Capítulo vinte e cinco: Uruha

Se observassem todas as vezes que Uruha e eu discutimos ou discordamos, certamente ninguém acreditaria que somos tão amigos. Mas era mais forte do que eu, porque Kouyou era um cara legal, o único defeito dele era ser absolutamente alucinado pelo Aoi.

Nós já estávamos caminhando por uns bons vinte minutos praticamente em silêncio. Praticamente porque ninguém falava, mas Miyavi, Kai e eu não conseguíamos parar de rir do bico do Uruha.

O loiro estava andando na nossa frente, pisando com passos fincados, quase em marcha. Na verdade era quase como se ele estivesse descontando no chão o que queria fazer comigo por não ter o deixado ficar pendurado na sombra do Aoi. E como ele esta a nossa frente, não era capaz de ver a forma como Miyavi mantinha uma das mãos em frente da boca brindo e fechando os dedos de forma a imitar um bico de pato, e fazia "quacs" inaudíveis que estão quase fazendo eu e Kai termos um ataque tentando não rir demais.

Até que eu mandei tudo pro espaço quando ele começou a ficar vesgo à medida que os "quacs" ficavam mais exaltados, apesar de ainda mudos. E quando eu surtei de rir, Kai surtou de rir, e aí Miyavi surtou de rir. Então Uruha girou até ficar de frente para nós três, prestes a cuspir marimbondos.

Paramos de rir por uns dez segundos e depois caímos em crise novamente. Miyavi e Kai estavam passando mal demais para perceber a forma como o loiro bufou e revirou os olhos antes de virar para frente novamente e voltar a caminhar com raiva. Respirei ei inspirei algumas vezes a fim de me controlar e limpei algumas lágrimas que já estavam rolando por meu rosto devido ao excesso de riso e andei uns passos mais rápidos para alcançar aquela bicha temperamental.

– Hey babaca, você já teve mais senso de humor. – Disse esticando o braço na direção de seus ombros para abraçá-lo, mas ele se afastou. – Ah qual é Uru, quando você se diverte curtindo com a minha cara eu levo na boa.

– É mesmo? Bom, quando você nos deixou para almoçar com Reita dias atrás ninguém foi lá acabar com a sua felicidade. – Ele retrucou.

– Só porque vocês estavam se divertindo mais zoando com a minha cara pra dizer que o que eu queria mesmo era o corpo nu de Reita. – Retruquei, porque aquele poser ia aprender o mestre da birra e teimosia ali era eu.

– Sabe, Kai está lindo ao lado do Miyavi – Ele disse apontando para trás. – Você só precisa resolver deixar de ser babaca e estralar os dedos para ter o Reita. Mas tem ideia de como se aproximar do Aoi é difícil.

– Não, não é difícil. É só dizer que está louco pra fazer sexo, mas não sabe com quem, ele te paga até um jantar. Eu entendo que você não queira me ouvir, porque o que você sente por ele vai te deixar cego, surdo e mudo para qualquer defeito daquela criatura. E eu vou ter que bater em uma tecla: Não nascemos grudados em ninguém. – Disse tomando a frente dele e o fazendo parar de andar. – E serve de aviso aí – Completei apontando para o casalsinho que agora estava parado ao nosso lado.

– Então tá. Só me conta o que pode ser mais importante do que apoiar seu amigo quando ele está começando a se aproximar do cara que ele gosta?

– Uru.. – Kai começou enroscando seu braço no de Uruha. – Ruki e eu só queremos entender o que está acontecendo, para então conseguir te apoiar da maneira certa.

– É. O Aoi não vai evaporar, e vai continuar morando na mesma rua que nós dois. – Completei.

– Então o Ruki só permite a presença do Aoi por causa do Uru? Que lindo. – Disse Miyavi.

– Cala boca seu inútil. – Disse lhe dando um soco no braço.

– Ah você VAI me contar esta história hoje. – Disse Uruha voltando a caminhar, agora pelo menos estávamos caminhando os quatro lado a lado, e o loiro parecia menos chateado.

– Pode baixa tua bolinha, pato-sama – Disse olhando para frente enquanto dirigia minha mão até a cara dele, imitando um pato.

– Isso é o que a gente vai ver...

– Não enche meu saco, o foco da conversa é você e o que anda passando por sua cabeça oca. Não eu.

