A luz que brilha em teus olhos_22. Vivemos em um mundo aparte

Por Kami-chan

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Miyavi

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Estava deitado em minha cama improvisada com o computador no colo e minha mãe do lado, estávamos olhando alguns sites de venda online de famosas lojas de departamento. Em princípio porque ela disse que a casa da vovó tinha que ser reformada. Mas depois de uns quarenta minutos de conversas aleatórias e broncas sobre eu ter deixado a escola e arrumado um emprego sem falar nada para ela e para Emi, minha mãe disse finalmente aquilo que eu mais queria ouvir, ela ia voltar.

Ainda não neste momento, pois tinha ainda que concluir alguns negócios na Coreia, mas deixou claro que quando ela voltasse para o Brasil novamente, seria para ficar. Ela me explicou coisas que eu era pequeno demais para entender quando ela aceitou mudar de país sozinha e me deixou com a minha avó, e eu não tive como não compreender tudo o que ela disse após ouvir que ela já tinha conquistado e repassado dinheiro suficiente para uma conta que eu não sabia que ela tinha aqui no Brasil.

Por fim ela me pediu desculpas por ter perdido o meu crescimento, mesmo que sempre estivesse disponível de alguma forma para mim. Eu acho que ela estava mais sensível pela morte da vovó, mas eu também estava, e por isso aceitei suas desculpas de bom grado. Feliz em saber que em algum momento muito próximo seria somente eu e ela, totalmente juntos como uma família feliz. Na companhia de Emi e Ruki é claro.

– E o garoto? – Ela me perguntou, e eu só pude sorrir.

Eu tinha dito para ela que o Kai era um garoto da minha escola, quando não podia dizer de verdade onde tinha o conhecido. Mas o legal era que agora isso nem era mais uma mentira completa, pois eu tinha me tornado um garoto da escola dele.

Eu contei a história toda com o maior número de enfeites possível, e talvez ela entrasse no embalo da minha felicidade e nem me xingasse tanto por ter largado a escola e tudo mais. O que não rolou, mas não vem ao caso neste momento.

Nós ficamos no mínimo umas quatro horas falando sobre o Kai, ela queria o conhecer. Mas eu disse que ainda não, apesar de que não tinha como ela não o conhecer, já que ele estava quase o tempo todo dentro daquela casa, mas eu expliquei para ela a delicada situação em que estávamos.

Ela riu da minha cara por uns vinte segundos direto, depois me disse uma data em especial que queria jantar com meu namorado. E disse que eu tinha o tempo até aquela data para me virar e deixar de ser covarde, para mostrar pro garoto que ele era o meu namorado. Porque é claro, dizer pro filho que é normal ter vergonha da pessoa no dia seguinte, estava fora de questão para minha mãe.

Mas antes de emburrar como um menino todo borrado, eu preferi que ela me falasse algumasdicas de como lidar com esta situação. Então passamos mais algumas horas discutindo coisas legais para se fazer por aí com o cara que você quer que seja seu namorado.

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Ruki

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O som saía de forma fluida pelos fones do meu celular pelos fones de ouvido, baixinho, apenas um plano de fundo para o ambiente. Koron-chan estava no tapete ao meu lado roendo um osso próprio para cães enquanto Sabu-chan estava deitado em cima da camiseta que eu tinha só tirado e jogado de um dos meus lados no chão, nenhum dos dois prestava muita atenção em mim, mas constantemente eu tirava meus olhos do exercício de matemática para ficar os olhando como se fossem algo de outro mundo.

Morrendo de tédio, não queria encher o saco do Myv e o fazer deixar de aproveitar a mãe dele enquanto ela estava aqui, não ia ligar para Kai e Uruha virem para cá, pois a casa ainda tinha um leve clima de luto, minha mãe estava em seu escritório com Joe. E eu ali, fazendo exercício para entregar de matemática, que saco.

Eu tenho pavor de matemática, simplesmente odeio. Diria que meu cérebro é compatível apenas com letras e não com números, muito menos com letras e números em um negócio que depois de um cálculo de meia página do caderno, tem que virar somente um número. Mas como a vida é ingrata, é justamente por odiar essa porcaria que me dedico bem mais à matemática do que às outras matérias, afinal se já ruim ter que fazer isso para trabalhos e provas, pensa ter que fazer duas vezes mais com recuperação e reforço. Credo.

