Capítulo vinte e seis: Cada coisa em seu devido lugar
Por Kami-chan
Ruki se mantinha praticamente imóvel, olhando para o monitor do computador de forma ininterrupta, tentando vencer o tédio com alguns animes. Após uma avaliação dos fatos, decidiu conhecer aquela lista fornecida por Miyavi, começando por aqueles títulos que Reita tinha afirmado serem bons.
E eram, eram engraçados de uma forma leve e divertida.
Ainda assim, o tédio lhe consumia. Arrependeu-se até a alma por ter indicado para Uruha o restaurante em que Reita e Aoi almoçam juntos todos os dias, pois sabendo disto o loiro foi almoçar no mesmo lugar "por coincidência". Na verdade, arrependia-se da última conversa que teve com Uruha por inteiro, depois do episódio o amigo acabou por se afastar de Takanori.
Ruki sabia que ausência do outro não se dava apenas pela vontade extrema em ficar perto de Aoi. Kouyou não queria passar o tempo com o menor.
Mas ele jamais admitiria que sabia que estava errado, que tinha dito coisas por conveniência para um importante amigo apenas para se livrar de uma situação que lhe desafiava. Ao mesmo tempo, continuava não querendo ver Uruha próximo de Aoi. Com lembranças boas ou ruins, Ruki só queria que seu amigo entendesse que Aoi não era uma pessoa confiável.
Com um suspiro Ruki levou a mão direita ao mouse para mover o cursor na tela e avançar a abertura do episódio recém-iniciado. Já estava quase terminando a primeira temporada do anime, não tinha mais paciência para ela. Uma olhada rápida no relógio da tela lhe denuncia o avanço da metade da tarde, Kai já devia ter entrado em contato.
Ele e Miyavi tinham saído depois da aula para um encontro e Ruki estava curioso e ansioso para receber as mensagens do amigo de infância. Afinal Kai foi literalmente levado por Miyavi, o mais alto tinha o avisado na hora do intervalo da aula que iriam sair juntos dali para "dar uma volta" e após isso o moreno de covinhas passou o restante dos períodos da aula em um quase estado de choque.
Nada que Ruki pudesse lhe dizer, lhe fazia acalmar e isto rendeu muitas risadas em sala de aula. Entre eles, pois Uruha havia mudado sua classe para o lado de Aoi.
O episódio do anime estava quase na metade quando um sinal sonoro do celular chamou sua atenção para uma mensagem recebida, mas diferente do que esperava, o sms era de Reita e não de Kai. O mais velho começou uma conversa sobre a nova e animada diretriz que os negócios de Joe e Emi estavam tomando.
Ruki respondeu se deixando influenciar pela empolgação do outro. Tinha contado par Reita que sua mãe tinha permitido que ele começasse a trabalhar, mas quando disse isso ainda não sabia que sua mãe tinha uma visão de trabalho tão diferente da dele.
O pequeno acreditou que com o consentimento da mãe, começaria a ter horários e tarefas para cumprir. Mas tudo o que Emi fez foi pedir que Ruki pesquisasse e listasse bricks e lojas de decoração antiga para procurar móveis e decorações para o bar que era a entrada da casa de shows, o mesmo lugar que ele mesmo tinha desenhado sem saber para que.
Esta tarefa ele fez em cerca de quarenta minutos, e não era considerado trabalho pelo menor. Internamente, cortejava a ideia de trabalhar, de ter um horário para cumprir. Tinha achado o máximo ver Reita se guiar por planilhas enquanto colocava os artigos recém-chegados na loja em estoque.
Queria fazer algo parecido, algo que se parecesse mais com trabalho. Não tinha conseguido argumentar com a mãe pela manhã, quando ela lhe passou a tarefa, mas iria contestar a visão que Emi tinha sobre trabalho à noite com certeza.
Sem dar muita atenção às falas em língua estrangeira do anime, Ruki ficou trocando mensagens com Reita. Entre um assunto ameno e outro o garoto trazia o grande show para a conversa.
Reita lhe perguntou pelo menos umas seis vezes se Ruki achava que eles teriam algum contato com os caras da banda, ou não. O mais velho queria pelo menos sair com alguns autógrafos de lá, e era notável o alto índice de ansiedade que tomava conta de Akira.
Mas ao esperar por uma resposta do Suzuki, Ruki recebeu a mensagem que estava esperando de Kai. A mãe de Miyavi já havia procurado o mais alto que teve que ir encontrá-la, algo sobre comprar coisas para reformar a casa que era da avó.
Kai deu as coordenadas do shopping em que estava, e Ruki se sentiu desanimado por alguns instantes; ele não estava no mesmo shopping em que Reita trabalhava. Mas logo deixou isso para lá, a frase dita por si mesmo dançava em sua mente para lhe lembrar de que as pessoas não nasciam e nem morriam grudadas. Via Reita todos os dias, não precisava estar perto dele em todos os momentos.
O local não era tão longe de sua casa, mas Ruki preferiu chamar um taxi a caminhar até a parada mais próxima e esperar por um ônibus que passasse por lá. Kai tinha lhe pedido para desenhar uma calça, mas após uma longa conversa ambos os amigos chegaram à conclusão de que seria muito melhor comprar uma roupa nova para o de covinhas.
