Capítulo trinta e nove: Open heart, open mind

Por Kami-chan

Eu não sabia ao certo que hora que ele costumava chegar em casa, mas mesmo que soubesse isto não mudaria minha escolha de não apertar o botão do interfone e me anunciar. Aquilo era algo que eu realmente não gostava, até mesmo no apartamento de Reita ligava para ele ao invés de usar o interfone quando chegava.

Perguntei-me se a passagem que usávamos na nossa infância havia sido finalmente fechada depois de eu mesmo usar ela para invadir a casa e bater no dono da casa. Aquele era um ponto frágil da casa enorme da família de posses, qualquer um poderia encontrar aquela passagem.

Na verdade a casa de Aoi era tão, mas tão grande que era possível em minha cabeça ladrões morarem nela sem ser vistos enquanto retiram peças de dentro da mansão. Por isso foi mesmo uma surpresa afastar as plantas trepadeiras do muro no local onde ficava o quadro de água antigamente e ainda encontrar lá a passagem no muro.

Corrigi meu pensamento enquanto me arrastava pelo buraco; não seria qualquer ladrão que passaria ali. Eu estava quase tendo dificuldade, Miyavi seria alguém que não passaria ali de jeito nenhum. Impossível não pensar em quanto tempo tinha se passado ao lembrar que escorregávamos por ali com a maior facilidade.

Tempo este que me pareceu não ter passado assim que me levantei do lado de dentro dos limites da residência e vi a mansão exatamente igual ao que me lembrava enquanto limpava a areia de minhas roupas. Na última vez que tinha entrado ali tinha a mente tão focada em matar Aoi que se quer tinha observado o lindo jardim que cercava a casa enorme centralizada.

Tudo exatamente igual. As mesmas flores, as mesmas árvores o mesmo desenho nas podas. A mesma estradinha sinuosa de tijoletas em cinza escuro que levava os convidados até mais perto da entrada. O tempo não parecia se impor ali nem mesmo nas colunas de concreto ou na madeira das aberturas.

Uma vez ali não tinha como apenas me parar diante da porta de entrada e esperar o moreno ter algum tipo de iluminação divina para descer e abrir a porta sem motivo, então tinha que bater. Tarefa difícil.

Era mais do que o excesso de vergonha. Na verdade eu vinha percebendo com o somar dos dias que é muito difícil conseguir distinguir na maioria das minhas atitudes frescas, o que é vergonha e o que é na verdade medo.

Então os motivos para eu estar ali falaram baixo em minha cabeça. Palavras ditas por Emi, por Reita, por Rebeca, até as ditas por Kai e Uruha se uniram para me lembrar de que se não fizesse aquilo mais cedo, apenas teria que fazer mais tarde. Não era algo que pudesse evitar para a vida toda.

Em Kai e Miyavi enfrentando uma corajosa tarefa de amadurecimento, era no que eu pensava quando bati meus dedos contra a madeira trabalhada da porta. Óbvio que não tinha campainha ali, havia um interfone no portão que já fazia o trabalho de identificação.

Ouvi passos que foram até a porta sem abri-la e olhei para o lado, deduzindo que estava sendo observado pelo "olho mágico" centralizado no alto da porta. Acho que podia dizer com certeza que isto era algo que eu odiava mais que os barulhentos e indiscretos interfones.

Depois de algo que pareceu ser muito tempo depois ouvi a porta ser aberta e olhei para frente novamente. Vi o rosto incerto e inseguro da empregada me olhando pela fresta, eu podia compreendê-la, na última vez que ela me viu ali eu estava sendo seguro por Reita enquanto ela tentava dar algum suporte para Aoi.

– Ah.. Boa noite, eu vim conversar com o Yuu. Ele já está em casa? – Perguntei mesmo vendo claramente que ela não confiava em mim.

– O senhor Shiroyama não está em casa. Quer deixar algum recado? – Perguntou por fim, mesmo eu achando que se não fosse eu ela teria convidado a esperar por ele do lado de dentro.

Talvez também fosse a hora. Afinal eu sabia dos horários de Aoi, mas para qualquer pessoa normal já era tarde demais para ficar batendo em portas alheias.

– Não, obrigado. Eu vou esperar por ele aqui fora.

– Gostaria de esperar do lado de dentro? – Perguntou no extremo da educação.

– Não. Obrigado. – Repeti, desta vez já dando-lhe as costas e indo me sentar em um dos degraus que faziam um detalhe bonito para a varanda em frente à porta principal.

Ouvi a porta sendo fechada novamente sem que ela insistisse no convite obrigatório. Preferi usar este tempo para mandar uma mensagem para minha mãe dizendo com clareza onde estava. Meio minuto depois tive que responder a mensagem de retorno dela prometendo-lhe que não partiria para a agressão contra Aoi novamente.

Aproveitei e mandei uma para o Reita também, mas o assunto com ele seria outro. E me perdi em algum ponto do passado enquanto esperava uma resposta do meu namorado e vi ao longe a sombra densa que limitava no espaço a área da grande e velha paineira que ficava quase nos limites do jardim da residência.

Mesmo que a noite alta não me permitisse ver com clareza, eu me lembrava da mesa de acampamento que servia para lanches e piqueniques na primavera e de forte de guerra no outono. Chamávamos de "Forte das Malvinas" apenas pelo tapete de flores cor-de-rosa que nos cercava e cobria a mesa que era fundamentalmente a estrutura do nosso forte, e achávamos que aquilo fazia sentido só porque a mãe dele chamava aquelas flores de malvas.

