Capítulo trinta e cinco: O elo mais fraco

Por Kami-chan

– Ah! Que droga! – Miyavi praguejou quando o primeiro sinal que indicava o término do intervalo se fez ouvido.

Todos rimos, mas a verdade era que ninguém queria voltar para as aulas chatas. E pela primeira vez naquele intervalo Miyavi colocou uma mão de cada lado do rosto de Kai e lhe deu um beijo. Rápido e estralado, uma, duas, três vezes uma atrás da outra, de uma forma que não incomodava. Na verdade era bastante fofo e tinha feito até o emburrado dos dois sorrir.

Com a forma humorada com que Takamasa lhe dedicava os beijos com efeitos sonoros engraçados não no remetia ao casal grudento que nos fazia assisti-los trocando saliva e vislumbrar pelo movimento, suas línguas unidas no meio do caminho. Daquele jeito era legal.

Tão legal que eu não me importaria de me despedir de Reita de forma semelhante. Então foi fácil virar a cabeça para trás até encontrar Reita, dizer algo bobo como ser a hora de ir e esperar ele perceber o que eu queria.

– Ah pronto! O intervalo inteiro numa boa sem mel pra vocês resolverem se unir no fim pra jogar geleia nas paredes. – Eu to indo pra sala! – Uruha reclamou de um jeito humorado e se despediu.

Não era como se fossemos ficar ali daquele jeito até o segundo sinal tocar. Na verdade eu nem dei muita bola para ele, porque sabia que o alcançaria antes dele chegar na sala.

– Eu vou atrás dele. – Disse soltando no final do beijo Reita. – Você não vai trabalhar hoje inda né?

– Não. Acho que não vamos abrir a loja nenhum dia até o final desta semana.

– Acho que eu não vou ter esta sorte. – Comentei humorado.

– Te mando uma mensagem de tarde.

E com aquilo me despedi. Olhei para Kai antes de correr até Uruha, mas ele e Miyavi estavam cochichando alguma coisa. Reita chamou Miyavi para irem para a sala deles, e só por isso olhei para trás a tempo de ver Miyavi pedindo para Kai não esquecer de falar com alguém.

Estranho foi perceber que este alguém era Aoi. Aí tinha, mas eu preferi não saber.

– Kouyou! – chamei alto enquanto corria, usando o corpo de Uruha como ferramenta de desaceleração para o meu.

– Ai Ruki! – Ele reclamou, passou o braço sobre meus ombros para caminharmos juntos pelo longo corredor até a sala de aula. – O que você quer?

– Saber por que você estava com aquele idiota. – Resmunguei.

– Deve ser porque sou mais idiota ainda. – Ele sorriu, desconversando.

– É sério! Até ontem você estava mostrando bastante repulsa por aquela pessoa, aí trouxe ele de volta pro grupo! Você desperdiçou a chance que tínhamos de correr com ele de vez.

– Que cruel Ruki! – Uruha reclamou. – Mas diferente de você, eu gosto do Aoi. O tempo que passou já foi bastante para me fazer estar no mesmo espaço que ele sem consequências desagradáveis.

– Você tem razão – disse, e prossegui somente quando ele focou toda sua atenção em mim – Você é um idiota! – E recebi um tapa na nuca depois dessa.

– Seja meu amigo e me apoie. – Ele reclamou.

– Mas...

– Sem "mas" Ruki, isso se chama seguir em frente! Aoi não vai evaporar e sumir, e sabe mais uma coisa que não vai acontecer... ele não vai deixar de ser o melhor amigo do teu namorado.

Dito isso Uruha me soltou para poder passar pela porta da sala de aula à minha frente. Aquele modo de pensar dele era estranho, mas fazia sentido. E me fez pensar.

"Isso se chama seguir em frente" ele disse. Quer dizer, trazer o cara que o fez chorar até ele perder a capacidade de respirar no colo da minha mãe, de volta para o nosso convívio social era seguir em frente?

Provavelmente era um meio de, mas com certeza não era o único. Particularmente meu jeito de seguir em frente assumia a ideia de que aquela pessoa deu amostras de que não tem nada de bom para acrescentar em minha vida, logo, não preciso dele por perto.

Nada de bom a acrescentar; "Ele não vai deixar de ser o melhor amigo do Reita"

Ridículo. Os amigos do Reita são do Reita, não acho nada necessário me meter nisso. Até porque sem aturei Aoi no grupo desde o começo, agora...eu mesmo ir lá e trazê-lo de volta? Não!

