Capítulo vinte e três: There is
Por Kami-chan
Então Reita e Ruki estavam se agarrando na entrada da casa do pequeno, e não deixei Uruha passar por lá e acabar com o que quer que fosse que eles estavam tendo. Então por este motivo minha casa tinha sido invadida pelo ciclone Uruha.
Eu não gostava de pessoas na minha casa, já disse isso e vou viver repetindo. Não queria que soubessem que minha mãe era doente, nem que perguntassem onde estava o meu pai. Eu era o cara e não queria que ninguém visse que a minha realidade era bem diferente da máscara que eu vestia na rua. Mas com sorte, Takashima parecia ser desligado o bastante para não se ligar nesses detalhes.
Mas o mais importante era que eu não queria e nem suportava gente espaçosa. Quer dizer, mais espaçosa que eu. E aquele cara era. Reita está me devendo, e está me devendo muito, espero que trace aquele anão de uma vez para eu poder deixar de ser cuidadoso.
Uruha e eu nem éramos amigos do tipo próximos, tudo o que eu sei desse cara se resume às cenas dele sendo o foco das atenções na festa em que eu levei ele. Uma festa em que ele atraiu todas as meninas dispensou todas elas, não me apresentou nenhuma e depois foi a atração fatal da noite. Porque o que ele fez com o carinha que pegou na festa só pode ser descrito como explícito, e o fato deles não terem se penetrado na frente de todo mundo não muda o fato de que aquilo foi sexo selvagem, com desconhecido, em local público.
E como se não bastasse tê-lo engolido desde a tarde de sábado, o loiro mel não foi embora quando acordou no domingo. Ficou ali sem ser convidado, tocou minha guitarra sem ser convidado, bagunçou minhas revistas de bandas e cifras sem ser convidado. Depois de um final de semana inteiro com Uruha nos meus calcanhares, eu só podia o classificar como uma peste.
E aqui está ele novamente, já entrou correndo para o meu quarto e quando entrei, dois minutos depois dele, adivinhe, ele estava sentado na minha cama, com um pé apoiado na lateral do pequeno amplificador com minha guitarra no colo, plugou e começou a dedilhar coisas. A minha guitarra. Ele me dá nos nervos.
Juro que tive um pensamento linear sobre Kai e Miyavi serem um casal, Reita e Ruki mais cedo ou mais tarde encontrariam este mesmo caminho, eu queria tanto que Uruha fosse o meu mais novo amigo. Ele estava invadindo meu mundo rápido demais, tão rápido que eu já quero que ele pare e vá embora.
Uruha realmente me da nos nervos. Eu prefiro a companhia do Ruki, sério.
Hm...Ruki, ele também era culpado por Uruha estar aqui, pensei estreitando meus olhos. Tanto tempo se fazendo de puritana virgem pra estar sentado no pau do Reita na frente de casa. Se eu deixasse o Uruha ver aquilo, ele ia estragar tudo com surtos gays.
Respirei fundo, tudo vai dar certo. Percebi que ele estava tocando uma música que eu adoro, e que por sinal estava trancando no meio de um rifh, sei lá é como se meus dedos congelassem e nunca tocavam as casas certas naquele ponto da cifra. O olhei com o canto dos olhos, Nem parecia que ele estava fazendo algum esforço para tocar aqui na perfeição com que estava fazendo.
Droga, pra completar, ele toca mesmo bem a guitarra. A trata com carinho e respeito devidos, seus dedos encontravam as casas sem nenhuma dificuldade e pareciam dançar um canto lírico enquanto escorregavam pelo braço não tão longo da guitarra. Nem parecia que era ele que estava tocando de tão suave que era o seu toque sobre as cordas.
Hum..era a gora, ele ia chegar no ponto em que eu trancava. Secretamente já estava louco e vontade de observar como ele movimentaria seus dedos pelo instrumento, para ver se encontrava meu próprio erro. Ele fechou os olhos como se sentisse a música e, como esperado, completou o rifh com perfeição. Idiota. Queria que ele tivesse errado ali também, mas outra parte de mim queria que ele tocasse aquela parte de novo para eu ver bem.
Meu telefone tocou, e acabei por me jogar na cama, ao lado dele. Acabei me deitando sobre o colchão macio ao reconhecer a voz feminina no outro lado, que me avisava o horário da festa para hoje. Troquei duas ou três palavras com ela e logo desliguei, ele estava completamente virado para mim, me olhando como se estivesse me repreendendo com aquele olhar felino.
O que ele queria? Que eu convidasse ele para ir comigo novamente? Nem fodendo.
