Capítulo trinta e dois: Once again
Por Kami-chan
"Não esperei que ele descesse completamente as escadas quando o vi lá no alto. Corri e o alcancei na metade do caminho, e foi por ali mesmo que ele ficou após cair de forma desequilibrada, sentado nos degraus com a mão sobre a área em seu rosto que meu punho fechado tinha atingido com força.
– Ruki não faça isto! – Ouvi o eco da voz de Reita que tinha passado pela porta que eu escancarado.
Eu não estava inclinado à ouvir, e puxei o braço para socá-lo mais uma vez. Mas Reita foi rápido em subir as escadas e me puxar pelas costas, ele mesmo se desequilibrando ao tentar manter nossos dois corpos, caindo quase espremido entre os degraus e corrimão bonito de metal dourado. Segurando meu corpo com força de costas contra o seu.
– Shiroyama-sama! – A empregada chamou assustada logo se adiantando para ajudar o patrão."
O tombo e o peso dos braços de Retia contra minhas costelas deviam doer, minha própria mão usada como arma contra Aoi deveria estar doendo. Eu sabia que ainda estava imune às sensações desagradáveis que seriam resultado certo de minhas atitudes por conta da raiva e do sangue quente.
– O que foi que você fez com ele seu idiota? – Gritei com Aoi tentando usar de chutes e esperneio para me livrar do aperto de Reita.
– Shiroyama-sama... – Ouvi a voz feminina levemente assustada.
– Está tudo bem! – Ouvi Aoi responder para ela.
– Eu vou buscar gelo para o senhor. – Ela disse desviando de mim e de Reita no chão enquanto procurava a melhor forma de descer as escadas que estávamos interrompendo.
– O que Kouyou disse para você? – Ele perguntou, não o vi, apenas senti seu corpo se sentando em um dos degraus.
– Idiota! – Gritei forçando meus dedos contra os braços de Reita para me soltar.
Não imaginei que conseguiria até me ver capaz de alcançar Aoi novamente. Ele estava sentado, mas não me importei em atingir-lhe mais uma vez, agora nas costelas. A força tirei da resposta para a pergunta idiota dele, que não estava em palavras, mas sim na forma desesperada com que Uruha chegou chorando em minha casa.
Ele não precisava dizer nada, aqueles soluços desesperados despejando lágrimas para magoar o rosto bonito diziam tudo. Os olhos pequenos ainda mais apertados ao se forçar a expelir cada gota; Uruha não ficava nada bem chorando.
Não foi nenhuma novidade sentir o braço de Reita enroscado em minha cintura mais uma vez. Desta vez eu fui jogado contra os degraus e Akira estava usando o peso do próprio corpo para me manter ali. Fingi não ouvir ele me pedir para que acalmasse.
– Takanori, eu não fiz com Uruha nada que ele não quisesse, pedisse e consentisse. – Ouvi a voz de Aoi vindo de algum lugar.
Tentei me soltar mais uma vez de Reita, mas foi impossível. Mesmo que eu estivesse batendo inclusive nele.
– Aoi não estimula! – Reita disse com a voz normal.
– É a verdade. Não vou ficar tomando soco de graça. – Ele disse e eu e ri.
Da forma como ele falou, ficou parecendo que a vítima era ele. Idiota.
– Me deixa bater nele... – Disse tentando forçar os ombros de Reita para longe sem sucesso.
– Não! O que você fez já foi demais! – Reita respondeu. – Deixe-me te levar pra casa, você saiu correndo. Emi deve estar preocupada.
– Você não ouviu nada do que eu disse sobre Uruha na cozinha.
– Ouvi. Mas conheço Yuu. Se ele disse que Uruha concordou, eu acredito.
– Sai de cima de mim seu idiota! – Reclamei tentando socar o ombro dele, tenho certeza que devido à posição não foi com um terço de força do que os socos que dei em Aoi.
– Só vou soltar você quando me deixar te levar pra casa.
– Ai.. – Ouvi o gemido de dor de Aoi e a imagem dele surgiu atrás de Reita com a mão espalmada sobre as costelas do lado direito. – Se eu consigo entender um pouco da sua visão sobre mim, creio que você não ache o fato de eu ter feito alguém chorar seja incomum. Incomum é você estar aqui ao invés de estar ao lado dele. – Disse e passou por nós, subindo os degraus devagar.
– Sai de cima de mim! – Pedi mais uma vez, forçando os ombros de Reita para longe.
