Capítulo dez: Garbage

Por Kami-chan

Garbage.

Quando Joe me ligou sugerindo um jantar e disse: Hoje vamos estourar a boca do balão.

Eu sabia que ele ia querer ir em um restaurante fino, mas eu nunca poderia esperar por isso. Eu tinha apagado o Gabage tão firmemente da minha memória que nem quando ele me passou o endereço eu o identifiquei.

E tinha um bom motivo para isso, eu só tinha más lembranças daquele lugar. Ele representava tudo o que a minha madrasta queria que eu fosse, e nada do que eu realmente era.

Nós íamos naquele lugar toda semana com diferentes companhias. As cadeiras anatômicas e forradas em pelica me pareciam feitas de pedra, a luz baixa a amarelada ideal para o ambiente aconchegante mais parecia o quadrado pequeno no topo de uma cela fria, por onde o condenado admirava o céu que nunca alcançaria.

A comida refinada e premiada tinha gosto de estragada e a carrne macia parecia mais com grilos sendo mastigados, crepitando em minha boca. Os talheres pesados de prata eram como armas de tortura que me obrigavam a ingerir um perigoso veneno letal que me matava pouco a pouco sem que ninguém percebesse.

Aquele lugar me lembrava da bonequinha de porcelana que eu deveria ser simplesmente por ser quem era. Me sentia sem o direito de ser uma pessoa, apenas um personagem de mim mesma.

Eu odiava aquele lugar, tinha cheiro de passado, da vida que eu deixei para trás. Mas agora era Joe quem me esperava ali, eu não ia ligar para ele pedindo para irmos em outro lugar. Eu queria ser mais forte do que todas as minhas lembranças ruins e sorri gentilmente para o responsável pelo local quando o mesmo abriu a porta para de vidro para que eu entrasse.

– Boa noite senhora. – Disse sorrindo.

– Boa noite, estou sendo aguardada pelo senhor da mesa dezessete. – Respondi-lhe.

– Por favor, deixe-me conduzi-la até sua mesa. – Ele disse me oferecendo seu braço cordialmente e eu o segui em silencio.

– Aqui está. Posso trazer-lhe um aperitivo? – Perguntou enquanto puxava a cadeira para que eu me sentasse.

– Chardonnay, por favor. – Respondi e me foquei em Joe, era engraçado vê-lo de terno.

– Temos excelentes safras Australianas e Argentinas, senhora.

– Australiana. – E ele confirmou em um aceno e se foi.

– Desde quando você sabe pedir bebidas assim? – Joe zoou.

– É o que se espera que uma mulher peça em lugares assim. – Disse de forma simples.

– Iii pela tua cara eu não escolhi o lugar certo. – Disse fazendo uma careta engraçada.

Joe sabia que eu e Hiroki tínhamos sofrido muito nas mãos de nossas famílias. Foi ele quem acobertou a ida dela para a Coreia, e escondeu a mim e Masahito quando decidimos nos casar.

Ele era meu padrinho de casamento e padrinho de Takanori. Com certeza Joe era o meu melhor amigo, mas ele nunca, nunca, soube de todas as coisas que eu passava dentro de casa. Nunca soube os motivos de eu não ter apenas fugido, mas ter mudado de nome e realmente apagado minha família de vista.

– Vinha aqui toda semana. – Respondi-lhe fazendo uma careta ao ter visões em flashes de noites que estavam somente no passado.

– Foi mal Emi. Se você não se sentir bem aqui nós podemos ir para...

– A companhia de hoje é muito melhor do que a do passado. – Sorri e ele me acompanhou.

– Então me faça um favor, não haja como no passado. Ver você falando como uma madame me assustou. – Ele riu mais alto e neste momento o meu vinho chegou, não pude evitar bebe-lo em quase um gole só.

– Hey..também não é pra tanto Emi. – Repreendeu. – O que há de errado?

– Tem que ter algo errado pra eu querer beber um pouco? – Retruquei com humor.

– Com certeza!

– Eu não te disse que ia conversar com o filho da Hiroki?

– Você foi hoje até o internato? Seu afilhado não está bem?

– Não fui até lá. Ele largou a escola, na verdade, foi expulso por inadimplência. Estava bem pertinho de nós, na verdade, perto de você. Trabalhando no balcão de comes e bebes do cinema.

– Tá me tirando Emi? A Hiroki não ia deixar de mandar dinheiro pro filho e ela manda muito dinheiro pra ele que eu sei.

