Capítulo trinta: Aoi

Por Kami-chan

Reita levou um pouco de tempo para encontrar Joe no backstage. O encontrou com Emi em um dos pontos sob o palco, tendo uma reunião ao que tudo indicava.

– Ano..Desculpe interromper Joe – Disse para se anunciar no local. – Mas é importante.

– Só um minuto Akira. – Joe disse estendendo a mão para o garoto.

– Não dá pra esperar um minuto Joe, foi o Aoi ele recebeu uma ligação de casa e saiu correndo daqui. – Disse sem se preocupar com educação, sua fala conseguiu atenção total de Joe e Emi.

– O que houve com Shiroyama-san? – Emi se pronunciou primeiro.

– Eu não sei. O Yuu não conseguiu falar, mas o rosto dele não estava bom.

– O estado dela estava bem estabilizado há meses. – Joe completou para si mesmo.

– Esta doença é assim Joe, não dá pra prever quanto tempo cada estágio vai durar. – Emi explicou.

– Emi-san qual é a ordem de estágios que a mãe do Aoi vai ter que passar? – Reita perguntou tentando prever o tamanho da dor de seu amigo.

– Vem tentando se criar um padrão linear de estágios há anos, mas é errado crer que será igual em todos os enfermos. A única certeza é que nenhum deles é bonito, Joe você precisa ir.

– Mas agora? Emi não tem como largar isso aqui pela metade aqui, olha o tamanho do evento pelo qual estamos responsáveis.

– Eu dou conta das nossas responsabilidades. Vou explicar para os meninos como eles podem cobrir a ausência de Reita e Aoi, tenho plena confiança de que eles irão dar o seu melhor. O seu lugar neste momento é dando apoio para aquela criança.

– Você vai me ligar para qualquer necessidade, ok!

– Claro. Mantenha-me informada, por favor. Às vezes os pacientes não resistem à evolução dos estágios. – Ela completou, deixando Reita subitamente com medo de chegar na casa de Aoi e descobrir que as coisas poderiam ser ainda piores.

– Eu vou. E assim que garantir que tudo está sob controle eu volto. – Disse Joe.

– Eu vou para minha sala conversar com os garotos.

– Emi-san Aoi não quer que... – Reita começou, mas foi cortado pela mãe de Ruki.

– Eu sei. Não vou contar nada.

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A placa do carro de Joe era conhecida na residência, e a fiel empregada que a família Shiroyama tinha trazido consigo do Japão não precisou de uma autorização do dono da casa para abrir os portões. Até mesmo ela estava em pé na sala, há uma distância respeitosa do senhor da casa, mas sem conseguir tirar os olhos preocupados e piedosos do menino sentado no terceiro degrau da grande e imponente escada.

Reita invadiu a casa antes mesmo de Joe terminar de trancar o carro, rapidamente localizando Yuu na escada com olhos inchados e olhos vermelhos. Achou que o amigo estaria no quarto da mãe, ver ele ali longe da mesma fez Reita temer o pior.

Ao ver Akira, Aoi tentou suavizar a expressão. Via no amigo o receio dos medos que ele próprio tinha. Queria conseguir expressar para o amigo que sua mãe ainda não havia partido, estava ali apenas enquanto o turbilhão de emoções dentro de si tentava se acalmar. Jamais apareceria desesperado em frente à mãe, pois sabia que ela sofria ao vê-lo sofrer. Na cabeça dele, ela não precisava sofrer ainda mais.

Mesmo que ela não pudesse mais ouvir seu choro. Mesmo que ela não pudesse mais ver sua expressão de tristeza. Nem sentir o cheiro das adoradas malvas que se esforçava para manter frescas ao lado de sua cama. Mesmo que ela jamais sentisse mais nada no coma profundo em que tinha se enfiado, nem que fosse para se orgulhar lindos cabelos que Aoi mantinha bem penteados e enfeitados do jeito que ela gostava de fazer quando conseguia por conta. Não se aproximaria dela enquanto não conseguisse conter qualquer tipo de energia negativa, ou passar para ela nada menor do que amor e ternura.

