Capítulo trinta e sete: It's all about us

Por Kami-chan

Mais uma vez os dias pareciam ter pressa em sua corrida desenfreada, de repente com o turbilhão eu acabei deixando tudo de lado até mesmo as coisas bizarras que a Rebeca tinha me dito. Não tivesse as esquecido, elas apenas não me pareciam uma prioridade.

No dia tinha até me parecido palavras intrigantes o bastante para colocar na minha cabeça a ideia de averiguar aquelas informações, mas os dias seguiram e a presença de Aoi no grupo manteve, e fez prevalecer o que eu já sabia; não há nenhum vestígio de simpatia ou amizade daquela pessoa por mim. E vice-versa.

Com tanta bagunça na cabeça, eu não me prenderia a pensamentos de teor tão cômicos. Até porque, com a cada vez menos tempo, eu estava com problemas muito maiores.

A segunda parte da casa de shows ficou pronta e liberada para promover festas. As outras partes do projeto demorariam um pouco mais, pois eram projetos extensos que necessitavam do giro do dinheiro das festas para acontecer. Pelo menos foi assim que Emi explicou.

Mais do que isto, minha mãe tinha comentado que o lucro do show dos Abomináveis foi usado quase completamente para financiar os gastos urgentes que tiveram para a casa inaugurar dentro do prazo para o show acontecer. Isso significava que a casa noturna teria que se autopagar e somente depois o lucro passaria a ser realmente lucro para Emi e Joe, e reserva de investimentos futuros.

Nós estávamos esperando apenas a liberação chegar para inaugurar esta outra função da casa de shows. Tudo o que podíamos fazer neste momento era contratar e treinar a equipe de funcionários e trabalhar na divulgação.

A primeira parte estava correndo tudo muito bem apesar da correria, mas a segunda não. E isto estava me deixando maluco.

Nada agradava Emi, nenhuma ideia de propaganda, nenhuma ideia de pontos de divulgação, nada a agradava. E não era como se eu não estivesse trabalhando duro nisso para ajuda-la. Até que ela surtou de vez e saltou em cima de Miyavi.

Porque de alguma forma milagrosa, alguma sugestão de Miyavi a agradou. E do jeito que ele falava era fácil para eu entender e colocar a ideia no papel, e foi assim que Miyavi entrou oficialmente para a equipe. Não que Emi já não arrumasse algum favor para ele executar todos os dias em que Myv tinha tempo livre demais, mas depois de o ver falando como poderíamos chamar atenção do público alvo para aquele estabelecimento, até eu concordei que ele seria peça chave na nossa equipe.

O problema era que agora Miyavi estava oficialmente contratado, como eu. E isso significava que tinha responsabilidades a cumprir e "horário" era uma dessas responsabilidades. Agora tanto eu quanto ele iríamos trabalhar depois da escola e só estávamos livre depois das seis horas da tarde.

No começo ele não quis a menos que Emi contratasse Kai também, pois segundo Miyavi ela estava diluindo ainda mais o namoro dos dois. Mas delicadamente, em uma conversa em que ela teve a sós com afilhado em sua sala, ela o convenceu a parar de reclamar.

Depois eu soube que Emi ainda não falou com Miyavi que tinha as cópias que ele tinha feito sem autorização da casa, mas as usou como chantagem emocional durante a conversa. O chaveiro ficou estrategicamente posicionado sobre sua mesa durante a conversa dos dois, bem visível aos olhos assustados do menor como mensagem subliminar de que estava encrencado.

Tecnicamente, ela disse que um pouco de trabalho seria bom para que Miyavi adquirisse um pouco mais de responsabilidade e com aquela prova de crime entre os dois, ele apenas concordou. Ele até se empenhou mais depois que Emi o lembrou que seria muito bom se ela tivesse algo positivo sobre o comportamento de Miyavi para Hiro-san quando a mesma ligasse para perguntar.

Eu pensei em rir da cara dele, pois na última vez em que falamos de trabalho ele fez pouco caso quando eu reclamei que Reita e eu não tínhamos tempo para namorar por conta de trabalho, mas preferi nem relembrar o assunto. Afinal era o trabalho do Reita que tinha um horário estranho, e Kai não trabalhava.

Ainda assim tive que aguentar o casal nos meus ouvidos na mesma noite em questão, Miyavi achou que eu tinha dedurado sobre a cópia das chaves. Contei-lhe a história toda e como foi o fato dele e Kai terem melhorado a intensidade do namoro que convenceu Emi a não o castigar por mais um motivo.

Yutaka não concordou muito e ainda ficou bravo com o namorado por ter cedido ao pedido de trabalho, Kai não queria ter seu tempo com Miyavi mais reduzido ainda. E sim, ele foi reclamar sobre isto diretamente com minha mãe.

E é claro que Emi respondeu á altura. Emi disse que não estava impedindo Miyavi de namora, e que o afilhado totalmente liberado para ir até a casa do Uke para namorá-lo todo santo dia depois do trabalho. Kai tinha hora para chegar em casa e Emi estava liberando Miyavi para chegar em casa a hora que quisesse, desde que ligasse avisando quando estivesse saindo da casa de Kai, por segurança.

Emi se justificou dizendo que não conseguia compreender o que eles estavam achando ruim, afinal relembrando as normas impostas pela mãe de Miyavi, na casa de Kai eles estariam liberados para fazerem o que bem quisessem. Se quisessem se arriscar e namorar escondidos, era uma escolha de Kai. Claro que o que ela queria era que o namoro fosse conhecido pela mãe do mais novo também, como incentivo, ela disse para Kai que assumir o namoro em casa seria um ponto a mais para a mãe de Miyavi ver como estavam sérios sobre aquilo.

Mas como eu já disse antes, eu tenho problemas maiores para ficar prestando atenção na vida daqueles dois. Minha mãe colocou na cabeça que queria inaugurar a danceteria quanto antes, a maior parte da equipe já estava contratada e sendo treinada, e era bem aí que ficava o dodói. O meu dodói.

Com festas noturnas semanais, a casa precisaria se manter constantemente visada para atrair a atenção e a curiosidade das pessoas. E não se pode discordar que Miyavi sabe como ninguém como chamar atenção, ele tinha ideias incríveis para o marketing da casa. E Emi sabia bem onde e como executar cada uma das ideias.