Akira cedeu, saindo de forma lenta sem tirar cem por cento do peso de cima de mim. Somente neste momento percebi que ele estava novamente com a faixa no rosto, mas não dei bola. Ele se ajoelhou um degrau abaixo do que eu estava, se ajoelhando de frente para mim como se ainda esperasse que eu me erguesse e corresse escada acima atrás de Aoi.
– Você bate bem para uma criatura de um metro e meio. – Ele disse tentando usar um pouco de humor.
Apenas empurrei o ombro dele para a lateral, me dando impulso para levantar e passagem para sair dali. Não estava com humor para ficar o ouvindo tentar fazer piadinhas. Naquele momento eu queria distância inclusive dele, aquele clima cheio de ansiedade e expectativa que deixamos dentro da cozinha de casa havia ficado para trás, perdido pelo cômodo e consumido pelo ambiente.
– Hey... – Senti-me foco de seu olhar, mas só continuei descendo.
A empregada de antes estava voltando com uma bolsa de gelo e subiu escada acima. Ela não olhou diretamente para mim quando cruzamos o caminho, mas ouvi um gemido de força vindo de Reita assim que ela passou por ele na escada. Olhei de relance e vi que estava em pé e descendo as escadas para vir atrás de mim.
– Me deixa... – Adverti assim que os passos rápidos dele me alcançaram.
– Vou levar você para casa. – Ele disse.
– Eu moro logo ali, Reita. Sei andar sozinho pela rua. – Reclamei.
– Eu sei. Só não sei como você age de cabeça quente, nunca imaginei você batendo em ninguém com tanta raiva. Naturalmente você já tem facilidade em sair do mundo real, tenho medo de você andando na rua com a cabeça em outro lugar, movido por raiva.
– Não me enche! – Continuei reclamando.
– É só fingir que não estou aqui.
– Eu não preciso de babá.
– Não quero ser babá, quero ser sua companhia. Na verdade eu só não quero que você seja atropelo por estar com a cabeça no mundo da lua.
– Não chega a dar duzentos metros de distância.
– Quer dizer que no futuro, quando você ficar irritado com algo, não vai querer nem minha companhia? – Me perguntou de forma bem introspectiva.
Aquilo foi engraçado de alguma forma. Pelo menos o suficiente para fazer meu mau humor ceder um pouco.
– Desculpe pelo soco no ombro. – Disse por dizer, bem no fundo achava de verdade que ele não tinha nada que ter me segurado.
– Pelo soco no ombro beleza, agora... por todos os chutes e tapas enquanto você esperneava, uff... – Soltou o ar em uma bufada forçada, e eu me perguntei seriamente como ele conseguia manter o humor naquela situação.
– Chegamos Capitão América, pode dizer que graças a você a donzela chegou a salvo do perigo. – Disse me adiantando para a área de casa.
– Hey! Nem um convite para entrar? – Ele ralhou, e eu ri.
– Não é porque eu estou irritado com a situação que você precisa fingir que não vai voltar para a casa do Aoi. – Ele ficou me olhando de um jeito estranho, achei melhor me justificar mesmo sem entender. – É o seu amigo, sei que está tão preocupado com ele quanto eu com Uruha. Não nascemos grudados em ninguém Reita, obrigado por me acompanhar. – Disse, deixando estas palavras como minha despedida. Vi antes de fechar a porta completamente que ele estava sorrindo.
– Takanori! – Ouvi minha mãe assim que terminei de fechar a porta, e aquele tom não era bom. – A minha vontade agora é de sentar a mão na tua cara, e só não faço isso mesmo porque não seria fácil me fazer parar de te surrar.
Ali eu vi que ela estava braba de verdade, pois raras foram às vezes em que apanhei. Mas nunca tinha visto ela com aquela cara, ainda mais dizendo que se começasse não pararia de me bater. Credo. Pelo menos eu podia dizer que tínhamos a personalidade parecida, mas eu não ia apanhar da minha mãe depois de grande por causa do Aoi. Não mesmo.
– Desculpa... – Pedi baixinho, meio incerto.
– Como é que você sai correndo daqui daquele jeito, sem dizer nada, me deixando para trás com aquele garoto quase desmaiando pelo choro? – Ela gritou.
– Uruha não estava conseguindo falar, então fui direto na fonte. – Tentei me justificar.
– Você não é mais uma criança Takanori, este tipo de atitude irracional é inadmissível. Se Reita não estivesse aqui para ir atrás de você, o que eu teria feito?
– Desculpe, eu fiquei nervoso com o estado do Uruha.
