Capítulo quinze: So hard

Por Kami-chan

Suspirei fundo dando mais uma volta no estacionamento, me xingando internamente por não entrado pela passagem de funcionários. Se não encontrasse nem uma vaguinha até o fim desta volta sairia, daria a volta na quadra e faria isso do jeito certo. Maldita pressa, sempre atrapalhando mais do que economiza tempo, felizmente, encontrei uma maldita vaga para estacionar.

Passei a mão na minha bolsa e pulei para fora do carro. Fechei a porta já me afastando e o alarme foi acionado quando eu já estava quase duzentos metros do carro, quase correndo.

Duzentas pessoas aglomeradas na porta de acesso indicava que o horário de vizitas ainda não tinha findado. Me espremi entre elas e alcancei o segurança que barrava a passagem de todos. Por sorte, era um dos que me conhecia bem.

– Emi! – Disse com espanto, de fato, devia ser muito bizarro me ver espremida no meio de tanta gente.

– Desculpe incomodar Wagner, deixei meu carro aqui na frente, preciso apenas ver uma coisa rápida com o pessoal. Será que...

– Passe dona Emi. – Ele se adiantou a minha pergunta, abrindo a corrente atrás de si e liberando a passagem.

– Muito obrigada Wagner. – Disse com um sorriso, finalmente entrando no local.

E dentro, se é que era possível, havia tanta gente quanto do lado de fora. Eu odiava os horários de visita, quase corri pelos corredores, pedindo licença ao mesmo tempo em que abria caminho com minhas próprias mãos. Tinha que ser rápido ou perderia meu dia todo no hospital, de preferência, eu queria ir até onde tinha que ir, fazer o que tinha que fazer sem ser vista por mais pessoas do que o necessário.

Só mais umas e outras dobras e eu logo chegaria ao posto de enfermagem daquela ala. Ninguém sabia que eu estava de férias, a não ser o meu superior imediato, e eu não queria ser barrada ali por trabalho.

– Bom dia Tatiana, a enfermeira Elisangela está por aí? – Perguntei quase urgente quando avistei a menina de costas para o posto.

– Bom dia Emi. – Ela disse sorridente ao se virar e me avistar. – Ela está na ronda da terceira ala. Posso ajudar você?

– Talvez. Ela me ligou faz pouco tempo para falar do estado daquela senha que eu fiquei como responsável.

– Ahh a estrangeira né?

– Isso, a senhora que só fala japonês. – Encurtei a história, não precisava saber que Mitori não falava somente japonês.

– Não fala mais. – A menina me corrigiu, causando em mim leve tremor, e tive um dejavu de mim correndo atrás de um advogado que consiga permitir que eu assine o recebimento de óbito de Mitori no lugar de Takamasa, que era o único familiar dela aqui no momento.

– O que? Ela morreu? – Perguntei assim que voltei da minha breve viagem a um universo futuro onde posso me incomodar muito.

– Não. – Ouvi outra voz mais grossa vindo de trás de mim. – A Tatiana é que um desastre para se expressar. – Prosseguiu a enfermeira Elisangela. – Mas foi por pouco, tivemos que entubá-la há pouco tempo. Ela teve uma parada cardiorrespiratória que ninguém até agora acreditou em como foi revertida.

– Sinceramente, eu é que não acredito que ela demorou tanto para chegar a este estágio. – Disse e ela pareceu concordar comigo.

– Mas você deve saber que o oncologista quase dobra a dose de morfina dela a cada dois dias.

– Hm... ela não quer morrer. – Pensei alto.

– Com a dose que está recebendo realmente não entendo como ainda não morreu.

– A filha dela ainda não chegou ao Brasil. – Comentei.

– Não posso te dar garantias menina, eu sei que quer muito que sua amiga e despeça da mãe, mas se ela parar novamente.

Eu não gostava que as pessoas me chamassem de senhora, mas também ficava desconfiada demais quando me chamavam de menina. Era como se soubessem de fato quem eu sou e quantos anos eu tinha de verdade quando comecei a trabalhar ali, mas com aquela mulher.

Eu sabia que era apenas um costume dela falar daquele modo. Era o jeito dela tentar ser doce ao avisar que eu seria contrariada, ela devia ser uma boa mãe.

E neste momento eu fiz algo que poderia me arrepender muito em breve. Eu devia ser racional como a Emi que trabalhava naquele ambiente e via histórias como aquelas se repetirem muitas vezes durante a vida, mas a Emi amiga da Hiroki falou mais alto, e eu posso ter feito merda.

– Enfermeira, se ela parar novamente, ela parou. Vou ligar para minha amiga e ver exatamente onde ela está, e vamos torcer para que de tudo certo, mas no estado em que Mitori está, seria doloroso prolongar esta situação por mais tempo.

Ela concordou comigo, logo anotando uma sigla comum no hospital no topo do prontuário de Mitori, deixando claro a ordem de que se aquele coração parasse novamente, manobras de massagem cardíaca não seriam realisadas. E a verdade seja dita, a parte de mim que queria manter Mitori viva não era somente racional, era egoísta. Foda-se, vou ter que ligar para o advogado do Joe.

– Certo, você pode dar uma olhada nela se quiser. – Disse recolocando o prontuário no balcão do posto de enfermagem. – Eu preciso prosseguir com minha pausa, pois depois detenho plantão no pronto socorro. – Disse como despedida.

Dar uma olhada? Eu não sei se gostaria, mas já estava ali mesmo. Precisava também ligar para Hiroki, e naquele momento, o quarto seria um dos lugares mas silenciosos do hospital em horário de visita.

A imagem era chocante. Eu lembrava daquele mulher como uma presença altiva e imponente, caminhando completamente ereta pela casa, com passos leves como os de um fantasma, sempre em busca de algo errado que eu fizesse para desviar a filha dela do caminho correto. A voz grave e profunda que me chamava de akuma, toda vez que me expulsava de sua casa por julgar a mim a culpada por tudo que Hiroki fazia fora do que ela julgasse como correto, ou simplesmente, as doutrinas que uma mulher tradicional devia ter.

Era bom lembrar de como eu apenas concordava com tudo o que ela dizia, vendo Hiroki rir de forma silenciosa por trás de seu ombro. Se ela pelo menos desconfiasse que a pior das influencias ali vinha justamente da filha dela. Ela me odiava e eu sofria nas mãos dela para não deixar a Hiro-chan sozinha, mas ao mesmo tempo, ela sentia algo por mim. O que era muito mais do que minha mãe era capaz, e mesmo que por um senso masoquista, eu me divertia com o fato dela me odiar. Era um sentimento afinal, eu queria que pelo menos uma mãe tivesse algum sentimento por mim.

Vendo por este ponto, acho que eu ficaria satisfeita se a minha mãe pelo menos me odiasse. Sorri, amargo para o quarto mórbido onde estava, eu era mesmo um animalzinho problemático.