Bocejei mais uma vez e busquei uma batatinha chips para colocar na boca enquanto me preparava mentalmente para ler e interpretar o próximo problema. Droga, recém tinha passado das sete da noite, é horário de verão, o sol brilha lá fora e cara...não matemática. Mas não é como se eu tivesse alguma escolha.

Ou pelo menos até aquele momento eu parecia não ter.

Meu coração quase parou de susto quando a música que eu ouvia fora brutalmente cortada pelo som chato do alerta de mensagem. Era de Reita, ele perguntou o que eu estava fazendo. Ao invés de escrever um texto chato, mandei uma foto da minha situação para ele. É mais rápido e evita fadiga.

Pela hora ele devia estar indo para casa depois de fechar a loja do Joe. O som da música foi cortado mais uma vez, mas desta vez eu já estava esperando e tudo o que havia na tela era um "emoticon" sem vergonha com uma mensagem que implicava com o fato de ainda não ser dez da noite para eu ficar mandando pornografia para ele. Eu juro reli algumas vezes na tentativa de entender o que esse cara estava tentando dizer, mas falhei divinamente.

Então só tinha uma coisa que eu podia fazer. Ligar para ele.

– Baka! – Disse de forma bem arrastada assim que ele atendeu, mesmo sem saber bem o motivo, foi muito gostoso ouvir a risada que ele deu do outro lado.

– Você me manda material erótico e eu que sou idiota? – Ele perguntou humorado.

– Eu não sabia que você tinha fetiche por números Reita, se soubesse tinha te mandado o meu dever ao invés da foto que mostra eu fazendo ele.

– Não tinha visto dever nenhum na foto. – Ele disse, cômico.

Pelo menos eu acho que era pra ser cômico nee. Ou ele tava querendo dizer que o conteúdo erótico da foto era eu.

– Não trolla. – Disse meio no automático, mais por não saber ao certo o que dizer.

– Bom ver você animado, achei que as coisas iriam estar estranhas aí hoje. – Ele disse.

– As coisas estão estranhas aqui hoje, o fato de estar tudo quieto e cada um em seu próprio quarto em a prova disso. Mas eu só me lembro da avó do Miyavi tipo antes do Myv ser matriculado no internato. Então não é como se eu tivesse memórias dela para estar triste. É só uma questão de respeitar o espaço dos outros.

– Sei. Bom, eu acabei de fechar a loja do Joe e... sei lá. – Deu a informação, mas eu juro que não sabia que fazer com ela, por isso houve um silêncio estranho na ligação. Eu tinha que achar um assunto logo antes que não houvesse mais motivo para mantermos a ligação.

– Etto..falando no Joe, o Uruha disse que foi aí xaropear vocês na loja. – Disse, porque não sabia mesmo o que dizer.

– Ahh – Ele disse...me pareceu meio desmotivado, Uruha deve ter sido chato. – Ele foi mesmo, foi legal, não me lembro de ter conversado tanto com ele antes. Nós combinamos várias coisas, todas envolvendo vídeo games, marcamos uma batalha digital para o primeiro feriado que aparecer. – Ele continuou, desta vez um pouco mais animado.

– Que saco vocês dois, eu não gosto de jogar com o Uruha, ele quase só usa as manhazinhas apelativas dos jogos. Me irrito, daí ele tira com a minha cara por estar irritado, aí eu dou um jeito de irritar ele de propósito e aí já viu, a guerra digital vira 3d sempre.

– Hahaha – Ele riu de um jeito gostoso. – Então vou levar a batalha pro lado pessoal, vou vingar você. – Disse rindo ainda mais.

– Claro! Faça aquele animal pagar por todas as vezes que riu da minha linda cara. – Disse no tom claro de brincadeira.

– Vou precisar de dicas, você joga bastante com ele. Que tal me dar umas dicas, eu podia passar aí pra a gente jogar um pouquinho. – Ele disse, e eu meio que travei.

