Capítulo vinte e oito: Dias de um passado presente
Por Kami-chan
A cena que tinha presenciado naquele dia mais cedo não saía de sua cabeça. Todas aquelas coisas. Consegui remoer tanto que me perguntei até se por acaso não tivesse feito a proeza de gritar para a escola inteira ouvir sobre a opção sexual de Uruha, se ele teria esta mesma liberdade para se aproximar de Aoi.
Provavelmente era besteira da minha cabeça, mas parecia que o fato que poderia ter sido catastrófico com relação à forma que os demais alunos o veria, serviu para dar mais confiança para ele. Não que isso fosse algo ruim, pois confiança era algo bom. Eu mesmo queria ter mais confiança em mim mesmo em alguns aspectos, mas...
Não para que Aoi agisse daquela forma com Uruha. Não pelas fotos que eles estavam revendo, mas por aquele braço se escorando em objeto e não em amigo.
Não gostava daquelas porcarias de festas que eles iam, mas aquelas fotos em questão até que estavam normais. Quer dizer, divertidas. Apenas dois amigos fazendo palhaçadas em frente um câmera, nada de mais. Nem mesmo aquelas que eles pareciam estar pertos demais. Fisicamente pertos demais.
Uruha queria tanto desvendar, entender e mudar Aoi, mas para mim, Aoi era quem o estava mudando. Eles não chegariam a lugar algum juntos. Mas isso era apenas a minha visão.
Kai e Miyavi agiam e tentavam me fazer tentar entender que era um direito do Uruha fazer exatamente tudo o que estava fazendo, e não era um direito meu, ou nosso se meter. Após muita conversa Miyavi me fez perceber que meu papel como alguém que ama o seu amigo, é respeitar a vontade dele. Mesmo que ele quebre a cara, eu só tinha o direito, ou o dever, de apoiá-lo.
Eu só não queria que ele quebrasse a cara. Nesta parte eu não conseguia entender em que ponto eu estava errado, mas todos me faziam acreditar que estava. E ponto final.
Senti o braço de Miyavi sobre meus ombros e tirei os fones de ouvido. Naquele dia preferi voltar para casa ouvindo música e não conversando com eles. Percebi que Kai já estava abrindo o portão da minha casa, o que indicava que ele iria ficar ali com Miyavi. Uruha estava olhando para os dois sentidos da rua com a clara intenção de atravessar e ir para sua casa.
Nós não tínhamos trocado uma só palavra desde a mensagem que eu mandei para ele e ele ignorou. Bem na verdade ele não parecia nem um pouco disposto a ficar na minha presença e isto estava bem marcado em sua face, que estava entortada em uma imagem de desagrado desde o término da aula.
Eu não sabia se isto era por minha presença ou pela ausência de Aoi. Foi com este pensamento que eu percebi o problema de fato. Eu tinha feito com que Aoi e eu fossemos dois polos opostos e colocado Uruha como a agulha no meio para descobrir qual de nós dois era o seu norte. Inevitavelmente ele teria que se afastar de um para se aproximar do outro.
Talvez fosse aquilo que Miyavi estivesse tentando me fazer perceber. Eu não podia estar naquela posição, não era aquele o lugar de um amigo. Eu mesmo vivia insistindo que o lugar de um amigo era ao lado, observei tanto que Aoi caminha a frente de Uruha que não percebi que eu estava tentando caminhar a cima dele.
Eu não estava caminhando ao seu lado. E perceber isto me fez sentir como que se eu permitisse que Uruha fosse para casa com aquela cara de profundo desagrado seria conceder o fim da amizade. Como se o atravessar da rua fosse um sinal óbvio de onde ficava o norte, antes que eu pudesse desfazer a minha polaridade.
Não sei mais onde estão Miyavi e Kai, se entraram ou estão nos esperando. Sem palavras certas, agarrei o punho de Uruha antes que ele pudesse atravessar a rua. Importante era ele não ir embora.
Puxei seu braço enquanto me encaminhava para minha casa, mas ele puxou o braço de volta me fazendo parar. Soltei seu punho para olhar para a cara zangada dele, ele não ia sair correndo e se esconder. Bom se ele fizesse isso, pelo menos ele morava na frente da minha casa.
– O que foi? – Reclamei de sua ação.
– Eu que pergunto isso Ruki. – Ele reclamou do lado de lá.
Isto não seria fácil. Uruha era muito parecido comigo em vários pontos, isso se aplicava especialmente nos defeitos.
– Não é como se você não soubesse que a gente precisa conversar. – Respondi o que para mim era o óbvio.
– Claro. Porque você na sua concepção decidiu por si mesmo que eu preciso te ouvir. – Ele disse exaltado dando ênfase a todas as palavras que faziam menção à minha pessoa e egocentrismo.
