Capítulo trinta e oito: O que eu também não entendo
Por Kami-chan
– Que merda é essa Uruha? – Impressão minha ou ele da forma como ele disse, Kouyou é que estava querendo me usar desta vez?
– É tipo um foda-se!
– Eu não quero levar outra surra.
– Eu não vou sair daqui chorando. E nem isto vai sair daqui. – Disse a segunda parte em tom de advertência.
– Tá. Foda-se!
Particularmente se eu teria que ficar ali acompanhando aquelas cenas, seria muito mais agradável fazendo o mesmo que eles. Mas ficar com Uruha me preocupava, seria a terceira vez, a primeira depois da confusão. E nem era isto que me preocupava de verdade, mas sim o fato de que eu ainda não sabia quem era aquela pessoa. Não sabia que tipo de coisa maluca a cabeça dele poderia estar planejando agora.
A última vez que havia ficado a sós com Uruha tinha sido no banheiro da escola, no dia em que conversamos e deixamos alguns pontos claros. Me lembro que naquele dia eu tinha ficado brabo e me sentido usado pelo cara que deliberadamente disse e agiu de forma calculada para se aproximar de mim. Senti que não conhecia aquele menino cuja presença eu havia me acostumado tão rapidamente.
Com o passar dos dias isto também havia passado. Eu ainda me sentia ressentido pela certeza de ter sido honesto com alguém de quem eu não poderia afirmar o mesmo, mas tentei me colocar no lugar dele e consegui reconhecer que talvez ele fosse apenas um menino intrometido demais. Também, o meu tipo de honestidade não era o tipo que as pessoas normalmente gostariam de ter.
De qualquer forma aquilo era bom. Eu achava que dentro das íris claras morava uma grande selvageria, mas quando os olhos dele se fechavam Uruha não passava de um menino assustado. Eu vi ele ficando com tantos outro meninos na minha frente, o achava tão selvagem, mas mesmo me mandando ficar com as mão paradas ele não me parecia mais do que um cara perdido, como se aquela fosse a primeira vez que estivesse beijando alguém.
Uruha era um garoto bem dominante em linguagem corporal quando andava, sentava de pernas abertas e falava com a boca quase cheia, tirando com a cara de seus demais amigos e tão delicado quando ficava mudo ou quando sorria com Kai e Ruki. Tão ativo com os outros caras, tão passivo comigo.
Este menino com certeza era uma confusão grande demais para perder tempo pensando em. Tenho quase certeza que nem mesmo ele próprio se entende, se conhece. Uruha era como uma esfera de energia maciça sendo comprimida por todos os lados, tentando se espalhar por qualquer brecha encontrada sem saber ao certo para onde ir.
Mudo. Incerto. Inquieto.
Destro o bastante para nos conduzir até o que estávamos fazendo. Fraco demais para se manter no controle. E foi aí que entendi, com decepção, que ainda agia de forma a seguir passos que acreditava me agradar. Ele queria se mostrar forte com relação àquilo, mas estava cometendo o mesmo erro de antes. Eu não queria que ele abrisse os olhos e descobrir nas íris confusas uma luz de esperança.
Eu não queria reconhecer na língua delicada que acompanhava os movimentos da minha, aquele tipo de submissão. Foi ele que disse foda-se, mas devia ter sido eu a entender que ele não sabia o que estava fazendo.
Agora tinha ficado claro que ele nunca tinha sabido. E se possível, isto me deixava mais irritado com aquele garoto ainda. Ele queria se mostrar forte, imune ao sentimento que o fez um ser rejeitado. Eu passei a apenas desejar que ele fosse mesmo capaz de manter sua palavra, pois eu não iria permitir que ele se esquecesse quem foi que acionou o "foda-se" primeiro.
Abri meus olhos apenas para ter uma real noção do garoto encolhido entre as minhas pernas, Uruha parecia menor do que eu. Suas mãos ainda estavam no mesmo lugar, fechadas contra o tecido da minha camiseta acima do peitoral como se ele exigisse de si a mesma coisa que havia ordenado à mim; não tocar.
Movimentei minha cabeça a fim de mudar a angulação do beijo, a cabeça dele balançou e mudou de lado com facilidade junto com a minha. Os olhos apertados franziam o cenho do rosto bonito, ele estava tão perdido.
Eu reconhecia aquilo por ter estado tão igualmente perdido até muito pouco tempo atrás, mas não era a pessoa adequada para ajuda-lo a se encontrar. Reita e Joe tinham me mostrado um caminho seguro para seguir, mas ainda não sabia ao certo em parte dele eu estava.
Mas tudo bem por enquanto se ele queria parecer fortalecido. O toque da língua macia contra a minha era agradável mesmo que mostrasse em uma suavidade toda a calma que aquele menino não tinha. Calmo e cadenciado, em um ritmo diferente ao que sentia os batimentos dele chegarem até mim.