– Aonde você foi? – Ela perguntou, e eu engoli em seco sem querer responder. – Você é um menino de dezesseis anos com muita liberdade para entrar e sair de casa quando bem entende sem prestar justificativas, é bom me responder se não quiser começar a perder seus privilégios.
– Fui até a casa do Aoi. Entrei em pânico quando vi Uruha daquele jeito e só consegui pensar em tirar satisfações com Aoi.
– Tirar satisfações com Aoi antes de ouvir o próprio Uruha. – Ela disse parecendo perceber algo diferente em mim, ao acompanhar o olhar dela vi minha mão absolutamente inchada. Sorri amarelo e coloquei as mãos para trás, a ouvindo bufar. – Infantil Takanori. Você está na fase de transição para a vida adulta, e como tal, vai ter que lidar com situações que te desafiam e te tiram da zona de conforto o tempo todo. Não vai poder resolver tudo com punhos e dentes.
– Onde...Onde está Uruha?
– Dormindo. Tive que dar um remédio para fazer ele se acalmar e apagar. Vou pegar gelo para você colocar na mão.
– Ele chegou a falar alguma coisa? Aoi...
– Ele não foi forçado a fazer nada, se foi isso que você achou. – Ela me respondeu indo até a cozinha. – Vem junto pra pegar o gelo, eu vou ter que ir na casa do Uruha dizer pra mãe dele que ele vai dormir aqui, porque ele não vai acordar tão cedo com o remédio que eu dei pra ele. Faça-me o favor de se aprontar para dormir também, a mãe dele é louca da cabeça, se cismar de vir aqui buscar o filho ainda vai me acusar de dar drogas para ele se te ver acordado e só ele dormindo.
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Aoi
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Olhei para o meu olho que já estava bastante inchado e ficando roxo, através do espelho. Se eu entendia o motivo de tê-lo ganho, sim. Se achava que o merecia, não.
Eu não menti para Kouyou, ele sempre soube quem eu era. Não o obriguei a ficar comigo, não o persuadi para transarmos. Eu não fiz com ele nada que ele não quisesse ou pedisse naquele momento.
Ele podia ter dito que era sua primeira vez, mas não o fez. Não mudaria o fato de quem eu sou, mas teria perguntado se havia algo em especial que ele quisesse para aquele momento. Se ele saísse com algo envolvendo sentimentos, nós não teríamos transado.
Porque eu gostava do Kouyou, ele era um amigo legal. Eu jamais faria sexo com um amigo se ele me revelasse coisas como "Esta é minha primeira vez e amo você".
Porque ele é meu amigo. Apenas e nada mais.
Na verdade a burrice foi transar com um amigo, isso jamais daria em coisa boa. Normalmente gerava fim de amizade, tá certo eu que fui tonto. Mas Uruha era meu parceiro de festas, o cara que saía comigo todas as noites e ficava com outros caras sem compromisso e nem apego.
Eu devia ter ouvido minhas intuições desde a primeira vez que ele entrou dentro desta casa sem ser convidado. Não devia ter me deixado conquistar pela amizade do Takashima, devia tê-lo feito sair da minha casa assim que senti o primeiro indício de que aquele menino era problema.
Por que não fiz? Não sei.
Desde de o começo reclamo por ele ser espaçoso e folgado. Veio na minha casa sem ser convidado e já chegou de mala feita para passar a noite aqui. Noite que virou final de semana. E isso nunca mudou, ele sempre aparecia na minha casa sem ser chamado. Eu podia ter barrado a entrada dele desde o início, mas ao contrário disso, quando a amizade ficou grande passei eu mesmo a chamá-lo.
Bravo Aoi. Brevíssimo! Fique feliz por ter beijado seu amigo por impulso em um show, tanta gente desconhecia com as emoções à flor da pele distribuídas pela casa cheia e você tinha que enfiar a língua justa na boca errada.
Ele estava do lado. Ele também não tinha ninguém. Ele que sempre ficou com pessoas do mesmo jeito que eu.
Eu sempre me senti tão orgulhoso de saber ler as pessoas com facilidade. Amigos, casos, desavenças, até mesmo Ruki eu era capaz de ler com facilidade. Não consigo compreender como Uruha conseguiu esconder, ou como não fui capaz de ver o interesse verdadeiro dele em mim.
Confesso que senti que não daria em boa coisa quando o beijo foi trocado com facilidade. Mas eu sou humano afinal, e como disse, o beijo fluiu de uma forma tão boa. Sinceramente não me lembro de ter dado um beijo tão gostoso em alguém antes.
E sério, eu já devo ter beijado a escola inteira. E um pouco mais.