Eu sei dos meus defeitos, tá legal. Mas eu não precisava justificar o fato de não ser capaz de controlar eles o tempo todo. Ninguém era.
– É! É por isso mesmo, porque eu decidi por mim mesmo o que você tem que fazer. Achei que você não acharia ruim já que nos últimos tempos se deixou ser adestr...
– Parem os dois, agora! – Kai rugiu ao surgir no meio de nós dois, pelo visto o casal ainda estava ali. – Ruki não se atreva a terminar a merda que ia falar!
– Desculpa... – Disse baixo, às vezes eu queria ser mais parecido com o Kai...
– Não é pra mim que você tem que pedir desculpa, poia. – ...Ou nem tanto assim.
– Eu estava levando ele pra dentro de casa. – Justifiquei, torcendo que pelo menos Kai entendesse que eu queria mesmo conversar civilizadamente com Kouyou.
– O fato de eu não querer ouvir as coisas que eu já sei que você vai dizer não conta, com certeza. – Ele respondeu.
– Mas... – Comecei sem saber como terminar.
Aquele era o polo no qual eu tinha me colocado. Estava claro agora. Ele já estava acostumado com o fato de que minha opinião era totalmente oposta e intransigente ao desejo pessoal dele.
– Kouyou... – Vi Kai pedir de forma muda, olhando de mim para Uruha.
Minha cara devia estar pavorosa, pois vi Uruha olhar de Kai para mim e bufar. Sem mais nenhuma palavra, acompanhei com os olhos ele caminhar na direção da entrada da minha casa, onde Miyavi nos esperava com um sorriso pequeno e acolhedor. Senti-me imediatamente mais calmo com isso.
Kai foi logo atrás de Uruha, e eu depois de si. Vi Miyavi colocar uma de suas mãos nas costas de Kai e conduzi-lo para dentro de casa sozinho enquanto me esperava.
– Você vai se sentir muito melhor depois que falar, Ruu-chan. – Ele disse quando os outros dois já tinham entrado.
– Duvido muito. – Resmunguei.
– Vai sim! – Repetiu. – Quanto mais você transforma isso em tabu, mais força você dá à lembrança ruim. Kai e eu vamos estar no quarto de cima. – Declarou assumindo a frente, provavelmente para levar Kai.
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Não me lembro do percurso entre a sala de entrada até meu quarto, não me lembro de ver para onde Myv e Kai estavam indo. Passei todo o caminho pensando o que tinha proposto a fazer quando chegasse no meu quarto. Mas não era tão fácil.
Meus cachorros vieram me receber em algum ponto do meio do caminho e brincar com eles parecia ser mais tentador do que ir para meu quarto com Uurha. Qualquer coisa parecia.
A janela aberta, a cama desarrumada, o cesto de roupa suja que ficava próximo à porta do banheiro do meu quarto. De repente me senti com vontade de reorganizar o meu guarda roupa. Será que Uruha não quer trocar a conversa por uma sessão de maquiagem? Preciso pintar minhas unhas descascadas.
Todas estas coisas sem importância se tornaram primordial. Quase como a sensação de que se não as fizesse, cada uma delas elas fossem me engolir. Da mesma forma como tinha certeza absoluta que assim que terminasse de contar tudo o que Kouyou queria saber, crianças maldosas sairiam de dentro de seus bolsos para rirem em coro de mim.
Talvez houvessem crianças prontas para rirem de mim escondidas dentro do meu quarto, só esperando a hora que eu começasse a falar. Aquele não se parecia mais com meu quarto, poderia ao ser mais um lugar seguro. Podia ter escutas ali. Aoi podia ter pedido para Uruha me forçar a falar para que fosse gravado e todos rissem de mim novamente.
Aliás, eu só conheci Uruha este ano. Ele pode nem ser apaixonado por Aoi, mas ter sido mandado por ele para se aproximar de mim. Para que tudo se repetisse.
– Ruki? – Ouvi a voz conhecida daquele que poderia ser um desconhecido me chamar.
A mão de Uruha estava em meu ombro e a voz dele parecia preocupada. Os olhos também. Isso me trouxe de volta para o mundo real. Devia tentar viajar menos, ir com tanta facilidade para este mundo imaginário poderia ser perigoso.
– Aham. Só me dá um tempinho.
Isso era ridículo. Uruha era meu amigo, não um enviado do mal do Aoi. Meu quarto não tinha escutas e nem continha monstros escondidos nos armários. Não havia nenhuma teoria de conspiração contra mim e porcaria das coisas que Uruha queria saber eram apenas coisas do passado. E já tinha passado da hora de tratá-las como tal.
– Ano... Me desculpe pela mensagem. – Disse em primeiro lugar.
