Capítulo trinta e seis: Pingos nos is

Por Kami-chan

Não era nenhuma novidade nós seis estarmos reunidos no horário do intervalo da aula, mas hoje não era um dia normal. Uruha tinha permitido que Aoi voltasse a se aproximar no dia anterior, mas parecia descontar em seu lanche alguma raiva acumulada pelo mesmo, hoje.

Sem mentiras, ele amava Aoi até ficar com ele, então passou a ter uma raiva enorme pelo idiota insensível cuja cara eu quebrei com orgulho. Aí do nada ele chama a imbecil de volta e parece que tudo vai ficar bem, mas toda vez que o celular de Aoi da um sinal sonoro anunciando o recebimento de uma nova mensagem o sache de ketchup sofre muito nas mãos de Uruha.

A aura raivosa era tamanha que eu tenho certeza que não era mão dele apertando o pacotinho de plástico que fazia o molho sair, e sim o olhar de ira do mesmo. Bem como a vontade com a qual ele mordia o lanche assado me deixava com a impressão de que ele estava mordendo o próprio Aoi, e isto estava deixando o clima muito tenso.

– Quando anunciaram o show do Abomináveis, a gente não tinha combinado de tocar todo mundo junto como uma banda? – Kai disse de forma aleatória, talvez para quebrar o clima pesado.

Eu não me lembrava de termos combinado nada do tipo, e eu me lembraria se tivesse acertado algo assim. Mas como o clima estava estranho...

– Seria engraçado, um no baixo, um na bateria e três na guitarra. – Respondi.

– Ué pode ser dois na guitarra e dois no vacal. – Disse Miyavi.

– É...não! – Disse de forma irônica. – Não vou dividir microfone com você.

– Eu não estava pensando em largar a guitarra. – Ele retrucou como se fosse um absurdo o que eu tinha pressuposto em minha cabeça.

– Uruha não deve chegar nem perto de um microfone, nem de brincadeira. – Foi a minha vez de retrucar.

– Ei! – Reclamou o loiro. – Eu sei cantar afinado.

– Isto não quer dizer que seja agradável de ouvir Uruha. – Dei de ombros.

– Só vou ignorar isto, porque não passaria pela minha cabeça largar a guitarra nem se você pedisse. – Ele respondeu me apontando o dedo em riste, tentando fazer cara de mal. Algo que no dia em questão era não algo difícil

– Eu gosto de cantar! – Disse Aoi de forma aleatória sem nem tirar os olhos do celular.

O silêncio que seguiu imediatamente após a fala do moreno, foi responsável por fazer o mesmo tirar os olhos da tela do telefone e encarar de volta os cinco pares de olhos pregados em si. Dois cômicos, um superiormente irônico, um sem expressar nada e ao lado deste, um muito cheio de birra.

– Ah...mas eu acho que ficaria muito melhor só com um vocal. Dois vocais são estranhos.

– Ei, tem várias bandas com dois vocais que são ótimas! – Concluiu Reita.

– Não força Reita, colabora. – Reclamou o moreno.

– É engraçado. – Disse Uruha recuperando a atenção de todos. – Basta o Ruki fazer cara feia que o Aoi fica bem passivo. – Concluiu fazendo todos rirem.

– Qualquer um que apanhe do Ruki tem que ser muito passivo. – Pontuou Miyavi.

– Ei! – Reclamamos eu e o imbecil ao mesmo tempo, mas cada um por um motivo diferente, é claro.

Os outros apenas riram mais, o telefone de Aoi tocou e ele se afastou para atender. Kai falou alguma coisa sobre ter entendido o motivo para Uruha estar fazendo cara feia o intervalo inteiro, mas que ainda teria que ter aulas comigo para aprender a fazer a careta certa para deixar o Aoi mais passivo que ele. Foi impossível não rir disso, principalmente depois que o loiro fez uma cara verdadeiramente pensativa por alguns segundos e concluiu seu pensamento com um fluido "faz sentido!".

– Hei, na festa nós poderíamos tocar né. – Kai disse como se estivesse tento a melhor das ideias.

– Que festa? – Balbuciou Uruha.

– Porra, a que falamos ontem é claro. – Kai respondeu como se fosse um ultraje Uruha não saber do que ele falava.

– Kai não vai ter festa. – O lembrei.

– Vai sim! Né Aoi? – Perguntou pedindo reforços ao moreno que estava voltando novamente após a curta ligação.

– Aoi? – Reita chamou, a dúvida claramente expressa no timbre concluiu por si o pensamento não expresso em palavras.

– Miyavi me mandou algumas mensagens, mas todas foram respondidas da mesma forma: não.

– Isso não é definitivo, nós ainda estamos negociando. – Disse Miyavi.

– É sim ainda mais depois que você me chamou de passivo. – Aoi apontou com humor, mas sério quanto ao "não". E nós vamos voltar a abrir a loja hoje. – Completou olhando para Reita balançando o telefone para indicar sobre o que era a ligação.

– Não fui eu quem disse, foi o Uruha! – Tentou em vão se defender sem dar atenção à Reita que passou a bater as mãos nos bolsos em busca do próprio telefone.

– Deixei meu telefone na mochila. – Disse baixinho, quase sendo interrompido pela reposta de Uruha à Miyavi.

– Mas eu só disse que ele era passivo, você que quis complementar e lembrar que ele é tão passivo que apanha até do Ruki. – Disse Kouyou em sua defesa.

Eu devia reclamar por ser usado como ponto de referência para isso, mas ri. Porque a forma como o Aoi abriu a boca era claro que ele ia protestar ao comentário de forma fervorosa, mas apenas engoliu em seco quando olhou para a cara amarrada de Uruha e fechou a boca. Certamente se lembrando de que até ontem nosso grupo estava dividido por causa deles dois.

– Viu, ele fica bem passivo quando vê uma cara amarrada olhando pra ele. – Uruha ainda completou rindo.

Mas a felicidade durou apenas até mais um sinal sonoro de mensagem ser emitido pelo telefone de Aoi, e o moreno o ignorar rapidamente para dar atenção ao teclado digital na tela do equipamento. Isto tinha o poder de mudar o humor de Uruha rapidamente.

