Capítulo quarenta e dois: Tudo é proza

Por Kami-chan

Como era a sensação de acordar? Eu percebi neste momento que não sei.

Sempre acordo com o som do despertador, ou com Uruha pulando em cima da cama. Também tem as vezes em que Emi me chama e aquelas raras em que Miyavi acordava primeiro e vinha me atormentar. Para mim estas eram as sensações de despertar.

Não o silêncio. O silêncio era na verdade uma coisa muito incomum em qualquer momento do meu dia. Então era estranho abrir os olhos no silêncio e focar os olhos nos pontinhos claros que mostravam o dia lá fora através da veneziana que não estava fechada completamente. Eu raramente acordava e encontra a luz ainda apagada.

Mas era uma sensação boa, era como uma certeza de que o corpo tinha descansado pelo tempo que precisava e despertou sem a necessidade de algum despertador; inanimado ou humano. E neste caso com o peso leve de um braço sobre minha cintura e o som de uma respiração compassada contra minha orelha. Ah é, e este quarto definitivamente não é o meu.

Imediatamente após esta percepção meu cérebro atingiu um percentual tolerável de ativação capaz de se lembrar que tinha ido dormir na casa de Akira. E que tinha sido uma noite muito boa, pelo menos as recordações dela estavam me fazendo sorrir como se tivesse acabado de sair ileso da maior traquinagem como um legítimo maroto.

Era agradavelmente estranho ter consciência do quão agarrado Akira estava contra o meu corpo. Eu queria me virar de frente para ele ao mesmo tempo em que não queria acordá-lo. Pelo menos até sentir o movimento de um polegar contra a minha barriga.

Isso me fez lembrar que tínhamos dormido sem camisa. E a forma como a minha pele parecia "colada" me fazia pensar ainda mais no motivo de termos dormido sem camisa.

Se ele estava acordado eu não via motivos para me manter de costas. Foi agradável descobrir pelo menos uma das pessoas envolvidas no meu círculo conseguia apenas sorrir em silêncio ao me ver pela manhã.

Akira só tirou o braço que estava embaixo do meu pescoço e flexionou para que sua mão servisse de apoio para o próprio rosto para que ficasse mais alto. Antes disto contraiu todos os músculos de seu corpo em uma forma de se espreguiçar, sem que aquela mão em minha barriga se soltasse. Consequentemente me apertando mais contra si.

– Bom dia. – Foi a fala simples dita na voz sonolenta, e exatamente a mesma coisa que respondi em voz baixa, quase sem voluma algum.

Era o suficiente, era só o que era preciso. Mesmo que fosse apenas uma expressão cujo significado ninguém mais pensava. Não importava se estávamos desejando que aquele dia fosse bom, ou se apenas estávamos dizendo um para o outro que aquele diz estava iniciando especialmente bom. Não importava, pois todos os significados eram válidos.

O que importava na verdade era a forma como ele me olhava. Não precisava de palavras para entender aquilo, tal como "felicidade" não era um sentimento que podia ser explicado em poucas palavras.

Interessante mesmo era perceber que Reita não parecia sem alguém muito propício às palavras logo ao acordar. Isto era muito apropriado, porque eu não era muito adepto ao diálogo logo cedo; não que eu tivesse alguma escolha quanto a isto ao que se refere a forma como acordo todos os dias.

Era muito melhor do que Uruha pulando em cima de mim todas as manhãs. A forma como Reita ficava me olhando e sua mão acariciava minha barriga despretensiosamente era algo que podia fazer parte daquilo que ele chamou de "para sempre".

Havia uma conversa entre nossos olhos, coordenada por nossos sorrisos. Eu não sabia exatamente sobre o que falavam, mas era bom, agradável e me deixava feliz. E como se fizesse parte daquela continuidade daquela conversa muda, movi meu rosto na direção do dele quando ele começou a se aproximar de mim.

Seus lábios se roçaram de um jeito suave sobre os meus de forma lenta e arrastada, trocando contato não apenas entre os lábios, mas rosto e também, carinhosamente, nossos narizes. É, lá estava de novo o dito cujo do "beijinho de esquimó", mas quem liga, é gostoso.

Gostoso a ponto de me fazer me virar frente para ele e trocar aquele carinho por meu braço encontrando um espaço entra o braço e o corpo dele para abraça-lo e colocar meu rosto contra o seu pescoço; ele ainda tinha cheiro de sabonete. Como na noite anterior, pude ver sua pele se arrepiar, por mais discreto que eu tivesse tendo ser com o objetivo daquele movimento.

E foi meio que automático imitar a forma como ele estava passando os lábios dele sobre os meus para acariciar aquela pele arrepiada. Podia ser apenas a sensação do sono ainda presente, mas aquela região parecia tão macia. Logo sua mão passeava pela parte mais alta das minhas costas enquanto a minha percorria sua lombar e uma de suas pernas se encaixou entre as minhas.

Nossos corpos acabaram ficando tão próximos que foi fácil para ele usar o peso do próprio corpo para me fazer deitar novamente de barriga para cima, me acompanhando no movimento. A mão que estava nas minhas costas agora mexia no meu cabelo, seu corpo estava quase totalmente sobre o meu com nossas pernas misturadas; uma de minhas coxas estava entre as pernas dele.

Inevitavelmente minhas mãos se uniram atrás de seu corpo e desceram além de sua lombar. Quando nossos olhos voltaram a se olhar a comunicação entre eles já tinha mudado, ali havia um brilho de desafio mesclado com algum pedido de confirmação. Não era a primeira vez que eu via Akira como uma raposa ardilosa pronta para atacar.

Mas era a primeira vez que eu não estava nem aí pra isso. Literalmente.

Apenas flexionei a perna que estava livre para lhe dar mais espaço e o apertei contra mim. Nossos lábios se tocaram em selinho rápido e então eu perdi seus olhos de vista, foi a vez dele encontrar algum caminho entre meu ombro e pescoço. A diferença era os beijos exageradamente molhados que era deixados contra a minha pele não estavam nem um pouco livres de segundas intenções.

As mãos dele começaram a se mover. As minhas mãos começaram a se mover. Os beijos se tronaram mordidas e ganharam caminho até minha orelha; o efeito delas eram muito bons.

Ah, com certeza neste momento nós dois já tínhamos despertado cem por cento. Mas em contrapartida, meu corpo parecia mais amolecido do que se ainda estivesse sonolento. Da forma como estava me sentindo Akira poderia facilmente jogar meu corpo para lá e cá, me manipulando da forma como desejasse. Secretamente, isto já era na verdade, um desejo forte do que eu queria que ele fizesse.

– Ruki, eu posso fazer uma coisa com você? – Perguntou sem abandonar minha orelha, assim que eu a mover meu quadril contra sua coxa.

– Que tipo de coisa? – Retruquei.

Quer dizer, ele tinha me masturbado na noite anterior até me fazer gozar em sua mão. Não tinha como não me perguntar que tipo de coisa poderia ser tão mais constrangedor do que aquilo que precisava de um pedido verbal. Não que eu estivesse realmente ligando, era só que de repente isto poderia se tornar assustador.

