Capítulo dezoito: Pontos de vista

Por Kami-chan

Aoi

Sábado, aquele lindo dia em que eu só trabalho pela tarde apesar de Reita ter que estar na loja do Joe às dez e meia. Segundo Joe ninguém saía antes deste horário para comprar artigos de rock em sua loja e por isso não precisava de nenhum funcionário extra além dele mesmo, e das dez e meia até às duas horas da tarde Reita dava o seu jeito. Mas eu sentia que isso logo iria mudar.

Por quê? Joe estava vindo com umas conversas estranhas pra cima de mim e de Reita, coisas sobre expandir seus negócios. E expandir na minha cabeça vem acompanhado de mais trabalho, não que isso fosse de todo ruim, mas eu com certeza perderia minhas manhãs de sábado de sono.

Estava sentado em um dos dois bancos altos de couro preto que tinha em frente ao caixa da loja enquanto Reita estava atrás do balcão, debruçado sobre o mesmo. Nós estávamos conversando sobre bandas e coisas sem sentidos, clipes mal feitos e os melhores e piores álbuns de algumas bandas de sucesso.

Eu estava rindo de uma tentativa de imitação do Reita do Ozzy quando Uruha entrou na loja. É muito engraçada a forma como ele se parece muito com uma menina, mas ao mesmo tempo, bastava uma maquiagem mais pesada para ele ficar com o rosto bastante sério e másculo. Mas hoje, em especial, quem o olhasse ia ter problemas sérios para dizer se ele estava mais feminino ou masculino, ele fica bem bonito assim, se fossemos a festas juntos, pegaríamos várias garotas e garotos.

– Oi. – Ele disse entrando na loja com as mãos dentro dos bolsos frontais do casaco longo que vestia.

– E aí Uru, tudo bem? – Reita o cumprimentou, eu só sorri e acenei com a cabeça oferecendo o outro banco de couro que tinha em frente ao balcão para ele.

– Ahh puro tédio, e vocês? – Ele respondeu puxando o banco para si e se sentando no mesmo.

– Bom o Reita estava imitando o Ozzy antes de você chegar. – Eu disse, e ele riu.

O sorriso dele era meio estranho, os dentes todos retinhos e pequeninos pareciam de criança. Com certeza quando ele sorria assim, era mais feminino, o Ruki nem precisava ter gritado no meio do pátio da escola que o cara era gay pra perceber. Será que se eu convidasse ele para ir a uma festa comigo ele ia tentar pegar somente garotos? Isso é tão...restrito.

– Vocês trabalham até que hora aqui? – Ele quis saber, meio entediado.

E quando ele faz essa cara de tédio, ele é mais masculino. Se eu levasse ele para uma festa, e ele pegasse um garoto será que ele seria...mais masculino ou feminino?

– Até às dezessete horas e trinta minutos, por quê? – Ouvi Reita.

– Pelo tédio oras. Não tem graça jogar sozinho, nem tocar sozinho e nem fazer nada sozinho. – Disse emburrado, o que era compreensível, seus bons amigos estavam fora da cidade se divertindo e ele não pode ir junto.

– Isso é estranho sabia, Kai e Ruki são seus melhores amigos. Por que a tua mãe não deixa você fazer um passeio legal e familiar tipo esse? – Perguntei.

Isso porque até eu já tinha ido uma vez no haras dos avós de Kai. Foi minhas férias mais divertidas, isso antes de eu deixar de ser amigo deles. Sinto por causa do Kai, talvez se tivesse continuado a crescer ao lado dele, teria alguma chance de passar a mão naquele tanquinho. Agora foda-se.

Olhei pro Reita e pensei se o Ruki também tinha desenvolvido um abdome de tanquinho. Na sequencia tive que fazer uma força tremenda para não rir sozinho por motivos que estavam somente dentro da minha cabeça, é claro que Ruki não tinha tanquinho. Tentei imaginar a cabeça do Ruki em um corpo musculoso e quase tive um ataque, talvez eu devesse sair para tomar uma água e afastar essas coisas cômicas da cabeça, mas Uruha recomeçou a falar e prestar atenção nele bastou para eu segurar o riso.

– História longa, chata e complicada. – Ele disse fazendo um sinal de desdém com a mão que deixou também claro que ele não queria falar do assunto.

Neste momento uma cliente entrou na loja, e como já era um acordo comum, garotas bonitas eram sempre atendidas por mim. Já que Reita era tipo um cara casado, antes mesmo de conseguir pegar a futura esposa dele, a moça puritana conhecida pelo grupo de amigos como Ruki.

