Capítulo treze: Coisas sobre ter um irmão

Por Kami-chan

O chão era de carvalho e bem lustrado, o espaço era amplo e a peça era enorme. Eu tinha dezesseis anos e nem me lembrava mais como era o sótão da minha casa. Ta certo que da última vez que eu tinha vindo aqui estava tudo tão cheio de coisas que nem dava pra ver o chão direito, mas cara, tem um pequeno banheiro aqui me cima.

Quem constrói um banheiro no sótão? Minha mãe.

O fato era que aquele lugar limpo era muito legal, Emi tirou tudo o que tinha abarrotado aqui, tinha um colchão de casal inflável no local onde a cama que ela tinha encomendado ocupará e duas araras duplas tipo de loja ao lado de um espelho enorme tinham as roupas de Miyavi. Tinha também alguns nichos com gavetas e rodinhas que ele podia movimentar para onde bem entendesse, um tapete fofo e enorme estava em frente a cama e na parede em frente tinha uma TV.

O fundo da peça ficava à direita da cama e tinha uma janela de vitral. E era lá que estava a guitarra do meu pai, delicadamente colocada em um suporte, ao lado de um amplificador e em frente a bateria da minha mãe completamente montada. Eu acho que ela deixou a bateria ali por não ter outro lugar para colocar, mas espera até o Kai saber disso.

Ahh cara que tédio já faz dez minutos que o Miyavi entrou no banheiro pra tomar banho e eu ainda não escuto o som da água caindo. Olho pra tela ligada do note no meu colo a fim de encontrar alguma ideia do que fazer, meus olhos se decaem mais uma vez na frase que diz que meu anime favorito não será lançado esta semana, eu devia assistir outra coisa.

Kai, Uruha e Miyavi voltaram conversando sobre um anime que eu nunca assisti, como era o nome mesmo? Boku no...droga, eu não lembro do resto. Vou jogar na aba de busca do site de anime.

Que burrice colocar "boku no" na caixa de busca, abriu duzentas páginas de animes. Na primeira página apenas imagens dos episódios de um anime de nome Uragiri Wa Boku no Namae o Shitteiru, as imagens são interessantes, eu não tenho nada o que fazer. Vou assistir.

– Ahh seu idiota de uma figa, demônio mais burro. Que ponto fraco idiota! O Yuki está lá morrendo de medo e você aí traindo ele com...a Yuki da vida passada. Foda-se você Luka!

– Ruki – Ouvi a voz de Miyavi, ele não estava gritando estava falando normal, mas estendeu meu curto apelido para que o mesmo levasse dez minutos pra ser dito.

– Foi mal, não te vi sair do banheiro! – Respondi, cara eu tava mesmo no episódio vinte daquele anime já? Quando foi que o tempo passou rápido assim?

– O Kai tem razão você tem uma facilidade assustadora de desplugar deste mundo e se perder em um mundo alheio.

– Eu não estava em outro mundo, estava concentrado no anime. Só isso.

– Sei. E que porcaria você está assistindo aí?

– Uragiri wa boko no namae o Shitteiru. – Porque criam nomes tão longos.

– Nunca assisti. Sobre o que é?

– Eles fazem parte de um clan com poderes especiais dados por Deus, e eles tem que combater a escuridão e os monstros e demônios que existem nela. Cada um deles tem um poder único, mas o desse Yuki é um poder misterioso, todo mundo fala que ele é muito importante e que ele é a base da vida e dos poderes de todos e que a batalha final depende dele, mas até agora só mostrou que ele pode curar as pessoas tomando as dores delas para si. Ou algo assim. E existe uma carga do passado nisso tudo, tipo, ele e esse demônio o Luka, são almas gêmeas, mas o Yuki não consegue lembrar de nada de sua vida passada, diferente do resto do povo todo.

– Exorcistas de demônios? Melhor que D-gray man? – Perguntou incrédulo de que haveria anime semelhante melhor do que aquele.

– É completamente diferente de D-gray man. Em todo coração onde há a menor sombra de dor um demônio habita até tomar posse de todo aquele ser, eles tentam limpar o mundo, estão principalmente dentro da polícia para ter acesso a casos especiais. O líder deles é um senador, acontece que tem esse meio membro do clan deles, meio demônio que é o líder inimigo. Ele que quer tanto matar Yuki para que a batalha não tenha chance de ser ganha.

– Hum.. aí esse tal de Yuki e o demônio Luka são almas gêmeas?