Puxei o celular do bolso e disquei o número quilométrico do interurbano que estava fazendo seguido demais nestes últimos dias. Seria mais uma conversa dura com Emi. Eu nem queria ver minha conta de telefonia no final do mês.

A conversa foi breve, porém árdua. Não pude conter palavras, tive que informar a situação de Mitori, o fato do coração dela ter parado uma vez esta manhã e principalmente o fato de que se isso acontecesse novamente ela realmente não ia chegar aqui em tempo.

E novamente senti em minha amiga a vontade muda de poder se despedir da mãe. Porque, era a mãe dela no final das contas. Apesar de não compreender este sentimento, de não ter afeto nenhum pela minha mãe biológica. Senti muito, por sentir a forma como ela se sentia neste momento tentei, com palavras chulas de um humor leve, animá-la um pouco.

Hiroki disse que estava a caminho, fora mesmo uma sorte pegá-la com o celular ligado. O voo dela não vinha direto da Coreia, e ela estava neste momento trocando de avião em Paris. De lá viria para o aeroporto internacional de São Paulo e então trocaria novamente de avião para chegar ao estado. Porém o voo de Paris só sairia daqui a dez horas, o que na situação atual, era tempo que não tínhamos.

Após o termino da ligação, deixei o quarto sem olhar para trás. Também não me despedi de quem quer que estivesse no posto de enfermagem, pois estava ligando para Joe.

Emi minha linda. – Ele disse logo que atendeu.

– Oi Joe! – Respondi

Ihh tua voz não está boa, o que houve?

– Nada demais, só preciso do número do advogado. – Disse e ouvi ele rir do outro lado da linha.

Nada demais, só preciso do número do advogado. – Ele repetiu com humor. – Se não fosse nada demais não precisaria do número do advogado.

– Não complica Joe, depois conversamos, por hora eu preciso apenas do número do advogado. – Respondi sem humor algum, não estava no clima pra porra nenhuma, muito menos explicar para que eu precisava da merda do número.

Sim, eu posso te passar por sms, mas seria bom se você viesse aqui na loja. Preciso mesmo ver umas coisas muito importantes com você e tem que ser pessoalmente.

– Tá, depois eu passo aí. Só me manda logo a droga do número. – Disse e desliguei.

Eu não estava afim de passar ainda mais no Joe depois de marcar com o infeliz do advogado, mas concordei apenas para fazer ele calar a boca. Tinha quase certeza sobre o que ele ia falar, depois da proposta dos Abomináveis na casa de shows que nós ainda não temos, ele ficou obcecado. Tudo na vida girava em torno dessa ideia louca de concluir o projeto às pressas, e a cada dia que passava eu me convencia mais de ir contra essa loucura, nada feito assim tão na pressa pode ficar bom.

Eu estava cansada e estava distraída agendando o número que Joe tinha acabado de me mandar via sms quando ouvi meu nome ser dito ao mesmo tempo em que meu braço foi agarrado. Só me faltava essa agora.

– Emi, graças a Deus eu encontrei você. Porque serio, não tem jeito, tem que ser você. – A jovem menina que eu sabia que era uma funcionaria novata do meu setor, mas não fazia nem ideia do nome, estava em minha frente falando coisas de forma apressada, me olhando com se tivesse deslumbrando a salvação.

– O que foi? – Eu não gostava de novatos, eles não gostavam de pensar e isso me fazia gastar horas e horas de treinamento intensivo com esse pessoalzinho besta.

– Isso. O exame é pra ser feito em leito, o cara tem fratura na cervical, como eu vou fazer esse exame sem movimentar ele? – É eu não perco a minha fé nos novatos, são mesmo todos bestas e com preguiça de pensar.

– Leva o aparelho móvel pro leito do paciente, eu vou esperar você lá. – Lá, o quarto do paciente era ali, na minha frente o que descobri após observar onde eu estava para poder encontrar o quarto mencionado na ordem de exame.

– Já tá tudo ali Emi, eu e a Lola viemos prontas para fazer o exame, mas aí nos deparamos com esta situação.

– De duas, e não conseguiram fazer isto? – Não contive minha língua e perguntei incrédula, vendo a menina ficar vermelha e entrar o quarto na minha frente.

– Bom dia, – Comecei me dirigindo ao dito paciente. – Meu nome é Emi, eu sou chefe de aquisição de imagem do setor de auxilio diagnóstico. Estou aqui para fazer um exame de raio-x em você, tudo bem?

– Bom dia. Se o exame tem que ser feito... – Disse em forma de consentimento. – Eu posso pelo menos tirar isso aqui? – Perguntou se referindo ao colar cervical que tinha em seu pescoço.

– Sinto muito, sei que o colar incomoda, mas ele ajuda a sua coluna a ficar imóvel na posição certa, não podemos removê-lo. Aqui diz que você tem uma fratura na cervical, você pode me dizer quantos dias isso faz? E se o médico falou com você alguma coisa sobre cirurgia, se você vai ter que fazer alguma, se não, ou se você já fez essa cirurgia?

– Faz três dias, e eu saí da cirurgia faz umas seis horas mais ou menos.

– Certo, e você sabe me dizer se os médicos encontraram alguma outra fratura em algum outro ponto do seu corpo?

– Três ossos da mão e duas vértebras cervicais só. – Ele disse e pareceu refletir. – Tsc só.. – Repetiu a pequena palavra com um humor ácido, que eu compreendia, mas não estimularia a falar mais. Apesar de eu estar bem surpresa que ele tenha fraturado duas vértebras cervicais e estar vivo, mesmo que muito possivelmente este seja o único bônus dele.

– Tudo bem, eu vou colocar sua mão fraturada para cima da sua barriga, para que a fratura não seja ampliada ou saia da posição que o traumatologista colocou. – Disse de forma simples, avisando sobre o toque e a ação, mesmo sabendo que ele não sentiria nada, nem mesmo a dor da fratura na mão. – Agora, eu e minha colega vamos erguer você pelo lençol para que seu corpo se erga por igual de todos lados, sem movimentar também a coluna. – Disse ao paciente. – E você – olhei pra novata. – Vai posicionar o chassis.

Feito o exame, o paciente foi deixado no quarto enquanto eu acompanhei as duas meninas de volta ao setor, por um único motivo. Elas iam ouvir.

– Isso aqui. – Comecei erguendo o papel com o pedido de exame. – É só papel, qualquer um pode vir aqui e escrever o que quiser nele, ele vai aceitar tudo, é só um pedaço de papel. Normalmente eles vem com as informações primordiais que vocês precisam, mas se vão obedecer um papel, vocês duas não servem para trabalhar aqui. Oitenta por cento do trabalho de vocês é pensar em como fazer o trabalho, e os outros vinte achar um meio de fazer a ideia funcionar. Conversem com o paciente, se ele não estiver falando corra atrás das informações que faltam com a equipe de enfermagem. Outra ciosa importante, nunca ergam um paciente com fratura na coluna pelo lençol, isso foi feito hoje porque o paciente tinha somente fratura na cervical e estava com colar.