– Não devia me pedir desculpas por algo pelo qual você não se arrepende de verdade. – Ele respondeu.
– Mas eu me arrependo de verdade. – Contra-argumentei.
– Não. Eu estou me permitindo ser levado para o mundo do Aoi, isso faz parte dos meus planos. E eu tenho certeza que mesmo pedindo desculpas você não vai se convencer do fato de que isso é intencional e não Aoi lavando minha cabeça.
– Está certo, eu não vou me convencer. Até porque já estou convencido de que ele é incapaz de mudar. Mas estou arrependido sim de ter mandado a mensagem, a minha opinião sobre o Aoi não deveria interferir em minha opinião sobre você.
– Tá. Dá pra superar sua sinceridade. – Ele disse rindo.
– Hum.. – Disse fazendo movimentos positivos com a cabeça, pois estava satisfeito em vê-lo sorrir pelo menos.
– E... – Ele fez um movimento com uma das mãos indicando que queria que eu continuasse.
– Não é fácil pra mim controlar esse tipo de reação contra o Aoi. É instintivo. Eu tentei desde nossa última discussão evitar falar mal dele pra você, mas nem sempre é fácil.
– Eu percebi. Não entendo todo esse ódio intenso, mas percebi.
– Eu sei que você não entende, eu não expliquei. E mesmo que explique acho que vai continuar sendo difícil para qualquer um entender que não é mania de perseguição, é automático. Ver o Aoi perto de mim, ou de pessoas que eu amo ativa todos os meus mecanismos de defesa.
– Você pode pelo menos tentar ver se eu entendo, ou não? – Ele perguntou se jogando na minha cama.
Eu apenas fiz um movimento afirmativo com a cabeça, pensando a partir de que parte da história deveria começar a contar. Mesmo que ele fosse meu amigo e estivesse ali se dizendo de mente aberta para tentar entender, tudo o que eu conseguia imaginar era nele achando meus medos ridículos e sem sentido.
– Kai e eu entramos juntos nesta escola, pois já íamos na mesma maternal. A mãe dele e a minha ficaram amigas, elas compreendiam que era difícil para mim e Kai nos enturmamos com as demais crianças. Como era difícil para elas nos aceitar. – Disse puxando a cadeira de rodinhas que ficava em frente à minha escrivaninha, me sentando nela de frente para o encosto.
– Por quê? – Ele me perguntou com uma cara estranha, e eu só pude sorrir. Uruha só tinha entrado para escola na idade da alfabetização.
– Porque nós éramos mais do que muito diferentes fisicamente, a maioria das crianças nunca tinham visto crianças com características nipônicas. Nós éramos os estranhos. – Sorri ao lembrar como os "coleguinhas" apenas nos olhavam com curiosidade de longe. – Então no segundo ano da educação infantil, surgiu Aoi. Para as outras crianças ele era um ET ainda mais estranho, pois se quer falava nosso idioma com clareza, para Kai e eu, ele era a cereja do bolo. Ele tinha vindo do Japão, aquele lugar que nossas mães falavam, que a avó de Kai tinha fotos e de onde minha mãe dizia que meu pai era.
– Que fofo, alguma vez na vida você já admirou o Aoi também. – Uruha me interrompeu para pronunciar a frase sem nexo, acompanhada de um sorriso cheio de dentes e sem sentido.
– Se você não quer levar a sério, eu não vejo porque continuar com isso, baka. – Chiei.
– Desculpe Ruki, só prossiga. – Ele disse fazendo novamente o mesmo sinal circular com a mão, para dar ênfase ao seu "prossiga".
– A amizade que Aoi tinha comigo é igual a que Kai e eu temos até hoje. Estávamos sempre juntos dentro e fora da escola, eu passei muitas tardes na casa do Aoi. – Dei uma pausa para ver se ele tinha algo para perguntar até ali.
– Então Aoi não falava português? – Claro que ele tinha.
– Até que falava. Não sei ao certo, ele era bem novo quando veio. Acho que não dominava o idioma natal, mas os ouvidos dele com certeza eram acostumados com aquele idioma e não com este. Sei que ele só foi pra escola depois de ter aulas intensas de Português em casa. Acho que foi uma exigência da escola matricular ele em uma série atrasada para observar se tinha condições dele ser alfabetizado, ou não. – Era engraçado, ele tinha muito sotaque.
– Ele ainda tem um pouco. – Uruha riu.
– Enfim, naquele tempo nossas atividades escolares se resumiam a desenhar e brincar no pátio da escola. Quando Aoi entrou nos deram um mascote; uma tartaruga. Ele tinha que praticar o idioma para poder ir para série de alfabetização, e inventar e contar histórias envolvendo a mascote também virou uma tarefa.
