Capítulo dezesseis: Solar do campo

Por Kami-chan

É uma sensação muito incomum essa da consciência preenchendo a inconsciência. Não era sempre que isso acontecia, normalmente em noites sem sonhos, quando o corpo começava a despertar, a consciência ia preenchendo a inconsciência aos poucos, nos fazendo perceber as coisas ao nosso redor aos poucos. Eu gostava muito desta sensação, uma vez que fazia anos que nem lembrava mais como viver um sonho enquanto dormia.

Sem sonhos bons, nem pesadelos, minhas noites eram exatamente iguais a minha vida; vazia. Não que eu reclamasse, as coisas sempre foram assim, apenas tinham se intensificado com o tempo. Nada com o qual eu não conseguisse lidar.

Mas hoje é sábado, dia em que eu posso mostrar pra vida que eu não sou só um fodido. Não literalmente é claro, afinal eu sou rico, bonito, gostoso, bom de lábia. Não havia ser pensante que não me desejasse, e eu sei disso, porque cara, eu sou foda, eu sou o melhor na arte de...

– Aoi você sempre acorda assim se esticando todo e sorrindo como se fosse um maníaco? – Epa, eu não estava sozinho.

Mas pera aí, eu dormi sozinho ontem. Dormi na minha casa, e eu tenho certeza que não tinha convidado o Reita pra dormir aqui ontem, ainda que ele fosse a única pessoa que eu trazia para dormir aqui.

– Que você tá fazendo aí? Caiu da cama, ou ta preocupado que o teu nanico vai viajar para outra cidade? – Perguntei tateando o colchão para saber onde ele estava sem abrir os olhos.

O encontrei sentado com as pernas dobradas como índio à minha direita e me arrastei até poder ficar com a cabeça sobre uma de suas pernas. Nem abri os olhos, ainda estava com sono e eu sabia que podia deixar o Reita falando no vácuo caso adormecesse de novo, já que ele só ia falar coisas sobre o Ruki mesmo.

Também não ligava de estar puxando um pedaço do cobertor para ficar entre meu rosto e a perna do Reita, era um hábito, precisava sentir a textura do cobertor na pele do rosto para conseguir relaxar e dormir, e sim, era o mesmo cobertor desde que eu tinha cinco anos. Ele nem me cobria mais por inteiro, mas sempre dormia comigo, porque eu não conseguia dormir sem ele.

E por último, não ligava a mínima para o fato de me mostrar tão carente na frente de Reita. Ele tinha se tornado meu melhor amigo, e isso vinha no pacote. Agora se foda ao me aguentar, sou carente mesmo, meu pai foi ausente a vida inteira, e me abandonou depois que a mamãe ficou doente, e cara, minha mãe tá morrendo.

Isso era uma coisa que nenhum dinheiro dado pelo meu pai poderia reverter, não havia dinheiro no mundo que comprasse a morte. E as enfermeiras mudavam de assunto quando eu estava por perto, mas eu sempre as pegava falando coisas sobre como aquela doença ainda podia ficar pior até minha mãe morrer.

Reita era o único que estava por dentro de tudo isso, o único que era meu amigo por inteiro. Os outros nem faziam ideia, só gostavam de andar comigo por causa das garotas. Ou no caso dos que não gostavam de garotas...bom eu ainda não tinha descoberto o que eles faziam perto de mim. Kai e Uruha só vieram no pacote com Ruki, que uma vez já tentou ser meu amigo.

– Aoi você está fazendo caras e bocas de novo, sabe, você e o Ruki nem são tão diferentes assim. – Ele disse, e recebeu um soco de esquerda nas costelas, uma vez que eu estava deitado de barriga para baixo, com o rosto virado para ele. Deve ter sido patético, pois ele só riu. – Sério cara, eu preciso falar com você.

– Um soco foi pouco pra mostrar que eu to ouvindo? – Resmunguei.

