Capítulo trinta e quarto: Um esforço pela união

Por Kami-chan

– Então temos que ir... – Disse sem objetivo definido, apenas uma justificativa para estar me levantando.

Ou quem sabe um motivo para me convencer a sair dali, pois por vontade própria eu não sairia. E por mais que Reita tivesse rido quando eu me compliquei para explicar porque não queria que ele me esmagasse contra a parede, sei que ele estava gostando bem mais de estar naquela posição, completamente ao meu entorno.

Mesmo que depois da risada ele tivesse dito algo sobre eu não precisar ter medo de que a parede velha cedesse com o peso de nossos corpos, demonstrando que tinha ligado a negativa ao estado físico da parede, e não ao real motivo que insistia em me fazer ligar paredes com Miyavi e Kai.

E as imagens que isto ascendia em minha cabeça me pareciam intensas demais para uma primeira tarde de beijos. Não que os dois beijos que Reita deixou em algum ponto muito bom de seu pescoço em momentos aleatórios não tivessem feito uma onda diferenciada de energia se espalhar por meu corpo. Ou que não tivesse sentido em diferentes momentos da tarde uma ondulação deferente no corpo moldado atrás do meu, mas fingi não notar.

Afinal não me senti imune ao mesmo tipo de sensação em meu próprio corpo em diferentes momentos da tarde. Aquele não era o dia para aquele tipo de entrega, o foco naquele momento devia ser outro que nada tinha haver com as reações de nossos corpos. O que passamos a tarde fazendo ali nada tinha haver com sexo, estava em um nível muito mais elevado de entrega com intenções e desejos sendo decifrados; desejos pessoais, não carnais.

– Eu vou com você até a praça. – Ele respondeu se levantando e se colocando ao meu lado.

– Você leu a mensagem junto comigo, Emi pediu que você me deixasse em casa e não no caminho de casa. – Disse com birra.

– Você não vai estar sozinho. – Disse rindo.

– Reita, se você não me levar em casa vou alegar para minha mãe que você é um namorado que não faz as coisas que ela pede. – Disse repetindo a versão adequada ao momento da frase que ele usou antes comigo.

Reita não respondeu, apenas sorriu. Brincando, brincando ele sabia que minha mãe iria pegar muito no pé dele quando soubesse que estávamos namorando. Quer dizer, eu que acabei de classificar isto desta forma exatamente nesse momento. Mas não era como se isso não fosse meio obvio com tudo o que fora dito. Pelo menos eu acho.

– A não ser que você não a queira como sogra – dei de ombros. – Mas neste caso aquela conversa sobre o olho do Aoi ainda não estar cem por cento normal poderia ser relembrada.

– Muito sem graça isso aí da sua parte, pequeno. – Disse em falsa birra. – Vamos logo, Uruha já deve estar chegando na praça.

Reita se virou na direção da saída, mas só começou a andar quando cheguei ao seu lado e lhe devolvi a típica faixa. Antes de chegarmos na calçada senti seus dedos buscando os meus para caminharmos de mãos dadas, um gesto claro que denunciava a todos ao redor que não éramos apenas dois amigos caminhando por aí.

Tentei desfazer o contato antes de chegarmos na avenida movimentada, mas ele não permitiu. Olhei para ele com olhar de reprovação, Reita me olhou de volta com um olhar de reprovação mais fechado ainda antes de soltar minha mão e passar o braço sobre meus ombros, me puxando contra si para caminharmos abraçados.

Aquele era o jeito que ele tinha para me convencer a andar de mãos dadas com ele sem reclamar, creio eu. Funcionou, pois ele riu muito quando o afastei de mim com as duas mãos e entrelacei meus dedos nos dele por vontade própria.

Porque eu não ia andar por aí agarradinho na cintura do Reita, não mesmo. Principalmente sabendo que iria encontrar Uruha em menos de duas quadras.

Mesmo que tivesse que aguentar Reita fazendo comentários constrangedores sobre caminhar abraçados ou de mãos dadas estavam na lista de coisas que namorados faziam. Talvez ter pessoas que gostam de tirar uma com a minha cara ao meu redor fosse meu karma, cara até o Reita!?