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– Você não entende o significado de "não" Miyavi? – Aoi sorriu ao falar, mas estava falando sério.

Aquela já era a quarta vez que o menino lhe ligava pelo mesmo motivo: tentar convencê-lo a mudar de ideia e ajudá-lo a mentir para Emi.

Pela manhã na escola Aoi tinha até se sensibilizado com a troca de mensagens com Miyavi durante dos períodos de aula, a conversa entre eles foi bem longa e ele pode compreender o tamanho do esforço do casal.

Sinceramente, até a hora do intervalo ele até tinha se pego pensado em meios de colocar todos eles dentro de sua casa sem que ninguém acabasse entrando onde não devia, fazendo com que assim Miyavi não tivesse que usar sua chave e sofrer a consequência de dois castigos. Mas este sentimento de solidariedade logo passou, nem era pelas brincadeiras no horário do intervalo, mas pela insistência chata de Miyavi.

– Cara eu vou colocar o número dele na "blacklist" não aguento mais atender ligações de Miyavi. – Aoi disse assim que terminou chamada com o outro e colocou o celular no tampo do balcão.

– Ele está desesperado. – Reita respondeu rindo, havia uma graça muito grande na maneira como Miyavi tratava aquele assunto como uma missão de elevada importância.

Mas quando sua pequena crise de risos passou, Reita estranhou o fato de somente ele estar rindo. Na verdade Aoi estava estranho com uma cara de quem tinha visto um fantasma ou coisa do tipo.

Motivo: Emi estava na loja e nenhum dos dois tinha percebido.

Do jeitinho dela, quietinha como se nem estivesse ali, eles sabiam que ela tinha escutado aquela parte da conversa. E não teria problema nenhum nisso se Aoi não tivesse dito o nome de Miyavi, e Reita não tivesse concluído que o mesmo estava desesperado. Porque todo mundo sabia exatamente pelo que o tatuado estava desesperado.

– Pode respirar Yuu. – Ela disse ainda mexendo nos álbuns que haviam chegado por último na loja, sem nem se dar ao trabalho de olhar na direção deles.

Os meninos se olharam e logo se ajeitaram cada um em seu lugar. Reita foi o primeiro a falar:

– O Joe não chegou aqui ainda.

– Eu sei. Ele deixou uma mochila e uma pasta de couro no almoxarifado para você me entregar.

– Ah tá. – Ele saltou da banqueta e subiu escada acima, deixando os dois sozinhos na loja.

– Desembucha! – Emi disse se parando ao lado de Aoi no balcão da loja.

– O que? – Yuu olhou para todos os lados da loja em busca de um mísero cliente para atender, mas não havia ninguém afinal o shopping ainda estava fechado.

Apenas a loja de Joe que tinha comunicação direta com a rua tinha autorização para abrir antes que o problema com os dutos de gás fossem completamente resolvido. Ainda assim a porta e as vitrines que davam para dentro do centro comercial estavam fechadas. A única boa notícia era que poderiam fechar em horário normal e não em horário de shopping.

– Vamos Aoi não se faça de desentendido.

– Por favor, não me exija isso Emi-san, eu já não sou o mais amado do grupo.

– Você tem a reputação que criou.

– Mas você não precisa me tornar um dedo duro também.

– Você não vai ser um dedo duro, vai ser o pobre menino que foi maltratado pela Emi-san até desembuchar. – Ela respondeu como se não estivesse falando de si mesma.

– Miyavi só quer ajuda com algo, mas não está ao meu alcance.

– E segundo Reita ele está desesperado para esta ajuda. Sério Aoi eu não nasci ontem e a minha paciência é limitada.

Aoi respirou fundo. Mentir para Emi não era uma opção, dedurar o amigo também não. Teria que achar um meio termo que a convencesse, mas que não arruinaria a paz de seus amigos.

– Ele só está tentando me persuadir a dar uma festa na mansão. Você sabe...eu tenho uma reputação de gostar de uma boa festa. – Disse e viu a mulher lhe analisar em busca de sinais de mentira em sua frase.

Não diria que Miyavi tinha uma cópia da chave da própria casa e nem que na verdade o menino queria mentir que a festa seria na casa de Aoi, mas fazer isto em sua casa vazia. O que tinha sido dito bastava, Emi sabia que Aoi não faria uma festa em sua casa de forma alguma.

– O que você está esquecendo-se de me contar? O jeito que você ficou branco quando me viu sugere que tem mais coisas aí.

– Eu confesso que – pensou por um momento – Cheguei a cogitar aceitar o pedido dele por pena. Eles parecem tão desesperados em conseguir um tempinho a sós para eles que... – Não concluiu a frase, deixando o significado dela por aquilo mesmo. – Mas não se preocupe, Miyavi já deu um jeito de me fazer desistir de vez.

– Você chegou a dizer sim?

– Claro que não. Seria praticamente impossível levá-los lá em casa e ninguém invadir o quarto errado.

– Como está sua mãe?

– Estável. – Deu de ombros.

– Existe algum meio desta festa acontecer com segurança de que ninguém vai invadir a privacidade que você não quer compartilhar?

– Exigiria um esforço grande demais em comparação ao meu amor por Miyavi e Kai. É sério não se preocupe, eu não vou fazer isto.

– Hum...É só isso mesmo Aoi? – Ela perguntou em tom desconfiado.

– Sim... – O menino respondeu incerto por reconhecer o tom de desconfiança, mas sem saber identificar ao que ele estava ligado.

– Então eu posso ter como certeza que você não vai de forma alguma dar uma festa em casa, certo.

– É. – Respondeu novamente sem certeza, principalmente por ter sido uma pergunta teórica.

– Mesmo que seja uma festa de mentira, não é mesmo? – Ela perguntou novamente, como se fosse só para ter certeza.

Tecnicamente, Emi já sabia que aceitar o que Miyavi realmente tinha lhe pedido não fazia parte do perfil de Aoi. Só queria ter certeza de que a tal pena que ele disse ter sentido não seria suficiente para que Aoi mudasse de ideia.

– Você sabia... – Disse o menino finalmente compreendendo o que aquela conversa toda significava.

– Bom pelo menos agora ficou bem claro que você não vai dar festa nenhuma, seja ela verdadeira ou falsa. Nem por pena.