Os períodos finais passaram voando, tão rápidos e silenciosos que passaram quase imperceptíveis. Kai trocando mensagens de texto disfarçadamente, Uruha escrevendo algo não relacionado com a matéria em seu caderno e eu pensando. Vez ou outra procurando Aoi pela sala, vendo que ele também mexia no telefone, me perguntando o que aquele animal tinha para ser tão interessante aos olhos de Uruha.

Minha mãe finalmente apareceu no término da aula. Ela parecia muito empolgada falando de umas luzes muito legais e outras coisas que ela tinha comprado. E sim, eu teria que trabalhar naquela tarde.

Mas foi eu quem disse para ela que queria trabalhar, não é. O divertido era que eu queria, mas Miyavi não. Só que ele não tinha escolha.

Já na casa de shows, cada um de nós se concentrou em fazer alguma coisa. A área que seria inaugurada na sequência era a boate e quanto antes ficasse pronta melhor, pois aquela com certeza seria a parte mais rentável de todo o prédio.

Basicamente a tarefa do dia era organizar todas as coisas que Emi e Joe tinham comprado. Eletrônicos foram guardados em uma sala que pudesse ser trancada, caixas foram distribuídas pelo espaço de acordo com onde o que cada uma continha seria usado e algumas coisas de fácil compreensão foram instaladas.

Joe já estava pelo local quando chegamos, e para que tudo fluísse mais rapidamente nos dividimos em duplas para focar melhor nas tarefas. Joe e Miyavi foram instalar as coisas eletrônicas enquanto Emi e eu fomos colocar em prática algo que ela classificou como uma solução econômica para um negócio rentável.

E depois de levar doze drywalls e doze prateleiras de sessenta centímetros de suporte prático, um par para cada uma das doze salinhas que compunham um corredor estreito no fundo da boate e de ouvir a explicação dela sobre como e onde deveríamos instalar aquilo, eu entendi para o que seriam uados aqueles quartos. Que até então eu tinha achado que seriam algum tipo de depósito ou algo do tipo.

Quando perguntei para minha mãe por que ela queria colocar aquele tipo de coisa no negócio dela, ela simplesmente disse que era algo que dava dinheiro fácil. As placas de drywall foram fixadas nas paredes na horizontal, formando uma cômoda fixa, moderna e barata. As pratileirinhas ficariam em um dos lados da cama, que ocuparia quase todo o tamanho do quarto.

Para ela era um investimento barato que daria dinheiro sem muita manutenção e sem esforço para ser vendido. Pois os clientes estariam dentro da casa de shows.

Nós fixamos juntos cada uma das placas nas paredes pintadas de preto fosco do local, mas depois cada um de nós assumiu a posse uma lata de tinta e pincel para pintar cada uma das placas de uma cor diferente. Um em cada quarto seria mais rápido, Emi tinha dito que não importava a ordem das cores desde que cada quarto tivesse uma cabeceira de cor diferente e que a cor usada no quarto estivesse no chaveiro do mesmo.

Emi ficou com os seis quartos de um lado corredor e eu com os outros seis. Sozinho naquela atividade silenciosa foi impossível não pensar novamente em Uruha.

Internamente eu ficava me perguntando se as festas que ele ia com Aoi antes eram algo parecido com aquilo; um local com área comum onde se escolhia alguém para levara um quartinho. Mas ele sempre dizia que via Aoi transando com as garotas, então continuei não entendendo como era aquele negócio que eles chamavam de festa.

Mas tentei imaginar Uruha naquele lugar onde eu estava como se fosse eu. Como se Reita estivesse naquele quarto e eu estivesse ali somente por ele, reservando sentimentos por ele em silêncio, tentando conter a dor de vê-lo com outra pessoa com a esperança certa de que em algum momento conseguiria fazê-lo olhar para mim. Aguentando isso dia após dia sem perder a fé, pois Uruha tinha tanta certeza de que conseguiria desvendar Aoi que era incapaz de assumir um futuro diferente daquele montado em sua imaginação e sonhos.

Eu não entendia o que Uruha tanto admirava em Aoi, mas eu entendia como ele se sentia. Como ele foi forte até conseguir o que queria, como ele estava feliz quando Aoi passou a ser mais próximo dele, sua alegria em dizer que ele e Aoi tinham passado a noite inteira juntos em uma festa em que pela primeira vez Aoi não tinha ficado com ninguém. Ou mais feliz ainda pelo moreno ter dito que não tinha tanta vontade assim de ficar com diferentes pessoas toda maldita vez que iam naquele lugar.

