Capítulo vinte: Jovens alcoviteiras
Por Kami-chan
Ruki
Despertador tocando, barulho de passos apressados pela casa, minha mãe subindo e descendo as escadas enquanto faz café da manhã e se arruma ao mesmo tempo. Minutos depois, o bom dia apressado com um lindo sorriso direcionado da porta do meu quarto enquanto ela terminava de colocar um brinco, satisfeita em ver que não precisaria me acordar.
Os passos dela mais uma vez pelo corredor e um grito do que pareceu ser do fundo do mesmo, chamando, provavelmente não pela primeira vez naquela manhã, por Miyavi. O barulho repentino da porta da frente abrindo e fechando, acompanhado pelo grito moderado de bom dia de Uruha que tinha acabado de invadir minha casa...é já é segunda-feira de novo.
Saí da cama sem pressa, na verdade ainda meio que incapaz de ser mais ágil em qualquer tarefa devido ao sono. Tinha que pelo menos fazer a higiene matinal e jogar uma água fria na cara pra dar um jeito de estar mais desperto quando Uruha invadisse meu quarto. Eu teria uns dez minutos para isso, que era o tempo que ele levava dando bom dia para minha mãe e sendo mimado por ela logo cedo de manhã, depois disso ele iria entrar feito um furacão no meu quarto e provavelmente começaria a falar... e nunca mais ia parar.
E dito e feito, eu estava trocando o pijama pelo uniforme quando ele entrou no quarto jogando sua mochila em algum canto no chão e se jogou na minha cama. É sério, como alguém consegue ser assim de manhã cedo?
Kouyou me bombardeou com perguntas sobre o final de semana e na sequencia emendava coisas sobre o final de semana dele. Coisas sobre estar dando os primeiros passos para se aproximar do Aoi ou coisa do tipo, eu não saberia nem se estivesse tentando prestar atenção.
Aquela enxurrada de palavras logo cedo pela manhã estava me deixando zonzo, e por isso, estava me concentrando em me manter em pé e conseguir ficar apresentável para ir à escola. Só concordava com o que ele estava dizendo e fazia olhares de quem estava impressionado quando ele se empolgava demais em uma frase e outra e picava de empolgação sobre o colchão.
"...ele bem que achou que eu ia ser uma peçinha do jogo dele, mas tenho certeza que fiz o Aoi ficar chocado naquela festa e..."
Onde foi que eu enfiei minha base hem?
"... sendo que ele nem quis papo comigo depois que voltamos, mas eu tenho certeza que...
Ahh claro, eu ainda não tinha desfeito completamente a "mala" que tinha levado pro sítio, a base ta lá dentro.
"depois o Aoi ficou me olhando como se eu fosse um bicho de outro planeta e quisesse engoli-lo, quer dizer, não que eu não quisesse nee. Mas ele não precisa ficar sabendo disso ainda, se bem que...
Ahh tá aqui, merda um mosquito me picou no rosto. Será que eu devo usar um corretivo? Não, afinal é só escola.
"...e aí eu fiquei pensando, se ele gosta de peitões, eu mostrar pra ele que eu sou muito mais eu com os meus coxões, e foi muito hilário porque ele é muito arriado. Sempre que..."
Lente roxa, dourada ou branca? Tsc, meu cabelo tá um bagaço, esquece a lente vai realçar isso. Qual armação de óculos?
"Na verdade, o único momento em que eu achei que ele falou sério, foi quando ele disse que o Reita gostava de você, aliás, você sabia que..."
– Oi? – Eu aqui acordando, aquecendo o cérebro ainda, ele está falando como uma gralha e...o que foi que ele disse? Quer dizer... – O que você disse? – Perguntei colocando o óculos com armação grossa e pegando uma camisa xadrez para colocar sobre a blusa do uniforme.
– Ahn? – Ele fez uma careta de indignação. – Você não está me ouvindo, baka! – Resmungou e sem dizer mais nada se levantou da minha cama e saiu do quarto com uma careta emburrada de verdade.