Me fez abrir os olhos novamente ao senti-lo suspirar entre os movimentos, tomara que ele não estivesse descobrindo que aquela escolha lhe faria mal. Eu não pararia até que ele mesmo ditasse o fim daquilo que ele mesmo começou.
Algum movimento periférico chamou minha atenção e meus olhos seguiram o vulto em movimento por instinto. Não foi nenhuma surpresa encontrar Miyavi sentado no chão com a calça aberta e sem camisa, Kai estava ajoelhado sobre o outro com o tronco ereto e a camiseta de Ishihara em mãos.
E foi impossível não prestar atenção em como o moreno de covinhas parecia satisfeito pelos momentos que dividia com o maior. Kai era uma pessoa de emoções transparentes, gostava disso nele. O sorriso aterrador que o menino lançou à Miyavi enquanto fazia alguma brincadeira de segundas intenções camuflada com doçura de sua pouca experiência mostrava a felicidade pura que estar com Takamasa lhe trazia.
O sorriso gêmeo no rosto do menino sentado no chão entre suas pernas mostrava que o sentimento entre os dois era o mesmo. Vi Miyavi puxar sua própria camiseta a fim de puxar Kai para perto de si entre risadas até o mais novo se deixou cair sobre o corpo exposto do namorado e trocaram um beijo trocado quase no ar por estar misturado com um sorriso.
Não me considerava uma pessoa ruim, sentia muita inveja de quem tinha coragem de abraçar um sentimento tão dependente de outra pessoa assim. Mas a voz que os titulava como tolos falava mais alto, se apegar à sentimentos que nos tornam dependente e vulneráveis ao sentimento de outra pessoa era incerto e perigoso.
Ninguém deveria aderir de boa vontade à algo que poderia ir de seguro e confortável em algo maleficamente ruim e doloroso. Entrar sua vida à outra pessoa era apenas uma ferramenta afiada que a outra pessoa usaria para ferir no dia em que partisse sem nem mesmo uma justificativa ou um adeus. Nem mesmo um até logo mentiroso.
Entretanto, Miyavi e Kai juntos não eram bem o tipo de casal que fazia seus espectadores pensarem em coisas como fim e dor. Na verdade era bem o contrário, a interação dos dois era sempre algo prazeroso demais de assistir. Ainda mais com o corpo aquecido pelo corpo de outra pessoa.
Era bom sentir a textura umedecida da língua que se movia contra a minha enquanto o moreno de covinhas voltava a abaixar seu quadril sobre o corpo de Miyavi até que seus corpos se tocassem novamente. Aquele sorriso descontraído que não sairia tão cedo de seus lábios, parecia ainda mais aberto e satisfeito ao sentir o corpo do namorado contra o seu, movimentando-se de forma arteira em um ponto específico antes de curvar o tronco e tocar novamente os lábios de Miyavi.
O calor que provinha do corpo de Uruha era mais quente enquanto o tatuado cedia à ansiedade para ter a boca do menor contra a sua e o beijo era iniciado no meio do caminho, com línguas expostas sem hesitação. As lamúrias da respiração dificultada de Kouyou entre um movimento e outro pareciam mais como pequenos gemidos enquanto as unhas de Kai passavam pela pele sobre as costelas de Ishihara.
As unhas deixaram um rastro avermelhado visível demais para nossa distância, quente demais para o menino que sorriu quando em resposta Miyavi puxou as mãos de Kai com a mesma ferocidade com o mais novo tinha o arranhado. Com os punhos puxados para cima, Kai perdeu o equilíbrio e caiu sobre Ishihara.
Era tão bom sentir aqui o que era visualizado lá. Parecia tanto com uma coisa só que minhas pernas se moveram por própria vontade quando Miyavi se moveu fazendo Kai cair no chão ao lado de onde estavam e mudar de posição com o moreno, sem largar seus punhos.
Quando dei por mim já estava "abraçando" Uruha com minhas pernas. Então me lembrei que ele tinha me pedido para ficar com as mãos longe, certo. Não foi me dito nada sobre pernas.
Então era como se eu estivesse quebrando qualquer tipo de acordo ou regra ao puxá-lo mais contra mim daquela forma, minhas mãos ainda estavam exatamente onde ele as colocou. Mas uma perna o "abraçou" pela cintura e a outra pela parte posterior das coxas.
Tive tempo de fechar os olhos para aproveitar o toque completo do corpo dele contra o meu e até mesmo tempo de aprofundar o beijo, exigindo um pouco mais do loiro após sentir com o contato, que ele também estava excitado. Mas então o tempo acabou com o loiro usando as duas mãos para nos afastar.
– Eu disse que você não... – Ele começou emburrado, parando de falar quando ergui minhas duas mãos no ar. – Para. Me solta. – Reclamou forçando as mãos contra minhas pernas.
