Capítulo vinte e quarto: I'm yours

Por Kami-chan

Depois que Emi falou sobre a casa de shows e sobre o show dos Abomináveis eu fiquei eletrizado. Claro que tive que correr pro quarto do Miyavi e discutir isso com ele, nem liguei para o horário avançado da noite e a forma como assustei mãe filho ao invadir o lugar correndo. Só deixei sair algumas palavras afobadas de desculpas e disse que Miyavi iria dormir comigo, e puxei o tatuado pelo braço, sentindo-o meio molenga pelo sono.

No meu quarto sentei com as pernas flexionadas sobre minha cama, sem nem ligar para arrumar a mesma ou pegar travesseiros e cobertores. Quem liga para dormir, minha banda preferida está na minha cidade e é minha mãe que vai organizar pros caras. Miyavi também estava me olhando estranho, e diferente de mim, ele pegou dois travesseiros quando passou pelo armário; um para colocar sob o rosto e outro para abraçar. E parecendo não ligar para o fato de que minha cama não estava arrumada para uma noite de sono, ele sem aninhou em cobertores imaginários, se moldando à parede ao lado da cama.

– Miyavi seu inútil! – Reclamei chutando sua perna com o dorso do pé.

Eu estava cheio de novidades para contar, ele não podia simplesmente dormir assim. E após alguns chutes inúteis, mesmo que mais fortes a cada nova tentativa, eu fui obrigado a soltar a bomba de uma vez e quase gritar dentro do quarto que sabia data, hora, local e como entrar no show dos Abomináveis. Aí ele abriu os olhos e se sentou na cama. Inútil.

Da próxima vez vou dizer que o Kai tá trocando de roupa no quarto ao lado, e juro que se ele demorar menos segundos para ter a mesma reação, conto pro Kai que o show de uma banda de rock chama mais a atenção do namorado, do que ele. E vou sorrir enquanto vejo Kai matando ele, é.

Pensando bem era uma boa ideia. Cedo ou tarde ele ia descobrir a personalidade argilosamente mandona de Kai, e seria lindo estar por perto na primeira vez que visse a cara que Yutaka fazia quando não gostava de algo. Mas não era o caso, o caso agora se resumia ao show de nossas vidas e nós falaríamos dele a noite inteirinha.

E era mais um daqueles momentos em que eu sentia como se fossemos irmãos de verdade. Risadas e ideias mirabolantes envolvendo vídeos promocionais, músicas e outras coisas da banda, cortando o silêncio da casa cujo outros moradores dormiam tranquilamente. Emi não tinha falado nada sobre não poder contar para os outros o que estava acontecendo, então acho que não tinha problema.

Foi aí que me veio na cabeça: eu preciso contar pro Reita.

Ele vai pirar, vai enlouquecer e vai ser muito engraçado de ver isso acontecer. Cheguei a pegar o telefone para mandar uma mensagem para ele, mas já passava das quatro horas da manhã. Nossa, a noite logo estava acabando e realmente não tinha dormido nada, e nem ligava, não sentia sono.

Ignorando a ideia de mandar algo para Reita esta hora, apenas larguei o telefone e falei para Miyavi que a manhã seguinte na escola seria uma loucura. Até porque não era só Reita que ia pirar, Kai e Uruha também. E mesmo sendo um saco, acho que Aoi também vai demonstrar algum ataque fantástico pela novidade.

E foi encenando os possíveis ataques de nossos amigos que passamos as horas que faltavam até o momento certo de colocar o uniforme, esperar Kai e Uruha e ir para a escola. Ri quando Miyavi me lembrou da forma como ele e Kai discordaram na última vez que Abomináveis foi a pauta de discussão no grupo.

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Eu não vi direito a aula passar. Depois de tomar café e ir até a escola só falando sobre o show dos Abomináveis, nós três já estávamos conseguindo manter o silêncio durante o horário de aula. Claro que depois de dois pedidos de silêncio e algumas olhadas mau humoradas da professora de história, mas enfim.

Da minha parte, após o surto inicial passar, só tinha ideias sobre as coisas que minha mãe me contou sobre o lugar. Eu nunca tinha estado na casa de shows, mas estava me baseando no desenho que Emi tinha me pedido, e já estava desenhando outras coisas. Dentre elas, camarotes, uma sala de reuniões e a sala da diretoria da casa.

Levei um susto na verdade quando Kai me pediu para fazer uma calça para ele, pensei que Uruha me pediria isso. Mas Kai tinha os motivos dele para mostrar mais da vaidade que ele tinha vergonha de demonstrar.