Era impressão minha ou ele estava se convidando para vir aqui? Meus olhos percorreram o quarto, como que se um dos cachorros deitados no tapete comigo pudessem me dar alguma resposta.

Será que era isso que ele queria quando disse que estava saindo da loja do Joe e mimimi? Será que depois de eu não entender uma indireta ele estava literalmente se convidando para vir aqui?

Bom, uma coisa era certa. Ver o Reita uns minutinhos a mais por dia não é nenhuma maldade. Mordi o lábio inferior antes de responder, talvez porque simplesmente não conseguisse parar de sorrir apenas com a ideia de que ele estava vindo para cá. Olhei para o Koron que ainda estava roendo um osso sem dar a mínima para minha presença no recinto, mas em que bosta eu fui me tornar?

– Hm..acho que é uma boa ideia. – Disse. – Mas sabe né, boas dicas custam caro.

– Ah seu pequeno mercenário. – Brincou do outro lado da linha, provavelmente achando que eu estava brincando.

– To falando sério. No caso, eu vou fazer que não te ouvi chegar se você não me mandar uma foto desta tua cara sem faixa. – Joguei as palavras.

Porque sim, caso em algum momento eu resolva mesmo admitir na minha vida que estou amando esse filho da puta, eu preciso que ele seja um filho da puta com face.

– Eu sabia que você tinha segundas intenções quando mandou aquela foto sensualizando pra mim. To com medo de ir aí, você está inclinado para putaria hoje. – Ele riu e eu não me aguentei, e ri junto.

– Falo sério. – Disse assim que os risos terminaram.

– Tá, quer dizer que depois de calças douradas e excitações equestres, você também tem fetiches por narizes? – Disse rindo.

– Eu só usei essa coisa do cavalo para dar um exemplo pro Kai e...cara quem tem fetiches por calças douradas é você. – Rebati.

– Quer dizer que o fetiche por nariz se mantém né. – Mas é claro que ele sempre tem uma resposta para tudo.

Qquando estávamos apenas nós dois, ele era quase –quase- pior do eu. E eu adorava isso, já nem conseguia desmanchar mais o sorriso idiota no meu rosto.

– É como dizem né, não se pode confiar em pessoas sem antes analisar o nariz delas. Sério Reita, achei que confiasse em mim. – E aquele "quase" só existia por isso amigo, quando eu emburrava e fazia beicinho ele dizia sim pra tudo.

– Você não vai comprar meu nariz com manha, chibi.

– Eu não vou te dar dicas de como vencer Uruha no vídeo game. – Tentei novamente.

– Sério, eu to na rua, e não existe manha que você faça que me convença a tirar essa faixa na rua.

– Tá, mas você está vindo para cá né?

– Eu to, mas...

– OK! – O cortei e desliguei o telefone.

Porque eu vou tirar aquela bosta de pano da cara deste animal hoje de qualquer jeito. Levantei agarrando minha camiseta que estava no chão e a jogando na direção de onde supostamente estava o cesto de roupa suja, mas pelo barulho de roupa caindo no chão, ou ele não está lá...ou eu errei o arremesso cego. Quem liga?

Corri a porta do guarda roupas para pegar uma regata qualquer, já que estava de bermuda. Corri os cabides escolhendo entre as várias estampas, mas meus olhos insistiam em tentar buscar foco na primeira peça da sequencia, era a que eu menos usava e por isso ficava lá. Completamente dourada, por um minuto fiquei pensando em quais motivos Reita teria para me zoar tanto por causa daquela calça. Tá...é uma calça dourada, mas vai, é estilo pô.

Ri com um pensamento absurdo. E sem pensar muito tirei uma foto da calça no cabide mesmo, enviando para ele com alguma mensagem rápida perguntando se poderia barganhar então a tal retirada de faixa. Dois minutos depois tinha uma foto dele mesmo caminhando na rua mordendo a ponta da faixa como se a estivesse puxando, só me mijei de tanto rir.

Peguei uma regata qualquer bem no rim, ainda rindo enquanto fechava a porta de correr do guarda-roupas novamente, fazendo assim com que o espelho da porta parasse na minha frente. Me olhei de cima abaixo, eu não tinha um corpo feio. Não era magro como Miyavi, Kai, Uruha e Reita, mas não tinha um corpo ruim. Uma gordurinha aqui e ali, mas longe de ser um corpo com pneus.