Eu não achei de verdade que aquela era a força que ele tinha. Só se fosse o tamanho da força de vontade dele naquele momento, parecia um carinho aproveitador. Na verdade me arrisco a dizer que as unhas do Kai nas costelas de Miyavi haviam sido muito mais fortes do que a "força" que Uruha estava fazendo para separar nossos corpos.
– Cala a boca, Uruha. – Reclamei no mesmo tom que ele.
E antes que ele reclamasse de mais alguma coisa me arrastei um pouco mais para frente no pedaço de parede pela metade no qual estava sentado e desci meinhas pernas até que se enganchassem contra as pernas dele. E só porque o mimimi de não me toque dele estava me irritando, levei também as duas mãos às laterais do rosto dele antes de exigir um beijo forte de Uruha.
Nada agressivo, apenas forte. Daqueles que davam direito a sentir sua boca por completo, bem como todo o seu corpo. Daquela forma ele sabia fazer muito bem; daquela forma ele já havia feito muito bem.
Aquele parecia o jeito certo de estar com Uruha, sem espaço nem mesmo para o tempo. Mas não na cabeça dele. Depois do relaxamento de dez segundos dos músculos do corpo dele em resposta ao contato exigente, suas mãos nos afastaram novamente. Desta vez com intenção verdadeira.
– Eu disse que você não podia fazer isso! – Reclamou com alguma dificuldade em respirar, parecendo irritado.
– Foi você que começou com isso, garoto estranho. – A irritação sem sentido dele conseguiu me irritar.
Quer dizer, lá estava ele se queixando de mim de novo. Eu não era um boneco também para ele usar e depois dizer que ele que tinha sido usado, toda vez que tivesse vontade.
Eu havia tentado não estar ali, havia tentado o impedir de escolher aquilo. Mas pelo menos assuma seus atos, mesmo que seja para dizer que se arrependeu olhando na minha cara.
– Estava tudo sobre controle até você... – Calou-se.
– Você não reclamou deste beijo quando estávamos na minha cama. – Cuspi de volta.
– Reclamei depois que você foi um idiota. Não precisava me lembrar disso, nem com palavras e nem com essa língua na minha boca.
– Pela última vez, foi você que propôs isto. – Disse realmente irritado.
– Foi. Eu propus e pedi para que você não se movesse e não me tocasse.
– Ah e qual o teu plano agora, dizer que foi você quem me usou desta vez?
– Mas não é isto que você faz? Não é isto que você vive se gabando? Você só faz o que as pessoas que ficam com você te pedem. – Ironizou no final e eu engoli em seco.
Um tapa bem dado em meu rosto, uma cesta de três pontos para Uruha. É claro que ele podia me usar, afinal eu me deixava ser usado por todos. Era aquilo que meu um ano perdido neste mundo de bosta tinha me dado de recompensa; eu era só um maldito playboy de merda afundado na futilidade.
– Que bom que aproveitou, acabou seu tempo. Espero que não me apareça amanhã chorando por ter recaído.
– É assim que você dispensa seus casos de uma foda, Aoi?
– Já gastei toda a minha cota de educação com você, mas eu teria te agradecido se ao invés de apenas me deixar com o pau duro tivesse me feito gozar com mais uma boa foda.
– Imbecil! – Gritou largando a mão espalmada contra o meu rosto.
Eu não sabia que tipo de cegueira havia me pego quando aceitei estar ali com ele acreditando que realmente aquilo poderia acabar bem.
– Garoto iludido burro! – Xinguei de volta, impulsionando meu corpo para saltar das ruinas sobre a qual eu estava sentado.
Segui reto e direto para onde Miyavi se esfregando em Kai de um jeito nada sutil. A calça do garoto estava quase saindo sozinha com os movimentos. Eu não os pararia em outra situação, porque os gemidos altos de Kai estavam realmente dignos de ser guardados na memória. Mas estava irritado e com uma ereção entre as pernas que não seria aliviada por nenhuma das três pessoas que estavam ali comigo.
– Deu, já chega. Já está tarde e escuro, os três tem que ir pra casa e eu ainda tenho que trabalhar. – Ralhei literalmente puxando Miyavi de cima de Kai.
– Porra Aoi! – Kai gritou realmente bravo, e acreditem, ele sabia fazer uma cara realmente zangada nestes momentos.
– Porra nada. Tá frustrado com o pau duro, eu também to só de assistir o pornô de vocês. Quer dar pro Miyavi vai pra casa e conta logo pra tua mãe que tem um namorado e quer levar ele pra casa.
– Que isso Aoi? – Miyavi ralhou ajeitando sua cueca e calça.
– Que isso o que? Quer que a primeira transa dos dois seja nas ruinas abandonadas de uma fábrica incendiada, com a bunda do teu namorado ralando no chão sujo.
