Capítulo trinta e um: Aprecie a novidade
Por Kami-chan
– Hey Taka acorda seis e meia – A morena sacudiu sua cria que a saudou com um resmungo. – Bom dia Takanori, ta na hora de pular fora dessa cama.
– Bom dia mãe.. – Resmungou o pequeno.
Dormia muito e descansava pouco a pequena jovem mente que não parava de maquinar. Depois do show sua cabeça ficou absolutamente fervendo. Tinha concordado que não daria nenhum passo na direção de Reita sem conversar com Emi, mas tinha aceitado seguir em frente durante o show.
Sabia que só não tinha ficado com Reita naquela noite por causa de Aoi. Mesmo assim o pequeno e breve contato entre seus lábios foi o suficiente para manter os pensamentos de Ruki inquietos pelo final de semana todo. Aquilo não podia se estender mais.
– Mãe?
– Hum.. – Respondeu a morena já saindo do quarto.
– Não ir à aula hoje.
– E o motivo seria... – Ela voltou para dentro do aposento se aproximando da cama.
– Eu queria ficar em casa pensando numas coisas. Tipo, ficar sozinho um pouco. – E de verdade também estava com um pouco de vergonha de ver Reita hoje, queria pensar um pouco mais sobre o que quase aconteceu no sábado.
Emi sentou na cama do filho, era evidente que Takanori estava confuso nos últimos dias. Sabia o motivo e sabia ainda mais que após a noite do show Takanori tinha ficado quase completamente isolado no mundo particular de seus pensamentos. Com certeza havia acontecido alguma coisa entre ele e Reita naquele show. Mas só poderia ajudar se houvesse brecha para isso, afinal Takanori havia chegado a um ponto de seu caminho que teria que escolher a direção que tomaria sozinho.
– Se não tiver matéria nova ou trabalhos hoje... – Igual ao pai, aquele pequeno quando preocupado buscava refúgio em si mesmo e em sua solidão.
Lembrava à senhora Matsumoto seu amado marido. E por isso concordou, não porque era uma lembrança nostálgica, mas simplesmente porque também igual ao pai aquela atitude realmente funcionava para que ideias encontrassem um lugar confortável na mente de Takanori.
– Não tem nada disso.
– Então acho que tudo bem. – Não ia ousar mais do que podia, apesar do fato de como lhe doía ver que nem a companhia dos amigos ele queria.
O pedido de Ruki deixou sua mãe de certa forma alarmada, para Emi não havia nada pior que ver seu filhote assim tão perdido sem poder guiá-lo. Sem mais o que dizer no momento ia já se levantar para deixá-lo a sós com seus pensamentos, na vaga esperança de que ele não tardaria a se encontrar. Se fosse para ver seu garoto sorridente e brincalhão de sempre de volta a casa, jogaria Reita nos braços do menor... Ou vice e versa. Mas antes que seu corpo deixasse a cama os dedinhos quentes e tímidos a seguraram ali.
– Você tem um tempo mãe? A..antes de ir trabalhar...
Emi sorriu, para Takanori tinha todo tempo do mundo. Tirou os chinelos deixando os mesmos ao lado da cama para encontrar uma posição mais confortável de frente para o pequeno. Ruki nesse momento estava digitando alguma coisa no celular, então deslizou o bloqueou e o deixou de qualquer jeito em cima de um ponto qualquer em cima do colchão.
– Avisei ao Kou e ao Kai que não vou.
– Sobre o que quer conversar?
– Mãe quando... – Takanori encheu as bochechas de ar e então voltou a falar depois de esvaziá-las de uma vez só. – Quando foi que você fez... sabe... Tipo, você sabe... – Sim ela sabia, Emi era fera em decifrar qualquer informação oculta do filho, mas certas coisas Takanori tinha que encarar com todas as letras, sons e sentidos.
– Amor se você não me falar não posso adivinhar.
– Sexo mãe – Disse Ruki muito vermelho enquanto abaixava a cabeça. Absolutamente mordível aos olhos da mãe que se segurou para não rir do pequeno. Risadas não ajudariam.
– Eu era virgem quando comecei a namorar seu pai se é isso que quer saber, embora tenha namorado algumas pessoas antes. Ainda assim, respondendo sua pergunta, acho que levamos quase um ano antes de dar esse passo.
– Você namorou outros antes do meu pai? Por que demoraram tanto? – Sua expressão passou por um misto de surpresa e interrogação.
– Sim, alguns porque me apaixonei outros apenas porque queria. E o motivo para namorar outros bem como para esperar o tempo certo é exatamente o mesmo. O mesmo pelo qual você engatinhou antes de andar, repetiu monossílabos sem sentido algum antes de falar ou simplesmente ensaia a mesma música diversas vezes antes de ter coragem para cantá-la com microfone ligado.
– Entendi, eu acho. E como se sabe que é a hora certa e a pessoa certa para isso.. Digo e se você e meu pai não tivessem ficado juntos?
– Ora Takanori, não me assuste. Às vezes a hora certa não vem com a pessoa que você quer passar o resto da sua vida, mas isso não quer dizer que aquela não seja a pessoa certa para aquele momento hm. E você vai enxergar a pessoa certa com seus olhos, trazê-lo para perto com seu coração, afasta-lo com seu estomago e na hora certa toma-lo com seus...