– Vamos Aoi, já passou da hora de acordar. h– Balançou as pernas, como se algo assim fosse me fazer acordar; poser. – Já passou das 8h30min Aoi. – Reclamou, ao perceber que eu não ia levantar.

– É sábado. O meu sábado de folga, quero passar o dia na cama.

– Porra Aoi, é importante!

– O que pode acontecer de importante às 8h30min da manha de sábado?

– Tá vamos ver... eu acabei de vir da casa do Ruki, onde tomei café da manha com ele, Miyavi e Emi, isso é claro, depois de dormir a noite toda de conchinha com o pequeno.

Tá, ele sabe como me fazer acordar. Minha curiosidade acabou de ficar muito maior que o meu sono. Abri os olhos sem em mover, apenas para poder olhar na cara dele e procurar algum traço de mentira ali, mas o sorriso bobo, pateta, boboca, imbecil e apaixonado dele me fez acreditar no que me fora dito. Mesmo não encontrando argumento que convencesse Ruki a dormir de conchinha com alguém, o que me deixou mais curioso ainda.

– Conte-me tudo. – Disse me afastando um pouco dele, encostando minha cabeça mais para perto do joelho, mas não que eu fosse me levantar da cama quentinha. – Primeiro, como você acabou dormindo na casa do Ruki?

– A Emi me levou para lá, eu só tinha que levar uns papeis para ela assinar e levar de volta para Joe ainda ontem, mas ela determinou que eu iria dormir lá assim que chegamos e ela disse que a chuva ficaria forte demais.

– E ficou mesmo. Na verdade vou achar que você ter conseguido convencer o Ruki a dormir de conchinha com você tenha sido a causa do temporal. – Disse e ele riu.

– É. Mas sabe, no começo eu só achei estranho a Emi quase me amarrar dentro da casa deles, mas depois, unindo todos os fatos, todas as conversas, todas as coisas que aconteceram...ontem... – Ele travou, visivelmente tentando encontrar as palavras certas.

– Desembucha veado. – Dei-lhe um tapa em sua coxa.

– Não sei Aoi, ontem eu fiquei com uma impressão quase certa de que é mesmo de mim que ele gosta. – Ele disse e eu bufei, achando que ele ia falar algo interessante.

– Eu to te dizendo isso desde o começo do ano, retardado. Desde que a gente começou com essa operação de aproximação com o nanico. Raios Reita, me conta algo que eu não sei.

– Aoi uma coisa é você falando. E mesmo que eu admire esse seu dom, quase inutilizado, de ver as coisas na frente de todo mundo, é completamente diferente de eu mesmo perceber o que está acontecendo.

– Bom! Vai me dizer também que percebeu que é só você colocar o pequeno na parede que ele cede? – Por favor, diga que sim, porque o passo lento do Reita às vezes me deixa de cabeça quente.

– Sim, eu acredito que ele cederia. – Soltei um "ahhh" revirando os olhos, do tipo, finalmente senhor, mas ele continuou. – Mas provavelmente ele iria se sentir mal depois, e eu não quero isso. Ele está confuso e eu não quero que haja dúvidas.

– Fala sério Reita, joga o garoto na parede e depois não de tempo pras dúvidas surgirem.

– Às vezes nem tudo se resolve jogando as pessoas na parede Yuu. Ele falou umas coisas bem tristes ontem Yuu, sobre entender o que estava sentindo, mas negar a coisa toda pra não decepcionar a Emi e essas coisas assim. Não é o tempo certo ainda, se eu o pressionar enquanto ele ainda estiver em negação, pode ser bom, mas também pode ser muito ruim.

– Ai meu deus, como aquele nanico é idiota. – Disse passando as mãos em minha face, incrédulo. – O que você quer fazer agora? Vai se manter nessa lenga lenga?

– Acho que não né, afinal eu sei que ele me quer da mesma forma como eu quero ele. Acho que ele está tendo uma visão equivocada da reação que a mãe dele pode ter, você mesmo disse que a forma como ela fala comigo é como se ela soubesse de tudo.