Mas o susto não foi por ele ter me pedido algo, e sim porque não vi Uruha ao lado dele. Olhei para todos os lados e aparentemente todos estavam sentados em dupla, com livros e cadernos abertos e o bloco timbrado da escola de lado, era óbvio que a professora tinha passado algum trabalho em dupla sobre a matéria. Kai também estava com livro de história aberto, e podia ver sobre ele uma folha xerocada com uma sequencia de questões, e ao lado, o bloco timbrado de Kai já com as quatro primeiras questões respondidas.

– Quanto tempo... – Comecei, mas desisti de perguntar ao ver ele sorrir enquanto virava uma ou duas páginas do livro, fazendo a folha com perguntas sumir por breves segundos. Sem perguntar peguei a folha e comecei a pelo menos ler do que se tratava a quarta pergunta, que era a que ele estava respondendo agora.

– Você estava tão feliz aí desenhando, que deu pena de trazer de volta pro mundo real. – Ele disse baixo, marcando algo no livro e copiando a resposta recém-encontrada.

– A cinco eu tenho anotada no caderno. – Respondi ignorando o comentário. – Onde está Uruha? – Perguntei e ele apenas sorriu e olhou simbolicamente por cima de seu ombro esquerdo, indicando algo atrás de nós.

E lá estava Uruha com um grampo de cabelo prendendo a franja de um jeito desajeitado para que a mesma não atrapalhasse, enquanto escrevia no bloco algo que Aoi lhe ditava bem baixinho no ouvido para não quebrar o tom baixo com que todos na sala conversavam. O moreno ás vezes gesticulava com uma caneta marca texto em mãos e coçava a cabeça após apertar o cenho tentando ler o que Uruha escrevia, em sua caligrafia que eu sabia ser horrível.

– Isso vale nota, por acaso? – Perguntei vendo a forma como eles se esforçavam naquilo.

– Trinta por cento da nota da prova. – Kai respondeu terminando de copiar o texto que eu tinha indicado em meu caderno para ele. – Está tudo sobre controle. – Ele disse dando de ombros após minha careta de indignação por ele não ter me dito isso antes.

– Kai.. – Reclamei.

– Sério. Só faz uma roupa bonita para eu ir ao show, é o seu melhor talento relacionado com história. – Ele riu.

– Baka. Qual é a diferença entre a seis e quatro? – Perguntei confuso, pra mim a mesma resposta respondia as duas.

Vi ele rir e me ignorar enquanto voltava uma das duas páginas do livro que ele tinha passado antes, com a caneta marca texto presa entre os dentes. Iríamos naquilo até o sinal para o intervalo, que não tardou para soar. Hoje era a vez do Uruha comprar os lanches, e eu já estava achando que Reita, Aoi e Miyavi deveriam entrar neste esquema também já que passavam todos os intervalos conosco.

Ia me virar para dizer algo do tipo para Uruha e Aoi, mas não os encontrei mais atrás de nós. Olhei para todos os lados em busca deles, aturdido por não ter visto eles passar por mim e Kai. Até que vi eles conversando animadamente já bem adiantados no corredor, engraçado ver a forma como eles sorriam e gesticulavam.

–Desde quando o Aoi e o Uruha estão tão amigos inseparáveis? – Pasmem, a indignação foi do Kai e não minha.

– Ahh era o que o Uru queria, não era? – Dei de ombros. – Até é bom, deixa ele com o Aoi por uns tempos e quem sabe a paixonite dele passe depois de conhecer aquele cara mais de perto.

– Não sei não, o sentimento o do Uruha não me parece uma paixonite pra passar. Só não quero que ele se machuque.

– Ok então hoje a noite vocês dois vão lá em casa e nós dois conversamos com ele. – Disse, pois não queria que ele se machucasse também.

– Não sei se vou poder ir à sua...

– Pode parar Kai – Cortei. – Você ia pra minha casa todo dia depois da aula antes. Vocês estão desde o início do ano tirando com a minha cara por causa do Reita, mas quer saber, eu tô resolvendo os meus problemas e você está regredindo com essa atitude defensiva.

– Ruki olha quanto tempo eu só olho pro Miyavi sem coragem de dizer nada pra ele. Não é como se ele não soubesse o motivo pra eu ir naquele lugar todo dia, eu tenho certeza que dava pra ver na minha cara o jeito que eu babava por ele cada minuto que eu ficava naquele bistrô.

– Porra ele não ficou com você só porque se ligou do motivo pelo qual você ficava olhando ele. – Reclamei, pra alguém que não gosta deste tipo de conversa até que eu ando falando muito sobre namoradinhos.

–E como é que eu vou ter certeza? – Ele me olhou com cara de assustado.