A informação deixando Uruha mais feliz ainda, pois depois daquela vez, ele e o moreno passaram a usufruir daquele local como uma festa normal, rindo e se divertindo por si só sem o apelo sexual. O foto os deixando ainda mais próximos, levando Uruha para o lado daquele de quem mais desejava a companhia em tempo quase integral. Disfarçar o amor com este tipo de amizade era mais fácil e confortável do que fingir que não doía ver o moreno com outras pessoas.

Eu entendia agora. Entendia depois de Reita, afinal eu acreditei em um passado estranho em que me recusei a admitir o que sentia por Akira, que seria mais fácil me livrar daqueles sentimentos estranhos se ele estivesse com outra pessoa quando o mais velho se admitia interessado em alguém. Sem nunca admitir que poderia ser a pessoa de quem o da faixa falava, parecia ser uma saída fácil imaginá-lo feliz ao lado de uma pessoa sortuda. Hoje eu entendia que não.

Eu não seria capaz de ver Reita com outra pessoa e encarar isso numa boa. Não conseguiria seguir em frente se ele decidisse que o que sentia por mim não tinha evoluído da forma como ele imaginava depois de ficarmos juntos e tchau pra mim. E diferente de Uruha, eu não saberia perdoar.

Eu não entendia como, mesmo depois de saber tudo o que Kouyou realmente sentia por si Aoi não deu a mínima. Mesmo que o próprio Takashima dissesse que não era bem assim, que Aoi havia sido sincero consigo. Que mesmo tendo se precipitado em confessar ao moreno, sabia reconhecer entre as várias faces de Aoi quando o mesmo estava sendo sincero.

Mas eu não conseguia. Eu via tudo em torno de Yuu com distorção, pelo menos conseguia admitir isso para mim mesmo. Para mim não importava a situação, se Shiroyama Yuu estivesse por perto o momento, a culpa era dele. Simples assim e complicado assim, pois não era intencional. Tão automático quanto respirar.

– Eita mundo da lua! – Ouvi a voz de Emi. – Ainda bem que não colocaram o piso ainda hem.

Olhei automaticamente para o chão após sua fala, vendo os vários pingos de tinta. Não conseguindo fazer muito mais do que sorrir e voltar a pintar, já estava terminando aquele que devia ser o terceiro quarto já pintado.

– O que está errado agora? – Ela perguntou.

Olhei imediatamente para a parede como um todo para ver se tinha algo errado ali, não encontrando nada. A tinta estava contínua em manchas, a cor estava certa; olhei para ela em busca de respostas.

– Você. – Emi sorriu. – Quando fica assim é porque está incomodado com algo.

– Uruha perdoou Aoi.

– Ah é? O que exatamente Aoi fez para precisar de perdão? – Ela perguntou se aproximando mais.

– Você sabe, eles transaram e Aoi foi um idiota.

– Hum.. Uruha consentiu com o sexo e até onde eu sei Aoi não o persuadiu e nem mentiu para fazer ele querer aquilo.

– Você sempre defende o Aoi. Mas ele foi mesmo um idiota com Uruha depois de ter feito sexo com ele, Uruha não queria ver ele por perto nem coberto de chocolate. Mas hoje o Kouyou foi lá e trouxe ele de volta pro grupo.

– Aoi é um bom menino Ruki. Estranho não é eu gostar dele, mas sim você o maldizer sempre. Uruha também é um bom menino, você devia ficar feliz que seu amigo está conseguindo seguir em frente com maturidade.

– Ultimamente eu só tenho escutado isso. Todos me dizendo qual a forma correta que eu deveria pensar, mas não sou capaz de chegar neste tipo de raciocínio sozinho. Não com Aoi, é automático, qualquer problema ou coisa errada meu raciocínio automaticamente pensa: "Onde está o Aoi?"

– Por que isso? Como você pode não gostar tanto de uma pessoa? Vocês nem cresceram juntos, depois que Aoi foi para a turma certa da idade dele vocês se afastaram. Não há nenhum motivo de atrito entre vocês dois.

E eu não tinha uma resposta para aquilo. Na época não quiseram ouvir o motivo pelo qual eu estava correndo em local proibido, e como a funcionária que me ajudou e que relatou os acontecimentos havia chegado quando todas as crianças estavam rindo e falando coisas, minha mãe nunca ficou sabendo da relação direta do Aoi na história.