– O tipo de curiosidade que costuma me atormentar de noite. – Ele respondeu.

E esta resposta fez um frio enorme completar um loop no meu estômago. Eu poderia começar a ficar nervoso a partir deste momento, mas a lembrança da noite anterior logo veio à minha lembrança mais uma vez.

E com ela duas coisas que eu tinha fixado muito bem:

1 - Akira jogado na cama me dando carta branca para fazer o que bem entendesse consigo;

2 - Tinha sido muito bom.

Na verdade, foram três coisas:

– Me mostra que tipo de coisa você faz comigo nesta cabeça suja, Akira. – Disse-lhe e no momento seguinte seu rosto regrediu do esconderijo contra o meu pescoço.

– Vamos combinar que se você não quer mesmo apressar a evolução no nosso relacionamento, seria mais seguro para você maneirar a língua, Taka. – Alertou, mas como na noite seguinte, ficou evidente o poder das palavras sobre Akira.

A verdade era que eu ainda não sabia o quanto de poder elas exerciam. Meu poder sobre ele, me fazia sentir vaidosamente dono de ferramentas capazes de agradá-lo. Era confortável. Ele podia dizer que usar aquilo poderia se tornar perigoso, mas o toque de seus dedos em minha pele me faziam acreditar no contrário.

Na noite anterior Reita me fez acreditar que eu posso ir até onde eu quiser, e ponto. Este medo simplório eu tinha abolido.

– Eu não acho que você esteja tão curioso. – Disse por fim.

E não me arrependi quando sua resposta foi bem objetiva, guiando seus lábios diretamente até um de meus mamilos. Eu não achei que ele seria tão direto assim, a surpresa levou o tanto de ar que eu tinha nos pulmões naquele momento em forma de um gemido rápido.

O contato da língua quente e úmida brincando com meu corpo causava choques e até mesmo pequenos espasmos em meus músculos. O prazer da carícia era tão imediata que o decorrer do tempo quase se tornava uma tortura. Era apenas impossível não gemer...

...Ou pelo menos seria se o meu celular não começasse a tocar dentro do quarto quieto demais.

– Droga! – Reclamei, na verdade o dito cujo do celular me deu um baita de um susto, era como se alguém simplesmente tivesse aberto a porta do nada.

– É o número da tua casa. – Disse Akira me alcançando o telefone, ele também tinha pulado de susto quando a música começou a tocar.

– Oi mãe. – Foi a primeira coisa óbvia que eu disse, mas não era minha mãe ao telefone. – Ah oi Kai, o que foi? Mas agora? Tá. Tá, só diz pra ela me ligar quando chegar aqui, eu vou levantar.

– O que houve? – Quis saber Reita.

– Nem eu entendi para falar a verdade, resumidamente Emi está vindo me buscar.

– Tão cedo?

– Pois é. Você não quer ir comigo para lá?

– Não acho uma boa, se ela está vindo é porque alguma coisa não saiu de acordo com o padrão. Não precisa de mim como penetra lá.

– O Kai me ligou do telefone fixo da minha casa, já tem penetras lá.

– Pois é, não precisa de mais. – Ele riu.

– Gosto mais quando você está junto.

– Se precisar, você me chama. Quer tomar um banho até Emi chagar?

– Não. Eu cheguei aqui antes da sua mãe ontem e vou embora sem nem parar para dar um "oi" para ela. Acordar, tomar banho e desaparecer vai soar como se tivéssemos usado a casa dela como motel. Eu vou me trocar no banheiro e escovar meus dentes, pode deixar que eu e a minha super bolsa resolvemos o problema. – Disse já me levantando.

Não que alguma coisa que não fosse um bom banho morno fosse me deixar satisfeito, mas tinha toalhas higiênicas na bolsa que teriam que ser o suficiente para eu conseguir lavar pelo menos aquela região que nós dois "sujamos" na noite anterior. O que me deixava mais irritado no momento ainda era o fato de não poder ficar mais tempo com o Reita.

Assim que abri a porta do quarto pude perceber com visão periférica que havia movimento no apartamento, mas preferi não olhar naquela direção. Eu não sabia se ia encontrar a avó ou a mãe dele, e sinceramente, a mãe de Reita me dava o maior medo. Odiei o barulho que a porta do quarto fez quando eu a abri, parecia uma corneta anunciando a minha presença ali.

Se não fosse injusto, eu diria para o Reita que nós apenas dormiríamos na minha casa. Eu sentia de longe que a mãe dele não gostava de mim, ou no mínimo me achava estranho demais. Pelo menos nós dois sabíamos que éramos amados por Emi.

Quando eu saí, limpo e arruado, do banheiro vi Reita de costas, sentado à mesa. Entrei no quarto dele para colocar o resto das minhas coisas na mochila e ir encontrá-lo, mas em um timing perfeito o celular voltou a tocar; era Emi. Ufa.

Eu não iria mais rir do Miyavi. Sogras podem ser assustadoras demais, eu entendia um pouco do medo dele agora, mesmo que a mãe do Kai não me parecesse tão medonha.

– Com licença, bom dia. – Disse assim que coloquei meus pés naquela sala e vi a mãe de Reita sentada à mesa com ele, com uma revista em mãos e a avó dele sentada no sofá com um livro. – Akira a minha mãe já está aqui embaixo. – Concluí tentando ignorar a forma como a mãe dele me olhava.

– Você já está indo? – Ela perguntou claramente desgostosa com aquilo.

Eu sabia que era falta de educação, minha mãe tinha me educado muito bem e obrigado. Mas era minha própria mãe que estava ali embaixo me esperando para me levar para casa.

– Me desculpe. Eu não gostaria de sair correndo, mas é que a minha mãe disse que u preciso ir para casa agora. Er.. obrigado por ter me deixado passar a noite em sua casa.

– A sua mãe pelo menos sabia que você vinha para cá? – Ela indagou.

– Mãe – Reita reclamou – Eu pedi diretamente para Emi par ele vir dormir aqui. Apenas houve um imprevisto que obrigou ela a buscar Ruki agora.

– Está tudo bem criança? – A voz calma de Hanabi finalmente se destacou entre os dois.

– Eu não sei bem. Reita eu preciso mesmo ir. – Disse a verdade, eu não tinha entendido Kai no telefone ao mesmo tempo em que se algo realmente sério tivesse acontecido, minha mãe não ia mandar aquela topera atrapalhada me ligar.

– Tá, nós já vamos indo. – Ele anunciou se levantando da cadeira e me conduzindo até a porta principal.

– Você não está pensando que vai ir com ele, não é Akira? – A mãe dele disse, e mesmo que parecesse uma pergunta, fiou claro que era um ordem.

Uma ordem que não deveria ser questionada. O timbre que ela usou para dizer aquilo quase me fez ver nuvens negras cobrirem todo o sol do belo dia tipicamente de inverno.

– Eu vou acompanhar ele até o portão. – Reita respondeu com uma careta clara de quem não estava entendendo direito o que se passava ali.

– Não demore. Você e eu teremos uma longa conversa quando você voltar. – Foi a última coisa que eu ouvi antes de ele me empurrar porta a fora sem que eu tivesse nem tempo quase de dizer tchau para ela e Hanabi.