Miyavi e eu éramos da equipe. Isso singularmente não era um problema, afinal eu já estava achando o máximo fazer alguma coisa e ser remunerado por isto desde o começo quando ainda não era um trabalho oficial, apesar de sempre remunerado. Era gratificante e eu estava me achando o senhor independência por ter aberto uma conta no banco; até cartão eles tinham me dado.

Só que diferente da parte da casa que patrocinava shows, Reita não faria parte da equipe. Bem como Aoi, mas Aoi realmente não é relevante no momento. Joe achou que seria sobrecarregado demais para o menino que já que Reita estava assumindo quase tudo na loja para permitir que Joe se focasse mais na casa junto com Emi.

E é neste simples detalhe que eu me ferro. Porque até então eu só vinha ajudando minha mãe. Eu sei que tenho que estar aqui depois da escola, mas não era como se eu tivesse um horário inflexível caso quisesse dar uma "passeada no shopping ao lado" com alguma desculpa boba.

Quando a casa noturna estiver inaugurada, eu não vou mais ter tempo para quase nada, agora já não tinha. E teria tarefas realmente com prazos definidos o que certamente roubaria até minhas escapadinhas para ver Reita na loja de Joe.

Claro que as festas seriam apenas nas noites do final de semana, mas o trabalho por trás das festas era continuo durante os dias da semana. Pelo menos era trabalho de horário normal, antes das seis horas da tarde eu já estarei em casa de qualquer forma. E daí?

Bom, e daí que o trabalho do Reita é até às nove horas da noite, porque era este é o horário em que o shopping fecha. E com os problemas na tubulação de gás resolvidos, este era o horário que a loja estava fechando novamente.

Era um saco, na verdade algo que não tinha passado pela minha cabeça quando finalmente consegui ficar ele. Até mesmo isto tinha acontecido somente porque a loja estava fechada em um dia em que normalmente não estaria.

Então mesmo antes de eu me envolver mais com o meu próprio trabalho, já estávamos nos vendo basicamente apenas pelas manhãs no intervalo da escola. E isto ligado ao acúmulo de dias estava tornando as coisas mais complicadas do que eu gostaria de admitir. Depois que a loja do Joe voltou a fechar no horário normal, isto se reduziu verdadeiramente para apenas a hora do intervalo da escola.

E isto trazia um sentimento estranho. Algo como vontade de ter aqueles momentos a sós com Reita, mas ser impossibilitado disto por força maior. Maior de verdade, até alguns dias atrás eu ainda podia brincar com os meninos e dizer que a culpa era deles por Reita e eu não conseguirmos ter encontros decentes.

Mas até eles já tinham parado de incomodar, na verdade houve nestes dias vezes em que quando percebemos, havíamos sido deixados para trás de propósito por nossos amigos. Um meio já usado por nós mesmos para dar privacidade a pelo menos dois deles antes.

Mas vinte minutos de conversa sob o olhar curioso dos demais alunos da escola, com um ou outro carinho trocado com cautela não parecia ser a mesma coisa, pois algo em meu âmago estava julgando aquilo como insuficiente. Eu achei que estar a sós com Reita nunca deixaria de ser algo menor do que bom, que nunca deixaria de me trazer calma, que apenas sua presença e demonstrações de intimidade e confiança jamais seriam insuficientes.

Mas não era. Eu estava sentindo falta de Reita, e esta falta estava me deixando impaciente e angustiado. E com medo também, pois de repente percebi que quando tivesse oportunidade de estar com Reita novamente, não seria capaz de soltá-lo até que toda vontade acumulada pelo tempo fosse saciada.

Não eram bons estes pensamentos. Não eram bons principalmente porque eles não me abandonavam o tempo inteiro e ficavam ruins de verdade durante a noite, me incomodando de um jeito que eu prefiro nem comentar, transcendendo os limites dos pensamentos para me atingir de forma física. Vergonhosamente física.

A primeira vez que tinha feito isso foi porque Kai havia feito com que eu assistisse Reita tomando banho. A segunda foi acontecer muito tempo depois, quando me senti realmente mais leve por tirar o grande peso da culpa dos ombros depois de conversar com minha mãe sobre o fato de eu estar fodidamente apaixonado por um menino. Mas agora eu já perdi o controle desta contabilidade sem sentido.

Quase tudo era motivo suficiente par me deixar naquele estado quando estava sozinho no meu quarto esperando o sono me levar. Desde coisas realmente quentes como a água passando pelos ombros e costas do Reita, até coisas que não deveriam ser colocadas na categoria "quente", como a forma como ficamos abraçados na sala do grêmio, por exemplo.

E tudo bem que às vezes, por falta de prática pessoal talvez, me pegava imaginando de propósito em cenas que presenciei entre Miyavi e Kai, colocando minha imagem e de Reita no lugar da deles para embalar a fantasia. Mas também havia dias em que a troca habitual de mensagens com Reita durante a noite começava com risadas e terminava daquele jeito.

E é claro que eu tinha medo de como isto poderia acabar, mas também não tinha muito o que fazer. Eu achava de verdade que quando finalmente conseguisse ficar direito com Reita, não o deixaria mais sair de perto de mim e isto seria tão vergonhoso quanto às reações do meu corpo no meu quarto.

– Oi. – Disse em um tom normal ao invadir a loja de Joe.

Ele e minha mãe consideravam o espaço que será destinado ao almoxarifado da casa de shows um lugar ainda não seguro, por isso muitas coisas pequenas e de alto valor agregado ainda eram guardadas no espaço da loja. Algumas vezes um de nós, sempre que possível eu, tínhamos que ir lá pegar alguma coisa.

Me dava uma raiva, porque toda vez que eu entrava ali eles estavam sentados só rindo e conversando. Não era como se eu achasse que eles não trabalhavam, porque eu bem sabia que Joe estava passando todos os contatos e responsabilidades da loja pro Reita, mas era uma bosta eu querer tanto passar mais tempo com Reita e ver ele e Aoi tão de boa toda vez que entrava ali.

– Oi! – Reita levantou do banco em que estava sentado, ele parecia bem feliz por me ver.

– Deus no céu e Emi na Terra, suas preces foram atendidas Akira. – Aoi desdenhou com uma risadinha irônica.

– Que preces? – Perguntei, pois de Aoi esperava de tudo.

– Estava com saudade. – Reita respondeu de forma simples encolhendo os ombros enquanto falava.