Mas não era como se eu não estivesse rindo e respondendo cada uma das provocações à altura. Daquele jeito não foi difícil desligar o modo alerta da minha cabeça, fingindo até que não percebia as pessoas nos olhando quase estrábicas quando focavam seus olhares em nossas mãos juntas.

A imagem serviu também para desmanchar o beiço do Uruha por eu ter o esquecido. E que fossemos os três para casa em paz, porque eu sabia que ele só ia tirar com a minha cara na manhã seguinte, antes de sairmos para a escola quando Reita não estivesse conosco. Apesar de duvidar severamente que ele aguentaria a noite sem me perguntar detalhes. Isso ficou bem claro quando chegamos em casa e ele levou uns cinco minutos até dar tchau e atravessar a rua para entrar em sua casa.

Não que as coisas fossem ficar melhores do lado de dentro da minha própria casa: Na sala foi impossível não ter os olhos capturados pela cena no sofá, Miyavi estava confortavelmente sentado no mesmo com Kai em seu colo.

Da porta só dava para ver as mãos de Yutaka apoiadas no encosto do sofá de forma firme, servindo como base para o moreno se movimentar no colo de Miyavi. Uma das mãos de Miyavi eu vi subir do bumbum de Kai para as costas do mesmo, invadindo a parte de baixo do tecido da camiseta que o outro vestia no processo. A outra mão eu não via.

Pelo menos era visível que ambos estavam vestidos, salvo a falta de camiseta de Miyavi, que já não era uma observação incomum. Era hábito mesmo.

Uma das mãos de Kai soltou o encosto do sofá para se infiltrar nos cabelos de Miyavi. A cabeça do mais alto foi puxada para trás, forçando Kai a se erguer e avançar mais sobre o corpo magro do namorado para conseguir aprofundar ainda mais o contato. A movimentação levou as duas mãos de Miyavi para o bumbum de Kai, demonstrando com um gemido a força empregada no aperto de seus dedos enquanto praticamente separava as nádegas de Yutaka durante os movimentos.

Agora eu podia ver as duas mãos de Miyavi. Desconfio onde a que não era vista onde estavam, só de ver a parte da frente da camiseta de Kai com a ponta um pouco presa no elástico da calça do uniforme. Com toda a movimentação dos dois, o tecido só pode ter ficado preso ali quando Takamasa tirou a mão dali de dentro.

– É isso aí que você vai ter que conter? Boa sorte – Reita riu.

– Idiota. – Reclamei só pra não perder o hábito.

– O que você vai fazer pra conter isto? – Ele perguntou rindo, indicando o casal com as mãos.

– Não sei, mas as coleiras dos meus cachorros não cabem nos pescoços de nenhum dos dois.

– Eu não acho que eles vão te dar ouvidos.

– Por isso você veio comigo, ué!

– Que? Não. Ruki eu te trouxe em casa, mas também tenho que ir pra minha. – Ele riu mais.

– Não sei se você sabe quem é que vai sofrer as consequências se eu não conseguir conter eles e deixar Emi zangada. – Disse e ele parou de rir na hora. – Não ia ser legal minha mãe me proibir de ir na tua casa ou não permitir que você fique sozinho comigo aqui.

Automaticamente ele estendeu o braço sem desviar a atenção do casal que se quer tinha nos percebido ali, propositalmente o braço dele empurrou a porta de entrada com força para que a mesma se fechasse fazendo muito barulho. E imediatamente o casal no sofá se separou voando um pra cada lado do estofado, em um estado de quase pânico.

– A..a gente não estava fazendo nada de mais – Disse Kai.

E exatamente ao mesmo tempo:

– Tá todo mundo aqui de roupa, Emi! – Miyavi disse fazendo as falas dos dois se misturarem, aumentando ainda mais o ar de pavor que os dois emanavam. Foi engraçado.

– Ai Ruki você quase me matou do coração, achei que fosse a Emi. – Kai disse acomodando uma das mãos sobre o coração.

– E podia ter sido mesmo, vocês dois já viram que hora é. Ela vai estar chegando à qualquer momento.

– Não eu tava bem ligado no barulho do movimentador da garagem. – Miyavi deu de ombros, como se não estivesse todo cagado.

