A luz que brilha em teus olhos trinta e três: Desencontrados reencontrados

Por Kami-chan

A crise entre Aoi e Uruha já estava me dando nos nervos, não que eu não entendesse os motivos do Uruha, e muito menos estivesse querendo a companhia do Aoi. Era só que sei lá, tinha um clima muito chato no ar. E já estávamos prestes a entrar na terceira semana depois que o grupo tinha praticamente se separado.

A fase "sonda gastrointestinal explorativa" entre Kai e Miyavi já tinha evoluído para lua de mel mesmo, e ninguém queria estragar isso; ao mesmo tempo em que ninguém aguentava. Aoi estava evitando cada vez mais ficar do nosso grupo e Uruha estava se fingindo de forte, mas ainda estava magoado demais com essa história toda.

E no meio de tudo isso, Reita ainda era o melhor amigo de Aoi, e eu o melhor amigo de Uruha. Tipo, tão distantes quanto os dois protagonistas da nossa divisão. Ainda.

De que raio adiantou eu ter admitido que amo aquele cara, aceitar a hipótese que existe um clima entre nós dois, e decidir deixar que as coisas fluam naturalmente para ver se acontece algo mesmo entre a gente, se agora nem conversar com Reita mais dá? Quer dizer, a gente conversa quase que o tempo todo através de mensagens, mas é tão difícil entender que agora eu quero estar fisicamente com ele?

É sério, eu fico aqui ouvindo e dando apoio ao Uruha, pra que ele consiga se fazer de macho perto do Aoi. Mas é como se eu fosse um fantasma, pois a certo ponto, não ouvia mais o que ele dizia de verdade, apenas concordava. Não tinha problema porque ele passava o tempo todo falando reclamando do Aoi, então concordar era fácil até sem ouvir.

E ficava quase o tempo todo lembrando de coisas, pensando coisas. Me mortificando por não ter deixado que Reita me beijasse nem que fosse naquele maldito jogo idiota que jogamos na minha casa séculos atrás, por não ter permitido que ele fizesse o mesmo no show dos Abomináveis quando a oportunidade surgiu, ou por ter sido interrompido por mais de uma vez quando isso provavelmente ia acontecer entre nós dois.

Eu quase parecia uma das meninas que o Aoi gostava de ficar, ou seja, tava parecendo uma cadela no cio. A ansiedade não me permitia pensar em tempo, ou momento certo como antes. Na minha cabeça, os dias que não passávamos mais juntos estavam apenas o levando, literalmente, para longe de mim.

Agora que eu queria, não tinha quase como me aproximar dele. Então percebi como fui idiota em um momento passado em que me senti feliz por ele dizer estar apaixonado por alguém, sim fui muito idiota ao pensar que ficaria mais forte ao ver ele com outra pessoa. Uma menina bonita como eu queria que fosse.

Eu estava neste momento quase morrendo apenas por ele estar lá, ao alcance dos meus olhos ao lado de seu melhor amigo, fazendo o mesmo sorrir da mesma forma como eu deveria estar fazendo o meu amigo aqui seguir adiante. Mortificado com a ideia de que em todas as vezes em que conversamos ou que ouvia ele falar sobre sentimento, talvez eles estivesse mesmo falando o tempo todo de mim.

Porque sim, em too este tempo eu pude rever e reanalisar todos os momentos que passei com Reita ou que o envolviam desde que nos tornamos amigos por conta do empréstimo de um CD. Ansioso demais para tê-lo ao meu lado em um momento que pudéssemos chamar só de nosso.

Ainda temeroso, eu confesso, por uma parte muito desconfiada de mim que insistia em dizer que meus amigos poderiam estar errados. Tudo o que eles queriam era que eu fosse feliz, mas eles poderiam sim estar vendo as coisas retorcidas, Reita poderia não estar apaixonado por mim. Todos aqueles quase beijos poderiam ser apenas fruto de uma atração inexplicável. Uma parte muito desconfiada de mim acreditava que se ficasse com ele hoje, eu poderia estar igual ao Uruha amanha.

Reita era o melhor amigo do Aoi, melhores amigos devem ter pelo menos algumas características em comum, não é? Irônico, como que o fantasma que eu carregava como encosto da incredibilidade nos seres humanos tinha sido jogado em mim como uma praga, justamente pelo melhor amigo do cara em quem eu quero tanto confiar profundamente.

Cara que depois de anos, pôde se mostrar mais uma vez indigno de confiança. Totalmente desacreditado.