– Ela manda muito dinheiro para a conta bancaria da mãe, crendo que a velha repassa o valor referente a mensalidade para a escola e o restante seja usado para o bem estar do filho.

– Ela fez mesmo isso? Eu não conheci a mãe dela como você conheceu, mas eu sei bem das histórias que você me contava, sobre vocês e depois que a Hiroki engravidou tudo o que ela fez com o neto. Por que a Hiro-chan mandaria dinheiro para a mãe?

– O colégio não aceitou receber diretamente da conta dela que é no exterior e Miyavi ainda é menor de idade para movimentar uma conta correte. E em conta poupança ela não pode depositar do exterior.

– Ela podia ter repassado pra você.

– No fundo, eu sei que ela sempre quis que a mãe a amasse novamente. Talvez essa era a forma que ela tinha de não perder um último elo com a velha.

– É compreensível. – Disse Joe.

– Não é não. Você não sofreu tudo o que eu e ela sofremos nas mãos daquela mulher.

– Sofreu mais com ela do que com a tua família?

– Olha...a mãe da Hiro-chan pelo menos sentia ódio por mim, minha mãe não tinha sentimento nenhum. Mas esse não é o foco no momento Joe, o Taka foi expulso da escola porque a avó não repassou mais o dinheiro e quando ele voltou pra casa descobriu que a velha estava usando o dinheiro dele pra medicamentos, e ele ainda arrumou um emprego pra poder manter estes medicamentos.

– Ele sempre foi um moleque bem avançado pra idade dele, desde bem pequeno. – Comentou.

– Eu não conseguiria cuidar de alguém que fez pra mim tudo o que aquela velha fez para ele. – Admiti.

– E o que ela tem pra precisar de tanto dinheiro assim.

– Câncer no intestino, com metástase no cérebro. Eu vou levar ela pro hospital amanha, não consigo ver um motivo pra ela não estar em um hospital internada a não ser que tenha renegado parte do tratamento ou sei lá o que... vai ver só quis fazer uma última maldade com o neto que ela odeia antes de morrer.

– Que horror Emi!

– É verdade Joe, vou levar ela ao médico somente para que seja internada e receba remédios mais fortes para dor até que morra. E estou fazendo isso pelo meu afilhado e minha amiga. O problema vai ser ligar para Hiroki amanha depois que sair do médico e passar toda a situação.

– Ela vai ter que vir pra cá o quanto antes.

– Vai e vai descobrir outra coisa triste, eu sei a quantia que ela mandava em dinheiro e eu sei o valor da mensalidade daquela escola. Eu posso garantir que não havia nenhum dinheiro extra chegando até Miyavi.

– Miyavi? – Questionou.

– Mais um apelido, acostume-se – Ri.

– Hey Emi não se preocupe, vamos estar todos juntos. – Disse passando a mão por cima da mesa, tocando a minha em um sinal de força, que eu estava precisando diga-se de passagem.

– Mas você tinha me chamado aqui para negócios certo? Não vamos ficar aqui falando de drama. Que assunto é esse que faz você marcar um encontro às pressas comigo no Garbage?

– Ahh bom, você sabe que os Abomináveis fizeram um teste de som hoje no anfiteatro da cidade?

– Claro Joe!

– Sabia que o sistema de som do anfiteatro não aguentou o som deles?

– Oficialmente eu não sabia, mas não precisa ser um gênio para imaginar algo assim.

– Bom isso me fez pensar, é a primeira vez que uma banda internacional em nível da Abomináveis vem para a nossa cidade e nós dois conhecemos uma casa de shows que suporta a quantidade de fans e o som deles.

– Ahh não Joe, o projeto não está pronto e mesmo que tivéssemos dinheiro para terminar isso até a data do show, tem muitas outras coisas como alvarás e essas coisas que existem por trás dos bastidores.

– Bom, eu preciso ser sincero com você. Quando eu soube que esta banda viria para cá eu fiz um levantamento do que a nossa casa de shows precisa para funcionar fiz um empréstimo no banco e já mandei o pedido para perícia para liberação e alvará, mas eu preciso de você nisso o projeto inicial desta casa é todo seu, você é quem sabe onde cada tomada tem que estar e tudo mais.

– Mas Joe, isso é loucura. Mesmo que terminemos a parte dos shows apenas nós precisamos de movimento de dinheiro para pagar empréstimos e todas as outras coisas.

