Capítulo quatorze: Um encontro

Por Kami-chan

– Você não vai trabalhar hoje Emi-san? – Vi Miyavi entrar na sala vestindo apenas a bermuda do pijama.

– Ahh eu adiantei minhas férias no trabalho pra poder resolver todas as coisas que resolveram acontecer ao mesmo tempo.

– Desculpe por te dar trabalho Emi.

– Você não me da trabalho amor, você, Ruki e os meninos diminuem os meus problemas na verdade. Não estava me referindo a isso.

– Hm então tá. Quer dizer que este mês você vai ficar em casa conosco.

– Uhum, e melhor que isso vou estar a disposição quando sua mãe chegar aqui também.

– Etto Emi-san, aqui estão os documentos que disse que precisava. – Vi Miyavi me estender o documento de pessoa física, mais RG.

– Lindo! Se tudo der certo segunda-feira você já vai pra escola. Aliás, mesmo você não tendo demonstrado interesse em saber, na reunião com o diretor da escola do Taka, ele entendeu toda a situação numa boa e depois de muita conversa eu consegui convencer ao diretor da sua antiga escola a me mandar seu histórico antes de sua mãe vir para quitar a lá a tal pendência que ficou.

– Foi mau não ter perguntado Emi, mas nee...eu não to assim tão empolgado em voltar a estudar. – ele disse se sentando em minha ao meu lado no sofá da sala.

– Como não? Vai ser legal, você vai lá com o Taka e vai fazer amigos legais.

– Mas eu não vou pra turma do Ruki, eu vou pra uma turma onde eu não conheço ninguém.

– Por Deus Takamasa, não é nenhum fim de mundo. Além de que, acho que você fica na turma do Reita. – Disse um pouco mais rude, coisa que eu não aguento é moleque fazendo manha por cosa sem sentido.

– Minha mãe disse quando vem?

– No começo da semana que vem com certeza, ela só não tem como afirmar o dia.

– Ela vai me contar direito o que a vovó tem?

– Que isso moleque eu te contei direito, expliquei tudo.

– É que forma como você falou eu não entendi direito!

– Você só precisa entender que o caso da sua avó não é assim tão simples, ela está sendo cuidada no hospital para que não sinta mais todas aquelas dores que ela estava sentindo em casa até que...

– Ela morra? – Me cortou.

– Toda a dor suma. – Completei. – Eu vi o homem que eu amava morrer quando tínhamos dezesseis Miyavi, confie em mim, a sua avó está tendo tudo o que há de melhor para a situação em que ela se encontra. Mas infelizmente algumas coisas não estão em nossas mãos.

– Entendi!

– Escuta Miyavi, o que você acha de aproveitar seu último dia de folga antes d éter que voltar a estudar?

– Certo, você bem que podia me emprestar o carro nee.

– No teu cu filho da puta, dezoito pra ti é só em setembro. – Apontei, e ele riu.

– Ta nee, vida de pobre é no buzão mesmo.

– Aproveita e passa no Joe, talvez ele tenha uma guitarra que te agrade. Não gostaria que você parasse de tocar.

– Etto...

– Mandei você sair e comprar uma guitarra que te agrade, alias, é só você avisar ao Joe que está levando que ele me avisa depois.

– Mesmo? – perguntou pulando da cadeira com os olhos brilhando.

– Mesmo!

– Ah h Emi, eu vou ter que pedir para minha mãe para ir junto com o Ruki e Kai para a fazenda?

– Não, eu já conversei com ela. – Na verdade, eu achava muito bom ele sair um pouco e esquecer esse monte de bagunça que estava acontecendo em sua vida neste momento.

– Feito! – O ouvi enquanto corria par aos saltos.

Vi o menino correr escada acima, certamente indo para o seu quarto se trocar para sair. Estava começando a achar que ele estava feliz demais com aquela notícia quando fui interrompida pelo som do celular, era o número do hospital.

– Emi. – Atendi.

– Boa tarde dona Emi, aqui é a Elisangela. Tudo bem?

– Olá enfermeira, aconteceu algo?