– Tá bom mãe, já entendi pode para por aí! – Cortou o menor. – Podia ser mais romântica nee.
– E te dizer que o mundo é de rosas? Elas têm espinhos, sabia?
– E se a pessoa certa... Não for certa?
– Tipo mal Édipo? Olha te dou uma surra e te interno. – Disse a morena fazendo pequeno rir de verdade por alguns minutos.
– Tá eu te amo, mas não é pra tanto assim não, viu. Sério mãe... E quando uma pessoa escolhe uma pessoa que não pode ser escolhida por ela? –
– Meu amor, a pessoa que seu coração escolher será sempre a certa para o momento e aprendizado corelacionado com esta aproximação.
– Não, às vezes não é. – Disse agora sério e convicto. Será que Emi se enganou e não estavam falando de Reita em uma forma latente como ela imaginava que estavam?
– Como assim pequeno?
– Sei lá tipo, por exemplo, Myv e Kai. É claro que eles não podem dar certo, não é?
– Por quê? – Perguntou tão séria quanto o pequeno.
– Bom, eles nunca darão netos à Uke-san e à Hiro-oji. É como nós, imagine se fosse você, a nossa família já se resume a apenas nós dois e aí um dia eu apareço com a notícia de que não levarei esse nome adiante, você ficaria muito magoada. – Afirmou.
– Eu ficaria realmente possessa Takanori – Emi puxou o queixo do menor para que este lhe encarasse e escutasse com atenção – Se por acaso um dia descobrisse que meu único filho negligenciou uma escolha tão séria por um motivo tão banal. Não há nada errado com a escolha de Miyavi e Kai de ficarem juntos. Presta atenção em mim Takanori, nenhuma escolha que te faça feliz é errada. Está me entendendo?
Sem grandes avisos ou motivos claramente ditos da boca pra fora, os olhos do pequeno começaram a se encher e transbordar entre os dedos da mãe enquanto Takanori movia a cabeça pra cima e pra baixo afirmativamente. Era tudo tão errado e torto aos seus olhos, mas se não pudesse confiar em Emi não poderia confiar em mais ninguém, não é.
E entre os soluços as palavras deixaram de ser meias palavras, o assunto deixou de ser tratado pelas beiradas. Takanori se sentia um tolo por se deixar levar por coisas tão bestas, por errar no julgamento da pessoa que mais o amava. Por não ter confiado plenamente em Emi mais cedo.
– Eu só não quero decepcionar você, mãe. – Takanori confundia suas palavras aos soluços.
Claro que ambos sabiam desde o começo que não falavam de uma versão mais nova de Emi, não falavam de Kai e Miyavi, e muito menos do que era certo e o que era errado. Mas foi apenas naquele momento que as palavras explodiram do peito do menor, junto com seus soluços descontrolados. A mãe não resistiu a abraçar o filho, o puxando para o conforto de seus braços, era simplesmente torturante demais ver sua pequena cria tão perdida, sofrendo sozinho com medo de coisas tão bobas.
– Você não vai meu pequeno. – Apertou-o mais forte entre os braços e pegou o pequeno pedaço de pano que, desde afanado do dono legítimo, parecia nunca sair de perto de Takanori, o pequeno estava lhe dando brecha e afastou um pouco o filho para limpar algumas de suas lágrimas com a ponta dos dedos para em seguida cobrir a pele recém seca com a tira fina de tecido branco fazendo os olhos do pequeno se arregalar, ao ver a mãe amarar a faixa de Reita em seu rosto na mesma posição em que era usada pelo loiro maior. – Não é com esse tipo de escolha que você vai me decepcionar Takanori. – Sorriu.
– Mãe... – Ele começou, mas as palavras não saíram.
No fundo sempre se sabe que nada se passa despercebido aos olhos das mães por mais bem escondido que os filhos achem que tenham agido. Emi apenas o ajeitou em seu colo como se ainda fosse uma pequena criança que ela ainda fosse capaz de carregar e embalar.
– Pare de pensar em como eu vou me sentir diante assuntos que só dizem respeito ao seu coração Taka.
– Mas eu nem sei o que eu estou sentindo direito, isso tudo é tão confuso... – Se aninhou no abraço da mãe. – Só sei que é muito diferente de tudo que já senti e isso é...
– Apavorante. – completou a morena. – As respostas vêm, não apresse o tempo Takanori, confie na vida, ela sabe o que faz. E agora que você está aberto às respostas pode ter certeza de que elas virão ainda mais rápidas. Mas agora – Ela suspirou alto, aumentando também o tom – Você pode ficar de pernas pro ar em casa, mas eu tenho que resolver uns assuntos sobre alguns alvarás que ainda faltam das outras partes da casa de shows. – Disse se desprendendo do pequeno e levantando. – Que tal aproveitar o dia de folga e desenhar um escritório bonito pra mim.
– Tá. Vai ser fácil. Mãe.. – Chamou alto quando Emi já estava atravessando a porta. – Obrigada. Por ser minha mãe. – Emi sorriu e piscou pro menor. Isso queria dizer que logo teria um genro. – Não se esqueça de dar comida ao Koron-chan e ao Sabu-chan. – Gritou já de longe, descendo as escadas.