Então eu levantei e fui lá atender a garota, e quem sabe além das vendas eu não acabava com o telefone dela também.

Quando voltei, Reita estava falando sobre um jogo de vídeo game que tinha jogado na noite anterior com Ruki, que não era lá o que ele esperava, mas era bom de jogar do mesmo jeito. Sentei bem na hora em que Uruha estava fazendo mais uma cara de birra ao ouvir Reita dizer que o Takanori não deixaria Kouyou chegar perto do jogo antes de terminar as missões, pois o menor tinha adorado o jogo mesmo não podendo jogar com o um personagem em especial que ele gostava mais.

Eu ia abrir a boca para dizer que eles passavam tempo demais jogando vídeo games e que havia muita coisa melhor para se fazer no tempo livre, mas ouvi os passos de Joe descendo a escada circular. Aí cortou minha linha de raciocínio sobre o que eu queria dizer, pois deu pra perceber que Joe não conhecia o menino que estava ali conosco.

Compreensível uma vez que Uruha entrou na escola no início do ano e nem mesmo o Ruki sabia que Reita e eu trabalhávamos aqui. Na verdade, até eu meio que me bati mentalmente por não ter conhecido a mãe do Ruki desde a primeira vez que ela entrou aqui.

– Joe, este é o Uruha. Ele é nosso amigo, mora na frente da casa da Emi-san. – Reita fez as apresentações.

– Hm.. este é o tão famoso Uruha. – Joe disse dando um tapinha no ombro do loiro mel. Já ouvi muito sobre você.

– Também escuto a Emi-san falar muito de você. É legal te conhecer. – Ele respondeu de maneira educada e meiga, com certeza muito feminino.

– Vamos marcar um final de semana para você vir aqui me mostrar o talento que a Emi diz que você tem com as guitarras. – Joe disse.

Olhei pro Uruha como se ele fosse um ET. Quer dizer, eu sabia que ele tocava guitarra também, mas eu sou o cara que trabalha com o Joe e toca guitarra e aí na primeira visita dele aqui já fica com todo esse nhenhenhe de talento. Eu duvido mesmo que ele toque melhor do que eu, fala sério.

– Nee meninos como estão as coisas aqui embaixo? Eu preciso ter uma reunião improvisada com Aoi. Dá pra segurar as pontas aqui por uma hora ou duas Reita?

– Dá sim, está tudo tranquilo por enquanto. – respondeu o da faixa.

Reunião comigo? Isso era estranho, normalmente as reuniões eram todas com o Reita. Não que eu não gostasse de conversar com Joe, desde que a Emi ligou os fatos de quem eu era, e contou a verdade pro Joe ele ficou mais próximo de mim, e ter ele por perto era uma coisa legal.

No começo eu achei que ele ia me demitir, afinal ele ficou sabendo que a mesada que eu ganho do meu pai é numa boa, umas quatro vezes maior que o valor do salário que eu ganho aqui. Mas ele não me demitiu, nem me tratou como o burguesinho coitadinho que tinha sido abandonado pelo pai quando a mãe ficou doente, na verdade a nossa amizade apenas aumentou.

Joe vivia conversando comigo, querendo saber de verdade como eu estava me sentindo. Também me dava conselhos que eu relutava em aceitar, mas de um jeito bem diferente de um pai ou de um amigo, Joe estava de certa forma cuidando de mim. Ele me fez contar para minha mãe que eu estava trabalhando todas as tardes, também me fez perceber que para ver minha mãe menos triste, eu não devia esconder as coisas do meu dia a dia dela, mesmo que ela lamentasse não poder estar comigo. Joe me mostrou o quanto era importante mostrar para ela que eu sabia cuidar de mim, e que não ia ficar perdido quando ela se fosse.

Claro que depois de um tempo eu levei i Joe lá para eles se conhecerem. E ao contrario do que eu pensei que seria, ela ficou muito feliz com isso. No fim agradeceu ao Joe e disse que tinha percebido onde eu tinha adquirido a recente maturidade, com certeza ela ficou feliz ao saber que tinha um adulto do lado de fora da nossa casa que estava me ajudando com coisas que nem eu sabia que precisava de alguma ajuda.