Era só por isso que ainda estava ali. Era só por isso que ainda não tinha corrido para ficar ao seu lado e talvez não soltar as mãos delicadas até que as mesmas perdessem de vez todo o calor vital.

– Os pulmões dela pararam. – Começou a dizer para Reita. – Eles logo a entubaram, mas ela teve uma parada cardiorrespiratória. A parada foi revertida, mas ela entrou em coma. É provável que não volte mais do mesmo.

– Você não está mais sozinho para enfrentar isso Aoi. – Reita disse se sentando ao lado do amigo.

– Obrigado. Acho que o lado bom disto é que o sofrimento dela acabou, não é. Os médicos dizem que em coma ela não sente mais as dores, então se for assim até o fim não vai ser uma passagem ruim.

– Você pretende ligar para o seu...

– De forma alguma. Ele não ligou nenhuma vez para saber dela durante os dois anos que literalmente nos abandonou. Quer dizer, nos dois anos que ele não mantém nenhum contato conosco e nem aparece aqui, abandonar ele sempre abandonou. Mas antes vinha aqui para manter as aparências.

– Desculpe tê-lo mencionado. – Pediu Reita.

– Yuu! – Joe entrou preocupado na sala.

Aoi repetiu a explicação que tinha dito para Reita, para Joe. O mais velho conversou um pouco com Yuu e logo os dois amigos deram um jeito de convencer Aoi a se levantar e tomar um banho. Joe foi conversar com a equipe médica e se inteirar completamente da situação da mãe de Aoi.

Reita foi até o quarto do amigo e trocou a camiseta que vestia por uma de Aoi, não queria que ele pensasse no evento que não pode acompanhar até o fim. Depois ficou esperando-o no quarto quando Joe disse que a situação ali estava sobre controle por hora, por isso ele voltaria para resolver as coisas na casa de shows junto com Emi. Depois voltaria ali para conversar mais um pouco com Aoi.

Akira acompanhou Aoi quando o mesmo finalmente quis ir ver a mãe, e encarar a realidade do seu coma. Nãoi foi um momento fácil, mas pela primeira vez desde que aquilo tinha começado Aoi não se sentiu só. Reita era um bom amigo, sabia ajudá-lo a carregar aquele fardo. Reita fez a equipe garantir que a situação dela estava estável novamente, e mesmo após terem ouvido que após ela ter sofrido uma parada cardiorrespiratória as primeiras vinte e quatro horas eram incertas, eles se sentiram confiantes quando garantiram que ela estava se saindo muito bem.

Reita sabia que Aoi não iria dormir, pois ele era o tipo que não parava nunca de pensar quando situações assim aconteciam. Mesmo assim convenceu o amigo a ir para o quarto e se deitar com ele na cama. Tentou fazê-lo sorrir ao contar que a fisionomia com a qual o moreno tinha saído da sala tinha deixado até mesmo Ruki preocupado. Mesmo que o menor jamais admitisse aquilo.

Akira contou que tinha conseguido fazer Ruki dizer sim. Aoi tirou com a cara dele dizendo que se Ruki tinha lhe dito sim com tanta facilidade era porque não tinha entendido como que estava concordando. Vê-lo sorrindo no clima mais calmo deixou Reita feliz, por isso continuou garantindo que o pequeno tinha entendido muitíssimo bem e por hora, tinha conseguido pelo menos a façanha de conseguir encostar na boca de Ruki com a sua própria.

Contou seu feito como se fosse a maior das glórias. E Aoi não facilitou, dizendo que tinha sido mesmo um feito muito grande, tão grande que era bom Reita não se empolgar achando que ia conseguir passar disso tão rápido.

– Ele ia sim, ia ficar comigo esta noite. Baka. – Disse tentando mais se convencer do que convencer Aoi.

– Não sei mais se te pesso desculpas por ter interrompido sua noite de glória, ou se te convenço que a noite ter sido interrompida salvou sua glória. Aposto cinquentinha que ele desmaia antes de você conseguir ficar com ele.