– Por favor Emi, confia em mim. Eu tenho os contatos certos, uma banda com a estrutura dos Abomináveis é tudo o que a gente precisava.

Era uma vez um menino e duas meninas, que junto com seus amigos montaram uma banda de rock e junto com ela um sonho regado de música. Mas um dia um dos meninos da banda morreu, e a banda se desfez junto com os sonhos desfeitos que agora só tinham mais o eco da música.

Aquele menino tentou se manter fiel ao sonho e abriu uma loja de instrumentos musicais e acessórios, uma das meninas viu uma oportunidade única no outro lado do mundo e os deixou e a outra menina, com mais responsabilidades na vida resolveu escolher um curso na área da saúde e trabalhava no hospital da cidade.

Os três cresceram profissionalmente, a lojinha do menino do menino hoje era a maior da cidade, a menina que correu atrás da oportunidade fora do país era uma grande e bem sucedida empresaria e a que ficara no hospital, hoje era a responsável de todo um setor do local e ganhava muito bem.

Aquela era a história de Joe, Hiroki e eu. A Hiro-chan, nem era tão chegada assim ao rock, mas nós a tínhamos persuadido a entrar na banda também. A banda em que eu tocava bateria e Joe baixo, meu marido e o melhor amigo dele tocavam guitarras. Mas para Joe e para mim a música era o mais importante de tudo, e com o tempo, um novo sonho começou a surgir.

Nós compramos em união o prédio ao lado do shopping onde Joe tinha loja e queríamos criar ali algo que fosse a extensão da loja dele, e ao mesmo tempo algo que ninguém antes tinha visto. Na parte da frente do primeiro andar era o pub com belo bar desenhado por mim mesma, em sequencia na parte de trás era o estádio onde aconteceriam os shows. Nos três andares acima, ocupando metade de cada andar era a boate e atrás da mesma nossos escritórios, camarins para as bandas e camarotes VIP voltados tanto para boate quanto para o estádio, e por fim, na cobertura, a nossa área VIP particular, misturado com sala de reuniões.

Era a forma que tínhamos encontrado para misturar música com negócios. Mas a construção era lenta e envolvia muito dinheiro, fazia muito tempo que faltava pouco para terminar aquilo e o trabalho estava parado. A parte final era a mais detalhada e envolvia muito dinheiro, mesmo que finalizássemos apenas a área de shows, era loucura demais fazer isso assim às pressas só por causa de uma banda.

Eu não duvidava que ele tinha bons contatos, Joe era esperto e vinha fazendo nossa cama de gato desde que este sonho nasceu, mas mesmo assim, era arriscado demais. Eu vinha me empenhando muito naquele hospital durante todos estes anos para poder dar uma vida confortável pro Taka, ele era o resumo da minha vida, era muito arriscado largar este conforto para se jogar no desconhecido.

– É arriscado pra mim também Emi. – Ele disse como se estivesse lendo meus pensamentos. – Eu não tenho um filho adolescente em casa, mas tenho o meu negócio também, você sabe o quanto é arriscado pra mim também. Mas confia em mim, é a hora certa.

– Eu não sei Joe, vamos fazer assim: vamos só jantar hoje, aí amanha depois que eu levar a Mitori-san ao hospital e ligar para a Hiro-chan eu vou pra casa e trabalho nisso. Aí te dou uma resposta, pode ser?

– Eu acho justo! E então madame, quer falar sobre o que enquanto come? Ahh eu tenho que pedir pra você parar de abusar dos meus empregados, o Akira voltou branco do estacionamento depois de ir até lá com você. – Disse em falsa queixa.

– Dá um tempo, esse moleque é quase meu genro. Está nos meus direitos abusar e torturar ele, eu até que fui muito querida. Quando for na sua loja de novo vou dizer que não se pode confiar alguém que não mostra nem o nariz e vou fazer o guri tirar aquela merda de pano na cara.

– Aposto duzentinhos que ele não tira! Eu quase ameacei despedi-lo no começo e ele não tirou.

– Ahhh mas o meu trunfo é maior, porque você não é o pai do Takanori, mas eu sou a mãe. – Ri.

– Eu pensei que nunca ia dizer isso, mas.. Adolescentes né.

– E você tem dois dentro da sua loja! Alias, tem algo que eu quero falar com você.

– O que? Sobre ter adolescentes na minha loja? Eu juro que não estou quebrando nenhuma causa trabalhista.