– Isso que você faz é quase abuso de autoridade, sabia.

– Enquanto vocês forem todos menores de idade é educação. – Sorriu. – Mas sabe de uma coisa, uma festa seria legal.

– Se Miyavi conseguir dar a tal festa de alguma forma, tenho certeza que ele não iria querer você lá. – Ele sorriu.

– Que cruel! Mas ele não vai tentar mais dar esta festa. – Ela garantiu.

– Como você pode saber? – Ele perguntou surpreso, as ligações de Miyavi lhe davam uma ideia diferente.

– Fazer uma copia da chave foi uma ideia inteligente, eu não teria percebido se não fosse o acaso. Mas querer dar uma festa sem que eu soubesse, foi a ideia mais burra quite já vi Miyavi ter.

– A cabeça de baixo não tem cérebro Emi-san. – Gracejou o menino.

– Todo cheio de graça né, grande filósofo de "cabeças de baixo". Esse teu olho ainda tem vestígios de hematoma, por que foi mesmo que você ganhou ele? – Foi a vez dela brincar.

– Mas é óbvio que foi porque cabeças de baixo pensam ué. A minha é bem burra por sinal, tem um q.i muito abaixo da média.

– Sem salvação você, completamente sem salvação Aoi. Mas enfim, é porque "cabeças de baixo" – Prosseguiu usando a expressão do menino – não pensam que eu sei que essa festa é plano descartado.

– É?

– Para ela acontecer Miyavi precisa do apoio dos cinco, mas só tem de um. Ele também vai perceber logo que não tem mais a copia da chave que fez, então vai começar a pensar em planos que envolvam apenas ele é Kai. E isso sim é perigoso, eles podem se meter em encrencas, mudar o grupo de amizades, etc... Nesse caso a festa seria muito legal.

– Então por que você não o deixa fazer?

– Não sou a mãe de Miyavi nem de Kai. A mãe de um não quer e a do outro se quer sonha que o filho namora, nem que é com um garoto. Ah a distância da Hiro-chan não costumava dar problemas até Miyavi virar um adolescente.

Aoi não respondeu. Bem no fundo queria muito perguntar se ela faria o mesmo com Ruki e Reita, mas preferiu não se meter. Emi constantemente dizia que não concordava em todo com o pedido da mãe de Miyavi, mas também não se mostrava tão liberal no assunto e não que Reita fosse cobrar algo de Ruki em momento algum, mas para si o amigo dividia o medo que esta dúvida trazia.

– Você quer me pedir alguma coisa? – Perguntou prevendo que a mãe de Ruki não era de deixar pontas soltas.

Emi ficou alguns segundos em um silêncio tão profundo que fez Aoi achar que não seria difícil esquecer de que ela estava ali, mas por fim respondeu um "não" baixo e fraco. Aquilo fez Aoi pensar que a resposta não correspondia com o que acontecia dentro da cabeça dela, mas não falaria nada.

– Até mais, Aoi. – Respondeu de forma simples e se foi.

– Hei, você não veio aqui pra pegar uma mochila? – Ele respondeu com outra pergunta.

– Ah é! Avisa pro Reita que eu acho que me confundi, talvez ele não ache nenhuma mochila no almoxarifado. – Disse rindo, claro que não tinha nada o que ser procurado para ela naquele lugar, ela só não queira Reita ali na conversa.

Emi saiu e dobrou a esquina pensativa, tinha ido até a loja de Joe conversar com Reita, mas não pode deixar a oportunidade passar ao pegar a ligação de Miyavi para Aoi no processo. A verdade era que na noite anterior tinha ido até o quarto de Ruki para perguntar se havia algum tipo de coisa que Reita não comia para que ela não usasse na cozinha, mas novamente, havia chegado no meio de uma conversa interessante.

Não tinha muita informação sobre como uma boa mãe devia ser, sempre se esforçou ao máximo em apenas ser a mãe que gostaria de ter tido. Pareceu sempre ser o suficiente até seus meninos chegarem naquela idade, não se lembrava de sua adolescência ter sido tão tumultuada neste sentido.

Mas estava começando a desconfiar que houvesse algum tipo de entidade suprema de auxílio às mães de adolescentes, as mães boas pelo menos. De alguma forma, ela sempre estava na local certo na hora certa.

No caso da noite anterior, estava no local certo e no momento certo para entender três coisas:

Primeiro: Estava fazendo um bom trabalho com Ruki;

Segundo: Reita além de um bom menino, era responsável;

Terceira: Precisava ligar para Hiroki para conversarem sobre Miyavi urgentemente.

Teria que fazer a amiga entender que se ela não poderia estar aqui para dar o suporte que queria dar ao filho neste momento, teria que confiar no julgamento dele para esta situação antes que elas perdessem a confiança dos dois meninos. Da forma como já estava acontecendo.

Emi acreditava de verdade que a confiança era algo que devia ser mútua entre elas e seus filhos. E mútua significava que para eles confiarem nelas, também deveriam creditar confiança neles. E se eles estivessem errados, como a mãe dele temia, pelo menos não teriam medo de se aproximar delas quando fosse preciso. Se fosse preciso.

Sem desviar o pensamento das coisas que deveria fazer, entrou na casa de shows e avistou de longe Takanori brigando com uma parafusadeira. Tinha que ir até a privacidade de sua sala para ligar para a mãe de Miyavi, mas também podia aproveitar da situação para resolver outras coisas também.

– Takanori! – Chamou.

– Han? Haa oi mãe me ajuda aqui, eu não sei lidar com essa porcaria. Por que você não manda o Reita instalar estas coisas, ele é que é bom com estas coisas. Eu só sei dizer onde que elas devem ficar. – Ele disse dividindo miseravelmente sua atenção entre Emi e o portátil em sua mão.

– Na minha sala. – Ela mandou, mas o menino não conseguia ouvir a mãe enquanto tentava trocar a peça na ponta da parafusadeira. – Takanori – chamou mais uma vez, fazendo o menino olhar para si quando ela usou a própria mão para baixar a ferramenta do nível dos olhos do menor – Na minha sala, agora. – Disse de forma a garantir que o filho tinha entendido que era um assunto sério.