– Você vai naquele tipo de festas mesmo em dia de semana? – Ele me questionou com a voz baixa.
– Às vezes. – dei de ombros. – Algum problema? – perguntei e fiquei o olhando apertar o braço com um pouco mais de força enquanto pensava.
– Sei lá. – foi tudo o que ele disse por fim, dando de ombros e se virando de frente novamente, voltando a tocar minha guitarra enquanto me dava as costas. – Tudo por peitos, não é?
– Não dá pra negar que nestas festas só há mulheres gostosas. Mas não é só isso, todo mundo nestas festas tem o mesmo objetivo.
– Hm... etto Aoi... Será que posso perguntar..hã se você gosta tanto assim de peitos, porque fica com alguns caras também? – Ele me perguntou.
Eu achei engraçado. Uruha tinha um timbre bem baixo quando conversava sobre esse tipo de coisas, até parecia que estava fazendo uma pesquisa séria. Ele perguntava aquelas coisas com tanta calma que até parecia normal, um cara que nem é assim meu grande amigo ficar me perguntando coisas bem íntimas.
Na verdade, eu nem gostava tanto assim de peitos. Os achava muito bonitos, é claro, curvas delicadas formados por peles macias e raramente tocados, mas com certeza não era tão chegado assim em peitos quanto gostava de gritar por aí.
É só que eu realmente gostava menos de passar meu tempo com garotas do que com garotos, então a chance de eu me apaixonar por uma delas era infinitamente menor. E nessa história, gostava muito mais de ocupar minha boca em seus lindos e delicados seios, do que as conhecendo. Raramente um ou outro garoto se mostrou apto a seguir minhas regras de desapego, e eu não era bobo.
Não queria e não iria me apaixonar por cara nenhum por aí, para doar minha vida e sentimentos, dividir sonhos e fazer planos simplesmente para descobrir que um dia, principalmente quando sua presença for mais importante, eu me descobrir sozinho. Eu quero continuar a seguir a regra do desapego, e pode ter certeza que quando um menino chama a minha atenção de verdade, não é esta regra que está falando mais alto em minha cabeça.
– Ora... – Comecei a dizer assim que sua pergunta passeou por toda minha cabeça e eu pude montar uma frase de resposta automática que não me deixasse exposto. – Porque gosto de ficar com caras também. Não seria obvio? – Questionei-lhe.
– Mas você não sai por aí destacando peculiaridades de corpos masculinos... quer dizer, se tem algo que eu descobri depois que o Ruki gritou no pátio da escola que eu sou gay, o que mais aparece no meu facebook é MP de garotos querendo sair comigo.
– E eu sou o pegador daquela escola certo. – Sorri tentando entender onde ele queria chegar. – Então o que você quer saber de verdade Uruha? Se eu sujei algum garoto de quem você é afim, ou por que eu não sou um dos garotos que está enchendo sua caixa de mensagens com propostas que terminariam com minhas unhas cravas nas suas coxas enormes?
Ri ao vê-lo ficar vermelho. É, pelo visto Uruha gostava de alguém. Claro que gostava, adolescentes normais de dezesseis anos sempre encontram alguém por quem seu coração bate mais forte, eu que era a carta virada do contra no meio do baralho.
– Etto.. não fique aí com essa cara de moranguinho ou vou me sentir a vontade pra te morder. – Disse para descontrair, dando um tapinha de leve em seu rosto excessivamente rosado. – Se gosta de alguém em especial é só dizer-me o nome e vou me manter distante, afinal, você agora é meu amigo hm.
– Quer dizer que não importa por quem um amigo se apaixone, você se mantém distante? – Ele perguntou se remexendo na cama, finalmente parecendo sair do estado tímido.
– É. Os amigos vem em primeiro lugar.
– Quer dizer que a primeira coisa que você e o Reita entraram em acordo foi as pessoas de quem você deve se manter distante? – Perguntou rindo.
– Ah o Reita facilitou pra mim se apaixonando por alguém que nem passa perto do meu gosto. – Ri, porque seria bizarro demais imaginar Ruki em teor sexual, ele era meu amigo de infância...er quer dizer.. Sabe o pigmeu virgem não faz nenhuma fantasia sexual minha.
– E tudo se resume em fantasias? O que acontece se eu e você nos apaixonarmos pela mesma pessoa? – Ele perguntou de uma maneira estranha.
– Bom, eu posso afirmar duas coisas. Primeiro: isso é quase impossível de acontecer. Segunda: Se isso acontecer, você me fará um favor levando uma pessoa que foi capaz de me fazer apaixonar para bem longe de mim. – Respondi e tudo ficou quieto por tempo demais de um jeito bastante desagradável, a não ser pela cara pensativa dele.