Serio que ele tinha ficado brabo comigo porque não to afim de saber de como foi passar quarenta e oito horas com o bosta do Aoi? Tipo...antes das nove da manha não cara.
Mas que bosta, eu tinha a impressão de ter ouvido ele falar do Reita. Mas eu tento falar melhor com Uruha depois, até me seguro pra não falar nada agressivo contra o Aoi se ele ficar feliz com isso, mas preciso acordar primeiro.
No café da manha tudo já estava normal novamente, Uruha estava rindo quando entrei na cozinha. Minha mãe estava tirando uma com a cara de birra de Miyavi, que até onde eu tinha entendido, não queria ir para a escola.
– De qualquer forma, anime-se garoto, tua mãe vai estar aqui em casa quando vocês voltarem. – Ela disse fazendo um sorriso enorme surgir no rosto de Miyavi.
– Ela chega mesmo hoje? – Perguntou com estrema felicidade, apenas para ter uma confirmação precisa daquela informação preciosa. Devia estar morrendo de saudade da mãe.
– Uhum, então trate de deixar ela satisfeita e faça a sua parte indo direitinho para a escola. Não sei o que você está achando ruim, vai estudar na mesma escola que o Taka. – Ela disse.
– Mas não na mesma turma, vai ser uma merda ter que me adaptar em uma turma em que não conheço ninguém.
– Ué você vai ficar na mesma turma que o Reita. E não é como se não fossemos nos ver e nos falar nos intervalos. – Disse me sentando em uma das cadeiras vagas.
– Reita? – Disse Miyavi enquanto partia um pão francês no meio com as mãos e levava um pedaço do mesmo à boca, disfarçando um sorriso debochado enquanto quase nem conseguia fechar a boca direito para mastigar o mesmo. – Isso até que pode ser proveitoso.
Revirei os olhos enquanto colocava um pouco de café no meu leite, esse povo tava mesmo me cansando. Ia responder algo quando a campainha tocou. Vi minha mãe franzir o cenho e confirmar a hora no relógio dela e no da parede da sala para ver se a hora era a mesma nos dois.
– Ué, é muito cedo para o Kai já estar aqui! – Ela disse se levantando para ver se era mesmo o moreninho que estava na nossa porta, o que era bem possível já que diferente do Uruha, Kai tinha educação e não chegava invadindo a casa dos outros.
– Por que será que ele veio mais cedo nee... – Cantarolei na mesa, porque eu sabia meu amigo, mesmo sem nenhuma experiência, que eles seriam uma comédia no "dia depois do primeiro beijo".
– Ih, tem coisa aí que eu não to sabendo! – Uruha apontou em tom acusativo, soltando seu sanduíche no prato.
– Não sei. Miya-chan, tem alguma novidade que você não contou pra gente? – Me fiz de sonso, gargalhando ao ver ele enfiar o resto do pão na boca apressadamente e falar, ainda com a boca cheia que ia subir para escovar os dentes.
– Nee Kai, você chegou realmente cedo hoje, ainda estamos comendo. Senta aí, vou pegar uma xícara e um prato pra você. – minha mãe voltou com o moreno e passou reto para a cozinha.
Kai entrou e assim que teve coragem de olhar para mesa, suspirou. Sei lá eu se de alivio, ou desapontamento por não ver Miyavi ali, bom, pelo menos foi evidente que ele procurou por pelo mais alto. O de covinhas passou por trás de Uruha e deu bom dia para ele com um beijo no topo da cabeleira loira e veio na minha direção, com o intuito de fazer o mesmo.
– Ohayo Ruki-tan – Disse baixo passando os braços ao redor dos meus ombros por trás.
– Ohayo Kai baka. – Respondi com um beijo em sua bochecha, e ri quando ele não me soltou.
– Onde ele tá? – Perguntou baixo, o que ele queria? Que minha mãe não ouvisse?