– Ah vocês viram o Ruki abusando sexualmente do Reita em plena rua ontem? Foi lindo. – Ele disse alto para os outros dois ouvirem.

– Você viu isso? Como? – Quis saber.

– Ah Ruki quando você ia contar isso pro seu melhor amigo? – Kai reclamou com uma falsa careta de decepção.

– Hey desde quando você é o melhor amigo dele? – Retrucou Miyavi.

– Ué desde sempre! Ninguém mandou você crescer em um internato, aí eu fiquei com o posto de melhor amigo. – Disse Kai fazendo alguma espécie de dança do macho alfa com os ombros, que na verdade só fez todo mundo rir.

Pelo menos até Miyavi passar o braço pela cintura do moreno e levar contra seu corpo com um braço só, erguendo Kai até que os lábios do menos se encaixassem aos seus em um selo rápido. Logo o colocando no chão novamente.

– Maldito internato, atrasou nosso encontro em uns doze anos. – Disse o tatuado em um tom alegre.

– Eu..não sei, acho que devia estar me sentindo usado. – Disse meio confuso, de repente meus dois melhores amigos estavam me trocando um pelo outro.

– Não Ruki, você sempre será o mais amado. Mas é diferente. – Disse Miyavi rindo.

– Você devia estar feliz em ser o elo entre nós, né? – Disse Kai, tão convincente que dava para ver que ele não tinha convencido nem ele mesmo.

– E..etto... – fiquei pensando no que pensar, para saber o que dizer, mas fui cortado pelo Uruha.

– Hey! E aquele papo de ninguém aqui ser grudado? – Ele reclamou.

E ao olhar para entender o motivo da reclamação vi que Kai e Miyavi tinham parado, novamente Kai não estava com os pés no chão, pois o mais alto estava o erguendo pela cintura enquanto o beijava. Senti minhas bochechas queimarem, será que eles lembravam que estavam no meio da rua, tecnicamente na calçada, mas ainda assim, no meio da rua.

Era estranho, da outra vez que tinha visto os dois se beijarem eu estava longe, vendo tudo a uma distância segura. Do celeiro só conseguia ver a cena artisticamente romântica do entardecer. Mas agora eles estavam tão pertos, e me senti engolir em cego ao perceber que estava me sentindo quente na mesma proporção em que achava aquilo estranho.

Não que estivesse me sentindo excitado ao ver meus amigos se beijando, mas era perto demais. Dava para ver a interação de suas línguas conforme o movimento de suas cabeças, aos poucos uma fina camada de saliva estava se acumulando nos contornos de suas bocas. Havia expressões de um prazer calmo e confortavelmente caloroso, o som do beijo de acordo com o movimento de suas mãos.

– Vocês dois ainda se lembram que estão no meio da rua né? – Perguntei, querendo que eles parassem logo.

Por uma fração de segundo me senti temeroso. Se gostasse de experimentar aquilo, que tipo de pessoa eu poderia me tornar?

– É, grudados no meio da rua. – Repetiu Uruha com os olhos cerrados.

Só pude rir, o loiro já estava possesso por ter deixado Aoi para trás. Ver Kai e Miyavi mostrando quanto à vida era doce, estava elevando o nível de infantilidade ele consideravelmente.

– Tem razão. – Disse Miyavi. – Vou levar o Kai ali pro canto pra ver se a gente acha um jeito de desgrudar.

– Ah não Miyavi, hoje e dia de Uruha. Depois que conversarmos com ele, a gente fica junto. – Disse Kai com firmeza, puxando Takamasa de volta para nossa direção.

Era bom ele ver e conhecer logo essa faceta mandona e controladora do seu namorado. Não sei se dá pra os chamar de namorados já. Fato era que ele veria muito como o rostinho fofo tinha uma personalidade do capeta. Engraçado foi ver que até mesmo o Taka, que sempre toma partido das coisas, e tem uma personalidade igualmente forte –doce, mas com certeza forte- simplesmente concordou com a vontade exposta do Kai.

Inegavelmente, era possível perceber este detalhe em todos os eventos em que os dois estavam envolvidos. Miyavi puxa e empurra Kai para onde bem entende sem que o menor reclame, mas basta o moreninho expor uma vontade sua, que Ishihara apenas segue.

Uruha e eu apenas sorrimos um para o outro, tenho certeza que ele teve o mesmo pensamento que eu. Mas por hora o que me importava mais ainda, era ver finalmente um sorriso desenhado no rosto de Kouyou novamente, indicando que ele não estava mais tão brabo conosco o quanto em minutos atrás.