– Mais ou menos. A senhora pela qual você está responsável teve piora significativa, os índices de saturação dela estão muito baixos, e não estamos conseguindo fazê-la melhorar.

– Ela está morrendo. – Comentei o obvio, pois a mulher que me ligava sabia disto tanto quanto eu.

– A senhora Emi pediu para se manter informada. – Ela disse com ar de que não tinha mais nada a dizer.

– Claro! A filha dela ainda está voltando da Coreia, eu...eu vou dar uma passada aí daqui alguns minutos. Obrigada por avisar.

– Miyavi! – Gritei. – Eu vou ter que sair de carro, se você quiser carona se arruma logo!

Santa vida fodida, se não me bastasse a quantidade de problema que eu tenho pra resolver tudo ao mesmo tempo, essa velha tem que querer morrer enquanto não tem ninguém responsável por ela aqui. Vai ser uma puta correria se eu tiver que me responsabilizar por mais isso. Que Deus me perdoe, pessoas não escolhem o momento em que irão morrer, mas esta mulher tinha que ser difícil até no fim.

.:.

– Vai que é tua Ruki! – Disse Uruha jogando seu dinheiro em meu peito. Merda era a minha vez de comprar lanche.

– O que vão querer? – Perguntei estendendo a mão para Kai me dar o dele.

– O de sempre. – Disse o Uke me dando dinheiro e sorrindo. – Eu, o Uru e o Aoi vamos esperar você nos mastros. – Ele terminou.

E mais uma vez, eu tinha me esquecido da existência dele. Eu é que não vou comprar lanche pra essa puta. Saí correndo logo do local antes que ele me tocasse o dinheiro na nuca e pedisse algo doce. Quando eu estava quase saindo do corredor ouvi sua voz me chamando, fiz que não ouvi e andei mais rápido. Foda-se.

Não foi tão complicado quanto eu pensei que seria, a fila nem estava tão grande à minha frente. Não devo ter levado nem mesmo cinco minutos para conseguir os lanches, mas saí de lá sem olhar para a enorme fila que havia atrás de mim, eu sabia que o Aoi ia estar nela.

– Comida! – Anunciei direcionando cada lanche ao seu dono. Não deixando de observar que Reita e Aoi não estavam ali.

– Ô Ruki o que diabos você tem tanto contra o Aoi hem? – Uruha me perguntou com um péssimo humor.

– Era só o que me faltava você começar a brigar comigo agora por causa deste babaca. Uruha, a amizade vem primeiro. – Ralhei, era só o que me faltava mesmo.

– Eu vou sempre ficar do teu lado Ruki, mas você tem que dar uma razão plausível pra odiar tanto assim o Aoi. E vou logo avisando que se for só frescura...

– Mimimi mimimi... se precisa de motivos pra apoiar seu amigo é você quem está de frescura.

– Kai dá pra você me explicar? – Uruha perguntou ainda mais irritado, cara eu só me neguei de comprar lanche pro bostão.

– Vou ficar devendo, só lembro que minha avó ficou doente na semana da páscoa, eu era pequeno demais pra ficar sozinho e minha mãe me levou junto com ela pra fazenda por duas semanas. Quando voltei o ódio já era mortal, mas o Ruki nunca me contou o motivo.

– Só pode ser frescura se nem pro Kai você contou. – Continuou reclamando a loira birrenta.

– Eu não quero passar o intervalo discutindo com você. – Anunciei.

– E graças a você também não vamos passar o intervelo com Aoi e Reita. – Continuou emburrado.

– Nasceu grudado no Aoi agora Uruha? Tudo bem que você gosta dele e todo o mais, mas não precisa morrer só porque vai ficar um intervalo longe do macho porra. – Falei realmente sério desta vez, que merda.

– Nesse ponto eu vou concordar com o Ruki. – Disse Kai limpando o catupiri do seu pastel dos lábios.

– Ahh tu concorda porque vai passar o final de semana pendurado no pescoço do primo do Ruki. – Resmungou, seria este o problema de todas as coisas?

