Capítulo dezenove: Encrenca
Kami-chan
Aoi
Eu tinha saído do meu quarto por um tempo, estava evitando o máximo deixar Uruha sozinho com medo que ele acabasse entrando onde não devia e vendo que o que eu não queria. Mas não acho que corro risco agora que ele está mortalmente concentrado, se maquiando em frente ao espelho.
Nós já estávamos nos arrumando há mais ou menos três horas, eu não sabia se ele tinha comido algo antes de ir para lá ou se estava morrendo de fome, mas era educado demais para falar. Ele devia saber que educadamente em algum momento a senhora Shiroyama iria entrar no quarto para verificar quem era o amigo de seu filho que estava dentro de sua casa pela primeira vez. Após ela também se encarregaria de trazer algum lanche para nós, antes de um discurso sobre o que não fazer quando sair à noite.
Porque era isso que mães faziam, elas participavam da vida de seus filhos, mesmo em momentos em que os filhos não as querem por perto. Era isso que a mãe de Kai fazia, a mãe de Ruki fazia, e eu sabia que a mãe dele também devia fazer. Eu ainda lembro vividamente como minha mãe amava toda vez que Ruki vinha até nossa casa, e como ela era atenciosa com estes detalhes.
Mas ela não iria fazer isso desta vez, provavelmente ela nem saiba que eu esteja com um amigo dentro de casa, pois eu já tinha dado boa noite à ela naquele dia. Mas eu não podia deixar de agir de forma a demonstrar que naquela casa havia uma mãe, de alguma forma.
– Megume-san.. – Chamei, entrando na cozinha.
– Hai. – Disse a senhora fazendo uma reverencia, ela era a única empregada oriental de nossa casa.
Megume era empregada e baba em nossa casa no Japão. Velha, solterona, sem nenhuma família, ela não hesitou em nenhum momento quando minha mãe propôs que ela viesse conosco para o Brasil, e estava em meus planos que ela continuasse próxima de mim até que ela se cansasse de trabalhar como empregada. Gostava dela.
– Tem um amigo meu aqui, nós vamos sair daqui um pouco para uma festa. Será que você pode nos levar algum lanche, por favor?
– Algo em especial que gostaria de comer, Shiroyama-sama? – Perguntou de forma educada.
– O que não te causar muito trabalho a essa hora.
– Levo ao seu quarto assim que estiver pronto. – Lhe sorri, e saí após uma leve reverencia em agradecimento.
Voltei logo ao quarto, realmente não queria deixar Uruha sozinho por muito tempo. Olhei no relógio de mogno que ficava no fundo da parede da escada, ele se arrumava como uma garota. Se não fosse o ápice da viadagem eu ia mostrar para ele um truque com o delineador, e pensando nisso, entrei sorrindo no quarto ao imaginar Uruha e eu discutindo dicas de maquiagem.
No interior do cômodo me deparei com o loiro fazendo poses sexys pro espelho, poses que eram acompanhadas de caras, bocas e bicos. No caso dele um baita bico. E nem o fato dele ser bonito deixou a cena menos engraçada.
Uruha podia ser sexy, eu acabo de perceber que nunca tinha estado em uma situação com ele em que ele não estivesse vestindo roupa de escola, mesmo naquele dia em que jantamos todos juntos na casa de Ruki ele estava de uniforme. Eu gostava de observar pessoas e desvendar coisas sobre elas, e era bom nisso, mas esse garoto era um problema.
Ele é praticamente mudo, mas quando vejo o trio ao qual ele pertence nos recreios, ele é o mais extrovertido, realmente falante perto de Kai e Ruki. Ainda assim, ele não olha nos olhos quando fala. Ele parece um menino se visto de um ângulo, mas também pode fazer um cara o confundir com uma menina se quiser. Mesmo quando é extremamente sério, ele tem um sorriso infantil.
Ás vezes é esnobe, ás vezes é delicado, às vezes é afetado e às vezes, principalmente quando está de cabelo preso e franzi as sobrancelhas, ele parece ser um homem muito centrado e adulto. Uruha caminha pela escola como se fosse o macho alfa do local, e por tal motivo devia ser invejado por todos os outros, então em minutos depois estava saltitando como uma gazela no encalço de seus amigos.
Hoje eu estava focado em tentar resolver este dilema sobre ele ser mais uma garota, ou mais um garoto, mas eu estava prestes a desistir. Afinal depois de horas de arrumação, a camiseta justa branca sobre um jeans preto, com um blaserzinho também preto e uma echarpe fina para diminuir o branco de sua pele contra o decote "v" aberto demais da camiseta e uma maquiagem escura, porém leve, não me diziam nada além do fato de aquele era o rosto mais andrógeno que eu tinha conhecimento.