– Tá todo mundo de roupa aqui, Emi! – Fiz questão de imitar a frase dele em uma voz bem aguda e amedrontada.

– Se ferrar Ruki! – Ele retrucou.

– Só pra você saber a Emi está de carona com Joe, e vai entrar à qualquer momento por esta porta aqui. – Menti apontando para trás. – Se bem que pelo horário, daqui um pouco até a mãe do Kai entra aqui atrás dele.

– Desde quando você assumiu a chatice repentina da Emi, Ruki? A gente só estava curtindo um pouco. Ela disse para ficarmos na sala e sem sexo, estamos na sala e não estávamos transando.

– Desde que se vocês quebrarem as regras, nós também sofremos consequências. – Disse envolvendo Reita e eu com um movimento de dedo. – Vocês não estavam longe de esquecer que estavam no sofá da sala, nem perceberiam a gente aqui se o Reita não tivesse batido a porta.

– Espera! Você disse "nós" tipo, você e Reita? Vocês dois como uma coisa só? – Kai indagou se erguendo no sofá em um salto, passando o mesmo pulando a guarda para ser mais rápido.

– Não vem com esse sorrisinho. As duas criaturas que amo desde o berço estão me fazendo achar mais agradável passar o tempo com Uruha falando do Aoi. – Desconversei, a verdade é que o sorrisinho dele estava me deixando constrangido.

– Miya-chan Ruki e Reita estão "in love" – Disse se retorcendo no lugar até virar a metade de cima de seu corpo de frente para o sofá sem mover as pernas.

– Etto..Kai você está me assustando. – Disse dando passos para trás na mesma medida em que ele dava passos à frente com a intenção óbvia de me abraçar com aquele sorriso maníaco na cara.

– Afasta estas mãos melecadas de pau do Miyavi de perto de mim, caralho. – Reclamei me colocando atrás de Reita.

– A tá! Daí em mim ele pode encostar de certo. Dá o fora. – Reita disse se esquivando, me empurrando na direção da cozinha.

– A gente vai estar na cozinha pros dois se despedirem. É sério Kai, já anoiteceu. Você já tinha que estar em casa. – Disse me deixando ser guiado para cozinha.

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Reita foi embora assim que Kai se foi, sendo embalado pelos protestos de um Miyavi incomodado com o fato de ter nos encontrado no meio de um beijo na cozinha. Segundo o mais alto, era injusto o namorado dele ter que ir embora quando eu e Reita estávamos fazendo a mesma coisa.

Ele se manteve surdo ao argumento de que o que Reita e eu estávamos fazendo definitivamente não era a mesma coisa que Kai e ele faziam. E preferi mesmo mandar Reita embora antes que Miyavi começasse a fazer suposições nada castas sobre como eu iria pagar por minhas palavras quando estivesse louco para transar com Reita, mas minha mãe criasse regras absurdas para nós dois também.

Eu não contei pro Myv que minha mãe não voltaria para casa esta noite, apenas pedi que ele dormisse comigo com a justificativa de que ainda não tinha conseguido conversar com ninguém sobre tudo o que tinha acontecido durante aquela tarde. Ele estava no banho quando Emi ligou para saber se estava tudo bem, a conversa foi longa porque ela começou com várias suposições sobre Reita e eu termos folga naquele dia, então aproveitei para mantê-la informada da novidade.

Desde o dia em que tínhamos conversado sobre o que havia entre Reita e eu, ela sempre se manteve a par de tudo o que acontecia. Inclusive minha impaciência sobre o afastamento causado por Aoi e Uruha. Por isso eu tinha certeza que ela ia perguntar como tinha sido aquele dia em que nenhum de nós tinha compromissos no período da tarde.

Depois que saiu do banho, Miyavi e eu conversamos até quase de madrugada. Quando estavam separados, tanto ele quanto Kai eram bons ouvintes. Conversamos tanto que eu até vi com olhos mais compreensivos a situação dele com Kai, pois Miyavi parecia realmente atormentado pela situação que a mãe tinha o colocado. E Emi compartilhado.

Da forma como ele falou, pareceu mesmo injusto e sem sentido esta proibição. Fiquei o resto da noite pensando se com o passar dos dias os beijos que recém havia começado a dividir com Reita nos deixariam em situação semelhante. Que besteira, beijar Reia era algo gostoso de um jeito diferente do que Kai e Miyavi demonstravam, era calmante e reconfortante.