– Mas que bosta Aoi, quanto mau humor! – Kai reclamou ainda mais uma vez antes de levantar e se vestir também.
– Eu to voltando pro meu trabalho, já vou ouvir merda demais por ter ficado aqui com vocês.
– Ah se ele vai a gente pode ficar mais um pouco! – Kai deu a ideia com alguma esperança.
– Ah mas não vão mesmo! – Desta vez quem gritou foi Uruha, e eu sabia que ele também tinha uma ereção mal resolvida entre as pernas.
Mas a dele nada tinha haver com Miyavi e Kai se agarrando.
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– Primeiro você tem que deixar a cebola e o alho fritar. – Disse impedindo que o menino jogasse um punhado de salsichas picadas dentro da panela.
– Eu não tenho paciência para isto, mãe. – Ruki bufou pela quarta ou quinta vez até ali, e estávamos apenas no início da brincadeira.
– Abaixa um pouco o fogo, ou o alho vai queimar e mexe Ruki. – Pedi ouvindo o crepitar da cebola e do alho que ele tinha "picado" do seu jeito e abandonado dentro da panela sobre o fogo.
– Posso colocar a salsicha já? – Perguntou impaciente e eu fiz que não com a cabeça, incapaz de falar sem rir da cara que ele fazia.
– Você já picou o tomate, separou o extrato, o sal e os demais temperos? – Perguntei.
– O que? Mas vai tudo isso? To virando mais fã de hot dog do que do molho.
– Eu vou te dar uma dica Ruki, se tem molho e é vermelho, tem tomate.
– Ah não, eu desisto. Deu já ultrapassei o meu limite. – Bufou largando o prato de salsicha em cima de uma boca desligada do fogão.
– Ok. Mas os tomates você vai picar. – Avisei pegando os frutos lavados e os colocando sobre a tábua de cortar.
– Eu não nasci para isso. – Resmungou.
– Eu concordo com você sobre isso.
– Mãe! Você tem que me apoiar. – Ele choramingou em uma birra fofa.
– Oh e eu vou, sempre. Mas isto não quer dizer que vou dizer para você que você bom em algo que não é! – Expliquei.
– Você não é uma mãe normal. – Vi Ruki me olhar com uma expressão de seriedade forçada.
– Você quer uma mãe normal?
– Não. Mas se para ficarmos jogando umas verdades na cara uma do outro... – Deu de ombros.
Foi impossível não rir com aquilo, sempre era maravilhoso passar algum tempo apenas aproveitando meu filho. Sorrindo por coisas que não tinham muitos sentidos úteis além do fato de ser agradável.
Mas é claro que nada do que é bom dura tempo demais. E o som alto e estridente da porta da frente batendo com força foi a marca do fim do clima bom.
Bom, éramos três pessoas morando naquela casa e duas estavam juntas na cozinha. E quem devia estar braba e batendo pé era eu, pela ausência injustificada de Miyavi durante todo aquele dia e também pela hora que estava chegando em casa sem avisar, e não ele.
– Miyavi! – Chamei, alto o suficiente para se quisesse chamar Kouyou que morava no outro lado da rua quando ouvi ele começar a subir as escadas.
– Quê? – Reclamou do lugar onde estava.
– Aqui na cozinha. – Chamei, mas a primeira coisa que tive antes da resposta verbal foi um resmungo alto.
– Depois você me dá a bronca chata... – Reclamou em uma manha auto piedosa e recomeçou a subir as escadas.
– Hei, volte aqui! – Reclamei indo até a sala.
– Depois Emi. – Choramingou, e agora eu podia ver ele de costas quase no meio da escada quase debruçado sobre o corrimão, em uma cena dramática em que a testa estava apoiada nas mãos que seguravam juntas no corrimão.
– Tem noção da hora que é Takamasa? Você simplesmente não apareceu para trabalhar e ainda chega essa hora em casa. – Disse apesar de saber exatamente onde em com quem ele estava.
Por que pelo menos uma daquelas criaturas tinha juízo na cabeça, pouco, mas tinha. E tinha mandado uma mensagem para Joe explicando o mais importante de uma história que ele tinha jurado explicar direito pro Joe quando conseguisse voltar para o trabalho. E Joe me avisou na mesmo instante, porque sim, eu estava mesmo preocupada com o desaparecimento de Miyavi naquele dia.
Mas bastou aquilo para a pose de "não me enche o saco" dele fosse por água abaixo. E no lugar dela um choro exagerado e cheio de soluços tomou conta do garoto que em altura, era muito maior do que eu já. Algo realmente bizarro de ver.
– Isso tudo é culpa tua! – Ele desceu chorando e falando. – Porque você me odeia e não quer que eu namore o Kai e fica fazendo essas coisas que fazem ele e odiar de propósito! Todas essas coisas só tinham o propósito de fazer ele terminar comigo, acha que eu não sei!
