Você não mora com a sua mãe? – Perguntou Kai e eu quase ri pela cara que o Myv fez ao ver que aquela era a primeira frase do Kai que ele ouvia naquela noite.

– Minha mãe mora na Coreia, ela conseguiu um emprego muito bom lá. Mas não queria que eu fosse criado naquele país, por isso me deixou com a minha vó e a Emi-san. Ela me liga sempre, mas vai ficar uma fera quando souber que eu omiti esse monte de coisa dela.

– Talvez ela venha pra cá, isso não seria bom? Você deve ter muita saudade dela. – Ccontinuou o covinhas e eu me senti uma bola de ping pong olhando de um para o outro enquanto conversavam.

E o Uruha, estava calado comendo. Nem aí pro resto da conversa, e nessa eu meio que me senti perdido, pois Kai e Miyavi desandaram a conversar como se não tivesse mais ninguém li na mesa. Kai ria de umas coisas muito bobas e o Myv se empolgava em dizer ainda mais coisas bobas toda vez que o Kai ria. Aquilo era besta demais pro meu gosto. Mas por outro lado... era legal.

– Uru você me ajuda aqui um pouquinho? – Perguntei já me levantando, tendo certeza que o loiro ia me seguir pra cozinha.

– O que você quer? – Perguntou quando chegamos ao outro cômodo.

– Me ajude! Eu lavo e você seca. – Disse indicando toda a louça que Kai já tinha levado pra cozinha quando rearrumou a mesa.

– Ahh não, eu to cheio demais, deixa isso aí e vamos voltar lá pra. – Disse já querendo sair da cozinha.

– Pode parar aí mesmo! – Mandei. – Deixa os dois sozinhos um pouco, além do mais, a gente tem que deixar isso em ordem ou minha mãe não vai permitir que isso se repita.

– Ahh que merda, todo mundo suja, mas só a gente que vai ter que limpar. – Reclamou.

– Que egoísmo, nem parece você!

– Ahh Ruki, mas eu to me sentindo mal. – Se queixou abraçando a barriga.

– Err ninguém mandou comer daquele jeito, porra. – Perdi a paciência. – Tá, eu vou colocar tudo o que da na lavadora, mas você vai me ajudar com o restante sem reclamar.

– E por que a gente não pode esperar os outros dois? – Reclamou.

– Eu tava te devendo uma por hoje de manhã, e já paguei jogando aquela merda de jogo. E to devendo uma pro Kai também e vou pagar deixando ele sozinho com o Taka, que caso você não tenha notado, é o amor platônico do nosso amigo.

– Você é legal quando o assunto é o amor dos outros, só é um amargurado quando o assunto é o teu coração mesmo. Nee Ruki, você tem inclinações masoquistas. – Sim, ele disse isso mesmo.

– Tu comeu demais mesmo, tá delirando já. Só pode que vai ganhar uma congestão e morrer dormindo. – Reclamei.

– Não, você não entendeu.. – A voz de Miyavi invadiu a cozinha, com os dois morenos entrando juntos na mesma, cada um carregando parte das louças da mesa. – Eu gosto de vários estilos de música, mas bem na verdade o que eu quero é criar um estilo musical novo, algo completamente diferente do que já exista.

– Você quer inventar um novo estilo musical? – Kai riu – Só isso? E como vai se chamar?

– Tsc...isso eu ainda não sei. Mas eu ainda vou te mostrar minha música, você vai ver, tudo o que eu preciso é de um violão ou uma guitarra. Nee..e eu acho que uma bateria também ia ficar muito legal. – Concluiu pensativo.

– Eu vou adorar toar com você! – Disse Kai animado.

– Aí danou-se, a nossa banda já está desfalcada e o Myv pegou nosso baterista. – Fui obrigado a dizer, caso contrario nenhum dos dois ia perceber que não estavam sozinhos ali. Alguém lembra do professor Girafales, o título cai bem pro poste do Miyavi, e o Kai bem que parece a dona Florinda toda sorridente, só falta os rolinhos, porque, o avental eu sei que ele usa um monte.

– Quem disse? Minha banda é a mesma que tua Ruki, com participações especiais nos shows que o Miyavi disse que vai fazer por aí. – Riu.

– Hem Ruki, agora que o Kai tá aqui eu ainda preciso te ajudar com a louça? – Perguntou Uruha.