– Eu vou proteger você Kai-chan. – Disse Uruha puxando-o para si e enroscando seus braços enquanto não deixávamos de caminhar.

E ainda embalado pela boa energia daquele sorriso, que agora nós quatro expúnhamos, fiz a mesma coisa com Miyavi.

– Pode deixar que deste aqui eu dou conta. – Disse no processo.

Não foi difícil deixar a cabeça viajar com a birra do casal, recém-unido, recém-separado. Manhas por parte de Miyavi dizendo que antes eu tirava com a cara dele pela incapacidade de falar com Kai, agora estava tirando com a cara dele por querer falar demais com Kai. Uruha interveio deixando claro que todo mundo ali sabia que não era falar que ele queria.

Rimos um bocado da situação de ansiedade de ambos, até é claro, as piadas recaírem sobre mim. E as teorias de Miyavi sobre os artifícios que teria usado para convencer Reita a deixar eles sozinhos na hora do intervalo. Claro que eu sorri e disse que bastou levar ele para o segundo piso e fazer uma aposta sobre qual dos dois ia enfartar primeiro antes de conseguirem conversar.

E logo já estávamos na rua da minha casa. Um sentimento leve e feliz induzia a acreditar que tínhamos feito o percurso rápido demais, os ponteiros do relógio provavam o contrário. Tínhamos levado uns bons quinze minutos a mais no caminho habitual.

– Sabe, ele e o Reita almoçam todos os dias naquele restaurante familiar que tem perto do colégio. Você pode só aparecer também um dia qualquer. – Eu disse assim que ele suspirou ao ver a mansão Shiroyama, que estava em nosso campo de visão.

– Hey, eu podia começar a almoçar com eles. – Disse com um sorriso amplo e um ar sonhador.

E eu fiquei preocupado com esta demonstração. Uruha até parecia enfeitiçado, isso era muito estranho, mesmo ele sendo tão aluado e alheio às realidades terrenas.

Então eu estava ali, descobrindo coisas estranhas sobre mim mesmo, tentando entender todas as coias que Reita me fazia pensar e sentir, que eram até então desconhecidas e até mesmo irrelevantes para mim. Estava caminhando entre meus dois amigos de escola, ambos se declarando apaixonados sem nenhum problema dramático, mas...de formas tão diferentes.

Eu conseguia achar legal o jeito com que Kai falava de Miyavi, apesar de achar que não é preciso estar pendurado na outra pessoa, ou tocando-se o tempo todo. Mas Uruha me assustava, eu sentia, quase de maneira palpável que se Aoi pedisse para ele se vestir de escrevo sexual como condição para ficarem juntos, ele faria. Feliz por se anular, feliz por agradar a outra pessoa sem nem pensar em si próprio, como que se o amor por outra pessoa pudesse anular o amor a si próprio. Isso é mesmo um sentimento bom?

Amor, um sentimento estranho demais para querer classificar. E em minha mente nem iria, pois a voz de Kai se fez presente em tom claro e firme.

– Uru-chan, você não quer sufocar alguém como o Aoi! – Foi a advertência dada por ele, e mesmo não concordando com algum relacionamento entre os dois, concordei com ele.

– Você conhece bem o Aoi. – Miyavi disse, como quem não quer nada, mas falhando miseravelmente ao tentar esconder o bico de birra. Puro ciúme. Só pude rir.

– Pelo menos agora com você por perto talvez o Yuu pare de tentar com o Kai. – Apontou Uruha quase desesperado.

Pera, não é assim. Olhei rápido de Kai para Miyavi e até soltei a mão do eu irmão, isso não é algo que se diz assim Uruha, no começo de uma relação. O que ele tem na cabeça para falar algo assim? Eu que não namoro ninguém, fiquei com ciúme por tabela só de imaginar a situação.

– Ano..Aoi tentou sim – Kai começou soltando a mão do amigo para voltar para lado do..não sei, é tão recente para chamá-los de namorados.

– Ele tenta com todo ser que anda. – Disse por instinto, Miyavi estava há tão pouco tempo aqui, não conhecia exatamente toda a extensão da fama do Aoi.