Isso porque Ruki tinha acreditado que começaria a trabalhar. Pelo menos no caminho ele identificou mais uma loja que não estava em sua lista, e que poderia visitar com a mãe depois para as compras da casa de shows.
Foi engraçado localizar Kai na praça de alimentação do local, sentado em uma cadeira pensativo sem focar seu olhar em lugar nenhum enquanto balançava as pernas sem tocar os pés no chão. O ar de felicidade era notável na aura avoada que lhe cercava.
Nem precisava lhe perguntar como foi o encontro com Miyavi apenas por mirar o sorriso idiopático nos lábios mais inchados que o normal. Mas o faria de propósito, só para ter uma brecha para rir da face rubra e o olhar envergonhado de seu amigo mais antigo.
Achava aquilo tão engraçado. Miyavi e Kai não se conheciam, era apenas um amor visual. Mas bastou um fator de união existir para julgá-los imediatamente como inseparáveis, um casal único e pertencente um ao outro. Não acreditava nem desacreditava em destino, mas o encontro do amigo com seu irmão de criação o fazia querer crer naquele tipo de história de amor escrito nas estrelas.
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Reita se levantou cansado após terminar de fechar a cortina de ferro da loja de Joe. Ainda não eram dez horas, mas pelo movimento àquela hora a loja não seria prejudicada pelos minutos mais cedo que a mesma foi fechada.
Analisou com cuidado um memorando que tinha recebido da administração do shopping e que deveria ser assinada por Joe. Podia tentar contatar o mesmo no dia seguinte, mas nas últimas semanas Joe quase não aparecia na loja, concretizando ideias que dividiu com o próprio Akira na reunião que tivera a sós com o da faixa; Reita era o novo responsável pelo negócio.
Joe havia lhe dado carta branca para resolver problemas e responder em seu nome. Ainda assim, havia questões legais que exigiam assinaturas de Joe. Era esse o caso do documento em suas mãos, e quanto antes Joe o assinasse melhor.
Sem pensar muito o adolescente caminhou até o local ainda cercado por placas de madeira compensada que escondiam o amplo e imponente prédio que havia no terreno ao lado. Forçou uma das placas para abrir um espaço para si, satisfeito por ver luzes acesas indicando que ainda tinha gente trabalhando ali, Joe e Emi com certeza.
A aproximação com o espaço lhe deixava excitado, não tinha como desviar a ideia que dali um tempo assistiria ao show de uma de suas bandas preferidas ali. Que estava fazendo parte desta realização.
Visualizou Joe de longe com os cotovelos apoiados em uma espécie de bancada de bar ainda sem tampo, com o peso do corpo apoiado no que deveria ser um pedaço de palite que estava escorado na parede rebocada. Ele digitava números em uma calculadora e escrevia coisas em uma pequena agenda em sua frente, certamente estudando gastos e orçamentos. Até claro, ver Akira e incentivá-lo a se aproximar com um movimento com a mão.
Uma visão no mínimo nostálgica para o mais novo, que o levou direto para lembranças antigas. De um tempo em que ele visitava a loja de Joe quase todas as semanas, acompanhando lançamentos de álbuns, pesquisando e estudando os instrumentos, mas somente às vezes comprava algo. Até o dia em que o cara da loja se apresentou como Joe e começou a lhe fazer perguntas despretensiosas.
Naquele dia Joe riu de forma larga, confessando sem nenhum constrangimento que não imaginava que Reita fosse da forma como tinha se mostrado durante a conversa. Disse que era engraçado ver que por baixo do coturno e das calças largas, da camiseta de banda transformada em regata a cortes descuidados de tesoura, dos acessórios e principalmente da faixa ou do lenço que sempre lhe escondia o rosto, havia um menino doce, consciente e preocupado com a família diminuta que era resumida na avó e na mãe.
O menino autonominado Reita gostava de música pura e simplesmente, demonstrava isso tão naturalmente que fez Joe ver a si mesmo. Aquele era um menino bom, e Joe não o perderia. Ofereceu-lhe além da amizade o emprego, e o ensinou todas as coisas referentes à loja. Em gratidão, o menino se tornou seu braço direito. E trouxe para o mundo de Joe o garoto que o mais velho praticamente adotara como filho; Aoi.
Reita sorriu, às vezes se sentia com vontade de acreditar em destino. Mas o definia como um cara poderoso com um senso de humor obscuro.
Afinal seu chefe era padrinho do cara por quem ele tinha se apaixonado ao mudar de escola, sendo que a amiga que sempre estava na loja jogando conversa fora, era na verdade a mulher que seria sua sogra. Então seu chefe tinha um carinho fraternal por um cara que havia conhecido naquele ano mesmo, e que tinha se tornado o melhor amigo que a vida tinha lhe presenteado, que era profundamente odiado pelo cara por quem tinha se apaixonado. E eles ainda eram vizinhos e se conheciam a vida toda. Era tanta coincidência que beirava ao bizarro.
Deixou as besteiras de lado mostrou o documento para Joe. Aquilo era pra avisar que o shopping poderia estar com problemas na tubulação de gás, que uma perícia seria feita e que muito provavelmente o local teria que ser isolado por algum período dependendo da extensão da manutenção necessária.