Aliás, percebi que não sei nem o nome da minha sogra. Mas percebi que até mesmo a avó de Reita tinha se afundado no sofá com o ultimato da mãe do Reita.

– Você por acaso não pediu autorização para ela para me trazer aqui? – Perguntei.

– Pedi para a vovó, o que dá no mesmo.

– A sua mãe não gosta de mim. – Afirmei.

– Gostar ela não gosta nem dela mesma, eu acho. Não se preocupe, com o tempo ela vai se acostumar com você.

– Ela parecia muito braba, até sua avó preferiu não se meter.

– Não se preocupe. – Ele repetiu.

– Eu não devia ter concordado em dormir abraçado com você. Acha que ela viu?

– Provavelmente. Ela é minha mãe, sempre dá uma passada no meu quarto antes ir pro quarto dela quando trabalha até tarde.

– Se você sabia, porque fez isto? É óbvio que ela está braba por isto. – Concluí.

– É sério Ruki, desliga esta cabecinha. Não se preocupe, este é realmente o jeito dela.

– Os pais do Uruha expulsaram a irmã dele de casa quando descobriram que ela tinha uma namorada. Kouyou vive basicamente uma vida dupla para que os pais não saibam que ele é gay.

– A minha mãe não é uma pessoa preconceituosa, Ruki. Mesmo que fique decepcionada ou preocupada, não irá fazer nada de horrível comigo.

– Como você pode ter certeza? Ela me dá medo. – Confessei o inconfessável vendo ele rir como se eu tivesse contado a piada do ano.

– Não deixe Emi esperando, algo deve mesmo ter acontecido para ela vir aqui tão cedo. – Ele disse enfiando a chave no buraco da fechadura do portão do prédio e o abrindo em um movimento só.

Resignado, apenas passei pelo portão aberto por Akira. Emi parecia meio aflita ou ansiosa vista de perfil através do vidro fechado do carro, então foi mais fácil mudar a linha de raciocínio. Bom, Reita não parecia preocupado, não deveria eu criar monstros em minha cabeça também.

Ainda assim foi impossível não olhar para as sacadas que compunham a fachada do prédio quando ele me puxou pelo braço com sonoro "hey" de desagrado quando eu simplesmente estava o deixando para trás. Um selo rápido de despedida, não teria sido desconfortável daquela forma se não estivéssemos no portão e o vidro das sacadas não fossem escuros a ponto de não permitir a visibilidade de fora para dentro dos apartamentos.

– A gente vai se falando. – Ele disse quando finalmente me deixou ir.

Eu ainda não estava seguro de toda aquela confiança de Akira quando sentei ao lado da minha mãe no banco do carona e ela desatou a falar:

– Ah Taka foi mal por interromper a primeira vez que você foi dormir na casa do Akira, mas a Hiroki fez uma confusão enor... você está bem? – Perguntou mudando o assunto subitamente.

– Eu acho que a mãe do Reita não vai muito com a minha cara. E acho que ela entendeu que eu não fui dormir lá como um amigo dele. Também acho que ela gostou menos ainda de mim por isto.

– Quanto "acho". – Disse fazendo uma careta estranha enquanto checava o retrovisor lateral do carro com o com baixo do pista do carro completando sua fala.

– Bom, eu tenho certeza que o Akira vai enfrentar um temporal quando voltar para o apartamento. – Respondi a ouvido rir.

– Quanto drama. – Riu-se.

– Você é chata quando quer. Eu estou apavorado, você é minha mãe, devia me apoiar e proteger destas pessoas. – Disse querendo que ela se sentisse culpada, mas o que consegui foi fazer Emi desatar a rir mais ainda.

Sem outra opção, fiquei ouvindo seu riso solto enquanto olhava os outros carros na rua. Percebi que ela estava pegando um caminho que talvez fosse um pouquinho mais longo, mas evitava as ruas de maior movimento, Emi também tinha o pé anormalmente pesado no acelerador e isto me fez voltar ao motivo de estar ali e não na cama quente do Reita até que estivesse quase tarde demais para continuar na cama sem ser uma falta de educação por estar na casa de outros.

– O que houve? – Perguntei, evidente que ela tinha pressa, mas estava rindo normalmente.

– Ah coisas que só alguém que colocou no mundo um ser que se auto intitula Miyavi poderia fazer. Eu disse que Myv e eu conversamos com ela via "Skype", lembra? – perguntou apenas para reafirmar o fato – O que aquela mula manca não nos disse é que estava a caminho, queria fazer uma surpresa. – desdenhou girando uma das mãos no ar antes de usar a mesma para reduzir a marcha e entrar à esquerda.

– Então você vai ter que ir buscar ela no aeroporto, isso? – Não retruquei, mas se fosse só isto ela poderia me buscar depois ou simplesmente me mandar pegar um taxi.

– Se a vida fosse fácil e o mundo um lugar agradável. Houve algum erro com as passagens dela, entre uma escala e outra foi parar em outro aeroporto, basicamente dois estados acima do nosso. – Concluiu girando os olhos na órbita. Aí achou que podia pegar um ônibus que chegaria logo aqui, está mal acostumada com as viagens de trem. – riu-se.

– Não teria sido mais fácil, rápido e confortável ela pegar outro avião aqui?

– Seria. Mas ela queria fazer surpresa. É engraçado pensar assim, mas quando ela usa o cartão dela aqui ainda conta como transação no exterior e ultrapassa este limite dela. Mas ela ainda achou que pegar um ônibus seria barato e rápido o suficiente para que ela não precisasse estragar a surpresa.

– Ah. O que mudou?

– Mãe de um ser chamado Miyavi. Óbvio que ela percebeu que viajar de ônibus não tem nada a ver com viajar de trem e que a viagem não seria rápida e nem confortável. Me ligou em uma das paradas que esses ônibus fazem para que as pessoas comam e combinamos que ela seguirá viajando no ônibus até o estado que está entre nós. Tem uma parada que o ônibus faz que é na cidade quase de divisa com o nosso estado, é lá que eu vou pegar ela. – Terminou com um sorriso claramente não feliz com isto.

– Vamos viajar! – Diferente dela, eu estava muito feliz com aquela ideia.

– Hoje é domingo, senhor meu filho, você tem aula amanhã. Claro que não é prudente dirigir todo este tanto sozinha em um carro silencioso, quem vai comigo é Takamasa.

– Poxa, sempre o Myv que consegue matar aula. Muita injustiça nisso daí.

– Não é injustiça, é a mãe dele que está voltando.

– Ainda assim, porque me buscou tão cedo? Eu podia ter chamado um táxi.

– Kai. – Disse em um suspiro que eu percebi ter lhe custado mais paciência do que ela realmente tinha.

– Hn?

– Você consegue acreditar que este menino disse para a mãe dele que ia dormir lá em casa ontem. E dormiu. – Afirmou apertando os olhos com certa raiva. – E eu só percebi no meio da noite quando me liguei que o Miyavi ainda não tinha saído do seu quarto.