– Não é por nada Ruki, mas você está desviando do assunto. – Ele me interrompeu.
– Se você me interromper mais uma vez... – Alertei apontando para ele de forma a dar um aviso. Eu já não gostava de contar esta história, ele ainda queria me irritar.
– Desculpe! – Ele disse em tom ofendido, jogando as duas mãos espalmadas para trás.
– Um dia a tartaruga fugiu. O sentimento entre as crianças não foi bom, e a escola resolveu não colocar outro animal no lugar. Não imagino o motivo. Em uma manhã ele me chamou às pressas no meio do recreio e me puxou por um corredor que era proibido. Era um corredor de circulação de ar para as salas de aulas os alunos do ensino fundamental, mas que pegava toda a lateral do pátio onde nós brincávamos na hora do receio. Ele era proibido por dois motivos: não devíamos fazer barulho ali para não atrapalhar a aula dentro das salas, e era um corredor verde de puro limo. Tinha limo no chão e nas paredes, que pro nosso tamanho eram enormes.
Parei de falar para respirar um pouco, também precisava deixar as memórias mais vívidas para que fossem compartilhadas. Aproveitei também para me ajeitar melhor na cadeira.
– Aoi saiu correndo me puxando a caminho deste corredor. Eu me lembro de ter parado no meio do caminho e ter dito que ele não podia ir ali, mas ele disse que eu tinha que ir ver aquilo e saiu correndo corredor adentro. E eu fui atrás. Claro que duas crianças correndo por um corredor de sei lá, quinze ou vinte metros lineares de limo puro não ia dar boa coisa. Claro que eu não pensei nisso naquele momento. Tinha cinco anos, limo era uma coisa verde com cheiro molhado, ainda não tinha discernimento para saber que não se deve correr no limo.
Expliquei a parte óbvia de um raciocínio que não tinha na época. A partir deste momento preferi olhar menos nos olhos de Kouyou, eu sabia tudo o que viria em seguida por causa desta pequena infração às normas da escola.
– Milagrosamente nós chegamos até o final do corredor sem cair ou escorregar e no ralo que havia lá no fim sob folhas secas úmidas que tinham voado até ali e ficado presas nas grades do ralo grande, estava a nossa tartaruga. A mascote da turma. Aoi me mostrou aquilo com tanta felicidade, isso é o que eu mais me lembro daquele momento: a felicidade de ter encontrado o mascote. Ele encontrou e quis me chamar.
Pensar na tartaruga de cerca de um palmo de diâmetro de casco me fez sorrir. Eu gostava da mascote, era sempre voluntário para ajudar a limpar o lugar onde ela ficava. Olhei para Uruha para ver ele tinha alguma coisa a perguntar sobre o que fora dito até ali, mas ele não disse nada, então continuei.
– Eu me abaixei para pegar ela, mas Aoi não deixou. Ele tinha certo medo de tocar no animal e ela era meio grande – Disse fazendo um arco com as duas mãos indicando o tamanho aproximado do bichinho. – Ele reclamou tanto por eu querer levar aquilo na mão de volta que eu acabei cedendo e a deixei ali, mas tinha que avisar à professora o quanto antes ou ela poderia fugir de novo. Eu não pensei que estava no lugar mais proibido que havia para nossa turma, não pensei na quantidade de vezes que já tinham informado dos castigos sobre estar naquele lugar, eu só estava feliz por ter a tartaruga de novo. Só que eu não tive a mesma coordenação da ida na volta. Levantei rápido demais e saí correndo o caminho de volta, mas antes de chegar à metada é claro que eu me estabaquei todo no chão. Da forma mais linda que uma criança pode fazer, até a calça do uniforme eu rasguei. As mãos os braços e cotovelos esfolaram todos e eu fiquei puro limo.
– Itai.. – Ele disse baixinho, concentrado na história que ele era contada.
– Doeu e é óbvio que abri o berreiro. Aoi veio atrás e parou onde eu estava, mas só olhou e correu. Talvez ele tenha dito algo sobre ser castigado, porque saberiam que estive no corredor proibido, mas eu estava mais concentrado na dor. Antes que eu pudesse me levantar e sair dali, vi a sombra de uma das tias que cuidavam das crianças na hora do recreio. Tinha duas, uma que era um doce e me amava. E a tia Iara, esta não era um doce e não amava ninguém. Nenhuma criança gostava dela.
A simples menção do fato, me trouxe à memória a imagem dela vestida com uma camiseta desbotada do uniforme da escola e uma bermuda de cotton em rosa chá. O cabelo loiro e armado sempre amarrado em um rabo de cavalo centralizado no topo de sua cabeça redonda.