Eu preferi só ficar quieto, não queria falar para não ser ouvido apenas. Não no sentido figurativo em que ser ouvido significa ser amparado, mas no literal. No sentindo em que falar as coisas em voz alta fariam as palavras serem ouvidas por qualquer um que estivesse por perto, não apenas para quem se estava falando. Falar em voz alta significava assumir o que o evento tinha me feito sentir e como aquilo que fora julgado como uma brincadeira pelos funcionários da escola, não tinha sido uma brincadeira para mim.

– Mãe, você lembra daquela vez que te chamaram na escola, quando aquela tia da pré-escola me fez passar vergonha?

Comecei de forma a capturar a tenção dela em mim, então expliquei. Contei o motivo pelo qual tinha pelo qual tinha entrado naquele corredor, o motivo por ter corrido na volta e também o motivo de todas as crianças terem rido de mim e a relação direta de Aoi em cada um destes eventos. Por que para mim, a culpa tinha mesmo sido daquela funcionaria, mas ela tinha saído da minha vida. Aoi tinha ficado como um fantasma, ausente e presente ao mesmo tempo.

Sempre ao alcance dos olhos, sempre por perto sem parecer dar a mínima. Fazendo-me sempre lembrar de que me deixar ser exposto não era bom. Que pessoas em quem eu queria confiar poderiam usar informações ao meu respeito para chacotas.

Especialmente, a distância ao mesmo tempo perto e longe entre nós dois no ano em que voltamos a ser colegas me fez congelar. O medo que eu tinha dele era tão intenso que eu tinha medo até de errar um exercício escolar ou algo do tipo; coisas que não contaria para Uruha ou Kai.

Eu achei de verdade que a cara que ela fez queria dizer que estava se sentindo culpada. Por não ter percebido talvez. Não era algo que ela devesse se culpar, eu que sempre fiz de tudo para esconder.

Depois do choque ela me encheu de perguntas, mas ressaltou como todos os meus amigos, que Aoi também era uma criança na época. E eu confesso que dela eu não queria ter ouvido aquilo, tudo bem de Uruha, Kai e Miyavi. Mas não de Emi.

Eu queria que ela concordasse com meus medos e reclamasse por ter defendido aquele garoto por todo este tempo sem saber o quanto ele era podre por dentro. Eu não ligava se era egoísmo ou infantilidade, eu não queria que ela viesse com aquele mesmo tipo de conversa de que eu deveria ver o outro lado também.

Pior do que isto, Emi me disse que eu deveria conversar com Aoi e tirar a história a limpo. Quando eu perguntei se ela estava louca, ela riu. Emi disse que não significava que tinha que perdoar Aoi por qualquer dor sofrida, mas que tinha que colocar para fora tudo o que aquilo tinha feito comigo. Tinha que ouvir dele o que ele pensou naquele momento que justificava suas ações, e se depois continuasse achando que ele era um "bosta" pelo menos teria finalmente se livrado do passado.

Segundo ela era estupidez um garoto entrando na fase adulta lidar com outro garoto em fase quase adulta com base em lembranças de meninos. Naquele momento eu não queria mais estar no mesmo aposento que ela.

Talvez fosse a primeira vez na minha vida que tenha sentido tanta raiva de minha própria mãe. Pela expressão no rosto dela, ela sabia. Eu não tinha que conversar com Aoi, não queria ter dito tudo o que disse para ela. Sinceramente, seria melhor se não tivesse contado essa história para ela.

Eu queria sair daquele lugar, mas antes que eu pudesse largar o pincel na base de plástico foi a vez dela em me fazer prestar atenção em si: – Você sabe por que eu não tenho família, Takanori?

A pergunta foi o que me bastou para soltar o ar preso pela raiva. Minha mãe nunca falava sobre ela mesma antes de ter se casado com meu pai. A única coisa que eu sabia dela sobre aquele tempo era que ela tinha uma amiga fiel, que era a mãe de Miyavi.

E foi doloroso a ouvir contar sua própria história. Uma história sobre uma família muito rica com pai, mãe e dois filhos; um menino e uma menina. E o teatro que eles apresentavam para a sociedade, com direito a retrato da família perfeita em colunas sociais.

O empresário de sucesso, a casa perfeita, a família perfeita. A vida perfeita, até desligarem a luz de foco. A mãe que era a esposa perfeita, tinha problemas mentais; delírios e psicoses. O irmão foi educado de forma a acreditar que era o herdeiro, apenas isto; sua função era vestir ternos desde a infância e brincar de imitar o papai como se aquilo fosse o que mais queria. E ela encarregada de ser a imagem da perfeição; inteligente, esperta, bonita. O pai um mero coadjuvante que mantinha o foco social em como o teatro era perfeito.