– Não, é sobre o garoto Shiroyama. Você precisa ficar de olho nele! – Disse assumindo um tom mais sério.

– Foi o Akira que o trouxe, o Suzuki é meu garoto de confiança, nunca pensei que ele me traria alguém não confiável para dentro da loja.

– Não é isso Joe, Yuu é confiável, não foi neste sentido que eu quis dizer. Eu preciso que você preste atenção nele. Primeiro, eu tenho certeza que você nem faz ideia de quem ele é.

– Akira me disse que era um amigo da escola que queria um dinheiro extra e era de sua confiança.

– Yuu é filho de um embaixador japonês, o pai dele foi enviado para cá quando ele tinha seis anos. Só a mesada que esse garoto ganha deve ser o dobro do que você paga pra ele. O pai dele não é má pessoa, mas é cultural que a criação dos filhos seja responsabilidade da esposa enquanto o marido trabalha e trás, no caso dele, muito dinheiro pra casa. Sempre foi um pai ausente, mas ano passado ou retrasado não me lembro mais, a mãe de Yuu ficou doente, ficou semanas no hospital, fez e refez exames até os médicos conseguirem a diagnosticar com esclerose múltipla e a mandar pra casa onde o marido montou praticamente uma ala hospitalar para atender tudo o que a esposa precisasse, com equipes completas de enfermagem.

– Que barra. E como o cara lidou com isso? – Ele perguntou.

– Não lidou. Até as viagens a trabalho dele duram mais agora, ele já costumava passar dias sem ir pra casa quando a mulher estava bem, e quando ela ficou ruim ele preferiu simplesmente ignorar o problema e fugir dele. Existe uma equipe para cuidar da esposa, uma para cuidar da comida e uma para cuidar da casa. Da noite pro dia o menino viu a mãe perder a saúde, e sua casa ser invadida por várias pessoas desconhecidas que tomam conta da mãe e da casa. Naquele mesmo ano o menino exemplar virou o garoto problema da escola, até reuniões foram marcadas com todos os pais pra falar sobre ele, mas eles não sabem o que acontece na casa dele, a escola apenas sabe que chama os pais do aluno e eles não comparecem, mostrando desinteresse.

– Então ele é um menino que precisa de atenção. Eu também ia querer arrumar algo para fazer durante o tempo livre pra não ter que voltar pra casa. Quanto tempo até a mãe dele ficar boa dessa doença?

– Não há cura. Nosso sistema nervoso e como uma rede de fios elétricos, nesta doença é como se estes fios fossem desencapados lentamente até que a fiação esteja toda comprometida e o sistema pare de funcionar completamente. É bastante triste de assistir na verdade, e não da pra dizer com certeza quanto tempo a pessoa pode viver, a única coisa certa é que este é um processo bem feio e doloroso.

– Meu Deus Emi e por que o médico não orienta um paciente condenado a viver sabe se lá quantos anos de dor à eutanásia?

– Primeiro porque é ilegal neste país, segundo porque decisões judiciais só podem ser tomadas depois que a pessoa só vive mais por conta dos aparelhos o que no caso dela pode acontecer só lá no final da doença, e terceiro porque existe algo que só quem sofre com estas doenças sabe o que é; esperança. De que apareça um tratamento milagroso, de que a doença não seja tão horrível quanto se espera que ela seja.

– Enfim, eu entendi o que você está me pedindo. Yuu é garoto legal, vai ser ótimo me aproximar mais dele.

Sorri com sua resposta e comecei a comer. Nem tinha percebido quando colocaram os pratos em nossa frente, Joe já tinha pedido o jantar antes de eu chegar pelo visto. Sem abertura e sem acompanhamento para o prato principal, era claro que Joe não era nada acostumado com aquele tipo de local, o que me fazia sentir muito melhor ali. E me sentiria melhor ainda se ele levantasse a mão para chamar o "garçom" e pedisse uma coca-cola.

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Respirei fundo e sorri quando cheguei em casa, sendo acolhida pelo silencio. Apoiei minhas duas mãos no alto do encosto do sofá e admirei minha bela sala, minha aconchegante lareira, a TV enorme com os consoles de TV por satélite e os vídeo games do Taka. Me virei e subi o degrau que deixava o espaço da sala de janta em evidencia, com uma mesa de madeira pesada decorada com um arranjo de rosas de bom gosto e iluminada por um belíssimo lustre de pontas. E segui pelo curto corredor que levava até a cozinha, que tinha uma das paredes coberta por uma adega de safras bem selecionadas ao meu paladar.