O som de portão abrindo e fechando me trouxe rapidamente de volta. Uma última olhada na tela do telefone apenas para ler a mensagem que Reita mandou de volta dizendo que Joe tinha nos atrapalhado e ele achou melhor pedir direto para Emi do que me mandar uma mensagem sobre sábado.

O som da sola de seus tênis se arrastando contra os blocos de concreto indicavam corretamente a distância. Eu já tinha terminado de ler e de responder a mensagem de Reita, mas passar o dedo na tela do telefone e ver as várias telas de menu deslizando diante dos meus olhos era muito mais importante do que olhar para frente.

Até que é claro, o som de seus pés desapareceu. Achei que havia sido uma daquelas coisas da minha cabeça, como os minutos quando fui observado pelo olho mágico passaram mais lentos para mim do que para o relógio. Achei que não querer que ele se aproximasse tão cedo havia feito o tempo transcender com mais urgência, parecendo rápido demais.

Mas não foi isto que eu vi quando finalmente tive coragem de olhar para frente. Aoi esta longe, parado cerca de três metros de distância de mim. Me olhando de forma analítica, mas não daquele jeito que eu não gostava. Ele parecia estar mais pensando em si mesmo do que em mim.

Como se seria seguro se aproximar mais, ou ficar ali pelo resto da noite. A forma como ele estava olhando na minha direção me deixou tão tenso que fui obrigado a olhar para trás para ver se tinha alguém ou alguma coisa assustadora atrás de mim, logo voltando a encará-lo quando me certifiquei que realmente não havia mais ninguém ali além de nós dois.

– Etto... – Comecei, mas só então percebi que não tinha o que falar.

Lembrei que não bastava coragem para estar de frente com ele, mas precisava de palavras. E encontra-las não seria mais fácil do que estar ali. Vê-lo parado tão preventivamente longe e sem esconder certo espanto nos olhos não era algo que ajudaria neste momento.

– Você não vai mesmo me bater de novo né? Eu juro que desta vez a culpa não foi minha! – Ele disse antes de qualquer coisa, colocando suas mãos a frente do corpo como se a distância entre nós ainda não fosse o suficiente para protegê-lo de mim.

Então pela primeira vez o peso sobre meus ombros que me mantinha encolhido com o peito quase tocando os joelhos enquanto estava sentado em um degrau e meus pés estavam no chão, sumiu. Na verdade eu me sentei com a coluna ereta bem rapidinho e fiquei descaradamente analisando Aoi para ver encontrava alguma resposta a mais que pudesse vir por osmose das mãos que ele estava usando como escudo protetor até mim.

Quer dizer, vontade de bater no Aoi eu tinha o tempo todo. Mas motivo para realmente tê-lo feito, até hoje, só houve um.

– O que foi que você fez? – Perguntei entredentes.

Não foi algo intencional. Odiar Yuu era tão parte de mim quantos meus dentes cerrados de raiva. Eu simplesmente não sabia onde ficava o botão que desligava o modo "ver o Aoi como a pior coisa do mundo".

– Eu já disse que a culpa não foi minha. Ele que disse "foda-se", mas no fim quem se fodeu foi eu.

– Eu não acredito que Uruha quis ficar com você de novo, isso é muita burrice pra uma pessoa só!

– É... – Ele disse meio incerto. – Tá, tirando a parte em que isto me ofende. O que você está fazendo aqui se não é por causa do Uruha?

– Ah... é. Você vai ficar aí a noite toda? – Perguntei apenas como meio de protelar a resposta, eu ainda não tinha as palavras certas.

– Depende. Você tem certeza que não veio aqui para me agredir? – Ele disse e me fez pensar por um ou dois segundos.

– Defina agredir. – Pedi olhando diretamente para o moreno e estranhamente, ele riu.

– Da última vez eu acabei com um olho roxo e com um hematoma do tamanho do teu punho nas minhas costelas. – Ele explicou.

– Foi legal né! – Disse de forma automática.

Sabe, eu não sabia que tinha tanta força. Na verdade eu sabia que eu não tinha força, o que realçava o fato de Yuu ser um fracote; um fracote que fica roxo por qualquer coisinha.

– Er.. não, não. – Me apressei a voltar ao foco da conversa até ali. – Neste caso é sem agressão. – Dei de ombros, afinal eu tinha prometido para Emi por mensagem que não faria nada estúpido.

– Não me leva a mal, mas então o que exatamente você está fazendo aqui? – Ele perguntou, era óbvio que ele estava tão confuso quanto eu.

Era óbvio que eu tinha me esforçado bastante em minha tarefa de odiar Aoi a ponto de deixar uma cena assim constrangedoramente inexplicável. Sem sentido. E mesmo assim, era estranho ver certa conformidade nas atitudes passivas dele com relação a isso.

– Eu não sei na verdade. Eu só estava andando e... ah a passagem do antigo contador de consumo de água ainda está aberto. Isto é perigoso, é acesso fácil para ladrões.

– Foi por lá que você entrou da outra vez também, né? Ruki qualquer ladrão para passar por lá tem que ser do seu tamanho para menor.

– Ué eu com todo o meu tamanho te deixei um olho roxo. – Ri.

– Eu não revidei, certo. – Retrucou, e eu na verdade nem lembro se ele retrucou ou não.

– Mas está com medo de se aproximar. – Apontei achando graça ao vê-lo soltar o ar em um suspiro pesado e vencido.