Então me houve um estralo. Aquela era a verdadeira fonte da beleza.
– Está precisando de um momento sozinho com você mesmo? – Fui obrigado a devolver o troco de quando ele tinha chegado em minha casa, afinal da forma como ele estava se amando, logo estaria agarrando o espelho.
– Já voltou? Achei que tinha ido a outro quarto terminar de bulinar seus mamilos. – Ele devolveu. – Você não me disse aonde vamos, então tive que escolher o visual às escuras, espero não ter errado muito.
– Não errou em nada, as garotas vão cair em cima de você. – Disse realmente satisfeito, nós dois juntos seríamos um imã de forte atração.
Mas ele me olhou por dois segundos com um ar de surpresa e então desviou para seu reflexo no espelho novamente. Ele estava desconfortável, talvez.
– Mesmo que você não estivesse no local e escutado Aoi, como o cara popular e informado que você é, com certeza já sabe que eu não procuro a atenção de garotas. – Disse de forma fluida, baixa e calma, claramente um texto pronto já dentro da cabeça dele.
Qual é, ele não poderia estar pensando que iríamos àquela festa juntos, não é? Quer dizer, juntos fisicamente de uma forma íntima, ele é amigo do Ruki. O que um amigo do Ruki veria de interesse em mim? Sem chance! Mas eu esperava também que ele não estivesse pensando que isso seria uma competição sobre quem iria mais para o banheiro masculino. O fato é que ele atrai garotas, mas não tem interesse nelas, mas eu sim.
– Eu sei cara! Na verdade eu quero é que o seu poder de atração supersônica seduza até o último cara daquele lugar, aí sobram todas as garotas para mim. – Disse rindo, mas ele aparentemente não achou graça, aí eu tive que improvisar com uma mentirinha saudável. – To brincando cara, você vai gostar da festa. Eu tenho certeza que nós dois vamos nos divertir muito!
.:.
Uruha
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Aoi me convidou para uma festa. Até ontem ele era apenas o cara que eu sabia que não prestava, mas teimosamente não conseguia parar de pensar em. Ruki o odiava, o que não era um padrão, pois Ruki odiava pessoas no geral, apenas sabia conviver com elas por necessidade. Mas com Aoi era diferente, ele realmente odiava esse cara.
Quando cheguei na escola e percebi que aquele garoto que morava na frente da casa que meus pais tinham comprado, e que estava me ajudando a pegar algumas matérias (por estar entrando em um colégio que era considerado um nível acima do que estudava antes) tinha extrema dificuldade em se relacionar com qualquer pessoa além de seu único amigo chamado Kai, me senti realmente acolhido ao perceber que com o passar dos dias, nós íamos descobrindo coisas em comum e uma afinidade quase nata. Eu também não era um exemplo de pessoa sociável, então fazer parte daquele grupo de deslocados não me incomodava nem um pouco.
Porém, assim como minha afinidade com Kai e Ruki fluiu bem, eu logo percebi outro ser dentro da nossa sala de aula. Um garoto complicado de entender, era famoso por ser filho de embaixador e desgraçar todas as meninas da escola. Aliás, aquela era a única escola que eu conhecia em que eram as meninas as causadoras de encrenca. Elas tinham grupos, brigavam entre si, faziam bullying, tramavam coisas realmente sérias e perigosas umas contra as outras, aparentemente, tudo iniciado por um único garoto.
Exatamente o mesmo que me chamava tanto a atenção. No começo eu ri por me sentir atraído pelo garoto encrenca, o cara mais popular do colégio, o cara que só todo mundo queria ficar... mais precisamente o cara que se autodenomina o pegador.
Alguém que faz apenas o que permitam que seja feito com seus corpos, porém, faria com todas que o quisessem. Aoi deixava claro que ele era a fonte de sexo fácil da escola, ele tinha elevado a promiscuidade a nível profissional. Se fosse uma garota, ele seria a maior vagabunda, mas ele conseguiu reverter essa história para algo como "Aoi não quis você? Então você é ruim mesmo hm" ou então "Aoi ficou duas vezes com você? unf...o que você tem que eu não tenho".
Depois de um tempo eu percebi que ele escolhia apenas as meninas mais bonitas. Não importava o quão suja ou fútil fosse a garota, se ela fosse bonita, ou tivesse "peitões" estaria na lista dele. Eu logo percebi que o ódio de Ruki por aquele cara era anormal, quer dizer, ele era indiferente ao resto da humanidade, mas sentia um ódio genuíno por Aoi.