– Mas não foi porque ele tenta com quase todo mundo que ele não conseguiu. For por dois motivos: Uruha e Miyavi, exatamente nesta ordem. Porque Miyavi ainda era um amor platônico quando isso aconteceu. – Disse o moreno colocando fim em qualquer situação com Uruha. – E você. – Continuou se referendo à Miyavi. – É bom não surtar por eu ter um passado, até porque você também tem um.

E é ao que me refiro. Não se discute com Kai, ponto.

– Porra Uruha! – Disse baixo dando um tapa em seu braço e o fazendo caminhar mais rápido até vencermos totalmente a distância até minha casa.

– Mandei mal? – Perguntou dando uma olhadinha de soslaio para o casal atrás de nós.

– Muito. Idiota! – Xinguei já tirando uma das alças da mochila de um dos ombros, para poder procurar pela chave no interior da mesma.

O resto do caminho foi meio silencioso, mas faltava pouco mesmo para estarmos em casa. E uma vez na mesma apenas largamos as coisas pela sala e corremos para a cozinha a fim de encontrar algo similar a um almoço. Encontramos a mãe de Miyavi no interior da cozinha, ela estava terminando de acomodar o pano de prato molhado bem esticado no encosto de uma cadeira para secar quando entramos.

Meu primeiro pensamento foi: cozinha, mais uma mãe, igual à comida.

Mas isto logo mudou para: mãe do Miyavi, mais Miyavi e Kai juntos, igual à cena Kai roxo de vergonha na quinta potência.

Ela pareceu tão surpresa quanto nós pelo encontro, mas os olhos ligeiros imediatamente recaíram sobre o menino que entrou no local de mãos dadas com seu filho. Imediatamente puxei Uruha pelo braço para me ajudar enquanto eu pegava uma jarra de vidro com água para esquentar no micro, e quatro copos de macarrão instantâneo para almoçarmos. Uruha só me seguiu pegando copos e vasculhando na geladeira qual a melhor opção para bebidas.

Ambos quietinhos porque no coso caso, ajudar nestas situações não era um ponto forte.

Tudo o que ouvi foi ela dizendo coisas sobre um jantar com Miyavi e Kai antes de voltar para Coreia. E um xingamento engraçado sobre Miyavi não ter avisado Kai sobre o jantar, depois disso só ouvi Miyavi dizendo que iria esperar eu e Uruha no meu quarto com Kai, assim que a mãe dele começou a dizer coisas entre gritos animados, envolvendo palavras como: "o sorriso fofo do namoradinho do Taka-chan!"

Muito forte para não rir da desgraça alheia. É, se Miyavi precisa aprender sobre o temperamento de Kai, Yutaka tinha que aprender sobre como Miyavi e Hiroki eram assustadoramente parecidos em personalidade. Mas acho que ela deixou isso bem claro.

– Pode abrindo a matraca Kouyou. – Kai mandou logo após mandar uma porção generosa do macarrão molhado na boca.

– Mas não dá nem pra comer primeiro? – Uruha disse em tom de manha antes de jogar na cama com seu almoço em mãos.

– Não, não dá. Só solta a matraca. – Impliquei sem paciência.

– Não sei por onde começar. – Ele deu de ombros. – Estou indo a festas com Aoi, acho que estamos virando amigos. – Disse apenas.

– Como assim festas? Desde quando? – Perguntei incrédulo, como assim Aoi estava arrastando Uruha para os muquifos que ele chama de festa.

– Existe um comentário sobre as festas que o Aoi frequenta Uru, e não é agradável de reproduzir. – Disse Kai.

– Eu disse isso pra você, idiota. Viu como você nunca me escuta! – Ele me acusou. – Não são mesmo festas agradáveis, mas eu estou conseguindo me aproximar dele, então isso não importa muito. Não vou morrer por aguentar garotas fazendo topless e derramando bebidas alcoólicas umas nas outras para depois se lamber.

– Puta que pariu! – foi tudo o que consegui dizer.

– Não é tão ruim quanto parece. Na primeira vez eu tinha uma pontinha de esperança de que ele estava me convidando para uma festa dessas para quem sabe ficar comigo lá, e sim, fiquei triste quando percebi que ele estava me usando para aumentar a quantidade de garotas ao meu redor. Daí fiquei frustrado acabei "pegando" um cara lá dentro, foi um lindo teatro na verdade, até parecia que eu sabia exatamente o que eu estava fazendo. Eu só queria mostrar pro Aoi que o meu show era bem ao contrário do que ele estava esperando.