– Eu lembro direitinho da cara que ela fez quando me viu levantando do chão com uniforme rasgado, todo esfolado e coberto de limo. Ela era baixinha e gordinha, loira com a pele muito clara, e ficou vermelha de raiva de cima abaixo. Ela me puxou pelo braço e me arrastou pelo caminho que cruzava o pátio e voltava para a parte coberta onde ficavam as salas das nossas turmas. O meu braço estava esfolado e ardendo, mas ela não se preocupou em cuidar onde tinha colocado a mão para me puxar. Eu me lembro de reclamar da dor e pedir para ela ir mais devagar, mas ela só resmungou coisas sobre o corredor e sobre a porcaria que eu tinha feito. Xingando alto sobre não dar valor ao alto preço que meus pais tinham pagado pelo uniforme para eu rasgar. Ela nem sabia que eu não tinha pai.
Permiti-me refletir por alguns segundos, sobre como a travessia pareceu longa estando nas mãos dela. Pensei novamente se queria mesmo contar tudo isso. Não. É claro que eu não queria, mas já tinha começado de qualquer forma.
– Por fim, depois de ter chamado atenção de todas as crianças no pátio, nós chegamos na área coberta onde ela reclamou por ter que me dar um banho. Eu não processei bem aquela informação no momento. Só lembro-me de ter pensado que não queria tomar banho, pois minha pele estava ardendo por causa dos esfolões. Ela mandou que eu erguesse os braços para tirar minha roupa e me dar um banho, só aí ei entendi que ela queria me dar um banho ali na entrada do pátio. Eu cruzei meus braços e disse que não. Não tinha mais nenhuma criança brincando, todas estavam olhando para nós. E depois que eu me opus a uma ordem dela todos, exatamente todos, se reuniram em torno de nós. Só aí vi Aoi de novo, ele estava no meio das outras crianças. Curioso como todas as outras.
– Ah espera, ele não foi pego com você? – Uruha me interrompeu.
– Não. Ele saiu correndo do corredor quando eu caí, só consegui enxergar ele ali quando já estávamos na área coberta. Até lembro de olhar desesperado para ele, mas ele me olhava como se não soubesse o motivo de eu estar ali.
– E a tal supervisora queria te dar banho na frente de todos?
– É. Ela gritou que não tinha o dia todo para limpar minha porcaria e ligou a torneira que liberava água pra mangueira e me mandou tirar a roupa mais uma vez. Eu entrei em pânico. Eu já não estava confortável com aquele monte de criança me cercando, o que dirá tirar a roupa na frente de todo mundo. Ainda mais para tomar um banho de água gelada.
– Que mulher louca. – Ele disse baixinho, parecendo falar mais consigo mesmo.
– Mais uma vez eu disse não e me encolhi para ter certeza de que ela não conseguiria tirar minha roupa. Lembro-me de ter reclamado e pedido para não ter que tirar a roupa na frente de todo mundo, usei palavra por palavra do que eu não queria fazer, chorando em pânico com esperança que ela entendesse que não precisava me fazer passar vergonha. Mas ela ficou mais braba e realmente me xingou. Falou alto e grosso de uma forma que me fez regredir para fugir, mas ela me segurou pelo braço e tirou meu uniforme à força. E então, Aoi.
Neste momento vi Uruha se ajeitar melhor na cama. Bastava menção de Aoi para ele ficar ainda mais atento.
– Até então todas as crianças estavam apenas olhando, curiosas. Mas bastou eu estar exposto para que ele começasse a incitar as outras crianças a rirem de mim, apontando uma série de defeitos e piadas com relação co meu corpo e à minha pessoa. Eu ouvi de tudo dele, desde "olhem o pintinho do Takanori" até "Vejam como ele chora como uma menina". Ele não parou, e cada nova frase vinha a onda de risadas das outras crianças todas. Todas elas estavam rindo de mim. Até que não eram mais ondas de risadas, mas gargalhadas contínuas quando as outras crianças perderam a vergonha e começaram a apontar coisas em mim também. Eu pedi mais uma vez para a tia para que me deixasse entrar em uma sala, mas ela não me deixou sair dali. Disse que eles estavam apenas se divertindo, que não podia fazer nada se eu mesmo tinha pedido por aquilo. Eu não entendi como eu tinha pedido por aquilo.
– Ela deixou as outras crianças rirem de você? – Ele perguntou chocado.
– Sim. Ela ficou parada com a mangueira na mão enquanto eu tentava me cobrir de qualquer forma. Olhei nos rostos um a um todos os que riram de mim. Foi assustador, mas só um doeu. Ele não tinha que ter começado aquilo tudo, de todos ali ele era o meu único amigo. Eu só fui naquele lugar para segui-lo.
– Quanto tempo isso durou?
– Não sei. Tempo demais com certeza.
– Como nenhum outro funcionário viu isso?