Era impossível isto se ternar aquela coisa angustiante que estava consumindo meus amigos de infância só por ação do tempo, não é?

Miyavi confidenciou vários planos que estava pensando em colocar em prática para conseguir algum tempo a sós com Kai sem a vigia implicante da minha mãe. A mais bem planejada em minha opinião era dar uma festa secreta na casa dele, não que eu achasse mesmo que ele conseguiria mesmo fazer isso sem minha mãe saber. Mas é que todas as outras ideias eram ainda mais absurdas do que aquela.

E me aproveitando que ele tinha começado a falar em Kai, conversei com ele sobre como estava estranho ficar perto dos dois quando ambos não interagiam mais com o grupo. Sendo que a interação entre eles também era mais física do que qualquer outra coisa. Quando ele disse que eu estava exagerando, lembrei-o do motivo pelo qual estavam sofrendo represarias e que logo alguém da direção da escola veria os dois praticamente se comendo nos intervalos e então não seria Kai que contaria para mãe que tinha um namorado, mas sim o diretor.

Isto bastou para fazê-lo parar e pensar sobre aquilo. Então não precisei apelar e dizer que até mesmo os papos de Uruha sobre Aoi eram mais agradáveis do que as cenas constrangedoras que os dois protagonizavam.

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Em terceira pessoa

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Não foi nenhuma novidade para Ruki acordar na manhã seguinte com dois pares de olhos o devorando ao lado da cama. Kai e Uruha estavam ajoelhados no chão ao lado da cama do amigo com olhares curiosos. Miyavi estava deitado o chão ao lado de Kai, com a cabeça apoiada na cama enquanto mexia em músicas e vídeos no celular.

Ruki achou aquilo engraçado, Uruha e Kai pareciam duas crianças esperando pelo final feliz da história da princesa encantada. A coisa era que o garoto de quem queriam ouvir uma história definitivamente não gostava daquele tema. Talvez houvesse alguma peça faltando em seu sistema, mas histórias de amor sorrisinhos e suspiros lhe pareciam muito chatas.

Ainda assim respondeu todas as perguntas afoitas com o máximo de paciência que conseguiu manter, usando do movimento pelo quarto enquanto se arrumava para disfarçar que em certas partes, mesmo ele foi incapaz de conter um sorriso ou outro que lhes escapava naturalmente. Eles mereciam apesar de todas as piadinhas e insistências, Kai especialmente parecia tão feliz como quanto se fosse com ele mesmo.

Gastaram tanto tempo questionando Ruki sobre a tarde dele com Reita que não perceberam a ausência de Emi no local. De um jeito muito sacana Ruki esperou até o limite do tempo que precisavam para chegar até a escola a pé para avisar que Emi não tinha passado a noite em casa e, por isso não tinham café pronto e nem carona. E se quisessem comer, deveriam pular para a cozinha quase que imediatamente, mesmo que depois de muito pensar eles tenham saído cada um com uma caixinha de achocolatado e um pacote de biscoitos.

No caminho o fato de Miyavi ficar mais atrás com Kai não foi nenhuma novidade. Mas ao se acomodarem em sala de aula o das covinhas reclamou com Ruki sobre Miyavi ter dito que deveriam diminuir o ritmo do relacionamento dentro da escola, o que deixou claro para Takanori sobre o que eles haviam conversado no meio do caminho.

O que surpreendeu Ruki nem foi tanto o fato de Miyavi tê-lo ouvido, mas ver que naquele momento Ishihara estava sendo mais racional do que seu amigo de infância. Normalmente Kai seria mais ponderado. Mas silenciou assim que Ruki disse que gostaria de ver a cara dele quando sua mãe lhe informasse que tinha recebido uma ligação da escola pedindo para que ela comparecesse à uma conversa com o diretor sobre Yutaka. E a manhã se passou sem muitas conversas.