– Subiu correndo com o um cão galgo com o rabo entre as pernas quando ouviu você chegando. – disse sentindo um suspiro que ele deu batendo contra a pele do meu pescoço, depois senti a testa dele apoiada no mesmo lugar. – Você também está sem coragem de encarar ele, não é? – Perguntei, e a única resposta foi a cabeça dele se movendo em sentido positivo.
– Nee tem mesmo algo que não me foi contado. – Ouvi Uruha dizer com um novo bico nos lábios.
Aos meus olhos ele parecia um boneco de balão de formas arredondadas para parecer mais infantil. Depois de um suspiro, vi sua versão em balão murchar pelo ar que saía pelo bico de pato em sua boca, ziguezagueando enquanto caia na vertical até murchar completamente sobre a mesa. Murmurando coisas sobre ser esquecido pelos amigos, e passar dois dias longe e já ser deixado de lado. Era pior do que um personagem de anime.
Que idiota, não é como se não tivéssemos cinco períodos para falar sobre esse final de semana em separados e tirar muito com a cara do Kai. Era difícil ver o de covinhas encabulado, normalmente ele era quem sempre sabia como se comportar nas mais adversas situações.
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– Tá legal, qual dos dois babacas vai me contar a parte da história que eu perdi? Porque eu sei que eu perdi uma parte dessa história. – Uruha disse jogando sua mochila sobre a classe sem nenhuma delicadeza.
Só pude rir, fazendo a mesma coisa que ele, mas com um pouco mais de suavidade, Uruha era uma peça muito fofa quando contrariado. E era obvio que ele se sentiria assim depois que, além de toda cena na mesa do café da manhã, o caminho até a escola foi muito silencioso.
Quer dizer, não silencioso do tipo sem nenhuma palavra, pois a minha mãe falou com todo mundo sobre tudo o tempo todo como ela sempre faz. O silêncio era entre Miyavi e Kai, eles não se falaram e nem fizeram nada dentro do carro que pudesse chamar atenção de todos para suas pessoas em particular. Ambos só falavam quando alguém dizia o seu nome e também não diziam nada demais. Até mesmo minha mãe pode ter pensado que Kai estivesse com sono por ter chegado cedo, e que Miyavi estava mudo por não querer ir para escola, mas Miyavi, Kai e eu sabíamos da verdade.
E esta se resumia apenas no gelo entre dois garotos que tinham se beijado no domingo. Eu acho que estava aceitando muito bem essa ideia de meus amigos serem gays, na verdade bem demais pro meu gosto, mas ao invés de ficar apenas pensando em como isso era bizarro e estranho, apenas me sentei sobre a classe de Kai, após ter tirado minha pasta de dentro da mochila.
– Eu vou te explicar chuchu. – Disse em um tom calmo e humorado, tirando o desenho que tinha feito do alto do celeiro daqueles dois.
Eu tinha me prestado a colorir a imagem, ressaltando o céu alaranjado que os tornava uma sombra muito bem definida no centro do desenho. Pendurados lado a lado no cercado de cavalos, com o puro sangue de Kai atrás de ambos com a fuça quase encostada no chão. Os traços e feições eram inexistentes, dando um ar de mistério não somente quanto a identidade daqueles corpos, mas também sobre os sentimentos daquelas duas almas, que se expunham um ao outro pela primeira vez.
Assim como no momento do ocorrido, Kai estava sentado na divisa da cerca, com uma perna de cada lado da mesma, e ambas as mãos se mantinham mais a frente, no espaço que havia entre os dois, para que ele pudesse se inclinar minimante até Miyavi. O mais alto estava com os calcanhares apoiados no primeiro divisor da cerca, pendurando-se de costas para a cerca através dos cotovelos. O ponto de luz escolhido, permitiu o reluzir de alguns de seus pircings, e estes junto com o penteado exótico o identificava naquele quadro romântico.
Eu podia ter dado aquele desenho para Miyavi, mas sabia que tinha acertado muito mais em dá-lo para Kai, apenas ao ver seus olhos bem abertos percorrendo por toda a folha repetidas vezes pelos mesmos pontos, ao mesmo tempo em que sua boca também se abria em um misto de espanto e deslumbre. Uruha tirou o desenho das mãos de Kai para poder olhar também, e neste momento o moreno se virou para mim sorrindo, e sabe de uma coisa, aquele maldito sabe ter um sorriso muito bonito. Principalmente assim, quando seus lábios e olhos expressam tanta felicidade.