– Ela vive e morre pelo Ruki, e tenho certeza que ela não vai se sentir decepcionada ou coisa do tipo. Ela tira com a tua cara, como a sogra mais folgada do mundo. É claro que ela sabe, Reita.

– Então ele tem que conversar logo com a Emi, tem que haver um jeito...

– Não peça para ele conversar com a mãe, você não vai conseguir fazer isso de forma imparcial. – Aconselhei, sim, porque sou um bom amigo.

– E quem vai fazer isso, você? – Debochou, se havia alguém no mundo que Ruki nunca confiaria, era em mim. Pelo menos nunca mais.

– Não. Mas ele ouviria o Kai, ou o Miyavi. Quem sabe o Uruha também, mas o Uru é do tipo afobado demais, o tipo de pessoa que faz as coisas meio que sem pensar antes, é possível ele mais irritar o Ruki nessa situação do que convencer ele a conversar com a Emi.

– Nós ainda não sabemos muito do tal Miyavi...

– Ele vai ser teu colega quando vir para nossa escola, vê se trata bem o teu cunhado.

– Cala a boca Aoi..

– Ta. Ainda temos o Kai. Eu tenho o telefone dele, e lembra naquela noite que a gente armou pra você e o Ruki se beijarem, a cara que o Kai fez foi muito além de quem está armando uma pro amigo. Ele sabe, e aprova a coisa.

– O Ruki escuta ele...

– E ele quer que o Ruki aceite o que sente por você.

– Kai.. – Reita disse pensativo

– Kai. – Repeti com determinação.

No fundo, bem no fundo, ajudar Reita e Ruki a ficarem juntos era muito mais do que ajudar o meu melhor amigo a conquistar o baixinho que ele amava. De uma forma singular e secreta, o fato de perceber claramente o quanto Ruki gostava do Reita tanto quando o Reita gostava dele me dava uma sensação de estar fazendo algo pelo Ruki também. Ele não precisa saber disso nunca, mas é como finalmente sentir como se me desculpasse por coisas passadas.

Claro que eu ia deixar ele mesmo contar a história toda para o Reita. E que também nunca admitiria que precisava fazer algo de volta para o Ruki, não precisava mais da amizade incondicional dele como quando éramos crianças, mas vá...se ajudasse eles a ficarem juntos eu me sentiria melhor com relação ao Ruki. Ponto final.

Por hora, eu tinha um motivo pra ficar mandando sms pro Kai. Nee, o cara era perfeito, fofo vestido, ordinariamente gostoso sem roupa, inteligente e curtia umas paradas casuais que eu sei bem. E se ele topava coisa de uma noite, eu topo também.

– Hei..eu to vendo esse sorriso. – Reita me tirou do devaneio. – Talvez fosse bom você saber que o Kai não está mais avulso no mundo.

– Como assim? Com quem ele ta ficando? Ele não tinha dado o fora no Nao por causa de uma paixão platônica?

– Aí é que tá dr. Destino, o amor platônico do Kai era na verdade o Miyavi. E o Ruki me contou ontem que o Myv é mais do que apaixonado pelo Kai também, na verdade é só passar dois minutos com o Takamasa pra perceber isso.

– As garotas estão cada vez mais imprestáveis, os caras bonitos estão ficando todos comprometidos... o que será da minha vida?

– Não se preocupa não Shiro, assim como o destino uniu Kai e Miyavi lindamente, colocará uma pessoa que consiga te levar na coleira bem do jeito que você merece, pra fazer você pagar por todo cara e toda garota que você já usou.

– Reita, vou repetir só mais uma vez: Primeiro, eu não faço nada que elas, ou eles não queiram, e segundo, eu não vou andar de coleira de jeito nenhum. Ta pra nascer a pessoa que vai conseguir me domar. – Disse levantando e apontando o indicador para ele em riste.

– Vai nessa. – Ele disse rindo da minha cara.