Sorri quando ele terminou de fazer o caminho do balcão até onde eu estava, e me recebeu com um beijo breve. Saudade. Será que ele sentia a mesma falta que eu, o mesmo tipo de saudade?

– Saudade? Eu não aguento mais ouvir o Reita ficar murmurando Ruki pra cá e Ruki pra lá. – Aoi se intrometeu revirando os olhos enquanto fazia seus dedos abrir e fechar em torno de sua cabeça, como se fossem bocas imaginárias.

– Não enche Aoi. – Disse olhando para o moreno, e logo voltou a olhar para mim. – O que Emi quer?

– Cabos. Grossos com ponta banhada em sei lá o que.

– Eu vou pegar pra você. – Disse, sorriu e subiu.

E agora vinha a parte em que Aoi e eu ficávamos sozinhos na loja, cada um olhando para um lado oposto em silêncio. Às vezes ele inventava alguma coisa para fazer como mexer nas vitrines, às vezes dava a sorte de entrar gente para ele atender. Ou ainda eu fingia que estava muito interessado em uma coluna de discos, fingia ler um encarte de um CD ou outro.

Ficaríamos assim até que os passos de Reita pudessem ser ouvidos novamente escada abaixo. Nunca conversávamos. As únicas vezes em que eu ouvia a voz dele naqueles momentos era quando ele conversava com algum cliente.

E foi por isso que me assustei quando o ouvi:

– Por que você não sobe lá e ajuda o Reita a encontrar os tais cabos? – Foi o que ele perguntou, e ficou me olhando por cima da tela do seu telefone como se esperasse alguma resposta.

– Er... Local de trabalho de vocês. – Para mim era óbvio, subir assim sem ser convidado era algo inconveniente. Aoi riu da minha resposta.

– É um almoxarifado, não a produção de uma empresa. – Ele respondeu em tom sarcástico.

E eu bufei, mas antes que eu reclamasse de algo ele continuou:

– É só um almoxarifado, você já subiu lá antes. Mesmo que ele leve apenas dez minutos para encontrar o que você veio buscar, duvido muito que qualquer um de vocês dois ache ruim ficar dez minutos a sós.

– É horário de trabalho. – Disse, mas admito que meus olhos tentaram subir o máximo que conseguiram daquela escada.

– Duvido que prefira minha companhia... – Desdenhou e meus olhos voltaram para sua imagem, irritado. – Sobe logo essas escadas, sua anta! – Por fim quem perdeu a paciência foi ele, que falou apontando para a escada com a mão que segurava o telefone.

E eu subi. Parte de mim para não ouvir mais a voz irritante de Aoi e outra parte, a maior delas, porque a ideia realmente me pareceu boa demais. Lá em cima, a mesma surpresa que me acometeu quando Aoi resolveu falar comigo, atingiu Reita quando me viu.

– Tudo certo? – Perguntou surpreso quando surgiu entre duas prateleiras.

– Aham. Aoi me convenceu que não haveria problema em subir aqui e ajudar você.

– Ah claro que teria dedo do Aoi. – Ele disse rindo, voltando a sumir naquele corredor formado pelas prateleiras.

– Você quer que eu desça? – Perguntei sem entender, de verdade, eu só não queria trazer problemas para ele.

– Não se atreva! – Ele surgiu rapidamente na ponta do corredor apontando seu dedo em riste para mim. – Na verdade, depois desta eu quero você aqui ao alcance dos meus olhos.

– É claro que se eu posso ficar, eu vou aí. – Reclamei. – Afinal eu subi pra te ajudar né.

– Hum – Ele riu. – Você sabe o que estamos procurando? – Perguntou assim que eu cheguei onde ele estava.

– Ué cabos ora, com ponta de sei lá eu o que. – Dei de ombros, quando eu encontrasse algo que se parecesse com cabos bastava perguntar para ele se era aquilo mesmo, este era o meu plano.

Para evitar a cara de riso que ele fez, passei reto por ele até chegar à parte mais funda do corredor. Se fosse procurar por alguma coisa ali, tinha que começar por algum lugar.

– Tá. Você olha nas prateleiras de cima e eu nas de baixo. – Ele disse animado.

– Ok. – Respondi no automático e estiquei meus braços para me segurar na prateleira até ficar na ponta dos pés para ver além dela.

Daí logo me dei conta de algo obvio, não fazia o menor sentido eu ter que me esticar todo para olhar nas prateleiras mais altas se eu era o mais baixo de nós ao mesmo tempo que agimos, no momento em que eu ia reclamar senti um de seus braços em minha cintura e seus lábios contra a pele de minha nuca.

Vi na outra mão dele o que com certeza era o que eu tinha ido buscar ali, ele largou o emaranhado de cabos na prateleira ao alcance das nossas mãos e guiou sua mão livre para fazer companhia à outra em minha cintura. Reita deixou que seus lábios se movessem em minha nuca, criando a sensação estranha do rastro úmido que era deixado para trás, principalmente porque ele estava rindo.

Eu bem que devia baixar meus braços para dar fim à pegadinha que eu tinha caído, mas foi simplesmente automático permitir que eles caíssem por cima de meus ombros para alcançá-lo enquanto virava minha cabeça para levar meus lábios até os dele que já estavam cada vez mais perto dos meus, mas contra a pele do meu pescoço. Ele não me deixou esperando muito para ter o que queria, mesmo estando na ponta dos pés eu fico mais baixo do que ele, e pude ver o tal do sorriso sacana na cara dele.

Minha última visão e seu último ato antes do beijo esperado. Pude perceber que ele queria tanto aquilo quanto eu e julguei a mim mesmo como alguém simplório por não pensar em nenhum momento que ele pudesse ter as mesmas ânsias e ganas por saudade que eu gastava muito tempo e neurônios remoendo.

Gastando tanta energia em repetir a mim mesmo que não podia vê-lo que se quer pensava se ele tinha as mesmas neuras. Da forma firme com que seus braços me apertavam, talvez dividíssemos até mesmo o medo idêntico de não ser capaz de garantir a liberdade do corpo alheio.

De um jeito bem engraçado, aquilo me fez ter vontade de rir por uma felicidade sem sentido. Talvez apenas por achar que ter aquele sentimento bobo dividido fosse apenas mais uma lembrança de como tinha uma ligação com Reita completamente diferente de tudo o que já havia sentido, ou que pudesse cogitar sentir por alguém algum dia.