Mas ainda assim, tudo teria ficado naquele beijo. Ou deveria ter ficado.
De alguma forma eu sabia que ele viria atrás de mim, como amigo. Ele sempre se meteu na minha casa sem ser convidado, sabia que ele viria atrás para saber o que tinha acontecido. Por isso ordenei que ninguém além de Reita e Joe poderia entrar naquela casa.
Não foi surpresa quando a empregada veio me comunicar que "aquele garoto" tinha aparecido, e confirmar que até mesmo a entrada dele devia ser barrada. Surpresa foi que na segunda-feira, após uma longa e maçante conversa com o médico oficial que viera examinar minha mãe, ele estivesse no meu quarto.
O encontrei sentado na minha cama. Emburrado ao me contar, como se não tivesse sido uma ordem minha, que sua entrada havia sido barrada. Então ele tinha escalado até a janela por queria me ver.
Eu não estava apto para aturar a personalidade de Uruha, o médico tinha acabado de me contar uma história nada bonita de como seriam os próximos dias de minha mãe. Ele inclusive tentou de todas as formas me convencer de que com o histórico médico dela e sua atual condição, eu poderia mover uma ação para autorizar o "fim" da cansativa batalha dela na justiça.
Eu entendi que ele estava apenas me dando uma opção de encurtar a dor, minha e dela. Mas não era algo que eu queria ouvir em momento algum, para mim ele poderia surgir com um sorriso nos lábios e dizer que tinham descoberto uma cura milagrosa para aquilo. Até se fosse algo experimental, eu acho que faria a loucura de congelar ela para tratar mais tarde.
Mas ele só quis falar de eutanásia. Engraçado era que eu era a favor do método, mas era diferente quando alguém que você ama está nesta situação. Uma parte de mim sabia que manter minha mãe viva era egoísmo, outra parte de mim era fraca o bastante para ceder a este egoísmo para não sentir remorso por desistir dela.
E no meio deste turbilhão, havia Uruha sentado em minha cama. E o beijo que fluíra com tanta facilidade na noite de sábado; Memórias misturadas ao momento presente para criar o refúgio perfeito para eu não ter que pensar na situação difícil em que estava.
Um beijo foi trocado para me lembrar de como ele fazia aquilo muito bem. O segundo beijo foi trocado simplesmente porque eu queria mais, ele parecia querer também. No terceiro beijo ficar na mesma posição estava deixando meus músculos rígidos e doloridos, havia uma cama ali, não via motivos para não nos deitarmos ali. Ele não mostrou nenhuma objeção.
A partir do quarto beijo o contato completo entre os dois corpos quentes sabia o que exigir de cada um. Sei que senti seus dedos se apertando contra minha camiseta e uma de suas pernas passando sobre uma das minhas quando preferi mudar de posição e sair do seu lado para ficar em cima de si. As mãos dele não pararam, as minhas também não.
Em algum momento ele largou minha boca para gemer, mas em nenhum momento pareceu hesitante. E todos os passos seguintes foram dados em perfeita sincronicidade; como se fizéssemos aquilo sempre, já há muito tempo.
Se eu tivesse exigido um pouco mais de Uruha talvez tivesse percebido a falta de experiência, mas ironicamente o que mais me sobressai em lembrança, é o fato de ter ficado empolgado com a ideia de estar tão aceso por causa do excesso de contato. Por ter o foco da excitação em seus beijos e toques. Por ter recebido aquele tipo de estímulo daquela forma tão... gostosa pela simplicidade.
Não. Não tinha como me arrepender por ter vivo aquilo. Foi uma boa experiência até Uruha começar a falar coisas estranhas depois do final. Fui claro e sincero com ele depois de sua declaração, também nunca menti para ele sobre quem eu era. Não o forcei a dar nenhum passo, ele quis ficar comigo ciente de quem eu sou.
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Ruki
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Um linda terça-feira de manhã tradicional. Tradicional ao nosso estilo, Uruha acordou parecendo uma boneca de pano falante que não cala a boca nunca, Kai chegou mais cedo na minha casa para filar um café da manha da minha mãe e Miyavi inspirado em mostrar para o moreno que a melhor calda para wafer era sua saliva.
A diferença era que Uruha estava xingando Aoi pelos cotovelos. E pela primeira vez assistir ao lado de Uruha, a forma como Miyavi e Kai eram melosos estava me deixando irritado.