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Ruki
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Joguei-me na cama com tudo, deixando meu corpo se chocar contra os edredons macios com a convicta certeza de que tinha emagrecido uns três quilos depois de conversar com Emi. De alguma forma ver como aquilo tinha sido fácil, me fez sentir patético. De repente não via motivos para achar que minha pudesse ter alguma reação hipócrita, ela aceitava Miyavi e Kai namorando dentro de nossa casa, por que não me aceitaria?
Mesmo que reações de aceitação possam ser diferentes quando a situação acontece com um conhecido do que seria se a mesma situação acontecesse com um filho. Já tinha visto casos de pessoas que se diziam sem preconceito, mas só até o filho um dia se colocar no mesmo grupo atingido pelo tal preconceito. Não havia razão nenhuma para acreditar que Emi seria uma dessas pessoas.
Eu tinha coisas pra pensar e tinha tempo para isso. Pelo menos até a aula acabar e Uruha, Kai e Miyavi invadirem minha casa preocupados por eu não ter ido pra aula hoje. E isso me fez lembrar: Onde estava Miyavi?
Saí do meu quarto bem na hora em que o show estava começando:
– Como assim Ruki vai matar aula hoje? – Miyavi reclamou. – Se ele pode eu também posso. – Cruzou os braços em pose de birra.
– Se você não estiver pronto para a escola na hora de sair, vai assistir a aula de pijama. – Ela advertiu.
– É injusto você escolher um filho pra deixar matar aula e negar isso ao outro assim tão abertamente.
– Aquele filho me obedece. – Disse apontando para cima. – Este filho ainda está sofrendo consequências por ter me decepcionado.
– Ah é, você não soube. Tua cama quase perdeu a virgindade antes que você no sábado. – Uruha disse invadindo a casa. – Hey por que você vai matar aula, seu idiota de sorte?
– Morra de inveja e curiosidade. – Respondi. – Como assim alguém ia fazer sexo na minha cama? Miyavi se houver vestígio de sêmen no meu lençol vou fazê-lo limpar meus quarto todo, todos os dias por um mês!
– Não tem sêmen na sua cama Ruki, o Uru está exagerando. – Kai invadiu a casa. – Eu já estava na metade do caminho quando vi a mensagem.
– Vocês ganham carona porque vou levar Miyavi. Agora se arrumem porque eu tenho muitas coisas pra fazer hoje ainda. – Disse Emi fazendo com que cada menino fosse para um canto.
– Achei que ia encontrar o Ruki doente depois dele dizer que não ia pra escola. – Disse Kai com cara de confuso.
Preferi puxar ele e Uruha para a mesa do café. Aquele dia calmo e tranquilo que eu usaria para pensar no que exatamente eu sentia por Reita e como proceder com aquilo com certeza teria que ficar para depois que o povo todo saísse de casa.
Ouvi Kai e Uruha conversarem sem parar. Uruha estava ansioso para ver Aoi, queria saber o que tinha acontecido. O loiro tinha ido até a casa do moreno, mas pela primeira vez foi barrado na entrada. E o pior foi que este recado havia sido passado a si pela mesma empregada que sempre fazia e os levava lanches, ela sabia bem quem ele era e mesmo assim continuou o barrando com a justificativa de que eram ordens de Shiroyama-sama que ninguém entrasse.
Kai também falou mais para Ruki sobre a parte da história que tinham omitido do castigo que tinham levado no sábado. Todo souberam que Aoi e Kai tinham quebrado regras quando passaram o domingo todinho na sala, mas o casal preferiu omitir que a cama do crime não era a do quarto de Miyavi, mas a minha.
Logo na sequencia todos saíram de casa e eu pude simplesmente ficar sozinho. O problema era que a conversa mais recente de Kai tinha trazido de volta à minha cabeça aquela cena dele e Miyavi durante o show. Afinal sozinhos eles faziam coisas mais intensas do que aquilo. Toques mais sugestivos do que aqueles escondidos apenas pelo corpo maior de Miyavi, enquanto o mesmo quase fundia Kai com a parede.
Com a intenção de esquecer aquelas cenas, achei melhor tomar um banho. Eu estava mudando, no inicio do ano estes pensamentos quentes na minha cabeça seriam impossíveis. Admitir amar Reita um absurdo inconfessável. Pensar em Reita como a lembrança de Myv e Kai na minha cabeça, impossível.
Mas não podia negar que era isto que estava acontecendo. Kai parecia tão confiante quanto Miyavi fazendo aquelas coisas, eu não sabia se algum dia conseguiria ficar perto demais de Reita sem ter calafrios, o que dirá ter coragem de tocar o corpo dele daquele jeito.
Que besteira! Tinha ganhado um selinho do cara e estava tentando como seria quase transar com ele. De fato, algo que não tinha mudado em mim era o meu índice de idiotice.
Por falar em algo idiota, esse berinjela no meu cabelo sem corta também me parece idiota. Onde eu estava com a cabeça quando resolvi fazer isso? Pensando melhor, eu tinha acabado de assumir para minha mãe que era gay e estava pronto para começar uma nova etapa na minha vida, mudar o visual faz sentido neste momento.