E mais dramático do que o esperado, na hora do intervalo o casal grudento estava comportadamente sentado lado a lado com Kai emburrado apoiando sobre as coxas de Miyavi enquanto o mesmo alisava seus cabelos, passando pequenas e finas mechas solitárias por entre seus dedos como se quisessem alisar ainda mais os fios negros. Ruki tinha saído com Uruha para comprar os lanches no ritual básico de intervalo do grupo, mas antes de chegarem Takashima avisou Reita seguindo na mesma direção e preferiu reduzir o passo sem que Ruki percebesse, sem saber ao certo para onde ir, incerto se o clima estava bom mesmo junto com Kai e Miyavi.

Do outro lado do pátio Aoi e Reita localizaram com facilidade a cabeça baixa e com fios descoloridos em tom forte de Ruki entre os vários alunos na fila da cantina. E antes que Akira viesse com algum comentário sobre onde o moreno gostaria de ficar, Aoi acusou uma necessidade falsa de ir ao banheiro, seguindo um caminho diferente antes que o mesmo pudesse retrucar ou algo do tipo.

Era estranho para Aoi a superproteção de Reita, mas não era como se não apreciasse o conforto de ter um amigo de verdade ao seu lado. Akira não era seu amigo ainda na vez anterior que sua mãe tinha passado por um estágio de evolução da doença, quando ele a conheceu ela já estava instável. Era compreensível que acompanhar aquele tipo de coisa pela primeira vez quando ela já estava em um estágio tão avançado não devia ser fácil para ele também.

E para ajudar ainda tinha a história com Uruha. Houve muita especulação sobre o motivo pelo qual o garanhão da escola havia chegado um hematoma claro de luta, muitos boatos e fofocas criadas. Surgiram histórias dele ter saído com uma mulher casada, boatos sobre ter sido tirado por seguranças de uma casa para maiores de idade e até um murmúrio sobre ele ter se envolvido com a garota de um cara de gangue. Ironicamente ninguém sabia que ele apenas tinha levado um soco de um baixinho justiceiro e invocado.

Não fazia parte de si querer se justificar com aqueles que lhe eram de pouco valor. Até porque sua falta de energia devido a situação terminal de sua mãe, ligado com o incômodo ligado ao ultimo encontro que teve com alguém não lhe deixavam com disposição para dar atenção para aquelas garotas fúteis. Pela primeira vez não se sentia com vontade de estar com ninguém, Uruha já tinha sido um erro. Mais do que isso, um aviso.

Uruha. Com Reita e Ruki juntos Aoi sabia que era a sua vez de ser amigo de Reita, para isso tinha que dar um jeito com esta história de fiarem juntos no intervalo. Estava preparado para o fato de que desde o começo apenas Reita era bem vindo ao grupo, ele estava lá apenas como um agregado. Não tinha nem argumentos para não aceitar que Kouyou não ia permitir seu retorno.

Mesmo que já estivesse bem acostumado com a ideia de apenas sentar e falar besteiras sem sentido com aquele grupo sem malícia. Pessoas legais e sem interesse em quem ele era, fosse por ser o filhinho do papazinho rico, fosse por ser Aoi – o cara que pega todas.

Com este pensamento entrou no banheiro apreciando a diferença de temperatura dentro do mesmo. Não estava com vontade de usar mesmo, devia ter ido para outro canto do pátio. Talvez só lavasse as mãos e acharia alguém para distraí-lo, talvez fosse uma boa apenas ficar sozinho.

Só que com mais de quatrocentos alunos espalhados pelos pátios da escola, tinha apenas um que Aoi estava realmente procurando evitar. E este um era o único ser dentro do banheiro masculino quando ele entrou, lavando as mãos de costas para si. Pensativo e delicado.

Aoi pensou se conseguiria apenas refazer seus passos e sair dali sem ser percebido. No fundo tinha ficado com um pouco estranho com a situação com Uruha, não era como se tivesse se arrependido, mas também não era como se o acontecido pudesse ser apenas esquecido.

Uruha tinha conseguido fazê-lo pensar. A maneira como o loiro o manipulou de forma a omitir seus sentimentos, ligada à forma como ele saiu segurando bravamente o pranto de sua casa o fez não conseguir evitar sentir empatia. Aquilo não era nada normal.

Já tinha feito algumas meninas chorar, mas nunca deu bola. O pranto seguro de Uruha pareceu lhe atingir de forma a fazer com que sua empatia fosse ativada e atingida por cada uma das pessoas por quem nunca deu a mínima.