– Eu acho que entendi! – Ele disse então, aparentando repentina felicidade, junto de um brilho no olhar de quem encontra o pote de outro no final do arco-íris.
Eu não entendi nada, mas se fazia sentido na cabeça daquela criatura avoada talvez fosse melhor nem entender. Sorri, por reflexo ao vê-lo sorrir de uma forma realmente ampla e me senti estranho. Repentinamente, me senti pego em uma armadilha, como se ele estivesse me fazendo um interrogatório cujo nexo só existisse dentro da cabeça dele.
Mas aí ele continuou. E meu sorriso morreu.
– Você tem medo. – Disse acalmando a expressão em sua face. – De se apaixonar e se ver exposto, a mercê de outrem. Você criou um personagem que é dominador e sagaz, ele sai pela escola e pelas ruas usando pessoas para que elas não vejam o verdadeiro Yuu, não é?
– De onde você tirou tanta coisa sem sentido ao mesmo tempo Kou-chan? – Perguntei mantendo-me calmo, quer dizer, eu não tinha dito nada que pudesse deixar aquelas coisas aparentes.
– Você com certeza teve alguma experiência ruim. – Ele apontou seguindo seu tiroteio de acusações apontamentos.
– Que? Kou, eu nunca namorei e nem me apaixonei por ninguém. Não sou eu quem evito, só nunca aconteceu. – Menti, porque ele não tinha que saber que estava certo.
– Você sabe que é impossível não se apaixonar para sempre, certo? – Ele disse fazendo uma cara de espertinho, ma o legal é que de espertinho ele não tinha nada.
– Acho que vou seguir minha vida despreocupadamente a esperar para ver se sua teoria confere. – Disse deixando dois tapinhas em suas coxas, tirando ele do lugar onde ele estava sentado e pegando a guitarra de suas mãos, era hora de fazer alguma coia para mudar de assunto.
.:.
– Nee e eu que até já tinha ameaço demitir esse menino por causa desta faixa na cara, e nem daquele jeito ele tirou. Apenas me convenceu que não atrapalharia nos negócios, muito pelo contrário. – Foi o que ouvi Joe dizendo quando entrei na cozinha.
– Ah mas ele não está totalmente errado, afinal o Suzuki é um ponto de referencia com aquela faixa na cara. – Foi o que minha mãe respondeu.
Eu só me sentei na banqueta ao lado de Joe, na frente do alto balcão. Fiquei em silêncio, minha mãe mexia sem parar uma panela pequena, e o cheiro que vinha de lá era de brigadeiro. O celular dela ainda estava sobre a pedra do balcão em minha frente, a tela ainda brilhava.
Peguei ainda em silêncio para a ver a foto que ainda estava aberta ali, rapidamente compartilhei ela com meu celular e o de Reita, antes de parar mesmo para olhar os detalhes da mesma. E...
Por hide, sério que eu estava nesta posição mesmo na frente de casa e com Reita? Agradecendo fervorosamente às entidades celestiais que me amam e não haviam mandado Miyavi ali pra baixo naquela hora. Ou pior, se Uruha chegasse em casa naquele momento.
Passei a o tecido da camiseta para tirar algumas marcas de dedos da tela, e pude ver melhor o vermelhão da minha cara. Não era de vergonha, naquele momento eu não senti vergonha, aquela tonalidade era devida apenas ao excesso de risadas.
Vergonha. Fiquei pensando sobre este sentimento, ou reação. Eu vivo com vergonha do Reita, mas estava bem feliz em cima do colo dele, basicamente me esfregando em seu corpo enquanto "lutávamos" pela posse da faixinha...mas eu não senti vergonha.
E se eu estava perdendo a vergonha, quem sabe ao certo por quanto tempo seria capaz de omitir o sentimento?
Assustado olhei para frente, vendo o corpo de Emi dançar de forma lenta na frente do fogão, uma música de rock antiga que o Joe estava cantando enquanto nem parecia perceber minha presença ao seu lado. Não me parecia que eu ia conseguir falar com Emi naquele dia, pelo menos não com Joe ali, então larguei o celular e passei a cantar a letra clássica junto Joe, finalmente chamando atenção deles para minha presença ali.
Senti meu telefone vibrar e atendi contente, normalmente quem me ligava era Reita. Mas desta vez era Uruha, feliz da vida por algo que não compreendi bem o que era. Apenas me alarmei quando no final da ligação ele disse que estava indo para a casa do Aoi, e que eles iriam para outra festa, achei que ele parecia enfeitiçado quando disse que iria jogar o mesmo jogo que Aoi.