Primeiro eu achei que ele tinha perdido uma garota pro moreno, mas depois Kai me contou que eles já tinham sido amigos uma vez e eu até cheguei a suspeitar que Ruki era quem sentia algo por Aoi. Mas essa hipótese morreu assim que eu percebi que havia mais uma pessoa no mundo a quem o pequeno não era indiferente, e foi observando como ele inconscientemente falava de Reita, que eu percebi que o motivo para tanto ódio estava errado. Depois o próprio Ruki disse que Aoi fez algo que quebrou a confiança que o menor tinha no filho do embaixador, mas nunca me disse o que.
E o tempo passou, e como um karma, eu nunca consegui abandonar minha atração por Yuu. Quanto mais eu convivia com as pessoas daquela escola e mais pesquisava sobre aquele garoto, mais podre eu percebia que ele era, mas mesmo assim, meu coração nunca deixou de bater mais forte quando ele passava, eu nunca deixei de ficar sem palavras quando ele estava por perto, ou... por mais idiota que fosse, mas eu parava de respirar toda vez que ouvia a voz dele ecoar por dentro da sala de aula.
Eu queria prestar atenção em tudo que aquele moreno era, pois algo me dizia que aquilo não estava certo. Uma parte estúpida do meu coração queria muito acreditar que aquele cara não era assim tão mundano. Lindo por fora, e vazio por dentro, como uma fruta bichada, ou vidro trincado. Kai e Ruki eram amigos desse cara, então isso me dava a dica de que nem sempre Aoi foi essa pessoa, eu não entendia por que ele teria mudado.
Eu gostaria de nunca ter que admitir para os meus amigos que tinha ficado obcecado nesse cara, mas esta é a mais pura verdade. Pesquisei tudo o que podia e o que não podia, soube que o pai dele estava morando na capital federal, mas ele e a mãe ficaram aqui. Descobri que ele era filho único e tinha morado no Japão até certa idade, é um ano mais velho que eu, Ruki e Kai, mas fez a educação infantil com os meus outros dois amigos e logo na primeira série ele pode subir uma turma, por ter desenvolvido bem. Descobri que ele quase sempre passou queimando em Português, mas que não foi por isso que ele repetiu de ano, ano passado, voltando a estudar com Kai e Ruki depois de anos.
Descobri que ele tinha sido um excelente aluno até exatamente o ano anterior, no qual tinha adquirido a fama que tinha, e se tornado um aluno de rendimento médio-baixo. E que apesar de não haver nenhuma menção ao pai nos documentos da escola, a mãe dele assinou presença em todas as reuniões de pais e mestres, ao mesmo tempo em que ela não tinha comparecido a nenhuma no ano anterior, e ter sido classificada como relapsa com relação à educação do filho em uma reunião que foi feita exclusivamente por causa do novo comportamento de Aoi.
Foi nos arquivos escolares também que vi que o nome da rua que constava em seu endereço era o mesmo que o meu e de Ruki, aí matei também a charada de quem morava na enorme mansão da rua. Mas as coisas mais importantes aqueles documentos não poderiam me dizer. "Por quê?" "Como?" "Desde quando?" "Seria possível ele mudar?". Estas respostas eu ainda teria, mas não por terceiros.
Graças ao amor não assumido de Ruki pelo melhor amigo de Aoi, agora pertencíamos ao mesmo grupo de amigos. E graças ao preconceito primitivo dos meus pais, não pude viajar com meus amigos, meninos filhos de mães solteiras, e neste final de semana eu não sairia com a dupla Ruki e Kai, mas sim com Reita e Aoi. E Aoi me convidou para uma festa.
Não que eu estivesse achando que ele tinha algum interesse em sair comigo, eu sabia muito bem do imenso interesse dele em peitos enormes. Mas eu ia sair sozinho com ele, seria eu o amigo dele nesta noite, e como fazemos parte do mesmo grupo agora, eu estava torcendo para ser somente a primeira vez de muitas que eu estava pisando naquela casa.
Sejamos práticos e lógicos, com Kai e Miyavi jogando purpurina para todos os lados, seria apenas uma questão de tempo até Reita e Ruki se acertarem e então, sobrará somente Aoi e eu. É lindo, perfeito e linearmente lógico. Eu nem vou precisar me esforçar para trazer o Aoi pra perto de mim, só tenho que manter ele perto de mim.
Mesmo que no começo eu tenha que jogar seu jogo, que ele pense que eu não sei que ele só quer minha companhia para atrair garotas. Como se ele próprio não fosse um chamarisco de vagabundas. Ainda que doa ouvir ele dizer que quer que eu mantenha os homens longe das garotas que ele quer.
Da forma como estou me sentindo hoje, só espero que ele esteja preparado para a versão mais suja de mim.