Abusos físicos para garantir que a criança criasse foco nas lições forçadas de uma falsa etiqueta. Abusos psicológicos da mãe que os culpava pela vida fracassada e anulada. E quando o irmão chegou em dada idade, abusos sexuais dentro de casa.

Como a mãe passava maior parte do tempo trancada em seu próprio quarto, Emi buscou ajuda do pai. Como resposta obteve a ordem de calar, pois estes tipos de coisas não aconteciam em famílias perfeitas. A única punição do irmão foi ter a mesada cortada.

E de mãos atadas, viu como recurso para se proteger apenas um: a escola.

No lugar onde ela e o irmão tinham que ser perfeitos ela viu a oportunidade de se proteger. Não ia mais para casa, o pai queria que ela fosse perfeita e Emi usou isso em própria vantagem como desculpa para não ir mais para casa a não ser para dormir.

Inscrita em todos os cursos e oficinas oferecidas, diretora de grêmio, líder estudantil. Maratonas e gincanas, e quando não houvesse nada mais usava dos recursos de posição na escola para criar grupos de trabalhos voluntários. Como ela estava sendo a filha perfeita e se destacando por isto, o pai não reclamou. O irmão não tinha argumentos e a mãe nem sabia onde estava.

Emi estava fazendo um trabalho voluntário em um asilo local no dia em que a mãe morreu por uma overdose de antidepressivos, ninguém a avisou. O pai estava a esperando para uma reunião familiar quando chegou em casa tarde, de fato uma reunião. Um informativo sobre como proceder com a morte da mãe, a mãe que ela nem sabia que tinha morrido. Sobre a notícia não ser divulgada, pois overdose não ser uma morte boa para a mídia.

Sendo assim, uma doença foi inventada e a imagem da morta preservada até que, teoricamente a doença criada fizesse efeito e uma morte com justificativa pudesse ser divulgada. Naquele momento ele trouxe anunciou que tinha contratado uma psicóloga para acompanhar os filhos e ajudá-los a superar a perda lastimável.

Aquela mulher era a amante do pai, e nunca trocou uma palavra com Emi e o irmão. Pelo menos não até uma discussão em que ela acusou a filha de ser mais querida pelo pai do que ela, com querida é claro que ela queria dizer que tinha conseguido acesso aos documentos de bens da herança da mãe morta e com isso, o anexo do histórico da herança do pai. Documento que ela não fazia parte, é claro.

Naquela altura da história Emi disse que viu que tinha que fazer algo por si mesma. Tinha que fazer escolhas que ditariam um futuro saudável, ou um futuro igual ao da mãe.

Naquele momento a amizade com Joe e Hiroki já era forte e o caso com cara que seria meu pai no futuro já tinha começado. Aquela história de amor ficou forte e em um plano ousado, Emi aceitou uma ideia sugerida pelo garoto desmiolado que tinha acabado que se colocar em sua vida de forma permanente, lhe dando um nome novo e a chance de uma vida nova.

Jamais teriam conseguido tudo aquilo sem uma ajuda especializada, e foi fácil convencer a amante do pai que ela poderia ficar com toda a sua parte da herança da família em troca de um favor que apenas a beneficiaria. Um favor que faria a herdeira Emi desaparecer, a única coisa que ela tinha que dar em troca era sua palavra de que jamais tentaria ir atrás de si.

Naquele momento ela fez a escolha mais importante de sua vida, tinha escolhido parar de omitir o que sentia. Concluiu o ensino médio por supletivo apenas para poder continuar e te ruma profissão, tinha o acúmulo de sua mesada na poupança de Joe e o recém-marido também tinha algum dinheiro, afinal também era de uma família de muitos bens. Ainda assim, teriam que começar do zero juntos.

Depois daquilo eu conhecia a história do casa adolescente que sofreu repressão por sua escolha precipitada, do pedido absurdo de terem um filho, da doença rara que ele omitiu até não conseguir mais. Depois disso eu nasci e passei a fazer parte da história dela, parte do fator decisivo de suas escolhas.

Quando escolheu lutar por si, ela abriu mão de um mundo. Teve que enfrentar a vida de uma maneira desconhecida, e tomar decisões após decisões que nos levariam até aquele momento. Eu sabia que tinha a vida que tinha por mérito dela, e me senti pequeno por ter sentido raiva dela quando me mandou encarar meus problemas.

Eu tinha entendido que meu problema era pequeno, ínfimo, mundano e ridículo se comparado ao que ela passou. Me senti ridículo por não ter aceitado suas palavras, ao mesmo tempo em que não me senti apto a ouvi-las.