Sinceramente, estava querendo me apegar mais nas coisas que me faziam sentir bem. Não iria mais negá-las. Eu tinha medo de assumir coisas que faziam com que eu ficasse exposto, conversar com Uruha me fez perceber isto e iria mudar. Eu não sou mais uma criança sem condições de lutar por mim mesmo. E depois de conversar com Emi e assumir um sentimento por Reita, repressão era algo que eu teria que saber lidar se quisesse mesmo ficar com ele.
O fato é que era bom estar com Reita e era mesmo bom só estar com ele. Pensar que talvez permitir que ele me faça descobrir outras coisas boas me tornaria em uma pessoa tão faminta quando Kai jogado em uma parede assustava um pouco. Mas também me deixava curioso.
Era isso. Kai e Miyavi não saíam da minha cabeça porque eu tinha curiosidade sobre o que faziam. E faziam de uma forma que deixava claro que aquilo era bom. Sem pensar exatamente em que aquele pensamento implicava, abri o registro do chuveiro e comecei a me despir.
A água quente percorreu dos cabelos às costas e de olhos fechados eu ainda tentei organizar os fatos, aceitando todos eles com franqueza pela primeira vez desde o início. Kai estava certo, nunca me senti atraído por nenhuma de todas as meninas que corriam atrás de mim, e não eram poucas.
Muitas delas eram realmente lindas eu as admirava, mas nenhuma atraía minha atenção e meu interesse. Uruha estava certo, aquela fixação desenfreada pelo da faixa não era normal. Por mais que me irritassem suas brincadeiras, eu tinha que admitir que ele estava certo. Até minha mãe deixou bem claro que percebia que tinha algo com Reita.
Nós gostamos das mesmas coisas, temos o mesmo apreço sério e respeito pela música. Reita era a única pessoa que consegui arrancar todo o tipo de resposta idiota de mim, com a incrível façanha de conseguir me fazer nem perceber o quão original e sincero era com ele. O tempo sempre parecia ser pouco demais quando estamos juntos.
Kai me fez o observar tomando banho e isso me deixou seriamente excitado. Naquela vez eu me culpei pela reação automática do meu corpo, mas era impossível ser indiferente àqueles músculos todos expostos, aqueles ombros maldosamente bem desenhados com as pontas da faixa caindo displicentes entre os mesmos, ou aqueles bíceps. Quem não daria atenção para aquele abdome trabalhado e aquele tipinho bad boy envolvido por todo aquele ar de mistério?
Quem? Quem se abalaria tanto a ponto de não conseguir esquecer o caminho percorrido pelas gotas de água passeando por toda a extensão daquele corpo. Perfeito. Quem não conseguia esquecer Reita de olhos fechados passando as mãos pelos cabelos para tirar o excesso de xampu, os músculos de seus ombros se contraindo com os movimentos. Quem? Eu.
– Hm.. – Mordi o lábio, um passo mais a frente para a água quente do chuveiro cair sobre os ombros.
Não precisava abrir meus olhos para saber o que sentia. Maldita situação constrangedora; a mesma que me fez sair correndo de Reita aquele dia.
Agora eu me pergunto: Se eu sabia que isso ia acontecer de novo por que me permiti ficar me lembrando daquela cena?
A resposta: Miyavi e Kai contra uma parede demonstrando o quanto aquilo era bom.
Imbecil. Eu não tinha tanta curiosidade sobre isto antes. Eu tinha certeza mesmo de costas que a calça de Miyavi estava aberta mesmo com ele de costas, isto era indício de qual era o lugar suspeito de onde tinha visto a mão de Kai sair.
Só então percebi que tinha concordado em tomar algumas atitudes com Reita, sem estar preparado para as mesmas. O que eu faria se ele tentasse me tocar como Kai estava fazendo com Miyavi, ou se fizesse o contrario e desejasse que eu o tocasse daquela forma. Eu não sei nem fazer em mim direito.
A mão seguiu sozinha e tinha certeza que ela não pararia nem que eu a forçasse a isso. Deslizou pelo abdome, será que Reita me recriminaria por isso? Busquei com a ponta de seus dedos meu membro que se forçava contra a gravidade de maneira tímida, ainda não completamente desperto. Eu ia mesmo fazer isso?
Mordi os lábios mais uma vez me escorando de costas à parede que estava ao meu lado. Reita se irritaria se soubesse que estava usando sua bela imagem para isso? Ninguém saberia, estava apenas em minha cabeça, não passava de uma tola fantasia... aqueles braços fortes.
Permiti que minha mão se fechasse em torno do membro. Ainda envergonhado de mim mesmo acariciei-me sentindo a estranha e ao mesmo tempo deliciosa sensação.
O frio azulejo atrás de mim gerava uma sensação contraditória a da oferecida pelo chuveiro. Deslizei até sentar completamente no chão, as pernas completamente abertas com as gotas quentes de água salpicando as faces internas de minhas coxas, meus testículos e partes do meu membro. Sim, eu vou fazer isso.
Minhas mãos pareciam mais espertas do que eu mesmo, elas trabalhavam sozinhas. Uma movendo-se em torno do membro com destreza enquanto ao outra insistia em arranhar a pele das minhas coxas, ferindo-as sem dó pela vergonha. A leve sensação da ardência dolorida completando a sensação de prazer da masturbação.
Aqueles dedos passando por entre seus cabelos enquanto tentava se livrar do xampu durante o banho, a forma como seus músculos acompanhavam esse movimento desenhando seus ombros. Será que Reita sabia o quanto era desejável. Gostoso.