E Reita riu da irritação de Joe pelo anúncio, após o mais velho declarar que isso realmente acontecesse e a loja tivesse que ser fechada, ele e Aoi teriam as férias antecipadas. Emi chegou ali enquanto o amigo assinava o termo de acordo com o aviso e fez alguma piada sobre o humor de Joe, ela tinha uma pasta de plástico em uma das mãos e usou a mão livre para envolver Reita em um meio abraço.
Ele se sentia como uma parte real daquela história, em sua casa muitas vezes se sentia como uma mobilha ou adorno. Algo que fazia parte do ambiente, mas não pertencia. Não culpava a mãe, ela passava tempo demais sendo o melhor que podia na árdua tarefa de ser mãe, pai e filha exemplar ao mesmo tempo. Muito menos culpava sua avó, afinal na ausência constante da mãe, era sempre ela quem estava ao seu lado.
Mas ali era diferente, era uma questão de energias. Via Emi transparecer traços da personalidade marcante de Ruki, e reconheceu imediatamente o amor que havia entre Takanori e Miyavi apenas por conviver dia a dia com Emi e Joe. Todas aquelas pessoas eram profundamente ligadas pela a mesma energia, até mesmo Ruki e Aoi. Por mais que o menor se oponha a isso.
Joe assinou o papel em segundos e o deixou de lado, trocando o ato de devolvê-lo para Akira pelo aviso de que Emi recém havia pedido uma pizza. Logo brincadeiras sobre o fato do da faixa ser o primeiro a entrar ali além deles mesmos começaram a sair da boca da mãe de Ruki. Entre elas é, claro, a ideia de incluir na lista de normas do local o abono da faixa que o mais jovem sempre usava sobre o rosto.
E falsas ameaças de demissão após Emi revelar que tinha presenciado o evento único em que a mesma tinha até fotografado o garoto sem o pano no rosto. E o auxílio diplomático da mesma ao dizer para Joe que o poder de persuasão dele não era tão poderoso quanto o de Takanori. Ambos se divertindo com o constrangimento do mais novo, porque não existe nada mais divertido do que a vergonha dos adolescentes apaixonados.
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Com tantas novidades acontecendo em suas vidas ao mesmo tempo, cada menino se via mais tempo sozinhos consigo mesmos. Com exceção talvez de Miyavi e Kai que passavam as tardes juntos descobrindo mais um sobre o outro.
Em locais públicos por exigência do moreno mais baixo. Na primeira e única tarde em que cedera a vontade de acompanhar o namorado até o quarto de Ruki o tatuado praticamente os desnudara com a desculpa de que estar nu era o significado de liberdade.
Para Kai aquilo não parecia confortável. Cogitava em um momento próximo permitir-se estar nu com Takamasa em um quarto, mas não apenas para ficarem conversando um com o outro. E achava também que esta ideia do tatuado tirava um pouco da graça sobre a sua ideia de ficarem nus juntos no mesmo quarto.
A mãe de Miyavi também o lembrava todos os dias do encontro que ela mesma tinha marcado antes de saber qual era a imagem física daquele que se chamava Yutaka. Isso tornava a ideia de ver ela e Kai no mesmo cômodo um pouco assustadora para Takamasa, ele sabia que Kai não pretendia dividir com a mãe o fato de estar namorando outro garoto, e a forma como Ishihara discutia este assunto com liberdade com sua própria mãe pudesse o assustar.
Ainda estavam se conhecendo afinal. Miyavi sabia que nem todas as famílias eram descomplicadas como a sua.
Mesmo assim, os meninos não abalaram sua rotina de tomar café da manhã juntos antes de irem para a escola. A pedido do filho, Hiroki não fez nenhum interrogatório ou investigação dirigidos a Kai na primeira pessoa, por mais genuinamente curiosa que estivesse sobre aquele garoto de sorrisos fáceis e palavras calmas.
As aulas continuaram tediosas, os intervalos permaneceram sendo o ponto de encontro e piadas diretas entre o grupo de amigos. Os sorrisos de Uruha voltaram a se dirigir a Ruki parcialmente, tornando o afastamento dos dois quase cem por cento esquecido; sendo completamente esquecido pelo grupo de amigos, mas não pela dupla em questão.
Uruha começou a almoçar com Reita e Aoi todos os dias, com a desculpa de que Ruki tinha começado a trabalhar, e Kai e Miyavi estavam insuportavelmente de dar inveja de tão apaixonados. Reita e Aoi riram do comentário sincero do amigo, e o acolheram de bom grado.
Uruha descobriu que se identificava muito mais com Reita, eles gostavam dos mesmos jogos, dos mesmos esportes, das mesmas bandas. Takashima até soube reconhecer no da faixa pontos que Ruki adoraria saber, certamente dividiria isso com o amigo sem ressentimentos sobre a última conversa que ainda bailava teimosamente pela cabeça de Uruha.
Ruki por sua vez, tinha voltado a se fechar. Compartilhava risadas nos intervalos das aulas, mas somente com coisas mundanas ou referentes ao show do Abomináveis.
