Capítulo doze: Cabuloso
Por Kami–chan
A mente vazia, uma tela em branco alva e vigem esperando pelos traços firmes da mão que irá a preencher. Pensamentos aleatórios, traços de um esboço a carvão formando apenas o início da grande arte, fruto do desejo do pintor. Conclusões confusas, um esboço pronto completamente borrado e sem cor.
Mesmo sem querer eu sei que é em você que estou pensando, e os traços do seu rosto ficam claramente visíveis no desenho. Meus olhos se fecham e cada traço e expressão do seu rosto se forma em giz pastel. Então a mente vazia tem cor e forma e minha tela se preenche com o sorriso raro, que você deveria mostrar somente a mim
Então me pego pensando: por que eu insisto em manter este seu retrato nas paredes do meu coração, se não devia se quer te–lo rabiscado.
Meus olhos se apertam, quero uma nova tela em branco para pintar com outros traços. Mudo a cor dos cabelos, desenho um sorriso ausente, quero ter o retrato de outra pessoa que não você.
Loiro, ruivo, moreno, negro, baixo, gordo, com sorriso, sem sorriso. Os traços ainda são os mesmos, os olhos, os lábios. Não importa o que eu desenhe, ainda é você. Fracasso! Não consigo pensar em mais nada se não em você.
– Hey Ruki o que está psicografando aí? – Melissa, minha colega de classe.
Sim, nós temos uma bosta de espelho de classe. Motivo: Aoi. Ele tinha o hábito de sempre se sentar com o que poderia ser chamando de "vítima da semana", não pensem em bulling ele é magrela e fracote o suficiente para apanhar do maior fracassado da escola.
As vítimas eram mesmo garotas, e fosse quem fosse a garota que sentasse ao lado dele na semana estressava a turma toda. Garotas com ciúmes, birras e pegação no meio da aula que deixavam alunos e professores malucos. Aí fizeram a porra do espelho e não pude mais me sentar com Kai.
A única coisa legal dessa coisa toda é ver Yuu sentado na classe em frente a mesa da professora ao lado de Maicon, um daqueles que poderiam ser chamados de fracassados. Mas isso seria politicamente incorreto.
– Primeiro Melissa, não é da sua conta o que eu escrevo no meu caderno. Segundo, se estivesse com média três em história não ficaria prestando atenção nas coisas que os outros fazem e sim na aula. – disse.
Eu sempre fui bem claro em mostrar para as pessoas daquela escola o quanto não as suporto, mas eu tenho que dizer, as meninas da minha sala são as piores. Só podia ser a lei da atração, porque eu não vejo outra razão para tanta futilidade reunida no mesmo lugar.
A garota só fez uma cara feia e ficou tentando ler o que eu tinha escrito de canto. Com certeza em busca de alguma informação tirada dali que pudesse ser usada para se vingar, sabe aquela imagem fofa que garotas deveriam ter, foda–se, as da minha turma não tinham nada disso. Elas eram quase que uma gang dentro da escola, um grupo brigando com outro por causa de coisas sem sentido, fazendo grupos para bulling e tudo mais. É roleta russa amigo, são meninas metralha.
Virei a página do caderno sem me dar ao trabalho de olhar para ela, garota estúpida. Ia arrumar alguma outra coisa mais interessante que história e mais saudável do que palavras sem sentindo sobre mente vazia e tela em branco, quando o visor do meu telefone acendeu dentro do meu estojo.
"Tive prova trimestral de química e já estou liberado, espero vocês no canteiro próximo ao parque da educação infantil"
Era o número do Reita. Olhei a hora na tela, nove e cinta e dois, só mais uns dez minutos e estaríamos na hora do intervalo.
E eu não sabia como encarar o Reita!
Quer dizer, esse cara quase me beijou ontem e me deu um beijinho de esquimó. Que não é tão embaraçoso quanto um beijo de verdade, mas é tão gay quanto.