Dei de ombros ao invés de responder sua pergunta. Para mim era mais algo como: "Como uma funcionária agia desta forma?" "Por que ela permitiu isso?"
– Quando achei que ia parar de respirar por pânico ouvi a voz da outra tia que cuidava dos pátios perguntando o que era que estava acontecendo ali. Eu meio que só me lembro de ouvir a voz dela e logo ela já estava na minha frente. Todas as crianças ficaram mudas e ela me olhou de cima abaixo, parando nos machucados. Ela tirou o casaco e pediu para eu vestir e ir com ela. Então chegamos a um banheiro que eu nem sabia que existia. Ela pegou uma toalha de rosto, molhou, ensaboou e me deu, pedindo que eu me limpasse enquanto ela procurava por algum uniforme para mim na caixa dos achados e perdidos. Ela me encheu de perguntas quando voltou para me vestir. Eu expliquei porque estava naquele corredor. Minha mãe foi chamada na escola, eu voltei pra casa mais cedo naquele dia e não fui no dia seguinte. Na segunda-feira liberaram Aoi para ingressar na turma de alfabetização.
– Ele conseguiu acompanhá-los?
– Provavelmente com aulas complementares.
– E isso ficou assim? Tipo... não tem como tudo ter voltado ao normal assim.
– Aoi passou a estudar em uma parte diferente da escola, não via mais ele. Kai voltou da casa da avó dele depois que Aoi já tinha ido. Eu só segui em frente. Aoi passou a ser apenas um conhecido com o qual não tínhamos contato devido a diferença de turmas, eu nunca dei tanta bola pra ele até você chegar aqui.
– Mas o Kai não perguntou do Aoi?
– Perguntou no dia em que voltou. Eu disse que ele tinha ido pra turma de alfabetização, Kai achou legal e me contou como foi ficar todo aquele tempo na fazenda da avó, a vida seguiu.
– E a mulher que fez isso?
– Foi demitida. As outras crianças não deram bola, como disse, Kai e eu não éramos facilmente aceitos por elas.
– E desde o ocorrido você só ignorou Aoi? Só agora? – Ele continuou tentando organizar os fatos de alguma forma que lhe fizesse sentido.
– Combinou tudo. Ele repetiu de ano, voltou a ser nosso colega de turma e estar no mesmo campo de visão. Eu estou sempre esperando que ele me veja fazendo algo que julgue como ridículo e chame a atenção de todos para isso, para que todos riam de mim novamente. E você vem e diz que ama aquele cara, que acha que tem algo bom para recuperar nele quando tudo o que eu vejo é a versão maior do menino que era meu único amigo em um momento de desespero, e o ternou ainda mais traumático pra mim. E da mesma forma como eu estou sempre esperando que Aoi me ataque eu fico esperando ele decepcionar você. Porque eu não tinha pretensão nenhuma com ele quando éramos crianças. Eu só esperava que ele fosse um bom amigo, você espera demais dele e crê na realização do que espera dele de uma forma que me assusta. Não tem como ser mais sincero com você do que isso.
– Eu acho que consigo entender o teu sentimento. Mas sabe, se você analisar tudo o que me disse vai ver que Aoi foi exatamente o que era: uma criança. A culpa por teu trauma é da funcionária da escola. Claro que Aoi intensificou a experiência. Mas sabe, ele tinha só um ano a mais que você Ruki. Da mesma forma como você riu ao contar que duas crianças não sabem que correr no limo é perigoso, ele podia não ter noção do que estava fazendo psicologicamente com você. A pessoa que devia adverti-lo no momento não o fez, o silêncio da funcionária foi como um incentivo.
– Eu sei que a culpa foi dela, mas...
– Ele nunca tentou falar com vocês dois de novo? Quer dizer, nem com o Kai?
– Não. Da mesma forma como eu enterrei isso de um lado, ele enterrou do outro. Kai não era tão amigo dele como eu era, apenas aceitou que Aoi tinha ido para a série certa e isso nos afastou. Ele voltou a falar com Kai ano passado quando virou o Aoi que você conheceu ao entrar na escola. Eu não sabia exatamente por que ele tinha se aproximado de Kai, e não dei bola por que Kai logo se desvencilhou dele. Só depois de você que o Kai contou que o Aoi meio que perseguiu ele por um tempo, mas levou um belo fora, eu não sabia nem o Kai ficava com o Não no começo do ano. – Ri ao me lembrar das várias coisas que este ano estava mudando na minha vida.
– O engraçado é que a Emi adora o Aoi. Ruki eu já vi ela na loja com ele, ela realmente o adora. Eu não pensei que isso combinaria com a profundidade das coisas que você contou.