– O que? Eles dormiram no meu quarto. Espera, você disse ainda... quer dizer que eles estavam no meu quarto desde aquela hora que eu estava jogando Mário com Kai e o Myv chegou?

– Ao que tudo indica, sim. – Respondeu aparentemente sem entender minha ira.

– Mas... mas você sabe que ao sair e deixar eles sozinhos, eles muito provavelmente fizeram sexo.

– Com certeza. É o que a atitude anormalmente obediente e solicita dos dois indica.

– No meu quarto? – Disse exasperado.

– É. Eles foram espertos o suficiente para trocar toda a sua roupa de cama, mas burros o bastante para colocarem elas para que eu as lavasse. – Emi continuou parecendo cansada de tanta burrice e confusão vinda de todos os lados.

– Hum, filho de uma mãe que compra passagens erradas para voltar para casa. – dei ombros, satisfeito por fazer ela voltar a rir. – De qualquer forma mãe, não é só mandar Kai para casa?

– A mãe do Kai foi até o sítio da mãe, coisas sobre medicamentos que ela leva todo mês porque as farmácias de lá não tem e quando conseguem é muito mais caro. Ela volta ainda hoje, mas como o gênio do nosso querido e tão amado Kai disse que estaria lá em casa... – Deixou a frase sem ser terminada.

– Ele que fosse ficar no Uruha, é na casa da frente. – Emburrei, sério meus amigos ó, sempre se superando.

– Uruha também está lá em casa.

– Ah eu não vou nem perguntar o que de improvável no universo aconteceu para ele ter que estar na nossa casa.

– Nada. Eles apenas disseram que não passariam o dia na casa dos Takashima nem se a segunda opção fosse ficar na rua.

– Eu os colocaria na rua.

– Calminha aí. Respira e aceita que dói menos, não vai ser a última vez na vida que você e o Reita irão dormir um na casa do outro.

– Como você pode ter certeza? Eu já disse que a mãe dele ficou bem braba.

– Tanto assim? – Vi Emi franzir o cenho ao perguntar.

Neste momento eu recebi uma mensagem no telefone. Era do Akira, eu sabia por causa do som diferenciado. Nós já estávamos na nossa rua, mas eu achei tempo de menos para ele já estar liberado me mandando mensagens.

– Ela quer que eu e você vamos à casa dela para conversarmos todos juntos. – Disse lendo a mensagem. – Isso não pode ser bom.

– Eu e você, tipo... eu também? – Perguntou com olhos arregalados, ah eu sabia o quanto ela detestava essas coisas.

– Eu e você. – Repeti, ouvindo ela bufar.

– Explica aí que eu estou saindo da cidade hoje e que quando eu voltar a gente marca alguma coisa.

E foi o que eu fiz. Claro incluindo uma pergunta sobre como tinham sido as coisas, algo que ele me respondeu apenas dizendo que ainda estava no processo de interrogatório, mas que sairia vivo do mesmo. Não era algo para se preocupar.

– Isso não vai ser bom, né? – Perguntei, mas a resposta dela foi um sorriso amarelo e o barulho do freio de mão do carro sendo puxado, estávamos na frente de casa.

– Vou chamar o Miyavi. – Foi o que ela disse.

– Hey que cara é essa, Ruki? – Kai perguntou com um carinha falsamente educada demais.

Eu entendi o que minha mão quis dizer. Nem precisaria conhecer Kai a vida inteira para notar a forma que ele estava sendo forçadamente educado, como se temesse desagradar minha mãe até por conta do volume de sua voz. Seus atos denunciavam a culpa ou o medo de serem pegos. E eu via que minha mãe estava se divertindo muito com isto.

Eu ia responder àquilo à altura e dizer que aquela cara era porque bem na verdade a única pessoa que tinha estragado meu domingo com Reita tinha sido ele. Mas a voz da minha mãe logo tratou de nos entreter novamente.

– Myv você encheu aquela bolsa de viagem com as coisas que eu te pedi? – Emi passou trocando a jaqueta que vestia.

– Hai. – O mais alto respondeu de pronto, se colocando mais perto da porta com a tal sacola.

– Aqui Ruki – estendeu a mão com algumas notas altas. – Amanhã e terça você não precisa ir para a casa de shows depois da aula, venha direto para casa. Acho que até terça de noite nós estaremos de volta, eu fico ligando. É uma semana de chuva e você vai ter que acordar cedo o suficiente para chamar um taxi e não se atrasar para a escola. O mesmo serve para Kai e Uruha.

– Nós podemos dormir aqui? – Perguntou Uruha.

– Se suas mães permitirem, sim. Kai você vai se responsabilizar pela cozinha novamente, não quero explosões. Se Kai não quiser cozinhar, peçam comida. Eu vou ligar pro Joe no caminho, qualquer coisa que você precisar peça para ele, ok. – Concluiu olhando para mim.

– O Reita pode vir me visitar? – Perguntei.

– Claro querido, sigam com sua rotina. Mas se quer um conselho, deixe ele com sua família hoje.

– Eu sei. – Murmurei olhando para o meu telefone, queria logo ouvir o som que indicava uma nova mensagem de Akira e saber o que exatamente tinha acontecido com ele.

Depois disto teve apenas um beijo no alto da minha cabeça e a imagem de Emi e Miyavi saindo pela porta, e o silêncio de nós três olhando para a porta de madeira. Pelo menos pelos primeiros dez segundos.

– Eu queria aprender a cozinhar. – Uruha quebrou o silêncio em uma voz branda.

– Você pode começar me ajudando a picar as coisas. – Kai respondeu.

– Quero aprender a fazer doces, não a picar tomates. – o outro seguiu o diálogo.

– Nem fodendo Uruha, meu corpo está doendo e eu estou cansado. Doces dão muito trabalho e sujeira, tudo o que eu quero agora é pegar um cobertor e me enrolar no sofá.

– Agora pensa: deitado no sofá, enrolado em um cobertor e com um pote de brigadeiro para você comer de colher. – disse, usando uma de suas mãos para colocar um pouco de drama na "proposta de ouro" que estava propondo.

– Tudo bem, mas você é quem vai lavar a panela.

Inacreditável. Aqueles dois estavam elevando minha ira à níveis que até mesmo eu desconhecia. Virei para dar uma bela olhada nas duas caras pau, mas o que encontrei foi a dupla de costas, já na metade do caminho até a cozinha.

– Hey! – chamei quase em um grito, eles não podiam me ignorar dentro da minha própria casa, mas era isto que estavam fazendo.

Além é claro de estarem agindo como se fosse a casa deles. Eles, que me tiraram da companhia do Reita e planejavam acampar ali até minha mãe voltar. Eles me deviam pelo menos uma explicação...

... e mimo suficiente para que suprissem todo o amor e carinho que Akira teria me dado em sua casa. É.

Com o chamado, os dois pararam onde estavam e apenas giraram a metade de cima de seus corpos para trás, entreolharam-se, deram de ombros um para o outro e desfizeram a união de seus braços enganchados. Abriram espaço entre si e não disseram nenhuma palavra, apenas mantiveram cada um o braço que tinha se parado do outro, afastado do corpo como um sinal que esperavam mais um para enganchar ali.