– Tudo isso porque a mamãezinha não deixou você passear? – Tirei.

– E eu não vou ficar o final de semana pendurado no Meev.. – Disse Kai.

– É! – apontei fazendo sinal positivo com o dedo.

– Primeiro porque não existe razão para isto ainda, e segundo porque minha mãe e minha vó estarão lá. – O moreno prosseguiu.

– No teu cu Kai de merda! Você não vai ficar pendurado no Miyavi porque é meu melhor amigo e ele meu irmão, e eu não quero ser ignorado pelos dois. – Disse com raiva, mas tudo o que consegui foi fazer os dois rirem da minha cara.

– Eu prometo que você não vai virar candelabro Ruu. – Kai disse rindo passando o braço por meus ombros e me abraçando.

– Espero mesmo que se comportem na minha presença. – Fiz birra, qual é, eu posso fazer beicinho pro meu amigo ué.

– Claro! Mas caso eu e o Myv realmente venhamos a ter algo algum dia, você também vai ter que abrir um espacinho pra nós nee. – E sim, ele fez manha também.

– Vocês dois se merecem... – Uruha bufou derrotado.

– Uru porque você não aproveita o final de semana pra colar no animal de beiço largo do jeito que você tanto quer? – Não me perguntei por que dei a ideia.

– E tipo o que, bater na porta da casa dele e dizer "e aí amigo"? – Perguntou meio tonto, meio pensativo.

– As pessoas hoje em dia tem celular, sabe. No caso do Aoi serve até twitter. – Aí até o Kai dando ideias.

– Eu não tenho o número dele. – Disse triste.

– Como não tem? Até o Ruki já tem SMS do Reita no telefone dele. – Kai disse, espera.

– OE? – Olhei apavorado para os dois. – Como assim Kai sabia das minhas SMS com Reita.

– Ahh santinho do pau oco, se faz de inocente e mimimi eu não estou afim do Reita, mas é bem ligeirinho nee. – Aí ei tive que aturar o Uruha tirando com a minha cara, mas a vida é assim mesmo.

– Primeiro, foi ele quem colocou o número dele no meu telefone. Segundo, ele é meu amigo, não há nada de mais naquelas sms. E terceiro, filho de um puta fuçando no meu telefone.

– Nhow Reita e Ruki é tanto amor. – Disse? O Uruha em uma tentativa meio pornográfica de me fazer cócegas.

– Cara toda a vez que a gente chega você estão se agarrando. – Disse Aoi tirando uma bolacha do pacote e comendo.

– Aoi vamos ver quantas bolachinhas cabem nessa tua boca de caçapa? Aí quem sabe encontramos uma forma de fazer você calar a boca. – Disse.

– Ahh isso tinha que ser antes dele comer meio pacote, vai faltar bolacha. – E todos rimos com o comentário do Reita.

– Até tu, irmão que eu tanto admiro e me esmero para ajudar nas conquistas alheias pela vida fodida que levamos? – Disse o beiçudo fazendo drama.

– Ahh você fala como que se nós nunca tivéssemos apostado sobre quantas bolachinhas cabiam aí dentro nee. Eu tenho até fotos do evento, e elas são sinistras. – Respondeu, tomando livremente o pacote das mãos do amigo e retirando um biscoito para si.

– Da pra mudar o rumo da conversa? – Pediu Aoi.

– Por quê? Ouvir a realidade sobre o tamanho anormal da tua boca te incomoda filho? – Perguntei com muita maldade, porque bem no fundo, eu sabia que incomodava muito ele.

– Claro que dá, Aoi o que você e o Reita vão fazer no final de semana? – Perguntou Uruha em tom alto e claro, cheio de determinação.

– Nem sei, Reita você chegou apensar em algo?

– Não.

– Ahh que bom, então pode me passar o teu telefone Aoi. O Ruki e o Kai vão me abandonar no final de semana pra irem pro interior e eu não quero ficar sozinho. – Disse estendendo seu celular pro moreno.

– Ta. – O mesmo pegou o objeto meio que sem entender direito o que se passava ali.