– Desculpe dona Emi. Não nos ocorreu a ideia, na maioria das vezes que tento conversar com paciente eles ficam enrolando meu tempo com a história da vidas deles. – Disse uma delas.

– Então para de conversar com pacientes, comece a recolher informações deles. E eu quero vocês duas aqui hoje de madrugada, ás cinco horas, que é a hora da rotina de UTI, exame de tórax em todos os leitos. Hoje a rotina de UTI vai ser feita por vocês duas. E podem seguir com plantão a partir das cinco mesmo, porque quero as duas aqui no plantão de sábado para atender ás emergências do final de semana.

– OK. – Disseram as duas juntas.

Eu não costumava ser tão má, mas eu estava mesmo quase explodindo de estresse por tudo mais que estava acontecendo comigo naquele momento. E logo as duas meninas sumiram da minha vista, meu telefone tocou. Era Joe.

– Emi, cadê você? – choramingou – Você não disse que vinha pra cá?

– Joe não é a melhor hora. – Tentei cortar.

– Mas eu preciso de você aqui, ou vou morrer de ansiedade.

– Eu estou no hospital Joe, depois eu falo com você.

– Que hospital Emi, você disse que tinha pedido suas férias.

– Pois é Joe, mas eu tive que vir aqui fazer umas coisas, quando der eu passo na loja, mas agora não posso falar com você. – Disse e desliguei.

Será que agora eu consigo sair daqui? Misericórdia!

– Ora ora ora, se não é a desgarrada Emi. O que faz aqui? Ouvi dizer que você tinha simplesmente abandonado o seu posto de alto nível dentro do hospital. – Claro, meu dia não estaria completo se eu não cruzasse com Rebeca, porque todo setor também tem uma pentelha.

– Ahh você soube Rebeca. Poxa é tão embaraçoso, mas não foi exatamente um abandono, é a minha situação está muito difícil, sabe, nunca fume a primeira pedra, não pra parar...da uma fissura. – Disse avançando para cima da figura que se encolheu toda.

– Você não tem respeito pelos problemas e doenças dos outros, sabe quantos viciados em crack esse hospital abriga para você ficar fazendo piadinha com a doença dos outros.

– Sei sim Rebeca, a minha piadinha foi só uma forma obscura de dizer que a minha vida não é da tua conta. Mas não é como se eu esperasse mesmo que você entendesse.

– Escuta aqui Emi, não é só porque você tem um cargo acima do meu que pode ficar agindo dessa forma. Alias, da forma como você abanou isso aqui, duvido muito que seu cargo seja mantido, não é?

– Não sei Rebeca, vai perguntar lá no RH. Eu tenho mais o que fazer agora do que perder tempo com você. – menina chata do caralho, eu hem.

Sumi logo dali, antes que mais algum contratempo acontecesse. Apesar de que a cara dela deve ter sido cômica indo até o RH pra saber somente que eu estou de férias, menina estranha. Mas isso não era problema meu, minha estadia ali dentro já tinha se prolongado demais.

Eu já nem sabia mais o que fazer agora, apenas me encaminhei para o estacionamento para poder alcançar meu carro. Dentro do mesmo eu ligaria para o advogado, isso é claro se aquela coisa de celular não tivesse tocando de novo, um número desconhecido e com um DDD que não é da região.

O diretor da antiga escola do Miyavi. O homem me ligou para pedir suas mais sinceras desculpas, mas aquela instituição não poderia mais me mandar o histórico do garoto por causa da dívida. E depois dessa eu só pude suspirar, essa história já tinha sido resolvida e eu admirei muito o bom senso daquele homem quando ele disse que liberaria o histórico do meu afilhado confiando que a dívida seria paga quando a mãe dele chegasse ao Brasil, mas eu não estava conseguindo entender o motivo por ele ter mudado de ideia.

Sem desculpas, sem ideias, sem negociações. Ele simplesmente decidiu que não liberaria o histórico sem o pagamento e ponto final. E agora o que me restava? Ir até a escola do Taka mendigar ao diretor que aceite que o menino retorne aos estudos segunda mesmo com os documentos atrasando. Talvez nem fosse necessário, pois Hiroki já estava a caminho, e atraso poderia ser considerado somente um atraso normal mesmo, mas com a sorte que eu estou tendo é bem capaz do outro diretor entrar em contato com a escola e informar o motivo de não ter mandado os documentos.

Pelo menos o diretor da escola do Taka foi mais sensato e disse que o importante era Miyavi retornar aos estudos o quanto antes. A essa altura, já estava na hora do Takanori largar da escola, então não me custava dar a ele uma carona, fiquei aguardando no meio fio, mas ele demorou. Vi Reita sair e ficar em frente a escola escorado no muro, e nem dois minutos depois, talvez a única coisa agradável mesmo do dia. Takanori apareceu, mas nem notou meu carro estacionado em frente a escola, também pudera, a atenção dele estava única e exclusivamente focada em Reita. Eles falaram alguma coisa, e logo saíram lado a lado na mesma direção, foi o meu primeiro e talvez único sorriso sincero do dia, pelo menos Ruki estava em boa companhia.

Resolvi ir a um bistrô qualquer para "almoçar" enquanto pensava em como resolver algumas coisas, depois, logo na primeira hora ligaria para o advogado. E assim foi feito, fiquei no bistrô até o primeiro horário da tarde e telefonei, o cara fez o favor de me dar uma consultoria por telefone, já que, no papel, eu sou sócia do Joe. Apear do fato de que aquele não era o melhor tipo de lugar para ter aquele tipo de conversa, as pessoas nem tentavam disfarçar quando olhavam na minha direção de um jeito estranho.

E no fim de uma longa conversa de quase quatro horas no celular – que eu vou queimar a conta sem abrir este mês. – Ele não me deu nenhuma informação animadora. A conclusão brilhante dele era que eu teria já que preparar Miyavi psicologicamente para agir como parente legal de Mitori e assinar todas as vias e documentos pós morte da avó.

Depois de tudo o que aconteceu neste dia, eu só precisava de um ombro amigo. E foi sem nem raciocinar que disquei o número de Joe.

– Até que enfim você deu as caras nee Emi, aposto que esqueceu de mim. Você não veio, aí eu tive que resolver um monte de coisas sozinho. – Ele começou a disparar as palavras sem nem me deixar falar. – Eu já tenho mais uns papeis pra você ler, mas dessa vez, se você concordar vai ter que assinar, mas como achei que você tinha esquecido de mim, já mandei o Reita levar até a sua casa. Emi vai ficar demais, a gente tem que se encontrar pra ver mais alguns detalhes. Err quer dizer... você já analisou a situação, não é? Me diz por favor que você concorda comigo que isso vai dar muito certo, Emi. Nós vamos ter nossa casa de shows e vai ter inauguração com Abomináveis. – Ele estava todo empolgado, e eu apenas encerrei a ligação, desligando meu celular em seguida.