Finalmente ele havia começado a trabalhar da forma como queria. Emi o buscava todos os dias após as aulas, eles almoçavam e iam direto para a casa de shows. Ele usava este artifício como desculpa pelo afastamento emocional, Kai e Miyavi o conheciam melhor e sabiam que aquilo era a falta de um "me desculpe" direcionado aos ouvidos de Uruha.
Ficou por conta de Miyavi invadir o quarto do irmão após o jantar, desta vez para uma conversa diferente das demais noites. Ele não gostava de colocar Ruki na parede, mas sabia que às vezes isso era preciso.
Sem grandes rodeios, ele não deu brechas para o mais novo se esquivar. Disse em voz imperativa que Ruki iria se desculpar com Uruha. Lembrou-lhe que a culpa sentida era causada pelo fato que Takanori sabia que tinha injusto e falso com um bom amigo.
Lembrou-lhe que era seu mais antigo e fiel amigo, e que ainda assim, se tivesse voltado ao convívio com Ruki após o mesmo já ter se apaixonado por Reita nada que dissesse a respeito desta pessoa o faria lhe mudar de ideia. Podia ter dito que o menino era seu colega na antiga escola, podia ter dito que já havia convivido com aquela pessoa e sofrido. Podia usar qualquer artifício para ajudar no argumento de que aquela pessoa por quem Ruki havia se apaixonado não era a pessoa certa para ele, isso não faria com que seus sentimentos com relação à Reita mudassem. Apenas o machucaria mais.
Afirmou para o pequeno que o mesmo sabia que tinha sido injusto com Uruha em seu argumento. O lugar de um amigo é ao lado e não acima. Não importava a opinião pessoal que ele tinha de Aoi, era algo entre os dois e ninguém mais.
Estava ali o próprio Takanori, em sua própria dificuldade em aceitar e assumir que estava apaixonado por outro garoto, para provar que ninguém escolhia por quem se apaixonar. Se Aoi não fosse mesmo a pessoa certa para Uruha, estava no direito do amigo errar. Era seu dever estar disposto a dar apoio ao amigo caso isso fosse necessário, não oferecer artifícios para um futuro "eu te disse".
Diante a receptividade passiva de Takanori, Miyavi aproveitou para expor que não acreditava que os traumas de Ruki fossem méritos exclusivos de Aoi. Ambos eram apenas crianças, se aquilo era mesmo tão fundamental e importante para Ruki, ele devia se perguntar também sobre quais motivos levariam um amigo trair o outro. Talvez a reaproximação do moreno fosse um sinal para perguntas e respostas fossem trocadas.
Somente após a sugestão Ruki saiu do modo passivo com o qual apenas ouvia Miyavi, pondo fim à conversa e pedindo para que o outro saísse de seu quarto. Não disse nada a respeito, mesmo que tivesse gastado a noite pensando em tudo o que Takamasa tinha dito.
Mais noites e dias passavam por seus olhos sem que nenhuma atitude os levasse ao caminho de alguma mudança. Sem dar o braço a torcer e dizer que estava errado, ele apenas passou a dar mais atenção a Uruha, abandonando a posição de cima para andar ao lado de seu amigo. Não instigava o amigo a falar de Aoi, mas também se policiou para não apenas criticar o moreno em sua frente.
De longe, Miyavi podia afirmar que tinha sido ouvido pelo amigo. Isso lhe deixava feliz. O que dizia respeito a ligação direta entre Aoi e Ruki, nada mudou. O menor apenas se policiava quando Uruha estava por perto, perceber isto fez o tatuado dividir com Kai a conversa que teve com o amigo especial que tinham em comum.
Entre as brincadeiras juvenis, o pequeno percebia que Aoi e Uruha estavam a cada dia mais próximos e a cada brincadeira mais íntimos. Isso mantinha seus olhos sobre a dupla sempre que possível, nada tirava de sua cabeça que aquilo era apenas uma bomba relógio sem tempo definido para explodir.
Durante o trabalho era onde sua mente acalmava e se permitia divagar somente em coisas boas. A casa de shows estava ficando ótima, estava adorando trabalhar lado a lado com um empreiteiro. Talvez incluísse ideias sobre engenharia e construções na lista de cursos para cursar na faculdade.
Reita vivia procurando e encontrando motivos para escapar da loja e ir ali. Sempre se dirigindo a si antes dos demais, mesmo que fosse apenas para dizer que estava ali para falar com Joe. Chegando ao ponto de muitas vezes lhe perguntar onde o mesmo estava, sendo que Joe estava quase ao lado deles.
Ruki também se quer desconfiava que o motivo de Joe estar sempre pedindo para que ele fosse até a loja pedir coisas sem sentido para Reita era o mesmo motivo pelo qual vivia chamando o loiro até ali: pura e simplesmente para que o jovem e prematuro casal pudesse conversar por alguns minutos.
Para Joe era engraçada como apenas os dois meninos não percebiam a forma como simplesmente ignoravam todo o resto em volta quando começavam a conversar. Sem nenhum assunto em específico, bastava um entrar no campo de visão do outro.
Em um domingo próximo, Ruki e Uruha estavam jogando vídeo game juntos na casa do menor. Kai e Miyavi estavam ajudando a mãe de Miyavi em alguma mudança na casa que era da avó de Myv.