Nenhum dos dois pombinhos pareceu perceber que toda vez eu o nome de Aoi era citado por Uruha era junto de uma reclamação. Isso me fez sentir mal, pois eles pareciam comigo quando mandava minha cabeça para outro mundo e só concordava com as coisas que Kouyou dizia e fantasiava com Aoi, sem de fato prestar atenção e ouvir o que ele dizia.
Outra coisa irritante era que já estava provado por "a+b" que a forma como aqueles dois se agarravam me atingia profundamente. E eu não falei nada pro Uruha sobre o que o surto de choro dele interrompeu ontem, mas a verdade é que eu pensei sobre isso a noite toda.
Engraçado que a noite em que quase no beijamos –pela segunda tentativa- foi também a noite em que quase poderíamos ter brigado. Teríamos se tudo dependesse apenas de mim. Mas acho também eu foi a primeira vez que vi Reita se impor, e tinha gostado disso.
Ele era um fofo com toda paciência e passividade do dia-a-dia, mas foi interessante ver que ele podia tomar as rédeas da situação quando foi preciso. E de noite sozinho enquanto Uruha dormia, depois de me contar tudo, porque não havia remédio no mundo que manteria Kouyou dormindo enquanto eu não o fizesse contar tudo, me senti incapaz de não perceber o quanto Reita era forte. Achei de verdade que, tirando o fato dele estar me impedindo de bater no amigo dele, ele estava me imprensando com muita força contra o chão e isso teria sido quente por outro motivo senão a raiva que estava sentindo de Aoi naquele momento.
Mas enfim...
Kai pareceu só perceber que havia algo anormal com Uruha quando entramos na sala de aula e Kouyou puxou uma classe para sentar ao meu lado, exatamente da forma como fazíamos antes de Uruha se mudar para o lado de Aoi. Yutaka sentou em sua classe, que ficava do meu outro lado e ficou olhando para Uruha como se ele fosse um ET.
– Ó, você percebeu! – Resmunguei para Kai quando o mesmo ficou olhando de mim para Uruha em busca de uma explicação.
– Não quero ficar perto do Aoi. – Uruha disse de forma simples enquanto já se adiantava e tirava o livro de história da mochila antes mesmo do início da aula.
– Que parte importante desta história eu perdi? – Ele perguntou, mas eu me mantive quieto, mas Uruha bufou.
– Eu fui até a casa do Aoi ontem depois da aula. – Disse meio sem pensar, talvez pensando na ordem cronológica das coisas.
– E daí foi barrado de novo. – Kai concluiu de forma fácil, talvez pensando que a irritação de Uruha pudesse ser superficial.
– É – concordou – Daí invadi a casa dele.
– Você o que? – Kai disse alto, recebendo um belo "chh" de Uruha que fez o moreno olhar para todos os lados na sala antes de prosseguir.
– Invadi mesmo ué. – Uruha deu de ombros.
– Tá. E... – Incentivou sem perguntar.
– Quando o Aoi entrou no quarto dele e me viu ele estava com uma cara estranha, inchado e com olheiras, eu achei naquele momento...não espera, na verdade eu acredito mesmo que tinha chorado. Aquela foi uma visão que eu nunca esperei ver. Percebi que quando ele me viu, ele enxergou apenas alguém eu poderia tirar a cabeça dele de algo ruim. Então eu não falei nada quando ele só me olhou e me beijou.
– Da forma como você está contando isso não parece que foi uma coisa boa. Não exatamente isso que você queria?
– Não! – É. Quem respondeu essa foi eu me metendo. – Porque isto daqui – apontei para o loiro – É um idiota.
– Para Ruki, não é tão simples. Aquele desgraçado beija gostoso. – Disse a segunda parte em tom choroso, como se estivesse se lembrando de como a memória do beijo era boa, deixando a testa bater no tampo da mesa. Como se lamentasse o fato de não saber que não teria mais do que a memória.
– Foco Kouyou! – A curiosidade de Kai falou alto, em voz e tom.
– Ahh – Uruha reclamou por ser pressionado, ou por ter sido tirado de suas lembranças – Porra você sabe, a gente começou a se beijar, estava bom, a expressão dele começou a mudar, eu me senti todo especial por estar fazendo ele se sentir bem, as coisas acabaram esquentando e naturalmente...
– Ai meu Deus – Kai disse boquiaberto ao concluir o óbvio. – Vocês transaram!
– É.
– Mas você não está feliz. – Kai continuou, tentando pegar algo que pudesse ter deixado passar.
Para mim antes bastaria dizer que Aoi era um bastardo. Mas o fato era mesmo que Uruha era idiota o bastante para amar um bastardo, e admitir isto com orgulho.