Após a acusação ele finalmente resolveu voltar a caminhar na direção da entrada da própria casa. Com o peito estufado e uma pose quase teatral demais de quem queria provar que tinha toda a confiança do mundo ao andar. Como se quisesse dizer que estava parado porque queria e não porque tinha medo, bem como andava porque queria e não porque tinha sido criticado.

Aquilo era engraçado. Droga, Aoi era engraçado.

Na escola eu achava que ele fazia dessas coisas apenas para aparecer, ser o palhaço. Mas estava somente eu ali, não era alguém que Aoi desejasse impressionar.

– Tá. Vamos entrar, está ficando frio aqui fora. Aliás porque você não ficou me esperando lá dentro?

– Sua empregada não me achou confiável o bastante.

– Por que será? Na única vez que ela te viu você invadiu a casa como um estouro.

– Eu me lembro de uma empregada sua... – Disse por dizer tentando me lembrar das características da senhora de poucas palavras que sempre estava em volta quando brincávamos.

– Ela deve estar na cozinha. Está velha para tudo o que fazia, ganhou algumas ajudantes e virou uma espécie de supervisora.

– O nome disso não é governanta?

– Ela está acima disto, o termo não se adere. Então... você veio aqui por saudade da minha babá? – Tentou novamente.

Claro que eu tinha que dar um motivo para estar ali. E é claro que eu não queria dar um motivo para estar ali.

Eu não tinha um link pra ligar com "hey lembra de uma dia na pré-escola em que você fez nossos colegas rirem de mim...". Aquilo era algo que ele já deveria ter esquecido, era importante para mim e não para ele. Estar ali era ridículo na verdade.

– Hey... – Voltei à realidade com ele balançando a mão em frente aos meus olhos, a porta já estava aberta e ele provavelmente estava esperando que eu o seguisse.

E mesmo que ele tivesse dito antes, eu não acreditei de verdade que ele tivesse intenção de ser seguido por mim para dentro de sua casa. Quer dizer, se fosse o contrario e fosse ele em minha casa eu iria enrolar ao máximo e mandar ele embora.

Por que ele não fazia isso? Seria mais fácil se ele agisse do jeito que eu tinha pensado na minha cabeça e me mandasse embora para que eu tivesse uma desculpa e dizer que era culpa dele eu não ter conseguido dizer nada.

– Me desculpa. – Disse me levantando, referindo-me na verdade ao fato de ter saído do plano terreno como ocasionalmente fazia.

– To sabendo. Você faz umas caretas estranhas quando sai de órbita, dependendo do que está pensando. Deve ser mais legal quando você está com o Reita. – Riu.

Obriguei-me a olhar fixamente para a cara de boneca de Aoi naquele momento. Como assim caretas que mudavam de acordo com o que eu estava pensando? Bom, faz sentido. Talvez fosse por isso que até o tonto do Uruha dizia que era fácil de me ler. Pro inferno.

Mas olhando fixamente para Aoi o inchaço leve na linha embaixo de um de seus olhos chamou atenção. Fazia alguns dias que antes de olhar de verdade para Aoi a gente não conseguia evitar olhar primeiro para aquele olho. Não estava mais roxo e nem mega inchado, mas ainda havia evidências perceptíveis a olhos detalhistas.

E eu não sei se foi apenas para contestar o que ele tinha dito e ir contra a resposta que ele tinha dado, ou se era apenas algo que eu tinha que fazer de qualquer forma e tinha ali uma deixa de fazer as duas coisas ao mesmo tempo, mas apontei para o olho levemente alterado e prossegui.

– Não. Me desculpa. – Repeti ainda apontando para o olho em questão. No fundo querendo me convencer de que estava fazendo aquilo com o impulso de dizer que ele tinha errado o ponto que explicou.

– Ouvir você se desculpando por algo é muito estranho. Sério, isso é algo que definitivamente não combina com você. – Riu.

– Baka. – Bufei não me importando com a educação e entrando na casa antes dele.

Mas me senti satisfeito ao mesmo tempo. Aquela era o tipo de resposta que eu esperava de Aoi. Era seguro e confortável, me deixava ciente na frente de quem eu estava.

– Mas por que isso agora? Não venha me dizer que não queria bater em mim, porque eu sei que isto está longe de ser uma verdade.

– Não, eu sempre estou querendo bater em você. Mas isso não me da direito algum de invadir sua casa e te bater, principalmente porque era haver com Uruha e não comigo.

– Uruha foi apenas um pretexto. Eu sei que você tinha aquele soco guardado por muito tempo.

– Continua não me dando direito, apesar de ter sido muito bom.

– Tá. O que mais você quer aqui? – Perguntou.

E mais uma vez quem ficou com cara de poia por surpresa, foi eu. Saco. Não devia ter ido até ali, só não devia.

Em uma fala Aoi era quem eu esperava que fosse, em outras ele surpreende. Não saber como ele vai responder minhas perguntas me faz querer ir embora bem rapidamente. Uma grande e esmagadora parte de mim crê que ao me ouvir ele vai rir, ou usar esta fraqueza contra mim. Mais uma vez, da mesma forma como fez antes.

– Nada. – Respondi-lhe da melhor forma que pude.

– Você entrou. – Ele disse de forma simples indicando o interior da casa.

Eu entendi que ele queria que eu entendesse algo mais com a curta frase dele, mas eu não tinha entendido o que. E sei que ele percebeu isso ao ver a cara que eu estava fazendo para as mãos dele apontando a grandiosa sala de visitas.