– Depois dessa eu vou pra aula. Nee Reita, você poderia me esperar na saída? – perguntei tentando ignorar ao máximo as caretinhas babacas que Kai e Uruha faziam, sério que eu nunca conseguiria conversar com Reita sem que eles fizessem aquelas caras retardadas?

– Claro. – Ele respondeu com um sorriso.

– Iiii já vi que perdi a companhia do almoço. Vou ligar pra empregada fazer meu almoço hoje. – Disse Aoi também se retirando, mas quem liga.

Fui pra minha sala antes do sinal tocar, sem esperar por Kai e Uruha. Eu sabia que eles iriam me fazer um interrogatório, e isso não me incomodava, mas a forma como eles insistiam em criar situações inexistentes entre eu e Reita me irritava. Não queria ouvir histórias sobre o que eu faria sozinho com meu amigo, na imaginação deles é claro.

Também nem fez tanta diferença, eu nem bem estava no meio do corredor quando o sinal realmente bateu indicando o termino do intervalo. Isso me deu um breve tempo de sossego, mas eu sabia que isso não duraria para sempre.

De qualquer forma, eu tinha que resolver dentro da minha cabeça o que eu sentia pelo Reita de verdade e o que eu podia sentir. Aquilo nunca passaria de amizade e fato dele já ser apaixonado por alguém ajuda muito no meu auto controle. Mas ainda assim...

Bom temos dois tempos de Geografia para jogar fora agora, não vejo a hora de poder por o pé fora daqui. Espero que pelo menos Kai me entenda, por falar nisso, eu ainda não me esqueci que eu e ele temos uma longa conversa para por em dia. Mas se eu quero que ele seja sincero comigo, eu também terei de ser.

Enfim o tempo passou e logo me vi indo em direção a saída da escola e lá estava ele, sozinho. Foi um milagre ter conseguido sair antes do resto do bando de fuxiqueiros, queria dar logo o fora dali com Reita. Principalmente antes de Aoi resolver que quer ir junto ou coisa assim.

– Então pequeno? – Ele disse ao se desencostar da parede quando me viu.

Maldito sexy filho da mãe, fica aí seduzindo escorado no muro da escola fica.

– Ahh Nada de mais – Disse sorrindo. – Preciso as ajuda do Joe pra uma coisa que a minha mãe me pediu, então eu pensei que... – Travei, ao perceber a merda que eu ia dizer, porque sem pensar em nada eu apenas imaginei que poderíamos almoçar juntos. – Bom você vai pra lá nee.

– Claro. Mas eu almoço em um restaurante que tem no caminho, tudo bem?

– Uhum. – Concordei, passar mais tempo com Reita ia ser muito legal.

Mesmo que ao lado dele eu seja completamente incapaz de controlar o tempo, perco completamente a noção. Mas caminhamos, conversando principalmente sobre o show da banda Abomináveis que estava se aproximando, mais uma vez combinamos de assistir a algum ensaio prévio da banda. Agora que eu sabia que ele trabalhava para o Joe e conhecia minha mãe, eu podia dizer sem nenhuma restrição que tinha certeza que conseguiríamos entradas para o show. Emi-san nunca deixaria algo desta magnitude passar.

Paramos no restaurante que ele disse que almoça todos os dias, um lugar legal com comida gostosa e simples, deu pra ver que ele sempre ia ali mesmo, pois o garçom não perguntou o que ele gostaria para beber, simplesmente trouxe seu refrigerante e perguntou o que eu queria. Claro que não pude deixar passar em branco o fato de que ele come demais, acabei tirando tanto com a cara dele por este fato que ele também começou a pegar no meu pé referente a quantidade de comido em meu prato, que era o exato oposto da dele, diga-se de passagem.

Depois ele riu da minha indignação com o local servir seis tipos de sobremesa, e todas, repito, todas feitas com morangos. Sério cara, eu tenho certeza que não sou a única pessoa do mundo que não gosto desta porcaria, então é muito sem noção um lugar que serve ao público oferecer somente doces feitos a base dessa coisa azeda.