E é claro que em um pulo eu já estava preenchendo o espaço do meio, com um braço enganchado no braço de um deles. Como as Parcas cegas apoiando-se umas às outras, mas só porque alguém tinha dito "brigadeiro". Ah é, se não fosse por brigadeiro eles estariam sentindo minha ira.

Na cozinha Uruha e eu descobrimos que o melhor doce do mundo era perigosamente fácil de se fazer, a parte mais difícil do processo era conseguir extrair exatamente cada gotinha de leite condensado de dentro da caixinha. O resto do processo só parecia exigir paciência. Também não foi como se eu tivesse prestado atenção quanto tempo Kai ficou mexendo o doce, a primeira mensagem de Reita depois daquele aviso que envolvia até minha mãe.

Primeiramente ele estava mais preocupado com o que tinha acontecido do que em me dizer as coisas que eu queria saber. Depois contou que a conversa com a mãe foi muito mais centrado nele mesmo do que no nosso namoro. E pareceu ser exatamente como ele disse, ela não saiu feliz jogando confetes sobre sua cabeça, lhe advertiu sobre o mundo e aparentemente o fez pensar em todos os prismas de futuro que poderiam lhe aguardar, mas não o recriminou e nem proibiu nosso namoro ou algo assim.

"Ela só disse que não vai acreditar que sua mãe também sabe até falar diretamente com ela" – ele disse.

"Foi bom ter a vovó por perto" – foi a mensagem que veio na sequência.

– Dá pra você largar isto, poxa. – A voz de Uruha veio acompanhada do furto do meu telefone pelas mãos do mesmo, claramente mandando uma mensagem para Akira já que era neste aplicativo que o telefone estava.

– O que você pensa que está fazendo? – xinguei.

– Avisando que eu peguei seu telefone e que você volta mais tarde. – disse com naturalidade. – A gente reclama do Kai quando ele está com Miyavi, mas você com isso aqui – sacudiu o celular no ar – fica mais ausente ainda Ruki. Sem celular você já tem o incrível dom de transitar por universos paralelos.

– Eu concordo com Uruha. – Kai disse, mas quase foi interrompido pelo sinal de alerta de mensagem também.

– Ah não! – tomei-lhe o celular antes que ele visse a mensagem. – Ou todos deixam o telefone longe, ou todos ignoram a forma como cada um usa isto.

– Eu concordo. – Uruha disse tirando o celular do bolso e o colocando ao lado do aparelho de DVD, fez o mesmo com o meu e na sequencia também lhe entreguei o de Kai.

– Você só está sendo a favor disto porque o Aoi abandonou a conta dele no "facebook" e você não tem o que ficar investigando sobre a vida dele. – acusou.

– Aoi fez o que? – questionei, não acreditando nem um pouquinho que o senhor "mais popular entre os populares" tinha abandonado a rede social que ele tanto idolatrava.

– Ah quando o Reita perguntou para ele alguma coisa, ele apenas disse a rede estava cheia de pessoas e grupos que ele não estava mais interessado. Disse que daria muito trabalho e geraria muitos "porquês" se simplesmente saísse excluindo todo mundo, então deixou a conta para lá. – Kai explicou o que, aparentemente, nem Uruha sabia.

– Isso... isso é bom, não é? – Uruha nos perguntou feliz, com olhos cheios de esperança.

Kai e eu apenas nos entreolhamos, sem coragem para responder nossas impressões verdadeiras. Até porque elas tinham mais preocupação com a forma como Uruha estava interpretando aquilo do que o que aquilo poderia ou não significar. Mas uma coisa sim me soava boa, o tal grupo que marcava festinhas sexuais sem regras era da rede, isso significava com certeza que pelo menos aquela porcaria ele não estava se arriscando a fazer mais.

– Brigadeiro! – respondeu Kai se jogando no sofá, reclamando um pouco no processo.

– Você já leu a reportagem da capa? – perguntei ao mesmo tempo indicando a revista de games que o próprio Uruha tinha levado ali para casa.

– Vocês dois são péssimos em mudar de assunto, sabiam disso? – queixou-se se sentado de um dos lados de Kai, tirando momentaneamente o pote de suas mãos. – Essa edição tá sem graça e o jogo não chamou minha atenção. Você vai nos contar sobre isso daí agora que a Emi saiu né. – Uruha perguntou, mas seu tom não tinha nada de duvidoso e mesmo que o nome de Kai não tivesse sido dito, a forma como o mais alto olhava para dele deixou tudo bem claro.

– Do que é que você está falando agora, animal? – desdenhou desviando os olhos para o pote de doce, tomando-o de volta para si na tentativa mais falha deste mundo de omitir que estava mais vermelho do que uma maça.

– Tá me tirando né Kai. Você e o Miyavi estavam quase como bonequinhas voo doo atrás da Emi e você está fazendo caretas como se fosse um idoso com dor na coluna toda vez que senta.

– Ela está braba porque eu disse para aminha mãe que o Ruki tinha me chamado para dormir aqui, sendo que todos nós sabíamos que o Ruki não ia dormir aqui.

– Você era o mais certinho de nós três antes do Myv, agora nem parece mais que faz parte de um pequeno grupo de deslocados. – Uruha riu – Mas é sério, eu não acredito em você.

– Ah é, a minha mãe reclamou da omissão do Kai em avisar que passaria a noite aqui. Na verdade – forcei – Ela saiu de casa ontem achando que tinha deixado o Myv sozinho.

– Ah você sabia que eu estava aqui e nós estávamos olhando TV no seu quarto quando ela voltou. – justificou-se como se aquelas palavras fossem limpar sua barra e fazer aquela conversa morrer ali.

– Ora já estava quase na hora em que você normalmente vai embora – dei de ombros mais uma vez. – E ela disse no carro também que vocês dois estavam um pé no saco agindo de forma suspeita, nunca foram tão dóceis e comportados juntos.

– Viu só, até o Ruki já entendeu. Desembucha, lembre-se de que eu não tenho histórias próprias de um amor feliz para viajar, então quero a sua.

– Ah é, e no meu quarto. – completei a fala de Uruha invadindo o território do pote protegido por Kai com minha colher. – Na minha cama. – concluí vendo a aura de vergonha de Kai mudar para uma nuvem cinzenta de puro pavor.

– Ah Rukiko, eu vou querer a sua história também. Não pense que vai se livrar de nos contar como foi a hospitalidade na caminha quente do Reita. – finalizou ligando a ponta de seus dedos como se estivesse testando a resistência de suas unhas com o dedão de um jeito muito maquiavélico.

Neste momento eu me arrependi por ter dado corda às coisas que ele estava falando sobre Kai e Miyavi, porque a risada do de covinhas olhando para a minha cara foi de dar dó. Dó de mim mesmo, é claro. A nuvem de pânico ao seu redor sumiu tão rápido que eu achei que ele tivesse poder para mudar o tempo.

– Eu não tenho o que contar, – tentei – esqueceram que me tiraram da casa do Reita antes do café da manhã? – afinal diferente do Kai, eu tinha com o que me defender.

– Vai começar o drama. Não pira, Ruki, não é você que diz que ninguém nasce colado? – Kai retrucou.