Mais uma vez ela me pediu para conversar com Yuu e tentar colocar a história em pratos limpos. Ela disse que famílias influentes sempre têm sujeira embaixo do tapete e me lembrou que assim como ela, Aoi pertencia a uma família influente.

Quando eu quis saber o que ela queria dizer com aquilo, ela só deu de ombros e disse que era fácil fingir ter uma família perfeita. Eu ri, Aoi tinha uma família perfeita e não precisava fingir aquilo. Eu ia na casa dele e via como todos eram felizes, naturalmente felizes.

Emi concordou de forma muda e deu o assunto por encerrado. Pedindo apenas para que eu não me deixasse prender por fantasmas do passado, pois omitir Aoi não era seguir em frente. Eu fiquei com a impressão de que ela tinha mais coisas a dizer, mas não disse.

Também preferi não retomar o assunto encerrado quando ela sugeriu deixarmos o restante dos quartos para amanha, que poderíamos ir para casa por hoje. Antes de sairmos ela disse que eu podia convidar Reita para ir até nossa casa.

O clima estava estranho. Talvez ela estivesse meio decepcionada, como se que se não esperasse aquele desfecho para aquela história.

.:.

– Você está estranho hoje pequeno. – Foi o que Reita disse assim que chegou.

– Se você acha que é só hoje então está tudo bem. – Disse com humor.

Mas a verdade era que eu queria meio que voltar no tempo de desenvolver um pouco mais a conversa com minha mãe. Porque como sempre, eu não parei de pensar, e só pensava direito mesmo depois de ficar sozinho e conseguir perceber o quanto era lerdo para certas coisas.

– Não. O que assusta é que hoje você está tão estranho que precisei comentar. – Ele respondeu com o mesmo humor.

– Deve ser porque é a primeira vez que meu namorado vem aqui em casa como meu namorado. Então meu consultor de "coisas que namorados fazem" o que se faz na primeira visita da casa da sogra? – Perguntei

– Se comporta para tentar fazer a sogra acreditar que ele é um bom moço que não tem fantasias sexuais com seu único e amado filho. – Quem respondeu foi Emi, que sabe lá deus de onde apareceu na sala naquele momento fazendo piadinha. – Oi Reita. – Completou passando reto para a cozinha.

– Oi Emi! – Cumprimentou com humor, ele sabia que iria sofrer nas mãos da minha mãe. Mas também sabia que ela pegava no pé de zoeira.

– Não fiquem na mira dos olhos do Miyavi se quiserem namorar em paz. Vou colocar a culpa toda em vocês se ele vier reclamar que vocês dois mais liberdade do que ele.

– A gente não vai... – comecei.

– Namorar? – Ela cortou com ar de piada.

– Acho que não como Myv e Kai. – Respondi, talvez fosse bom aquilo ficar claro.

– Eu sei. Reita é mais espero que o Takamasa, e ele sabe que não quero ver o bundão branco dele na primeira vez que ele vem aqui para namorar meu filho. Eu vou pra cozinha e sim, nós vamos todos jantar juntos como uma grande família.

Toquei de leve o braço de Reita como uma forma de pedir que ele me seguisse. Se Emi estava nos dando carta branca, eu queria aproveitar.

Mas antes de alcançar a maçaneta da porta do meu quarto, Miyavi saltou do nada no corredor. Uma mão segurando seu notebook e a outra posicionada em frente a boca com o dedo em riste encostado nos lábios em um pedido claro de silêncio. E antes que eu pudesse raciocinar qualquer coisa me vi dentro de meu próprio quarto com Miyavi e Reita.

– Myv sabe aquele benefício que você tinha de poder namorar dentro do quarto, pois é o Reita tá aqui pra eu poder usar o meu. – Reclamei quando o vi nos ignorar e sentar no chão de frente para minha cama, abrindo o computador que não estava completamente fechado.

– Não vai demorar nada. – Ele disse com ar de quem estava prestes a contar a melhor das ideias.

E da tela do computador surgiu cinco telas de "webcams". Meu quarto aparecia em uma, Kai usando "headset" estava em outra, Uruha como uma mancha branca por causa do brilho da tela em um quarto escuro demais em outra, e pasmem, Aoi com uma camiseta de banda e cabelos molhados.

– Myv... – chamei, mas ele me ignorou.

– Vem. Vem. – Disse enfim, nos chamando para sentar no chão ao lado dele.