Um em cada lada do sofá, Uruha rindo e Ruki com uma careta de irritação. O pé do menor no peito do maior tentando atrapalhar o movimento deste sobre os botões do controle em mãos. O pé do maior tentando por implicação colocar seu dedão na boca do menor, ou apenas tentando cutucar seu nariz com o mesmo, sabendo que o mesmo ficaria enojado com qualquer uma das ações conseguidas.
Toda vez que Ruki abria a boca para protestar, Uruha tentava colocar o dedão de seu pé encostado na boca no menor. Nunca conseguindo por conta das crises de riso que não conseguia controlar.
Todo desconforto passado esquecido entre as falas em linguagem coloquial na troca de apelidos e elogios vulgares. Ruki jogou o controle em Uruha, logo desistindo do jogo para malfadar Uruha com seu humor ácido.
O garoto mais alto estava com os lábios quase roxos pela falta de ar causada por risadas. O vocabulário de Ruki era amplo e engraçado até mesmo quando o humor avesso do pequeno recaía sobre si.
Porém o telefone de Uruha tocou pondo fim na brincadeira. Após duas ou três palavras, que não iam muito além de: "Oi" "Aham" e "tá". Uruha se levantou já se despedindo e saiu dizendo que ia encontrar com Aoi, deixando Ruki para trás apenas com aquelas palavras incompletas.
– Socorro! Furação Takashima! – Disse Kai com humor sem nem ser visto pelo loiro ao passar pelo mesmo na área de entrada da casa de Ruki.
– Ihh tempestade Takanori ao norte. – Completou Miyavi chamando a atenção de Kai para o amigo emburrado estacado dentro da sala com a porta aberta.
– Console de vídeo game ligado normalmente indica o epicentro da atividade. – Kai adicionou ainda com humor.
– Há duas coisas nesta vida em que pessoas não devem se meter – Começou Miyavi. – Briga de marido e mulher e briga de Ruki e Uruha por games. – Pontuou, só então percebendo que Ruki não havia entrado na brincadeira. – Ruu-chan?
Ruki franziu o cenho, o falatório entre os dois estava o irritando ainda mais. Ele estava se esforçando ao limite para apoiar Uruha como Miyavi tinha dito, e como retribuição recebia aquilo: Uruha correndo de si por causa de um telefonema de Aoi.
– Onde fica a amizade quando Uruha te abandona só porque Aoi chamou? Ele foi como um cachorrinho adestrado, abanando ao rabo de felicidade. – Disse com real irritação.
– Opa... – Kai reclamou baixinho, desenroscando seu braço do pescoço de Miyavi subitamente.
– Nem tente começar a defender! – Takanori advertiu apontando para o casal, sem acusar algum deles em especial.
Sem esperar por mais nada a ser dito Ruki sacou seu telefone celular e saiu porta afora. Sem dar ouvidos aos chamados da dupla que ao ficar para trás, lhe perguntava incansavelmente onde ele estava indo e o que estava fazendo. Sem dar bola para eles, Ruki se concentrou no som dos toques do telefone; antes do final do terceiro toque foi atendido.
– Oi Reita, me passa o teu endereço. – Disse em alto e bom som para que o casal assustado ouvisse e parasse de lhe fazer perguntas enquanto ele respondia a pergunta feita por Akira do outro lado da linha. – Porque Kai e Miyavi estão grudados, Uruha e Aoi estão grudados e eu vou pra tua casa jogar vídeo game. Objeções? – Tempo. – Ótimo. Chego aí em uns quarenta minutos.
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Ruki
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Um prédio pequeno de dois andares que deveria abrigar de quatro a seis apartamentos, de alvenaria recém-pintada com cor de creme e sacadas, portas e janelas avelã. Uma calma e simples residência de subúrbio. Tentei usar o número que ele me deu como base para adivinhar qual daquelas sacadas com plantas sem flores seria a dele.
Era idiota demais estar com vergonha de tocar o interfone? Ele bem que podia estar ali embaixo me esperando.
Ou poderia ligar para ele e pedir para ele descer, era tudo tão calmo e silencioso que parecia impossível tocar o pequeno botão retangular para romper aquele silêncio absoluto. Sabendo que o som agudo talvez fosse escutado pelo prédio inteiro, aguçando a curiosidade dos vizinhos para minha rica figura parada no portão. Pior ainda seria tocar o interfone e ser atendido pela mãe ou avó de Reita, talvez não devesse ter vindo aqui.
Senti o telefone vibrar no bolso da calça. Bem que podia ser minha mãe solicitando minha presença por qualquer motivo familiar, mas não.
– Oi... – Disse ao atender.
– Oi, 'tô ligando pra saber se está tudo bem. Tua casa não é tão longe assim. – Ele comentou mis em tom de dúvida do que de preocupação.
– Ah eu to aqui embaixo já, eu..esqueci o número desculpe. Estava mesmo te ligando.
– Que? – Ele disse em uma voz estranha.
Olhei para os pares de sacadas por pressentimento, ver sua cabeleira em moicano espetado surgir por trás de uma das cortinas não foi nenhuma surpresa. Acenei com a mão livre, agora não tinha mais como dar meia volta e sair dali.