– Ahh – A voz saiu sôfrega, abafada no pequeno espaço do box do banheiro entre os vapores da água quente que me levavam o fôlego. Os movimentos de ida e vinda feitos pela mão audaciosa assumiram um ritmo cada vez mais exigente.
Será que as mãos de Reita seriam capazes de percorrer por meu corpo com a mesma destreza com que fazia consigo mesmo durante aquele banho? Será que eu ia gostar? Suas mãos me levando à loucura com movimentos ousados, carinhos roubados.
Não percebi quando me curvei mais no chão, ficando quase deitado com a água quente percorrendo por toda minha genital. A pele da virilha já estava sensível pelo calor da água e formigava ao contado das gotas finas.
O acúmulo de água buscava por um canal de refúgio para percorrer e o encontrando pelo caminho entre minhas nádegas, outra sensação nova. Exigia-me mais. A mão que até pouco feria minha coxa, caiu sobre meu corpo em busca dos testículos que eu passeei a massagear em uma velocidade simultânea a dos movimentos em meu membro.
– Ahhah.. hu.. haa – O ar era quase nulo, fisgadas de um prazer quase impossível de se sustentar sozinho faziam meu corpo tremer e se curvar ainda mais.
Eu já era um "C" deitado no chão do banheiro, as pernas bambeando para o alto sem sustentação alguma, apenas a nula e instintiva vontade de manter a água que caía sobre meu corpo percorrendo pelo caminho entre minhas nádegas. Tantas sensações, o azulejo, a água, Reita em meus pensamentos, a insanidade batendo em minha porta. O que Reita pensaria se me visse em uma situação tão despudorada?
As sensações prazerosas exigiam de mim sempre mais e não sei por que a mão que massageava meus testículos se abriu. Espalmando-se sobre minha pelve o dedo médio, infeliz, seguiu por vontade própria pelo raso rio que a água do chuveiro concentrava no meu corpo. A entrada sensível retraiu-se ao ser tocada por acidente.
Talvez estivesse indo longe demais, mas de alguma forma minhas atitudes se mostraram sem limites e não me obedeceram em momento algum. Aquilo fazia parte do pacote também. Era comum as pessoas dizerem que aquilo doía. Mas também devia ter algo bom ali. Será?
A falange mais extrema parecia ter vontade própria quando adentrou meu corpo com facilidade, depois daquele ponto é que ficava difícil. O corpo parecia dar sinais de querer recusar a visitante inesperada. Em busca de apoio, cessei os movimentos que davam atenção ao meu membro por breves instantes, apenas o tempo suficiente pra segurar o resto de ar que ainda me restava e forçar todo o dedo pela entrada apertada. Não era exatamente bom, mas não era o fim do mundo.
Voltei a me masturbar assim que soltei o ar pela boca e tentei mover o dedo dentro de mim. As duas ações gerando sensações tão ambíguas e ao mesmo tempo. Eram sensações estranhas, mas inexplicavelmente boas. Meu corpo tremeu completamente, não tive muito tempo para julgar como era aquela situação, pois meu corpo rendeu-se ao alívio.
– Ahh AHH..
Tão quente quanto a água, com o corpo todo arrepiado e curvado. Eu tinha certeza pelo nível dos meus ofegos descompassados que estava extremamente corado. O líquido esbranquiçado sendo diluído pela água enquanto escoava pelo ralo, levando embora os únicos cúmplices daquela sandice. Uma insanidade.
Eu tinha plena consciência agora de tudo que havia feito. Não iria chorar por isso, foi uma boa experiência, talvez pudesse se permitir pensar mais nos atributos de Reita que deixm meu corpo assim.
Afinal isso não passa de uma fantasia. Tão densa quanto fumaça, tão palpável quanto um pensamento. Minutos de um descontrole efêmero que já passa sem deixar rastros, deixando para trás apenas uma sensação gostosa de alívio e relaxamento.
Com certeza era bom o que Kai e Miyavi faziam, mas eu ainda me sentia envergonhado. Deste jeito ainda não Reita, não quero ficar assim na sua frente. Mas individualmente, eu entendi que ainda tenho muitas coisas para descobrir, este foi um bom primeiro passo.
Qual era o meu plano pra hoje mesmo? Ahh sim, mudança de visual.
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Estava cansado. Já era quase oito horas da noite e não tinha parado por nem um minuto, mesmo sendo um dia de folga da escola e do trabalho. Reita tinha me mandado uma mensagem para dizer que Aoi e ele também tinham ganhado o dia de folga depois de todo o trabalho intenso para conseguir fazer com que o show de sábado acontecesse com sucesso.
Ele queria fazer alguma coisa na tarde de folga, mas eu estava descolorindo e cortando o cabelo naquele momento. Kai também tinha me mandado uma mensagem perguntando se eu sabia onde estava Uruha. Achei estranho, mas apenas respondi lembrando meu amigo que eu tinha passado o dia longe de todos ele e não fazia ideia de onde Uru estava.
Ainda assim mandei uma mensagem para Kouyou, e ele disse apenas que estava com Aoi. Não era surpresa. Desde o evento que fez Aoi sair do show dos Abomináveis por problemas pessoais, Uruha tinha ficado possuído pelo demônio da curiosidade. Ele garantiu que iria para a casa de Aoi o quanto antes e iria dar um jeito de descobrir que problemas familiares eram aqueles.