– Na sua...sala? – Ruki perguntou de forma insegura, o olhar da mãe com certeza não era bom.

– Agora. – Completou e se virou para caminhar até o local indicado.

– Olha mãe, eu não sei o que vocês está pensando, mas eu juro que não fiz nada, tá. – Ruki disse com todos os sinais de alerta ligados ao ver Emi jogar a bolsa sobre o tampo da mesa e procurar por algo dentro da mesma em um silêncio sério.

Ainda em silêncio Emi achou o que procurava, um molho de chaves com um chaveiro exótico que tinha tirado de um menino encrenqueiro enquanto o mesmo dormia. As chaves clonadas por Miyavi foram jogadas em cima da mesa de forma brusca e acusativa, enquanto que ela se sentava em sua cadeira atrás da mesa. O olhar para Takanori dispensava qualquer acusação.

– Isto não é meu! – O menino disse rápido, tal como se Emi tivesse jogado um tijolo de cocaína entre eles e dito que tinha achado aquilo em seu quarto.

– O que é isto? – Ela perguntou em um tom baixo.

– Eu não sei! – Ele respondeu de forma rápida, reconheceria a extravagância de Miyavi naquele chaveiro em quilômetros de distancia.

– Como não sabe? Parecem-me chaves. – Ela disse pegando o molho e o analisando de maneira dramática.

– Não sei, porque não são minhas. – Repetiu.

– Vou te dar uma dica muito interessante: Parecem ser chaves, mas não são.

– Não?

– Não! São cópias de chaves. Senta. – Mandou indicando uma cadeira de frente para si. – O que é isto? – Perguntou jogando o molho de chaves entre so dois mais uma vez.

– Cópias de chaves. – Ruki respondeu baixo.

– Cópias de chaves que você já entrou gritando que não são suas. Interessante. Eu não sabia que você tinha medo de chaves, principalmente chaves que você não sabe o que são ou de quem são.

– Chega mãe.. – Ruki bufou – Você consegue ser um pé no saco quando quer. – Disse de forma calma, tentando incluir humor no tom.

– Ah mudou o discurso de medroso para companheiro. O que te faz pensar que pode falar comigo deste jeito no meio de uma conversa dessas.

– Mãe, nós somos amigos... – Reclamou, nunca tinha precisado medir palavras com Emi. – E fala sério, se você sabe das chaves sabe de quem pegou elas. E sabe também que ele não as usou.

– Você foi conivente com isto?

– Não. Eu não sabia da existência disto até ontem. Por favor mãe, não briga com ele.

– Miyavi vem quebrando regra após regra dentro de casa, eu não posso manter meus olhos fechados para isso.

– Ele não quebra regra após regra, eles só estão fissurados em na ideia de algo que não podem ter. Eles se comportaram muito bem na noite que você não dormiu em casa, eles estavam namorando na sala, Kai foi embora assim que escureceu, Miyavi passou a noite toda comigo. Eu consigo convencer ele a não usar esta chave.

– Você fala com se não fosse estar como ele daqui alguns dias... – Emi bufou baixo.

– Você acha que eu vou estar igual a ele no futuro? – Perguntou se esquecendo momentaneamente do assunto principal, aquela era uma ideia que preocupava muito o menor.

– Com toda certeza que vai! – Ela respondeu na cara dura.

– Por quê?

– Porque as coisas são assim! Namoros evoluem e namorados fazem sexo.

– Mas o que eles passam é desespero!

– Azar o deles, estão deixando de curtir o lado bom da vida por não saberem seguir regras.

– Mas mãe, o estado deles está de dar pena.

– Por isso você não me contou que ele fez uma cópia das chaves, e pretende dar uma festa na casa. Não apenas uma festa escondia, mas mentindo que estarão em outro lugar.

– Ah...mas...

– Mas o que?

– Ninguém concordou com esta ideia maluca dele, mãe. Eu só não quis complicar ainda mais o lado dele te contando, até porque com certeza ele vai acabar percebendo que o plano maluco dele não tem fundamento.

– Tá. Ruki eu vou te dar uma oportunidade de ajudar Miyavi e Kai, já que você está tão empático com relação a eles.

– Hum..

– Eu prometo ligar para a mãe do Miyavi e tentar convencer ela de que as regras que ela impôs não servem mais, mas para isso você terá que me dar algo.

– Um acordo?

– Tipo isso.

– Que acordo?

– Eu converso com a Hiroki assim que você for à casa do Aoi conversar com ele todas as coisas que vocês nunca conversaram.

– O que? – Ruki deu um grito dentro da sala. – Miyavi e Kai podem morrer celibatários por mim.

– Ah a empatia não é tão grande assim. – Brincou.

– Não faz o menor sentido isso daí.

– Certo. A opção é completamente sua.

– A decisão já esta tomada, não vou ir lá conversar com aquele fuinha só por causa disto.

– Tudo bem, não precisa agir como se eu estivesse te ameaçando. Ah vai ser mesmo uma pena ter que dar uma punição em Miyavi por ter feito estas cópias, achei que poderia liberar a tal da festa.

– Então libere, só não faz sentido o que você pediu.

– Aoi não está nas nossas vidas de passagem, Ruki. O vínculo que ele tem com Joe é muito forte e permanente, e eu sinto que com o Reita não é menos intenso. Isso faz dele parte da nossa família, como Kai e Uruha. Tudo o que disse para defender Miyavi mesmo sabendo que ele tem atitudes puníveis, é o que pessoas da mesma família fazem umas pelas outras, o único prejudicado com essa amargura que você sente por Yuu é você mesmo.

– Não vejo nada em Aoi que me faça querer ele na nossa família.

– É claro que não. Você se apegou a um evento único e permitiu-se guardar a negatividade do que aconteceu por anos. Você mesmo disse, tudo de negativo você liga à ele. Mas você nem o conhece mais, vocês dois eram tão pequenos que eu acredito que na verdade nem chegaram a se conhecer verdadeiramente.

– Não importa, ele demonstra que é uma pessoa que eu não quero conhecer.