Na verdade, eu começo a achar que essa parte de conselheiro amoroso meu somente estava adormecida por falta de uso. Causado é claro, porque eu não fazia conhecimento deste tipo de sentimento antes. Mas que droga, o Kai era um cara inteligente, não devia precisar de alguém como eu pra lhe abrir os olhos. Fala sério.

– Não lhe soa estranho que Miyavi tenha consciência dos seus insistentes olhares para ele, sem estar olhando para você com a mesma frequência? – Disse, dando de ombros enquanto guardava minhas mãos no bolso frontal do casaco canguru do uniforme, me adiantando na direção em que Reita e Miyavi vinham caminhando e conversando animadamente.

Pulei na direção dos braços abertos de Miyavi, nem ligando para as outras pessoas que passavam por ali. Qual é, ele é meu irmão de coração e abraço ele quando bem entender. Ouvi Reita dizer que tinha visto Aoi indo junto com Uruha para comprar lanche e tinham deixado dinheiro com eles.

Sorrateiramente vi Miyavi tentando achar algum olhar que se cruzasse com Kai e decidi soltá-lo par anunciar que deveríamos arrumar um lugar para esperar Aoi e Uruha. Deixei Miyavi tomar a frente de propósito, porque sabia que ele tentaria alcançar Kai, eu estava andando tão devagar que até Reita ia me ultrapassar, mas segurei seu braço mantendo-o ao meu lado.

Sorri quando ele me olhou estranho, provavelmente por não entender. Em silêncio, indiquei a dupla na frente e olhei para ele novamente, que pareceu entender desta vez. Me aproveitando da situação fiz um sinal de silêncio para o da faixa e rapidamente o puxei de volta para dentro do corredor sem que Miyavi e Kai vissem. Por que sim, eu queria que eles ficassem sozinhos.

Tudo pareceu tão rápido, quando vi estava subindo uma das escadas que levavam ao andar superior, mas somente depois de iniciar a subida do segundo lance de degraus que me permiti rir alto. Eu não sabia bem o motivo, me sentia um grande criminoso por ter fugido dos outros dois, na esperança de que ficar dez minutos sozinhos fosse o que eles precisassem para se resolverem.

Soltei o braço de Reita somente quando chegamos no segundo andar, a construção tinha concreto até mais ou menos um metro e trinta, ou cinquenta de altura e depois era aberto com vista para o pátio principal. Akira se sentou no canteiro sem flores que tinha ali e eu me apoiei na soleira da sacada para procurar os outros dois lá embaixo. Sorri de verdade ao vê-los sentados no nosso lugar habitual de sempre. Com certeza já tinham notado e superado nossa ausência.

– Olha que engraçado, Reita. O Kai não vai ter salvação nas mãos do Miya-chan. – Disse o chamando.

– Engraçado é ver como você manda seu amigo pra boca do coiote. – Ele sorriu ao se levantar e parar do meu lado para assistir.

– Eu não o mandaria para a boca do coiote se ele não estivesse pedindo por umas mordidas. – Disse, mas a forma como ele me olhou depois disso me fez ficar quieto e olhar para o casal lá de baixo mais um pouco.

Mas de um jeito estranho, queria também que ele não perdesse aquele olhar. Aquele jeito, com brilho, com algo a mais. Me escorei com os cotovelos nos tijolos rebocados e pintados, para apoiar melhor o peso do meu próprio corpo, desejando mais do que secretamente um decreto para que ele só pudesse olhar daquele jeito para mim.

Sorri ao tomar consciência deste pensamento. Até alguns dias atrás eu correria e me bateria por medo de saber interpretar aquele sentimento estranho, mas agora ele não era mais tão estranho assim. Olhei de lado para ele ainda sorrindo, havia medo ainda sim, mas eu queria manter aquele olhar, aquele, preso em mim.

– Etto..quase não reconheci você com faixa. – Brinquei, esticando uma de minhas mãos na direção de seu rosto, mas sem o real intuito de tirar o pano lá ou coisa assim.

Ele riu tirando minha mão de perto de si com um tapinha suave. Leve e suave, todos os outros atos dele eram assim, mas sem perder aquele olhar. Aquele olhar era o que mudava tudo, era o que tornava tudo que era brincadeira em algo mais profundo, mas escondido. Reita apanhou minha mão após ter a afastado, unindo-as através dos dedos e enroscando seu braço no meu ao mesmo tempo em que o outro apontava para algo lá em baixo.

– Sua ovelha está levando umas mordidas. – Disse e sem me soltar desviou o olhar para se focar em um ponto específico, sem nos soltar.