– Ela não sabe também. Minha mãe foi chamada na escola e soube da regra que eu quebrei, do tombo que caí, da forma como a funcionária me tratou e fui constrangido na frente das demais crianças que riram de mim. Ela não sabe que a parte das risadas é culpa de uma criança em especial, não só da exposição desnecessária que a funcionária me fez passar.
– Essa mulher não devia cuidar de crianças. Qual é, crianças correm e caem e se machucam o tempo todo, a pessoa tem que saber lidar com isso quando escolhe trabalhar com elas.
– Minha mãe cuidou para que ela não trabalhasse mais com crianças. A mulher foi demitida depois do episódio, minha mãe foi pessoalmente em cada uma das escolas de educação infantil da cidade e apresentou a descrição da justa causa da orientadora que estava "disponível no mercado de trabalho."
– Eu sei que você não vai gostar de ouvir isso, mas acho que o teu ódio pelo Aoi está exagerado. Eu compreendo tudo o que ele representa pra você, ele personifica a péssima experiência que você teve. Mas acho que você tinha que conversar com ele e perguntar por que ele fez aquilo, falar o isso significou pra você e deixar isso no passado. Não é?
– Só que nunca Uru. Já tá no passado, Aoi tá no meu passado e não vai sair dele nem no presente nem no futuro. De forma alguma! Você queria saber o que tinha acontecido entre a gente, agora você sabe. Ponto.
– Mas Ruki ele tinha seis anos, algum motivo ele tinha. Mesmo que pareça idiota e não justificável, na época poderia fazer sentido para uma criança de seis anos poxa.
– Eu não quero Shiroyama Yuu na minha vida. Você também não deveria querer, pois eu posso perder o controle e descontar toda a mágoa de uma forma física e destruir aquela cara que ele ama tanto.
– Ah agora entendi as crianças rindo, você fica uma graça zangado. É só colocar um gorro e um colete verde e vira um dos sete anões. To tentando imaginar você batendo no Aoi, se for igual ao vídeo game as chances dele são muito boas. – Ele riu.
Mas não riu de um jeito como aquelas crianças um dia riram de mim. Riu como meu amigo mentalmente desorientado ria. Parecendo um cavalo engasgado com cara de demente. Eu senti falta disso, senti falta deste Uruha que me diz o que bem entende e me deixa responder as provações à altura. A certeza de que este amigo estava de volta fez sumir todo e qualquer sentimento ruim, enquanto eu tivesse os meus amigos tudo estaria bem.
– Tira os cílios postiços, Barbie. Porque agora eu vou descer o barraco. – Disse puxando uma manta de dentro do roupeiro e a enrolando na minha mão como se fosse uma arma letal muito perigosa e instável e pulei da cadeira na direção dele.
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Pra variar, o telefone de Uruha vibrou e era Aoi. Dois minutos depois eu tinha sido deixado para trás. Isso não era mais algo que surpreendia, ele estava encantado demais. Por isso apenas sorri quando ele se despediu já saindo do quarto.
Sem grandes explicações ou festa além do básico aviso sobre para onde estava indo. Eu não disse nada contraditório, não me opus, não julguei, nem falei mal do dito cujo do Aoi. Mas meu sorriso não foi sincero. Eu continuava não querendo ele perto do moreno e não via Omo isso algum dia poderia mudar.
Mas Miyavi estava certo no final, estava me sentindo muito melhor por dar o que Uruha queria saber. Ele não riu como eu temia que fizesse, e nem julgou. Crianças gargalhando de coisas que me faziam sentir vergonha não saíram de seus bolsos para rir de mim mais uma vez.
Não doeu além do constrangimento. Ele apenas ouviu e absorveu. Não defendeu o seu queridinho, mas soube ouvir tudo de um ponto de vista imparcial. As barreiras que estavam crescendo e afastando ele de mim não existiam mais.
Só que ele não deixaria de sonhar em mudar Aoi. Isso me fez suspirar mais uma vez, se Myv estivesse ali diria que eu fiz o que competia à minha posição de amigo e me lembraria que se Aoi magicamente se tronasse uma pessoa boa para Uruha cabia a mim aceitar isso numa boa e ficar na minha.
A única coisa contra Aoi que eu tinha foi exposta. É claro que ele não desistiria, afinal, aquela uma história que dizia respeito a mim e Aoi em um passado distante em que Uruha não existia ainda. Lembrar Uruha de que ele era um galinha sem sentimentos não era o suficiente uma vez que o loiro acreditava na mudança utópica.
O importante pra mim era que naquele momento eu estava novamente em paz comigo mesmo e com Uruha. E isso era o certo. Percebi que estava prestando mais atenção em Yuu do que em Kouyou, perdendo tempo apenas citando defeitos do outro enquanto devia acolher as qualidades do eu amigo e nada mais.