– Mas também não consegue tirar da cabeça. Você não quer o conhecer porque tem medo dele, tem medo de ver coisas boas em Aoi e isto é totalmente compreensível até certo ponto. Você tem tanto medo de descobrir que ele é uma pessoa legal que bloqueia tudo o que tem ligação com ele imediatamente, você só o aceita quando alguém o critica.

– Eu não tenho medo dele, tenho medo de querer confiar nele novamente. Manter ele longe é o mais seguro.

– Que bom! Este medo indica que você já percebeu que há algo bom nele. Você não é mais aquela criança e Aoi não é a única pessoa que vai te machucar na vida, então deixe de ser aquela criança e aceite que ele é uma pessoa do teu círculo, porque ele é da família Ruki. Você não precisa amá-lo como Miyavi, Kai e Uruha, mas vai ser triste demais tanto ódio de você para ele. Tente-se apenas colocar-se no lugar dele quando estão todos vocês juntos, medindo palavras o tempo todo.

– Aoi é o palhaço do grupo, ele não mede palavras.

– Normalmente o cara que assume o posto do palhaço é o cara que mais guarda seus verdadeiros pensamentos e sentimentos para si. Quando você está sob pressão, ou em dúvida sobre a forma correta de conduzir uma situação delicada, ou quando está triste com algo que não quer dividir com ninguém, mas em todas estas situações tem alguém querendo saber o que há de errado com você. O que você faz?

– Uso humor para mudar de assunto. – Emi viu o menor baixar os olhos ao responder.

– Vale a pena conversar com Aoi, Ruki. E eu vou ouvir atentamente se depois você vir me dizer que ele é uma péssima pessoa que você não quer por perto, mas pelo o Aoi que você vai se permitir conhecer, perdoar ou odiar ainda mais pelo o que houve. Você é a pessoa mais importante do meu mundo, mas precisa encarar seus medos de frente para crescer.

– Ainda não faz sentido você querer negociar a festa do Miyavi com isso. – Deu de ombros.

– Ué uma recompensa sempre é bom.

– De uma recompensa para mim e não para o Miyavi. – Resmungou.

– Você e Reita estarão na tão desejada festa também. – Foi a vez dela dar de ombros.

– O..oe o que você está querendo pressupor aí? – Perguntou o menor, de repente lhe pareceu vívida a imagem dele e Reita em um mesmo ambiente em que Miyavi e Kai estariam se pegando livremente.

A ideia não lhe parecia muito confortável. Não era quando ele estava sozinho, não seria melhor com Reita em seu encalço.

Ruki sentiu seu rosto ficar quente com a ideia, e mais quente ainda depois que Emi respondeu sua pergunta com uma gostosa gargalhada. A mais velha deu a entender que estava se divertindo muito com seu constrangimento.

– Mãe.. – Reclamou o menor emburrado, mas não tão emburrado quanto estava repentinamente envergonhado.

– Tá. – Emi deu de ombros. – Nunca deixe de defender Miyavi, Takanori. Só tem que saber identificar situações de risco, omitir a cópia da chave e o plano da festa é uma destas situações.

– Você disse que daria liberdade para Reita e ficarmos sozinhos no quarto, mas foi lá ouvir a conversa? – Ruki perguntou, finalmente compreendendo como a mãe soube da chave.

– Me desculpe. Eu estava cozinhando, precisava saber se havia algo que Reita não comia. Não era minha intenção, mas eu também não poderia ignorar o que estava acontecendo lá dentro depois de entender.

Depois da conversa, Emi decidiu que as coisas que tinham para fazer ali eram mais importantes e expulsou Takanori de sua sala. A conversa mais importante ainda estava por vir, brincou com Aoi e Ruki, mas a ideia de ligar para Hiroki e intervir dependeria realmente apenas de Miyavi. Pois simplesmente não poderia beneficiar o garoto por seus erros, mas Takamasa era mais difícil de conversar, deixaria esta tarefa para a noite em casa.

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Quando os dias se arrastam mais para o final do ano do que para o início, tudo o que se deseja em alguns dias é uma mísera mudança na rotina diária. Não que eu achasse ruim ter meu quarto invadido por Uruha todos os dias, ouvir minha mãe travar uma batalha sonora até Miyavi finalmente sair da cama, nem ter o maior bagunçando de propósito todos os itens de higiene e cuidados com a pele que ficam distribuídos na ordem de uso sobre o tampo da pia do banheiro do meu quarto.

Eu jamais mudaria a forma como Kai sempre chegava bem no meio do café da manhã, nem a forma como minha mãe encontrava para conseguir nos arrumar, se arrumar e preparar a refeição todos os dias ao mesmo tempo sem atrasos. Nem sonhava em desejar uma mesa silenciosa, sem a folia de todos os dias com todas as piadas e brincadeiras. Mesmo que eu goste mais quando qualquer um deles é o alvo das brincadeiras, e não eu mesmo.

Ir reclamando para a escola. Contar o tempo de aula em duas partes; tempo que falta até o intervalo e tempo que falta até o fim. Depois fazer as combinações por alto sobre como seria o restante do nosso dia até o momento em que Uruha invadiria meu quarto novamente na manhã seguinte.

Mas seria indescritivelmente bom ter um dia completamente diferente. Um que ainda tivesse a euforia matinal do Kouyou, as piadas na mesa de café da manhã e algo para fazer depois dele, mas não ir à escola. Sem aula, sem trabalho...sem compromissos. Ou se isto fosse pedir muito, apenas um dia normal como todos os outros, mas com algum ponto a mais que o tornasse diferente.

Agora, com certeza de todas as ideias que se passavam pela minha cabeça, nenhuma incluía os eventos que fizeram o dia de hoje ser completamente fora dos padrões.

Eu nem se quer consegui entrar na escola direito e senti-me ser arrastado pelo braço. Rebeca, a menina que por algum parafuso a menos na cabeça, gostava de mim estava me arrastando para a sala do grêmio estudantil. Era fácil para ela, era a líder do grupo estudantil e tinha as chaves da sala.

E apesar dela ter me pego de surpresa, não retruquei nem nada, pois aquela ainda era a menina mais doce e decente daquele colégio insano. Em minha cabeça ela estava precisando de ajuda com algo, não seria a primeira vez em que eu participaria de ações do grêmio. Mas com certeza nunca tinha a visto com aquela expressão de nervosismo para me pedir para pintar um mural ou coisa do tipo.