Claro que nem tudo o Joe podia concertar em mim, eu continuava discordando cem por cento das coisas que ele dizia sobre a forma como eu me relacionava com tudo quanto é tipo de pessoa que quisesse ficar comigo. Na verdade a forma de pensar do Joe sobre este assunto era muito parecida com a do Reita, mas quando o Reita percebeu que não poderia me mudar, ele somente fica tirando com a minha cara e me jogando a praga de que algum dia alguém vai ser capaz de colocar em mim a coleira que eu mereço. Eu do risada.

Do risada dos dois, Reita e Joe. Tudo o que eu não quero é depositar toda minha vida e confiança em uma pessoa que pode um dia, principalmente no momento em que eu mais precisar, simplesmente me abandonar.

Bom, eu sabia que tinha dedo da Emi nessa história do Joe ficar mais ligado em mim, ela tinha acompanhado toda a estadia da minha mãe no hospital, todos os exames e toda a dor que veio junto com o diagnóstico do médico. Sabia de verdade que ela mesma não tinha se metido nisso ainda por falta de oportunidade e tempo, afinal...ela já tinha o filho dela nee.

Mas o Joe era mais legal, porque no fim era bom ter um adulto em quem se espelhar naqueles momentos difíceis nos quais eu deveria lembrar de algum conselho dado por meu pai. Porém isso não mudava o fato de que era estranho ele querer ter uma reunião comigo.

No fim ele falou do futuro da loja e minha visão sobre futuro. É tipo aquelas perguntas sobre onde eu me via daqui sei la eu quantos anos, falamos da doença da minha mãe, do descaso do meu pai e eu não entendi o que aquilo tinha haver com a loja. Aí ele disse que havia planos muito grandes para a expansão dos negócios e que por isso a loja ficaria mais na minha mão e de Reita. Mais na mão do Reita, mas ele ainda ia precisar da minha palavra para poder deixar nós dois mais responsáveis por aquele negócio.

A vida era realmente algo chato do meu ponto de vista. Toda mesada que meu pai me dava estava salva e rentável em uma aplicação bancaria, ele pagava por toda a equipe que trabalhava dentro da nossa casa e eu tinha o salário do Joe para comprar algo fora do rotineiro para meu próprio prazer. A última ação da minha mãe após saber de sua doença e perceber que papai tinha nos excluído de sua vida social foi passar seus bens, incluindo a casa em que morávamos para o meu nome.

Eu não sabia quanto tempo minha mãe ia viver, só sabia que não seria por muito tempo, e ter que lidar com este assunto de uma forma tão fria era a forma mais dolorosa de apoiá-la neste momento. Somente nós dois tínhamos conhecimento da extensão desta dor, ou pelo menos por muito tempo, foi somente nós dois. Porque com Joe eu quase estava conseguindo expor a dor que eu escondia dela para não ter que vê-la sofrer ou se culpar por me ver sofrer.

Ela me disse que queria fazer todas essas coisas legais antes de perder a lucidez, e que não desejava que nada ficasse com o homem que apoiou durante toda uma vida, mas que a tinha a abandonado no momento em que precisara. Claro, ele não tinha nos deixado desamparados, mas não era sobre isso que se tratava. Era sobre apoio, sua presença, palavras de conforto de um para o outro neste momento de sofrimento. Era sobre o fato de que assim que ela morresse eu estaria definitivamente sozinho no mundo.

Sozinho, a não ser por Reita e Joe. E mesmo que o salário do Joe não fosse suficiente para cobrir o que meu pai me dava, eu não queria me afastar dele, por isso contei todo o meu plano de batalha para ele.

Sobre vender a mansão, que já era minha, assim que minha mãe morresse, comprar um apartamento amplo, mas não gigante e muito menos luxuoso. E aplicar o restante do dinheiro da venda da casa, bem como o dinheiro que iria para minha conta como herança da minha mãe. Não ia querer mais a mesada do meu pai, por isso já a mantinha aplicada desde agora. E mesmo com todo o dinheiro em reserva, eu não queria parar de trabalhar com Joe, apesar de contar com alguns aumentos de salário no futuro.

Ele sorriu de uma forma triste ao notar a frieza com a qual eu sempre tocava naquele assunto, mas também ficou satisfeito com o fato de eu não querer o abandonar. Disse que ainda não podia dar detalhes do que ele e Emi estavam organizando, mas garantiu que teria espaço para Reita e eu em tudo.

Depois de duas horas conversando, eu saí daquela reunião entendendo menos do que quando entrei. Só sabia que algo muito grande estava por acontecer, Joe ia ter esta mesma reunião com Reita amanha de tarde.