Sentia pena de Uruha por isso. Não queria que ele mudasse também por causa daquele Zé ruela sem noção. Suspirei ao olhar uma última vez para e Reita e Aoi do outro lado do pátio da escola, eu percebia que de tempo em tempo Akira olhava na nossa direção com o canto dos olhos, e mesmo que eu quisesse pensar que ele tinha a mesma vontade que eu de estarmos próximos, foquei minha atenção novamente em Kouyou.

– Desculpe Ruki, você e Reita estão esfriando por culpa nossa. Eu prometo que nosso grupo logo estará unido novamente, eu só preciso ficar um pouco mais forte para aguentar o Aoi no mesmo ambiente que eu. – Ele disse, e eu ri.

– Se não fosse tão triste Kou, seria muito engraçado ouvir logo você falando assim do beiço largo. – Disse e ele sorriu.

– Eu devia ter te ouvido desde o começo, não é? – Perguntou com um sorriso amarelo.

– Não teria adiantado. Pelo menos agora você vê se deixa de gostar desse tosco.

– A ironia disso tudo, é que eu não consigo. Não importa o que ele faça, não consigo deixar de gostar dele.

– Qual é Uruha, ele é assim e nunca vai mudar. Você não merece um cara assim, quer dizer, Aoi não merece uma pessoa tão boa quanto você.

– Ele já mudou uma vez, mudou para algo pior do que ele era. Mesmo sem conhecer ele eu sei disso pelo tanto que pesquisei, se algo aconteceu que o deixou pior, eu posso consertar. Eu posso mudar ele de novo.

– É você tem razão, Aoi ficou pior com o tempo, mas você está se esquecendo de que mesmo quando ele não era esse merda que fez isso com você, ele também me decepcionou. E quando isso aconteceu nós éramos novos demais para ter algum desvio de personalidade. Ele é assim Uru, me desculpe eu sei que dói, mas ele é alguém que sempre vai decepcionar as pessoas que estão ao redor dele.

– Você está certo Ruki, por mais doa ouvir tudo isso. Mas neste momento eu continuo a dizer que nada muda o que eu sinto por ele. Se eu não tiver ao menos esperança, vai doer ainda mais. Sei muito mais sobre o Aoi agora.

– Ahh eu desisto. Tanto descolorante está afetando os teus miolos. – Disse dando um tapa leve na testa dele, ele sorriu e retribuiu dando um beijo em meus cabelos.

– Não é comum Reita e Aoi estarem juntos na escola no período da tarde, isso quer dizer que não vão trabalhar hoje. Eu vou pra biblioteca terminar alguma lição, e você trata de aproveitar esse tempo extra com o Reita.

– Não Uru, espera eu...

– Você vai se colocar no campo de visão dos dois quando estiver sozinho e eu tenho certeza que Aoi vai despachar o Reita da mesma forma como eu estou te despachando. Eu vou ficar legal Ruki. Eu já to legal na verdade, só preciso de mais um tempo mesmo. – Ele disse e se foi me dando as costas.

Eu senti um aperto no peito por deixá-lo ir sozinho para... pra onde ele disse que ia mesmo? Mas não era como se eu não estivesse louco para sair dali. Me colocar no campo de visão deles, foi o que o Uruha disse. Como se isso fosse fácil.

Era estranho, porque eu queria fazer exatamente isso. Mas não conseguia. Minhas pernas pareciam mais pesadas, e parece que pelo simples fato de eu ter consciência do que queria fazer e estar fazendo isso, era como se todos os alunos que estavam ali no pátio da escola soubessem. Era como se todos de repente estivessem olhando para mim, cutucando-se e apontando para mim. Era como se todos cochichassem coisas estranhas sobre mim e o que eu estava tentando fazer.

De repente me senti estranho, sabia que estava vermelho, e não conseguia mais olhar nem para os lados e nem para frente, principalmente no ponto do pátio em que passaria por eles. E mesmo querendo que eles me vissem e Reita viesse atrás de mim, ao mesmo tempo tudo o que eu queria naquele momento era ser invisível. Decidi por fim colocar meus fones de ouvido e ir me sentar no quiosque da escola, lá era confortável, não ficava diretamente no campo de visão de Reita e Aoi, e estava relativamente vazio.