Às vezes eu até achava mesmo que tinha os melhores amigos do mundo.
– Eu não sabia que você estava lá... – Ele começou a dizer, em um tom de explicação.
Talvez ele estivesse com medo que eu ficasse com ciúmes, sabe, aquela história de estar de certa forma perdendo meu amigo mais antigo e meu irmão de criação ao mesmo tempo. Eu também pensei que sentiria, mas não teve como não sentir qualquer coisa menor do que felicidade por ver os dois saltitantes de tão felizes.
– Eu tava no seleiro, terminando o desenho que a minha mãe tinha me pedido.
– Ahh tá, aí os dois pretendiam ficar aí de segredinho sobre isso até quando? – Uruha brandiu realmente exasperado com a folha presa entre os dedos, nos mostrando o desenho de forma acusativa.
– Uruha, para de tomar hormônios femininos cara. Ta ficando uma bicha afetada. – Disse fingindo falsa preocupação.
– Uru a gente tem a aula toda pra falar sobre isso, relaxa um pouco. Você vai adorar o que eu e o Miyavi fizemos com o Ruki.
– Ahh você não vai contar isso – Interrompi, não queria ser espectador enquanto ele denegria minha imagem falando da forma como eles me amarraram covardemente a uma cadeira e me torturaram emocionalmente.
– To começando a gostar... – Disse o loiro se sentando finalmente sobre o acento de sua cadeira.
– O cacete que está. Porque vocês perdem tempo falando de mim? Hein Kai, porque você não discute com o Uruha sobre essa vergonha de falar com o Myv depois de ontem? – Disse sério.
– Ei.. sem golpe baixo Ruki. É normal ter vergonha, eu acho. Eu gosto mesmo do Miyavi e sei lá...é estranho, não da pra saber o que ele pensa, se ele gostou, se não gostou, se a gente vai fazer isso de novo ou não. Essas coisas. – Respondeu o moreno.
– Que besteira Kai, é claro que ele gosta de você do mesmo jeito. – Respondi, mas fui praticamente interrompido por Uruha.
– Não é besteira não. Eu acho que no momento em que você consegue conquistar a pessoa que você tanto desejava, não tem mais espaço pra pensamentos tão racionais assim Ruki. Eu entendo como o Kai está se sentindo inseguro, mesmo que bem lá no fundo ele saiba que o Miyavi gosta dele também. – Disse Uruha, então tentei me colocar no lugar de Kai, e concordei com os dois.
– Enfim, se vocês dois não conversarem mais um com o outro a sós, nunca vão quebrar esse gelo. E você tem a incrível vantagem de saber que Miyavi gosta mesmo de você.
– Diferente de mim. – Disse Uruha erguendo a mão acima da cabeça em maneira simbólica. – Que tive um final de semana de comprovações de como a única coisa em que Aoi pensa mais do que mulher, é mulher de peitos grandes. Obrigada! – disse de forma dramática, nos fazendo rir de verdade. Tipo, só o Kouyou mesmo para não saber do óbvio.
– Como você acabou indo a uma festa com o Aoi? Reita comentou que nem ele gosta de ir nos lugares que o Aoi frequenta, ele chamou de "barra pesada". – Disse.
– Ahh ele chamou assim pra não ter que dizer pra você, que é o senhor puritano desta escola, que as festas que o Aoi frequenta são prives. Não me perguntem como ele consegue entrar nestes lugares, a única coisa evidente pra mim foi que ele é bem conhecido no local, pois nem pediram a identidade dele.
– Festa prive? Tipo com swing, suruba e fetiches sadomasoquistas, com pessoas agindo como se fossem cavalos, outras como se fossem cachorros e essas coisas assim?