– Um show? – Kai perguntou meio receoso.

– É. Sei lá, ele estava em um sofá de couro com quatro meninas com peitos de tamanho fora da realidade humana. – Ele disse, dando ênfase ao tamanho da anatomia feminina com as mãos. – Eu meio que pirei mesmo, fiquei com o garoto com tanta violência que virou um show de mim encoxando um ser no encosto do sofá onde o Aoi estava. No fim eu acabei gostando mesmo, então aproveitei também e tudo virou um belo show prive.

– Espera, então quer dizer que você... – Comecei, mas fui cortado pelo próprio Uruha.

– Eu não transei com ninguém. – Ele disse logo. – Mas o Aoi sim, com as meninas no sofá. Foi grotesco. – Ele disse com uma expressão de asco.

– E ainda assim você quis continuar indo às festas com ele? – Kai perguntou indignado.

– Eu preciso! Preciso me aproximar dele, e também preciso entender como estas festas acontecem. Porque não há meios de alguém da nossa idade se relacionar com tanta gente promiscua assim, nem sei lá, ele sendo filho do pai dele.

– Não passa pela sua cabeça que ele pode ser assim mesmo? Tem gente que tem problemas com relação ao sexo, que não controlam e tem que fazer sexo o tempo todo.

– Quando eu percebi que sentia algo pelo Aoi eu fui pesquisar. O porquê da fama dele, o porquê de você odiar ele, eu vasculhei tudo o que estava ao meu alcance. Até nos documentos da escola eu fucei. A única coisa para a qual eu não consegui alguma resposta, foi o motivo de você odiar tanto ele.

– A gente não vai entrar neste assunto. – O parei logo de cara.

– Depois a gente fala sobre o Ruki. Uruha você podia ter sido expulso por mexer nos arquivos da escola. – Kai ralhou.

– Eu sei, mas valeu a pena já que só entrei na escola este ano. Descobri que ele era um aluno normal, só não era acima da média por causa da matéria de português, mas com boas notas, mãe sempre presente e atenciosa, tudo certo até ano passado. Foi só ano passado que Aoi passou a ser esta pessoa que é hoje, com notas beirando a média, repetiu o ano, a mãe dele nunca mais deu as caras e foi citada como relapsa com relação à situação a uma reunião que fizeram na escola só para falar sobre ele.

– Isso daí é obsessão Uruha. – Miyavi disse baixo, mas de forma clara. – Cuidado.

– Vocês não entendem, não é? Shiroyama Yuu é uma boa pessoa, alguma coisa o fez mudar. Algo fez ele passar a agir como uma pessoa ruim, e eu acho que se eu conseguir descobrir o que foi isso, eu posso fazer ele mudar de novo.

– Eu vou concordar com o Myv, você está obcecado Uruha. – Disse.

– Vocês não me entendem! – Ele gritou. – Não é algo que eu consiga controlar.

– Uruha você vai se machucar se continuar assim, e nós não queremos te ver triste. – Kai disse.

– Vocês estão errados, não gostam do Aoi e formam suas opiniões com base nisso. – Ele retrucou.

– Não somos nós Uruha, é ele mesmo que mostra isso dia a dia. Muito pelo contrário, nós te apoiamos o tempo todo, mas Kai tem razão você vai se machucar.

– Eu vou descobrir o que mudou Aoi, e vou consertar. Ontem eu meio que entendi como as festas se formam, e na festa de ontem eu já consegui manter ele mais focado em um assunto do que em uma garota.

– E o que você vai fazer quando consertar ele e virar o melhor amigo dele? – Questionou Kai com toda sinceridade.

– É uma coisa de cada vez, agora interessa o fazer parar de agir desta forma. Mesmo que em um primeiro momento eu tenha que ir para estas festas e agir como ele, ficando com os caras por diversão.

– Aí você vai ficar igual a ele, sem valor algum. Quando finalmente ver que ele é assim porque quer. – Reclamei.

– Não é. Quando estou na casa dele, ele é todo cuidadoso, não fala nada com alguma profundidade. Mas às vezes, quando eu fico quieto e ele quase se esquece que eu estou lá dá pra ver com clareza que ele tenta de uma forma quase sufocante de esconder alguma coisa. Ontem a gente conversou sobre várias coisas, e da pra perceber quando ele fala coisas verdadeiras e quando só fala coisas por falar.