– Tá Miyavi, agora que você reuniu todo mundo aqui fala logo o que quer. – Disse Uruha. A imagem dele aparecendo com ângulo de baixo para cima, parecendo mais fantasmagórico ainda.

– Meu Deus Uruha mexe na tela deste notebook você está parecendo um fantasma com papada. – Ele riu e sentou no que parecia ser sua cama, ajustando a tela com a câmera até ficar decente.

– Melhorou seu chato? – Perguntou.

– Em partes. Ninguém aqui precisava ver seus mamilos rosadinhos. – Disse Kai nos fazendo rir r recebendo uma encarada de Uruha para a câmera com um lindo sinal com o dedo do meio apontado para a mesma.

– Vai se foder, Kai! – Reclamou.

– Eu bem que queria, mas me colocaram um cinto de castidade de aço. – Ele respondeu e rimos novamente.

– Sério que vocês todos estão aqui para bater papo? – Fui obrigado a perguntar.

Até quando aquela gente que eu amava iria continuar empatando meu tempo com Reita?

– Não. Eu quero mesmo falar com vocês todos juntos sobre isso aqui. – Disse puxando um molho de chaves do bolso.

– O que diabos é isso? – Uruha perguntou com tédio.

– As chaves lá de casa. Eu peguei quando a Emi me obrigou a dormir no quarto dela e fiz uma cópia.

– Parabéns você tem mais um motivo para ser tachado de irresponsável pela tua mãe e a minha. – Disse.

– Só se elas descobrirem. Eu quero dar uma festa, mas para funcionar todos temos que trabalhar juntos.

– Myv só tu acha que vai dar uma festa e minha mãe não vai descobrir.

– Eu quero ter uma noite de diversão com o Kai. E então todos podemos aproveitar juntos! – ele disse.

– Kai você concordou com esta ideia? – perguntei incrédulo.

– Ah Ruki não venha me dizer que você e Ruki não estão com vontade de ficarem um tempo sozinhos sem a pressão da Emi também.

– Sabe..se não fosse o Miyavi nos sequestrar, nós estaríamos sozinhos sem a pressão da Emi aqui no meu quarto. Neste momento são vocês que estão impedindo que Reita e eu aproveitemos do namoro.

– Feito! Então é isso né gente, se não tem mais nada eu vou desligar aqui. – Disse Aoi.

– Não! Aoi espera, eu preciso que você faça algo importante para esta festa acontecer.

– Esta festa vai acontecer? – Ele perguntou incrédulo.

– Vai sim. E o Ruki vai junto sim, porque simplesmente não tem como eu ir e você ficar. AÍ sim a Emi vai desconfiar.

– Bom que você não liga pro fato de eu não querer participar disto.

– Você quer! – Miyavi advertiu. – Nós vamos dizer que a festa é na tua casa, mas nós vamos pra minha. Emi vai implicar com festas em lugares desconhecidos e Uruha mora aqui na frente, se eu disser casa do Kai ela vai ficar se comunicando com a mãe dele. Mas se nós dissermos que vai ser uma festa na tua casa ela deixa, e ela não tem contato com seus pais, certo.

– Sinto muito, mas não Myv. Eu moro na mesma rua e mesmo sem ter contato com meus pais ela sabe que eu estaria dando festas aqui em casa. – Ele disse de forma calma.

Aquilo me fez pensar nela, na minha mãe. Aoi falou aquilo com muita certeza, muita convicção, o que me fez ter certeza novamente de que Emi sabia mais dele do que quis me dizer.

– Qual é Aoi, você é o cara da festa! – Miyavi insistiu.

– A resposta é não Miyavi. E se quer uma opinião sincera, não minta para ela.

– Então pode ser a casa do Reita. – Kai disse com o mesmo desespero como se estivesse tentando encontrar a saída de um labirinto muito escuro.

– Não. – Dissemos juntos, Reita e eu.

– Ruki e eu ainda temos o benefício da confiança de Emi. Eu sei que ela não vai deixar de confiar até que demos motivo.

– Miyavi se você tem a porcaria da chave, porque simplesmente não inventam qualquer merda para fazerem depois da aula e irem para lá?

– Porque durante o dia tem pessoas entrando e saindo de lá em horários aleatórios. Minha mãe está comprando coisas pela internet e pedindo para Emi ir lá acompanhar a instalação das coisas e tudo mais.

– Eu nunca pensei que iria dizer isso, mas a tua mãe está um porre Ruki. – Reclamou Kai.