– Olha, Ruki falando sobre excitações equestres. Não acho que ele seja tão puritano assim não. – Sim, isso foi o Kai tirando com a minha cara. – Eu acho que depois que o Reita te pegar uma vez, você vai virar é uma baita de uma vadia na cama Ruki.
– Cala a boca babaca. E Uruha ainda não respondeu como acabou saindo com o Aoi. – Não que eu estivesse assim tão interessado em saber, o meu objetivo mesmo era me manter o mais longe do foco nos assuntos possível.
– Então, quando as duas beldades me abandonaram, eu fiquei em casa todo deprimido e invejoso pensando como seria a minha vida sem vocês dois. Nessa onda de pensamentos eu percebi que tinha que dar um jeito de me aproximar de Aoi o quanto antes, porque Miyavi e Kai estavam claramente perto de ficarem juntos, e você o Reita também.. já que só falta você deixar de bichisse.
– Ei.. – interrompi irritado, apontando de forma acusativa para Uruha antes de deslanchar mais um monte de reclamações em direção ao mesmo.
– Tá. – Kai se colocou entre nós dois no mesmo momento. – Deixa o Kouyou falar. – Concluiu abaixando meu braço, segurando meu antebraço entre suas mãos sobre seu colo.
– Enfim, quando eu percebi isso, a coisa mais óbvia que me ocorreu era que esse final de semana abandonado era perfeito para uma aproximação sutil, afinal, eu tinha um motivo plausível para querer ficar com eles. Daí fui passar a tarde de sábado na loja do Joe conversando com os dois, depois que a loja fechou nós ficamos no shopping para comer algo e eu percebi como o Aoi ficou interessado na quantidade de meninas que sentou ao nosso redor. Acho que ele ligou esse fato a minha presença no grupo e me convidou para ir a uma festa mais tarde. O Reita não foi, antes que o Ruki morra sufocado com a pergunta que tá louco pra saber. – terminou rindo, e fazendo Kai rir também.
– Baka.. – Murmurei baixinho entre os dentes, mas só porque eu queria mesmo saber.
– Como ele me convidou pra sair com ele, eu confesso que primeiro fiquei sonhando com a possibilidade de que pudesse rolar alguma coisa, mas depois que eu acordei, me vi apenas com a certeza de que não fazia ideia de que tipo de festa iríamos, como deveria me vestir e diabo a quatro. Sem falar que vocês sabem que não posso me arrumar dentro de casa, porque se meus pais pegarem qualquer vestígio de maquiagem em mim..já sabem nee. Enfim, eu me convidei para ir pra casa dele. – Disse rindo. – Ele ficou bem surpreso e desconfortável, mas foda-se, que vou me aproximar desse cara mesmo que ele não queira.
– Dizem que o Aoi detesta receber as pessoas em casa, um garoto do terceiro ano disse que nem mesmo os amigos ele leva pra lá, com exceção de Reita claro. – Completou Kai, acreditem, super empolgado com a porcaria da história do Uruha.
A empolgação dele falando sobre como estava feliz por ter passado um tempo o amorzinho da sua vida, não me convence. Eu realmente acho esse tipo de conversa muito chata.
– Eu percebi isso, mas foi bom. Eu conheci um pouco do mundo particular dele. Aoi é engraçado, tem um senso de humor muito parecido com o meu e no fim das contas, quando eu fiquei pronto para irmos, eu quase acreditei que ele gostou da minha produção, porque ele realmente ficou me olhando demais. Mas depois eu percebi que ele estava apenas avaliando se eu estava mais atraente que ele ou coisa do tipo, afinal ficou bem claro que ele queria minha presença para realçar a dele, e não ofuscar.
– Eu já disse pra você que o Aoi pega caras também Kouyou, eu já vi. E você mesmo viu ele dando em cima de mim. Então, sem querer encorajar você demais, eu acho que existe a possibilidade sim dele ter olhado para você com segundas intenções, talvez não para agora, mas se ele te achou atraente produzido, pode ter certeza que ele vai demonstrar isso no futuro. – Kai, a amiga do peito.