E se ele tivesse percebido a forma como eu estava tremendo feito uma criança perdida em dia frio e chuvoso, sem guarda–chuva e nem galochas. E se ele tivesse percebido que se quisesse realmente ter me beijado, conseguiria?
Com que cara eu devia olhar para ele? Seria melhor eu agir como se nem me lembrasse do ocorrido, como se tudo não tivesse passado de uma brincadeira corriqueira? Mas com certeza um dos idiotas iria fazer algum comentário e não me deixaria esquecer essa merda.
– O Ru–chan está no mundo da lua. – Quando dei por mim Uruha e Kai estavam na minha frente, Uruha passando a mão espalmada diante dos meus olhos pra cima e pra baixo pra ver se eu prestava atenção, me irritando.
– Foda–se Uruha. – Reclamei.
– Ahh não, ele já está bem. – Se retratou como se estivesse muito preocupado com minha habitual mania de desplugar.
– Vamos Ruu–chan, a gente só tem vinte minutos de intervalo e você ainda fica enrolando aqui.
– Hey... – Aoi se aproximou, era estranho ver ele se aproximar assim novamente. Eu não queria ele por perto, não confio nele nem um pouco. – Reita me mandou uma sms, está nos esperando perto do pátio da educação infantil.
– Hm...ele te mandou uma também? – Perguntei com desdém.
– Pra mim ele não mandou. – Disse Uru.
– Nem pra mim. – Disse Kai.
– Acho que ele só teria mandado pro Ruki se não corresse o risco do Ruki ir e não me avisar. – Aoi disse com humor, era muito irritante a forma como ele demonstrava que todo o meu ódio não o atingia.
– Não é risco, eu nunca te chamaria para ir para algum lugar comigo Aoi. – Respondi, foda–se você.
– Tanto amor entre vocês dois me emociona. –disse Kai com realmente nenhuma emoção. – Vamos logo ainda tem que comprar lanches na cantina. – Disse empurrando Aoi e eu na mesma direção para fora da sala.
– Vão me dando logo o dinheiro que com sorte não tenha terminado ainda tudo o que é bom naquele local. – Disse Uruha estendendo a mão.
– Ué não é você que vive se gabando por ter estas pernas, faça jus a tudo o que você acha que elas são capazes e corra até a cantina. – Impliquei.
– Passa lago a droga do dinheiro se quer mesmo comer Rukiko. – Retrucou de forma birrenta e após pegar a grana de todo mundo, inclusive Aoi, Uruha correu na direção da cantina.
– Não esquece Uruha, doce. – Berrou Aoi.
– Etto...Ruki–nee você acha que seria estranho se eu ligasse pro Miyavi pra perguntar se deu tudo certo lá com avó dele? – Kai perguntou assim que ele, eu e Aoi seguimos pelo corredor. Dei de ombros.
– Faça o que tiver vontade. Acho que ele ia gostar se você ligasse para ele em qualquer situação. – disse lhe entregando o meu celular, pois ele não tinha o número. Por enquanto é claro. – Hey onde você vai? – Gritei ao velo começar um trote rápido.
– Pra longe de vocês, é claro. Eu não sou louco pra deixar que vocês usem isso pra curtir com a minha cara.
Aí eu até sorri ao ver ele correr com meu telefone em mãos, mas me lembrei que em menos de um minuto eu acabei ficando sozinho com Aoi. Estávamos na entrada do corredor, já na divisa com o pátio e travei olhando para aquele idiota. Por que eu tinha que ficar sozinho logo com este imbecil?
Houve então um momento em que nos encaramos. Aquele ser não tinha nada além de uma expressão levemente divertida no rosto e um sorriso zombeteiro, e com todo escárnio eu travei onde estava com uma vontade insana de bater com a cabeça dele no concreto do chão.
Eu vi um filme da nossa infância rodar diante de meus olhos e concluí que não precisava e nem iria andar ao lado daquele animal fedorento. E em algum momento eu creio que ele finalmente percebeu a situação, pois pigarreou, coçou a nuca e começou a falar.