Foi somente neste momento em que meu coração pareceu voltar a bater. E me perguntei se isto era possível, um coração parar de bater por longos segundos apenas pela sensação de um sentimento bom. Ligar sentimentos a um órgão como o coração era apenas uma metáfora, mas até mesmo as mais antiquadas metáforas deviam ter uma base que fizesse sentido.

Talvez fosse porque este sentimento em especial concentrava uma grande quantidade de sintomas ali, concentrando-se com força em uma pressão cheia de consequências sensitivas bem no centro do peito. Um sentimento sem sentido com sintomas maldosos, que se contradiz em sua própria descrição imprecisa só poderia mesmo se concentrar ali. Pois se não fosse aquela pressão quase indescritível, não lembraríamos nem mesmo de respirar.

Com esse intuito me virei em sua direção, o congestionamento de nossos braços foi o responsável pelo nosso afastamento indesejado. Mas uma vez que eu tenha usado o tempo em que me movia para ficar de frente para ele para respirar, pude me permitir à entrega total aos braços e aos lábios de Akira imediatamente.

Os lábios dele tocaram os meus de forma breve e o toque de um de seus dedos em minha face me fez reabrir os olhos. Busquei imediatamente os olhos dele e a informação trocada ali me fez engolir o excesso de saliva acumulada em minha boca. Dava medo e fazia uma ponta aguda de algo parecido com dor se pronunciar em meu estômago, mas não havia como ir contra.

Coloquei minhas mãos em seus ombros e foi automático ficar na ponta dos pés para roubar os lábios dele para mim. Porque não importava o medo bobo, sentir o gosto da boca dele e a textura de sua língua contra a minha era o importante no momento.

Uma das mãos de Akira que estava acomodada no meio das minhas costas tiveram os dedos afastados um dos outros e passaram a se mover lentamente em direção à minha lombar. De alguma forma eu sabia onde aquela mão iria parar assim que ele afastou os dedos, talvez por isto a reação não tenha sido parar de beijá-lo quando seus dedos voltaram a se aproximar até se unirem todos contra uma de minhas nádegas em alguma espécie de carinho.

Era audacioso, mas também delicado. E mesmo que fizesse a pontada aguda em meu estomago aumentar, ainda não havia como ir contra. Apenas me vi disposto a aproveitar a união de sensações que tanto o aperto suave de sua mão e o beijo me causavam, incentivando o momento com um carinho tão suave quanto o dele –apesar de ser sem a mínima audácia- passando meus dedos do ombro para o pescoço dele.

Uma das minhas mãos avançou um pouco mais, indo além das mechas de cabelo presas em sua nuca para se enroscar nas mesmas. Os dedos da outra mão apertavam e afundavam contra os músculos posteriores de seus ombros. Cada toque expressando o quanto a união de todas aquelas ações eram agradáveis.

Antes que eu pudesse perceber, Reita exigiu ainda mais daquele beijo o tornando mais profundo e intenso. A outra mão que ainda descansava no meio das minhas costas se juntou à outra em minha bunda sem a mesma hesitação da primeira vez que dirigiu para aquele lugar.

O medo cresceu, mas o incêndio em minhas veias também. Eu tinha que decidir se aquilo era um sentimento bom ou não, a pontada no estomago não desaparecia, mas a sensação dela estava se tornando boa. Algo como expectativa, uma sensação realmente estranha não apenas pela impressão no corpo, mas também por não querer deixar de senti-la.

Houve um movimento muito breve entre nossas cabeças, que serviu para a recuperação de algum ar em nossos pulmões e logo nossos lábios voltaram a se encontrar com ansiedade. Reita usou a colocação de suas mãos para aproximar mais nossos corpos.

O movimento nos deixou realmente próximos um do outro. Pude sentir o corpo dele tenso contra o meu, especialmente em algum ponto que se encostava à minha barriga. Não precisava colocar minhas mãos naquele lugar para saber o que do Reita estava cutucando minha barriga, e nem colocar elas em mim mesmo para saber que estava exatamente igual.

E bastou o pensamento para sentir o toque da coxa de Reita contra o mesmo pedaço de carne teso e sensível em mim. Não era mais novidade, estranha era apenas a sensação de que se continuasse daquela forma Akira perceberia.

Dei um passo para trás com intenção de criar algum espaço entre nós. O pênis duro dele contra minha barriga não me incomodava, o meu na coxa dele sim. Era estranho demais ter certeza de que ele perceberia a forma como estava me sentindo, era um gesto de exposição e isto me incomoda de uma forma que está além da minha capacidade.

Ainda assim, tudo o que consegui com o gesto foi incitá-lo a me empurrar, fazendo-me andar de costas até encontrar a barreira da parede. Ah a parede, eu tinha motivos para temê-la. Motivos que me mantinham bem desperto durante noites insones.

Um gemido estranho saiu da minha boca quando o corpo dele se chocou completamente contra o meu, algo que me pareceu ser reflexo pelo movimento inesperado. Meu corpo prensando ainda mais as mãos dele contra os músculos do bumbum, por aonde ele conduziu minimamente nossos corpos e fazendo com que minha ereção deixasse de se encostar em sua coxa para ficar contra a sua própria.

Outro gemido tentou sair de minha boca desta vez, mas motivo não era físico e sim químico. Um gemido de surpresa agradável sobre a onda de energia que percorreu meu corpo em resposta ao contato, mantendo-se constante pelo estímulo dos movimentos incessantes do quadril dele contra o meu.

Apenas percebi que ele afastou seus lábios do meu, sem ser capaz de racionalizar alguma pergunta ou ação, minha concentração estava focada nos movimentos do corpo dele se esfregando no meu e na massagem que as mãos dele faziam em minha munda cada vez que seu corpo se movia. Uma das mãos de Akira deixou meu corpo para se apoiar na parede, em algum ponto ao lado do meu rosto.

Sem parar de se mover, demorei alguns segundos até assumir a ideia de que ele apenas queria assistir. Os olhos dele estava a encarar os meus, famintos e em seus lábios inchados havia um sorriso que pouco lembrava do Akira doce de sorriso bonito. A faixa em seu rosto o deixava com ar selvagem para aquele momento, e este pensamento me fez ter vontade de remover o pano dali.