Ele não me deu tempo de analisar a situação, sabendo que eu tenho um emprego sério a respeitar e ainda assim está tomando todas as ações como se a casa já estivesse pronta e esperando por uma grande banda para se apresentar lá. Respirei fundo deixando uma nota alta em cima do balcão, torcendo para que pagasse meu consumo e segui em frente. E novamente, depois dezesseis anos sem Masahito, eu estava completamente sozinha como uma adolescente de dezesseis anos. Sem ninguém com quem contar

Eu não sei se conseguia ao certo raciocinar onde tinha deixado meu carro, estava apenas caminhando por extinto, podendo perceber que o vento estava mais forte e o clima mais abafado. Porque é claro que um dia cheio de coisas dando errado não estaria completo sem uma chuva pra atrapalhar, olhei para cima para ver as nuvens, agora tinha que encontrar meu carro.

Acabei esbarrando em alguém enquanto isso.

– Desculp..

– Emi-san?

– Reita! Desculpe garoto não tinha visto você aí.

– Não há nada. Joe me mandou levar umas coisas na sua casa. Etto, Emi-san você está bem? – Ele me perguntou com uma cara estranha, ótimo, um garoto estava preocupado comigo.

– Claro querido, eu apenas não consigo me lembrar exatamente onde estacionei o meu carro. – Mas enquanto eu fosse Emi, não seria um menino que me devendaria.

– Ahh eu vi o seu carro umas duas quadras daqui.

– Ok então vamos lá. Eu acho que sei o que Joe mandou você trazer para mim, vamos para minha casa e eu logo devolvo eles pra você levar de volta ao Joe.

– Claro. Mas está tudo bem mesmo? Você não está com uma cara muito legal.

– Chama-se idade, que eu tenho o dobro da sua, já estou chegando perto dos quarenta filho, cara feia é um sintoma da coisa toda. – Disse uma besteira qualquer que o fizesse rir ao me acompanhar.

.:.

– Da pra tirar esse jogo de menininha Ruki, e colocar um que de pra jogar de dois? – eu não aguentava mais os gritos de Uruha, mas quanto mais ele gritava menos eu dava atenção a ele.

– Não é jogo de menininha, é um ótimo jogo. O melhor da serie alias, eu to amando jogar este Tomb Raider.

– Que saco Ruki, eu quero matar alguns zumbis. – reclamou mais uma vez.

– Os zumbis já estão mortos Uru, o máximo que você fazer é exterminar eles. – retruquei e recebi uma almofada voadora em resposta.

– Mas que porra, o cara tem um vídeo game top de linha, com jogos maravilhosos e eu tenho que ficar aqui só vendo.

– Quem liga pra isso? Não foi você que reinstalou o PS2 semana passada só pra jogar um pouco de fatal frame?

– Isso não quer dizer nada, adoro jogar super Mario world, mas isso não quer dizer que o nintendinho foi meu videogame preferido. Cara você comprou o Injustice hoje ainda não jogou, o Injustice.

– Eu ainda tenho um Atari guardado lá em cima e eu tenho certeza que funciona, se vocês não conseguirem jogar amigavelmente, eu vou colocar vocês a jogar aquilo em silencio. – ou a voz da minha mãe invadir o quarto no mesmo tom humoristicamente ácido.

– Mãe! – levantei do chão sem largar o controle para ir recebê-la e qual não foi a minha surpresa ao vê-la acompanhada por ninguém mais e ninguém menos do que Reita. – Reita! Entra cara, quer jogar Injustice?

– Como assim Reita quer jogar Injustice? Eu to te pedindo isso o dia todo, seu chato.

– Vingança por você ter tentado se colocar entre eu e o Aoi hoje na escola. Suporte as consequências.

– Bom eu vou tomar um banho... – Ouvi Emi dizer, mas tinha algo errado ali, alguma coisa errada na forma como ela disse isso ela estava quieta demais.

– Espera mãe, está tudo bem com você? – passei o controle pro Reita e segui corredor a fora, para acompanhá-la.

– Claro, meu amor. – Ela disse passando a mão por meus cabelos de um jeito carinhoso, mas estranho.

– Você deve estar cansada nee, eu sei que você está de férias do hospital, mas eu não te vejo sair de dentro do escritório mais. Tem alguma coisa que eu posso fazer para ajudar você? Você não devia se cansar tanto, pode acabar ficando doente. – Disse e pude vê-la dar um meio sorriso de leve, então ela se parou de frente para mim me fazendo parar no corredor antes de poder entrar com ela no quarto dela.

– Você já está fazendo uma grande coisa meu amor, tenho certeza que o desenho que pedi para você fazer vai ficar maravilhoso e me ajudar com o que eu preciso. Além do mais, só ter você aqui me impede de ficar doente de qualquer modo. Eu preciso mesmo de um banho Taka, por favor informe ao Reita que a tempestade vai ficar muito mais forte e que ele vai passar a noite aqui, dizer não não é uma opção. Comportem-se, eu vou pro banho.

– Mae se você sabia que a chuva ia ficar feia porque não levou o Reita pra casa e dele e sim pra cá? – era tudo muito estranho, era como se ela quisesse se desvencilhar de mim de qualquer forma possível.

– Preciso de um banho Taka, depois conversamos. Peça algo para vocês quatro jantarem. – Disse e trancou a porta me deixando sozinho no corredor, olhando para a porta branca de madeira, com uma sensação muito estranha de que algo ali estava errado.

Voltei para o quarto ainda meio desconfiado, Emi estava agindo de um jeito estranho. Porém, outra coisa estranha que aconteceu foi que meu quarto estava silencioso, e eu sei que ele não ficaria assim tão silencioso só pela minha ausência, mesmo que Kouyou e eu fossemos os dois mais barulhentos do grupo.

– Ué, cadê todo mundo? – Perguntei ao entrar no quarto e ver somente Reita dentro do mesmo, quietinho sentado no chão jogando, adivinhem, Tomb Raider.

– Uruha foi pra casa, porque a mãe dele ligou, e Miyavi... – Ele travou neste momento, e ficou um pouco vermelho também. – Err Miyavi disse que tinha que fazer sua mala para o passeio de vocês, é. – Foi o que ele disse de forma estranha, ai ai Myv, espero que não tenha dito nada constrangedor pro meu lado pro Reita.

Fiquei ali olhando para ele, meio que decidindo se falava que era meio obvio que ele estava mentindo. Ou se informava que eu tinha acabado de descobrir que ele não sabe mentir. Eu ainda podia exigir a verdade, mas conhecendo Miyavi eu sabia que a resposta podia muito bem apenas ter sido algo como "vou lá escolher com que cueca vou seduzir o Kai" ou "vou lá assistir um lemonzinho, pra me aquecer pra quando ver o Kai amanha", então deixa quieto.