– Você pediu desculpas lá fora, mas entrou mesmo assim. Também não acho que você venha até aqui essa hora da noite por tão pouco, ainda se fosse teria vindo batendo o pé e bufando porque alguém teria te obrigado a isto. – Foi o que ele disse fazendo um grande frio pesar em meu estômago.

Observador. Aoi era observador. Automaticamente isto me fez voltar a horas atrás quando uma observação dele me fez subir até o almoxarifado onde Reita estava. "Ter um dedo do Aoi" foi algo dito por Reita com felicidade para justificar minha repentina aparição.

Bem como uma série de eventos que sempre tinha o moreno ao fundo em silêncio, sempre atrás ou ao lado de Reita. Sempre visto como um preço a pagar pela companhia de Reita, mas se visto por outro ângulo...

Eu confesso que depois de conversar com Rebeca, mesmo não querendo me apegar aos meus próprios pensamentos ridículos, eu pensei se de fato não sabia de tanta coisa sobre mim por intermédio de Aoi. Desde entregar um álbum raro de uma banda que eu admiro em minha frente até uma pequena frase dita sem voz no fim daquela mesma aula, foi um simples "eu falei que ia dar certo" que li sem compressão nos lábios de Yuu.

Colocar Reita sempre no meio do meu caminho. A paciência que Akira teve com a minha dificuldade em lidar com meus próprios sentimentos sendo ligada de uma jeito diferente a todas as vezes em que Aoi me chamou de 'puritana' por chacota. Uma chacota comedida.

Mesmo que uma parte de mim não quisesse verdadeiramente ver as coisas desta forma, ele estava sempre lá. E mesmo que eu ainda achasse que o que a Rebeca disse naquele dia não fizesse o menor sentido, outra parte de mim queria que fizesse.

'Ele gosta muito de você'

Foi algo que Akira disse após expressar o desejo de que meus amigos e seu amigo se dessem bem logo quando começamos a conversar. No dia em questão Aoi e Uruha estavam fazendo um trabalho de inglês conversando como se fossem amigos há eras, eu só não queria que ele se aproximasse de ninguém que eu amava.

– Eu não confio em você. – Disse após algum tempo.

Eu não tinha palavras para ele, não havia encontrado palavra nenhuma para descrever ou explicar o que eu tinha ido fazer ali de verdade. Não tinha mais vontade nenhuma de trazer toda aquela história à tona.

– Eu sei. – Ele respondeu com uma sinceridade que pareceu ser gêmea a minha ao declarar o fato. – Mas você veio até aqui, e faz uns dez anos que você parou de vir aqui. – Tecnicamente fazia alguns dias desde que eu tinha invadido ali, mas eu tinha entendido o que ele quis dizer.

– Bom é que você por algum motivo muito injusto é o melhor amigo do Reita. – Tentei de alguma forma colocar em voz alta a forma como a linha básica do raciocínio quase falho acontecia na minha cabeça.

– Bem observado. – Ele disse com certo humor, voltando a caminhar por algum caminho dentro de sua casa e fazendo gestos para que eu o seguisse e prosseguisse.

– E o Akira gosta de você.

– Outra boa observação. – Ele prosseguiu.

– O Kai gosta de você.

– Menos do que eu gostaria. – Aoi manteve o ar levemente humorado na voz.

– O Uruha gosta de você.

– Mais do que eu gostaria. – Respondeu, sinceramente, foi impossível não rir rapidamente com a resposta.

– Emi e Joe gostam de você.

– Agradeço a presença deles no meu caminho todos os dias nas minhas orações.

– Orações? – Questionei tentando imaginar Aoi em orações diárias.

– Não tem fé em nada não? – Ele respondeu com outra pergunta.

– Tá. Não vem ao caso. A questão é que eu só consigo achar o tempo todo que todos estão errados e que apenas eu sei o quão mau você verdadeiramente é. – Continuei, tentando não pensar nas palavras em si, mas no raciocínio dito e na sinceridade do mesmo.

– Isso não deveria, mas doeu. – Respondeu e eu me parei atrás de si, cruzando os braços e bufando alto. – Tá, na verdade não doeu, mas deveria. – Corrigiu.

Viu. Eu também consigo ser um pouco observador, ás vezes.

– Então você veio até aqui, pediu desculpas pelo meu olho roxo e deixou claro que não confia e nem gosta de mim. Isso é só pra deixar as coisas em pratos limpos? Porque eu já sabia de tudo isso.

– É mais complicado. Todas as pessoas que eu amo gostam de você. Eu sei porque eu não gosto de você, mas eu não sei porque todos os outros gostam.

– Pergunte para eles, eu também não sei. – Desdenhou já entrando no que parecia ser a cozinha.

– Será em vão, cada coisa boa que eles falarem eu vou pensar em uma ruim para equivaler. Ou simplesmente bater na tecla de que estão errados se não encontrar algo ruim para colocar de fronte à qualidade. – Mais uma vez a única coisa que tinha a meu favor era o fato de ser sincero.

Naquele momento Aoi suspirou e apoiou o corpo sobre as mãos que foram espalmadas sobre o tampo de granito da mesa. Achei que ele parecia cansado, mas não fisicamente. O cansaço não estava expresso no suspiro e nem no corpo apoiado, ele estava somente na expressão dos olhos sem vida me analisando à distância.