Ó meu Deus, e agora. Miyavi havia descoberto o meu elaborado plano do mal para fazer o namoro entre ele e Kai terminar. Precisei respirar fundo para não responder às asneiras de Miyavi à altura.
Quando olhei para o lado em busca da segunda inspiração de ar encontrei Ruki assistindo a cena em silêncio, com uma cara de incredulidade que me ajudou a raciocinar e prosseguir de forma que não desmoralizasse o garoto em sua crise besta. Era quase engraçado o fato de que eu havia me tornado responsável legal por dois adolescentes, apenas uma deles era meu filho, mas só o outro me dava dores de cabeça. Quase engraçado.
– Tudo bem Myv, vem cá. – Adiantei o momento em que meu braço tocaria os ombros do menino indo em sua direção enquanto ele descia as escadas.
Passei meus braços em torno do menino, além do choro descontrolado ele andava com dificuldade, como se estivesse sentindo dor. Foi impossível não perceber com o contato e o movimento que havia mais problemas físicos com o menino em crise enquanto o conduzia até o sofá da sala.
– Eu quero tomar um banho. – Choramingou baixinho quando notou que eu havia percebido.
– Depois você toma. – Respondi, me parecia exagero.
– Mas está doendo Emi, muito. Depois você me xinga, grita e me proíbe de mais coisas. Minha vida é uma merda mesmo. – Continuou daquele jeito que me fazia preferir ele gritando e xingando.
– Menos Ishihara... – Pedi o fazendo sentar no sofá, me sentando com ele ao seu lado tentando ficar de frente.
– E você por acaso tem um pinto pra saber quanto doi, caralho! – Gritou. – Parece que isso não vai abaixar nunca. – Chorou.
Devia estar doendo mesmo. No meu antigo trabalho via pessoas reclamando por não conseguir manter seus pênis eretos, era engraçado ver alguém reclamando pelo oposto.
– Quanto tempo já está assim?
– Eu sei lá...
– Miyavi!
– Quarenta e cinco minutos, uma hora... sei lá Emi.
– Tá. Ruki pega para mim, por favor, a maleta vermelha da farmacinha do meu quarto e água. Enquanto isso você vai me dizer onde estava.
– Com Kai. Ele brigou comigo por ter concordado em trabalhar, ele também percebeu que você só quer que eu trabalhe pra não ficar com ele.
– Takamasa quando a sua mãe foi embora ela deixou regras para você seguir e pedidos para eu atender. O único motivo por você estar passando por isto é o fato de que eu estou seguindo os desejos da sua mãe e você não.
– Quando é que ela volta? Me da o telefone, eu vou fazer ela voltar. – Disse esticando o braço para pegar o telefone sem fio ao lado do sofá.
– Ela está resolvendo a vida dela lá para se mudar definitivamente para cá. Não ouse atrapalhar e nem a preocupar, muito menos duvide do fato de que é trabalhoso e doloroso para ela estar longe de você. – Respondi tirando o telefone da mão dele.
– Isso é tudo culpa dela. Vocês duas são malucas.
– Eu concordo. Mas ainda somos duas malucas que serão responsáveis por vocês, legalmente até que completem dezoito anos e pelo resto da vida para qualquer problema que enfrentem.
– Desculpe. – Disse em um miado doloroso.
– E o que Kai fez foi imaturo, e mais imaturo da sua parte simplesmente sumir sem avisar. Se Aoi não tivesse mandado um sms pro Joe eu já teria mandado a polícia atrás de você. Não é questão de você estar com Kai ou não, é segurança.
– Aqui mãe. – Ruki desceu as escadas correndo, esticando os braços para alcançar a caixa por cima do encosto do sofá enquanto quase corria até a cozinha pegar água.
– Ah o Aoi estava em comunicação com vocês, é? Por isso que aquele mala parou a gente e mandou todo mundo embora. – Disse emburrado, finalmente parando de chorar. – Eu não quero que o Kai termine comigo por isto. – Resmungou.
– Não ele não estava. Ele só foi o único que se preocupou em avisar. E que bom que ele teve o bom senso de separá-los. Onde estavam?
– Eu não sei direito, uma fábrica abandonada que tem ali no centro. – Ouvi sua resposta enquanto mexia nas caixinhas de remédio e procurava um em especial.
– Von Truckel company, estavam nas ruínas da fábrica incendiada? – Perguntei incrédula. – Olhando para ele para ter certeza da confirmação enquanto abria a caixinha e tirava um comprimido da cartela.
– Água. – Ruki entregou o copo voltando da cozinha, sentando-se no chão em nossa frente.
– Eu sei lá o nome, mas é. É uma fábrica incendiada tem umas ruinas na frente.