– Se você continuar saindo e ficando com tudo quanto é gente só pra se aproximar do Aoi, você vai mesmo conseguir ficar como ele. Mas só porque está sendo tão promiscuo quanto as pessoas com quem ele fica. – Kai interveio.

– Espera. Esse Aoi, fica com caras ou com garotas peitudas. – Perguntou Miyavi.

– Ele fica literalmente com todo ser com genoma humano. – Respondi.

– Aoi demonstrou que fica com garotas porque não se apega a elas, é simples para ele descartá-las. Deu pra sentir que ele é muito mais chegado em garotos na verdade, mas não fica com eles por medo de se apegar a algum.

– Olha, tá melhorando, quer dizer que se ele ficar com você, significa que você é fácil de descartar. – Fui obrigado a apontar.

– Eu não sou uma garota, se ele ficar comigo é porque está disposto a correr o risco de se apegar.

– Não importa o que a gente diga, não é? Você o tem no mais alto nível de veneração. Você literalmente só vai entender que ele não é a pessoa que você imagina que é quando quebrar a cara. – Respondeu Kai.

– Sabe, você em sua obsessão fez várias pesquisas e levanta hipóteses. Mas não dá pra considerar nem um pouco o que os seus dois amigos que conhecem esta pessoa desde sempre, tem a dizer? – Perguntei, incapaz de aceitar tudo o que ele tinha dito.

– Talvez. – Ele disse. – Se você me dissesse de verdade o fundo o seu ódio por ele.

Uma lembrança. Eu devia saber que um dia esta lembrança ferraria com o minha felicidade. Se Uruha dissesse para mim que conhecia Reita de algum lugar e que ele não era uma pessoa confiável, eu acreditaria cegamente no meu amigo. Até porque um amigo meu não brota da terra como mato.

– Você só vai aprender quando quebrar a cara. – Porque sim, tem coisas minhas que eu só guardo para mim.

.:.

Kai estava sentado em um banquinho alto que enfeitava o balcão de divisa entre sala de janta e o corredor da cozinha. Seus pés balançavam soltos enquanto ele desenhava números em um longo problema matemático, no caderno dobrado em uma folha só logo em sua frente.

Uruha e Ruki já tinham acalmado seus ânimos e estavam atirados no sofá da sala jogando vídeo game. Não que ele mesmo não gostasse de jogar, mas sempre enjoava cedo demais, e com as brigas constantes de Uruha e Ruki, preferia deixar o console só para eles dois. Miyavi tinha ido tomar um banho, e por isso estava sozinho ali, aproveitando o tempo de forma produtiva.

Dividindo sua atenção habilidosamente dividida entre o dever de matemática e os xingamentos criativos que Ruki e Uruha usavam um contra o outro, rindo enquanto dava sequência às equações. Logo, quase deu um pulo do banquinho ao sentir a presença de Miyavi bem atrás de si, a altura do outro sendo suficiente para abraçá-lo pela cintura mesmo com o detalhe em metal do banco alto entre eles.

– É estranho ainda ver você se aproximando com tanta..intimidade. – Disse sorrindo, virando o lado da borracha do lápis para corrigir um erro que o susto havia o ajudado a cometer.

– É estranho pra mim também. Eu fiquei um bom tempo no início do corredor pensando se podia, ou não chegar aqui te abraçando.

– Pelo visto, decidiu que sim. – Ele sorriu mais uma vez, desta, abandonando o lápis sobro o caderno para poder dar mais atenção ao mais alto.

– Eu...podia? – Takamasa perguntou de um jeito engraçado, fazendo o moreno sorrir de forma ampla, realmente achando a situação de ambos, engraçada.

– É. – Concordou fazendo um movimento com a cabeça junto. – Eu acho que podia.

Aquilo era engraçado para ambos. Gostavam-se há algum tempo sem nunca conversarem, e logo quando se conheceram de verdade acabaram trocando um beijo que quase ficara escondido para sempre no campo longínquo no qual aconteceu. Havia insegurança em se expor um para o outro após o ocorrido, e precisou que Ruki perdesse a paciência com os dois para que se acertassem.

Miyavi nunca admitiria que era imensamente grato à ajuda do amigo. Quase teve vontade de o matar quando percebeu que Ruki e Reita tinham os abandonado sozinhos, mas ainda assim, seria muito grato.