Com certeza não tinha o porte atlético de Reita, ele tinha o peitoral quadrado, torci meus braços, também não tenho nenhuma definição nos meus bíceps e bom, não quero nem tentar comparar as minhas costas com as de Reita. Droga, malditas costas definidas. Maldita espuma de xampu escorrendo pelas malditas costas definidas.

Senti meu corpo se arrepiando com a lembrança e resolvi vestir minha camiseta logo. Desde quando eu ficava ouriçado por – pausa pro suspiro- ombros largos e costas definidas do caralho. Eu devia parar de comparar o meu corpo com o de Reita, isso não era uma boa ideia nunca. Mas dizem que quando o corpo peca um pouquinho, a beleza pode ser compensada por sensualidade.

Me olhei no espelho mais uma vez, bermuda larga e comprida até os joelhos, azul escura com uma regata branca com uma estampa qualquer, num estilo bem esportivo e folgado. A mesma maquiagem que fui pra escola e cabelo do mesmo jeito e ainda estava com o óculos de armação grossa, no maior estilo rock/nerd/antissocial que misturo de vez em quando só. Uhul to seduzindo geral.

Tirei a regata na mesma hora e a bermuda também. Não vou me arrumar para ver Reita, só precisava de algo que combinasse com a figura que já estava pintada na minha cara. Repensei e coloquei a regata novamente, só peguei uma bermuda de jeans preta, com alguns rasgos desfiados nela. Porque eu me nego a me arrumar todo pra ver o Reita, é.

Só dei uma recalibrada no desodorante e no perfume, porque né. Quem sabe só um retoque na sombra e no lápis. E depois uma ajeitada no cabelo, mas não é porque o Reita vindo aí.

Saí em silêncio do meu quarto, era estranho ver aquela casa tão quieta e vazia ao mesmo tempo em que nunca teve tanta gente ali dentro. Ouvi uma risada baixa do Myvs quando cheguei na escada para descer, e me forcei para ver se ouvia algo da minha mãe e Joe, mas não. Então só desci e fui esperar por Reita na rua, não que fosse necessário, mas eu preferia manter o silêncio da casa naquele dia.

Sentei no meio fio em frente a minha casa, coloquei os fones de ouvido com uma música suave e me concentrei em um joguinho qualquer. Não sei ao certo quantas vidas gastei tentando fazer combinações quase impossíveis de docinhos envernizados até sentir a presença de outro corpo ao meu lado, seus joelhos ao lado dos meus.

Risos, conversas e brincadeiras. Besteiras e coisas leves com pouca importância, passar o tempo com ele era sempre assim. Coisas legais como jogos e músicas, sem importâncias como brincadeiras leves. Piadas feitas um contra o outro, entre uma e outra coisa sobre o cotidiano, como o trabalho dele com o Joe, ou o tão esperado e comentado show de uma das nossas bandas preferidas.

Logo o sol já tinha ido completamente embora, e nós ainda estávamos ali sentados no meio fio em frente a minha casa. Daí me lembrei que no começo ele tinha meio que se convidado para ir ali para jogar vídeo game, mas nem eu e nem ele parecíamos ter vontade de levantar daquele lugar. Era bom sentir e energia de seu corpo ao lado do meu, os joelhos e cotovelos tão próximos que se tocavam o tempo todo, principalmente quando ríamos.

Ele estava com uma rede social aberta em seu telefone, e com outra aberta no meu. Olhávamos as duas simultaneamente, ressaltando publicações que nos chamavam atenção, isso nos servia como fonte inesgotável de assunto. Podia ser a foto de algum membro de banda, a cena marcante de algum dos animes atualizados na semana, fanarts bem feitas.

Secretamente prometi a mim mesmo que ia pelo menos conhecer os animes que Miyavi queria que eu assistisse, após ver a quantidades de conteúdo de animes yaoi no feed de notícias de Reita. Diferente da pornografia doida que Miyavi queria me empurrar, as fanarts e cenas que aparecia entre uma publicação e outra, eram normais. Por falta de palavra melhor para definir um cara levando outro cara na garupa, pelo menos não tinha nenhum neko cibernético fazendo sexo com um humano, usando sua calda como pênis. É.