Apenas deixei de lado. Uruha já era maluco, ter conseguido trocar beijos com Aoi no sábado deve ter consumido os poucos neurônios que ainda tinha.
Coloquei o prato com um sanduíche sobre a pedra da bancada da cozinha, me acomodando na banqueta alta. Estava desenhando o escritório que minha mãe tinha pedido, não era difícil, mas eu queria que ficasse perfeito.
– Oi. – Sorri ao ouvir a voz dela junto com o som habitual do salto contra o chão.
– Oi mãe. – Respondi.
– Hum..curto e loiro. Gostei. Adoro quando você corta o cabelo. – Ela disse tentando bagunçar os fios duros de gel.
Sorri. Ia começar a mostrar para ela o que já tinha desenhado para que ela tivesse uma ideia da coisa em geral, e até me ajudasse falando um pouco sobre o que esperava daquele lugar quando ouvi algum barulho vindo da porta que dava acesso à garagem por dentro de casa. Assustado, olhei para ela e instintivamente para a região onde ficava a porta ao ouvir mais barulho.
– Emi-san onde eu devo deixar isto? – Perguntou Reita com uma caixa dessas de arquivo morto em mãos assim que sua imagem surgiu no cômodo.
A caixa pequena em suas mãos parecia estar bem pesada, pois Reita não costumava fazer cara feia para carregar coisas. Ainda assim suspirei aliviado, pensei pelos barulhos que nossa casa tinha sido invadida e seríamos assaltados ou coisa assim.
– Ufa Reita que cagaço. Poxa mãe, podia ter dito que o Reita tinha vindo com você, eu achei que tinham invadido nossa casa. – Falei soltando todo ar, tinha me assustado mesmo.
– Ru..Ruki... – O ouvi dizer meu nome como se estivesse olhando alguma coisa muito impressionante.
Só aí me lembrei de que tinha mudado completamente meu cabelo berinjela e quase comprido para curto e descolorido. Daí morri de vergonha. Ele não devia estar olhando tanto assim, ia começar a reclamar quando um gemido por parte dele nos fez lembrar que ele ainda estava com algo realmente pesado nos braços.
– Me acompanha Reita, vou mostrar onde deixar isso. Depois você desce e conversa com Ruki. – Ela disse passando reto pelo aposento tomando a frente, e sendo seguida por ele.
Bati o lápis contra a bancada de pedra, eu não tinha ido pra escola para poder pensar nesta situação sem a pressão da presença de Reita. Agora ele estava aqui. Eu já não sabia como olhar para ele depois de quase termos ficado na noite de sábado, vai ser mais difícil ainda depois de hoje à tarde. Acho que não vou conseguir falar com ele sem me lembrar de como meu corpo ficou eletrizado enquanto me masturbava pensando nele.
Troquei o lápis pelo sanduíche e dei uma grande mordida no pão. Isto é ridículo, eu conseguia conversar com Reita antes de querer que ele se aproximasse mais de mim, é só continuar agindo da mesma forma. É só agir como se eu não tivesse dito sim e como se aquele selinho nunca tivesse acontecido.
Eu sou mesmo um idiota. Nervoso só porque Reita deixou a boca dele perto o suficiente da minha para que as peles se tocassem por três segundos.
– Você mudou de visual! – Akira Suzuki surgiu em minha frente.
E não me perguntem de onde ele surgiu. Provavelmente ele veio andando como uma pessoa normal, eu que não estava sintonizado neste mundo. Só pra variar.
Reita se parou em pé em minha frente, no outro lado da bancada e ficou me olhando. Akira ficou claramente analisando cada detalhe do meu rosto, me senti realmente constrangido. Em contrapartida estiquei o braço para alcançar a faixa em seu rosto e a puxei para cima, para tirar sem desamarrar. Aquele não era mais um ato que podia ser considerado novo, mas eu sabia que ainda o deixava com vergonha.
– Se é pra ficar olhando... – Disse. Ele riu de leve.
– Ficou bonito. – Ele disse, e sim isto é constrangedor não importa de que ângulo veja.
– Tá.. – Ri. O que mais fazer?
– Sério Ruki, você ficou extremamente lindo loiro.
– Ok não usar mais tinta cor de berinjela. – Disse baixo, mas alto o suficiente para parecer que estava fazendo uma nota mental.
– Por que não foi na aula hoje? Foi chato sem você, Kai e Miyavi pareciam não perceber que não estavam sozinhos em um lugar reservado. Aoi não foi à aula e Uruha ficou me enchendo de perguntas sobre ele. Acho que ele foi pra casa do Yuu assim que a aula acabou.
– Seu amigo ainda não resolveu os problemas familiares dele? – Perguntei sem muito interesse e ele riu com vontade.
– Você pode perguntar se Aoi está bem Ruki. Não vai abalar a sua inimizade por ele mostrar que percebeu que Aoi não estava nada bem sábado. – Ele disse e eu estreitei o olhar em sua direção, estava me lixando pro Aoi. – Ok. Você não me perguntou se está tudo bem com Aoi, eu disse porque eu quis. Ele não está bem, mas vai ficar... mais dias menos dias.