– São. Mas o Yuki tonto não consegue se lembrar sobre nada referente ao Luka na vida passada deles.

– Então.. é um D-gray man yaoi? – Me perguntou com os olhos brilhando.

– Mas que merda, eu já disse que não tem nada haver com D-gray man! E o que diabos você quer dizer com yaoi?

– Como assim o que eu quero dizer com yaoi? Você mesmo disse, eles são almas gêmeas, logo deve haver um envolvimento de amantes entre eles! – Disse como se fosse a coisa mais obvia do mundo.

– Por que diabos alguém teria o trabalho de desenhar algo onde dois homens se envolvem dessa forma? – Questionei. Então era isso? Ele estava me dizendo que havia um gênero de animes em que o casal de amantes eram ambos homens?

– Ai Ruki a tua inocência às vezes me da cólicas renais. – Miyavi disse agarrando o próprio tronco enquanto sentava ao meu lado no colchão inflável. – Me explica exatamente qual a relação desses dois.

– Bom, é que o Yuki na vida passada era a Yuki, uma menina, e essa menina e o Luka eram amantes. Mas ela renasceu ele e então o Luka sempre está ao lado dele, o protegendo de tudo e de todos, o ajudando e o mimando. Ele não sabe nada sobre o Luka, mas sempre quer estar do lado dele e se sente calmo e seguro do lado do demônio, também com todo aquele poder não tem como não se sentir seguro. – mas foi só eu terminar de falar isso que ele surtou arrancando o note do meu colo.

– Ah desliga essa merda, essa merda, essa merda! Ruki não assista essas porcarias shonen-ai isso é a pior coisa do mundo. É o pior gênero de anime que já criaram, você assiste o romance todo querendo ver pelo menos um beijinho entre o casal principal, mas nunca acontece nada além de uma frase como "quero andar sempre ao seu lado". Nunca mais assista essa merda!

– Que casal Myv? Não tem casal aí.

– Sim baka, o Yuki e o Luka são o casal. Isso que eles tem é o aspe de romantismo no Shonen-ai.

– Da pra explicar melhor?

– Porra Ruki!

– Você quer me dizer que existe toda uma sub categoria só de animes gays?

– Ai cólica renal! Cólica renal! – Ele disse em gemidos forçados enquanto rolava no colchão fingindo sentir dor.

– Ahh se fode, aposto que só você pervertido assiste essas porcarias. E esse anime é bem legal, é diferente. Aposto com você que no final não vai ter nada de casal gay.

– Eu vou te fazer uma lista de animes para você assistir. Vou ser bonzinho com você, vou começar com gravitation que é bem do teu tipinho, mas depois você vai assistir animes yaoi de verdade e vai colocar num papel pra mim o número de pessoas que já assistiram cada um deles. Vai assistir as duas temporadas de junjou romântica e vai se envergonhar pela sua semelhança psicológica com alguns personagens, depois vai assistir a melhor maravilha que já tiveram a inspiração para criar que é sensitive ponagraph. Eu até estou vendo você chorando com esse anime. Aí depois vamos passando para coisas mais sérias.

– Só tu tá achando que eu vou assistir essas coisas. – Reclamei colocando o note de lado, cara eu tava com vergonha até de olhar para a tela achando que do nada os animes que ele tava falando iam saltar a minha vista.

– Claro que vai. Porque ou você assiste bem belo na intimidade do seu quarto, ou eu vou passar na TV da sala. Vou chamar o Kai para assistir junto e quem sabe eu convença ele a fazer uma demonstração ao vivo.

– E você fala como se tivesse certeza que ele assiste essas merdas.

– Sim baka, nós voltamos da escola discutindo Boku no Sexual Hassment e caso você não tenha percebido é um anime muito sujo onde um carinha seduz geral e transa com tudo quanto é homem nojento pra subir na vida, tudo a mando do chefe gostoso dele que também come ele o anime inteiro.

Chocado. Sim eu fiquei chocado, até que ponto eu não conheço mais o Kai? A gente vai ter que sentar bem sentadinho um do ladinho do outro e conversar muito seriamente. Pô francamente, tá bom que ele disse que teve medo que perder nossa amizade e mimimi mas aí já é demais, é como se eu nem conhecesse meu melhor amigo mais.

– Quer saber Myv da o fora daqui! – Gritei apontando para a porta, e esse era o lado ruim de se ter um irmão porque...

– Você quem está no meu quarto chibi. – Ele disse com calma.