– Takanori – Ela começou me fazendo sorrir, eu ouvia meu nome tão poucas vezes que quase dava para esquecer que aquele era eu, na verdade só me minha mãe usava meu nome e era quando eu fazia algo que precisava de repreensão ou coisa do tipo. – Takanori, você não está me ouvindo né? – Ela perguntou com um sorriso amarelo.

– Desculpe! Você precisa de ajuda com o painel de algum evento do Grêmio? – Perguntei com lógica linear, já que não havia outro motivo para aquela garota me arrastar até ali.

– Não. – Disse fazendo o volume de sua voz minguar rapidamente. – Você realmente não me ouviu. – Disse um tanto decepcionada.

– É um defeito interno. – Disse com humor apontando para minha própria cabeça. – Pode falar, juro que vou me esforçar.

– Eu disse que te trouxe aqui porque preciso falar com você. – Ela disse, e eu fiquei apenas a olhando esperando por mais já que tecnicamente ela já estava falando comigo. – É que...há um boato e eu fiquei com medo que... – Ela começou a não falar coisa com coisa, e mesmo sem entender nada, alguma luz de alerta ascendeu no meu painel central. – É que já faz tanto tempo que eu apenas sigo você de longe e eu preciso que você saiba o que exatamente o que eu sinto por você. – Concluiu em uma frase sem contexto, mas que pelo menos fez sentido na minha cabeça.

– Ah – Não pude reprimir meu pensamento, dando um passo para trás.

Eu sabia o que ela ia dizer, porque Reita já tinha me dito antes. Mas isto não significava que saberia lidar com aquele tipo de situação. A verdade é quando uma garota vem dizendo que precisa lhe falar sobre seus sentimentos, nunca pode ser uma boa coisa.

– Você já sabe e dá a mínima, não é? – Concluiu para si mesma.

– Olha Rebeca você realmente é uma pessoa incrível, mas não é apenas questão de "dar a mínima" ou algo do tipo.

– Mas eu realmente gosto tanto de você! – Ela disse, e eu senti que ela tentou expressar nas palavras o "tanto".

– Eu gosto bastante de você também, só que não do mesmo jeito nem intensidade. – Tentei explicar, nunca na minha vida eu achei que teria que fazer este tipo de coisa.

– O quanto você gosta de mim? – Ela quis saber, com um sorriso ameno.

– Ah tipo, as suas festas de aniversário são as únicas que eu vou. – Disse como se aquilo fosse o bastante, deve ter sido porque ela riu.

– Como você pode me fazer rir ao me dar um fora? – Perguntou.

– É porque eu gosto mesmo de você, não estou dizendo isto apenas porque você está aqui. Verdadeiramente eu não quero que você se magoe, mas é preciso que fique claro que a forma que eu gosto de você não é a mesma que a sua.

– Sentimentos evoluem. – Insistiu.

– Claro que sim, mas evoluir não significa exatamente passar da amizade para algo mais. Pode evoluir para uma amizade mais admirável. – Sorri.

– Os boatos são verdadeiros?

– Que boatos?

– Ai meu Deus, você não estava me ouvindo mesmo. – Ela disse, e bufou depois de olhar para minha cara de paisagem. – Tem umas meninas dizendo que você e o Akira estão meio que saindo. – Eu ri, virei boato. Que lindo.

– Ah isso é o boato, achei que fosse algo sério já que a maioria das meninas da nossa escola são loucas. – Ri.

– Então é só um boato, mesmo. – Concluiu em voz alta.

– Reita e eu não estamos saindo, estamos namorando. É um boato sem sentido, porque a gente se quer se esconde. Minha vida também não deveria estar em pauta na boca dessas meninas, este é o tipo de coisa que só atinge gente popular.

– Você é popular. – Ela concluiu dando de ombros e eu ri alto.

– Não sou não. Eu inclusive passo meus dias evitando o contato com qualquer pessoa que não seja Kai, Reita, Miyavi e Uruha.

– E o Aoi. – Concluiu sorrindo.

– Não, o Aoi é o preço que eu pago para ficar perto do Reita. – Disse sem interesse.

– Não parece. – Ela sorriu. – Enfim, você é bonito, educado, inteligente e talentoso. Talvez você não perceba o quanto é popular, mas as "meninas malucas da nossa escola" percebem. Ainda mais você sendo o protegido do Aoi, isso faz você ser alvo da atenção até das perigosamente malucas.

Ouvi o que ela disse e quase me engasguei com a crise de risos. Rebeca era mesmo uma menina ingênua comparada às malucas da escola, mas dizer que sou protegido do Aoi aí já é piada das fortes.

– Foram as mesmas meninas que disseram que havia boatos de Reita e eu estarmos juntos que te contaram sobre isso? Porque só assim pra fazer sentido, Rebeca.

– Não. Aoi realmente não deixa que nenhuma chateação daquelas garotas chegue até você. A maioria das pessoas acha que ele só quer demarcar o território dele e não quer mais ninguém disputando a atenção, mas a verdade é que ele se esforça para que elas não te chateiem. – Ela disse assumindo um tom mais serio, empenhada em comprovar sua tese.

– Aoi e eu nos damos tão mal entre nós que é mais fácil nos colocar como inimigos. Como eu disse, ele é só o preço que eu pago para ficar perto do Reita.

– Eu sei, eles são melhores amigos. Eu divido classe com Aoi pelo espelho, quando seu amigo Kouyou não me tira de lá – Sorriu. – Ele é bem descuidado com o celular dele. É pelas mensagens que eles trocam que eu sei que todo esforço que ele tem para que você não se chateie, é para que você não se chateie apenas e não por causa da síndrome de gostosão que ele tem. Na verdade, eu acho que eles nem seriam amigos se não fosse por causa de você. – Disse de forma simples.

– É sério, eu gosto muito de você, mas tudo o que você está dizendo não faz nenhum sentido. Aoi e eu somos como água e óleo. – Continuei tentando fazer ela entender que estava errada.