– Não é da minha conta. – Disse.
OK. Eu não estava tão me lixando assim, nunca tinha visto aquele tipo de expressão no rosto de ninguém. Foi realmente assustador ver especialmente na face de Aoi, ele era o cara que não levava nada a sério. Sempre havia um ar de deboche em seu rosto.
– Uruha foi ontem na casa de Aoi, mas não deixaram ele entrar. Se eu bem conheço ele, se o barraram de novo ele deve ter escalado as trepadeiras para entrar direto no quarto de Aoi.
– Por que faria isso? Ele não levou a noite de sábado à sério né?
– Hum..Então quer dizer que nenhum de vocês dois percebeu mesmo que aquela besta do Uruha é doentiamente apaixonado pelo idiota? – Perguntei, mas vi de cara pelos olhos arregalados de susto dele que eles não tinham percebido.
– Olha... Se Aoi tivesse percebido algum interesse de Uruha nele, nunca teria ficado com ele. Nunca mesmo.
– Não é o contrário? Se aproveitar do interesse para só usar a outra pessoa? Aoi é o tipo de pessoa que... – Ia dizer que ele era o tipo de pessoa que gosta de humilhar os outros, mas ele me cortou.
– Não. Aoi é do contra, se perceber qualquer interesse de Uruha nele vai afastá-lo.
– Mesmo?
– Eu aposto a minha faixa nisso! – Ele garantiu.
– Quer dizer que...sem dizer que fui quem te contou, você poderia dizer pro Aoi que acredita que Uruha está muito interessado nele, não é.
– Por quê? Uruha demonstra ser bem receptivo a encontros casuais. Aoi disse que nas festas que eles vão juntos Uruha age como uma pessoa vulgar e leviana.
– É como eu te disse, Uruha é doentiamente apaixonado por Aoi. Foi esse jeito que ele encontrou para ficar..sei lá, íntimo dele. Uruha está simplesmente flutuando por ter conseguido ficar com Aoi.
– Isso é bom, porque eu queria mesmo que Aoi se permitisse ser amado. Mas também é ruim, bem ruim, porque Aoi não vai deixar Uruha se aproximar dele de novo quando perceber que há interesse de verdade.
– Eu tentei fazer o Uruha entender que vai sair ferido dessa história, mas isso só fez a gente brigar. Sabe se você der a dica pro Aoi e fazer ele se afastar antes que Uruha fique mais esperançoso ainda, vai evitar muita confusão Reita.
– Eu posso alertá-lo. Mas não acho certo, é como se meter. Os dois parecem se dar muito bem, o Uruha parece mesmo não dar a mínima.
– Por favor. – Pedi.
– Tá. Mas me diz uma coisa, porque estamos gastando nosso tempo falando de Aoi e Uruha, hm. – Disse em uma pergunta retórica.
– Para evitar outros assuntos certamente. – Disse brincando.
Mas nem tão na brincadeira assim. Mesmo sem nos ver no domingo, passamos o da falando do show e da banda. Falamos de exatamente tudo, menos uma coisa. Um detalhe quase imperceptível que ocorreu no lapso de tempo entre a transição de alguns poucos segundos.
– Claro! Para evitar outros assuntos. – Ele repetiu em tom afirmativo, como se aquela fosse uma constatação óbvia.
Ele nem percebeu que eu não respondi a primeira pergunta que ele fez antes de começarmos a falar de Aoi e Uruha, e eu não iria o lembrar disso. Não queria dizer o que fiquei fazendo enquanto deveria estar em aula, nem quantas vezes peguei-me trocando os devaneios sobre amá-lo por devaneios sobre desejá-lo.
– Por falar nisso, tem um ponto negativo em você ter mudado o cabelo. – Começou fingindo estar pensativo. – Eu poderia encontrar um meio de tirar vantagem por estar com um ruivo no sábado e um loiro na segunda. Mas no sábado não rolou...
Ow bem no meu pâncreas Reita. Por que tão direto? Dava pra completar a frase que ele não terminou mais facilmente do que preencher a folha branca dos livros infantis de colorir sem passar da linha do desenho.
Era igual uma regra de três, só cruzar. Ruivo está para sábado assim como loiro está para três pontinhos. Os três pontinhos são o xis da questão. E na lógica linear óbvia, X é igual à hoje. Eu sou um cara tímido, não um cara burro.
– Ano.. Sabe que olhando para você neste momento eu posso dizer com certeza que sábado não teria rolado de jeito nenhum. Ruivo, loiro, com intromissão ou sem intromissão.
– Por quê? – Ele perguntou, deveria me sentir mal pela cara que ele fez ao ouvir aquilo. Mas não, ele merecia por exigir que eu lidasse com aquilo tão na cara dura.
– Porque lá você não ia me deixar tirar isto de jeito nenhum. – Disse levantando a faixa de tecido que estava largada sobre a bancada de pedra. – Até porque eu ficaria enciumado se visse você sem isso de boa na frente de outra pessoa, mas não abro mão de ter você sem isso quando estiver sozinho comigo.
– Isto com certeza é um pré-requisito bem fácil de atender. Principalmente porque agora estamos aqui sem ruivo, sem faixa, sem outras pessoas e sem intromissões. – Ele disse e eu só pude rir.