Lá embaixo, Kai estava sorrindo de algo que Miyavi dizia em seu ouvido. Como imaginado, discrição não era algo que preocupava Ishihara, o mais alto estava sentado completamente de frente para a lateral do corpo de Kai, uma das pernas estava flexionada atrás das costas do moreninho e um dos seus cotovelos ficava apoiado no joelho, que estava igualmente flexionado para que o rosto do tatuado se apoiasse contra a palma da mão.

A outra perna de Takamasa estava normal tocando o chão, e este detalhe tão normal era o que conferia a explícita cena onde o mais velho estava com as pernas completamente abertas contra o corpo de Yutaka, não que ele parecesse ligar para o pequeno detalhe, ou se importar. A mão livre de Miyavi brincava com a mão de Kai enquanto eles conversavam, de longe era quase como que se o mais novo nem percebesse as intenções daquele toque, pois estava concentrado demais nas palavras que eram soltas tão próximas de seu ouvido para notá-las.

Kai notavelmente focado apenas neles mesmos, enquanto Miyavi ficava observando tudo ao redor. Ele realmente encarava fundo dentro dos olhos de cada garota ou garoto que passava por ali olhando de alguma forma diferente para eles. Kai realmente era uma ovelha, mas o coiote não estava caçando o jantar.

– Ele parece mesmo uma ovelha, não é? – Ri baixo, mas feliz, pois Yutaka não estaria permitindo aquela aproximação se Miyavi não tivesse quebrado os tabus sem sentidos que estavam os impedindo.

– Aoi e Uruha estão chegando também. Uruha está com meu lanche, e Aoi vem trazendo sua refeição, coiote. – Ri, me afastando sentindo minha mão mais quente depois de ter sido segura por ele.

Desci as escadas feliz, porque nem Kai e nem Miyavi ficariam fazendo drama nos meus ouvidos. Esta noite conversaríamos com Uruha para ver que historinha era aquela dele estar todo sorrisinho com Aoi. Pois imaginar uma amizade sincera entre aqueles dois me assusta de verdade, mas não podia impedi-lo. Podia?

– Ei Reita, desde quando Aoi e Uruha estão tão amigos assim? – Perguntei olhando rapidamente para trás.

– Para mim também é novidade. Mas não me parece nenhum absurdo, eles se tornarem amigos faz parte. Anormal é você não perdoar Aoi nunca seja lá o que foi que ele fez com você.

– Diga para Aoi que ele ajudou a moldar minha personalidade. Por causa dele que eu não confio em ninguém de primeira.

– Nem de primeira, nem de segunda e olha...lá pela décima você ainda não confia. – Ele riu. – Ele sabe, por isso que ele se tornou meu amigo.

– Oi? – Virei bruscamente no meio da escada, não tinha entendido nada do que ele disse.

Mas nem entenderia, já no fim da escada resolvi me virar na hora errada. Um grupo de mais ou menos trinta alunos passou gritando, correndo e chutando o corredor, aparentemente chamando por uma menina que fazia parte de outro grupo que estava ali dentro. Se não fossem as mãos de Reita me agarrando e me puxando contra seu próprio corpo pelos ombros, eu teria sido levado pelo grupo que passava por ali como um estouro.

– Cuidado! – Ele disse, mais urgente do que alto, me mantendo contra seu corpo enquanto o tumulto não acabava e o corredor votasse a ser um local seguro.

Droga. Corpo de Reita colado em minhas costas. Bíceps de Reita contra meus braços. Mãos fortes de Reita apertando meus ombros. Coração batendo mais alto que os pés dos alunos que corriam pelo corredor.

Resolvi olhar para cima, para encará-lo. Ele estava olhando de um lado a outro vendo a bagunça a nossa frente, ligado em todos os detalhes em busca de alguma evidencia de perigo. Quando foi que ir para a escola tinha se tornado algo tão perigoso? Depois de alguns segundos ele finalmente olhou para mim, olhou para baixo.

– Coiote. – Disse e estreitei os olhos, a fim de desafiá-lo, ele só sorriu e me apertou mais.

– Fica calminho aí, ovelhinha.

É. Porque quem diz tudo o que quer, ouve também o que não quer. Só que eu não sou uma ovelhinha, querido Reita.

Então voltei a olhar para frente, logo poderíamos andar por ali sem ser atingidos por algum chute ou coisa do tipo. Mas só para mostrar que não era uma ovelha, levei minhas mãos até as mãos dele sobre meus ombros e as movi até que se cruzassem passando pelas laterais de maus pescoço, transformando o ato protetor em um abraço. E segurei as mãos dele unidas em um ponto central sobre meu tórax, porque eu não sou uma ovelha, e ele tinha que saber que estava convidando era uma raposa para o jantar.

– Ah Reita, já te contei as novidades sobre os Abomináveis? – Disse de boa, como se não estivesse o fazendo me abraçar no meio da escola.