– Eu não acredito que vocês se enfiaram naquele lugar, é perigoso. – Disse incrédula enquanto quebrava o comprimido ao meio e entregava uma das metades para Miyavi. – Toma, metade será suficiente.
– O que é isso? – Me perguntou olhando o pequeno comprimido.
– Vai fazer baixar isso aí. – Disse indicando seu baixo ventre com a mão.
– Ah tá. – Respondeu levando o comprimido à boca, mas parando antes de coloca-lo dentro da mesma. – Mas ele vai voltar a ficar duro depois quando eu quiser né? – Perguntou sem abaixar a mão ou fechar a boca.
– Se houvesse remédio para esta opção eu já teria te dado, praga. E não quero mais que volte àquele lugar, é perigoso demais.
– Viu, você só xinga a mim. Eu nem sabia desta fábrica, só soube dela porque foi lá que o Ruki e o Reita ficaram, mas você não xingou o Ruki por isso. – Dedurou.
– Porque ele não me contou esta parte. Takanori, usuários de drogas usam aquele lugar de refúgio. Eu não quero mais nenhum de vocês lá dentro.
– Eu só fui lá uma vez, era de tarde e com certeza não estava fazendo a mesma coisa que vocês Myv! – Ouvi Ruki reclamar.
– Não importa, com certeza estava tão distraído quanto eles. Não é um lugar para se estar, é um prédio em ruinas que queimou quando eu tinha a idade de vocês e pode desmoronar em qualquer momento.
– Deviam isolar então... – Miyavi resmungou.
– Pra que você acha que tem aqueles tapumes na frente, idiota? – Ruki disse entredentes.
– Calado Ruki, você foi um idiota que também usou aquele lugar. – Disse, gostaria de poder dizer mais coisas, mas o telefone ao lado do sofá tocou. – Sobe e toma um banho para jantarmos. Se masturbar não vai ajudar a parar de doer, deixe só o remédio fazer efeito. – Foi tudo o que disse sem dar muita atenção às respostas e confirmações que Ruki dava no telefone.
– Ah não se preocupe, está doendo tanto que eu nem sinto vontade de encostar. Eu vou tomar um banho e colocar uma roupa bem leve.
– Não se preocupe, logo o remédio começará a fazer efeito. Só vai ficar meio... dolorido.
– Merda! – Reclamou se levantando.
– Ah Myv, espera. – Disse Ruki recolocando o telefone em sua base. – Era o Kai, ele aparentemente falou para a mãe dele sobre o namoro de vocês e ela quer que você vá lá hoje, O quanto antes Kai disse.
– Por que ele não quis falar comigo? – Perguntou com cara de choro de novo.
– Sei lá ele parecia com pressa. – Ruki deu de ombros.
– Emi... – Miyavi choramingou com as mãos apontando para o próprio corpo, não era a intenção dele, eu vi suas mãos tremendo.
– Vai dar tempo. Só tome o seu banho com calma que vai dar tempo. – Tentei acalmá-lo.
– Eu vou com você. – Ruki disse se levantando e puxando Miyavi pelo braço. – Vamos escolher uma roupa bem apresentável, a mãe do Kai vai amar você.
E eu apenas acompanhei com os olhos até que os perdesse de vista, percebendo que Ruki estava levando Miyavi para tomar banho em seu quarto e não no banheiro central da casa. E despretensiosamente peguei meu celular para falar diretamente com a mãe de Kai, quer dizer, eu não era mãe de nenhum dos dois... mas era como se fosse.
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– Eles estão demorando, não acha? – Ruki me perguntou tentando ver além do muro atrás da janela fechada do carro. – Será que tudo está bem mesmo?
– Está sim, não se preocupe.
– Como você pode ter tanta certeza?
– Porque se fosse para impedir o namoro dos dois, a mãe Kai logo despacharia o Myv. E com certeza nem o teria chamado até aqui.
– Mas por que é tão tenso? – O pequeno reclamou em uma agonia cômica.
– Relaxa, o Takamasa já vai voltar uma pilha de nervos. Esteja calmo. Ah... agora que eu me lembrei, o Akira me pediu para você dormir na casa dele neste sábado. É o domingo de folga dele.
– Que? – O menor deu grito que quase furou meus tímpanos dentro do carro.
– O Reita, sabe aquele seu namorado, ele me pediu se você...
– Isso eu ouvi mãe. O que eu não entendi é por que ele foi pedir pra você não falou nada comigo. – Disse impaciente, recolhendo seus pés para cima do banco do carro e se virando para sentar com as costas encostadas na porta; de frente para mim.
– Ué você ia ter que pedir para mim de qualquer forma, ele provavelmente só quis encurtar o caminho. – Dei de ombros.
– Mas como assim... e você vai deixar eu passar a noite lá?
– Existe algum motivo para você ser privado disto? – Perguntei desconfiada.
– O Reita é o meu namorado... – Ele disse com uma entonação completamente falha ao dizer a última palavra, com vergonha.