O desespero e Ruki e narrativa de Akira sobre o estado de Uruha quando chegou à casa de Takanori não o fez sentir arrependimento. Em um primeiro momento julgou-se apenas como burro por não ter sido capaz de perceber, por ter lido aquele menino todos os dias dos pés à cabeça e ter simplesmente errado tudo sobre quem ele era e o que ele realmente queria.

Reita apenas confirmou todas as coisas que Uruha tinha lhe dito por si só. A ideia de que se o loiro não tivesse invadido o seu quarto e tivessem levado mais um dia apenas para se verem, nada daquilo teria acontecido lhe queimava os neurônios. Pois Reita teria lhe contado sobre os sentimentos de Uruha e Aoi jamais tentaria se aproximar dele daquele jeito novamente, e as coisas estariam como do mesmo jeito confortável de antes.

Agora estava feito, não serviria de nada remoer atitudes que jamais poderiam ser reescritas. Mas podia continuar evitando Uruha e respeitando o evidente desconforto do outro em sua presença. Podia sim dar meia volta e sair dali antes de ser notado, só que era tarde demais.

O loiro tinha percebido a presença extra no local, e foi impossível para o mesmo omitir a confusão de sentimentos ao ver o moreno ali. Os olhos arregalados levaram uma fração de segundos para voltarem ao normal e Kouyou voltar sua atenção para a tarefa que executava.

– Eu lavo as mãos antes e depois então se você... – Disse indicando a única das três portas que não estava trancada com um aviso grande de "Manutenção" colado nelas.

Aquela parecia ser uma boa solução para não ter que enfrentar a presença de Aoi, não tinha vontade de usar o banheiro, só tinha entrado ali por estar sem rumo. Assim que Aoi entrasse no box, sairia correndo dali e se juntaria à Kai e Miyavi como devia ter feito desde o começo.

– Ah não...você já está terminando eu não me importo de esperar. – O moreno respondeu rapidamente tentando não ser um obstáculo para o menino mais uma vez.

Uruha bufou e fechou a torneira, se adiantando para o recipiente com toalhas de papel: – Eu não quero usar o banheiro verdadeiramente. – Disse resignado – Eu só vim aqui para um tempo para Reita e Ruki, se eu não sumisse Ruki não ia aproveitar o tempo que tem com Reita. Então... – Disse e indicou a porta do box livre mais uma vez.

Aoi sorriu, diria facilmente que estava ali pelo mesmo motivo. Mas isto seria tentar puxar assunto com Kouyou e sabia que o outro não queria ter assuntos consigo. Aquilo fez Aoi perceber que talvez fosse um pouco difícil se desacostumar com a forma fácil com que trocava palavras com Kouyou.

Porém o silêncio deixado no local pelo moreno deixou o ar pesado. Um clima tenso e cansativo, tão carregado quanto a umidade do banheiro escuro. Uruha sabia que as coisas não poderiam se manter daquele jeito, fazer de Aoi um tabu não facilitaria a situação em nada.

Aquele era apenas o primeiro dia em que seus melhores amigos não estariam ao seu lado. Como seriam os demais?

Kouyou apertou as folhas de papel reclicado entre as mãos antes de descartá-los no lixo grande ao lado da pia, pensando no que poderia fazer. Se deveria ou não, se já estaria forte e imune ao fora levado, ou não. E resolveu começar pelo jeito que julgou mais fácil.

– Eu gostaria de pedir desculpa pelo Ruki... – Uruha disse baixo, testando suas próprias reações diante aquela decisão.

– Não tem que pedir desculpa. Eu sei que a ideia não foi sua, ele tinha este soco guardado há tempo.

– Hum.. – Uruha concordou, complementando o resmungo com um movimento afirmativo com a cabeça.

Uruha não percebeu ter soltado o ar com força pela boa, ao mesmo tempo em que Aoi instintivamente olhava para todos os lados em busca de uma saída rápida. Tinha a oportunidade, mas não sabia de devia ou não se desculpar com o outro. Em parte não se sentia culpado mesmo, em parte sabia que era muito provável que o outro se ofendesse ainda mais com um pedido de desculpas.