Joguei minha mochila em cima de uma das quatro mesas cercadas cada uma por dois bancos compridos, e me joguei em um deles. Aproveitei da desculpa de ver quem mais estava no quiosque para olhar para os lados, e aproveitei para olhar, de forma não suspeita, na direção onde eles estavam. Aoi e Reita ainda conversavam sobre algo que os fazia sorrir, e concluí que ele não deixaria Aoi para trás para vir até aqui. Então me deixei levar pela música de olhos fechados para me concentrar melhor em meus próprios pensamentos.

Era estranho minha mãe ainda não ter me ligado ou mandado alguma mensagem, já era quase treze horas e dez minutos. Parecia estranho demais ela não ter tarefas para mim naquele dia, mais estranho ainda o fato de Reita e Aoi não estarem trabalhando também. Isso significava que a loja de Joe estava fechada.

Aquela semana estava sendo difícil, estava tentando me lembrar de quando foi que consegui conversar a sós com o Reita. Acabei me lembrando de que tinha sido na terça, dia em que temos inglês todos juntos, e na sequencia educação física sem a presença do Aoi.

A aula de inglês nunca é chata, mas a daquela semana tinha sido estranha, afinal foi a primeira vez que Uruha e Aoi tiveram que ficar próximos no mesmo grupo de trabalho, todo mundo tentou agir como se não tivesse nada errado, mas não deu certo. Nem mesmo o cara de pau do Yuu conseguiu agir normalmente.

A educação física pela primeira vez na vida foi a aula mais agradável do dia, uma vez que a situação que fizera a turma de Aoi ter aulas conosco nas últimas semana estava resolvida e deu pra realmente todo mundo agir normalmente. Nem fiquei brabo com os corações que os três patetas, nominados Kai, Uruha e Miyavi faziam com as mãos atrás de mim e de Reita, só pelo fato de ver Uruha sorrir de verdade. Até o momento em que ele se dobrou de rir de uma encenação de chaves que Kai e Miyavi faziam, mesmo que fosse para tirar com a minha cara, Miyavi combinava com o professor Girafales, e o Kai...bom, o Kai sempre seria uma ótima dona Florinda.

Foi um momento muito bom, onde todos sorrimos apenas por ver Uruha sorrir de forma verdadeira, enquanto eles zoavam de mim e de Reita fazendo passes. Naquele dia ele resolveu incluir Aoi na conversa de novo, algo sobre eu ser perigoso e ainda existir manchas amareladas no contorno do olho do Aoi.

Ele brincou que estava com medo de discordar de mim por algum motivo e apanhar, e eu ri. Apesar de depois de tudo, sem nunca sequer sonhar em admitir, pude compreender que aquela cena estúpida tinha sido realmente assustadora. Tá que fazia tempo que eu queria dar um belo soco no Aoi, mas quando a oportunidade veio, confesso que talvez tenha exagerado.

Eu achei que já estivesse claro desde quando ele me deixou em casa que eu não tinha guardado nenhum sentimento ruim dele ter interferido, ainda assim ele parecia estar buscando uma confirmação. Tonto, eu jamais teria quase me convido para ir à casa dele se não estivesse feliz com ele.

De qualquer forma, após observar que eu não estava bravo com ele por aquilo, ele acabou relaxando e rindo alto ao dizer que nunca imaginou que podia bater tão forte. Rebati dizendo que não sabia que ele podia ser persuasivo daquela forma. Disse "persuasivo" para não dizer que ele pareceu me imobilizar no chão com muita facilidade. Reita tinha um grito forte e grave, mas não precisava gritar para se fazer ser ouvido.

O foda era que se fosse em outra situação seria muito mais sexy do que assustador. Mas eu não diria isso a ele.

Aproveitei o foco da conversa para deixar bem claro que estava temendo de verdade o fato dele ser o melhor amigo do Aoi, e que pudesse ser parecido com o moreno nestes quesitos que fizeram o Shiroyama levar um soco muito bem dado. Ele acabou levando numa boa, dizendo que Aoi era apenas um fruto de circunstâncias, e que ele não era igual a sua melhor nem pior face, pois eram amigos e não a mesma pessoa.

Essa parte da história ficou meio tensa, pois foi a primeira vez eu acho, que conversamos de forma tão aberta, sem usar metáforas ou meias palavras. Sem me preocupar se estava sendo sincero demais quanto ao fato de que estava quase ditando regras para ele. Sem me importar se com aquilo estava confiando demais em algo incerto. Na verdade, depois de tudo o que eu estava sentindo, mais as coisas que meus amigos me diziam, mais os quase beijos que tivemos e as conversas que os precederam, parecia até que estávamos redigindo um contrato de casamento.