Não entendi sinceramente o que ele quis dizer com aquilo, mas não gostei de ouvir. Fazer o jogo do Aoi? Isso quer dizer o que, afinal? Mesmo sem entender tive que pedir para ele não fazer nada que fosse o fazer sair machucado depois.
Mas disse isso mais pensando nas festas, porque eu sei que ele ama mesmo aquele bocudo idiota. E acho que deve doer ir para as festas como amiguinhos, ver Aoi pintar e bordar com suas garotas peitudas.
Bem no fim já era tarde quando Joe deixou nossa casa, e antes mesmo de eu poder encontrar um jeito de como conversar com ela sobre o Reita, Emi me puxou para dentro do escritório dela e disse que tínhamos que conversar. E ela disse isso de um jeito muito cabreiro pro meu ego desconfiado.
Me fez sentar em uma das poltronas confortáveis em torno da escrivaninha de mogno antigo e já saiu puxando o rolo onde estava o desenho que tinha feito para ela, logo o abrindo entre nós dois. Ela elogiou de uma forma como nunca antes, apesar de ela sempre admirar muito meus projetos.
– Etto... você queria um quadro? – Perguntei meio confuso quando ela não parou mais de falar dos detalhes e tudo mais.
– Não meu amor, este foi o seu primeiro projeto verdadeiro. – Ela disse e suspirou. – Eu pedi demissão do hospital Ruki, Joe e eu estamos levando adiante a abra da casa de shows.
– Oh.. por isso Reita te traz tantos papeis. – Disse ao perceber aquele detalhe, minha mãe, mesmo sendo sócia do Joe nunca tinha que assinar tantos papeis antes.
– É. – Ela sorriu. – Joe tem uns contatos muito bons e acabou não me deixando escolha após fechar um contrato de serviço sem o local estar ao menos pronto. Mas mesmo na pressa está tudo saindo muito bem, e o seu projeto vai nos poupar muito tempo, por que a maioria dos arquitetos e decoradores não tem isso aqui. – Ela disse girando os dedos no ar sobre o desenho, indicando-o claramente. – Esse feeling.
– Você quer dizer que isso vai fazer parte da casa de shows? Quer dizer, aquela casa de shows que você e o Joe sonham desde sempre. – Perguntei, tendo como resposta apenas o aceno afirmativo dela. – Puta que pariu, mãe me deixa revisar essa coisa direito. – Disse fazendo menção de recolher a folha entre nós, mas ela me impediu.
– Está exatamente como eu queria que esta parte do local fosse, Ruki. Mas o mais importante não é isso. Querido, eu fiz um acordo com o hospital, vou receber um bom dinheiro por minha rescisão, mas não vai mudar o fato de que até este local estar devidamente pronto e os shows começarem a acontecer, eu estou desempregada. De verdade, vou precisar que você me ajude a pisar no freio com os gastos, filho.
– Eu sei mãe, entendi. – Disse rindo. – Eu posso arrumar um trabalho também, o que acha?
– Nada disso gatinho, se você me ajudar a não gastar tanto já está ótimo. E se você quiser tanto assim trabalhar, pode me ajudar com isso. – Disse apontando novamente para o desenho. – Você pode ir comigo dar uma olhada no lugar e dar umas ideias, o que acha?
– Eu vou adorar! – Disse feliz, era sempre bom passar mais tempo com Emi e eu iria deixar cada canto daquela casa de shows maravilhosa.
Acabamos por passar o resto da note conversado sobre a casa de shows, principalmente depois que eu me liguei que ela tinha dito que já tinha um show agendado para lá, aí ela me disse que era o show dos abomináveis e eu quase surtei o resto da noite. Não era a hora certa para falar com ela sobre Reita, ela já estava me deixando a par de um monte de problemas, não ia largar mais uma na mão dela.
Eu sabia que a hora perfeita nunca chegaria, que não existiriam palavras certas em momento algum. Só não agora, não com ela rindo alto e solto enquanto trocávamos informações engraçadas sobre coisas sem sentido. Ou enquanto juntava as sobrancelhas por não ter percebido um detalhe que eu destaquei sobre as decorações que ela queria colocar na casa de shows.
Eu ri quando ela choramingou algo sobre eu não querer ser engenheiro, ela sabia que eu era um artista. Faria faculdade, mas nada que me obrigasse a trabalhar em uma área apenas. Para deixá-la feliz, desenhei um palco, para modelo de palco principal. E ela passou o resto do tempo que passamos juntos contado histórias da banda que ela, a mãe do Miyavi, Joe, meu pai e mais um amigo dele tinham.