– Ano... – Uruha começou já engolindo seco tentando dissipar uma camada fina de lágrimas dos olhos. – Eu achei mesmo que tinha sido algo muito especial, já vi Aoi fazendo sexo inúmeras vezes naquelas festas idiotas. Tudo tão sensual e coreografado; parecia cena ensaiada de filme pornô. Quando tudo entre a gente aconteceu tão naturamente, de forma simples e realmente gostosa, sem nenhuma pressão ou passo a passo, quando tudo isso aconteceu desta forma eu realmente acreditei que tinha sido algo especial. É difícil de explicar, Aoi é realmente explícito neste assunto, mais explícito do que você masturbando Miyavi publicamente achando que nenhum de nós perceberia, até o Ruki percebeu. – Ele disse do nada, me fazendo arregalar os olhos. – Mas naquele momento eram apenas beijos que quanto mais eram trocados mais sensíveis nos deixava; nós dois. Foi tudo perfeito, dolorido –disse de canto- mas perfeito. E eu estava tão feliz e satisfeito que resolvi dizer isto para ele, disse que ele tinha me dado uma primeira vez incrível. Ele se mostrou surpreso, mas ainda sorriu e perguntou como meu corpo estava, se não tinha me machucado muito. Depois da demonstração de atenção eu me senti ainda mais encorajado e acabei confessando. – Contou e parou por aí.
– Uru-chan... – Kai chamou depois que ele já estava em silêncio por uns doze segundos.
– Aoi disse que não sentia o mesmo, e que se tivesse percebido qualquer indício de sentimento na nossa brincadeira jamais teria se quer me beijado durante o show. Me xingou por ter mentido para ele e me deu os parabéns por ter conseguido fê-lo acreditar que eu era uma pessoa promíscua. Porque era assim que eu tinha feito ele me ver, então era assim que ele me via. Havendo sentimento, ele não tinha mais nenhum interesse em mim. – Uruha disse tudo em um fôlego só, e após dizer tudo suspirou. – Pelo menos ele é sincero. – Disse baixinho.
– Que insensível! – Kai disse alto, chocado.
Neste momento Aoi entrou na sala, e sua atenção foi captada pela fala de Yutaka. Uruha deitou a cabeça na classe, olhando para mim com o intuito de esconder que estava quase chorando a decepção novamente.
– Ah! Mas parece que você pelo menos soube responder a falta de sensibilidade dele à altura Uru. – Kai voltou a falar baixo, claramente admirado com o olho roxo de Aoi.
Confesso que também fiquei. Não achei de verdade que tinha sido pra tanto, o olho de Aoi já era naturalmente mais fechado do que de qualquer um, depois do soco quase não dava para percebê-lo aberto. Julguem-me, mas senti-me muito orgulhoso de mim mesmo.
– Não foi o Uru – Respondi para Kai, deixando Uruha curioso; eu não tinha dito que tinha socado a cara do Aoi.
– O que? – O loiro perguntou levantando a cabeça e procurando Aoi na sala. – Ruki! – Sim, ele me repreendeu pelo ato.
– Foda-se! – Reclamei dando de ombros.
– Eu achei bem feito! – Kai apoiou. – Por que não me contaram antes?
– Não queríamos interromper a endoscopia lingual que você estava fazendo no Miyavi. – Reclamei. – Vocês não cansam não hem?
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Eu achei que Kai se sensibilizaria com a situação de Uruha e pelo menos hoje, não nos faria assistir cine prive no intervalo da escola. Como ele podia chamar o Aoi de insensível e depois ficar esbanjando todo o amor e mel entre ele e Miyavi para todo mundo ver?
Era previsto que Aoi não se aproximaria. Não me surpreendi quando, precisamente cinco minutos antes do intervalo ele se levantou e falou algo com professor referente ao olho estar incomodando, e sair da sala. E descobri exatamente onde ele foi quando chegamos no pátio e vi ele e Reita no ponto mais distante possível.
Senti, nada satisfeito, que aquilo seria uma prévia dos meus próximos dias. Kai e Miyavi não pareciam ter noção de que ver o melado em que estavam era desagradável, então Uruha e eu nos afastamos um pouco para poder respirar. Ele não queria ficar perto de Aoi por motivos óbvios, e Reita não iria sair do lado de Aoi também por motivos óbvios.
Acabamos nós dois sentados em um banco desocupado no meio do pátio. Ele falando sem parar de Aoi, reclamando ora por ele ser um insensível, ora por eu ter batido no amorzinho dele. E eu prestando o mínimo de atenção possível em Uruha, bem mais interessado em Reita lá do outro lado do pátio, que ás vezes parecia estar olhando para mim.