Resolvi descer para comer algo, depois talvez mandaria alguma mensagem para Reita. Quase não tinha falado com o da faixa, e a forma como percebi que isso me fazia sentir sua falta era de certa forma assustador Mas não era um assustador ruim no final.
Surpreendi-me com o barulho de passos na escada quando estava abrindo a porta, era Kai. Achei que ele não estaria mais ali naquele horário, mas ele estava descendo sozinho do quarto de Miyavi, parecia sério demais.
– Tudo bem? – Perguntei assim que nossos olhares se cruzaram, tudo o que eu não precisava agora era daqueles dois brigados.
– Tudo. O Myv tá no banho eu desci pra ver se você não quer comer alguma coisa, eu to com fome. – Disse com um pouco mais de humor me deixando aliviado, não havia briga.
– Eu estava mesmo descendo. – Disse rindo.
Miyavi com certeza não era o anfitrião mais atencioso e preparado que há. Mas com certeza também estava muito mais concentrado em aproveitar a estadia de Kai ali do que em se alimentar. Sorte que Yutaka era virtualmente da família, tão da família que eu ia pedir pra ele fazer o meu sanduíche.
– Também queria conversar com você. – Disse voltando a ficar sério.
– O que? – Perguntei preocupado.
– Desculpe por nunca ter dado a devida atenção pra essa questão de você e o Aoi.
– Ai o Miyavi te contou... – Disse mais pra mim do que pra ele.
Pronto! Oficialmente minha vergonha seria pública.
– Olha Kai eu não contei porque...
– Eu sei. – Ele disse me cortando. – Acho que te conheço melhor que o Myv, passei mais tempo com você do que ele. – Disse dando de ombros. – Mas me senti culpado por não ter percebido.
– Eu não te contei. Você não tinha como adivinhar.
– É que foi tudo tão circunstancial na época. Aoi tinha sido autorizado a passar para o nível de alfabetização para não ficar sempre uma série atrás de sua idade, foi natural ele se afastar. E também foi confortável, porque eu tinha um pouco de ciúme da amizade que você tinha com ele. – Disse rindo.
– Eu sei. Foi como você disse, as séries nos separaram. Eu preferi ignorar a existência do Aoi por medo de passar vergonha de novo, você não pareceu sentir falta dele também. Até o ano passado ele não era um ponto de destaque e popularidade na escola. O problema foi voltar a estudar com ele.
– Não. O problema foi um amigo seu se apaixonar perdidamente por ele. Se fosse eu você iria surtar igual independente de Aoi ter fama de galinha ou ser nosso colega.
– Provavelmente sim. – Ri com a ideia de imaginar Kai flutuando de amoré por Aoi.
– Ainda assim, você soube enterrar isso muito fundo em você por muito tempo. Não me impressiona a forma como isso ficou intenso. Não guarde mais as coisas para você Ruki, eu podia estar muito mais do seu lado.
– Para de fazer drama! – Impliquei.
– Certo. E você vai começar a deixar o passado no passado.
– É. Eu tento pensar nisso quando penso que Reita por ser tão amigo do Aoi possa ser como ele. – Dei de ombros.
– Agora é você que tem parar de fazer drama. Reita é um cara ê devia ver isso pelo outro lado. – Ele disse, e eu não entendi o que ele quis dizer.
– Hun?
– Reita é um cara legal, se não fosse não seria o cara de confiança do Joe. Acho que você deveria cogitar a ideia de que Aoi também tem qualidades que você escolheu não ver nele. Apesar da putaria, é claro. O Reita não me parece o tipo de cara que se une com alguém que não seja uma boa pessoa. Ele inclusive levou o Aoi pra dentro da loja do Joe.
– Ah pode para Kai, Reita é Reita e Aoi é Aoi! – Bufei. Como assim Aoi é uma boa pessoa, não mesmo.
– Ótimo! Viu como você mesmo conseguiu resolver o impasse "Tenho medo que Reita seja igual ao Aoi.". – Bradou vitorioso.
Maldito.
– Kai troll! – Acusei, ele caiu na gargalhada. – Idiota! Vai fazer meu sanduíche agora.
– Amigo é assim, a gente ajuda o outro e ainda leva. Vou deixar seu queijo cair no chão antes de colocar ele no teu sanduíche, só pra informação.
– Que horror! – Disse um Miyavi de cabelos molhados atrás de nós. – Conseguiu conversar com Uruha? – Ele perguntou se colocando entre Kai e eu.
– Aham. Viu como seu namorado me trata mal. – Fiz birra, mas Kai cortou.
– Espera! Cadê o Uruha?
– Aoi chamou e ele foi abanando o rabo. – Disse.
– Misericórdia. Pelo menos você não tá bufando. – Brincou Miyavi.