Quando desci para voltar à loja, Reita e Uruha estavam discutindo aonde nós três iríamos assim que saíssemos dali. Magicamente lembrei da sms que mandei para Kai falando sobre as coisas que Ruki tinha dito à Reita ontem à noite e peguei o celular para checar, mas o moreninho não tinha enviado nenhuma resposta.

Será que Uruha sabia? Será que ele tinha algo a mais para nos contar sobre o Ruki para que eu pudesse ajudar Reita nesta história? Não..ele é bocudo demais, ele acabaria falando coisas que não deve para o Ruki e fazer o baixinho arredio se afastar mais ainda.

Por outro lado, não tinha percebido como conhecia pouco aquele cara. Ele tinha chegado à escola este ano e como era amigo de Ruki, nem tentei me aproximar, mas ele parecia ser legal. De um jeito estranho, mas legal.

No fim, nós fechamos a loja e ficamos ali pelo shopping mesmo na praça de alimentação, e o que pude perceber era que ele parecia ser duas pessoas diferentes o tempo todo. Às vezes ele parecia uma menina tímida, e às vezes parecia ser um cara muito boca suja e arriado. Ele respondia à maioria das minhas perguntas de forma séria, mas fazia piada com quase tudo o que Reita falava.

Ele estava falando sobre um mangá que tinha importado e estava esperando ansiosamente, absorto no que falava para Reita quando percebi que enquanto ele se concentrava para falar algo, não percebia o quanto atraía a atenção das pessoas que passavam pela nossa mesa, principalmente das meninas. Ele nem olhava para elas quase, na verdade nem parecia perceber suas existências na maioria das vezes, mas eu percebia tudo.

Uruha era como um ferormônio muito potente que atraía meninas. Belas meninas. E ele nem dava atenção, mas eu dava. Na verdade, acho que apenas eu percebi que em dez minutos todas as mesas ao nosso redor estavam cheias de garotas sorridentes olhando de soslaio para o loiro mel na minha frente que se quer dava bola para elas.

Vontade de colar uma placa nas costas dele "gay" e outra nas minhas com "macho alfa, me usem". É serio, eu costumava ser o centro das atenções, mas Uruha tinha um magnetismo nato pra coisa e nem dava bola. Eu não podia deixar as coisas assim, simplesmente não podia...ou, podia simplesmente me aproveitar da situação.

Afinal eu ainda tinha contatos de boas festas para esta noite, e com ele do meu lado... As garotas não precisam saber tão cedo que ele é gay se ele nem presta atenção na existência delas mesmo.

– Etto.. Uruha, o que você vai fazer esta noite? – perguntei como quem não quer nada.

Com certeza vou levar este cara para as festas comigo. E com certeza vou pegar a garota que eu quiser. Ahh já posso imaginar, eu e ele sentados em um sofá de couro com dezenas de garotas lindas ao redor, todas para mim já que ele vai somente ficar conversando com elas.

Vi Reita revirar os olhos, ele não gostava do tipo de festa que eu gostava de ir, mas sabia que ele não ia dizer nada do tipo pro loiro. Com certeza vai ser uma noite muito agitada e divertida. Será que ele vai ser mais menino, ou mais menina?

.:.

Uruha vai a uma festa comigo, e eu espero com toda honestidade que ele seja um imã muito forte para belas garotas. Não que ele demonstre saber, perceber ou se interessar por isso. E também não é que eu mesmo não seja capaz de atraí-las, é que com ele do meu lado, éramos dois caras bonitos no mesmo ambiente. Era como a armadilha perfeita para atrair todas as garotas promíscuas do local.

Eu estava tendo uma fantasia muito forte com nós dois sentados em um espaçoso sofá de couro com muitas, muitas , muitas e muitas garotas ao nosso redor, se oferecendo e quase gemendo o nosso nome enquanto cada uma tentava mostrar como se achava a mais sexy dali. Muitas delas até estariam sem blusa, exibindo os seios fartos e lindos bem sustentados pelas rendas de seus sutiãs.

Elas gemeriam nossos nomes, demonstrando o quanto o álcool de suas bebidas já as afetava. Com sorte, algumas delas se empolgariam tanto em nos seduzir que estariam se beijando enquanto chamassem pelo meu nome.

– Ahh você é tão sexy que nos deixa quente Aoi-san. – interpretei com uma voz aguda enquanto me jogava na cama torcendo meus dedos em meus mamilos para uma boa interpretação dos meus devaneios.