– Também vim pra cá para que Reita não se sentisse preso. – Disse por fim, o que queria ter dito antes, Kouyou tinha puxado o assunto então ele se sentiu livre para mantê-lo mesmo que o clima não fosse dos melhores.

O loiro sorriu de forma automática e concordou com a cabeça. Sabia que Reita era uma pessoa importante para Aoi, não era nada agradável ter que abrir mão disso.

– Ah..já que você tocou no assunto, não tem mais motivos para você se manter afastado do grupo. – Disse um pouco inseguro, sem deixar de perceber a surpresa na face de Aoi.

– Isso realmente me surpreendeu. Eu tinha certeza de que você definitivamente não iria me querer perto de você.

– Tudo bem se não tentar puxar assuntos e nem iniciar brincadeiras comigo. Não vai ser como antes. Só que seu melhor amigo e meu amigo realmente merecem estarem juntos, o que houve entre nós dois já os atrapalhou bastante, não há necessidade de nenhum deles se sentir culpado por querer estar um com o outro ao mesmo tempo do que conosco.

– Você tem certeza disso? – Aoi perguntou incerto.

Não pensou que aquele consentimento lhe deixaria tão feliz. Realmente sabia que estava gostando de estar entre Uruha, Kai, Ruki e Miyavi, mas não imaginou que fosse tanto. Sentia-se realmente muito bem entre eles, a energia leve do grupo quase dissipava o sentimento de solidão que tinha. A ligação entre eles e Joe, que já tinha virado membro de sua família facilitava para esta sensação.

– Claro. – Uruha lhe sorriu de forma claramente falsa, fazendo com que a alegria que começava a aumentar no moreno minguasse.

– É mesmo isso o que você quer, Kouyou? – Perguntou sem se importar como a reação do mais novo ao andar até o mesmo e usar dois dedos em seu queixo para prender o olhar do mais novo no seu. – Responda isso com sinceridade. – Pressionou de forma quase rude, não aceitaria caridades de Takashima.

– Eu quero o grupo unido. – Disse baixo, porém sincero. Respirando com alívio quando Aoi o soltou.

– Uruha...você quer que eu me desculpe? – O moreno perguntou novamente incerto.

– Você se arrependeu? – Uruha lhe respondeu com uma nova pergunta, o que deixou o outro inseguro de como deveria responder.

– Verdadeiramente, não. – Optou pela sinceridade. – Foi muito bom para se arrepender. Mas me arrependi um pouco da forma como falei com você depois, você foi sincero e aquilo me pegou de surpresa. Eu só quis ser sincero com você, o resultado não seria tão diferente, mas eu devia ter escolhido palavras melhores.

– Eu fui sincero com você, você foi sincero comigo. Quem fala o que quer ouve o que não quer. – Takashima disse sem emoção.

– Não fale assim. – Pediu Aoi.

– Mas é isto, não é. Você só fez comigo o que eu pedi, o que eu quis. Ouço você usando esta frase desde que te conheci.

Ao ouvir aquilo Aoi se surpreendeu. Erva verdade, sempre dizia aquilo. Dizia porque não dava valor nenhum às companhias que levava para a cama, mas Uruha era uma pessoa próxima, nos últimos dias estavam refinando cada vez mais a amizade. Não era como se ele pudesse se colocar naquele grupo. Ele não era uma pessoa sem valor.

Mas fora ele quem dissera com convicção para Reita que Uruha era uma alma tão suja quanto ele. E mesmo tentando evitar o pensamento, Aoi sabia que não passava de um hipócrita; se quer sentiu pena de Uruha. Sentia pena de si mesmo, vergonha por ter se exposto.

Esta era a verdade. Sentiu-se culpado porque o seu erro tinha o deixado exposto diante das pessoas com quem dividia seus dias, pessoas próximas demais de si e cujo julgamento lhe eram importantes. Se Uruha fosse alguém de um grupo de estudantes não tão próximo, não daria a mínima para como o menino estava se sentindo.

Era por isso que jamais deveria ter ficado com um amigo. Com ou sem envolvimento emocional. Mesmo que o envolvimento emocional de Uruha fosse com Aoi, e o de Aoi com o grupo.