– Eu diria que não só isso que o Miy disse, mas conhecendo ele... o que foi? Ele citou quais técnicas de sedução estava treinando para aplicar contra o Kai no final de semana? – Resolvi perguntar.

– Ee? Não, ele não disse nada com relação ao Kai...quer dizer, eu nem sabia que ele tinha interesse no Kai.

– Ahh pois é, não te disse. Pois não é que o amorzinho platônico do Kai não era o Myv!

– Como assim? Eles não se conheciam? Como pode duas pessoas que são grudadas em você desde crianças não se conhecerem?

– Bom é que o Myv sempre estudou em um internato, e toda vez que eu ao pra la nas férias o Kai estava na vó dele. Mas o Miyavi largou a escola sem contar pra ninguém e arrumou um emprego qualquer, mas acabou cruzando com o Kai neste emprego. A moral da história é que o Kai também é o amor platônico do Takamasa.

– Legal que eles se gostam. – Ele comentou.

– É. E assustador também, porque quando um dos dois quebrar o gelo, eles vão ficar se pegando o tempo todo, e vão namorar e eu vou perder ao mesmo tempo meu melhor amigo e meu irmão. Eu sou muito egoísta e possessivo com os dois.

– Você ainda tem o Uruha.

– Eu amo ter o Uru por perto, mas não é a mesma coisa. Até porque, ultimamente ele só abre aquele bico de pato dele pra falar.. – do Aoi eu ia dizer revirando meus olhos, mas aí lembrei que eu já tinha feito merda ao gritar pra todo mundo ouvir sobre a opção sexual dele, não precisava expor mais isso também. – Besteiras, o Uruha só sabe mais abrir a boca pra falar coisa que não presta.

– Não era isso que você ia dizer. – Ele riu apontando pra mim, meio que se cobrando por eu ter feito a mesma coisa que ele.

– Baka! – ri, aproveitando o momento para olhar na TV em qual fase do jogo que ele estava.

– Ahh eu esperei você voltar para colocar o Injustice, a menos que queira continuar aqui. – Ele disse se referindo ao vídeo game.

– Você escolhe, eu só opto por um jogo que seja multiplayer.

– Então vamos estrear o Injustice. – Ele decidiu desligando o console pelo controle para que eu trocasse o CD.

– Sabe Reita, você se esqueceu de uma coisa... – Disse enquanto estava de costas para ele.

– Hm?

– Se Kai e Miyavi me abandonarem, antes do Uruha eu tenho você. Mesmo que você seja o amorzinho da vida do Aoi. – Disse sorrindo, enquanto passava a mão pelo segundo controle.

E é aquele momentos legais em que eu consigo fazer ele corar, e também aqueles momentos em que eu digo as coisas antes de conseguir filtrá-las. Mas incrivelmente, eu não me senti envergonhado pelo o que eu disse, porque era verdade na mais pura simplicidade.

Esquecendo por dez minutos todas as coisas estranhas que eu sentia pelo Reita, sobra uma grande amizade, nós pensamos da mesma forma, temos os mesmos gostos, a conversa flui...não é assim tão diferente de Kai.

... mas a coradinha do Reita compensa qualquer face de interpretação que minha fala poderia ter.

– Inicia logo essa bagaça Reita, eu vou pedir uma pizza para nós. Aviso antecipadamente que eu quem vai jogar com o Joker.

– Não peça Ruki, a Emi só vai assinar uns papéis e eu vou levar de volta pro Joe.

– Emi disse que a chuva vai piorar muito e que você vai dormir aqui, ela avisa o Joe. Disse também que você dizer não, não está em questão. – Terminei e vi ele tentar esconder um sorriso, muito sem sucesso. – Que foi?

– Emi sabia que a chuva ia ficar forte?

– Foi o que ela disse, ué!

– Acho que a tua mãe é aquele tipo de pessoa que consegue ver as coisas láááá na frente nee? – Ele perguntou, mas pelo tom a coisa pareceu a pergunta retórica mais cheia de ironia que eu ouvi na vida.

– Não é isso que o Joe sempre diz? – Respondi mesmo sem entender onde ele queria chegar, e não é que ele riu ainda mais?

– É ta parecendo mesmo que a Emi enxerga as coisas bem na frente. – Continuou no mesmo nhenhenhe de ironia.

– Porra Reita tudo isso porque ela disse que sabia que ia chover? – Saí do quarto para pegar o número da pizzaria, desconfiado por não ter entendido o que ele estava dizendo.

Mas ainda consegui ele responder algo como "você não herdou esta habilidade dela" mas não ouvi direito, e muito provavelmente ele apenas estava tirando uma com a minha cara como um bom amigo. Por isso nem voltei pra ter certeza do que tinha escutado.

Pedi duas pizzas grandes e voltei para o quarto, jogamos pelos quarenta minutos que a pizza demorou. Minha mãe não desceu para jantar conosco, o que ressaltou minhas suspeitas de que algo não estava certo ali, mas Miyavi e Reita deram um jeito de atrair minha atenção novamente e deixei as coisas estranhas que minha mãe estava fazendo passar, por aquele dia.

Após eu olhar de cara feia para Takamasa, quando ele insinuou que nos deixaria sozinhos para que pudéssemos agir como um casalzinho, ele nos convidou para subir no quarto dele. Tocamos um pouco, os velhos instrumentos que minha mãe tinha deixado decorando o quarto dele, e fiquei feliz ao ver que na tela do PC dele era um jogo em rede que estava aberto e não algum anime gay pervertido. Como eu tinha me acostumado a pegar ele olhando cada vez que subia ao quarto dele sem avisar.

Triste era admitir que após tantos flagras dele assistindo cenas de um mesmo casal, a ponta dos meus dedos estavam formigando para baixar o tal do Sensitive Pornograph, só pra ver se essa merda era mesmo tão boa a ponto de justificar a dependência de Miyavi nesta coisa. Mas é claro que eu não faria isso.

Ficamos lá jogando conversa fora até eu quase engolir o quarto em longo bocejo de sono, olhei no relógio e já estava bem tarde. Disse que estava com sono e Miyavi me relembrou que queria estar em cedo na casa do Kai amanha, e após isso, educadamente Reita sugeriu que fossemos dormir. Eu diria que ele não estava com nada de sono, mas era educado demais para ver eu e Miy com, e não nos acompanhar.

Pedi uma calça de pijama e uma cueca do Miv emprestado pro Reita usar e descemos pro meu quarto, deixando o tatuado para trás. Peguei mais uma camiseta folgada minha e entreguei para ele, informando em qual armário do banheiro do meu quarto tinha toalhas se ele quisesse tomar um banho, visto que tinha vindo direto da loja do Joe para cá.