– Etto... tá tudo bem com você aí Aoi? – estranho, do nada ouvi a voz do Uruha dentro do meu quarto. Normalmente não o incluiria nos meus devaneios. – Se você quer um tempo sozinho pode, por favor me indicar onde fica o banheiro? –Ahn?

Abri os olhos e me sentei na cama, e pois é, eu não estava em devaneio. Tinha um Uruha vestindo uma roupa normal com uma mochila aparentemente socada de coisas dentro parado na porta do meu quarto.

Um: quem o convidou para vir à minha casa?

Dois: porque ele ainda não está se quer vestido para sair?

Três: por onde e como ele entrou na minha casa?

Quatro: sério mesmo que ele tinha presenciado um devaneio meu?

– Eu..é..você...como, quer dizer o que você está fazendo aqui essa hora sem estar pronto para sairmos? E como você entrou e chegou até o meu quarto? – cuspi tudo para fora.

– Ahh desculpe, eu não queria interromper...sei lá eu que tipo de fantasia você estava tendo, mas não tínhamos combinado de ir a uma festa juntos? – ele me perguntou ainda bastante confuso, parecia que eu tinha que entender algo que eu não estava entendendo.

– Sei, mas ainda é muito cedo pra sair, ao mesmo tempo em que é muito tarde para você não estar arrumado. Quer dizer, você vai assim? – Perguntei meio desconfiado, vai que ele estava pensando em ir com aquela calça de moletom que parecia um pijama.

– Ahh não! – ele sorriu. – Mas eu não ia me arrumar em casa nee. – Disse como se fosse a coisa mais obvia do mundo, invadindo meu quarto, tirando a mochila pesada das costas e a deixando ao meu lado sobre a cama.

Eu repito. Não estou entendendo nada, mas ele parecia estar fazendo algo muito normal pro meu gosto.

– Como entrou aqui?

– Ah uma moça estava entrando quando eu cheguei, avisei ela que tinha combinado com você de sair mais tarde e ela me explicou como encontrar seu quarto. Acho que uma das suas empregadas. Desculpa, você deve estar chateado porque eu entrei sem bater e vi você...torcendo seus próprios mamilos.. – Vi ele ficar meio corado com o canto dos olhos, porque sério, não deu pra ficar olhando para ele por muito tempo. – É que..sei lá nunca bati pra entrar no quarto do Ruki nem do Kai e...esqueci que tinha que fazer isso.

– Tá. Deixa eu ver se eu entendi...você entrou aqui junto com uma empregada que te mostrou onde fica meu quarto e veio mais cedo para se arrumar aqui?

– Uhum. – Disse com simplicidade. – Achei que você já ia estar se arrumando, mas agora não sei se você só ainda não vestiu a camisa...ou se só faltava tirar a calça. – Disse completamente vermelho e rindo, e mesmo ele tirando com a minha cara eu achei legal a forma como ele ficava com vergonha em fazer uma piada.

– Se fizer mais uma dessas não vou te levar em festa nenhuma mais. – Adverti mesmo não estando bravo, ele devia ter visto uma cena ridícula mesmo quando entrou. – A sua mochila é muito grande Uru, vai estragar o seu visual.

– Ahh eu não tinha planos de levá-la comigo, quer dizer...não preciso do pijama, escova de dente, demaquilante e hidratante numa festa nee.

Como assim pijama? É sério, que parte de convidar amigos para uma festa que eu não tinha aprendido direito? Como um convite simples para ir a uma festa juntos e com uma resposta que foi somente "pode ser" poderia conter informações ocultas de "vou mais cedo para me arrumar na sua casa e vou dormir lá depois também, ok"

– Ahh é claro! – Respondi o menos automático possível.

Garoto espaçoso, já estou começando a me arrepender. Havia uma motivo muito sério para Reita ser o único amigo que eu permitia que fosse na minha casa, não queria que meus amigos soubessem a maneira na qual vivia. Como a vida dentro da maior mansão do bairro era fria e triste, como a família do embaixador era uma piada, ou como o grande e admirável Aoi era um fracassado, carente e sentimental. Tudo o que eu não queria era um espaçoso como Uruha dentro da cúpula dos meus maiores segredos. Mas agora ele já estava ali.

E se seu achava que meus problemas iam acabar ali, nem esperava pelo o que estava por vir na noite em sequencia. Devo me lembrar de não convidar esse garoto par sair comigo nunca mais. Nunca mais.