– Etto... – Disse, sendo levado pelo impulso e enfiando minha mão pelo espaço que havia entre o braço e a perna dele, que estava com os cotovelos apoiados nos cotovelos.

Passei meu braço por este espaço até meus dedo chegar a tela luminosa e rolar a imagem para cima novamente, para ver se tinha o nome do tal manga. Surpreendentemente era um dos que o Miyavi tinha mandado eu assistir o anime.

– O Miyavi me mandou assistir o anime deste mangá, mas como não dá pra confiar no gosto dele eu nem me dei ao trabalho. – Disse. – É bom?

– É, é um dos mais famosos. É bem simples, mas bom de assistir ou de ler. A maioria desses animes tem a base bem parecida, um dos caras nunca aceita o fato de estar afim de um outro cara, por variados motivos. A diferença aqui é que o protagonista logo percebe isso e a resistência dele se quebra de um jeito divertido, porque ele quer, e sabe que quer ficar o outro cara. Ele fica com o outro cara e gosta dele, mas tem mais dificuldade em assumir isso do que viver a história dos dois, mesmo com todo mundo sabendo que eles estão juntos.

– Eu não entendi. – Disse, prestando atenção na explicação dele, nem ligando pro fato de que para isso apoiei o braço que tinha usado para alcançar o celular dele, na perna dele que estava mais próxima de mim, tendo que meio que enroscar meu braço com o dele para que ambos pudessem dividir o espaço enquanto se equilibravam sobre o joelho flexionado dele.

– Ele se nega no começo, mas nesses animes o outro cara nunca liga pra esse fato e "ataca" – Disse a última palavra fazendo aspas com a mão livre dele. – O outro cara de qualquer jeito. Enfim,. Eles ficam juntos mesmo com a negação de um deles, com o tempo a negação vai sumindo, mas é muito engraçado ver que eles se gostam e tudo mais, mas um deles faz de tudo para nunca assumir isso.

– É engraçada a dificuldade que uma pessoa tem em entender e assumir sentimentos? – Perguntei achando que se fosse assim, eu não ia querer ver esse anime, de complicado nessa história já basta eu.

– Não! – Ele se apressou em dizer, com uma cara engraçada de quem percebeu que disse algo inapropriado, tá não era segredo pra ninguém o nível patológico da minha timidez. Como forma de potencializar o que disse, senti seus dedos se fechando contra os meus sobre seu joelho, mas esse não era o foco agora. – É que o protagonista sempre acaba em ciladas cômicas, na verdade é a resolução delas que sempre aproxima e fortalece mais a relação deles. Mantém quem assiste sempre focado na torcida para o casal fique junto e feliz.

– Ahh. – Disse, pura e simplesmente.

Como se tivesse entendido alguma coisa, mas na verdade não tinha entendido nada. Metade do meu cérebro estava focado e intrigado com aqueles dedinhos dele se enroscando com os meus. Aquilo era certo? Eu não sabia, mas era tão gostoso que deveria ser.

Demonstrar sentimentos, hm?

Pensei em baixar a guarda, só um pouquinho. De repente me senti curioso em saber o que ele faria, se eu desse um pouquinho a entender o que aquele toque entre seus dedos e os meus me fazia sentir. Pensei em fechar meus dedos contra os seus, retribuir o toque diferenciado, mas minhas falanges pareciam estruturas frágeis demais, sem força alguma para se curvarem sobre os dedos dele que se fechavam contra os meus.

Pensei em encostar mais meu braço contra sua perna, também pensei em buscar seus olhos e ler o que eles diziam, se sabiam que a forma como estávamos sentados ali de mãos dadas pudesse ser constrangedora caso passasse na rua alguém que não soubesse de nossa amizade. Na verdade, me peguei pensando se era isso era normal, mesmo para nossa amizade. Passei tanto tempo pensando, que quando criei coragem para erguer os olhos, ele ainda estava rolando a tela da rede social aberta em seu celular. Claro, para ele tudo é sempre a coisa mais normal do mundo.