– Ninguém nasce colado, mas todo mundo tem direito a aproveitar um momento incomum.

– Nada teria dado errado se o Myv não tivesse que ir com a sua mãe, nós estaríamos aqui com ele. – acompanhou Uruha.

– É a mãe dele que está vindo... – disse como se fosse óbvio ele não estar ali.

– Minha mãe teria feito eu ir com ela se eu dissesse que você não ia estar aqui. Eu ia pedir para a sua mãe, mas aí a gente não ia poder dormir no mesmo quarto. – terminou com um beiço cheio de mágoas de dar dó. – E tudo foi se desenrolando de um jeito tão mágico.

– E tinha que ser no meu quarto, baka – larguei a colher no pote de vidro para poder estapear sua cabeça – Desembucha Kai, pode contar tudo desde do começo e sem cortes. – concluí.

– Oe? Este é o Ruki mesmo? – Kai perguntou à Uruha.

– Que foi?

– É que o Uruha me colocar na parede sobre este assunto é normal, mas você. Que bicho te mordeu?

– Uma cobra de apelido Reita. – Uruha riu, obviamente levando um tapa na cabeça depois que eu tentei chutar ele e não consegui.

– Etto... eu estava para conversar com Uruha sobre isso, e agora você também fez. E me deve respostas para qualquer pergunta que eu fizer. – acusei.

– Não aconteceu nada na casa do Reita, ele disse. Ele acha que eu vou acreditar nisto. – Uruha riu alto se jogando no sofá.

– Nada a ver, Kouyou. É evidente que em algum momento Reita e eu iremos estar nesta situação, nada mais justo do que eu ter dúvidas a menos já que meus dois amigos já passaram por isto.

– Ah isto é aquele tipo de coisa que você pode ler sobre, pesquisar sobre, assistir milhares de vídeos pornôs e ouvir a tudo o que nós temos para contar e ainda assim na hora "h" vai...

– Perceber que não sabe mesmo de coisa alguma. – Kai concluiu.

– É. Mas isto não vai te impedir de ir em frente como se soubesse. – finalizou Uruha.

– Muito esclarecedor. – desdenhei, porque sério, não tinha esclarecido coisa alguma. – Não dá para pelo menos dizerem se dói?

– Não é bem questão de doer ou não. – Começou Kai.

– Ah não me vem com história sobre relaxar. – cortei quando ele começo a abrir um sorriso sonhador.

– Não. Não é apenas isto. É realmente tanta coisa envolvida em cada descoberta que não dá tanto tempo para se focar na parte dolorida. – disse Kai.

– E nem é tão dolorido assim. – foi a vez do Uruha.

– Não minta para ele Kouyou, agradável também não é.

– Bem honestamente, eu via tanto o Aoi naquelas festas que acabei improvisando alguns brinquedos em casa. Eu queria saber mentir que tinha experiência caso fosse necessário – sacudiu os ombros como se aquilo não tivesse valor algum no momento – e eles doeram mais do que o original na hora.

– Improvisou brinquedos? Tipo o que latas de desodorante? – Kai fez uma careta e eu também só por tentar imaginar o absurdo.

– Não quero saber de julgamentos agora, ponto. Mas é... esse tipo de improviso. – admitiu coçando a nuca de um jeito como eu não imaginaria Uruha constrangido.

– Você pensou no que aconteceria se essa coisa entrasse e não saísse mais de você? Aquilo é totalmente liso. – Kai prosseguiu em choque.

– Ainda tá julgando? – retrucou irritado.

– Você não ficou todo "p" da vida com o Aoi por ele ter sido insensível na sua primeira vez? Que tipo de sensibilidade há em enfiar um frasco de...

– O sexo com Aoi foi perfeito, Ruki. A merda foi quando ele começou a abrir a boca depois. E eu não quero mais ouvir falar de desodorante.

– Eu nunca mais pego nos seus desodorantes. – respondi.

– RUKI! – Uruha esbravejou, mas Kai riu quase desesperadamente. – Não ria Yutaka, vai dizer agora que nunca tentou colocar o dedo lá. – disse usando um tom acusativo.

– O dedo Uruha. Não quer comparar com o que você fez, certo. Mas uma coisa que o Uru disse faz sentido, é diferente. Você colocar o dedo lá sozinho não é bom, mas quando ele colocou o dedo lá foi diferente.

– Mas diferente não é igual a bom, Kai. – retruquei, achei desnecessário dizer que o "dedo lá" eu já tinha colocado antes de aceitar Reita, eles iriam comer meus rins se dissesse isto.

– Ahh um dedo é bom, bom de verdade. Se você pesquisar vai encontrar inclusive homens em relacionamentos heterossexuais que gostam do estímulo. Mas depois disto está tudo aqui. – finalizou com o dedo apontando para a própria cabeça.

– Com certeza aqui – imitou o gesto de Kai – é mais importante.

– Então eu provavelmente estou ferrado. – disse apesar de não acreditar que era cem por cento verdade, afinal Reita tinha uma facilidade muito grande em fazer com que eu contradissesse e esquecesse até mesmo meus pensamentos.

Eles riram e era aquilo que importava. Logo o foco de Uruha já estava novamente em Kai, provavelmente tentando encontrar alguma confissão que fizesse a dele com relação à seus brinquedos secretos ser diminuída, mas não acreditava que ele seria capaz de encontrar mais do que confissões que o permitiriam comparar Kai à mim. Nada verdadeiramente constrangedor sairia da boca de Kai, mas parecia que Uruha tinha problemas em aceitar isto.

Então eu era novamente o único do grupo que não tinha feito algo que metade do mundo julga importante, mas aquilo definitivamente não me incomodava. A importância e o peso daquilo na minha cabeça só deveria implicar à como eu e Akira nos sentimos. O fardo que havia na minha cabeça quando eu fiquei com medo de ir até a casa dele e querer de mim mais do que estivesse pronto para fazer me incomodava, ouvir Uruha e Kai dividindo detalhes de suas experiências não.

Eu ouvia o que julgava importante ouvir, até perguntava coisas que dançavam na minha cabeça enquanto os ouvia narrar algumas descobertas, mas aquilo não mudava em nada a minha forma de pensar. Honestamente, já estava bem satisfeito com todas as coisas que nunca antes se quer tinham passado por minha cabeça e que agora faziam parte da minha rotina. Sabe, mesmo que o ano estivesse mais para o fim do que para a metade, ainda era apenas um ano e muita coisa nova.

É claro que não vimos a noite chegar e nem o sol nascer em meio a tanta conversa. Descobri coisas sobre Miyavi que jamais imaginei; algumas até que talvez preferisse não ficar sabendo. Ouvi, pela primeira vez com ouvidos realmente abertos Kouyou nos mostrando uma visão nunca antes vista por outra pessoa, de Aoi.

Ri junto com eles da forma como Kai parecia ter o desejo que implantar um GPS e alguns microfones em Miyavi. E admito que quase chorei no lugar de Uruha ao conseguir me colocar em seu lugar e ouvir cada uma de suas histórias de um ponto de vista em primeira pessoa.