Vesti uma camiseta larga e velha do Boca Juniors, era a minha preferida pra dormir. Senti que devia procurar um calção para usar junto, já que não ia dormir sozinho. Mas foda-se, quando Kai ou Uruha dormiam ali eu dormia da mesma forma como dormia todos os dias, e Reita não seria diferente deles. Ponto final.

Ouvi o barulho da água do chuveiro caindo e resolvi arruar as camas para dormirmos, mas ao tirar a colcha da minha, um grande problema. A faixa. A porcaria da faixa que dormia comigo toda maldita noite estava ali jogada no meu colchão, amassada contra o lençol e eu com certeza não podia deixar que ele encontrasse a faixa perdida aqui.

Aí entrei em pânico, porque a ausência do barulho do chuveiro me indicou que ele tinha terminado o banho. Droga, ele podia ser folgado como o Uruha e tomar banhos de uma hora e meia na minha casa também.

– Hm.. cralho, onde eu enfio a faixa do cara? – Perguntei para mim mesmo e para as paredes.

Como eu era burro o suficiente para cogitar a possibilidade de deixar o cara achar as provas do meu crime? Infundado, diga-se de passagem. Peguei aquela coisa por puro susto, é claro. E só não tinha devolvido aquela merda de faixa porque... ah porque... Ah quando o Uruha e o Kai ficaram me jogando contra parede pelos motivos que me levaram a pegar aquilo, eu jurei que ia devolver. Afinal, tinha sido um acidente, né. Mas eles acabaram esquecendo do assunto com o tempo, então, ahh devolver pra que?

– Merda, merda, merda, merda. – Sim, eu estava girando e pulando no mesmo lugar tentando encontrar o lugar certo para esconder a faixa em minhas mãos.

– Ô Ruki, onde eu deixo a toalha? – Reita disse em tom de dúvida e logo pude ouvir o barulho da porta.

Porra. Fodeu. Tentei sorrir-lhe, mas sei que minha cara devia estar um espanto com direito a olhos esbugalhados, boca aberta e bochechas vermelhas, mas eu explico mais sobre o motivo mais tarde. Quanto a faixa, espero que Akira não ligue minhas reações ao volume dentro da minha calça e pense besteira. Droga, no susto eu enfiei a faixa dele dentro da cueca, lindo momento para ter decidido não ter pegado um calção para dormir.

– Tudo bem, pequeno? – Minha cara é de que está tudo bem?

Agora voltemos a situação: eu estava com a faixa dele fazendo volume dentro da minha cueca, vermelho quase roxo, com a boca e os olhos escancarados de pavor, e Reita saiu da porra do banheiro usando só a calça do Miyavi, terminando de secar os cabelos. Por que raios, ele tinha que lavar aquele cabelo essa hora da noite e ainda por cima resolver não usar camisa? Maldito sexy de cabelo molhado e peito úmido.

Pior era que eu me lembrava muito bem de como ele ficava enquanto lavava aquele cabelo. E de repente minha mente foi tomada pela cena dele tomando banho, mas desta vez o banheiro não era o da escola, e sim o meu. Aí lascou.

– Err.. eu... não estou encontrando o meu calção de dormir, me assustei quando ouvi o som da porta. Sabe, diferente de você, as minhas partes íntimas ainda são minhas partes íntimas já que eu deixo o mundo ver o meu nariz. – Disse o fazendo rir, o que me deixou um pouco mais calmo também, caminhei até a cômoda para vestir a porra de um calção e continuei falando para manter a atenção dele em mim e não no volume La em baixo que eu talvez estivesse sentindo um pouco maior, mas faria isso passar. – Também tava aqui tentando decidir que cama trás morte menos dolorosa para acomodar você.

A coisa boa dessa quantidade extremamente grande de coisas confusas que estão acontecendo na minha vida, é que eu to pegando aquele jeitinho esperto do Kai de levar os outros no papado, e enquanto encenava uma pequena dificuldade em amarrar o calção, tirei a faixa e enquanto fingia que reorganizava a gaveta, escondi a mesma no fundo, sob outras roupas.

– Eu acho que prefiro dormir no corredor nesse caso. – Disse ele se deixando levar pelo o que eu disse e nem se quer reparou na minha roupinha desgrenhada devido a velocidade com que soquei e dessoquei aquela faixinha pra dentro da cueca. Eu ri.

– Aquela – Apontei para o boxe de puxar que era embutido embaixo da minha cama – É a cama do Kai, já que ele dorme aqui desde... sei lá, sempre. E nem o Uruha ele deixa chegar perto. Bom e aquela – Apontei para um colchão que ficava em pé atrás da minha porta – É a cama do Uruha. Ele mata e depois morre se sentir o cheiro de outra pessoa no precioso lençol dele.

Vi Reita fechar a porta e se aproximar do colchão de Uruha, certamente analisando o lençol do Doreamon. Fiquei vermelho só de ver ele se virar na minha direção completamente debochado.

– E o que eu vou achar na sua? – Perguntou apontando para a cama de Uruha. E eu suspirei derrotado.

– Er.. o pikachu – Desviei os olhos mesmo que sem perceber. Não adiantaria esconder mesmo né, ele ia ver de qualquer jeito.

– É, com as bochichinas vermelhas fica mesmo igualzinho.

– Hm.. – É... e realmente não entendi o que ele quis dizer.

– Será que ele aceita mais um na mesma cama? – Disse rindo.

– Hem? – E dessa vez eu entendi menos ainda.

– Cama do Kai é suicídio, cama do Uruha um suicídio mais rápido ainda. Acho que vou dormir na sua.

– Ah mas não vai mesmo! – E o que ele tinha cabeça?

Não tinha entendido porra nenhuma daquilo, sei só que não vou dormir longe da minha cama, e que dormir na mesma cama que Reita não é uma boa ideia.

– Vou ter que ir dormir com o Miyavi? – Ele me olhou ofendido?

Bom, pelo menos o colchão inflável do Myv era de casal. Err, não.

– Porra, vai dormir na cama do Kai e não se fala mais nesse assunto. – Disse apontando para o Box ainda fechado, que revelou o amado lençol vermelho sangue do Kai-chan.

– Eu já tinha percebido que você é territorialista, mas até com a cama Ruu-chan?

– Não fode Reita. – Respondi arremessando os cobertores nele.

– É sério, isso pode ser também indício de crises graves de ciúmes. – Ele continuou falando como se estivesse redescobrindo a América.

– Sim Reita eu sou ciumento e possessivo com o que é meu, algum problema? – Perguntei me jogando na sua cama.

– Nada. Eu também sou extremamente ciumento, assim só pra você ter de informação. – E por dois minutos foi muito engraçado imaginar ele, logo ele fazendo ceninha de ciúmes, mas aí é claro que a minha boca tinha que ser maior que minha capacidade em manter ela fechada.