Ocasionalmente, naquele momento entrou uma mensagem para ele. E não pude mandar meus olhos não enxergarem e nem meu cérebro não ler. Era uma mensagem da mãe dele dizendo que estava saindo para trabalhar e que a avó que morava com eles não estava se sentindo muito bem, então era para voltar logo para casa. Esta última parte com um pesado ar de ordem, mesmo se tratando de simples palavras em letras pretas no visor claro.

– Acho que deu minha hora. – Ele disse, soltando seus dedos.

Da forma como ele falava, era como se nem estivesse prestando atenção à cena, como que estar de mãos dadas comigo fosse a coisa mais normal. Sabe, como se sempre fizéssemos isso. Não consegui dizer nada quando ele se levantou, arrumou a roupa e colocou o celular no bolso, apenas fiquei sentado ali tentando entender.

Porque é sério, a parte do meu cérebro que se liga às memórias que eu tenho do Reita tem "bug". Só pode. Quer dizer, se fosse o Miyavi ali tudo bem, seria normal. Se fosse Kai, eu provavelmente até deitaria minha cabeça no colo dele e pediria carinho, porque era o tipo de coisa que eu pedia mesmo. Seria menos estranho até se fosse o Uruha ali, já que pelo loiro poderíamos andar saltitando pelos corredores da escola de braços dados.

Apesar de que ele quase levou um soco de verdade na última vez em que tentou sair me puxando pelo tradicional gancho no braço. Só faltou a purpurina.

Mas uma coisa muito estranha pinicava no meu estômago ao pensar no Reita fazendo isso. E isso me dava medo. Essas pequenas coisas que indicavam que Kai e Uruha estavam certos quando ditavam que a fonte da minha amizade com Akira era por algo mais intenso do que simples afinidade.

– Me chamou? – Perguntei ao perceber que ele estava em pé uns dois metros à frente, me olhando com uma cara de quem está pensando em mil coisas, nenhuma que presta.

– Não, só estava acompanhando as suas mudanças de caras e bocas enquanto esperava você sair do seu mundo paralelo por conta própria pra poder te dar tchau, Ruki.

– Grato. – Disse sem saber ao certo porque disse isso, talvez apenas por incapacidade ficar calado.

– Ás vezes eu acho que tirar você desse mundo em que você se enfia é igual acordar um sonâmbulo, sabe. Vai que faz mal. – Deu de ombros, claro que tinha que começar com piadas com minha cara.

– O Uruha me traz de volta a base de pancada o tempo todo.

– Talvez seja por isso que seu cérebro seja tão "bugado". – Ele continuou.

– Vai pro inferno Reita. – Disse de forma calma e suave, quase como música.

– Eu vou é pra casa. Vejo você amanhã. – Disse já se virando, erguendo a mão em um cumprimento de despedida.

Só que eu não podia deixar ele sair assim, com aquele ar de todo poderoso. Afinal tinha algumas coisas que eu queria com a presença dele ali, e não tinha conseguido nenhuma delas, mas então uma ideia ligeiramente arriscada passou pela minha cabeça.

Reita ia ficar brabo comigo? Quem sabe. O clima de sacanagem estava tranquilo enquanto era a minha cara, não é? Então, preferi assumir o risco de te-lo zangado comigo.

– Reita, espera! – Disse usando todos os meus dotes dramaturgos, que não são poucos.

Ele já estava atrasado mesmo, dez minutos a mais ou a menos não fariam diferença. Me levantei rápido indo na direção dele.

– Pera, vira. Tem uma coisa nas suas costas. – Disse sério, o tocando no ombro, e o incentivando a virar de costas para mim.

– O que? Um inseto? – Ele perguntou tentando ver suas costas por cima do ombro.

– Não! Para quieto! – Pedi segurando seu rosto com uma mão, enquanto é claro, puxava a ponta da merda da faixa na cara dele com a outra.

Um pouco eufórico pelo ligeiro aumento de adrenalina, por não saber o quão zangado ele ia ficar, puxei o tecido que passou muito rapidamente por seu pescoço. Ouvi um "não" ao mesmo tempo em que suas mãos sumiram do meu campo de visão.