– Sim baka.

– Uru ajuda o Ruki a colocar a louça na máquina, eu vou lavando as que eu sei que não cabem e o Myv me ajuda secando.

– Depois disso eu to louco por banho e colchão. – Disse.

– Por falar em colchão...nee Ruki, eu acho que eu e você não cabemos mais na mesma cama de solteiro como quando éramos crianças. – Myv riu.

– Não vem que não tem, eu cresci normalmente, você que se esqueceu de parar é maior até que o Uruha. – Dei de ombros, eu não sou pequeno, eles que cresceram muito anormalmente.

– Ta, mas eu ainda quero saber onde é que eu vou dormir. – Choramingou em falsa manha.

– A minha mãe disse antes de ir encontrar com você que tinha deixado um quarto pronto pra você, mas eu não faço ideia do que ela quis dizer, porque a casa só tem dois quartos. Ela deve ter improvisado um quarto pra você em algum outro cômodo, mas não me disse em qual.

– O que? Eu não vou dormir sozinho! – Disse, realmente desinclinado a dormir longe da gente.

– Tudo bem, mas no meu quarto só tem três colchões, e como você sabiamente percebeu, eu e você não cabemos mais em uma cama de solteiro.

– Quando as amigas da minha irmã iam lá pra casa, ela pegava todos os colchões e os colocava juntos um do lado do outro no chão. Depois forrava bem pra eles não se separarem de noite e quem estivessem dormindo em alguma divisa não cair, e pronto.

– Nós já estamos terminando de colocar a louça aqui, daí arrumamos os colchões.

– Nada disso. – Disse Kai. – Uruha você vai colocar os colchões enquanto o Ruki toma banho, aí depois enquanto você toma banho o Ruki forra eles. Quando eu e o Myv terminarmos aqui eu vamos tomar banho no seu quarto enquanto você mostra pra ele o banheiro do quarto da sua mãe.

– Eu devia fazer os dois tomarem banho juntos. – Sussurrei entredentes próximo ao ouvido do Kai, pensando em me cobrar do banho do Reita que ele me fez assistir.

– Acontece que eu não tenho nenhum problema em admitir que ia perder o controle e agarrar seu primo. – Sussurrou de volta e me dei por vencido.

– Percebeu como ele é mandão? – Disse em voz alta olhando para o Miyavi. – Vai te acostumando. – disse e saí de lá com o Uruha ao meu encalce.

Logo deixei que ele me passasse e pulei em suas costas, ele que me carregasse. Ouvi ele reclamando algo referente ao seu estomago, mas não liguei. Apenas enrosquei meus braços em seu pescoço e pedi desculpas por não avisar que Aoi estaria ali aquela noite, eu realmente não o tinha convidado e nem me lembrava mais de ter convidado o Reita.

Ele aceitou numa boa e começou a tentar me explicar o que o Yuu tinha para fazer alguém se interessar nele. Sério, nem vou reproduzir suas palavras aqui, após sua explicação ficou ainda mais incompreensível entender porque alguém se apaixonaria por aquele cara.

– Vai pro teu banho. – Ele disse me largando no chão do quarto.

– Nós vamos ter que arredar minha cama, eu vou ajudar você com isso primeiro.

– Nada, você é o que mais demora no banho, pode deixar que eu faço isso sozinho.

– Vai arredar um móvel pesado como uma cama sozinho?

– Eu vivo fazendo isso, sempre enjoo da posição dos móveis do meu quarto. – Ele disse dando de ombros e com essa resposta me senti seguro em deixar ele sozinho ali e me trancar no banheiro.

Suspirei me apoiando no mármore da pia, olhando minha imagem no espelho sem conseguir pensar em nada por dois segundos. Até fechar os olhos e comprimir os lábios ao suspirar mais uma vez, ele podia ter me beijado. Eu teria o beijado de volta e teria gostado muito mais do que admitiria. Eu queria ele por perto exatamente da forma como meus amigos estavam falando, mas não podia me deixar cair. Eu podia o querer desta forma.

Me desencostei da pia para pegar um pouco de algodão e demaquilante, eu precisava de ajuda. Mas não da ajuda de Kai e Uruha, eles estavam com a mente cegada por ideias tolas que ligavam Reita a mim. E essa ideia fixa deles os impediam de ver o meu lado da história, por mais que fossemos amigos, eles não seriam capaz de entender a forma como eu me sinto.