Até que vi ele tirar algo do bolso e dez segundos depois eu receber uma mensagem no meu celular, dele. Daí tive certeza de que ele estava mesmo prestando atenção em mim, talvez tão a fim de estar mais perto quanto eu.
Ele não deixaria Aoi.
Eu não deixaria Uruha.
Pelo menos era mais fácil de não prestar atenção no distúrbio amo/odeio Aoi de Uruha enquanto digitava no celular. Droga, isso sim é perseguição. Agora eu quero e posso me manter aberto ao que sinto por ele, daí Aoi e Uruha tinham que aprontar essa.
Pra ajudar, eu tanto pedi que agora era um menino que trabalhava. Caso contrário poderia ir até a loja de Joe à tarde e matar o tempo por lá, talvez esperar Reita precisar fazer algo no estoque e quem sabe conseguir alguma coisa. Mas não.
Naquela tarde minha mãe me deu uma lista enorme de tarefas e todas elas envolviam ir em lugares diferentes desde banco até tabelionato e corpo de bombeiros. Porra.
No dia seguinte a arquiteta da casa de shows entregou sua versão profissional do desenho da sala de Emi e eu passei o dia com minha mãe atrás de artigos de acabamento e promoções em casas de decoração. Na quinta, outro setor da casa de shows foi aprovado para seguir em obras e minha mãe me passou todos os detalhes da casa noturna que organizaria festas semanais naquele ponto do prédio.
Na sexta, o corpo de bombeiros apontou um problema no projeto de saídas de emergência da parte onde seria a boate, e Emi me mandou fazer outra pequena correria para refazer o texto do pedido de autorização, pois as ditas saídas estavam corretas de acordo com as normas e uma nova avaliação deveria ser feita pelo chefe dos bombeiros no local. No sábado Emi e Joe foram atrás de bons equipamentos de áudio e luz para a boate e Reita ficou responsável pela loja, eu até apareci lá, mas ele e Aoi estavam atolados em serviço.
Pelo menos combinamos de nos encontrar no domingo na casa dele.
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Eu ainda não quis tocar o interfone, mas não foi difícil ligar par e dizer que estava ali embaixo quando cheguei. A subida até o apartamento teria sido silenciosa se Reita não tivesse segurado um ponto com graxa no corrimão e não tivesse praguejado por isso o caminho todo.
Murmurando algum "fique à vontade" enquanto corria até o banheiro para lavar as mãos. E com fique à vontade ele deve ter querido se referir ao fato da avó dele estar com roupa de ginástica no meio da sala com uma bola azul gigante, praticamente fazendo acrobacias nela.
Muito bem, aliás. Eu sei que eu não conseguiria estar empurrando aquela bola pernas acima até que ela chegasse às pontas dos pés deitado do jeito que ela estava; a mulher parecia um "v" gigante.
– Konnichiwa¹ – Cumprimentei na reverência bonitinha do jeito que mamãe ensinou.
Em um momento em que ela não estava em nenhuma posição elaborada daquele negócio. Certamente não queria ser responsável por assustar a avó de Reita e fazê-la quebrar a bacia.
– Ah Takanori-chan! – Ela sorriu fazendo um gesto claro com a mão, para que me aproximasse.
– Eu não quero atrapalhar.. é... – O que raios era aquilo que ela estava fazendo?
– Pilates! – Ela me disse com um ar de indignação por eu não reconhecer o troço que ela estava fazendo. – Venha e sente-se aqui que eu vou te mostrar.
– Ahr...eu não acho que consiga...
– Venha e sente-se aqui. – Ela disse de um jeito que eu apenas me vi movendo um pena frente do outro até chegar onde ela estava. – Bom garoto agora deite-se.
– Oi? – Reita, socorro!
– Deita! – Ordenou. – E relaxe. – Claro, muito relaxante.
Deitei. Mas deitei com todos os meus sinais de alerta ligados. Onde diabos estava o Reita? Tão difícil assim tirar graxa das mãos, caralho?
Mas para minha surpresa ela só me pediu para respirar, algo como puxar o ar curto pelo nariz e soltar longo e suave pela boca enquanto ela apertava minhas costelas no intuito de me mostrar como elas deviam ficar fechadas. Cada vez que eu soltava o ar ela ficava repetindo uma sequencia de coisas que supostamente eu tinha que fazer.