E assim o fiz. Deixando que minha mão descesse por seu rosto, fazendo com que o pano amarrado ficasse acomodado sobre os ombros dele. Minhas mãos seguiram para o mesmo local, eu gostava do desenho de seus ombros e queria sentir o contorno de seus músculos contra os meus dedos.

Naquela dança sensual conduzia e observada cuidadosamente por ele, me deixando um terceiro gemido baixo ser libertado. Esta não foi apenas um reflexo das sensações dos corpos se roçando, mas porque achei que era aquele o som que os ouvidos dele queriam ouvir para compor o quadro que seus olhos admiravam de forma tão perfeccionista.

E senti vergonha do mesmo no momento seguinte. Uma de minhas mãos desceu do ombro de Akira para se prender contra o tecido da camiseta dele na região da altura de seu peito enquanto preferi olhar para a prateleira empoeirada ao lado. A mão dele que estava apoiada contra a parede foi até meu rosto para trazê-lo de volta à posição anterior ao mesmo tempo em que se aproximava perceptivelmente para voltar a me beijar.

Sem nenhuma resistência de minha parte, me opor não estava mais entre as ações que eu estava capaz de executar. Mas antes que conseguisse alcançar meus lábios, o vi regredir rapidamente após praguejar algo baixinho e dar um passo para trás.

– Coloca para cima. – Ouvi ele pedir em um tom baixo enquanto levava as duas mão em direção próprio membro.

– Oi? – Perguntei sem entender, seguindo com os olhos as mãos dele.

Reita tinha puxado o membro claramente ereto para cima e o deixado na vertical contra seu corpo e a barra da calça. Impossível não observar a glande rosada que ficou a mostra no espaço aberto pela ereção, antes dela ser coberta pela camiseta que ele logo abaixou e ajeitou no corpo.

– Rápido Ruki. – Ele disse ainda baixo, porém com urgência.

Eu não tinha entendido direito o motivo, mas tinha entendido o pedido. E apenas pelo tom de urgência o imitei puxando o meu próprio membro para cima, um pouco envergonhado ao perceber que a minha glande também ficaria visível devido à ereção. Mas ao soltar a camiseta por cima, o volume denunciador havia quase sumido.

Ainda estava olhando para baixo, admirado com a maneira de "esconder" a ereção quando a voz de Joe nos alcançou. Engraçado foi que quando olhei para Reita, ele já estava de faixa novamente.

– Reita? – Ele chamou assim que o corpo alto do mais velho surgiu na ponta do corredor.

Eu não fazia ideia de onde ele tinha brotado. Mas fiquei feliz por Reita ser cuidadoso.

– Hei... Nada de agarração em horário e local de trabalho! – Apontou.

– Quem aqui está se agarrando? – Reita deu de ombros, eu devia estar um pimentão.

– Nem tenta me zoar Reita. – Advertiu.

Vi Reita sorrir e dar mais dois passos para longe de mim:

– Os cabos da Emi, Ruki. – Disse Akira pegando os cabos que já estavam separados sobre uma das prateleiras.

– Ah... Tá. Obrigado Reita. Oi Joe. Tchau. – Foi tudo o que deu pra dizer enquanto eu passava pelos dois com o emaranhado de cabos entre os braços.

Desci a escada circular rápido, não queria mesmo ouvir nada sobre a conversa entre Reita e Joe. Claro que a vergonha por ter quase sido pego por Joe já tinha dado um jeito de me ajudar com o problema da ereção.

Surpresa foi encontrar a loja vazia. Aoi não devia estar ali?

Melhor assim, não precisaria suportar o sorrisinho de "eu sei o que vocês fizeram" dele. Mesmo que os pensamentos dele não passassem nem perto do que realmente havia acontecido. Para ele provavelmente a putaria tinha rolado solta lá em cima.

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O "feijãozinho" vermelho trocou de lugar com um "chiclet" verde, depois uma bala azul trocou de lugar com outro "feijãozinho" vermelho e então faltava apenas eliminar uma gelatina para passar de fase. Precisava que a florzinha roxa descesse até poder trocar ela de lugar com um "chiclet" verde e duas jogadas depois estava feito.

– Sugar Crusch! – Disse satisfeito junto com o locutor do jogo, já estava trancado naquela fase há quase quatro semanas.

Feliz, vi vários doces explodindo de acordo com sua função no tabuleiro até que as jogadas que eu ainda tinha se esgotassem. Uma linda explosão de cor. Uma felicidade sem igual, passar de fase naquele jogo infernal gerava quase uma sensação de êxtase.

Aproveitei do momento que não exigia da minha concentração na tela para dar uma olhada pela loja a procura de clientes, dar uma espreguiçada, olhar as pessoas que caminhavam desatentas pelo shopping. Ruki e Reita estavam demorando mais do que tinha imaginado, não queria começar a ouvir gemidos e barulho de prateleiras se movimentando.

Só que também não queria estar vendo Joe se aproximando em passos ligeiros com uma bolsa a tira colo que Aoi sabia conter dinheiro. Afinal era aquilo que Joe tinha ido buscar, mas deveria ter ido ao banco depois.

Não tinha escolha, teria que mandar uma mensagem pro Reita avisando que Joe estava aqui. Digitei rápido, sem me preocupar se alguma letra tinha ido trocada, ele só precisava entender o recado. Mas ouvi um barulho típico de aparelho vibrando em algum lugar no tampo de baixo do balcão dois segundos depois de ter enviado a mensagem, porque é claro que o Reita tinha deixado o telefone para trás quando subiu sozinho pro almoxarifado.

– Reita burro, pendura essa merda de telefone no pescoço sua anta. – O xinguei como se Akira pudesse mesmo me ouvir.

– Como está calmo aqui hoje. – Joe comentou assim que entrou na loja.

– É a última semana do mês. – Respondi, era sempre uma semana de pouco movimento.

– Já? – Ergueu as sobrancelhas surpreso, mas logo voltando à fisionomia normal. – Tenho uma coisa para você. Olha, é exatamente o que você me pediu. – Concluiu me entregando uma pasta de papel de dentro da mochila.

Passei a mão por cima do logo antes de abrir para ler o material. Eu conhecia aquele logo, sabia o que provavelmente encontraria ali dentro. Só era difícil, fiquei olhando para Joe sem muita vontade de abrir a pasta da imobiliária.