Era uma das coisas mais legais de se conversar com Reita, porque ele entendia meu humor destorcido. E ele sabia também que não importava o quanto ele falasse bem do Aoi para mim, não ia servir para eu deixar de odiar aquele espécime. Sem falar que esse tipo de diálogo também era bom para que Akira soubesse que se fizesse comigo o que Aoi tinha feito com Uruha...bom, pelo menos eu sei deixar olhos roxos.

Apesar de não ter entendido bem o que ele quis dizer com "Aoi é fruto da circunstância", eu já estava ouvindo demais sobre o imbecil do Aoi em consideração ao Uruha, o diabo pra falar sobre o Aoi com Reita também. Na verdade, era bom o da faixa saber que entre nós o assunto era sobre nós. Porém, eu quase abri mesmo a boca para perguntar por que a forma como Aoi agia era fruto das circunstâncias, mas o sinal tocou indicando o término da aula e como já tinha virado hábito, todos nós nos reunimos no palanque que ficava antes do corredor dos vestiários para conversar um pouco.

É, aquela tinha sido a última vez eu tinha conversado com Reita. O que era uma palhaçada do meu ponto de vista.

A música que estava tocando em meus ouvidos terminou no exato momento em que a memória tinha acabado, o que deixou tudo com um ar muito nostálgico de trailer de cinema. Sorri, tinha conseguido viajar até mesmo enquanto já estava viajando. Permiti-me cantar baixinho a música da sequência, aumentando o volume dos fones enquanto me deixava reviver cada uma das vezes naquele ano em que quase tinha ficado cm Reita, imaginando como seria cada uma delas se não tivessem sido interrompidas.

Droga! Será que se eu mandasse uma mensagem para ele, ele chutaria a praga do Aoi pra longe?

Com este pensamento abri os olhos, decidido a olhar diretamente para onde ele e Aoi estavam. Ficaria o encarando até que...

– Caralho! – Praguejei de susto.

Motivo: Tinha um Reita sentado do meu lado, com uma perna em cada lado do banco e a cabeça deitada sobre o braço esparramado sobre o tampo de madeira da mesa. Quase deitado em cima da mesa, me olhando.

– Filho da mãe! Você quase me matou de susto. – Continuei reclamando, de fato quase tinha morrido de susto.

Reita apenas ficou rindo, sem nenhuma vontade de se mexer na posição em que estava. E que não me parecia confortável, apesar dele estar com uma expressão muito preguiçosa na face.

– Foi mal. – Disse rindo – Você ia parar de cantar se me percebesse aqui.

– Quando foi que você surgiu aqui? – Perguntei ao me recuperar e lembrar que ele estava no outro lado do pátio com Aoi.

– Faz uns dois minutos, você já estava cantando. – Sorriu – Você pode continuar, eu fio quito aqui.

– Oi?

– Anda...canta mais um pouco, praga! – Insistiu, a forma como falava e o tom de voz carregavam o mesmo ar de preguiça expresso em seu olhar.

– Não mesmo! – Neguei rindo.

– Você não pode me negar isto! – Disse como se eu o tivesse o ofendido de forma grave.

– Ou senão... – Encorajei a birra.

– Hum – Ele revirou os olhos pensando em algo, sorriu. – Vou acusar você de ser um namorado que me diz "não", para minha avó! – Disse, ele mesmo rindo da besteira que estava dizendo.

Isso porque não havia contato assinado por Deus no mundo que fizesse a avó de Reita acreditar que nós não éramos namorados. O que era constrangedor por um lado, mas também era divertido.

– Idiota! – Disse dando um empurrão de leve no ombro dele, fato era que ele nunca tinha tentado de verdade explicar para a avó que eu era seu amigo apenas.

Para não se desequilibrar de sua elaborada posição sentado/atirado/esparramado sobre banco e mesa com meu empurrão, Reita ergueu o braço contrario ao que estava servindo de travesseiro para sua cabeça e buscou meu punho para segurar e ter força de se manter em posição. Ele devia estar mesmo com tanta preguiça quanto demonstrava, pois mesmo assim se manteve jogado sobre a mesa.

Mas também não era como se ele tivesse intenção de largar meu punho depois de se estabilizar. Isso me fez lembrar porque ele não se esforçava para explicar para a avó que eu não era o seu namorado. Afinal o que ele diria? Que éramos amigos, mas aquela era uma situação circunstancial?