– Solta o ar, solta os ombros, afunda o peito, mergulha as escápulas, fechas as costelas, puxa o períneo... – A lista era quase interminável, e o ar tinha que durar toda ela.
Mas a avó de Reita falava de um jeito que me lembrava minha mãe, então achei legal. Acho que pela quarta ou quinta vez que ela pediu para eu repetir aquilo, eu já estava achando bom. Então evoluiu o exercício e pediu para que eu puxasse ainda mais o períneo no final, até que meu sacro ficasse colodo no chão.
Cara, eu estava fazendo exercício de vó. E estava gostando!
– Mas o que? – Virei imediatamente para onde vinha o som da voz de Reita.
– Estou ensinando os fundamentos básicos de pilates pro teu namorado.
– Vó... – Ele reclamou em um tom arrastado.
– Reclama agora, reclama! Vai me agradecer por "soltar" o quadril do garoto quando estiver bem animado pedindo para ele empinar o rab...
– Vó! Não, por favor!
– Me engana que não quer ver o traseiro dele bem empinado! – Disse e ela mesma riu da fala. – Takanori-chan vamos marcar para fazer aulas juntos.
– Ano... – Comecei, mas fui cortado por Reita.
– Ela está te trollando, Taka.
– Mas empina a bunda mesmo, não espere pra ficar com a bunda velha e caída como a minha para querer começar. – Ela sorriu fazendo um "certinho" com uma das mãos e voltou a puxar a bola azul gigante para fazer algum outro exercício. – Espere tua mãe sair para se trancar no quarto com o garoto.
– Eu já tinha pedido para você não me deixar com vergonha na frente do Takanori. – Ele reclamou e eu achei engraçado, normalmente Reita era mais maduro.
– Meu prazo de vergonha já expirou, velha demais pra me preocupar com isso. Aliás, uma das meninas da academia me ensinou uma expressão...
– Hum.. – Ele incentivou.
– Deixa de recalque Akira! – Ela disse da forma mais natural que pôde, mas foi engraçado e eu tive que rir.
Na verdade ri muito.
– É isso que eu ganho por te dar amor, nee. Vai ter volta vó. – Apontou.
– Vocês dois parecem duas crianças. – A voz de outra pessoa invadiu o local, uma que eu não conhecia; a mãe de Reita.
Alta, magra, altiva como a matriarca da família, mas com uma expressão mais pesada. Ela me olhou dos pés a cabeça de forma analítica e Reita pareceu perceber, pois se adiantou em nos apresentar. A voz dela era baixa e calma, desprovida de grandes emoções.
Durante o tempo em que ficamos conversando sobre quem eu era, de onde tinha aparecido e o que estava fazendo ali, a avó de Reita parecia isolada em outra dimensão focada apenas em suas séries de exercícios. Reita estranhamente adquiriu uma postura mais ereta e movimentos polidos de educação.
– Instale o console na sala, Akira. Não precisa sufocar o menino naquele quarto como você. Não fiquem a tarde toda jogando também, é domingo aproveitem melhor o dia.
A forma como ela falava carregava um peso desconfortável de atos medidos. Uma educação polida e mensurada. Parecia que até mesmo a forma como ela andava e se movia era coreografado e muito, mas muito bem ensaiado. Foi inclusive desconfortável tirar os olhos dela para responder à mensura feita por ela ao pedir licença para atender ao telefone.
– Respire Taka-chan – Disse a avó de Reita – Ela deve ter gostado de você, mas foi educada de forma a não demonstrar isto. Era assim que diziam que tínhamos que educar meninas quando eu a eduquei. E eu a eduquei assim, pois minha mãe também foi educada assim, e mãe dela, e a mãe dela...
– Eu acho que o prazo de vergonha da mamãe não vai expirar nunca.
– Eu também acho. Por isso optei por ser desavergonhada por nós duas. – Gracejou e o clima ficou leve novamente.
Bem no fim a mãe de Reita voltou avisando que não precisaria mais trabalhar naquele domingo. Nós ficamos um tempo na sala com as duas e depois fomos jogar vídeo game no quarto de Reita, com portas abertas.
Pelo menos eu pude passar um tempo com ele depois de toda a semana tumultuada, não falamos sobre Aoi e Uruha, mas também não falamos sobre nós. Achei mais uma vez que aquilo estava parecendo castigo, antes quando eu teimava em não admitir o que queria do Reita, não era tão difícil ficar a sós com ele.
Pelo menos no final do dia pude me despedir com a piadinha de que naquele dia tinha sido ele a nos deixar na mão.