E em um surto eu me levantei da cama dele e guiei em direção à porta. Mas não deu tempo de chegar lá, tudo o que eu ouvi foram os passos daquele tonto correndo na minha direção e tentando me agarrar pela cintura, talvez para eu não sair, mas ele tropeçou no próprio pé e caiu lindamente no chão. Eu não aguentei e cai junto, mas sentado no chão de tanto rir.

– Baka baka baka... – Repeti incontáveis vezes ao mesmo tempo em que ria até perder todo o fôlego.

– Ahh não ria de mim seu trouxa! – Disse se rastejando na minha direção, eu podia ter me defendido se não estivesse tendo uma crise de riso ainda da cena do tombo dele.

Ele veio com as mãos na minha direção e eu tive o instinto de segurar seus braços pelos punhos pra me defender, mas como eu ainda estava rindo, e ele também por consequência, ficamos rolando pelo chão do quarto, simulando uma luta idiota onde ninguém queria bater em ninguém de verdade. Até que acabamos batendo na cama e eu dei com o cotovelo no fio do carregador do notebook.

– Epa epa chega de putaria Myv, meu note vai acabar caindo.

– Tá então coloca aí um anime pra a gente assistir, não quero que você saia do quarto.

– Então não fale mais de putaria! – Adverti.

– Não são putaria, são animes tão legais quanto os outros, mas o casal é de homens e em alguns a cena não para quando eles vão transar sabe... casais transam.

– Por favor, não me diz que você fica duro assistindo essas coisas.

– Er..sabe você deve parar de fazer perguntas assim se não quer que eu responda a verdade com sinceridade.

– E..eu não quero assistir essas coisas com você.

– Tudo bem eu vou colocar Gravitation enquanto a gente joga conversa fora. Eu juro que você vai gostar, sabia que o personagem principal também é compositor?

– É? Tá coloca essa merda de anime gay. – Emburrei, era uma merda ele sempre conseguir me convencer a fazer coisas.

– Fica tranquilo que o anime vai ser bem menos gay do que a nossa conversa, irmãozinho.

– Ahh não, você não vai passar a noite me fazendo um interrogatório sobre o Kai nee. Vocês estão indo bem, não vai precisar de mim para conquistar ele.

– Não. Mas eu preciso dividir com alguém como eu to me sentindo em finalmente conseguir falar com ele, saber o nome dele...essas coisas. E você também vai me falar muito sobre o Reita. – Disse me apontando o dedo em riste.

Neste momento ouvi o começo da abertura do anime que iríamos assistir. Eu não sabia se era melhor me focar mais no Myv ou no anime, por que ele queria que eu falasse do Reita? Senti meu rosto esquentar só de pensar sobre o assunto. Miyavi era craque em arrancar as coisas de mim, mas talvez...

– Você tem ideia de como é fofo quando fica com vergonha? – Riu se deitando de bruços ao meu lado, de frente para o note aberto no chão, de frente para o colchão. Tudo o que eu queria era que ele esquentasse tanto a ponto de furar aquele colchão inflável e desviasse a atenção dessa situação toda.

– Besta! – Reclamei, me deitando igual a ele, ao seu lado.

– Baixa a guarda Ruki! Eu sou o teu irmão e não vou te julgar por nada, mas você precisa colocar o que sente para fora ou vai só se machucar.

– Eto.. o problema é que eu meio que não sei o que eu estou sentindo. Eu não sei nem por onde começar a pensar, o que dirá falar.

– Nee por que você não começa me explicando o motivo dele usar aquela faixa na cara?

– E como eu vou saber? Ele esconde aquele nariz mais do que se preocupa em esconder o pinto!

– Que? Como assim?

– Ahh coisa do teu querido Kai. Ele armou para que eu não tivesse escolha e acompanhasse o Reita no banho depois do treino físico na escola, resumo da história, ele não teve nenhum pudor em tirar a cueca, mas tomou banho de faixa.

– Você já viu o Reita nu? O corpo dele é tão bom como aparenta? – Descarado! Que merda ele está pensando.

– Sem perguntas constrangedoras! Sem perguntas constrangedoras! – Disse escondendo o rosto entre os braços. Porra era bastante difícil tirar aqueles músculos molhados da minha cabeça e ele ainda fica falando assim? Sem falar que o simples fato de estar falando assim do Reita com alguém já era exposição demais, demais. Era como se eu estivesse admitindo que..er esquece.

– Isso com certeza responde a pergunta! – Ele riu. – Nee o Kai também aparenta ter um baita corpo?