Na verdade, acho que a influencia do Ruki não está sendo muito boa pro meu amigo. Ele tava ficando chato igual ao pequeno.

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Sorrisos estampavam os rostos dos três meninos enquanto os mesmos desembarcavam do utilitário em cor prata, que acabara de ser desligado pela mãe de Kai. A mesma se espreguiçou ao sair do carro, também sorrindo ao sentir o cheiro típico do campo, o qual sentia tanta falta.

Logo a porta larga e alta, feita em madeira rústica foi aberta e por ela uma senhora magra e de aparência frágil apareceu. Descendo os poucos degraus além da varanda da casa grande com os braços cruzados que segurava um fino casaco fechado em frente ao seu corpo, cujo linho se misturava ao tom alaranjado da saia quase longa demais para as galochas de chuva que usava. Mas nada nas vestimentas simples daquela senhora se comparava ao sorriso pleno e feliz que estampava seu rosto de pele fina, que forçava típicas covinhas contra a gravidade das poucas rugas.

A mãe de Kai logo jogou a chave do carro para o filho e caminhou de forma apressada na direção da mãe. As duas tão semelhantes, ninguém o mundo duvidaria de seu parentesco, bem como ninguém duvidaria da relação de parentesco com o jovem Yutaka.

Detalhes a parte, a cena de mãe e filha se abraçando chamou bastante a atenção de Ruki, sempre chamava em cada vez que ia para a fazenda de Uke-sama. Nunca vira sua mãe abraçada com ninguém na vida além de si mesmo, ele se quer conhecia seus avós, não sabia se em algum lugar no mundo tinha tios, primos, sobrinhos...

Logo a imagem do horizonte foi cortada por um Kai que quase corria de forma desengonçada com algumas mochilas, também ansioso para poder abraçar a avó. Sabia que não era por não ser uma pessoa amável que Emi não tinha aquele tipo de relação familiar, a mãe nunca lhe contara com todas as letras sobre sua história, mas sabia que não era algo bonito de se saber.

Ele sabia que somente ele tinha o poder de um dia transformar a vida de Emi em algo mais colorido e populoso. E era isso que nenhum de seus amigos pareciam entender. Mas estava muito cedo para Ruki ficar pensando em seus dramas, sabia que mais cedo ou mais tarde teria que falar sobre isso com Kai, pois tinha prometido isso ao amigo...mas não agora.

Agora Ruki se ocupou por explicar com muita animação sobre todas as coisas que achava divertido poder fazer na fazenda da avó de Kai. E teve que segurar o garoto quando este quis correr na direção do cerco dos cavalos, encantado com a beleza e a quantidade de animais no livres no cerco.

Ele ainda saberia que cavalos era uma antiga paixão dos avós de Kai, e que aquele lugar na verdade, um dia, já fora um grande haras. Mas após o falecimento do avô do moreninho, sua avó passou apenas a alugar o local para outros amantes de cavalos que não tinham espaço em seus lares para os mesmos. Mas antes, Ruki tinha que acompanhar seu amigo para que Uke-sama o conhecesse, e para que ele mesmo pudesse cumprimentar a avó de Kai de maneira tradicionalmente respeitosa, como mamãe lhe ensinara.

Foi muito engraçado para os meninos quando a avó de Kai não gostou nem um pouco da aparência de Miyavi, apesar da educação dele ter sido realmente irreconhecível ao se apresentar e agradecer por permitir sua estadia naquele local. Aquilo foi tão estranho que Ruki e Kai se entreolharam e tiveram que fazer muita força para não rirem. Entre seus olhares uma mensagem muda, nunca deixariam Miyavi se esquecer da forma como fora educado de uma forma bizarra demais, pobre Ishihara sofrerá por muito tempo nas mãos dos amigos.

O dia cinza, com clima de chuva não era capaz de diminuir a animação dos meninos que logo seguiram mãe e filha para dentro da casa para desfazer suas malas e comer algo. Ah sim comer, algo que qualquer pessoa acaba fazendo em excesso quando acolhido na residência dos Uke. Aquele seria um final de semana muito proveitoso.