Foi divertido, era assim que saídas com amigos deviam ser sempre, um tirando com a cara do outro enquanto falam de várias coisas que gostam. No nosso caso, bandas. Reita me perguntou o que tinha me feito ter uma vontade súbita de segui-lo até o Joe e eu expliquei que minha mãe tinha me pedido algo, mas eu ia precisar pedir ajuda do Joe para fazer o que ela tinha me pedido.

Quando dei por mim já estávamos andando na rua de novo e subindo as escadas de marmore do shopping. Estava tudo fechado e com pouquíssimas pessoas ali dentro, mas nee, ainda assim era shopping e eu adoro.

– Mas o que foi exatamente que a tua mãe pediu Chibi? – Ele perguntou sério.

– Eu não entendi muito bem, ela disse "Desenhe para mim uma festa típica em um bar burlesco. De o seu melhor." Mas não me disse pra que ou como, ou ainda pra quando. Aí eu preciso do Joe, porque se tem algum tarado no mundo que tenha se especializado no burlesco, esse safado é o Joe.

– Mas por que ela pediu para você desenhar?

– Ué, porque é o que faço. – Disse de forma simples dando de ombros. – Eu desenho.

– Você tem um amigo e acha que sabe bastante sobre ele, mas aí um belo dia ele te segue no almoço e você descobre que ele odeia morangos e que desenha coisas. Eu não conheço você. – ele disse emburrado apontando o dedo indicador na minha direção, só pude rir é claro.

– Baka! Você é um desconhecido? Eu não deveria falar com estranhos. –Rdando um soco de leve no obro dele.

– O que mais eu não sei sobre você? – Perguntou forçando alguma indignação falsa.

– Se eu te contar tudo agora, não sobrará nada pros próximos encontros. – Aí um copo de vidro se quebrou dentro da minha cabeça. Eu fiquei sério, mas ele sorriu. Pelo menos era isso até eu olhar pro outro lado.

Disse. Eu disse isso mesmo. Minha boca grande e sua língua descontrolada, como pude ter dito isso. Desde quando isto é um encontro? Desde quando isso que não se enquadra na perspectiva de um encontro pode continuar existindo no futuro? Ruki burro, eu sempre me ferrando.

Se eu fosse um pouquinho mais esperto eu podia olhar para ele e rir descontroladamente para fazer aquela frase se transformar em uma piada. O problema é que não era.

E minha cabeça sabia disso demais para me permitir agir como uma pessoa normal, então aqui estou eu mais vermelho do que criança fazendo sua própria maquiagem a base de urucum pro dia do índio. Olhando com tanta fixação para todos esses anéis lindos, maravilhosos, brilhantes e luxuriosamente caros na vitrine de uma relojoaria que eu nem sei qual é, que com mais um pouquinho de força no foco eu conseguia quebrar esse vidro com a força da minha mente.

Aí o alarme soaria, os seguranças apareceriam e eu teria que correr, aí quem sabe a gente esquece que eu disse que isso daqui é um encontro. Porque não é!

Senti a presença dele ali do meu lado, e isso era uma coisa muito estranha porque este lado do meu rosto ficou mais quente que o outro. Por um motivo muito legal ele ficou ali quieto do meu lado. Depois de algum tempo eu tive coragem de erguer a cabeça e olhar para nós através do reflexo de um espelha que recobria toda uma coluna dentro da loja.

Aquele sorriso gentil tirando umas férias agradáveis no rosto dele, eu gostava tanto de vê-lo sorrir. Ele estava mesmo olhando peça por peça da exposição, as admirando.

Talvez ele tenha interpretado bem a frase dita, quer dizer, bons amigos sempre tem seus encontros não é, o que mais define o happy hour? Mas como somos adolescentes, nosso happy hour tem que ser almoçar rapidamente em um restaurante simples e familiar.

Eu sou mesmo idiota, Reita é somente um bom amigo, que diferente de mim não viu nenhuma maldade no comentário sem noção que eu fiz. Eu devia mesmo ter somente rido e levado aquilo na brincadeira, sou muito idiota e dramático.