– Triste pela sua garota. – Disse rindo ao vê-lo se deitar na cama mais baixa.

– Hahaha garota – Gargalhou enquanto meio que socava o travesseiro até ficar confortável.

Eu senti como que se tivesse que entender a piada, mas só ri mesmo para acompanhar a risada dele, porque sério ele fazia umas caras muito engraças às vezes. Mas aí eu meio que entendi alguma coisa, ao mesmo tempo em que ainda rinha certeza que não tinha entendido nada.

– Hey você não tinha dito que estava apaixonadinho aí? – Zoei jogando uma almofada nele.

– É isso é um ponto indiscutível da história. – Ele disse com pouco fôlego devido a gargalhada que tinha dado antes.

Aí eu fico pensando pra ver se entendo a graça da coisa toda, mas percebo que a coisa não tem graça. Ele está me olhando, eu estou olhando para ele, e de repente eu não sei mais o que dizer.

– Então... você é afim de um garoto? – Perguntei sem conseguir deixar com que o desgosto fosse omitido da frase, e ele pareceu ter percebido.

– Não pensei que você...quer dizer Uruha, Kai, Miyavi, todos eles... – Ele começou várias frases sem ser capaz de terminar nenhuma, mas eu estava fora de ar para ser capaz de decifrar o que ele estava querendo expressar de verdade.

Eu estava sentindo coisas indevidas por este cara e isso era fato. Eu não queria sentir essas coisas por outro garoto, e mesmo amando e respeitando meus amigos, eu sabia que nada disso era preconceito. Não havia como ter preconceito contra aquilo, pois sentia as mesmas coisas que eles, mas..

Não para mim, eu não podia criar aquela cilada para a minha mãe. Emi se sacrificava ao extremo, mesmo que ela pense que eu não sei de todas as coisas difíceis que ela faz por nós dois, eu não posso criar mais dor para ela por simples desejos adolescentes.

Contudo, a ideia de que ele estava afim de alguém me acalmava. Era fato que eu podia colocar na minha cabeça que não adiantava ter sentimentos estranhos por Reita uma vez que ele estivesse anunciando para nós que estava namorando com uma linda e delicada garota. Era como se agarrar a derrota certa para fazer o que eu julgo como certo.

Mas não um cara. Um cara não. Não havia fantasia horrorosa que eu pudesse criar em minha mente em que eu via Reita com outro cara, e não pensasse em coisas como "e porque não eu?" Por que não se deixar levar por esse sentimento, se era apenas um desejo adolescente idiota? Se Akira queria ficar com um cara, por que não eu?

Nem que fosse só por uma vez. Ninguém saberia e isso nem se repetiria, eu teria realizado o desejo adolescente idiota e depois cresceria como um bom garoto, que se casaria com uma boa garota e faria a solitária família de Matsumoto Emi crescer. Uma família grande e feliz. Uma que ela nunca me pediu, mas que eu sabia que ela queria.

– Boa noite Reita. – Disse no modo automático, nem estava conseguindo vê-lo diante de meus olhos de tão atordoado.

– Espera pequeno.. – Ele começou, mas eu não fui capaz de escutar.

Me agarrei mais ao edredom que fora acomodado entre minhas pernas, o abraçando com as mesmas e com os braços. Minha cabeça estava longe e meus dedos estavam firmes contra o tecido. O que eu faria no dia em que ele chegasse de mãos dadas com um dos amigos bonitos dele, ou com Aoi?

– Não é o Aoi, não é? – perguntei sem saber exatamente com que tom a pergunta tinha soado.

– O que? – Ele pareceu espantado. – Não! – Respondeu de olhos arregalados e as mãos espalmadas em frente ao corpo, como que se Aoi estivesse ali e ele estivesse tentando o afastar. – Escuta Ruki... – Ele começou meio que parecendo desesperado, talvez fosse falar o nome do cretino. E eu não queria ouvir.

– Boa noite Reita – O cortei e virei de costas para ele.

O que eu não sabia era que ia despertar a fúria do senhor faixa. Nem que ele me puxaria pela cintura para a cama dele, na verdade foi surpreendente saber que ele tinha força para tanto. De verdade mesmo foi mais do que surpreendente, mas não quero nem mesmo pensar sobre isso.

Eu ia reclamar é claro, como assim eu estava com minhas costas coladas no peito do Reita? Mas ele só me apertou mais forte e começou a falar antes que eu pudesse me queixar de qualquer coisa.

– Calma pequeno.

– Calma o cacete, Reita. Que porra é essa?

– Você me assustou Ruki, posso me acostumar que você tem essa habilidade de se desplugar de vez em quando, mas isso não quer dizer que eu esteja preparado pra reações tão intensas assim. Você não falou mais nada, só ficou branco, quieto e com cara de quem viu fantasma.

– Eu não...eu só... – Tentei falar várias coisas até perceber que na verdade não tinha nada para falar.

– Você fugiu do assunto – Ele me virou de barriga para cima na cama, e ficou de lado apoiado em um cotovelo, me olhando meio que de cima, meio que de lado.

– Eu não fugi eu só...sei lá não imaginava.. – Dei de ombros ao falar qualquer coisa que ele pudesse engolir.

– Quer dizer que você vai ser o único macho que vai salvar nosso grupo? – Ele perguntou em um misto de zoação com angústia, quem sabe uma piada para encobrir algo mais sincero.

– Err.. eu não quero falar sobre isso – Disse me virando de costas para ele no impulso, o que não foi muito inteligente, pois me coloquei novamente naquela posição muito problemática com minhas costas coladas em seu peito.

– Ta fugindo do assunto de novo. – Ele acusou

– É, desta vez eu estou sim. Não quero falar sobre isso.

– Por que não?

– Porque é complicado Reita! – Disse me sentindo estranho por estar encostado daquela forma nele e virando de novo para cima, me arrependendo mais uma vez ao vê-lo com os olhos pregados em mim em uma posição de quem olha de cima.

– O que há de complicado em dizer que alguém te chama atenção, que faz você ter interesse nela? – Ele questionou ainda me olhando daquele jeito que parecia que ia me comer.

– Porque isso não basta Reita. – Disse com sinceridade, respondendo seu olhar a altura. – Ter interesse não basta, admirar uma pessoa muito mais do que todas as outras não basta, não é nem um pouco suficiente se esta não for a pessoa certa.

Ele ficou me olhando em silêncio por alguns bons quinze minutos. Dava quase para ouvir engrenagens se encaixando dentro da cabeça dele, mesmo que eu jamais venha a saber o que exatamente no que ele tanto pensou durante este tempo.

– Você sente que ama esta pessoa? – Me perguntou sério, porém calmo.

– Reita... – Comecei já fazendo movimentos de negação com a cabeça.