– Talvez seja por isso que vocês não se misturam. – Concluiu de forma simples. – Mas como eu disse, faz muito tempo que eu sigo seus passos Ruki. No dia em que Akira chegou aqui, ele e Aoi quase brigaram no sentido literal, porque Aoi não gostou da forma como Akira olhou para você. A frase que ele usou foi bem clara e específica, um aviso para que o novato não se aproximasse de você, porque você não era alvo de conquistas fáceis ou brincadeiras levianas.

– Você presenciou uma briga deles? – Tentei entender exatamente que merda ela estava me falando. Porque realmente não faz sentido nenhum.

– Sim. No dia em que o Reita chegou, ele se esforçou bastante para Akira entender que se magoasse você sofreria consequências severas. Engraçado que depois disto eles ficaram realmente amigos, tão amigos que ao invés de tentar afastar ele de você, Akira já deve ter um dossiê completo sobre você só pelas mensagens que eu li por descuido do Aoi.

– Você deve ser a menina mais chantageada desta escola. – Ri. – Tem acesso ao celular mais cobiçado por todas. – Brinquei, tentando omitir que na verdade fiquei pensando para ver encontrava algum meio de algo dito por ela ser mesmo o que ela diz ter visto.

Alguma informação se acumulou rapidamente na minha memória. Coisas sobre Aoi estar cochichando coisas à distância para o Reita no dia em que finalmente nos aproximamos, ou o fato de termos nos aproximado simplesmente porque Aoi fez questão de gritar alto o suficiente qual era o CD que ele estava devolvendo para o Reita, a forma como ele magicamente sumia quando Reita se aproximava. Até poderia fazer algum sentido, mas não fazia. Simplesmente não.

– Você não está me ouvindo de novo... – Foi o que peguei ela dizendo.

– Hum.. Desculpe. – Disse, mas algo atingiu minha cabeça como um raio. – Rebeca, se você via mensagens sobre mim entre Aoi e Reita, realmente não acreditou no "boato" sobre estarmos juntos? – Perguntei e ela sorriu no mesmo instante.

– Você sabe como é, enquanto há dúvida há esperança. – Deu de ombros.

Apenas sorri, não sabia mais o que dizer para ela. Não sabia mais como levar a nossa conversa adiante. Toda vez que olhava o rosto delicado de Rebeca, me lembrava das coisas estranhas que disse.

O pior é que eu sei que isto irá massacrar meus pensamentos por muito tempo.

– Ruki? – Ouvi a voz conhecida e a imagem de Reita cortar a luz solar que entrava na sala pequena pela porta. – Está tudo bem? Uruha me mandou vir aqui correndo. – Perguntou e ao mesmo tempo se justificou, porque era óbvio que ele estava esperando alguma situação de emergência que não existia.

– Uruha é um exagerado!

– Já faz um tempo que o sinal para a entrada soou, na dá mais para entrar na sala até o segundo período.

– O que? Passou tanto tempo assim? – Estranhei, não parecia ter se passado tanto tempo assim.

– Desculpe por isto. – Disse a garota. – Obrigado pela conversa Ruki. – Sorri e a deixei para trás até chegar onde estava Reita.

– Está tudo bem mesmo? Kai e Aoi disseram que era normal ela te chamar para pedir alguns favores pro Grêmio, mas Miyavi e Uruha disseram que você tinha sido arrastado pela Rebeca. – Ele disse meio confuso, mas foi engraçado porque até a própria Rebeca sorriu.

– Esquece Reita. Veja pelo lado bom, temos um período para ficarmos sozinhos. – Sorri.

– É... – Ele respondeu de um jeito meio amarelo. – Na verdade os outros não entraram também.

– Ah não brinca. – Reclamei, era óbvio que eles nunca facilitariam para nós dois.

– Ruki toma. – Rebeca disse em suspiro pesado me jogando a chave da sala do grêmio na sequência. – Só me devolve ela antes de entrarmos para a sala de aula, pois se algum professor ver eu perco o direito de ter ela, e se alguma das meninas ver aí sim eu vou ser a pessoa mais chantageada desta escola.

Ri e sorri, Rebeca era mesmo uma menina muito legal. Quando atinei a agradecer ela já tinha virado de costas e passado pela brecha de sol da porta.

– Isso me parece muito bom. – A voz de Reita se fez ouvir.

Geralmente não tínhamos tanto tempo assim apenas para nós, basicamente ele ia te minha casa depois do seu horário de trabalho. Mas logo a loja voltaria a abrir normalmente e Reita voltaria a trabalhar até muito tarde. Sinceramente isto me preocupava, pois significava que o tempo de namoro ia diminuir mais ainda.

Mas não iria pensar nisto agora, afinal ainda estava absorvendo a ideia de que ter aquela chave em mãos significava tempo a sós com meu namorado quando senti os braços do mesmo me cercando pelas costas. Reita me apertou contra si com força e tentando fazer alguma coisa com o seu nariz, que eu não entendi bem o que. Mas fazia cócegas.

– Hei... – Reclamei rindo.

– Não reclama! Você está com o cheiro do perfume de menininha dela, eu vou mudar isso. – Disse de um jeito que pareceu uma tentativa falha de ser sério.

– Idiota. – Respondi na mesma tentativa falha, jogando meu braço para trás de qualquer jeito.

Senti minha mão batendo em alguma coisa, talvez o pescoço dele. Vou ficar sem descobrir no que tinha batido, pois quando virei o rosto em sua direção senti a pressão da boca dele contra minha, exigindo de mim que fechasse os olhos de forma automática. Depois disto não importava mais onde minha mão tinha ido, mas sim para onde ela iria.

Flexionei o braço sobre seu ombro de um jeito estranho e torto em uma tentativa no mínimo cômica de o abraçar. Que obviamente não deu certo devido à nossa diferença de altura, então apenas deixei que meu corpo girasse sem desfazer o beijo, e o braço que estava estranho ficou confortável. Tão confortável que se acomodou colado ao seu pescoço, logo sendo acompanhado pelo outro braço que se acomodou do mesmo jeito do outro lado.

O aperto mútuo dos meus braços contra o seu pescoço e dos dele em minha cintura trazia um calor aconchegante. Um lugar de onde eu não sentia a menor vontade de sair, mesmo que me fizesse sentir pequeno contra o corpo dele. Era bom e eu realizei que nunca tínhamos ficado desta forma e registrei que era algo gostoso que devia ser constantemente repetido.