– Sobe, eu já to indo aí te encontrar. – Ele disse. Não respondi, apenas empurrei o portão ao ouvir o sinal sonoro da trava.
– Pronto pra sofrer? – Foi o que eu disse assim que o encontrei no hall de entrada, mostrando-lhe a caixinha com o jogo que tinha trazido comigo.
– Ih..Sei não hem, eu sou bom nesse jogo aí. – Disse sorrindo.
– Você que acha! – Brinquei o acompanhando na direção das escadas largas de marmorite.
– Vou deixar você ganhar as duas primeiras vezes só porque veio. Achei de verdade que iria desistir na metade do caminho.
– E por que eu iria? – Brinquei. Curioso por ouvir ele me contar como sabia disso.
Poderia dizer muitas vezes durante o dia que Reita sabia ler mentes, mas acredito que isto seja pouco provável. Eu que sou previsível mesmo.
– Porque é nisso que você está pensando! – Ele acusou.
– Ahn? – Fiquei parado no mesmo lugar.
Confesso que pensei em formular uma frase mental para ver se ele ia confirmar minhas suspeitas por seus dons telepáticos. Mas ele se antecipou.
Deu dois passos na minha direção, apertou seus dedos contra os meus ombros e aproximou seu nariz – que agora eu sabia que ele tinha um – do meu, me encarando com extrema seriedade: Ruki eu preciso te contar uma coisa, eu posso ler mentes!
Disse com voz de Lord Darth Vader. Mas neste caso ele deveria ter dito que era meu pai. Esquece, deu pra entender a piada. Bati com a caixa do jogo na cabeça dele. Foi com força talvez agora ele ganhe poderes paranormais de verdade.
Ainda estávamos rindo quando ele me soltou e voltamos a subir os degraus de forma rápida. Eu ainda queria saber o que tornava tão obvio meu desejo de ter voltado para casa, algo é claro, além de romper o silêncio em uma vizinhança pacata.
– Achei que você não ia suportar conhecer a família Suzuki. Interação social demais pra tua cabeça. – Ele disse.
Girei meu corpo em cento e oitenta graus no mesmo lugar e comecei a descer os degraus na mesma velocidade com que subia, com movimentos forçadamente mecânicos. Não deu pra descer nem cinco degraus, os dedos dele estavam retorcidos contra minha camiseta, não pude deixar de sorrir.
– Ah não vai fugir! – Disse alto, não tinha muito força nos gestos uma vez que ele mais ria do que falava.
– Hm como é forte e bruto este Suzuki. – Brinquei, colocando minha mão sobre a dele para servir de apoio para me virar e voltar a subir os degraus. – Reita..eu sou o galã das mães e vovós doces e educadas, por favor.
Dei de ombros, crendo que minha experiência com mãe e avó do Kai me dessem tudo o que eu precisava. Eu era mega bem educado na casa dos meus amigos. Mas isso só fez ele rir ainda mais, se adiantando para a abrir a porta pesada com reforço contra chamas para que eu passasse.
– Doce e educada, descrição completa da vovó Suzuki. – Ele usou um tom irônico.
A ironia em sua voz me assustou um pouco, talvez eu estivesse certo em não querer atrapalhar famílias em um domingo. Tentei não demonstrar isso enquanto seguia pelo corredor até a porta com o número que ele tinha dito, e que me lembrava muito bem apesar de assumir o contrario.
Talvez ele apenas no apresente e informe que estaremos no quarto dele. Quer dizer, pelo menos eu lembro remotamente dele dizendo que o console ficava no quarto. Mas e se ficássemos na sala sob a avaliação constante de sua família, eu não gostava desta ideia. Estava quase convidando ele para dar uma volta e esquecer a história do jogo quando ele abriu a porta que estava tranquilamente destrancada.
O chão trabalhado em vinílico brilhoso foi a primeira coisa que chamou minha atenção. Era bonito e acolhedor, a mesa de janta logo à esquerda da porta de entrada parecia apenas flutuar acima da superfície espelhada do chão. Um lustre bonito pendia sobre a mesa e mais a frente no mesmo ambiente, três sofás e duas poltronas cercavam o rach baixo que era suporte para TV.
Separando os dois ambientes na mesma peça havia uma passagem simbólica, que levava à esquerda para a cozinha, e para a direita dava acesso ao corredor dos demais cômodos impossíveis de serem vistos dali. Duas ou três telas de pintura a óleo davam um ar extremamente familiar àquela área comum.
Antes que pudesse apreciar mais os detalhes do ambiente que Reita chamava de lar, o som de descarga pode ser ouvido através do que parecia ser o banheiro atrás da parede à sua direita. Então uma contagem regressiva que não era contada por números e sim por sons: Água corrente, ausência de som, trinque da porta e então havia uma senhora aparentando seus mais de setenta anos surgindo no portal do corredor.
Cabelos curtos e grises, coluna ainda ereta e peito aberto. Vestindo pantufas, legging e uma blusa folgada de malha azul claro. As lentes dos óculos de hastes finas demoravam para serem identificadas no rosto de pele alva com algumas rugas, mas sem manchas.