Foi como se aquele suspiro tivesse levado embora algo que omitia aquele olhar vazio. Estranhamente aquele olhar não me agradava, me fazia ter vontade de andar para trás e sair dali. Podia ser apenas coisa da minha cabeça, mas naquele momento eu imaginei Aoi como uma pessoa profundamente triste.

O que ele claramente não era. E gostava de demonstrar isto para o máximo de pessoas que seu 'pequeno' ego pudesse alcançar.

– Entendi. Você já jantou? – Ele perguntou repentinamente.

– Já.

– Então você pode, por favor, se sentar à mesa comigo? – Questionou indicando uma das cadeiras próximas de onde um pequeno café completo era revelado por ele ao levantar uma tampa prateada de cima da mesa.

Eu não queria, mas fui. Aquela era uma situação esquisita, a companhia de refeições era algo que deveria sempre ser agradável e dividir a mesa somente com Aoi não me parecia nem de longe algo agradável.

Imediatamente ao som das cadeiras sendo arrastadas, uma senhora entrou na cozinha. Pelo menos dez anos mais envelhecida, mas ainda conseguia reconhecer a empregada oficial da família de Aoi. Ela pareceu ao mesmo tempo espantada e feliz por haver alguém com Aoi.

Rapidamente ela seguiu até um dos armários, percebi que ela colocaria a mesa para mais uma pessoa e me dirigi novamente à Aoi, avisando que não iria mesmo comer com ele. Não fazia tanto tempo assim que tinha comido, Emi tinha parado em uma rede de sanduíches rápidos no meio do caminho para casa depois de irmos com Miyavi até a casa de Kai.

A velha pareceu realmente triste ao ser impedida de prosseguir. E de fato não se deu por vencida até eu concordar com pelo menos uma xícara de achocolatado, igual a que ela estava preparando para Aoi. Somente depois disso ela foi dispensada e saiu com uma ampla reverência.

– Como foi que isto terminou assim? – Reclamei baixinho para mim mesmo.

– Relaxa Ruki, a noite é longa. – Aoi disse mais concentrado em seu jantar do que em mim.

– Não é esta a questão. – Resmunguei.

– Eu sei, mas se você quer que eu me lembre de detalhes sobre coisas que aconteceram dez anos atrás vai ter que esperar até que meu estômago esteja bem cheio e meu sangue com muito açúcar. – Concluiu cortando mais um pedaço de bolo de cenoura com cobertura em excesso para acompanhar o sanduíche reforçado.

E eu me peguei perguntando se era aquilo que ele costumava jantar todos os dias após constatar que já era quase onze horas da noite. Se sim, não entendia como Aoi podia ser esquio daquele jeito comendo daquela forma.

– O que quer dizer com isso? – Percebi minha voz alterada ao perguntar, sem saber em que momento ele tinha percebido meu plano sem planejamento e nem jeito.

– Entendi que foi para isso que você veio. Achei que nunca teria oportunidade de falar sobre aquilo com você. – Foi a resposta calma dele.

E toda a calma dele naquele momento me fazia querer gritar, bater na mesa ou simplesmente tocar minha xícara nele. Não era uma memória calma, era sobre a minha pior lembrança que ele estava se referindo e tudo o que eu queria era que não fosse algo que para ele tivesse aquele clima genuinamente calmo.

Mas por algum motivo, eu só conseguia seguir adiante, usando de uma sinceridade que levava embora minhas energias para brigar. Bem na verdade eu só queria saber; precisava saber.

– Ano... eu só quero entender por que só eu conheci esta face sua. Por que só eu não consigo gostar de você.

– É o tipo de coisa complicada, daquelas que a gente nem sabe por onde começar.

– Só me diga por que fez aquilo. – Dei de ombros, impaciente.

– Eu não sei. Na hora foi algo que fez com que eu me sentisse muito bem. – Ele disse de um jeito calmo.

A sua declaração quase me fez sorrir. Me humilhar havia o feito sentir-se bem, muito bem. Pelo menos eu poderia seguir minha vida com a certeza de que não faria mal algum odiá-lo.

– Claro que fez. – Concordei em um riso descrente, cheio de ironia, infelizmente o máximo de rebeldia que consegui demonstrar já inerte na atmosfera das memórias dentro da minha cabeça.

– Não. Éramos crianças Ruki, por favor tente se lembrar como o mundo tinha uma perspectiva diferente naquele tempo. Eu levei muito tempo para entender aquele dia, aquele ano em especial.

– Ah tem teoria também. – Desdenhei. – Me humilhar faria a fada dos dentes lhe trazer mais moedas?

– Apenas me fez sentir a felicidade de mostrar para alguém que você não era o melhor em tudo. Foi o que eu senti no momento. – Ele acrescentou rapidamente antes que eu o interferisse como estava prestes a fazer. – Naquele tempo eu não sabia o que era ciúme. Não sabia o que era inveja.

– Inveja.. – Repeti.

Aoi era o cara que tinha vindo do outro lado do mundo, era o centro das atenções. Aoi tinha pai e mãe dentro de uma casa grande com quintal enorme e bonito. Aoi morava em um castelo e tinha uma torre de ouro.

Aoi era invejado. Não o contrario.

– Ruki um dia eu vi minha mãe começar a fazer as malas, outro dia saímos para viajar. Levou bastante tempo até eu entender que esta casa grande era o nosso novo lar. Ainda assim eu nunca tive contato com pessoa alguma deste país até os professores particulares passaram a frequentar a casa para me ensinar a língua deste país. O dia em que uma das professoras disse para o meu pai que eu havia aprendido rápido e já conseguiria ir para um colégio normal eu me senti o ser mais especial do universo. Mesmo que nem mesmo soubesse o quão grande era o universo.