E relutei, mas por fim dividi com Uruha todos os detalhes da minha conversa com Aoi, antes de ser coagido por Kai a contar, não apenas sobre a noite passada, mas todas as coisas bobas envolvendo Akira. Não tinha tanto drama quanto Uruha e nem tanta sacanagem quanto Kai, mas não teriam como me acusar por não ter dividido com eles o melhor das minhas experiências.

E sim, voltado àquele ponto em que o fato de eu ter me tornado a única criatura vigem do grupo não me incomodava nem um pouco, para Uruha isso foi um prato cheio para novas piadas que eu já sabia que surgiriam. Se eu não pudesse suportá-las, não teria dividido tudo aquilo com eles, ao mesmo tempo em que se houvesse alguma crença por minha parte de que eles faziam aquilo com alguma malícia real além do desejo de risadas leves e descontraídas, eu não seria capaz de suportá-las.

Kai estava tentando encontrar graça em alguma das reportagens que compunham a revista que Uruha tinha trazido enquanto Kouyou e eu assistíamos um episódio aleatório de uma série de investigação criminal cujo o nome eu nem me lembrava quando o celular de Kai foi o primeiro a tocar e nos sinalizar que já era hora de acordar. Nós nos entreolhamos assustados, Uruha usou o controle remoto da ctv. para checar as horas.

É claro que foi apenas depois de visualizar o número seis como o primeiro que formava o horário que os primeiros vestígios de sono começaram a aparecer em mim. Nós tínhamos ficado de um lado para o outro entre sala, cozinha e banheiro desde a manhã passada até o amanhecer de segunda, trovando entre lançamentos de jogos, eventos distantes em que nenhum de nós iríamos, escola, amigos, música e brincadeiras nada a ver.

Kai tinha recebido uma autorização certo horário para atender ao telefone que estava junto com o meu e de Uruha, pois todos sabíamos que a mãe ele ligaria me algum momento. Mas quando ele ficou vinte minutos rindo feito um abobado olhando para a tela do celular depois de já ter terminado a conversa, nós percebemos que ele estava lendo e respondendo mensagens no Myv e bom, digamos que isso gerou uma pequena disputa pelo aparelhinho por dentro da casa até que Uruha tomou posse do mesmo e o guardou novamente. Tenho certeza que com isso ninguém prestou atenção na hora que o visor mostrava.

Na verdade, bem na verdade, eu mesmo só consegui processar que poderia me atrasar para a escola se não me mexesse quando ouvi o barulho alto do estrondo da porta do banheiro sendo fechada e trancada. Quando olhei para o lado e só vi mais o Uruha ali.

– Eu vou usar o teu. Tem uniforme meu aqui né? – perguntou, mas não esperou por uma resposta antes de correr.

Quando entendi que a frase queria significar que ele usaria meu banheiro para tomar banho já era tarde, Uruha tinha subido as escadas de três em três degraus e já teria trancado a porta do meu próprio banheiro quando eu chegasse no quarto. E como não adiantaria discutir com ninguém, me restou apenas correr para o quarto da minha mãe e tentar tomar banho mais de depressa do que eles para pelo menos conseguir impedir a forma animalesca como cada um deles deixavam meus pinceis, tubos e pontas de lápis e batons.

Tempo demais depois, eu sabia que nós iríamos nos atrasar. Emi disse para chamar um taxi, mas os três números que eu conhecia estavam desligados. Provavelmente eles eram do tipo que trabalhavam até tarde, mas não começavam o dia tão cedo. E a pé pela hora que já era, iríamos nos atrasar.

– Nescau, Nescau e Nescau. – Kai disse me voz alta como se estivesse contabilizando as exatamente três caixinhas que vem na embalagem plástica que tirou do armário e largou em cima da bancada.

– Aqui tem uma caixa daquelas bolachinhas de cacau com mel. – informou Uruha, achei engraçado ver eles correndo e gritando como se estivessem separando mantimentos para um apocalipse zumbi enquanto eu estava muito mais preocupado em achar uma garrafinha de água na geladeira.

– Serve, vem três aí dentro. – avisei – Mas a gente vai ter que comer caminhando porq... – a minha intenção era dizer que estávamos atrasados, mas a campainha tocou anunciando alguém na porta da frente.

Olhei para Kai e Uruha, ambos parados e tão estáticos quanto eu. Minha mãe me avisaria se tivesse mandado alguém ali para nos dar carona. A mãe de Kai teria passado muito mais cedo do que os portões da escola estariam abertos, já era meio que por isto que ele ia comigo. A mãe do Uruha... bom ela nem sabia que minha não estava em casa.

– Quem é? – Uruha me perguntou.

– Estava aqui pensando que poderia ser sua mãe.

– Não. Ela teria vindo ontem à noite.

– Pode ser o Joe. – lembrou Kai.

– Seguramente ele teria ligado. – respondi.

Não que eu estivesse com medo ou algo do tipo, mas... quem chega na sua casa antes de sete horas da manhã em uma segunda-feira sem ligar e avisar? Eu não queria abrir a porta, mas sabe como é, eu também preciso sair por aquela porta. Tensas estas coisas.

– Hey você não vai abrir, né? – Kai perguntou, mas a frase claramente me mandava não abrir.

– Nós temos que sair! – dei de ombros.

– Mas é uma situação duvidosa, poxa. – reclamou.

– Hey, espera, – Uruha chamou atenção se esticando até a janela alta da cozinha – aquele carro parece o que o Aoi vai para a escola.

– Aoi? – perguntamos Kai e eu juntos, e logo a campainha foi apertada repetidas vezes de forma eufórica.

Antes que eu pudesse pensar e consequentemente, agir Uruha já estava correndo até a porta. Kai ainda estava com aquela cara de "faça alguma coisa" quando eu resolvi seguir o mais alto, chegando na sala exatamente no momento em que Uruha abriu a dita cuja da porta.

– Até que um dia, Ruki. Ah... Uruha. – corrigiu-se no fim, mas ainda estava aparentemente sem muito humor.

– O que 'cê tá fazendo aqui? – gritei indo na direção deles.

– Reita disse que a sua mãe não estava e que provavelmente vocês três estariam sem carona para a escola.

– Não podia ter ligado? Eu achei que você fosse algum tipo de sequestrador relâmpago que iria invadir a casa assim que o Ruki abrisse a porta. – Kai admitiu.

– Eu não tenho o número do Ruki, não sabia que você estava aqui e nem se o Uruha iria me atender. – deu de ombros – Enfim, eu não vou implorar e nem forçar para nenhum dos três entrar no carro. – disse olhando para Uruha no "implorar" e para mim no "forçar".

– Não me implore e nem me empurre. – Kai riu correndo para pegar sua mochila e passando por nós em um flash.

– Por que eu seria forçado? Era para mim que você deveria implorar. – dei de ombros imitando Kai no gesto de pegar a mochila, mas fiquei ali porque tinha que trancar a porta de casa.

– Então se eu devia implorar para o Ruki, deveria forçar você? – ouvi Aoi.

– É carona. Não vou a pé para a escola sozinho neste frio. – disse entrando para pegar sua mochila.