– Etto... eu preciso ir ao banheiro. – Ele disse, baka.
– Quer que eu segure ou balance, imbecil?
– Não, na verdade eu estou te avisando que é pra você ir atrás do Reita sozinho, bebe chorão. – Finalizou utilizando o apelido que lembrava demais do motivo pelo qual eu vivia apenas esperando um bom motivo para esmurrar aquele duas caras.
– Quando tu tá sozinho tu te revela né idiota, espera pra ver Aoi, eu ainda vou enterrar minha mão na tua cara.
– Vira homem primeiro.. – Zombou dando de ombros, mostrando mais uma vez sua indiferença diante todo meu sentimento de ódio, enquanto tomava o sentido da esquerda para onde ficavam os sanitários mais próximos de nós.
E tudo o que eu fiz foi ir em frente em direção onde sabia que Reita estava nos esperando. Meu ódio por Aoi não valia uma briga dentro da escola, não valia uma confusão na rua, ele era insignificante demais para isso, entretanto, era incapaz de consumir minha vontade esmurra-lo. Jamais compreenderia como um cara legal como Reita anda ao lado dele, como um cara como o Uru se apaixona por alguém assim. Dedo podre pra escolher companhia, só pode, ambos andam comigo também.
Por outro lado, ver ele agir assim quando está sozinho comigo foi bom, bom pra lembrar o motivo por não querer mais sua amizade, e para ver que ele continua sendo tão idiota quanto era. Se eu pudesse simplesmente excluí–lo, eu podia apenas roubar o Reita para mim e fazer o Uru perceber que tipo de imbecil que ele era, mas não. Talvez seja apenas comigo, é.
Reconheci o moicano do Reita de longe, ele estava sentado no canteiro do pátio da educação infantil que era feito de pneus cortados no meio e pintados um de cada cor, legal era que ele não estava sozinho. Quando cheguei mais perto pude reconhecer os lindos cabelos ondulados de Rebeca Rose.
Reduzi oi passo sem saber se devia ou não me aproximar, e travei ao lembrar do jogo da noite anterior, quando ele se disse apaixonado por alguém. Em meus devaneios eu vi ela, principalmente por ser a mais bela, mas era diferente ver de imaginar, doía bem mais do que o suposto. Vê-los assim lado a lado, ele sentado em um pneu azul e ela em um amarelo conversando de forma amigável. Devia me aproximar? Estaria sendo inconveniente?
Ia atrás de Kai ou de Uruha quando Reita ainda sorrindo de Aldo dito por Rebeca virou o rosto em minha direção, e de forma surpresa chamou meu nome, fazendo a morena olhar para trás com ainda mais surpresa em sua expressão. A pele alva e clara da menina que tinha o rosto semelhante ao de uma boneca de porcelana tingiu–se em rubro e uma risada nervosa acometeu o timbre doce de sua voz, por certo que estava a ser um grande inconveniente, devia estar estragando algum momento entre os dois.
– Etto.. desculpe por interromper, espero não ter sido inconveniente. – Resmunguei constrangido, de alguma forma, era difícil encarar qualquer um dos dois.
– O que? Inconveniente? Não tire conclusões precipitadas Ruki, Akira e eu estávamos apenas jogando tempo fora. – Ela disse com pressa. – Até amanha Akira, agora que você não está mais sozinho eu posso ir embora. Err..tchau Ruki. – Disse já de pé e de frente para mim, acenando com uma mão enquanto segurava seu fichário com outra contra seu corpo pequeno, com o rosto ainda mais rubro, se é que isso ainda lhe fosse possível.
– Eu realmente não queria interromper Reita, desculpe. – Pedi me aproximando, agora que a garota já tinha ido embora não tinha porque não.
– Não havia o que interromper Ruki, além do mais eu estava esperando por você. Bom, talvez você e mais algumas pessoas. – Brincou. – Onde estão os outros?