Mas ele me interrompei sem usar nenhuma palavra, apenas segurou meu queixo e me manteve olhando fixamente para ele, na espera clara de uma resposta. Francamente, se eu em algum momento da minha vida resolvesse assumir minha paixão por um cara, não vai ser, com certeza, pro próprio cara. Mas porra, precisa me olhar tão fundo assim? Quer saber, se amar alguém significa que eu não vou conseguir mais mentir sobre coisas constrangedoras desta forma, eu não quero amar mais não.

E olha eu aqui falando de amar. Desde quando os sentimentos estranhos que eu tenho pelo Reita evoluiu para amor?

– Responde, você sente que ama esta pessoa? – Perguntou novamente, ainda segurando o meu queixo, e sim, eu sento vontade de chorar.

Por que? Não faço a menor ideia. Talvez pelo fato que com ele me segurando assim eu tenha vontade de dizer que sim eu amava. Eu O amava e queria muito que ele me beijasse agora. Nós estávamos ali, deitados na mesma cama, ele ainda de lado escorado no cotovelo, me olhando de cima, mas não tão longe assim do meu rosto e falando sobre amor.

E me peguei pensando se este é o tipo de conversa que amigos tem. Ou se caso eu pedisse, ele me beijasse. E se ele me beijasse, se eu conseguiria fingir que não fora nada demais na manha seguinte. Não.

Então uma sequencia de trovões ecoou mais alto que meus pensamentos, a chuva realmente tinha se tornado uma forte tempestade, que daqui um pouco se tornaria em temporal. Mas eu não conseguia dar importância a isso, ainda estava com os olhos arregalados, sem conseguir fechá-los, sem conseguir conter-me ao derramar uma, quem sabe duas lágrimas.

Morrendo de medo como um bebe chorão, com a boca seca implorando por um beijo e a cabeça quente gritando para sair fora dali. Droga, era aquele cara mesmo que eu gostaria de tentar ficar para o resto da minha vida.

– Amo.. – Disse baixo com dificuldade, a voz meio arranhada em consequência da boca seca, as maças do rosto esquentando.

Para mim era quase como ter dito que o amava, talvez fosse por isso que me sentia tão acuado, tão exposto. Mas ele não seria capaz de ler isso em minha mente, afinal eu era apenas um menino tímido assumindo para o amigo que estava apaixonado por alguém. E ele sorriu para mim de um jeito muito bonito, talvez o sorriso mais bonito que o tinha visto dar. Talvez pela curta distância entre nós dois.

– Então não tem como ser a pessoa errada, não acha? – Ele perguntou de forma doce.

E eu acho de verdade que ele não falaria assim se soubesse mesmo que estava falando exatamente dele. Mesmo assim, existe esta condição patética do meu ser que não consegue esconder as coisas dele, e mesmo sem pensar muito eu acabei respondendo a sua pergunta.

– É por isso que é tão complicado...

– Eu continuo sem entender, pequeno.

– Porque não dá Reita, eu não posso. Não me permito fazer algo que vai decepcionar a Emi-san. – Disse, acho que era a primeira vez que dizia aquilo com todas as letras em voz alta para alguém ouvir.

Mais do que isso, era o cara por quem eu estava apaixonado que estava ali me ouvindo. A expressão no rosto dele mudou e, o vi fazer um pequeno "o"com a boca sem dizer mais nada. Então ele ficou tão pensativo como eu, gostaria de saber no que ele estava pensando.

Ele se deitou novamente quieto, com o mesmo ar pensativo. Eu devia ficar mais ou menos assim quando desplugava, e realmente só não dei bola porque minha cabeça estava maquinando tanto quanto a dele. Sem perceber seus atos, ou olhar para mim, ele me virou de costas para si novamente.

– Acho que o que está errado é você se machucar assim. Conheço pouco da Emi-san, mas acredito que ela pensa assim também. – Ele disse às minhas costas, e só percebi que estava chorando novamente quando ele me apertou com mais força após um soluço baixo meu.

Não falamos mais nada, ele ficou com os pensamentos dele e eu com os meus. Até pegarmos no sono, não sei quem adormeceu primeiro, mas o aperto do braço dele em minha cintura.

Eu sou um filho da puta de sorte, ou não? O Reita está dormindo agarrado em mim. Um filho da puta de sorte, é. Isso com certeza só vai piorar minha situação.

.:.

Emi acordou no meio da madrugada se sentindo mais exausta do que quando se deitou. Quando se deitou? Não se lembrava ao certo, as coisas estavam tão ruins. Só se lembrava de ter se trancado em seu quarto e tomado um demorado banho, tão demorado a ponto de reviver todas as lembranças ruins de sua infância e também os dias de felicidade ao lado da pessoa que a tinha tirado daquele inferno familiar; Masahito.

Com as energias esgotadas, tinha conseguido apenas se jogar na cama, ainda enrolada na toalha de banho e com o corpo úmido. Sem comer, sem saber se Takanori e Takamasa estavam bem, e com a chuva forte batendo no vidro de sua janela aberta.

Levantou, o corpo havia secado naturalmente. Se vestiu e com dificuldade foi a te sua janela para fechá-la, olhou a hora avançada no visor do celular, o colocando em sequencia em um dos bolsos do chambre. Em seguida, seguiu para fora do quarto com um grande peso em sua consciência.Não podia deixar os meninos daquela forma, precisava se assegurar que tinham feito tudo de maneira certa, que todos estavam bem.

Com um longo suspiro ganhou o corredor frio, e caminhou em direção quarto de Miyavi, abraçando o próprio corpo ao caminhar. Encontrou o menino esparramado em sua cama, a mala para o dia seguinte prontinha ao lado da mesma, só pode sorri com a empolgação do afilhado em ir para uma fazenda com Ruki e Kai.

Todo destapado, o menino de um lado da cama e todo o cobertor embolado do outro lado. Emi o cobriu e desceu novamente as escadas, se encaminhando agora para o quarto do filho. Mas nada a prepararia para o que encontraria lá.

A cama de Takanori estava desarrumada e vazia, o que não era normal. Em compensação, a cama do Kai estava aberta, com um grande bolo amontoado no meio.

Emi se aproximou do entulho com uma sobrancelha curvada, sem entender exatamente o que se passava ali, mas sorriu ao chegar mais próximo. Não pode conter o ímpeto de tirar o telefone do bolso e tirar uma foto daquela linda cena. Será que seu menino e sua paixão complicada haviam se entendido? Da forma como estavam dormindo abraçados, ela só pode concluir que sim.

E um sorriso sincero surgiu em seus lábios, a imagem tão fofa acabou por dissipar todo e qualquer sentimento ruim que o dia difícil possa ter colocado em sua cabeça. Takanori era mesmo a criatura mais doce que fora colocada em sua vida. E agora também tinha mais um motivo para poder implicar com Reita.

Fazer o que? Tinha que comprovar que aquele menino estava mesmo apto a cuidar de seu bebe. De preferência pelo resto da vida.