– Pois é, to sabendo. E na verdade quando eu vi o ambiente onde estávamos e a forma como ele falou comigo lá dentro como se fossemos amigos a vida inteira, eu meio que acreditei nisso..e baixei a guarda. Qual é, ele tinha me levado pra uma festa onde o foco das pessoas é fazer sexo, eu sabia que era pra atrair mais garotas para perto dele, mas e se ele mudasse de ideia? Sabe...bebida, gente bonita dançando seminua, casais de todos os tipos se pegando pesado na pegação, essas coisas todas. Quando dei por mim já estava dançando colado nele, literalmente rebolando e me esfregando em uma das coxas dele. – Uruha parou de falar para tomar algum ar, parecendo receoso de suas próximas palavras, mas continuou. – Mas quando eu olhei para cima, ele estava beijando uma garota, enquanto achatava os peitos de outra, ele se quer estava me percebendo ali, literalmente. Foi aí que eu fiquei com raiva de verdade, tinha um carinha me secando a noite toda e eu liguei o foda-se, ele não queria que eu fosse com ele para chamar atenção na porra da festa, enfim, eu virei a atração da festa.
– Você virou a atração de uma festa prive? – Quer dizer você transou com um desconhecido na frente de todo mundo? – Perguntei mesmo, porque aquilo não me parecia algo que eu gostasse de saber que meu amigo fez. Me julguem, to nem aí.
– Não Ruki. Mas eu dei um show, até mesmo o Aoi com suas duas peitudas virou espectador. E depois quando fomos para casa, porque quando eu me convido para ir para a casa de alguém é pra dormir lá também, ele não quis falar mais comigo. No outro dia deu pra perceber que ele queria me perguntar coisas o tempo todo, mas nunca falava nada. Eu acho que ele ficou chocado.
– Eu estou chocado. – Respondi e vi Kai concordar e rir.
– Ele ficou chocado com o que? Por você ter chamado mais atenção do que ele? – Disse Kai rindo, em uma pergunta retórica. Mesmo assim, Uruha respondeu.
– Acho que ele tinha uma visão muito feminina de mim. – Respondeu.
– Eu...não sei se eu entendi... – Disse com sinceridade.
– Acho que ele me via como uma mulherzinha. – Respondeu.
– E você não é a mulherzinha? – Perguntei ainda mais confuso, mas acho que não foi a atitude certa, porque a aura dele mudou para algo realmente sombrio.
E eu fiquei ali olhando para ele com um sorriso amarelo congelado no rosto, enquanto a aura negra sobre ele apenas crescia. Kai só ficou lá olhando de um para outro, sem fazer nada para me socorrer. Amigos, quem entende?
Até que fui salvo pelo som mais maravilhoso do mundo: hora do intervalo.
Com Uruha falando do Aoi sem parar, eu estava contando os minutos para o intervalo. Eu juro que só estava ali o ouvindo porque amo meu amigo. Ele nunca poderia duvidar disso, pois estava me esforçando para bater aquele papo de mulherzinha com Kouyou e Kai, o que eu definitivamente detestava.
Eles ficavam me tirando pra gay, mas eu não tinha nada haver com aquela euforia que Uruha estava sentindo, ou a empolgação com a qual Kai respondia suas perguntas e perguntava anda mais coisas com detalhes sobre como Urina tinha se sentido com aquilo tudo. Na verdade isso pra mim era bastante chato.
Fiquei feliz demais quando ouvi o sinal que indicava minha liberdade, e nem dei a mínima pros outros dois. Hoje era minha vez de comprar lanche, e só saí correndo dizendo que ia encontrar Miyavi, já que era o primeiro dia dele ali, e nós nem tínhamos ajudado o grandão a encontrar sua sala direito. Eles podiam me pagar pelos lanches depois.
Saí correndo e encontrei Myv próximo à saída de sua sala de aula. Pulei em seus ombros e ele pareceu feliz demais em me ver.
– Miyavi! – Exclamei em igual felicidade, sempre quis ter um irmão na escola.