Enquanto ficaram sozinhos na escola foi Kai quem quebrou o gelo e o longo silêncio, contestando o incontestável fato de que Ruki tinha feito aquilo de propósito. Mas fora Miyavi que tomou as redias da situação em seguida, afirmando que se até avoado do Takanori estava percebendo que eles precisavam ficar sozinhos, era porque precisavam mesmo.

Conversaram e decidiram que se conhecer seria uma tarefa mais divertida se fosse feita em conjunto, mas sem toques realmente ousados ou que selassem alguma confirmação. A não ser talvez a forma como o maior apenas entrelaçou seus dedos com os de Kai em meio às conversas sobre o show da banda que tanto amavam, quando o grupo voltou a se reunir na hora do intervalo.

Jamais saberiam Ruki ou Uruha que o pequeno beijo trocado no caminho de casa havia sido o primeiro ato de coragem após tudo isso, diluindo na brincadeira uma vontade contida à força. E jamais saberiam também, embora desconfiassem, que Ishihara ansiava pela hora em que Kai decidisse que seria deles.

Com medo de dar passos maiores do que o permitido pelo moreno, mas com certeza bem menores do que queria. Se conhecer era a regra, e Miyavi queria convencer o amigo do seu irmão que havia um jeito prático e físico de fazer isso, sem é claro, ultrapassar qualquer limite alheio.

– O que você está fazendo? – Ele perguntou olhando sobre o ombro de Kai.

– Esperando você descer do banho e fazer alguma coisa que evite que tenha que ser eu a dizer que você pode chegar me abraçando. – Disse com bom humor, virando seu rosto na direção do rosto do mais alto, na esperança de que a vontade dele fosse igual a sua.

Pois havia uma linguagem que não precisava ser dita com palavras, elas estavam em pequenos gestos e olhares rápidos demais para se acompanhar. Então logo uma das mãos levemente repousadas sobre a cintura de Kai, seguiu para o balcão onde esta uma das mãos do moreno, em uma distração física para a aproximação de seus lábios calmos, uma aproximação suave.

Aqueles lábios já se conheciam, apenas estavam felizes de reencontrarem. Disfarçando bem a ansiedade em poder explorar o gosto e o toque quente da boca alheia, trocando o anseio pelo prazer do toque bem vindo dos movimentos mútuos. Apenas uma amostra para reaquecer a lembrança do primeiro e único beijo anterior a este.

– Por que a gente não sobe? – Sugeriu o maior.

– Já quer me levar para o seu quarto, Ishihara? – Kai brincou.

– Na verdade, quero te levar pro quarto do Ruki. Porque o meu não tem porta e é dividido com minha mãe. – Disse com a mais pura sinceridade, fazendo o outro rir.

– A ordem dos fatores não altera o produto. Não sei se é seguro subir estas escadas com você. – Argumentou.

– Eu juro que, por minha parte, só vamos nos divertir com mais liberdade do que aqui. E se você tentar fazer sexo comigo à força vou te lembrar que Emi é super legal, mas ela não vai reagir bem se formos pegos fazendo isso aqui. Eu e minha mãe somos visita aqui.

Kai mordeu os lábios em indecisão, concordava com o que Miyavi tinha dito, mas duvidava que o mesmo se mantivesse fiel ao próprio comentário caso o "se divertir com mais liberdade" passasse dos limites. Olhou rapidamente para a sala, Uruha e Ruki estavam tão concentrados no jogo que nem tinham os percebido, havia um pé de Ruki no rosto de Uruha tentando desferir algum golpe que atrapalhasse a jogada do outro.

– Se divertir com mais liberdade. – Estatuou, logo se desfazendo de qualquer contato para descer do banco e puxar o maior pela mão até o quarto de Ruki.

– Yeah! – Disse Miyavi se soltando e tirando a própria camiseta no meio do caminho.

– Hey! Tá tirando a roupa por quê? – O outro perguntou assustado.

– Mais liberdade não quer dizer tirar a roupa? – Fez a pergunta retórica.

– Não..Miyavi espera. Isso não faz sentido! Miyavi fecha o botão desta bermuda. – apontou, falhando miseravelmente quando o outro apenas passou por si com a peça aberta, lhe puxando pelo braço no restante do caminho que faltava.

Notas: Um gostinho de Myv Kai só pra abrir o apetite.

Esse capítulo foi do Uruha, por necessidade.

Esta fanfic irá terminar no capítulo 34.

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