– Kai foi ligar pro Myv, Uru foi comprar lanches e o Aoi foi ao banheiro. É serio Akira eu não queria ter interrompido vocês.
– Eu já disse que não interrompeu! – Ele repetiu, desta vez sorrindo. Maldito sorriso.
– Mas...era a Rebeca Rose sentada aqui com você, e bom, ontem à noite você disse que...
– Não estou interessado em Rebeca Rose, Ruki. – ele me cortou.
Por um lado fiquei tranquilo, por outro eu queria que fosse ela. Eeu podia olhar para ela citar incontáveis qualidades que justificariam ele te ser apaixonado por ela. Mas se não era Rebeca, quem seria?
– Além do mais, – Prosseguiu. – Ela ainda é apaixonada por você, caso não tenha percebido.
– Rebeca Rose é bonita, inteligente e tem um ótimo coração. Eu não sei o que alguém como ela vê em alguém como eu.
– Bom, você é bonito, inteligente e tem um ótimo coração. Não deixa ninguém perceber, mas é tudo isso. Talvez ela seja uma dessas pessoas com sensibilidade para desvendar pessoas.
Ele disse que... ele disse que sou bonito, inteligente e tenho um ótimo coração? Disse.
Por certo que apenas quis fazer referencia ao que eu disse dela, ainda assim, mesmo que só repetindo minhas próprias palavras, soa como que se ele me achasse alguém possível de se amar. Esta ideia fazer nascer um sentimento inominado percorrer como algo quente por todo meu corpo.
Como se chama isso?
Como lidar com isso?
Como demonstrar isso?
Eu deveria demonstrar isso? Por certo que não.
– Baka! Não diga essas coisas cabulosas. – Brinquei dando um soco em seu ombro.
– Ué eu quase te beijei ontem, então pensei em dizer umas coisas fofas pra ver se conquisto o seu.. – ele fez uma careta forçada para demonstrar que estava lembrando de algo. –Coraçãozinho difícil de agradar. – Terminou a piada em um tom cheio de humor.
– Continua distribuindo beijinhos gays de esquimó por aí, e de repente você conquista. – entrei na brincadeira, era um bom jeito de lidar com aquela situação da noite anterior.
– Vou sair saltitando e vomitando arco–íris.
– Eu vou na frente jogando purpurina pra você passar.
– Vou te presentear com calças douradas em nosso aniversário.
– Ahh fala sério o que você quer é realçar as curvas do meu corpinho. – disse forçando uma voz afeminada, e em seguida nada mais foi dito, apenas rimos de forma descontrolada.
Realmente era uma forma boa de lidar com aquilo, principalmente por que era muito fácil conversar com Reita. As palavras simplesmente fluíam, mesmo que não tivesse nada a dizer.
– Francamente, vocês dois quando estão juntos não prestam atenção em mais nada no mundo nee? – era a voz de Uruha, e eu olhei imediatamente em sua direção.
Eu podia aceitar que não tinha percebido o Uru chegar, mas na nossa frente esta, além de Kouyou, Aoi e Kai. Quando eles tinham chegado ali?
– Desde o "bonito, inteligente e com bom coração" – Disse Kai com um sorriso debochado entre aquelas bochechas furadas.
– Foi uma declaração linda Reita. Superou minhas expectativas. – Disse a mala do Aoi fazendo certinho com a mão, tão debochado quanto Kai.
– Cara, vocês são tão gays! – Disse Uruha, e por incrível que pareça, ele era o único que estava falando sério.
– Falou a rainha do deserto. – Retruquei. – Calem a boca vocês três. Kai da meu telefone, preciso mandar um sms da hora da reunião pra minha mãe e Uruha me passa o meu lanche que o intervalo já ta quase acabando. E Aoi, pra não perder o hábito, vai se foder. – Terminei lhe apontando o dedo médio.