O que me fazia lembrar de outra coisa também:

– Vocês estão de folga hoje? – Perguntei, ficando subentendido que era óbvio que se os dois funcionários de Joe estavam ali, eu queria saber por que a loja estava fechada.

– Tem um problema na rede de tubos de gás do shopping, está tudo fechado. Emi e Joe aproveitaram para sair da cidade e buscar coisas com preços melhores.

Bom saber que ele sabia onde estava minha mãe e o motivo pelo qual nem eu estava trabalhando. Me senti um filho muito prestativo e um trabalhador muito responsável por nem ter tentado saber onde estava Emi, minha mãe/chefe.

– Achei que a Emi tinha te mandado mensagem também. – Ele disse ao perceber minha surpresa. – Ela deve ter deduzido que estaríamos juntos. – Ele ainda deu de ombros no final, retardado.

Como assim minha mãe passa recados para mim, para o Reita? Pensei dois minutos depois que aquilo era um ato típico de Emi, sem me avisar ela provavelmente deve ter acreditado na garantia de que eu estaria com Reita, nem que fosse para ele me avisar.

– Coisas que só fazem sentido na cabeça da minha mãe!

– O que? – Só percebi que tinha dito aquilo em voz alta quando ele se manifestou.

– Nada, esquece.

– Onde está Uruha? Achei estranho quando você vindo sizinho para cá, esperei para ver se ele ia voltar antes de vir para cá. Mas ele não voltou...

– Ele viu você e Aoi na escola em horário de trabalho que quis... – ser discreto, er o que eu devia dizer, mas aquilo não me pareceu ser condizente com Uruha, mas ele me cortou.

– Sair da presença de Aoi? – Perguntou.

– Mais ou menos... – Respondi, pois não estava de todo errado. Só não tinha sido o motivo principal.

Ainda assim, o silêncio se fez presente e trouxe consigo um clima estranho. Nós tínhamos assuntos não resolvidos e eu não sabia se devia cobrar isto dele neste momento. De qualquer forma, todas as vezes que nos aproximávamos mais era por iniciativa dele, eu não saberia nem como agir.

Aquilo não era como abrir um livro no marcador e continuar lendo de onde a leitura tinha parado. Era constrangedor, era algo incapaz de ver e tocar, mas envolto em dúvidas e sentimentos insertos e contraditórios. Me senti um pouco invejoso de quem tinha facilidade com este tipo de coisas, pois este não era um dom meu com certeza. Bem como a falta da tal da paciência.

– Você não vai cantar mais mesmo? – Reclamou quando eu fiz um sinal negativo com a cabeça. – Por que será?

– Como...ué porque eu tenho vergonha. É meu direito, dá licença. – Reclamei usando o contato entre nossas mãos para sacudir o braço dele.

Sim. Era pra ver se daquela vez eu conseguia derrubar ele de verdade. Mas internamente eu podia ouvir uma das minhas vozes internas gritando que ele podia interpretar aquilo como um motivo para que eu mantivesse a boca livre para achar outra coisa pra fazer com ela.

E me senti com muita vontade de aquela pudesse ser minha voz de verdade, mas aquele tipo de coisa jamais deixaria de ser um eco interno. Reita burro, tinha que ser capaz de ouvir minhas vozes internas também. Baka.

– Achei que você já teria diminuído um pouco a vergonha. – Disse meio pensativo.

– Ah desculpa o botão que regula isso veio com defeito... – Disse de forma irônica.

Afinal o que ele queria dizer com aquilo?

– Está certo! – Ele sorriu, então prosseguiu – Ainda falta algo para quebrar seu excesso de vergonha. – Disse sorrindo, mas sem nenhuma intenção de se mover da posição em que estava.

– Então por que não faz isso agora? – Perguntei com força para passar por cima da minha vergonha. Deveria bastar para ele entender o que eu queria.

Minha voz tinha saído mais aguda do que o normal, e as palavras foram ditas em um tempo estranho, quase como um texto que fora recuperado logo após o esquecimento do artista e tivesse sido ditos as pressas, fora do contesto da peça. Salvo pelo som estridente do sinal escolar que tocou no exato momento em que eu tinha falado.

Percebi que Reita não tinha escutado meu pedido quando ele fechou os olhos e fez uma leve careta de incomodo com o som estridente que tinha nos cortado. E eu só fiquei ali, mirando incrédulo os lábios finos.