Lembre-se Ruki, Reita ama alguém. Ele nunca verá maldade em comentários feitos por um amigo, ainda mais na amizade com as dimensões das quais estamos desenvolvendo. Mas aí...

– Você correu pra cá por que desenha joias? – Ele me perguntou de forma inocente, mas cara, ele tinha uma expressão tão bocó na cara que não deu pra eu não rir.

Mas pensa em uma cara de idiota mesmo. Eu ri até me engasgar, e mesmo engasgado não consegui parar de rir. Era nisso que ele estava pensando enquanto olhava aquele monte de joia fina?

– Eu to indo pra loja do Joe. – Anunciei talvez com o último fôlego que tinha, mas sabe, mesmo sem fôlego eu quase não consegui parar de rir.

Mas logo o vi caminhando ao meu lado, já mexendo na mochila em busca da chave da loja. Isso me fez ter curiosidade sobre a hora, e fiquei surpreso ao ver que ainda tínhamos algum tempo até a hora das lojas abrirem. Fiquei surpreso, mas não desapontado por isso. Estranho era ele estar rindo também.

– Você está rindo de que Reita?

– Ver você rindo é realmente algo muito engraçado. – Cara de pau, é assim que você olha pra cara de alguém e diz que esse alguém tem cara de palhaço.

– Você é uma besta, sabia. – Disse, e ele riu ainda mais.

O problema era que eu não podia rir dele da mesma forma como ele riu de mim, porque... sei lá ele rindo só fica cada vez mais fofo. Filho da puta.

É bem estranho na verdade, ele estica os lábios para um sorriso simples e fica bonitinho, sorri mais até mostrar os dentes e fica lindo, aí cai em gargalhada e fica fofo. Da pra entender? Eu sempre acho que eu rindo de verdade fico parecendo um babuíno flácido, soluçando de bêbado. É a vida né, a forma como ele riu da minha cara antes prova que minha autoimagem está meio certa.

– Mas você não respondeu chibi, desenha o que? Por que seria muito legal mesmo se você desenhasse joias.

– Dá pra desenhar de tudo Reita.

– Tudo tipo... desenha até rostos de pessoas com todos os detalhes?

– É. Mas o que eu mais gosto de desenhar são roupas e make ups completos. As vezes quando consigo imaginar toda a melodia de alguma música que escrevi, também gosto de desenhar alguém as cantando ou tirinhas que possam dar uma ideia do que eu estava pensando quando escrevi aquilo. Pode rir de verdade agora.

Ta vendo, essa era a diferença daquele retardado. Não conseguia ser menos do que sincero com ele, e não conseguia deixar de lhe dar respostas para as perguntas que ele me fazia. E olha que ele não precisava fazer nenhum esforço para tirar essas palavras de mim.

Qualquer outra pessoa que eu conheça o mesmo pouco tempo que eu conheço o Reita, já teria levado um belo murro na cara. Na verdade já teria levado esse murro há muito tempo, quando alguém por alguma ironia do destino mostrava algum interesse por mim. Eu simplesmente não gostava e não permitia que pessoas se aproximassem de mim, mas ele...

– Prontinho. Pode entrar Ru-chan. – Ahh outra coisa idiota, mas ele é a única pessoa que me chama de chibi, então eu não queria que ele deixasse de falar assim. – Então da pra dizer que você desenha o PV das músicas que escreve?

– Ta mais pra PM né, promotional manga. – Disse e aí sim ele riu, mas eu pode perceber que foi do comentário e não do fato de eu desenhar isso.

– Eu realmente adoraria olhar isso. – Ele disse com sinceridade.

E foi com igual sinceridade que eu respondi:

– Nem por cima do meu cadáver.

– Ahh qual é Ruki...

– Não.

– Aposto que o Kai, o Uruha e o Miyavi já viram isso.

– O Myv sim, o Kai deve ter me visto desenhando algumas vezes, mas o Uruha ainda não viu. Apesar que do tanto que aquela criatura mexe nas minhas coisas já deve ter encontrado os cadernos de desenho.