– Não vou responder essas coisas, não quero você duro do meu lado por ter imagens mentais do meu amigo de infância nu.

– Eu não vou ficar duro com você falando, pelo menos não antes de conseguir ver o corpo dele de verdade e ter uma imagem para previa para formar na minha cabeça. – ele disse e eu olhei para ele com cara de espanto.

– Você não tem nenhum pingo de vergonha nessa cara?

– Não quando estou conversado com você, ou com a minha mãe. Se não puder me abrir com vocês com quem mais vou fazer isso?

– Você conversa normalmente sobre essas coisas com a sua mãe? – Perguntei realmente surpreso.

– Não da mesma forma que converso com você, mas ela sabe das minhas preferências, soube do meu namorado anterior e sabe do Kai. Só que ela acha que ele é alguém que eu fico admirando da janela do internado já que não sabia que eu tinha saído.

– Espero que a coincidência dele ser o meu melhor amigo deixe ela menos braba.

– Você sabe que vai ter que conversar com a Emi, não sabe?

– Sei. Mas eu preciso saber o que eu vou ter que dizer para ela.

– É para isso que existem os irmãos. Os legais, é claro. Mas então... posso jogar que você ficou duro assistindo o Reita tomando banho.

– Err idoita, eu disse pra não falar de coisas constrangedoras! – Bufei e soltei todo o ar. – Foi impossível ser indiferente àquelas escapulas de merda e aqueles bíceps bem desenhados sujos com espuma de xampu. – Disse, por fim vencido, se não pudesse contar com Miyavi nunca confiaria em ninguém.

– Hm Reita e sua cara de santo, ele foi muito sacana com você fazendo isso. Então o ponto forte do Reita é as costas, interessante. Qual é o ponto forte do corpo do Kai?

– Sei lá, não é como se eu ficasse olhando o corpo dele.

– Qual é você conhece o garoto desde que tinham sei lá três ou quatro anos de idade. – Ri com o comentário.

– Não é bizarro, eu conheço Kai a quase tanto tempo quanto conheço você, meu melhor amigo e meu irmão e tipo, vocês não se conheciam. – Ri. – É muita coincidência.

– Maldito internato. – Ele brincou. – Por causa dele que você tinha que abandonar seu amigo para ver seu irmão. Mas dizem por aí que as coisas tem tempo certo para acontecer, além do mais, eu não acredito em coincidência, acredito em destino. Mas não desvia do assunto, me responde porra.

– Tsc... eu já ia ter que aturar vocês dois minha vida inteira mesmo, acho que posso me acostumar com os dois juntos afinal. Ahh sei lá Myv ele tem o abdome bem definido no estilo tanquinho, se serve pra você.

– Nhooow... – Ele ronronou rolando até ficar de barriga pra cima e os braços estendidos, a cabeça pendendo para fora do colchão olhando para a tela do note de cabeça pra baixo. – Acho que menti para você, acho que posso ficar duro só de imaginar.

– Mas que imbecil! – Xinguei lhe dando um soco no peito.

Mas ele só recolheu minha mão entre uma das suas como se nada tivesse acontecido. Sorriu e apontou para a tela do note como que se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Na tela havia um menino sofrendo com a recriminação de um homem mais velho em relação as suas rimas pobres em um pedaço de papel que havia voado ao vento.

Então me deixei levar pela animação, que não era de todo ruim, tinha até mesmo um leve tom humorístico que me agradava. O anime era legal, eu estava feliz com a companhia de Takamasa, e de repente meu celular vibrou em meu bolso.

"Minha mãe acabou de informar que vamos para a vovó no findi, ela disse que é para vocês virem junto. Diz pra Emi que nós vamos no sábado e voltamos no domingo." Era do número de Kai.

Era normal eu e minha mãe irmos com ele e a mãe dele para a fazenda da avó dele quando eles iam passar pouco tempo lá. Minha mãe e a mãe de Kai se davam muito bem, claro que ela não sabia a idade da minha mãe, eu ouvi minha mãe contando uma história meio distorcida pra mãe do Kai referente a idade que tinha quando eu nasci e coisas sobre o casamento dela e o fato de ser viúva. Levei muito tempo para entender que ela queria que a mãe de meu amigo não ME recriminasse a partir das escolhas feitas por ela.

– SMS do seu querido. – Resmunguei e Miyavi ergueu a cabeça para me olhar.

– A avó dele mora em uma fazenda no interior e quando ele vai pra passar o findi nós vamos junto. – Expliquei.