– Sabe o que você não consegue ver no Ruki? Ele demora pra se convencer do que quer, mas depois que ele fica decidido a coisa flui. Eu aceito a aposta. Ele não vai desmaiar e nem correr mais.

– Tá todo confiante o Suzuki só porque conseguiu uma bitoquinha do namoradinho. Que fofinho. Por favor, não se aproxime quando conseguir levar este cara pra cama, com um selinho você já está ridículo.

– To começando a ver sentido na implicância do Ruki contigo, seu idiota. – Disse com humor. – E vem cá como assim o Ruki vai desmaiar? Não isso que fez você vir falar comigo em primeiro lugar quando entrei na escola? Impedir que o novato...como foi que você me chamou mesmo?

– Novato com pinta de galanteador. – Ele respondeu sorrindo.

– Impedir que o novato com pinta de galanteador se aproximasse do seu protegidinho e o fizesse chorar... foi só por isso que você veio falar comigo Aoi.

– Claro você estava olhando para ele como se ele fosse um bife suculento. Eu só tinha que deixar claro que de todas as pessoas que você tinha para perseguir, tinha escolhido uma que não podia ser feita de brinquedo. Ele não é meu "protegidinho" seria se você não fosse você.

– Eu achei que tinha dado em cima do teu namorado. Lembro-me de ter pensado: "Merda! Arrumei briga no meu primeiro dia." Foi confuso descobrir que o Ruki te odiava.

– É como eu te disse. Eu devo pra ele, só descobri quando voltamos a estudar juntos o quanto. Devo com anos de juros.

– Seu plano de não deixar as pessoas verem que você é uma pessoa madura e legal é bem executado, ele vai continuar te odiando pro resto da vida.

– Tudo bem por mim. Você vai acabar consertando tudo o que eu estraguei nele. Saiu melhor do que a encomenda o novato galanteador, você é tudo o que o Ruki precisa e o Ruki é tudo o que você deseja.

– Sabe outra coisa que saiu melhor do que a encomenda seu chato de merda? Você ficando com o amigo do Ruki. Que porcaria foi aquela Aoi?

– Eu sei lá. Me empolguei com o show, Kai e Miyavi estavam me deixando com ciúme. Minhas opções no momento eram você, Ruki e Uruha. Acho que não preciso explicar como acabei escolhendo Uruha né.

– E as regras que compõe o seu elaborado plano de nunca se apaixonar por ninguém, onde estavam?

– Uruha não as quebra. – Ele sorriu.

– Tirando o fato de ele ser um garoto muito bonito e espontâneo, um amigo seu que vive invadindo a sua casa e fazendo você ir até nas festas que estava querendo parar de ir. Ah claro e do fato dele quase ter voado atrás de você quando você saiu.

– Você acabou de me dizer que até o Ruki ficou preocupado comigo, eu estava ficando oco o garoto quando o telefone tocou. É fato que ele também ficaria preocupado. Você não conhece o Uruha tão bem quanto eu, é comigo que ele vai pras festas. Kouyou é uma alma suja como eu, ele não vai dar a mínima por uns beijos trocados.

– Faz tempo que eu não vejo você quebrar suas próprias regras idiotas de proteção e ficar com um garoto. É engraçado ver você ficando logo com Uruha, já que antes dele você só quebrou esta regra porque ele te pediu.

– Sexo é sexo Reita, eu evito ficar com garotos porque tendo a querer a companhia deles no pós-sexo. Gosto mais de estar com garotos do que com garotas. Mas não acho que algum risco se de vez em quando trocar uns beijos por aí.

– É humanamente impossível viver sem se apaixonar, eu sei que em algum momento alguém vai te fazer perceber isto. Seria legal se fosse um cara tipo o Takashima, eu não me importaria de dividir você com ele.

– Não vou me apaixonar por ninguém Reita. Meu medo de ser abandonado é muito maior do que qualquer vontade de ser amado. Já disse, Uruha é outra alma suja. Foi só uns beijos, minha única opção pra ser mais direto.