– Viu, eu também mereço ver. Não é justo, aposto que até o Aoi já viu algum desenho seu.

– É claro, no tempo em que éramos amigos, desenhar era a única tarefa escolar. Ahh e nós tínhamos aulas de artes até a quinta série.

– Ahan então eu também posso ver um desenho seu.

– Santa persistência Reita.. – Retruquei.

– Por favor.. – quase choramingou.

– Eu faço um desenho pra você aqui e agora e você nunca mais fala disso, pode ser.

– Yes. – Vibrou. – Por isso que eu não me deixo levar pela chatice da persistência, sempre da certo.

– Reita.. – Chamei com delicadeza.

– Fala amor. – Respondeu na mesma delicadeza, apoiado no balcão com os cotovelos, fazendo com que suas mãos servissem de apoio para seu rosto. O qual levava um sorrisinho de vitoria muito mequetrefe. Seduzindo.

– Vai tomar no cu. – Respondi mostrando-lhe o dedo médio.

– Ahan. – Disse subindo a escada circular de metal que dava acesso ao andar de cima da loja.

Faltava ainda uma bom tempo até a loja abrir, eu estava lá jogado no chão desenhando enquanto ele estava do outro lado do lugar conferindo alguns produtos recém chegados e os colocando em estoque no sistema. Ele não tinha me dito o que queria no desenho, então tomei a liberdade de desenhá-lo tocando baixo. Não seria nada difícil uma vez que a parte mais difícil de se desenhar no rosto era o nariz, e ele o mantinha coberto pela faixa.

Olhei para Reita concentrado de pé diante de um alto computador, eu ainda vou fazer ele tirar aquela faixa. Era legal vê-lo tão concentrado, era como que se a loja pudesse desabar que ele não tiraria os olhos da nota em sua mão e nos dados piscando na tela do PC. Às vezes ele franzia o cenho, às vezes repuxava um lábio e muitas vezes fazia sinais afirmativos com a cabeça. Talvez conseguindo chegar a alguma conclusão no quebra cabeças a sua frente.

– Você parece muito responsável fazendo essas coisas todas. – Disse e ele sorriu sem desviar os olhos da tela.

– E você muito confortável aí jogado no chão, acho que você está me enrolando e nem esta desenhando nada, está tirando um cochilo enquanto eu me concentro aqui. – Disse finalmente desviando o olhar para minha direção.

– Que maldoso que você é. Já estou quase terminando.

– Hm tão rápido? Eu não quero o desenho do sol ou de uma planta hen...

– Ahh já tá achando que manda agora. Eu sou um artista Reita, faço o que bem quiser. – Disse de forma mal criada, mas não aguentei muito tempo sem rir.

– Aí ó, todo se fazendo. Aposto que é daqueles que fica suspirando e desenhando a pessoa amada entre corações. – ele riu e eu também, era obvio que eu não era daquele jeito e mais obvio ainda que ele sabia disso.

– Oh droga, deixe-me apagar os corações. – Disse fingindo que procurava por uma borracha para o que fazia e ele riu ainda mais.

– Seria engraçado ver você suspirando e desenhando corações.

– Engraçado mesmo porque estou desenhando você com uma camiseta de danoninho. – Retruquei.

– O que? – dessa vez ele realmente saiu completamente de trás do computador e me olhou de frente espantado, e eu tive mais uma crise de risos com a cara que ele fez. Man, ele faz umas caras desacreditáveis muito hilárias.

– Calma cara, eu tava brincando sobre o danoninho.

– Eu sei Ruki, mas acabou de dizer que está me desenhando? – continuou, vindo na direção de onde eu estava.

– É.. – Respondi meio incerto sobre a cara que ele estava fazendo, sei lá não era pra eu desenhar ele?

– Eu quero ver.

– Não está pronto!

– Foda-se, comece de novo eu quero ver você desenhando desde o começo.