– Eu vou passar o final de semana com o Kai? – Ele sentou na cama na mesma hora, animado demais pro meu gosto.

– Não baka, você vai passar com o Kai, com a mãe dele, com a avó dele, com a minha mãe e comigo. Não se esqueça da última pessoa citada, eu não quero virar castiçal.

– Eu vou passar o final de semana com o Kai. – Ele repetiu dando a certeza de que não tinha ouvido nada do que eu disse, abriu uma mochila sobre a cama e escancarou seu armário começando a escolher roupas. Será que ele sabe que hoje ainda é quinta?

– Myv, a gente só vai no sábado cara. – Disse, mas ele estava brisando parecia uma abelha gigante batendo as asas de um lado a outro no quarto.

– O que deu nele? – Ouvi a voz da minha mãe e olhei na direção vendo apenas a cabeça de Emi surgindo do chão, já que a entrada do quarto era assim mesmo. Ela tinha a mesma cara de descrença que eu acreditava haver em minha face.

– Ahh ele pirou. – Expliquei?

– Ruu eu preciso de um help aqui, será que eu posso conversar com você um instante? – Ela disse e logo sumiu, num sinal claro de que era pra eu ir atrás.

– Ahh mãe, o Kai me mandou uma SMS. Vamos ver a vovó Uke neste sábado. – Disse animado, eu gostava de ir lá, era quase como ter uma avó. Quase.

– Ihh meu amor, vai dar não. Eu estou cheia de trabalho, o Joe me pediu umas coisas aí que eu vou ter trabalhar muito em cima. Além disso, não posso sair da cidade, estou como responsável pela Mitori-san no hospital até a chegada da filha dela, que aliás pode acontecer neste final de semana e eu tenho que estar aqui para recebê-la.

– Ahh.. – Murchei, mas acho que a murchada-sama vai ser do Takamasa.

– Meu amor, se você está com tanta vontade de ir não tem problema. Apenas obedeça a mãe de Kai. – Ela disse, com um sorriso nos lábios.

– Etto.. o Miyavi pode ir também? – Eu tinha que perguntar, porque não ia ter coragem de deixar ele sozinho aqui, ainda mais sabendo que ele quer ir muito mais do que eu.

– Hoje é quinta... – Ela disse de uma forma como se estivesse mais pensando em voz alta. – É improvável, porém possível que a mãe dele chegue sábado à noite ou domingo. Eu vou ligar para ela e se ela não estiver vindo não vejo motivo para que fiquem presos aqui. – Eu apenas confirmei a fala dela com um sorriso satisfeito, apesar de achar de verdade que do jeito que o Miyavi estava... bom, ele ama a mãe dele, mas ela já ama ele de volta, o Kai ele ainda está conquistando.

– Você precisa da minha ajuda. – Lembrei do motivo pelo qual ela tinha me chamado.

– Ahh sim, e muito. Vem comigo pro escritório, vou ligar para Hiroki e depois te explico o que é que eu preciso. – Ela disse passando o braço por meus ombros e nos conduzindo até o local citado.

.:.

As cerdas macias da escova deslizavam suavemente pelo cabelo liso tão opaco, perdera o brilho intenso do preto absoluto de outrora. Os dedos que lhe tocavam as mechas com carinho logo começaram a trabalhar uma trança firme que unia todas as mechas, por fim a prendendo com um laço na cor azul, sua preferida.

Logo o trabalho perfeito foi colocado delicadamente pro lado, recostando o maço de cabelos sobre o ombro magro de sua dona. Em seguida, desmanchando uma linda flor de malva, colocou algumas das flores entre as laçadas das mechas. Fazendo surgir com o ato, um sorriso refletido no espelho, murcho, porém feliz com o detalhe lembrado. Aquelas eram suas flores preferidas.

Nee Oka-san, anata wa totemo kirei desu* – Disse vendo outro sorriso nascer dos lábios finos. – O que acha de assistirmos um pouco de TV juntos na sala? – Perguntou aproveitando que ela ainda estava na cadeira de rodas, logo a enfermeira da noite e seus auxiliares iriam a colocar na cama mais uma vez, e ele só a veria fora dela na noite seguinte.

Gostaria de ir um pouco lá fora, no jardim. – Disse com a voz baixa. – Acha que..

Até que a xarope da enfermeira venha, eu vou levar você para onde quiser. Está uma noite linda e quente, cheia de estrelas.

Por favor, me leve pro Jardim Yuu.