Sorri novamente ao chegar na cozinha bem iluminada, que normalmente era bem arrumada, mas naquela noite carregava os traços de uma arrumação adolescente e acelerada. Sua cozinha fora feita sob medida e era linda e completa, com madeira ainda mais clara que marfim. Logo voltei pelo corredor, descendo o degrau que deixa a sala de janta em evidencia e ignorando a porta fechado do pequeno lavabo que ficava entre as duas salas, subindo pela escada em mármore escolhido a dedo.

Não podia me enganar, foi o que pensei enquanto subia os degraus em travertino, eu gostava do conforto do dinheiro. No fim, algo de minha genética não tinha sido morta por Emi Matsumoto, eu tinha construído uma casa de requinte e gostava muito dela. Eu tinha escolhido tudo que havia ali, e tinha escolhido do que há de melhor. Tinha medo de perder todo este conforto, de não ser mais capaz de manter aquela casa de cinema.

Joe tinha que entender isso. Eu tinha sofrido tanto preconceito quando fugi de casa para me casar com outro adolescente e principalmente quando quis engravidar do mesmo. O preconceito por ser mãe adolescente e sozinha. Tive que omitir a informação de que tinha um filho quando fui estudar e mais tarde quando consegui meu emprego no hospital geral da cidade, levou anos até que eu pudesse dizer para uma ou outra pessoa que tinha um filho, muitas até hoje não sabem da existência do Taka.

Eu tive que negligenciar meu filho tantas vezes quando este era mais pequeno, mesmo que este não se lembre. Eu não posso correr o risco de dar uma vida que ofereça menos do que já temos para ele. Foi muito difícil chegar até aqui.

Parei no alto da escada admirando o corredor com espelhos e quadros, a porta de mais um lavabo, a do meu escritório/biblioteca, minha suíte e a suíte do Taka entreaberta indicando a luz apagada e o brilho da TV dançando pelo aposento. Mais além o corredor ainda fazia uma dobra, onde ficava escondida a escada para um mesanino que era usado como sótão, e que a partir de amanhã, seria o quarto de Miyavi.

Caminhei até o quarto dos garotos para desligar a TV, mas me surpreendi ao abrir levemente a porta. Na ponta de uma fileira de corpos adormecidos, meu Taka estava de olhos abertos, com o telefone em mãos.

Sorriu ao desviar sua atenção da tela para mim. Eu tinha tanta sorte por ter este menino.

– Eu estou sem sono. – Ele disse baixinho ao ver aproximar-me.

– Ficar mexendo no telefone não é a melhor opção. – Respondi, eu já tinha passado toda uma explicação para ele sobre como o brilho da tela do telefone ou do computador inibia a produção do hormônio que dava sono, e se ele não largasse aquela coisa, pode ter certeza, eu ia fazer ele dormir na marra com um discurso sobre fisiologia.

– Eu sei, mas é que... – Ele olhou mais uma vez para a tela antes de fechar os olhos e balançar a cabeça negativamente antes de travar o telefone e o soltar.

– Taka eu não me esqueci que você estava chorando ontem quando cheguei em casa e que chegou chorando hoje também. Eu sei que você se organiza melhor pensando sozinho, mas eu estou ficando preocupada, principalmente se agora você estiver perdendo o sono pelo mesmo motivo.

– Não se preocupe mãe. – Disse sorrindo. – Eu só preciso de um tempo para entender melhor algumas coisas.

– O legal de ser mãe é que a gente já entendeu muitas das coisas que os filhos querem entender, sabia. – Respondi também lhe sorrindo. – Você pode conversar comigo.

– Eu vou mãe, mas antes eu preciso saber exatamente sobre o que vamos conversar. – Disse em um tom meio redundante.

– Claro. – Disse olhando para os garotos ali. – Por que Akira e Yuu não ficaram para dormir?

– Hãn? Não sei, nem pensei em pedir para que ficassem quando disseram que iam embora. Acho que eu não queria o Aoi dormindo aqui. – Só suspirei, fazia tempo que a amizade entre meu filho e o Shiroyama tinha se acabado.

– Tudo bem. Dorme agora, já está muito tarde e todo mundo aqui tem que acordar cedo amanha. – Disse me abaixando mais para lhe dar um abraço.

– Boa noite mãe. – Disse ao me abraçar de volta.

– Boa noite meu amor. – Eu realmente tinha muita sorte em ter este garoto.