– Não fode Reita. Me deixa desenhar em paz ou vou mesmo achar um jeito de incluir corações com mãos, pés e sorrisos amigáveis aqui, e eles vão estar cantando a música da danoninho pra você.

– Você não seria capaz..

– Você não sabe do que eu sou capaz baby. – Falei como se eu fosse capaz de seduzir também. Só que não.

– Me da esse desenho.

– Não!

E se iniciou uma discussão sobre a posse da folha A4 que eu estava usando, como se aquilo valesse ouro e nenhum dos sois estivesse disposto a perdê-la. Foi aquela de "me da" e "não" com ele chegando mais perto a cada nova fala, como se a proximidade cada vez maior pudesse intimidar mais. Até que ele se inclinou na minha direção para tomar a folha da minha mão, mas num movimento rápido e bem esperto eu o parei, como estava deitado, segurei a folha contra meu corpo e o parei com ambos os pés em seu peito.

– Eu já disse que não está pronto. – Disse sem sair da posição, não estava o machucando por que eu não tinha colocado quase nada de força no gesto.

– Você vai ter que me deixar ver mais cedo ou mais tarde.

– Claro, mais tarde quando eu terminar. Sabe falta uma coisa muito importante no desenho sabe, fica difícil desenhar uma pessoa sem nariz.

– Se você me desenhar sem essa faixa é que vai ficar difícil de acreditar que sou eu.

– É um acordo Reita, você tira a faixa, e você tem o desenho.

– Sua perversidade é desumana.

– É uma troca justa, tenho que desenhar um nariz.

– Não tem que não. Como você pode ser tão inocente em uns momentos e tão malvado em outros?

– É o meu charme. – Disse soltando um pouco o desenho, fingindo que o admirava. – É tá bem parecido, só falta o nariz. – faltava nada, quando começamos a discutir eu já tinha terminado.

– Você não pode fazer isso comigo. – choramingou.

Eu não respondi, só soltei uma de minhas mãos para alcançar a faixinha no rosto dele. Já estava até sorrindo vitorioso quando uma voz bem conhecida, e odiada invadiu o segundo andar da loja.

– Ruki, você está fazendo isso errado. – Disse Aoi de forma séria, mas eu conhecia o deboche amargo dele. – Primeiro você tem que abrir as pernas.

Bufei. Olhei para Aoi quase o matando e voltei a olhar para Reita. Era engraçado porque nós estávamos apenas brincando e jogando por causa de um pedaço de papel. Ou no meu caso um pedaço de pano, mas vendo do ângulo do Aoi, bom, se eu apenas abrisse as pernas estaríamos em uma posição constrangedora. Bastante na verdade. E com isso em mente dei um impulso com oos pés, fazendo Reita sair de onde estava.

Aoi filho da puta, eu ia tirar a faixinha do Reita. Pensei eu ao mesmo tempo em que ouvi a voz de Reita.

– É por isso que eu te amo Aoi, sempre me salva. Ruki estava prestes a expor minhas partes intimas. – Disse ele passando a mão sobre a faixa, meio que certificando-se de que ela estava ali ainda.

– Nossa Ruki já estava oferecendo seu corpo para ver o nariz feio desse cara? – fez a piada.

– Eu não... Aoi você é mais idoita do que dá pra tentar entender. Será que você não consegue ver nada sem pensar em sexo, não?

– Até dá, mas vamos convir, no teu caso Ruki um pouquinho de sexo de vez em quando ia te deixar um pouco menos neurótico e estressado.

– Foda-se você Aoi, vou esperar o Joe lá embaixo. – Disse me levantando e pegando minhas coisas, já me encaminhando para descer.

– Hey hey hey, você está me devendo uma coisa. – Reita me barrou.

– Claro. Eu deixo no balcão quando terminar... – pisquei com um olho só.

– Ahh não vai mesmo. Aoi termina ali de cadastrar os objetos novos no estoque, eu vou esperar o Joe lá embaixo com o Ruki. – Disse passando pelo moreno e me empurrando escada abaixo. – Eu quero ver você desenhar, e vou ver você desenhar.

Maldito sedutor sexy e persistente.