– Ué ele já dormiu lá em casa. Eu tenho até umas fotos bonitinhas aqui de vocês dormindo juntos. Já te mostrei? – Eu realmente não estava entendendo qual era o problema dele, mas lembrei das fotos que já tinha tirado dos dois.
– Que? Como assim você tem fotos de mim e do... deixa eu ver essa merda aqui. – Tentou puxar o celular da minha mão.
– Não, espera. Vou te enviar elas.
– Elas? Mais que uma? – Ele pegou o próprio celular indignado quando vários bipes indicavam o recebimento de mensagens.
– Ai meu Deus, minha mãe é uma voyeur. – Deu uma quase grito estridente no carro, dei um tapa bem dado na orelha dele.
– São fofas. E eu as tirei para você, tonto. E não vamos mais fugir do assunto. Tenho certeza que a mãe e a avó de Reita irão cuidar bem de você também.
Fiquei imaginando a reação de Miyavi se dissesse para ele chamar o Kai para dormir lá em casa. Ele já teria o moreninho aquecido em uma cama improvisada ao lado da dele antes de eu terminar a frase que permitiria isso.
– Mas lá em casa é uma coisa, na casa dele é outra totalmente diferente.
– Eu não entendo Ruki, achei que você fosse ficar feliz. Sempre resmunga que vocês dois não tem muito tempo e sempre tem um ou mais dos meninos junto.
– Eu sei... mas é justamente essa falta de tempo com o Reita, sabe. Hoje aconteceram umas coisas meio tensas quando eu fui buscar os cabos na loja e elas ainda vão estar na minha cabeça no sábado e ah... eu não quero dormir na casa do Reita. Diz que não, diga para ele vir na nossa casa.
– Defina tensas. – Pedi tentando entender de verdade o quase surto que ele estava tendo ao meu lado.
– Ah... – Ele abriu a boca para falar, mas se calou com o rosto totalmente vermelho.
Eu tinha dois adolescentes para cuidar, um era um tarado e o outro um recalcado. Se fosse possível colocar esses dois em um processador de carne e reduzir uns dez por cento da rebeldia de Miyavi e aumentar uns dois por cento da Ruki a vida ia ser mais fácil.
– Começa pelo começo, filho. – Pedi, porque eu não ia ajudar evitando que ele encarasse certas coisas de frente.
– É a distância, eu acho. A gente se vê tão pouco e fica tão pouco juntos que eu fico pensando demais em como queria estar com ele. E hoje quando finalmente nós conseguimos ter um tempo, apenas para um beijo não foi como costumava ser. E foi... tenso.
– Foi ruim?
– Não. E é por isso que é tenso. E não tem como querer achar que na casa do Reita vai ser diferente, mas vai ser na casa do Reita e não em um almoxarifado. Quer dizer o que mais daria para fazer em um almoxarifado né...
– Ah entendi. Taka eu sei que é irônico eu dizer isso pra você logo na frente da casa do Kai, quando ele e Miyavi finalmente estão fazendo o certo, mas você fazer sexo com o Reita é a progressão natural do desenvolvimento do namoro de vocês. E sentir vontades é como os primeiros passos.
– Tá, mas não precisa ser este sábado. – Ele disse.
– É claro que não. E o Reita não é o tipo de cara que faria algo que você não estivesse de acordo, e conhecendo a tua personalidade eu posso afirmar também que mesmo vermelho de vergonha e com medo, você não deixaria que nada que não fosse do teu agrado acontecesse.
– Eu não tenho tanta certeza disso, é difícil dizer não pro Reita.
– Não se preocupe com isto agora, esta é a melhor parte do namoro Ruki. É a parte das descobertas, apenas a viva. De qualquer forma você pode dizer pro Reita que não vai.
– Não. – Resmungou. – Eu... quase nunca consigo passar tempo com Reita.
– Sabe o que você deveria fazer, você deveria conversar com Uruha sobre isso.
– Por quê?
– Porque é um amigo, alguém da sua idade que acabou de fazer sexo pela primeira vez. Não vejo ninguém melhor com quem você possa tirar todas as suas dúvidas da prática. Porque eu sempre vou estar aqui para você, mas só vou conseguir te ajudar na teoria.
– Eu não sei se quero ouvir o Kou falando sobre como é fazer sexo com o Aoi. – Ele torceu a cara em uma careta de repulsa.
– Prefere a opinião de Miyavi sobre o assunto? – Perguntei e vi ele olhando mais uma vez para o muro da casa de Kai através do vidro.
– Eu acho que vou chamar o Uruha pra conversar... Kai e Miyavi estão em outro nível. – Foi o que ele disse, e eu só pude rir daquilo.