Eu sabia que não teria coregem de repetir minhas próprias palavras, a frase não faria mais sentido após todo o tempo passado. Mesmo que pela cronometragem, não tivesse passado mais de dez segundos. Mas estes segundos carregavam o peso de ter feito a oportunidade estar perdida.

Mais uma vez.

Eu não poderia suportar esta pressão por mais tempo, minha impaciência nata competindo com minha timidez e falta de jeito para aquele tipo de situação. Eu queria beijá-lo, e não queria esperar mais para isso, não tinha jeito depois que eu colocava uma coisa na cabeça.

E naquele momento a única coisa que rondava na minha cabeça com o peso redobrado de minha teimosia, era dar um fim nesta história mal contada.

Eu sei que não pensei naquele momento, talvez por isso tenha dado tudo tão certo. Eu não me senti capaz de aceitar naquele momento outro quase beijo, e sem saber exatamente o que eu pretendia ou para onde iria, puxei minha mochila de cima da mesa no mesmo rompante em que me ergui do banco.

Trouxe a mão de Reita junto com a minha, sem saber ao certo como tinha feito toda aquela manobra sem desenlaçar os dedos dele dos ém não sabia de onde tinha saído tanta destreza, mas é, eu fiz tudo isso antes mesmo de conseguir raciocinar sobre a consequência de meus atos. E saí cortando o pátio da escola, puxando ele com velocidade pela saída.

Incapaz de seguir uma linha lógica e racional, minha única ferramenta para selecionar o caminho por onde seguiríamos após cruzarmos o portão de entrada, foi escolher entre os dois sentidos de uma das movimentadas avenidas da cidade, qual dos lados havia menos movimento de pessoas. E segui por ele.

Sem soltar seus dedos, apenas percebi que não o puxava mais quando dobrei a primeira esquina á esquerda, saindo da avenida com ele caminhando lado a lado comigo. Contudo, a consciência de que éramos dois adolescentes andando com as mãos dadas por aí só me abateu quando já estávamos em um outro ponto movimentado do centro, quase em outra avenida, a que cruzava uma das maiores praças da cidade.

Mais precisamente, foram somente três quadras depois, quando já atravessávamos a praça, que a ficha caiu. Nós estávamos andando de mãos dadas em público. Estávamos caminhando por aí lado a lado de mãos dadas como um lindo casal, em público.

Tentei soltar minha mão da dele enquanto atravessávamos outra avenida movimentada, mas com um aperto mais forte, ele não me permitiu. Não consegui olhar para ele, provavelmente não conseguirei por um longo tempo. Apenas segui em frente até chegarmos ao outro lado e seguir pela esquerda, que fora o lado escolhido pelo mesmo critério de ser o com menos movimento.

E sem o peso extra da concentração em não ser atropelado enquanto atravessava a larga avenida, a vergonha caiu de forma realmente pesada sobre mim:

O que eu estava fazendo?

Estava levando ele para onde?

Quando chegássemos em algum lugar, o que eu pretendia fazer?

O que eu tinha na cabeça?

Então tivemos que parar de andar na primeira esquina por causa dos semáforos, e eu entrei em pânico. Em toda extensão da palavra.

O que estava fazendo? O que pretendia fazer? As dúvidas giravam na minha cabeça sem dar folga, me deixando tonto e com a visão escurecida, repetindo uma atrás da outra como o refrão de rimas chulas de uma música popular, daquelas que você escuta uma vez, detesta, mas mesmo assim não consegue tirar da cabeça.

Reunindo o limite da minha coragem, olhei para Reita ao meu lado. Ele estava totalmente concentrado no temporizador do semáforo, com um sorriso agradável nos lábios e uma expressão serena no rosto.

Voltei a encarar o chão, e involuntariamente estava tremendo. Minha cabeça estava leve demais, os pulsos pesados demais, eu não podia desmaiar agora. Haveria hora pior para ser um gatinho medroso? Ainda tinha oxigênio e consciência suficiente para registrar mentalmente o quão era ridícula minha situação.

Estava apavorado, Reita tinha uma aura de expectativas em torno de si e isso era culpa minha. Eu quem o puxou rua a fora, quem tomou a iniciativa desta situação deplorável.

O que eu ia fazer agora? To pedindo pra qualquer entidade me salvar, juro neste momento creio em todas as crenças religiosas e nem sei o que é ser ateu. Deus, dizem que você zela pelas crianças. Podemos começar nossa relação por aqui?

– Tudo bem? – Ouvi ele me perguntar após aumentar momentaneamente a pressão em minha mão.