Ela era bonita. Certamente um dia já fora uma linda mulher.
– Você trazer amigos para casa é raro. – Ela disse com surpresa. – Mas fico feliz. Quem é este? – Perguntou.
A idade sendo expressa através da voz da voz gasta, a imponência presente na forma como as palavras eram pronunciavam. Aquela sem dúvida era um mulher forte.
– Obaa-san este é Takanori, meu amigo da escola. – Disse Reita e eu o acompanhei em uma mensura tradicional seguida da apresentação com meu nome completo.
– Ah tá, é o seu namorado. Sou Suzuki Hanabi, avó de Akira – Ela disse se mostrando um pouco mais curiosa com relação à minha aparência.
– O..oe? – Não pude me reprimir em demonstrar assombro. Não por ela ser avó do Reita, isso era óbvio.
Aquele tom de tédio no "Ah tá" dela, como se nós conhecêssemos há anos. E Akira só por rir do meu lado, como se a velha tivesse contado a piada do ano. Eu não entendi, mas olhei para o Reita com uma mensagem clara para que ele resolvesse de me esclarecer a situação de uma vez.
– Vó, por favor – Iniciou. – É a primeira vez que o Taka vem aqui, não corra com ele. Ele não é meu namorado.
– Sua mãe já foi pro trabalho, não tem problema dizer que ele é seu namorado. – Ela fez um gesto de cumplicidade com a mão. – Vou baixar a frequência do aparelho de audição, então não se preocupem com o barulho da cama batendo na parede. Mas controlem os gemidos, eu posso ouvir gemidos e não preciso de ninguém me lembrando que nunca mais vou fazer sexo.
– Vó – Ele chamou em um pedido desesperado.
Reita tinha as duas mãos no rosto como se estivesse com vergonha, mas estava a beira de um ataque de risos. Eu estava chocado demais para expressar qualquer tipo de reação.
– Vó é sério! Ele não é meu namorado, e nós só vamos jogar vídeo game. – Tentou mais uma vez.
– É! – Consegui concordar no meio do conflito de informações, erguendo a caixinha em minhas mãos com se aquilo fosse uma prova incontestável da verdade por trás da minha ida até sua residência.
– O que? Ainda não estão namorando? Bom então vou deixar o Listerine em cima da pia do banheiro. Na época da tua mãe era Cepacol, só ela achava que eu não percebia que ela só usava aquilo quando seu pai aparecia em casa. – Ela disse como se estivesse lembrando-se de algo muito engraçado.
– Vó... – ele pareceu pensar antes de prosseguir. – Nós ficaríamos muito felizes se você fizesse um bolo com cobertura de brigadeiro. A senhora se incomodaria?
– Bolo? Tá. – Ela assumiu um sorriso doce e passou por nossa frente para se encaminhar até a porta da cozinha.
Na medida em que ela foi liberando o espaço da passagem do corredor, Reita indicou a primeira porta no mesmo. A parede fazendo divisa com a sala. Mas antes que pudéssemos adentrar o mesmo a voz anciã se fez ouvir novamente:
– Mas eu tenho certeza que Takanori é o nome que você...
– Ruki entra logo neste quarto! – Ele disse a frase como se fosse uma palavra só.
Akira me empurrou para dentro de seu quarto, batendo a porta antes que eu pudesse ouvir tudo o que Hanabi ia dizer. Olhei para ele sem saber muito bem o que expressar, após os segundos em silêncio em que ficamos nos olhando com alguma aflição nos olhos, comecei a rir descontroladamente da forma como Suzuki estava segurando a porta atrás de si.
Era como se a avó dele fosse se transformar no Predador e invadir o lugar. Mas ela não ia fazer isso, ia? Contagiado por minha risada, ele também se deixou relaxar e cair em uma crise séria de risos.
Neste tempo, sentei sobre o colchão de sua cama e admirei o quarto pequeno. Tudo ali era muito simples, mas bem organizado e harmonioso.
Poucos móveis, apenas uma cama de casal, um guarda roupa de solteiro e um suporte com rodinhas para TV com espaço para aparelho de DVD e o console de vídeo game. O chão era vinílico também, mas com um padrão diferente. E a janela era de persiana.
– Ela gostou de você. – Ele disse assim que conseguiu parar de rir. – É. Ela gostou. – Repetiu mais baixo depois, quase que para si mesmo, e depois enquanto se adiantava na minha direção para pegar o jogo. – Fecha a persiana ali for favor, senão vai dar reflexo na TV. – Ele pediu.
Não tinha muito espaço entre a cama e a parede, eu podia levantar de onde estava sentado e dar a volta pela frente da cama. Mas Reita estava agachado ali colocando o jogo, e não tinha como passar por ali sem ser por cima dele. Então fiz o contrario.
Puxei minhas pernas para cima da cama e "caminhei" de joelhos até o outro lado, pelo menos o suficiente para alcançar a faixa que ficava ao lado da janela. Ouvi o barulho da bandeja do console abrindo, mas não ouvi o som da caixa plástica sendo aberta.