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Apertei mais o casaco contra o corpo e observei por mais tempo o lugar onde estávamos, já faz tempo desde a última vez que vim aqui, mas ele está igualzinho. Sempre esteve. E nem mesmo o dia frio e levemente úmido era capaz de diminuir o encanto e a beleza daquela grama extremamente verde que parecia se estender até o horizonte.

Se me perguntassem, eu sempre responderia que prefiro as grandes cidades, o movimento dos carros, o barulho das buzinas, as músicas altas... Os milhares de pedestres, diversos em suas individualidades, caminhando sós ou acompanhados pelas ruas sujas da cidade. Havia uma beleza profundamente humana na vida urbana, no som das sirenes, nas risadas altas e nas pessoas que passavam alheias aos seus demais semelhantes enquanto estavam completamente focados em seus celulares, ou simplesmente matutando coisas importantes que teriam que fazer em um futuro próximo.

Mas também não podia negar a beleza do campo, desde a grama verde e úmida até os quero-queros que voam baixo em um ponto distante, protegendo seus ninhos rasos. A ausência de muros e de barulhos fazia com que o verde do chão se misturasse com o azul acinzentado do céu e confundia os sentidos, fazendo com que você pense que pode levar dois minutos para alcançar aquela árvore cheia de frutos maduros, quando na verdade ela pode muito bem estar há mais de uma hora de distância.

Sim, aqui os quilômetros são meditos com tempo, e se muito quiser saber a distância, pode contar seus passos. Mas isso seria apenas um capricho, uma vez que aqui o tempo não tem muita relevância. Eu jamais abandonaria a cidade, mas se de tempos em tempos pudesse passar apenas um ou dois dias neste silêncio pleno, com certeza seria uma pessoa melhor.

– Sugoi nee! – A voz de Miyavi me trouxe de volta.

Ao olhar para o mais alto, sorri ao ver que sua expressão era direcionada ao cercado onde ficavam os cavalos novamente. Ahh espera só até ele conhecer os coelhos.

– Onde está o Kai? – Quis saber, uma vez que eu estava sozinho na varanda porque o Mivizinho estava com dificuldades em encontrar uma galocha que calçasse em seu pé gigante.

– Conversando com a mãe e avó. – Ele disse, e eu ri me lembrando a forma como a avó de Kai mediu Miyavi dos pés à cabeça com olhos de reprovação para o cabelo tingido e as milhares de tatuagens.

– E você não quis ficar lá junto e tagarelar com elas? Que falta de consideração Takamasa, ali estão sua futura sogra e a mãe dela. Elas serão sua família um dia. – Disse em deboche.

– Pois é, pode fazer bastante piadinha agora Ruki, porque logo eu ganho a velha e você não vai ter mais nada pra rir. – Ele respondeu sem se abalar. – Eu nunca cheguei perto de um cavalo, eles são brabos?

– Estes não, pois são domados. A maioria não é da família Uke, pessoas que amam cavalos, mas moram em casas normais na cidade pagam para que ela cuide de seus cavalos. Antigamente aqui era um haras, as pessoas podiam andar a cavalo aqui, tinha exibições de raças, o avô do Kai era um bom domador de cavalos. O parque era aberto ao público em geral, não apenas aos donos de cavalos, então tinha carrinhos de comida, charretes e essas coisas todas.

– Tudo terminou quando ele morreu? – Ele perguntou, e eu afirmei com a cabeça. – Pessoas velhas morrem, não é... – Ele disse um ficando um pouco triste, aí me lembrei que a avó dele estava morrendo. E eu não queria que ele passasse o final de semana pensando na velha moribunda.

– Quer chegar perto deles? – Perguntei já descendo as escadas da varanda, na clara intenção que ele me seguisse.

– Eles não vão relinchar e dar coices? – Perguntou me seguindo.