– Ainda não faz sentido. – Reclamei impaciente sem fazer ligação alguma sobre o que ele tinha dito e a inveja citada antes.

– Quando me liberaram para a escola me colocaram uma série atrasada para adaptação, eu não me livrei dos professores particulares que prosseguiram com a parte da alfabetização para que eu não me atrasasse a ponto de ficar sempre uma série atrás.

– Aoi eu sei dessa parte da história. Será que você pode ser um pouco mais objetivo, por favor. – Resmunguei não conseguindo me conter.

– Foi estranho fazer a adaptação. Não era só um idioma diferente com pessoas diferentes, foi praticamente como mudar de planeta. Só que o ser extraterrestre era eu. As outras crianças riam constantemente da forma como eu falava, só não pior porque tinha pelo menos mais duas pessoas na sala de aula que se pareiam fisicamente comigo.

– Nada haver Aoi. – Disse em tom alto. – Você era o cara que tinha vindo do lugar que era noite quando aqui era dia. Às vezes era engraçado mesmo a forma como você dizia algumas coisas, mas as crianças riam com você e não de você.

– Eu odiava aquela tartaruga. Contar as histórias da mascote era quase uma tortura, as crianças rindo e me cortando o tempo todo era um pesadelo. Eu me lembro de ter ficado muito feliz quando aquele bicho fugiu.

– Que horror.

– Você adorava aquela coisa, não é?

– Era legal. Pets em geral são legais. – Sorri apenas por me lembrar dos meus dois cães em casa.

– Você era o contrário de mim. Quer dizer, as crianças quase ignoravam você e Kai, mas as professoras te amavam e sempre elogiavam seus desenhos. Em uma aula você desenhou uma tartaruga e disse para a professora que era a mascote da turma, quando ela te perguntou por que o fundo do desenho era roxo você disse para ela que a tartaruga tinha fugido para nadar em uma piscina de gelatina.

Eu tentei me lembrar do que ele estava dizendo, mas não consegui. Sinceramente o que eu mais desenhava era aquela tartaruga. Mas foi impossível não rir tentado imaginar uma tartaruga em uma piscina de gelatina roxa.

– Acho que já chega de açúcar, Aoi. Já deu pra você acessar lembranças de origem duvidosa. E está desviando do assunto.

– Não estou. Eu gravei isso porque percebi que aquela coisa era importante para você, então ela ter sumido não e pareceu mais tão legal assim. Foi depois disto que eu convidei você para vir aqui brincar comigo pela primeira vez. Interessante que foi por causa daquela tartaruga que nós realmente nos aproximamos, e foi também por causa dela que nos afastamos. Eu não tinha visto a coisa por esta perspectiva nenhuma vez em nenhum desses anos. – Concluiu rindo como se tivesse notado algo excepcional no que era na verdade uma tela em branco e vazia.

– Grande observação, Aoi. Pode começar a falar coisas que interessam agora. – Eu estava mesmo agitado demais, mesmo que não conseguisse demonstrar tudo exatamente como gostaria.

– Hey todo o que eu estou falando interessa. Presta atenção, poxa.

– Tartarugas nadando em gelatina... sim estou acompanhando o seu raciocínio. – Disse revirando os olhos.

– A minha mãe ficou muito feliz quando eu disse que queria trazer uma amigo aqui em casa, ouvi ela dizendo para o meu pai que aquilo significava que eu estava me adaptando. Ela estava feliz, meu pai disse algo como "que bom". Esta foi a segunda coisa positiva que ouvi ele dizer com relação a mim, a primeira tinha sido o "que bom" de quando os professores tinham dito que eu já podia ir pra escola.

Naquele momento Aoi deu uma pausa. Eu achei estranho, particularmente eu diria que ele não estava gostando da ideia de ter que falar do pai. E eu me lembrava de um senhor muito gentil quando pensava no pai dele.

Percebi também que nunca ouvia Aoi falar do pai, na verdade ele não falava de família. Mas também eu não era alguém próximo o bastante para ouvir como o senhor e a senhora Shiroyama estavam passando.

De qualquer forma nem as palavras usadas por ele pareceram tão frias quanto seus olhos enquanto escolhia as palavras da sequência. Aquilo era loucura e eu tentei me lembrar das vezes que estive com Aoi na presença de seus pais, Shiroyama-sama sempre tinha a boca carregada de elogios e sorrisos. Não me parecia me nada o homem que ele descreveu ter lhe dito coisas positivas duas vezes, a mesma frase em cada uma delas.

– A minha mãe planejou a primeira vez que você veio aqui como se fosse uma festa ou um coquetel importante. Fez até meu pai ficar em casa. Ela queria que tudo fosse perfeito, porque eu tinha feito um amigo na escola. Você veio e tudo foi perfeito como minha mãe tinha planejado, eu nunca tinha visto meu sorrir. Mas o dia passou e você foi embora, e tudo voltou ao normal. – Concluiu dando de ombros.

– Eu não entendi Aoi. Você por acaso disse que minhas visitas aqui eram planejadas como peças ensaiadas de teatro? – Perguntei realmente sem entender muita coisa.