– É um apartamento novo. É amplo e grande sem exageros, conceito aberto em um bom bairro, um prédio bastante seguro, de alto padrão, mas sem excessos de requinte.

– Tem uma boa metragem. – Comentei finalmente abrindo o material em minha mão para ler a descrição do documento. – O preço é esse mesmo? – Perguntei achando o número bastante alto apesar de Joe ter encontrado exatamente o que tinha pedido para ele.

– Com este tamanho em um bom bairro, o valor é daí para cima Yuu.

– Você acha que dá pra comprar algo deste valor? – Perguntei, percebendo que ainda ia precisar de muita ajuda de Joe para aquelas coisas.

– Com o valor da herança da sua mãe, mais a venda da mansão daria para comprar uns oito destes Aoi. Isso mais o valor que você já tem aplicado em teu nome é o suficiente para a vida toda Yuu.

– Você vai me ajudar a vender a casa, né?

– Sim. Esta imobiliária é ótima, assim que... Você queira vender a casa de verdade eles arrumam compradores. Eles já me deram a chave do apartamento para você visitar. – Ele hesitou, Joe sabia que eu só colocaria a casa à venda depois que minha mãe não estivesse mais aqui.

– Deixa com você. Quer dizer, eu gostaria que você fosse lá comigo. Eu só vou saber olhar e dizer se gostei do ambiente ou não, tem um monte de coisas que devem ser avaliadas que eu não vou saber avaliar.

– Tudo bem, vamos depois daqui.

– Tsc... É estranho comprar o apartamento antes de vender a casa. É como assumir a desistência pela vida dela. – Sorri fechando a pasta que tinha um desenho de meia página do apartamento com suas descrições.

– Não se sinta assim Yuu. Há certas coisas que não é possível mudar no curso da história, só podemos seguir nosso caminho da melhor forma sem regredir os passos. Você não vai estar sozinho, filho.

– Tá. – Disse misturado com um suspiro.

Foi fácil conter e engolir qualquer vontade de chorar. Bem na verdade eu já estava cansado de me colocar em uma fossa cada vez maior. Gostaria de ter conhecido Joe antes de toda esta bagunça acontecer na minha vida, talvez não tivesse me jogado por vontade própria no fundo do poço.

– Mas você vai me deixar continuar trabalhando pra você né? – Perguntei.

Desde que Joe soube de quem eu era filho, me questionou sobre porque trabalhar ali com ele. Tecnicamente a mesada que eu recebia do pai que nunca mais tinha visto era bem maior do que o salário oferecido por Joe.

Ainda assim ele aceitou minhas justificativas. Tenho certeza que ele tinha entendido que as minhas necessidades para estar ali nada tinham haver com cifrões, apenas haver com Reita e posteriormente o próprio Joe. E suas maravilhosas companhias e amizade, coisas que eu sabia bem como ninguém que dinheiro nenhum poderia comprar ou substituir.

– Vamos fazer assim, eu te passo meus negócios e você me passa a tua fortuna. Aí você trabalha do jeito que quer e eu me aposento do jeito como todo mundo na face da terra gostaria. – Ele brincou rindo alto.

– Isso é tipo um sim, né?

– É garoto. Agora já que você me lembrou, é hora de trabalho. Cadê o Akira, eu preciso mostrar um procedimento bancário pra ele.

– Ah.. O Reita? Ele está... A Emi precisou da ajuda dele. – Respondi, me lembrando do fato de Reita e Ruki ainda não tinham descido do almoxarifado.

– Ele está lá na casa de shows?

– Está na cas... Não. Ele está.. Hum, Emi precisou de uns cabos.

– Fala direito Yuu. Onde está o Reita?

– No almoxarifado. Eu vou chamar ele pra você. É. – Levantei ligeiro, concordando comigo mesmo.

– Não, não. Eu chamo ele. Preciso que você retire isto para mim no correio, eu iria, mas falta pouco pro correio fechar e preciso mesmo passar umas coisas pro Reita agora, porque o gerente do banco ficou de esperar meu contato, mas também disse que ia esperar só até às dezessete horas. Toma, tá assinado já. Você preenche o que falta lá, já to te mandado o meu cpf por mensagem. – Terminou empurrando a guia para retirada na minha direção.

– Tá. Só não manda pelo sistema de mensagens do "facebook" porque eu deletei o aplicativo do meu telefone por um tempo.

– Ué por quê?

– Estava me cansando. Principalmente as malucas.

– Benza Deus, Aoi está recusando sexo fácil. – Disse forçando uma expressão de espanto.

– Dando um tempo nas pessoas fúteis. Um pouco cansado de fingir que sou como elas.

– Tá. Depois nós com certeza vamos conversar sobre isto. Agora vai até o correio Yuu. – Disse realmente usando aquele tom que me fazia ver nele a figura que mais era ausente na minha vida.

– Joe... Eu posso mesmo chamar o Reita antes de ir. – Insisti.

– Vai logo Shiroyama, a porcaria do correio fecha às cinco.

A frase dele me fez olhar no relógio. Eram dezesseis horas e vinte minutos, o correio não era perto e eu esta a pé. Foda-se! O Reita que se vire.

.:.

Coloquei a caixa leve de papelão embaixo do braço e os óculos de sol no rosto para somente então abrir a porta de vidro pesado e ganhar a calçada. Abaixando a cabeça meio inclinada para a esquerda, como se pudesse reclamar do sol por ser tão quente e a diferença de temperatura dentro e fora do ambiente ser tão diferente.

Puxei o telefone do bolso para ver que hora já era e mais uma vez me irritei com todo aquele sol, tendo que baixar mais a cabeça para forçar os olhos por cima das lentes escuras para ser capaz de ver alguma coisa na tela. Sol, calor, verão, estar a pé; coisas que irritam profundamente.

E já eram ruins separadas, imagina a felicidade que era ter todas elas ao mesmo tempo. Uma amostra do inferno. Joe vai ficar me devendo alguns litros de sorvete depois desta, e sorvete de marca.

"Não, para! Me solta!" Ouvi alguém reclamar em algum ponto próximo enquanto voltava a colocar o celular no bolso da calça. A frase me chegou aos ouvidos em um momento de distração, mas...

"Me solta, já disse. 'Tá me machucado!" Aquele timbra, o desafino pela irritação colocada nas palavras. Eu conhecia aquela voz.