Mayday. Mayday. Estamos com um alto índice de pressão indicado nos painéis, a temperatura também não está normal.
Reita não devia deixar as coisas tão repentinas e complicadas assim. Eu não podia mais ficar apenas rindo, tinha que tomar alguma atitude. Ou dizer algo que indicasse que ele podia tomar alguma atitude, mas deste jeito tão repentino eu não me lembro nem de que som as palavras tem quando se unem em sílabas. Nem quantas sílabas contém cada uma das palavras que eu não vou saber escolher.
Mas aquilo não podia ficar sem desfecho, até mesmo eu sabia disso. Não é como se eu também não quisesse, era só que não tinha meios de eu fazer aquilo direito.
O que se diz?
Como se age?
Preferi apenas apoiar meus antebraços na bancada gelada e me inclinar em sua direção, minimamente. Ele podia vencer facilmente o restante da distância se quisesse, tentei lhe dizer isso ao encará-lo. E me senti o mais feroz dos combatentes com este ato de bravura, não que eu achasse que alguém perceberia. Até porque o som do meu coração batendo alto e rápido de medo seria percebido muito mais facilmente.
Principalmente porque ele estava diminuindo a distância entre nós.
– RUKI! – O grito invadiu a casa toda, misturado com o som da porta arrombada.
O barulho assustou não somente a mim, mas Reita também. O mais velho olhou para trás como se pudesse ver através das paredes, enquanto eu só pude encostar minha testa em meus antebraços, que estavam apoiados na bancada. Choramingando enquanto pensava no quanto amava meus amigos.
– Rukii... – O resmungo invadiu a cozinha e o tom de voz me fez erguer a cabeça alarmado.
E não foi a toa. No portal que era a entrada pra cozinha Uruha estava se segurando com uma das mãos na parede, chorando de uma forma incontrolável e desesperada. Levantei-me rápido para ir até onde ele estava, mas Emi chegou primeiro.
– Kouyou, o que houve? – Minha mãe perguntou assustada, fazendo Uruha olhar para si enquanto o segurava por ambos os ombros.
– Uru... – Murmurei.
Mas ele não conseguia falar. A cor já estava sumindo de sua pele pela dificuldade em respirar e além dos soluços incontroláveis apenas a voz calma de Emi era ouvida no cômodo, tentando fazê-lo se acalmar. Minha mãe à esta altura já estava com um joelho apoiado no chão e com o outro flexionado, fazendo Uruha se sentar neste.
Sinceramente, vê-lo assim deixou o ar difícil de ser respirado. Honestamente, uma voz interna gritava em meus ouvidos que apenas uma coisa podia deixar ele naquele estado. Coisa que só podia ser obra de uma pessoa. E sem esperar por uma confirmação passei ligeiro por eles para seguir porta à fora.
Ainda bem que ele mora aqui na rua mesmo. É perto o bastante para a minha raiva não amenize no caminho.
– Ruki? – Ouvi minha mãe chamar de um jeito estranho, mas não queria saber.
Uruha não conseguia falar? Sem problemas, ia ser um prazer arrancar o motivo direto da boca culpada. Vi de relance uma pequena marca roxa sobre a pele do pescoço de Uruha que me dava uma boa dica do que ouviria.
– Reita, vai logo atrás dele. Por favor. – Ainda ouvi a voz da minha mãe mais uma vez, e eu sabia que Reita a obedeceria. Então corri.
Corri de verdade, com força e velocidade. Nem um pouco preocupado se teria fôlego para vencer a distância entre as duas casas naquele pique, com a raiva que sentia provavelmente sim. Para não ser alcançado por Reita teria que contar com a sorte, e por isso passei reto pela frente do portão da mansão em busca da falha no muro que costumávamos chamar de entrada secreta quando crianças. Um buraco onde ficava um antigo contador de luz que fora movido, mas o buraco apenas preenchido com plantas que o omitiam.
Perguntei-me se Reita sabia daquela entrada também. Mas ao julgar pelo excesso de galhos de arbustos que dificultaram a passagem em quatro apoios, ninguém tentava passar por ali há anos. Corri cortando caminho pelo jardim mesmo e nem cogitei tentar outra entrada se não a da frente. Sabia que ela estaria aberta, este é o tipo de hábito que as pessoas não costumam mudar com o tempo.
– AOOOI – Gritei com todo ar que tinha em meus pulmões, só uma garantia de que ele me ouviria em qualquer lugar em que estivesse da mansão.
E não esperei que ele descesse completamente as escadas quando o vi lá no alto. Corri e o alcancei na metade do caminho, e foi por ali mesmo que ele ficou após cair de forma desequilibrada, sentado nos degraus com a mão sobre a área em seu rosto que meu punho fechado tinha atingido com força.
– Ruki não faça isto! – Ouvi o eco da voz de Reita que tinha passado pela porta que eu escancarado.
Eu não estava inclinado à ouvir, e puxei o braço para socá-lo mais uma vez. Mas Reita foi rápido em subir as escadas e me puxar pelas costas, ele mesmo se desequilibrando ao tentar manter nossos dois corpos, caindo quase espremido entre os degraus e corrimão bonito de metal dourado. Segurando meu corpo com força de costas contra o seu.
– Shiroyama-sama! – A empregada chamou assustada, logo se adiantando para ajudar o patrão.