Olhei para trás para ver o que poderia ter dado errado. Encontrei Reita parado no mesmo lugar com a caixa na mão, me olhando atentamente enquanto eu tentava fingir que sabia lidar bem com aquela porcaria. Mas eu puxava de todas as formas e ângulos, sem sucesso em fazer a persiana descer, era ainda mais difícil com meus joelhos afundando no colchão.
A cara do Reita não era de quem planejava me ajudar. Na verdade ele parecia muito confortável ajoelhado no chão com os cotovelos apoiados sobre o colchão, me olhando como se eu fosse um filé acebolado.
– O que é? – Perguntei sem me mover.
– Nada. Só que você fica bem na minha cama. – Disse pretensioso.
Ele disse isto mesmo. Assim como se na verdade tivesse aberto a boca pra dizer "puxa mais pra esquerda, Ruki". Mas não ele disse aquilo mesmo, disse para me fazer perceber que eu estava quase rebolando pra me manter equilibrado de joelhos sobre o colchão.
– O Air Wick que a tua avó usa é de maconha por acaso? Colocou essência de Cannabis no "rechaud"? – Ralhei.
E puxei aquela merda com força também. Funcionou, a cortina de PVC desceu toda de uma vez só. Ele riu e colocou o jogo finalmente.
– Nee Reita já que eu fico bem na tua cama, eu jogo aqui e você senta no chão. – Informei me deitando de barriga, de frente para a TV.
Ele não disse nada, só me entregou um dos controles e se sentou no chão, com as costas escoradas na cama. Só para me vingar daquele "você fica bem em minha cama" me aproveitei desta aproximação para puxar uma das pontas do nó da faixa.
– Você fica bem sem a faixa. – Disse imitando a frase dele. – Mas só quando está só comigo. – Completei.
Reita olhou para a imagem das empresas digitais envolvidas na criação do jogo e início do tutorial, apertou o controle entre os dedos e ignorou o jogo. Jogou a cabeça para trás, até que a mesma encostasse no colchão.
Eu estava de bruços, com os cotovelos apoiados logo ao lado de onde a cabeça dele recostou. Virei minha cabeça para o lado para olhá-lo e a pouca distância entre nós continha uma energia muito forte. Foi estranho, pois pela primeira vez eu acho que percebi que talvez ele quisesse a mesma coisa que eu.
O aumento da vontade fazia a tensão da energia aumentar, chegando ao nível de ser sensível sobre a superfície de minha pele. Uma dose de adrenalina que fazia meu coração bater em ritmo acelerado; forte pela constância.
Não era mais surpresa me sentir assim, isto não me faria chorar como uma criança assustada novamente. Mas também não tinha força para me mover, para ir além. O embrulho estranho no meu estômago não se parecia com enjoo, mas não me deixava confortável para tentar abrir a boca.
– Etto... Naquele dia em que eu dormi na sua casa... – Ele começou com dificuldade. – Você falou algumas coisas sobre...e falou sobre conversar com Emi. – Concluiu de um jeito estranho e parcial.
O que não me impediu de arregalar os olhos pelo assunto que ele trouxe à tona. Incerto sobre o que deveria concluir com as frases incompletas. Eu não era bom nisso e Reita sabia, eu devia bater nele, mas tentei usar humor para fugir. Como sempre.
– O dia em que eu chorei como um bebê e você trocou minhas fraldas? – Disse de forma retórica, rindo.
– Entre outras coisas. – Ele sorriu ao responder, mas não perdeu o foco no assunto. –Você não disse palavra por palavra, mas deu pra entender que não vai permitir-se viver este novo sentimento sem a aprovação de Emi. – Disse extremamente direto.
Me senti culpado. Se a minha vontade era a mesma que a dele, podia ser que eu apenas estava dando corda para que no final ele se enforcasse. Era um risco enfim, mas eu nunca tinha parado para pensar que as coisas que Kai, Uruha e Miyavi diziam pudessem mesmo ser reais; ele podia mesmo estar gostando de mim no mesmo nível em que eu gostava dele.
– Não vou fazer nada que magoe Emi. – Disse, não via como ser mais sincero que isso.
– E a conversa. Vocês já tiveram? – Perguntou baixo, em todo momento era com se ele estivesse pensando em algo a mais, sem movimentar sua cabeça ou desviar o olhar do meu.
– Eu tentei uma vez, mas com essa história dela ter pedido demissão e a construção da casa de shows não está fácil ter uma longa e tensa conversa com ela.
– Já me sinto animado com isso! – Ele sorriu. Aquele sorriso de pateta feliz que eu adoro.
– Hã? – Perguntei sem entender muita coisa. – Não vai dizer que é besteira, como o Kai e Myv tentaram me convencer?
– Não. A Emi é legal e eu acredito completamente na forma como vocês dois se amam e se respeitam. Certificar-se da aprovação dela é uma demonstração importante de respeito e confiança. E você já tentou falar com ela, certo, quer dizer que você está convicto do que quer. – disse como se todo resto dos pensamentos dele fossem óbvios.
Se a minha vontade de beijar ele naquele momento tinha aumentado exponencialmente após a breve declaração: sim.
Se me sentia mais encorajado com conversar com minha mãe depois de ouvi-lo: também.
– Podemos jogar vídeo game? – Ele me perguntou.
– Acho que faz sentido. – Respondi.