O que ele queria? Que fosse presunçoso e dissesse que sabia o que aconteceria? Que eu fosse hipócrita e mentiroso, dizendo que ele certamente tinha entendido minhas intenções de maneira equivocada? Que eu fosse atirado e perguntasse para onde ele gostaria de me levar?

– Desculpa Reita, eu... – Sou um medroso que está morrendo de vergonha das próprias ações impensadas. – Eu não sei o que estou fazendo. Quer dizer, eu quero estar aqui com você. – Tentei me justificar ao ver o sorriso dele minguar rapidamente, transformando o brilho alegre em seus olhos em genuína tristeza. – Mas eu realmente não faço ideia do que estou fazendo no sentido literal da frase. Não sei para onde estamos indo, e se chegarmos a algum lugar não vou ter ideia do que tenho que fazer, ou não.

Ele pareceu levar alguns minutos até absorver tudo o que tinha sido dito, os semáforos do cruzamento abriam e fechavam em perfeita sincronia tornando o tempo quase possível de contar pelo padrão de aceleração dos mesmos. Eu estava voltando a ficar com vergonha do que tinha dito, ser sincero demais com Reita nunca fora uma escolha, mas desta vez eu me sentia tão exposto quanto se estivesse nu no meio daquele cruzamento movimentado.

Quer dizer, tem como as coisas ficarem mais claras do que isso? Não. Pelo menos não com a minha capacidade limitada de coragem e iniciativa. Aquele era o meu limite.

– Vem por aqui comigo. – Disse após um sorriso suave, me conduzindo pela mesma calçada em que estávamos, apenas dobrando à direita sem atravessarmos a rua.

Mordi meus lábios para tentar conter um sorriso idiopático que tentou contorcer meu rosto. Ele esta um passo a frente, e não veria esta reação sem sentido definido. Talvez somente por ver nossas mãos ainda conectadas enquanto ele me conduzia.

Para onde? Não importa verdadeiramente.

Quando chegamos mais ou menos na metade da quadra, a rua passou a ser calma. Era estranho, pois aquela era uma rua em plano centro da cidade, mas era calma e silenciosa como um bairro nobre. Apartamentos, consultórios médicos e mais a frente quase no fim da rua, uma creche de alto padrão, e entre eles o imenso espaço de uma antiga fábrica abandonada após um grande incêndio nunca resolvido, que tinha acontecido antes mesmo de eu ou ele termos nascido.

O grama tomava conta do terreno como uma ampla campina, poucos pontos de concreto ainda resistiam ao tempo. Um pedaço da fechada ainda se mantinha em pé, pois estava logo ao lado de uma viga reforçada, que apesar de destruída ainda mantinha sua função primordial. Alguns pedaços de roupas velhas e garrafas de bebidas vazias dividiam espaço com o ambiente abandonado, escondido do mundo em céu aberto.

Senti meu telefone vibrando no bolso da calça, mas preferi ignorar a notificação de mensagem. O presente era mais importante, manter as pernas firmes sabe. Deixar o silêncio predominante do terreno abandonado tomar conta do monte de coisas sem sentido que eu estava pensando; uma delas era o fato de que ali ninguém que conhecíamos iria nos interromper.

Não estranho estar ali, não era assim tão vergonhoso saber que nós dois sabíamos muito bem o que tínhamos ido fazer ali. Só era novo. Com um toque apimentado do desconhecido sendo descomplicado.

Achei que ele iria querer que eu dissesse alguma coisa, e prevendo minha incapacidade aproveitei o fato dele estar à minha frente para puxar o nó da faixa. Aquilo já era o bastante, certo. Aquele ato já tinha significado, e percebi que ele tinha entendido quando sorriu.

Reita desistiu de querer chegar onde quer que pretendia no meio daquele monte de mato e pedras destruídas pelo fogo. Usou a mesma união que nos conduzia pelo mesmo caminho, para me aproximar mais de si. E neste movimento nem percebi que em resposta aos seus braços em torno da minha cintura, minhas mãos foram parar em seus ombros.

Talvez tivesse muitas coisas paranoicas para pensar neste momento, mas escolhi a mais maluca delas para me concentrar somente. E me permiti curtir de forma positiva o bolo formado em meu estômago e forma descompassada com a qual meu coração batia cada centímetro a mais que ele se aproximava. Me permiti perceber de uma forma boa como esta proximidade me fazia sentir preso em um lapso de tempo preso no espaço em que nem mesmo o som dos pássaros ou o som do vento balançando o capim alto era ouvido.