Joguei o algodão sujo no lixo, peguei uma toalha e a deixei no suporte do boxe do banheiro e liguei o chuveiro fechando a porta de correr de vidro. Tirei meu telefone do bolso da calça e logo comecei a me despir, eu estava era precisando de um banho bem relaxante na banheira da minha mãe. Entretanto, meus pensamentos foram cortados no exato momento em que estava tirando a camiseta, meu celular vibrou em cima da pia. Era uma mensagem, do número que o Reita registrou ali.

"Não deu tempo de dar tchau direito. Foi muito bom passar a noite com vocês, isso podia acontecer mais vezes. Nee Ruki, se rolar mais algum ensaio dos Abomináveis antes do show podemos ir?"

"Se vocês dois não tivessem saído correndo, poderiam ter ficado para dormir aqui. Com certeza eles vão fazer mais algum ensaio antes do show, e nós iremos sim." Mandei de volta, sorrindo como besta é claro.

"Você ia deixar até o Aoi dormir aí?"

"Claro, minha mãe tem um perbolado bem legal no jardim"

"Achei que você ia dizer que ia colocar ele a dormir com o Koron e o Sabu"

"Nada. O Koron ficou muito brabo comigo por ter feito o Aoi o beijar! Ele nem olha mais pra mim"

– O RUKI, DA PRA TERMINAR A PORRA DO BANHO DE NOITE AINDA? – A delicadeza do Uruha esmurrando e gritando na porta.

"Posso te ligar? Gostaria de conversar com você"

"Nee Reita, conversamos mais amanha. Eu to no banho e tem mais três esperando pra usar o negócio aqui"

"Ahh tá. A gente se vê amanha na escola então! Boa noite!"

"Boa noite Reita!"

Deixei o celular em cima da pia novamente pra poder finalmente entrar no Box e tomar meu banho e dez minutos depois dava passagem para o Uruha entrar no banheiro no meu lugar. Peguei alguns lençóis de casal da minha mãe pra forrar os colchões e após tudo pronto, me perguntei de Miyavi e Kai não estavam se demorando demais na cozinha, mas sinceramente, não quis me arriscar em descer pra ver o que eles estavam fazendo, mas nem bem terminei de pensar nisso e ouvi a voz do Kai.

– O que? O Uruha ainda tá no banho? – Ouvi a voz de Kai quando ele adentrou o quarto.

– Sabe como é a diva! – Disse, mesmo sabendo que o maior estava atrasado por minha culpa. – Ele já deve estar saindo, eu vou levar o Myv até o quarto da minha mãe. – anunciei indicando ao tatuado que deveria me seguir.

– A Emi não vai se importar de eu tomar banho no quarto dela não nee – Perguntou o tatuado já tirando a camisa e a deixando no nosso quarto antes de começar a me seguir.

– Claro que não. – Disse observando o corpo de Miyavi, quer dizer, observando as tatuagens que cobria praticamente todo o corpo de Miyavi.

– A casa de vocês está muito mais bonita do que eu lembrava. – Elogiou admirando o corredor por onde passávamos.

– E esses corredores sentiram sua falta por todos estes anos também. – Disse o abraçando e lembrando de a gente correndo pela casa quando éramos menores.

– Tomara que a Emi só ligue amanha pra minha mãe, eu quero tentar convencer ela a não deixar minha mãe pilhada. – Ele disse já entrando no quarto que sabia ser da minha mãe.

– Se você saiu da escola e foi trabalhar no cinema, ela não só vai deixa sua mãe pilhada como vai fazer ela vir pra cá. – Disse o acompanhando e indicando a porta do banheiro.

– Isso até que seria bom, eu to com muita saudade dela. Mas que ela vai brigar comigo ahh isso ela vai. – Riu, mas eu pude perceber que estava meio nervoso com a ideia.

– Então.. – Comecei tentando mudar de assunto, visto que aquele não estava sendo muito bom para ele. – Internatos costumam ter salas de tatuagens nos refeitórios? – perguntei percebendo q ele não ia esperar eu sair pra terminar e tirar a roupa, ajudei indo pegar uma toalha assim q ele ligou o chuveiro e entrou embaixo da água.