– Só se não gostarem de você. – Ri. – Não eles não vão, baka.

Dez minutos depois, eu não tive nenhuma dificuldade para persuadir Ishihara a escalar o cerco alto de madeira e sentar no topo do mesmo, com uma perna para dentro do cerco e outra para fora. Mas no fim, apenas eu fiz carinho nas crinas de um cavalo, Miyavi não teve coragem. O que era engraçado, já que ele que era o desbravador corajoso entre nós dois.

O restante do sábado foi calmo, assim que Kai saiu para a rua nós caminhamos por todo o local. Mostramos os coelhos pro Takamasa e ficamos boa parte do tempo tirando um com a cara do outro enquanto observávamos e brincávamos com as criaturas felpudas de olhos vermelhos e orelhas compridas. Ah nesses animais o Miyavi teve coragem de encostar.

No fim, ficamos imundos por conta da grama úmida e voltamos para o interior acolhedor da grande casa. Depois de um banho morno descemos para fazer companhia à mãe e à avó de Kai, e acabamos até ajudando ambas com o jantar.

Kai ajudou a avó a cozinhar, enquanto Miyavi ajudou a sogra, também conhecida como mãe do Kai, a picar legumes e vegetais. Eu, é claro, fiquei encarregado a arrumar a mesa e prometi que lavaria louça depois, já que todo mundo crê que eu não seja capaz de produzir coisas comestíveis. O que não era totalmente verdade, eu apenas não tinha tanta paciência para picar tudo bonitinho e fazer pratos elaborados, mas eu também não morreria de fome se dependesse somente de mim para fazer algo pra comer.

E não, eu não estou pensando em alimentos congelados e nem em tele entrega. Eu sei mesmo fazer o básico como arroz, massa, bife...e algumas coisas mais. Mas eu não sei fazer ovo, porque nunca tive paciência de esperar a porcaria ficar pronta, e sempre acabava com uma porcaria crua, ou uma porcaria tão queimada que nem dava para tirar a casca.

Aproveitei a minha tarefa inicial na cozinha era mais rápida do que as demais, e pedi licença à avó de Kai para usar o telefone e ligar para minha mãe. Emi ainda estava com uma voz estranha, aparentando estar cansada, mas não quis me dizer nada.

Ela mudou de assunto para dizer que tinha conversado com a mãe de Miyavi e que ela estava mesmo prestes a chegar, e acabei por presumir que estar cuidando da Mitori era o que estava deixando minha mãe exausta. Isso me fez pensar em que estado a avó de Miyavi estava para que ela nunca falasse nada para a gente, nem levava o Mivs para ver a avó. Na verdade ela nem tocava no assunto, não dizia como ela estava ou se Miyavi gostaria de vê-la.

Então não quis mais forçar a barra para ficar perguntando os motivos de ela estar estranha. Apenas disse que o dia estava bom, e que antes do anoitecer nós estaríamos voltando para casa. Disse também que o desenho que ela tinha me pedido já estava pronto, o que não estava.

Então saí da sala pensando que em algum momento teria que deixar Miyavi e Kai sozinhos para me concentrar no que tinha que fazer. Sorri ao ver os dois trocando olhares sorrateiros por trás das costas da mãe e da avó de Kai, claro que eles não veriam nenhum problema em ficarem sozinhos.

O que os dois queriam era quase palpável. Era só questão de tempo a sós e uma ocasião propícia para que o gelo fosse quebrado. E meus amigos então seriam um casal, o que ainda era uma ideia meio estranha para mim, mas nenhum pouco desagradável. Afinal eu os amava.

Bom, pelo menos eu os amava até ficar sozinho com os dois em um quarto de paredes grossas com os dois ao mesmo tempo. Sentado em uma cadeira, com dois capatazes com seus rostos cobertos por lenços amarrados, à portas trancadas, luz apagada e uma lanterna na minha cara.

Será que só eu tenho amigos assim?