Tudo além de nós dois pareceu tão distante e nulo que por breves segundos senti que talvez não tivesse sido tão ruim esperar por tanto tempo. E todas aquelas sensações de nervosismo pareciam tão boas que quase me parei para perguntar se estava ficando maluco; mas é provável que apenas estava feliz demais.

De qualquer forma, aquilo foi apenas um quase pensamento. Uma intenção prévia interrompida pelo lapso de tempo que passou. Passou, passou o bastante para que de fato pela primeira vez pude sentir e desfrutar da textura dos lábios dele sobre os meus. Aquele tempo congelado havia entrado em colapso e quebrado, em movimento, textura, temperatura e sabor.

E o retorno da consciência de todos aqueles sintomas; eu tinha certeza que a força com a qual meu coração batia não era sentido somente dentro da minha boca. Mas deixaria para me envergonhar disto somente mais tarde.

Havia forma e movimentos para serem descobertos agora. Com calma, em um lugar aleatório, seguramente longe de qualquer tipo de interrupção por parte dos amigos; o dele e os meus. Sem pressa, a tarde estava contando apenas suas primeiras horas.

.:.

O sol estava caindo, e o vento mais gelado de final de dia estava me deixando com frio. Havia horas que eu estava sentado na mesma posição, entre as pernas e braços dele até sentir uma corrente um pouco mais fria de vento passar, me fazendo contrair o corpo de frio entre seus braços. Reita passou a mão quente por todo o meu braço gelado, levemente arrepiado de frio.

– Quer ir para casa? – Ele perguntou ainda passando a mão de cima abaixo por meus braços, como se apenas por este gesto pudesse dissipar todo o frio.

Sorri, e talvez ele nunca entenda a verdade por trás deste sorriso. Mas é que agora eu podia ver e entender todas as coisas que Uruha e Kai me diziam de uma forma tão idiota e brega, porque tudo o que tinha acontecido naquela tarde tinha sido (e ainda estava sendo) tão malditamente idiota, e ao mesmo tempo tão bobamente maravilhoso.

Peguei meu celular para ver as horas, mesmo sem vontade nenhuma de sair dali. Já era quase seis horas da tarde, e era triste descobrir que já tinha passado da hora de ir para casa, afinal não morava tão perto assim. Nem bem a luz do visor tinha se apagado, voltou a ascender novamente, acusando pelo toque diferenciado e pela foto, uma ligação de Uruha que atendi pelo viva voz.

– Oi Uru.. – Disse sem muita vontade.

– Porra Ruki onde você está? Olha a hora! Foi sequestrado por acaso? – Ele gritou.

Não era para menos, minha mãe não gostava que eu chegasse em casa muito tarde, mas sabia que estava com Uruha e/ou Kai. No caso hoje tinha descoberto também que ela previa quando estaria com Reita, mas a mãe dele, fazia uma tempestade em copo d'água por qualquer atraso, principalmente se ele estivesse comigo.

– Foi mau Uru, me perdi no horário. – Respondi, aceitando de bom grado a forma como Reita me abraçou com mais força.

– É claro que você perdeu a hora, irresponsável. – Ele disse bravo, e não me pergunte por que, mas eu ri.

– Faz assim, me encontra naquela praça que tem na rua de baixo da escola. Vamos juntos pra casa a partir dali. – Disse e desliguei antes que ele reclamasse de mais alguma coisa.

Só então vi no alto do visor o símbolo que indicava o recebimento de mensagens. Eram de Emi, a primeira avisava que ela não conseguiria voltar ainda hoje para casa e que dormiria em um hotel. Me apavorei ao ler o nome da cidade em que ela disse que estava, tentando imaginar rapidamente o mapa do estado e confirmando com Reita que ela estava na divisa do nosso estado com outro país. No mesmo texto ela mandou que Reita me acompanhasse até em casa, ri mais uma vez tentando entender como ela podia prever com tanta certeza com quem eu estaria.

Na segunda mensagem ela apenas adicionou uma nota dizendo que Kai não poderia dormir em nossa casa. E que se Miyavi conseguisse me convencer ao contrário quem sofreria as consequências disso seria eu, basicamente ela estava revelando seu DNA de Ork e me deixando a par para defender esses genes horríveis.

Mas no momento eu fiquei tentando pensar em qual solução química deveria usar para separar corretamente aqueles dois compostos isolados, chamados Kai e Miyavi. Será que Reita era bom em química?