– Eu não teria saído de lá se fosse assim. – Ele riu. – Os alunos podiam sair pra cidade aos finais de semana, como eu não tinha o que fazer comecei a conhecer a cidade e acabei fazendo amizade com esse cara. Ele faz umas artes bem legais.

– Mas a gente foi te ver na páscoa e você nem as tinha...

– Tinha sim, eu só não tinha na mão. Acho que estava frio quando vocês foram e eu estava empolgado demais com a visita pra perder tempo com detalhes.

– Mas você está muito diferente, juro que achava que a foto do teu Skype era uma menina. – Ri.

– Era mais ou menos a intenção. Era a do cabelo roxo nee...

– Roxo, verde, azul e sabe-se lá qual cor mais.

– Como disse, tinha muito tempo livre. – Ele riu.

– Mas estava bonito, não devia ter tirado.

– Bom, eu tive que voltar pra casa da vó, e bem...

– Eu entendo, ainda lembro bem da sua avó. – Eu não tinha avó, mas conhecia a vó do Miyavi e a avó do Kai mas elas eram completamente opostas então era difícil formular um padrão.

– Ela está doente. Emi-san não quis me dizer, mas pela forma como ela falou comigo depois deu pra sacar que e coisa seria.

– Pera aí, você saiu da escola pra ajudar sua vó? Quer dizer, a vó que te tratava como um bastardo ou coisa pior? – Isso me chocou, e me vi pensando se fosse comigo, se eu seria capaz de agir assim com uma pessoa que somente me fez mal.

– Mais ou menos assim, só que com menos escolhas. – Respondeu desligando o chuveiro e pegando a toalha.

Neste momento percebi que tinha assistido todo o banho dele sem nem ligar porto fato dele estar pelado, e finalmente entendi o que o Kai quis dizer sobre só ter problemas com Reita nu. Miyavi era bonito, tinha um bom corpo, mas ao mesmo tempo erra como..sei lá, ver minha mãe tomar banho.

– Ei, se vai ficar olhando minha bunda eu vou descer até o chão. – Brincou.

– Baka! – Xinguei sem conseguir deixar de rir.

– Além do mais, deixa o seu namorado ficar sabendo. – Continuou brincando, mas pera aí, que porra foi...

– Que porra que cê disse aí? – Perguntei indignado.

– Nee você falou tanto do tal Reita e aí quando eu cheguei tinha o garoto com a faixa no nariz. Eu pensei obviamente que fosse seu namorado.

– Obviamente você chega na casa do seu irmão de criação e procura um namorado para ele? – Se fosse qualquer outra pessoa falando aquelas coisas eu ia ficar muito irritado, muito irritado mesmo, mas era o Myv ali. Eu sabia que podia contar com ele para tudo.

– Então é moda os meninos daqui cobrirem o nariz com uma faixa? – Perguntou.

– Não. Aquele é o Reita sim, mas ele não é o meu namorado. E eu não estou em busca de namorado. – Disse frisando o "o" no final da frase. – Na verdade, não estou em busca de nada. – Dei de ombros.

– Sei, então ou você está se enganando ou está tentando me enganar, porque, do jeito que você falava do tal Reita pelo chat... não é amizade não irmãozinho.

– Você consegue entender isso Miyavi? Este tipo errôneo de sentimento? – Perguntei sendo o mais sincero comigo mesmo do que já tinha conseguido ser até ali.

– Tá, olha só, o cara das tatuagens, ele não era só um amigo. E se é pra dizer a verdade, aquelas covinhas do teu amigo me deixam aceso. Mas eu não entendi o que você quis dizer com sentimento errôneo.

– Eu sei lá Myv, por mais que eu sinta coisas pelo Reita, por mais que eu queira ele perto de mim, isso parece tão...errado. Nada apaga da minha cabeça essa voz que diz que as coisas não deveriam ser assim.

– O seu problema está no fato dele ser um garoto? – Perguntou e eu só pude assentir com a cabeça, sentindo novamente aquele calor na ponta do meu nariz. Mas que merda eu não vou mais chorar por hoje, não por este mesmo motivo besta.