Mas tudo o que é bom dura pouco. E quanto mais gostoso, menos tempo dura é claro.

– Ai meu Deus, o Ruki fica na ponta dos pés pra beijar o Reita! – A voz de Uruha invadiu a sala toda, bem como as risadas de Kai e Miyavi depois da fala.

– Vai se foder Uruha! – Ralhei depois que, é claro, o beijo foi interrompido.

– Ai que bicha agressiva! – Reclamou o loiro invadindo a sala e se jogando em sofá em "L" que havia no canto da sala.

– O que vocês estão fazendo aqui? – Foi a minha vez de reclamar.

– Eu hem, a gente preocupado com o motivo que fez a Rebeca sequestrar você e você neste azedume. – Uruha continuou.

– Você não estava preocupado Uruha, porque eu te conheço e ei que você está é morrendo de curiosidade pra saber o que ela queria. – Respondi, pelo menos Kai e Reita riram.

– Cara essa sala é muito legal! – Miyavi disse do nada. – Ruki ela te deu a chave disso?

– Não. E não para a pergunta ou sugestão que você vai fazer na sequência também. – Me adiantei antes que ele pedisse a chave para ele ou coisa do tipo.

– Você é muito egoísta. Eu ainda vou rir de você quando o namoro de vocês evoluírem e não tiverem lugar para namorar à vontade.

– A não vai não, sabe por quê? Porque vocês simplesmente não deixam o nosso namoro evoluir, estão sempre empatando. Reita e eu já não temos tempo pra ficar juntos e sozinhos, e quando ele aparece milagrosamente, vocês sempre dão um jeito de interromper.

– Como assim não tem tempo Ruki? – Miyavi disse de forma irônica, como se eu estivesse brincando.

– Cara, o Reita trabalha até tarde. – Expliquei.

– E daí? A Emi não "super aprova" o namoro de vocês dois? O Reita pode muito bem ir pra tua casa depois do trabalho que ela não vai implicar.

– Pessoas que trabalham cansam Miyavi. Quem te escuta falando não pensa que você trabalhou até pouco tempo neste mesmo shoppnig. – E pasmem, quem ralhou foi o Kai. – E você largou a escola para isso. – Completou o menino.

– Tá desculpem! Eu estava errado, eu estava errado. – Disse com as mãos para cima em autodefesa. – Mas de qualquer forma esta sala é boa demais para apenas o Ruki usar.

Disse puxando Kai pelo punho em sua direção, prendendo o moreno em um beijo de categoria Miyavi. Mas não durou, pois no mesmo momento vi Uruha pular do sofá e chegar no casal em dois passos.

– Ah mas não mesmo! – Quase gritou, puxando Kai consigo para o sofá.

De quebra senti ele me puxar também e em seguida sermos jogados os dois no sofá. Eu não sabia que Uruha era forte. Logo vi ele se jogando com a bunda no meu colo e as pernas no colo de Kai com bico enorme nos lábios.

– Eu não vou segurar vela pra ninguém! – Declarou cruzando os braços em frente ao peito. – Fodam-se vocês todos, não quero saber quem não tem tempo ou quem não tem lugar.

– Você se aproveita da nossa amizade às vezes Uruha. – Kai miou do meu lado.

– Fale por você, nós somos quatro e ele é um! – Falei mais por falar do que por qualquer outro motivo.

– Lincha a viúva daqui! – Disse Miyavi.

– Viúva? – Perguntamos Uruha e eu ao mesmo tempo.

– Depois que você sovou o Aoi todo, eu declarei ele falecido. – Respondeu dando de ombros.

– Então a sala do Grêmio está oficialmente assombrada. – Fez-se ouvir a voz do ser que, novamente fez o sol que entrava pela porta ser momentaneamente cortada.

Não que eu pudesse ver o rosto do Aoi contra a luz solar, mas deu pra perceber que ele estava rindo. E foi meio impossível ver ali e não lembrar das coisas estranhas que a Rebeca tinha dito, eu tinha que dar um jeito de conversar com o Reita sobre isso.

– As histórias de terror que envolvem escolas são as mais divertidas. – Kai disse de forma aleatória.

– Uruha sai de cima, porra. Deixa pelo eu ficar perto do Reita.

– Senão o que? – Ele disse sem desmanchar o bico.

– Segundo a teoria do Miyavi, eu te deixei viúvo. Posso te dar o mesmo triste fim. – Disse e ele pareceu gostar da brincadeira não ter terminado.

– É justo. – Ele disse se levantando.

Engraçado foi que Miyavi e Reita correram ao mesmo tempo na direção do sofá no momento em que Uruha saiu, ocupando cada um o lugar vago ao lado de Kai e de mim. E como consequência, deixando todos os lugares do sofá ocupados.

– Não quero sentar no chão, deem um jeito. Um que não seja Kai no colo do Miyavi, por favor. – Disse e acrescentou a objeção rapidamente.

– Ruki no colo de Reita também não. Seria de dar pesadelos. – Disse o moreno no outro canto da sala analisando o cadeado codificado que fechava um armário alto.

– Você arromba portas trancadas agora também? – Zombei.

– Não. A Michele do terceiro ano é tesoureira do Grêmio e me deu algumas senhas. Ah pronto. – Concluiu feliz tirando o cadeado aberto do móvel e puxando dois pufes pequenos de dentro do mesmo.

– Existe alguma coisa que você não arranque dessas meninas? – Uruha perguntou irritado.

– Não vou responder isso, porque você me acusaria de ser invencível. Mas no caso, você vai usufruir do benefício também, então apenas aja como se eu fosse a assombração do seu marido que o Ruki já te fez o favor de matar.

– Tá mais pra Poltergeist. – Reclamou sem humor, puxando o puff que o outro lhe oferecia.

NOTA: Alguém ainda lembrava da Rebeca? Se não, é a menina que sempre gostou do Ruki a vida toda e que quis fazer a brincadeira do beijo com o Ruki em um aniversário dela..lá do começo da fic. A coisa se estendeu por muito mais tempo do que eu previa...demorou pra falar nela dnvo.