Eu devia começar a correr o quanto antes, mas perceber que ele estava cobrindo o nariz como cobriria suas partes íntimas que manteve preso no chão quase engasgando de vontade de rir. Ele montava uma cena cômica demais, e se era para ver ele zangado depois, que pelo menos desse pra rir bastante dele agora.

– Ahh Ruki! – Ele gritou com a voz fanha por causa das mãos que ele tinha sobre o rosto.

– Você quer? – Perguntei balançando a faixa dele em minhas mãos.

Corri antes que ele pudesse ter vantagem sobre mim, porque é óbvio que mesmo eu começando a correr antes, ele vai assumir uma vantagem sobre mim correndo. Sorri ao ouvir que sim, ele tinha corrido atrás de mim. O que era um bom sinal, pois se ele estivesse zangado de verdade só correria para casa e me deixaria ali né.

– Ahh seu filho de uma égua! – Gritei ao sentir meu lindo corpo se chocando, não apenas com o chão, mas também com a porta de entrada da minha casa, fazendo a mesma tremer e fazer um alto ruído no processo. – Ai minhas costelas. – Reclamei, mas estava com as bochechas doendo devido ao riso.

–Devolve minha faixa, praga. – Ele disse, também rindo.

Eu nem dei bola pro fato dele estar acocado em cima de mim. Só ri mais ainda, por causa da voz de pinguim dele.

– Tá bem aqui, é só tirar a mão da cara e pegar. – Gracejei com um sorriso vitorioso, pois de baixo dele teria uma visão de camarote do rosto que eu queria ver, e ele não queria mostrar.

Ele bufou e tirou uma mão do rosto, deixando a outra no mesmo lugar. Serio que ele achou que ia sair dessa fácil assim? Soltei algum xingamento entre as risadas, e mesmo assim ele conseguiu alcançar a droga da faixa. Eu estava com a visão alterada já por lágrimas de riso, e só sei que a faixa em minhas mãos virou um cabo de guerra, ele puxava de lá, eu de cá.

Era evidente que ele era mais forte do que eu, mesmo que o excesso de risadas dele também estivesse lhe cortando a força, por isso resolvi aproximar meu braço de meu corpo o máximo que dá, e usar o meu peso ao meu favor. Sei que quando vi que não ia vencer na cabo de guerra, soltei a faixa sem aviso, fazendo-o cair para trás com o peso do próprio corpo.

Sem pensar, porque nem eu sei de onde estava tirando meus pensamentos neste dia, me coloquei sobre seu corpo de maneira rápida. Ainda estávamos perto demais da porta de entrada e meus pés bateram novamente na mesma, mas que liga, Reita tinha a faixa em uma mão, e a outra estava alisando um ponto em sua cabeça.

– Seu trouxa, bati com a cabeça. – Ele choramingou. – Vai ficar um galo. – Mas nem por isso consegui parar de rir.

Quem liga pro que ele fala? Eu estava vendo seu rosto pela primeira vez. Mesmo reclamando, ele ainda estava sorrindo, de certo que o rosto dele congelou assim como o meu nesta posição.

– Mas que tipo de merda vocês dois estão fazendo? – Epa. Era a voz da minha mãe, e com um timbre que eu sabia que se não tivesse uma explicação plausível, estaria em apuros.

Olhei para trás e vi que ela tinha uma cara mais de preocupação do que de braba, na verdade. Também pudera, com o griteiro e as batidas na porta, de certo ela achou que estávamos brigando ou algo do tipo. Mas o legal da minha mãe era que ás vezes podia ser fácil reverter a situação de encrenca.

– Rápido mãe, busca a câmera. Esta pode ser a nossa única chance de ter uma prova de que o Reita tem uma face. – Gritei me apressando para segurar o loiro pelos braços.

Ele riu com a minha fala, mas a minha mãe... bom, ela suspirou e fechou a porta atrás de mim. Acho que não foi dessa vez que eu escapei de uma situação de encrenca com a Emi-san, apesar de elas serem raras.