– Minha mãe e eu realmente ficávamos felizes com você aqui. Eu pedi para trazer você aqui uma segunda vez e mais uma vez ela se empenhou para que tudo saísse perfeito e mais uma vez ela conseguiu fazer com que meu pai ficasse em casa naquele dia. Eu tive a atenção do meu pai duas vezes no mesmo mês, nem era o meu aniversário ou natal. Automaticamente eu passei a querer que você viesse na minha casa todos os dias, mas não podia, só podia trazer você aqui quando minha mãe conseguia fazer meu pai ficar em casa. Depois de tudo eu passei a achar que ela usava a mim pelo mesmo motivo que eu usava você, ter o papai aqui.

– Então aquela família unida e sorridente, aquele senhor gentil... – Não concluí, era informação demais.

A imagem que eu tinha da vida invejável e perfeita de Aoi era, segundo ele uma grande mentira. Algo armado para omitir um cenário completamente oposto.

Automaticamente me lembrei de Emi e das coisas que ela tinha me contado. Era aquilo que ela tinha em comum com Aoi. Grandes famílias sempre tem alguma sujeira debaixo do tapete, ela disse, e Aoi fazia parte de uma grande família. Eu só não entendia por que ela mesma não podia ter me dito isso, mas não vem ao caso agora.

– A minha mãe realmente adorava você, eu também. O problema era que meu pai também, um dia ele disse à mesa que você era um garoto brilhante com um grande futuro. Eu nunca tinha escutado ele dizer algo do tipo para ninguém, nem para mim. Isso me fez achar você um pouco irritante, era estranho, eu gostava de passar tempo com você na escola, mas ficava irritado toda vez que alguém te elogiava. E os professores sempre te elogiavam.

– Isso que você disse ser ciúme? – Perguntei insatisfeito, mesmo estando ali eu queria motivos para ter razão no embasamento do meu rancor por ele, mas a verdade era que eu estava conseguindo me colocar perfeitamente no lugar dele para imaginar a sua versão da história.

– Eu não fazia ideia do que era ciúme. Entender sentimentos sempre será mais difícil que aprender um idioma completamente novo. – Disse e logo franziu a testa. – Isto soou realmente profundo. Enfim, por acaso eu acabei encontrando aquela tartaruga e a parte de mim que gostava de você quase explodiu de alegria. Eu devia ter avisado as professoras ou as tias, mas eu só consegui pensar em mostrar para você. Não houve maldade naquilo, nada do que aconteceu naquele dia foi planejado nem as coisas boas e nem as coisas ruins. Nós estávamos em local proibido e você caiu, eu só pensei em não ser pego. A minha evolução na escola foi a única coisa que me fez ouvir algo bom do meu pai, uma professora contando aquilo para minha mãe era uma cena aterradora na minha cabeça.

– Não precisava ter avisado aquela tia também. – Reclamei, levar bronca por desobedecer na escola ou ter uma arte revelada aos pais era mesmo um pesadelo que atormentava todas as crianças, inclusive eu e Kai.

– Eu não avisei, eu só corri. E depois... eu admito que em nenhum momento a forma como aquela mulher estava agindo errado com você me pareceu errado da maneira que foi. Hoje isto é rapidamente identificado, na hora foi como assistir a um filme, sei lá. Mas aquela parte invejosa não se importou com você chorando, era a primeira vez que você não era o 'garoto brilhante' e eu ouvi uma menina cochichando para outra apontando para você, provavelmente apenas porque você tinha uma parte do corpo que era diferente do delas. Eu me senti como se estivesse provando para o meu pai que você não era melhor do que ninguém. Ouvir as crianças rindo por algo que disse não por causa da pronuncia e sim porque estávamos todos rindo da mesma coisa foi sim algo que no momento me sentir muito bem.

Eu não queria, mas estava chorando. Ouvir ele contar a história me fez revive-la automaticamente, e nem a capacidade de ter me colocado no lugar dele até ali enquanto o ouvia falando do pai poderia me fazer desacreditar que aquilo foi muito mais injusto para mim do que foi para ele. Porque foi. E nem o fato dele também estar chorando me faria mudar de ideia. Mesmo que ele tivesse um motivo, era um motivo tosco quando comparado a toda humilhação que eu passei.

– Você era o meu único amigo presente no momento. A minha situação já estava horrível o bastante, você era o meu único apoio no meio de tudo aquilo e de todas as pessoas ao redor foi você que piorou tudo Aoi.

– Eu sei. Nenhum pedido de desculpa vai mudar isso. Você mudou, é claro, depois daquilo. Eu logo fui transferido para a série condizente à minha idade, depois de tanto tempo eu não sei se por estar evoluído o suficiente ou apenas para não atormentar você. As crianças do primeiro nível não eram tão maldosas, a curiosidade delas era boa com relação ao fato de eu vir de outro país. De uma forma muito estúpida eu achei que quando você chegasse na primeira série e eu estivesse na segunda você não estaria mais zangado comigo e voltaríamos a ser amigos, mas não foi assim. Você e Kai nem pareciam se lembrar de mim, às vezes encontrava Kai sozinho pelos corredores, mas não era mais a mesma coisa. Naquele tempo ele não era mais importante para mim do que você, se eu pudesse prever que ele iria ficar tão bonito talvez...

– Cala a boca. – Cortei, ele já tinha ferrado com o emocional de um dos meus amigos, não chegaria perto de Kai para estragar a relação dele com Miyavi.