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Quando Reita percebeu que não sairia tão cedo do lado de Aoi mandou uma mensagem para Ruki. Avisando que ficaria ali, achou engraçado que o pequeno enrolou cerca de oito mensagens até não se aguentar e perguntar se estava tudo bem.

Uruha e Kai passaram o resto do final de semana na casa de Emi. Ainda como castigo, Emi fez Miyavi dormir consigo em seu quarto. Segundo ela uma precaução para que não houvessem escapulidas noturnas nem do quarto de Miyavi para o quarto de Ruki, ou do quarto de Ruki para o quarto de Miyavi.

Depois de ignorar bravamente todas as reclamações do afilhado, Emi gastou algum tempo na cama pensando em ter uma conversa séria com a amiga. Sinceramente Emi não achava que Hiroki estava errada, mas também não acreditava que estava cem por cento certa. Em sua cabeça, o fato do filho ser completamente aberto com relação aos sentimentos, vontades e curiosidades era bom.

Miyavi era aberto o bastante para que pudessem permitir que o casal jovem dessem seus próprios passos e orientá-los quando a dúvida surgisse. Eles poderiam errar e se machucar como ela temia, mas isso não era de todo uma coisa ruim, pois não poderia proteger aqueles meninos de tudo pelo resto da vida. A mãe de Aoi estava ali como prova de que uma vida completamente confortável podia desmoronar e acabar de uma hora para outra, eles teriam que saber se virar e aprender a lidar inclusive com dores e perdas.

Seus filhos eram dádivas, abertos para diálogos. Mesmo que cada um com seu próprio tempo, Ruki um pouco mais inseguro. Emi não via um motivo claro pra protegê-los tanto.

Mais do que isso. Sentia que logo isso se quebraria, pois a vontade deles falaria mais alto do que qualquer ordem. Sem falar que ela mesma sabia que proibir era um catalisador afrodisíaco, se aqueles meninos não estivessem acolhidos em casa para fazer aquilo, encontrariam qualquer meio de fazer em outro lugar.

Não queria que seus amados meninos começassem a mentir para si. Não queria perder a confiança neles de verdade, não conseguir crer que estavam indo para onde diziam que estavam indo, ou fazendo o que diziam que estavam fazendo. Afinal para si era mesmo uma dádiva conseguir participar ativamente desde momento de amadurecimento e crescimento. Uma conquista poder ser para aqueles todos meninos o apoio que nunca teve de sua família em nenhum segmento de sua vida.

Pensou tanto que não saberia precisar em que momento pegou no sono. Seu corpo estava exausto e o domingo seria um dia longo com Kai e Uruha passando o dia em sua casa. Principalmente porque queria conversar com Kai à sós em algum momento e tentar fazê-lo entender o quão importante seria ele conversar com a mãe sobre o fato de estar namorando, queria convencê-lo de métodos que o menino poderia usar para contar isto aos poucos se estava com medo.

No dia seguinte os quatro meninos pareciam discos arranhados falando do show o tempo todo. Nenhum assunto conseguia ser iniciado e terminado sem que algo que aconteceu no show fosse inserido na conversa. Fosse ela entre os quatro ou entre Ruki e Reita via mensagens pelo celular.

Uruha queria o tempo todo achar um motivo para ir até a casa de Aoi, e quando algum dos meninos o convencia a não fazer isso, todos ouviam mais uma vez uma descrição completa de como era o beijo de Aoi. E a teoria de Takashima de que agora seria mais fácil se aproximar dele, pois teria mais este artifício. Particularmente nenhum dos meninos aguentava mais ouvir os variados planos de como sugerir à Aoi que continuassem ficando, principalmente porque a cada dez minutos Uruha parecia pensar em um detalhe diferente para incluir ou alterar em seu elaborado plano.

NOTA: Eu achei que esta parte ia ficar mais extensa. Não sei o que foi que eu esqueci ou não desenvolvi. Ficou bem curto, mas como estou postando um monte de coisas para vocês lerem creio que não vai ter prolema.