Fiquei ali parado, literalmente sentado em cima do corpo dele, segurando seus braços contra o chão enquanto ainda ria. Ele também, apesar de nem tentar mais esconder o rosto. Nossas respirações estavam igualmente irregulares e tenho certeza de que meu rosto devia estar ainda mais vermelho do que o de Reita. Podia sentir uma lágrima escorrendo por meu rosto, de tanto que ri, estava exausto do tanto que tinha rido, mas não queria sair dali.

O rosto dele era bonito. O nariz talvez pequeno e delicado demais em contraste com as maças de seu rosto bastante proeminentes, mas nem de longe faziam daquele rosto algo feio. Não me importaria de olhar para ele o tempo todo, mas também não me importaria de ser o único com o privilégio de vê-lo.

– Você conseguiu, pequeno. – Ele disse.

– É. Expus suas partes íntimas. – Respondi.

– É, você despiu minhas partes íntimas. E foi contra minha vontade, você me molestou na verdade. – Disse rindo.

– Molestei hm.. Expus suas partes íntimas.. – Recapitulei vendo ele concordar com acenos com a cabeça, cruzei os braços e me debrucei sobre ele, deixando um beijo na ponta de seu nariz. – Daí me redimi com sexo oral. – Dei de ombros.

Não me perguntem que drogas minha mãe colocou no meu toddy hoje, pois eu não estou interessado em saber. Ele e dobrou de rir, e eu também por subsequência.

– Droga Ruki, assim.. – Ele começou a dizer alguma coisa, mas foi interrompido pelo solavanco que a porta atrás de nós deu se abrindo novamente.

Havia um furacão chamado Emi, saindo por ela. Com o telefone já na mão, e vários sons de obturador da câmera nos atingindo nos ouvidos. Ela deve ter tirado, umas cinquenta fotos em menos de um minuto. Eu ri, já estava roxo e chorando, mas quem liga, achei que ela tinha ficado zangada.

Mas lembrei que ela nunca tinha me desapontado na vida quando vi ela se acocando na areazinha de entrada na qual estávamos jogados e apertou as bochechas e o nariz do Reita com força. Como se estivesse brincando com uma criança bochechudinha.

– O narizinho do Reita-kun é tão kawaii nee. – Ela disse rindo e então se levantou, voltando para dentro de casa tão rápido quanto entrou. – JOOOEE. – Só deu pra ouvir ela gritar. – Você tem que ver isso, o Reita tem nariz. – Ela riu e nós dois rimos da risada engraçada dela.

Minha vida é uma bagunça. Minha família não é normal. Estou apaixonado por um de meus melhores amigos, e tinha acabado de dar um beijo no nariz deste, explicando que aquilo era para ser um boquete.

Eu não tinha mais um motivo não vergonhoso para estar sentado sobre o abdome de Reita, então soltei seus braços e me afastei vendo-o sentar e amarrar a faixa sobre seu rosto novamente. Fiquei sentado no chão vendo ele se arrumar, e estranhamente, ele estava se ajeitando olhando para mim. Então achei melhor dizer alguma coisa, aquilo já estava ficando estranho.

– Etto..me desculpe por... – Parei a frase no meio, traçando as palavras por um gesto que demonstrasse a faixa dele. – Você ficou zangado? – Perguntei por fim, rindo ao falar a última palavra, pois um rápido filme da cena como um todo se repetiu na minha cabeça.

– Hm..com certeza o...sexo oral amenizou a situação. – Disse sorrindo.

– E eu nem precisei usar calças douradas. – Completei ao vê-lo se afastar um pouco de mim.

– Gemen Ruki, tenho mesmo que ir para casa. Nos vemos amanha na escola. – Ele disse passando um de seus braços por cima de meus ombros e deixando um beijo no topo da minha cabeça.

Está tudo bem ele fazer isso, não está? É apenas o desfecho calmo de uma brincadeira descontraída entre dois amigos, no mundo a parte em que vivemos. Só acho que meu coração não precisava disparar assim por um simples gesto de amizade.

– Hai. – Concordei, permitindo que ele se afastasse. – Até a escola. – Sorri.

Em um mundo a parte, era onde eu queria estar, mas não agora, neste momento, só tinha uma certeza do mundo real: já tinha passado da hora de conversar sobre algumas coisas com minha mãe.