– Relaxa! – Avisou colocando as mãos entre nós dois. – Mesmo que ele não tivesse Miyavi, Kai é uma das pessoas que parece querer encontrar 'a pessoa de uma vida toda' como você e Uruha, eu não julgo e nem acho errado, só não penso da mesma forma.

– Você fala como se nunca fosse se apaixonar por ninguém.

– Não vou. Enfim, mesmo percebendo que você estava distante naquele tempo eu estava muito mais preocupado com notas do que com o que você estava pensando de mim. Minha mãe me deixava ligar para o meu pai cada nota acima de nove, até mais ou menos a quarta série isto parecia ser importante. – Deu de ombros. – De qualquer forma eu logo passei para as turmas da manhã e você e Kai só saíram do turno da tarde quando isto se tornou obrigatório, vocês estavam na quinta e eu na sexta série e não parecia mais fazer sentido pensar em vocês dois. Eu só fui ter real consciência do peso que aquela história teve para você quando voltamos a ser colegas de classe. – Foi o que ele disse e aquilo me soou estranho.

– Você é um bom aluno e era importante tirar boas notas, como repetiu o ano? – Perguntei e tudo o que ele fez foi torcer os lábios em um bico e dar de ombros como se aquilo não tivesse importância para a conversa do momento.

– Ouviu tudo o que queria? – Aoi me perguntou.

– É. – Foi tudo o que consegui falar no momento.

Eu sabia que deveria ter gritado mais, reclamado mais. Uma parte grande da minha cabeça estava me acusando severamente sobre os motivos que estavam limpando minha capacidade de raciocínio para contestar tudo o que ele tinha dito. Quer dizer, vindo de Aoi tudo poderia ser mentira ou uma versão que melhorava sua posição, ainda assim eu só consegui aceitar tudo de forma que cada palavra se fixasse bem na minha cabeça, tudo aquilo precisava encontrar uma cronologia e algum sentido na minha cabeça.

Depois eu contestaria tudo com certeza. Mas por hora, é. Mesmo sabendo que outras dúvidas iriam surgir mais tarde.

– Não foi tão dramático. – Disse com humor, ainda procurando por migalhas do bolo na bandeja com a ponta da faca.

Eu só não retruquei porque a ponta vermelha do narigão inchado dele estava cômica de olhar. Para mim tinha sido bem dramático. Eu não confio em Aoi, mas aprendi que vale a pena ouvir as duas versões de uma mesma história.

E como não tinha mais o que fazer ali, me levantei para ir para casa. Mas então me lembrei de uma coisa.

– Ano... A Rebeca me disse umas coisas estes dias sobre você.

– Isso sim vai ser dramático. – Ele disse levantando, usando a desculpa de levar suas louças sujas para a pia para me dar as costas. – O que foi exatamente que ela disse?

– Sobre você e Reita terem brigado no primeiro dia de escola.

– Hum... bom ele estava olhando para você como um predador. Mesmo eu só tendo consciência total do que você tinha virado por causa daquilo, eu sempre quis me desculpar por você ter mudado, achei que nunca teria como. Mas podia evitar que outra pessoa fizesse de novo. Só que o Reita foi muito mais, ele me mostrou bem rápido que não era esta a intenção dele. Mais do que isto, ele virou rapidamente uma pessoa muito importante para mim.

– Eu passei a conversar com o Reita por causa de um álbum que você devolveu para ele na minha frente. Fez isso de propósito? – Ele não respondeu, apenas riu como se fosse uma história muito engraçada. – D..domo... – Completei com dificuldade.

– Não é engraçado? – Largou a louça na cuba e virou a cabeça na minha direção. – Nós nos aproximamos por causa de uma tartaruga, depois a mesma causou suas piores lembranças. Agora outra tartaruga nos reaproximou. – Disse com humor, parando de rir quando percebeu que eu não tinha entendido. – O Reita, sabe... tartaruga. – Disse passando os dedos em frente ao rosto.

Eu ainda não tinha uma posição oficial sobre tudo aquilo para rir e concordar da piada dele. Mas foi engraçado, mesmo que eu não vá deixar ele perceber.

– Não reaproximou. Tem problema se eu sair sozinho? – Apontei para trás de mim me referindo ao caminho de saída da casa dele.

– Não, mas eu te acompanho. – Disse reduzindo a distância entre nós com um daqueles sorrisos que agora me pareciam sem graça,, achei estranho entender o que significava.

O trajeto até a porta foi longo e silencioso, mas o que eu poderia fazer? O rancor era um sentimento muito forte para achar que sumiria em uma noite por conta de uma história contada. Era difícil de lidar com aquilo, mas ao mesmo tempo era bom.

– Obrigado por ter me recebido Aoi.

– Terminamos sem nenhum olho roxo, o que no meu caso é lucro.

– Você é mais legal em casa sem seus sorrisos falsos. Você ia ser mais legal fora de casa se parasse de agir como alguém que acha que tem que sempre se provar. Você não tem que provar nada para ninguém.

A última coisa que vi foi um último sorriso, completamente diferente do da cozinha, e Aoi fazendo movimentos afirmativos com a cabeça antes de fechar a porta com algo como "cuide-se" ou sei lá o que. A única coisa em minha cabeça era uma grande dúvida sobre o que tinha sido tudo aquilo ali.

Eu não confio em Aoi. Não vou passar a confiar por causa de meia dúzia de palavras da Rebeca e mais meia dúzia de explicações ainda sem sentido dele. Mas naquela noite eu só queria parar por ali, já era coisa demais para organizar.