Olhei imediatamente para frente, me concentrando mais para detectar de onde vinha aquilo. Vendo à frente apenas os carros se acumulando pela hora do rush, a maioria deles com seus piscas ligados para mudar daquela via de acesso para uma das avenidas principais do centro. Pessoas entrando e saindo de ônibus nas duas paradas, mas nenhum rosto conhecido.

"Para porra, não me puxa!" Mais atento, olhei imediatamente para a direita identificando a direção.

Oh sim lá estava. Uruha com cara de poucos amigos tentando puxar seu braço do parto dos dedos de Miyavi. Kai estava entre eles, também com uma cara pouco amigável, parecendo dar apoio ao namorado.

– Myv? – Chamei caminhando até eles rapidamente, serio aquele tipo de agressão não era normal.

– Aoi! – Kai e Uruha disseram ao mesmo tempo.

Kai parecendo ter uma ideia maligna. Uruha parecendo aliviado.

– Aoi sabe Myv. Eu tenho certeza que o Aoi sabe! – Disse Kai apontando para mim, me acusando como se fosse um criminoso.

– Me ajuda Aoi! – Uruha choramingou prendendo meu braço da mesma forma como Miyavi prendia ele.

– Tá. Quer dizer que pra pedir socorro eu sou bom daí né. – Ralhei pro loiro apertando meu braço.

Sim. Porque estava em meu direito. Uruha tinha se colocado como vítima na nossa história. Até para que o grupo se unisse novamente eu tive que assumir que apenas ele saiu perdendo com tudo aquilo, que ele era só bom e eu só ruim.

– Não tá vendo a situação, não porra? – E assim como gritava com Miyavi antes, Uruha gritou agora comigo.

– Gosta da posição de vítima né. Quem é a bicha passiva agora? – Aproveitei para me cobrar da piadinha feita por ele na escola.

– Pro inferno Aoi! – Reclamou e soltou meu braço. – Eu já disse que eu não sei o que você quer saber Miyavi, naquele dia eu encontrei o Ruki ali na praça. Mas o Kai tem razão, Aoi deve saber!

– Então vocês dois juntos vão achar! – Miyavi disse e logo senti o mesmo aperto de Uruha em meu próprio braço.

– Mas que merda. – A encomenda do Joe que eu tinha ido buscar caiu no chão. – Isso nem meu é.

Kai se abaixou e pegou a caixa para si, fazendo um sinal positivo para Miyavi com a cabeça. Meus deus, eles até pareciam do crime organizado e eu nem sabia por que de repente estava preso igual o Uruha.

– Vamos Aoi, começa a falar! – Kai ameaçou apontando o dedo para o meu peito.

– Cara... – Disse não conseguindo falar mais nada, só pude rir pela falta de sentido naquilo tudo.

– Fala logo Aoi – Foi a vez de Miyavi.

Olhei pro lado ao ouvir Uruha rindo também. Ele revirou os olhos em meio à risada, certo que ele perecia ser o único a perceber que eu nem sabia por que tinha me metido naquela situação.

– O que exatamente você quer que eu fale, cara? – Perguntei cansado, com calor, no sol ainda forte do horário de verão, o inferno sempre tinha como piorar.

Apesar de Uruha parecer estar se divertindo agora. Claro que estava, aquele demônio.

– O prédio abandonado que Reita e Ruki acharam para ficar. – Kai abraçou a caixa que tinha pegado do chão pra mim, apontando o queixo pra cima, como se sua voz fosse soar mais imponente com o gesto.

– Que? Isso é serio? – Perguntei olhando para Uruha, ele fechou os olhos e concordou com um movimento para cima e para baixo com a cabeça.

– Para com a viadagem e solta Miyavi. – Ralhei. – Eu não vou falar bosta nenhuma enquanto você estiver me prendendo desse jeito.

– Hei... – Uruha reclamou olhando de mim para Miyavi de Miyavi para o braço e então para mim novamente quando o braço dele não foi solto.

– Solta o Kouyou também, daqui um pouco a polícia aparece e a gente se ferra.

– Ah amém! – Disse Uruha irritado, cruzando os braços em frente ao peito e se colocando ao meu lado.

– Vem comigo Uruha, a gente vai até o shopping e de lá você pega uma carona com a Emi. – Disse dando dois tapinhas no braço dele, me adiantando para a direção certa.

– Hei, pera aí! Que porra? – Miyavi cortou a minha frente, bastante irritado.

– Eu não sei onde Reita e Ruki foram para ficar, não fiz questão de perguntar. – Respondi o que ele tanto queria, só não do jeito que ele queria.

– Então vai nos ajudar a achar! – Senti dedos em minha camiseta, e vi a cara cão sem dono de Kai atrás de mim.

Ele fazia este tipo de coisa de propósito, era um manipuladorzinho de merda aquele cara. Um manipuladorzinho de merda de rosto bonito, ah se não houvesse um Miyavi bufando na minha frente.

– Não!

– Por favor, Aoi. Ruki disse pro Myv que era um prédio vazio aqui no centro, Uruha disse que era por aqui. – Continuou choramingando.

– Olha ao redor, Kai. É a parte antiga da cidade. Todos os prédios são preservados e tem algum comércio neles.

– Só pensa Aoi. Reita deve ter dito alguma coisa. – Dessa vez foi Miyavi.

– Escuta vocês acham o que? Que a gente fica tricotando sobre esse tipo de tietagem? – Retruquei, mas logo olhei pro lado ao ouvir uma risada de deboche vinda de Uruha.

– Eu sei muito bem o quanto você gosta de tricotar qualquer tipo de tietagem. – Disse rindo, achando muita graça da piadinha.

– Reita falou sobre ficar com Ruki, mas não falou sobre o lugar. Tiete. – Respondi para Miyavi, mas olhando para Uruha.

– Tá legal, Tieta e tiete, acalmem-se!

Ri. Miyavi estava pedindo para nos acalmarmos. Miyavi, o cara que até pouco tempo estava com Uruha e eu presos por seus dedos de aço, nos ameaçando para ouvir algo que nenhum de nós sabíamos.

– Tudo louco. – Disse para mim mesmo, ciente de que estava me tornando apenas mais um demente no meio daquele bando de maluco.

– Eu tenho certeza que vi eles vindo desta direção. – Disse Uruha apontando para a rua em que estávamos, mas na outra direção.