Mas então nossa conversa foi interrompida por um murmurinho e vi pelo retrovisor do carro que Kai estava trazendo Miyavi até o portão para se despedirem. Não chegou a dois minutos Miyavi já estava forçando a maçaneta da porta de trás do carro e no banco entre Ruki e eu se jogou um adolescente pálido e soado.
– Você está bem? – Ruki perguntou antes de mim.
– Vou sobreviver, eu acho. – Respondeu jogado no banco.
– Como foi? – Ouvi a pergunta com a mesa curiosidade que Ruki.
– Ela odiou as minhas tatuagens. – Resmungou.
– Mas sobre o namoro, ela liberou? – Ruki prosseguiu com seu interrogatório ansioso.
– É. Mas como para ela o namoro começou agora ela também impôs regras. Uma delas é que o namoro só é permitido na sala. Isso não resolve meus problemas – Suspirou.
Pobre criança. Mas gostava da ideia de ele não ter percebido que ao escolher uma das opções que a mãe dele havia dado, eu poderia em algum momento de bom humor talvez deixa-los sozinhos em casa; sem querer é claro.
– Sentem-se direito e coloquem o cinto. – Pedi me preparando para dar partida no carro.
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Depois do pequeno interrogatório, Miyavi veio o caminho inteiro em silêncio. Ele ainda me parecia abatido como se tivesse acabado de correr uma maratona, mas parecia completamente feliz. Dava para ver pelo sorriso que nem ele parecia perceber carregar, mas que era visível pelo espelho retrovisor enquanto ele observava a paisagem distraidamente.
Eu fiquei feliz por ele ter, com certeza, visto algo bom em uma coisa que até então jugava como algo ruim. Miyavi era tão teimoso quanto eu, e tinha em sua convicção que expor o namoro para a mãe de Kai apenas pioraria o namoro e se apegou aquela ideia. Eu também era assim com coisas e pessoas de quem não gostava.
E estranhamente eu me senti como se estivesse dentro de uma bolha quando entramos novamente em casa. Era como aquela sensação zonza de estar em uma altitude muito diferente da que se está acostumado.
Eu não estava no lugar onde deveria estar. Precisava de um ar. Devia ir para o jardim, mas minha cabeça pensou isto ao mesmo tempo em que minhas pernas seguiram o sentido da porta da frente da casa. A verdade era que por todo caminho todas as coisas na qual pensei esbarravam sempre de alguma forma na mesma coisa.
A porta estava trancada já que recém tínhamos chegado, e tínhamos entrado pelo acesso da garagem. O som das chaves pareceram chamar atenção alheia e a voz da minha mãe me perguntando onde eu ia passou de um ouvido a outro como se fosse um eco distante.
– Eu só vou dar uma volta. – Disse.
– Ruki já está tarde para ficar correndo rua.
– Eu só vou até o fim da rua. – Avisei saindo.
Ganhei a calçada e caminhei. Apenas caminhei. Achei que a minha melhor opção seria ir até a casa de Uruha realmente conversar com ele e perguntar coisas sobre dor, vergonha, o que fazer, como fazer...
Mas minhas pernas nem cogitaram atravessar a rua. Apenas segui pela calçada.
De alguma forma a atitude de Kai naquele dia também tinha me atingido de um jeito diferente. Eu sabia o quanto era amedrontador falar certas cosias em casa. Já tinha sido difícil dizer para Emi que estava gostando de um cara, chegar em casa e dizer que está namorando um devia ser ainda mais tenso.
Crescer, amadurecer. Emi falava tanto nisso, quase todas as últimas broncas que levei dela carregaram este dogma. Tá certo que a metade foi por causa do Miyv, mas não vem ao caso.
Mesmo hoje enquanto falávamos sobre Reita, parece que a base é sempre a mesma. Eu gostaria de crescer, eu queria ser o filho maduro que Emi queria. Queria sentir aquela leveza marcada nas expressões de Miyavi hoje, mesmo que tivesse parecido tão cansativo.
E o que fazia meu estomago retorcer daquela forma era aquela percepção do único ponto que eu não conseguia marcar para poder ir em frente. A coisa que esbarrava em todas as coisas boas da minha vida. Como se fosse um daqueles bonecos infláveis que tinham uma base de areia e não importava quantas vezes você o batesse ou de que lado batesse, ele sempre voltava a se erguer e ficar em pé na sua frente.
Esse era o Aoi na minha vida. Parecia engraçado que tantas pessoas em diferentes situações tivessem me feito pensar em todas as coisas que estou pensando agora, não posso ser simplório e mentir para mim mesmo que esta tinha sido a primeira vez que o pensamento bagunçou a ordem em minha cabeça. Mas foi apenas ver Kai e Miyavi saindo de sua zona de conforto que me fez ter alguma consideração por este sentimento.
Uma sensação personificada que mesmo sem a minha vontade me trouxe até a exageradamente grande mansão do fim da rua.