– Se arrependeu? – Perguntou o moreno, e pela primeira vez o sorriso que precedeu a resposta de Takashima lhe pareceu sincero, apesar de breve.

– Dizem que amores vêm e vão, mas só temos uma primeira vez. A minha foi com quem eu queria que fosse. Durante a transa você foi naturalmente tão gentil que eu se quer tive receio em seguir adiante, ou pedir para você parar, pois aquela era a minha primeira vez. Você foi cuidadoso como se soubesse que aquele cuidado era mesmo necessário.

– Eu não consigo entender nada de você! – Aoi soltou.

Nada em Uruha fazia sentido em sua cabeça. E de um jeito muito contraditório, o moreno se sentiu irritado por ter se deixado enganar pela imagem que Uruha lhe mostrava até então, pois podia ver agora que definitivamente o loiro não havia sido honesto consigo em nenhum momento antes de tudo aquilo acontecer.

– Você não tem que entender. Afinal foi você mesmo que deixou claro que isto não importa para você.

Aoi abriu a boca para retrucar aquilo, mas preferiu calar. A vontade que tinha era de dizer que se sentiu usado pelo o outro, como se Uruha estivesse o tempo todo tentando captar coisas suas com sucesso enquanto ele não lhe mostrava nada de verdadeiro de si. Em seu ponto de vista, mesmo que tivesse sido grosseiro com o amigo após a declaração do mesmo, tinha sido sincero de uma forma como o outro não fora consigo.

Mas apenas suspirou e calou. Sentiu que tinham recém-avançado um passo para a boa convivência, não seria conveniente acusar Takashima de coisa alguma neste momento. E pressentiu de alguma forma que seu olho estava começando a ficar cem por cento bom para que levasse outro soco na cara, pois Ruki encontraria um jeito de dizer que o moreno estava tentando distorcer a história.

– Anda logo. Se não vai usar o banheiro vamos voltar de uma vez para um lugar em que de pra respirar. – Uruha reclamou passando à frente.

Do lado de fora o quarteto estava unido, se divertindo com a ira de Kai pelo bom comportamento repentino de Miyavi. Como resposta Miyavi disse várias vezes que daria um jeito na situação deles, e que o namorado podia confiar em sua palavra, mas a verdade era que até mesmo Miyavi estava achando a birra divertida.

Isto até Reita deixar escapar descuidadamente que Ruki sabia que Emi não iria voltar para casa na noite anterior e mudado completamente o foco das birras. Inclusive a ira de Miyavi e a do próprio Ruki que indagou dramaticamente se o então namorado gostava mesmo de si para lhe cavar uma sepultura.

Foi no meio disto que Ruki viu do outro lado do pátio a figura de Uruha saindo do banheiro e sorriu, se preparando para chamar atenção do amigo. Mas travou ao ver Aoi o seguir de perto e os dois andarem calmamente lado a lado.

Havia uma expressão tranquila no rosto de Uruha, nenhum sorriso ou sinal de felicidade, mas também nenhum incômodo ou algo do tipo. O loiro olhou para os dois lados do pátio para ter certeza de que não seria atingido por nenhuma bola dos garotos que aproveitavam o intervalo para jogar, ates de atravessar.

A mesma tranquilidade não era vista no rosto de Aoi. O moreno parecia aéreo e distante, os braços cruzados em frente ao corpo como se estivesse se protegendo de algo que habitava seus pensamentos. Um olhar baixo, e a ausência daquele sorrisinho que Ruki julgava como irritante carimbado no rosto.

Aquela contradição entre os dois o intrigou. Reita tinha lhe contado que estava mais próximo de Aoi por conta de um problema pessoal do Shiroyama, mas ainda assim podia dizer com certeza que antes do sinal para o intervalo as expressões deles eram inversas. Era Uruha que estava olhando para baixo enquanto que mesmo que –aparentemente– com problemas, Aoi não deixava de se mostrar superior. Nem mesmo o olho roxo tinha sido capaz de abalar sua estrutura.

Aquilo era estranho e não fazia sentido. Mas despertou uma série de pensamentos no pequeno que se surpreendeu com a atitude proativa de Kouyou. Fosse o que fosse que tinha acontecido entre os dois, parecia ao vê-los lado a lado, que tinha sido muito bom para o Takashima.