– Você tem medo? Tipo, de como as coisas acontecem entre dois garotos, ou medo das coisas que implicam assumir que você escolheu outro garoto para ficar ao seu lado? – Ele continuou me interrogando a fim de entender melhor a situação.

– Eu não tenho medo. Existe a certeza de que eu não devo querer ficar com outro garoto.

– Por quê?

– Eu não sei. – Desconversei.

– Tem que ter um motivo Ruu-chan, e eu não vou conseguir te ajudar se você não me falar. – Disse olhando fixamente para mim, sério.

– Você me conhece Myv, sabe de toda a nossa história, minha e da minha mãe. A única família dela sou eu, como eu posso querer ser egoísta em realmente por um ponto final na nossa pequena família?

– Ruki a tua mãe te adora! E a família não é só vocês dois não, a família dela também tem minha mãe e o Joe, e eu. E pelo que pude perceber da convivência aqui, tem também Uruha e Kai. Não são só laços de sangue que formam uma família, afinal, você é ou não é meu irmão? – Concordei com ele em um aceno.

– Eu só não quero, não consigo e não posso decepcionar minha mãe. – Respondi, talvez a vinda dele para cá tenha sido a melhor coisa a acontecer. Eu precisava daquela conversa, e agora percebia, ela só podia acontecer com ele. – Ela já se sacrifica tanto por mim.

– Exato. E eu tenho certeza que todo o sacrifício dela será em vão se você sacrificar sua felicidade por um motivo bobo como esse. Ela faz tudo o que ela faz pra você ter o melhor e ser feliz Ruki, seria o maior fracasso para ela como mãe ver que o filho deixou de ser feliz em algum momento preocupado com que ela fosse pensar.

– Não sei, eu sempre tive fixo na minha cabeça que eu iria encher a casa dela novamente.

– E você fez isso, você já deu mais dois filhos pra ela. Mas você não pode se forçar a algo que naturalmente não gosta. Eu sinto muito pelo seu orgulho Ruu-chan, mas cada um é do jeito que é, você vai ser muito infeliz se negar a si mesmo e eu não vou ficar só parado vendo meu irmão se amargurar em ressentimento.

– Obrigada Miyavi, eu acabei de perceber que estava precisando muito desta conversa.

– Reita vai ser meu cunhado? Vou aporrinhá-lo até o fim da vida, melhor, vou torná-lo meu escravo. – Disse com humor.

– Não. Eu ainda não consegui calar a voz aquela que me diz que isso não está certo, mas me ajudou muito.

– Você precisa é ter esta conversa com a sua mãe.

– O que? Ficou louco?

– Não. Mas você tem a melhor mãe do mundo, ela com certeza vai saber te ouvir e te dizer o que você precisa ouvir com sinceridade.

– Você contou pra sua mãe do cara da tatuagem?

– Sim. Não é só porque ela está lá no outro lado do mundo que não é a pessoa que melhor me conhece.

– Que gay, eu vou vomitar purpurina com você por perto. – impliquei.

– Tá bom miss regurgitações de purpurina, vamos voltar saltitantes para o seu quarto, por favor. Eu estou com sono.

– Baka. – reclamei dando um soco leve no braço dele. – Nee Myv não comenta nada sobre essa conversa com os meninos ok, você vai perceber que eles pegam pesado comigo nesse assunto.

– Pode deixar!

– Não é pra contar nem pro Kai.

– Nem pro Kai. – Ele repetiu.

– Nem depois que ele der dois ou três sorrisos!

– Depois do segundo sorriso de covinha eu não prometo mais nada! – Disse tomando a frente para sair do quarto da minha mãe.

Eu só fui em silencio, precisava de muitas noites de sono para organizar todas as coisas na minha cabeça. Acha que é pouco?

Reita nu. Reita me chamando pra sair, como amigos claro. Uruha é gay. Uruha é apaixonado pelo Aoi. Aoi e Reita trabalham pro Joe. Reita quase me beijou. Kai estava ficando com o Nao, mas é apaixonado –inesperadamente– pelo cara que eu chamo de irmão, que também se declarou gay.

E sim, eu estou fodidamente apaixonado por Akira, mas antes de achar um jeito de aceitar isso, preciso falar com a minha mãe. Tipo, o que eu vou dizer pra ela afinal?

Decididamente, eu preciso de muitas horas de sono pra por tudo isso em ordem.