– E aí Aoi, prédios vazios naquela direção. Deu uma luz? – Esse Era o Myv de novo.

Suspirei cansado. Sério mesmo que eles não iriam me deixar ir embora?

– Vazio... Vazio não, mas tem as ruínas da fábrica. – Respondi tentando colocar o meu cérebro para funcionar, quem sabe assim eu ficaria livre.

– Ok. Pode nos levar lá! – Decretou Kai me puxando pela camiseta.

– Hei eu tenho que trabalhar! – Reclamei.

Em vão, é claro. Pelo menos aquela parte do centro tinha bem menos gente.

– Tá eu tô liberado então né. Valeu. – Disse Uruha achando que podia começar a andar no sentido contrario.

– Tá liberado o cacete. Não fossem teus gritos eu tinha ido reto e já estaria na loja ao invés de preso aqui. Agora você vai junto, não quero voltar sozinho depois. – Disse o arrastando comigo. – E não quero nem saber de reclamações.

Duas quadras de silêncio e caretas depois estávamos na frente do que um dia já deveria ter sido um grande e imponente prédio. As ruinas das paredes que ainda se mantinham em pé claramente marcadas pelo tempo.

– Pronto, estão aí. Divirtam-se! Vamos Uruha.

– Tá. – O loiro disse baixo se mantendo ao meu lado.

Dei a volta para seguir o mesmo caminho usado para chegar até ali quando me vi obrigado a parar depois ouvir um praguejo vindo de Kouyou. Olhei para o lado e não o vi mais, tinha ficado no mesmo lugar com o celular na mão.

– O que foi? – Perguntei.

– A hora. Emi não deve estar mais lá na casa de shows para me dar uma carona. Não posso ir Aoi, está tarde demais para ir sozinho a pé até em casa, vou ter que esperar pela companhia de Miyavi.

– Tá. Eu ainda tenho que voltar ao trabalho. Tchau Uruha.

– Mas... – Parei de novo pelo miado vindo dele.

– O que foi agora?

– E..eu não quero ficar sozinho de vela para aqueles dois. – Apontou para as paredes velhas como se estivesse apontando para o casal escondido atrás delas.

– E você quer a... Minha companhia? Para este tipo de coisa? – Eu não sabia se ria da piada ou lembrava ele que tinha levado um soco no olho por coisas tipo essas.

– Eu não quero ficar sozinho. Qual é, a gente conversava super bem antes.

– Eu conversava. Você pelo o que entendi respondia o que melhor lhe convinha ou o que eu queria ouvir.

– Não era isso Aoi, eu fui bem sincero. Às vezes só respondia coisas que pudessem fazer você falar mais de você... E talvez uma ou duas coisinhas que pudessem deixar você interessado em mim. Mas vai, é uma boa oportunidade de a gente recomeçar a amizade, né?

– Não. Você só me mete em confusão. – Apontei.

– Eu? Você é a assinatura da confusão.

– E você o rabisco da desordem, mala. Vai ficar me devendo essa Uruha. – Disse regredindo meus passos, nem parando ao lado dele antes de entrar no terreno.

– Ah agora eu que devo? – Perguntou com humor me seguindo.

– É. Eu já devia ter voltado pro trabalho. Vou mandar uma mensagem pro Joe antes que manda a polícia, aproveito e peço para ele avisar a Emi. Pois duvido que o Myv tenha conseguido uma autorização dela para não trabalhar hoje e estar aqui.

– Você vai colocar eles em encrenca.

– Já estamos todos encrencados. Não deixar Emi e Joe morrendo de preocupação é o mínimo.

– Sabe o que eu descobri sobre você depois que o encanto passou, Aoi? – Perguntou retoricamente, apenas olhei para ele para incentivar a resposta. – Você é um chato!

– Decepcione-se, meu amor. – Só pude rir, pulando para sentar em um pedaço de parede pela metade, alta o suficiente para não tocar meus pés no chão depois de estar sentado. – Você tem mesmo certeza de quer a minha companhia para isto? – Apontei o casal que já estava quase atingindo um nível erótico demais até para o meu autocontrole.

– Misericórdia! Isto é... – Uruha teve sua fala cortada pelo som abafado de Kai empurrando o corpo de Miyavi com força no chão, logo colocando-se sentado sobre o corpo do maior. – O tipo de coisa que passam naqueles canais pornôs né?

"Ahh" o eco do gemido de Miyavi chegou alto até nós dois depois de Kai ter puxado sua cabeça pelas mechas compridas sem desprender o lábio inferior do namorado da mordida solida de seus dentes.

– Au. É, tipo aqueles pornôs bem pesados.

– É. – Ele concordou no modo automático, quando olhei pro lado Uruha nem piscava.

Não precisava ser nenhum gênio para prever que aquilo não ia acabar bem para mim. As lembranças físicas de ter ficado com ele daquela vez eram boas o bastante para eu não ligar em repetir a dose se ele pedisse.

Mas também não estava disposto a arcar com nenhuma consequência depois disto. Principalmente consequências doloridas que deixam olhos roxos e inchados por vários dias.

– Tá legal Aoi, abre as pernas. – Ele disse de repente dando uns tapinhas no meu joelho.

– Oi? – Como assim "Aoi abre as pernas". Abrir as pernas o cacete.

– É. – Disse sem muito humor, forçando um espaço entre minhas coxas para ficar em pé na minha frente entre elas. – Coloca as duas mãos ali e ai de você se encostar um dedo em mim. Eu que vou controlar essa merda.

– Espera aí. Pensa direito no que tá fazendo Uruha. – Disse com as duas mãos em seu ombro.

– Eu disse que você não vai encostar em mim Aoi. – Retrucou passando os braços por dentro dos meus e tirando minhas mãos de seus ombros, colocando minhas mãos na beirada do concreto.

– Que merda é essa Uruha? – Impressão minha ou ele da forma como ele disse, Kouyou é que estava querendo me usar desta vez?

– É tipo um foda-se!

– Eu não quero levar outra surra.

– Eu não vou sair daqui chorando. E nem isto vai sair daqui. – Disse a segunda parte em tom de advertência.

– Tá. Foda-se!

NOTA: É, o Aoi está jogando candy crusch. Porque sim. Eu consigo imaginar ele surtando por não passar de fase, vocês não conseguem?