– Parem de colocar a culpa nela, ela só está preservando o desejo da mãe do Myv. E ela ainda fez vista grossa, porque pela mãe do teu namorado, vocês nunca que iam ficar de esfregação no quarto do Myv. Ela deu a chance de vocês matarem um pouco da vontade até a Hiroki-san voltar.

– Eu quero ver você dizer isso quando ela estiver impedindo a evolução do namoro de vocês dois.

– Até agora toda vez que alguma coisa é interrompida entre Reita e eu a culpa é de pelo menos um de vocês. Tipo agora. – Disse perdendo a paciência e me levantando, deixando claro que queria ser seguido por Reita.

Ainda deu tempo de ouvir Uruha dizendo que não podia fazer nada para ajudar e se despedindo. Aoi fez a mesma coisa. Mas Kai apenas deu continuidade à conversa, e eu bufei, porque Miyavi ia ficar usando o meu quarto para namorar pela web com Kai.

Levei Reita para o pátio dos fundos, que tinha acesso pela sacada da sala. Emi tinha um deck com móveis de jardim e um balanço de madeira para mais de uma pessoa ali atrás, e foi para lá que eu o levei. Achei que o clima ia ficar estranho pelo episódio com Miyavi, mas Reita sempre sabe dar um jeito.

– Ah isto daqui é muito melhor do que ficar no quarto. – Ele disse.

– Oi?

– Isso aqui. – Repetiu. – Tem coisa mais romântica do que dois namorados em um balanço à luz do luar? Vamos nos sentar abraçadinhos aqui Ruki. – Disse batendo com a mão na madeira do acento, em um tom que me deixou confuso entre humor e expectativa.

– Vai te catar, Reita. – Na dúvida respondi com humor, mas me sentando na droga do balanço.

Puxei as pernas para cima para me abraçar nelas e encostar a lateral do rosto nos joelhos, olhando para o ser ao meu lado sem me importar com o peso do braço dele sobre meus ombros. Nem em perder este contato quando ele se aproximou ainda mais para um beijo.

– Nós vamos ficar como eles? – Perguntei à Reita depois dos longos minutos nos quais ele ficou intercalando beijos com brincadeiras entre meus lábios e a língua dele.

– Hm?

– Myv e Kai, a forma como o namoro deles é muito mais física do que qualquer outra coisa. Algumas coisas que eles fazem me deixam curioso, mas a fissura deles assusta. – Disse e Reita riu.

– Curioso é? – Disse entre as risadas. É sempre bom saber que mesmo meu namorado gosta de tirar com a minha cara.

– Ah cala boca! – Reclamei empurrando o ombro dele de leve, em uma brincadeira boba.

– Eu concordo com o que você disse da sua mãe lá dentro, ela apenas está fazendo o favor que a amiga pediu. Não acho que por ela a situação estaria assim. Myv e Kai estão assustadores e chatos porque querem algo que não podem ter, parece que estão mais focados em conseguir ter o que querem do que no que eles realmente querem.

– Então nós não vamos ficar como eles?

– Assustadores, acho que não. Agora aquela parte sobre ter coisas que te deixam curioso, este eu acho um bom tema para discutirmos. Na verdade este eu acho que é um tema que me interessa muito.

– Não, eu não acho um bom tema. – Reclamei, me sentindo com o rosto realmente quente quando percebi no que implicava ter dito anteriormente que coisas que Miyavi e Kai faziam ficavam brincando dentro da minha cabeça por mais tempo do que eu gostaria.

Ele continuou implicando comigo enquanto tentava distribuir beijos em pontos aleatórios do meu pescoço, eu continuei reclamando e tentando afastar ele com os braços. Mas não era como se não estivesse mantendo o pescoço livre ao mesmo tempo para ser mais fácil para ele alcançar mesmo com a birra.

Desenrolando uma brincadeira simples, gostosa e divertida puramente pela simplicidade. Que terminou com ele fingindo uma emboscada, que teve como aliado para me prender entre ele e o encosto do banco, eu mesmo.

Era engraçado como algo tão bobo podia ser descrito claramente como um sentimento de felicidade. Não importava exatamente o que eu fazia, se fosse com Reita por perto não tinha como me sentir menos do que feliz.

Claro que eu estava descobrindo que era muito melhor com a boca dele colada na minha. Recriando de forma calma e acolhedora toda a cumplicidade de tínhamos com o carinho trocado entre nossas línguas.

Aquilo nunca ia deixar de ser bom.

Nunca ia deixar de me trazer calma.

Nunca ia deixar de ser um ato mudo de sentimentos claros.