– Hm? – Aoi pegou o celular vibrando e olhando com desconfiança para o que aparecia na tela, tirando os olhos da mesma quando balancei meu telefone no ar na frente dele.

– Meu número, gênio. – disse, achando estranho o fato de que eu tinha o número dele.

– Isso é uma autorização para eu te ligar? – perguntou.

– Quando for preciso.

– Partiu escola. – Uruha passou por nós dois correndo para o carro, eu percebi que Aoi também estava indo enquanto eu fechava a porta.

– Aí – chamei, não gostar dele era diferente de fingir que não entendia a diferença entre isso e marcação. – Obrigado pela carona.

Foi o que eu disse de puro e sincero coração, porque era que era verdade. Aoi tinha nos quebrado um galho enorme. Mas eu era o tipo de pessoa que vivia tempo demais no mundo da lua para não perceber que isto nos salvaria por agora, mas como Kai tinha dito sabiamente, ainda nem era sete horas da manhã.

Às sete horas do dia mais estranho da minha vida. Até hoje. Kai, Uruha e eu sempre chegávamos juntos à escola, nunca com Aoi. Nada a ver com o moreno, na verdade desde o sorriso que ele deixou para trás depois de um simples e educado agradecimento, eu gravei na minha memória que nunca tinha visto Aoi rir tanto e de forma tão despreocupada. Mas bastou o carro parar em frente à escola que bolinhos e meninas amontoadas começaram a surgir até debaixo do telhado da escola.

Tá que eu era lerdinho, havia meninas na escola que até se interessavam em mim segundo informavam Kai, Uruha e Akira, Uruha também tinha admiradores e Kai até tinha um caso com Nao antes de ser formalmente apresentado à Miyavi. Mas sério, eram meninas em dezenas, fechando grupinhos que pareciam mais estar ali para marcar presença frente ao outro grupinho do que por desejar estar ali de verdade.

Aoi desceu do carro assim que o mesmo parou e ficou nos esperando do lado de fora de braços cruzados, mais concentrado no frio matinal do que no circo ao seu redor. Kai preferiu pegar o telefone e se concentrar, ou fingir, na tela do mesmo para não olhar para os lados. Uruha desceu do carro bufando, com o nariz mais empinado do que ele de fato era e encarando menina por menina como se estivesse gravando mentalmente seus rostos para ligar as figuras aos seus nomes.

– Isto é assim todo o dia? – perguntei, percebendo que ele realmente nem tinha ligado para aquele bando enorme de gente em seu caminho.

– É só ignorar. Elas estão aqui mais umas pelas outras do que por mim de verdade. – ele respondeu.

– Tá. Olha só, mesmo que você não de a mínima uma pessoa no meio desse monte todo está aqui por causa de você verdadeiramente, e justamente esta pessoa tem testosterona no sangue. Então seria bom você fazer alguma coisa antes que aquela bicha ali fique agressiva e mate suas fãs aos dentes. – concluí e nem precisei apontar para que mirasse Uruha, assustando-se claramente com a cara do mais alto.

– Mas é sério, é só ignorar. Nenhuma delas vai vir falar comigo por medo de alguma outra.

– Ele não vai ignorar, Aoi. – resmunguei olhando para ele de um jeito feio.

No instante seguinte ele estava com o celular em mãos, cutucando a tela do aparelho com velocidade enquanto me deixava para trás e caminhava na direção de Uruha. Chamou a atenção do loiro com uma cotovelada leve em seu braço e lhe mostrou a tela do telefone, o som de alguma música tocada somente na guitarra foi ouvida e era perceptível que eles conversavam sobre aquilo. E eu não demorei para alcançar Kai e me grudar no menor.

Estranhamente por terem entrado conversando juntos, Uruha fez algo que não fazia desde que eles dormiram juntos e o sonho dele acabou na manhã seguinte: sentou-se à classe ao lado de Aoi. Eu olhei para o Kai, Kai olhou para mim e nenhum de nós dois entendeu. Ainda assim o peso naquela sala de aula naquele dia estava fora do normal, e eu sentia como se todos os olhos estivessem em "nós", mas eu sabia que de verdade, todos os olhos estavam sobre Uruha.

Eu não entendi e percebi que Kai também não, apesar de também estar parecendo desconfortável com o silêncio anormal entre as meninas da sala. Claro que o "papo feliz" entre Aoi e Uruha morreu na hora em que Uruha percebeu que Aoi tinha puxado alguma conversa consigo apenas por causa do mar de meninas malucas nos descascando com olhos raivosos e a reação mais raivosa ainda de Uruha sobre isto. Isso aconteceu ainda antes de o sinal sonoro anunciar o início da aula.

Imediatamente ele levantou e mandou que Kai trocasse de lugar com ele, o que o moreno fez de forma mecânica, obviamente sem entender muita coisa. Nem eu na verdade. Se fosse o Kai eu acharia normal, ele sabia muito bem passar de uma pessoa sorridente para uma carranca sem humor algum em segundos, mas não o Uruha. Kouyou era o tipo de cara que remoía cada sentimento por no mínimo uma semana, e normalmente o humor com que ele chegava na minha casa de manhã cedo era o que ele manteria o dia todo.

O próprio Aoi pareceu achar estranha a forma como o loiro pareceu "voltar a si" e lhe fechar a cara, preferindo trocar de lugar com Kai. Não que fosse de fato um problema, Kai conversava numa boa com Aoi e vice versa. Como se fosse culpado pela fome no mundo, Uruha me olhou com cara feia e me chutou por debaixo da classe.

– Por que você me deixou fazer isso? Eu não devia estar sorrindo para ele, aliás Aoi nem me dá vontade de sorrir.

– Mas estava sorrindo até trinta segundos atrás. – retruquei.

Àquela altura já se podia conversar normalmente dentro da sala, impressionantemente os murmurinhos, risadinhas e conversas altas ali dentro tinham voltado ao normal subitamente assim que Uruha saiu de perto de Aoi. Eu me perguntava silenciosamente se isto teria sido apenas uma coincidência estranha.

– Deixa de ser idiota. Eu preciso odiar o Aoi, ele é tipo... criptonita. É sua função manter ele afastado de mim.

– Você não é o superman, assim como não é a minha função salvar o mundo. Apesar de ter salvado ao sua vida. Você percebeu de desceu do carro rosnando para pelo menos trinta meninas malucas?

– Ah você percebeu que tinha trinta garotas esperando o Aoi na porta da escola então. – retrucou sem humor.

– Respira e inspira umas vinte vezes Uruha. Ou você odeia o Aoi ou você ataca as meninas que cercam ele, as duas coisas ao mesmo tempo não faz sentido.

– Eu não consigo odiar o Aoi, mas ele não precisa saber disto. – resmungou e eu desisti de entender essa cabeça loira desneuralizada.

– Vocês dois não conversaram mais depois da última cagada que fizeram?

– Conversamos, faz quarenta segundos. – sorriu sem humor – E não foi uma cagada, me fortaleceu. É.

– To percebendo. – disse com ironia, ainda na noite anterior ele estava flutuando sonhadoramente com um Aoi que misteriosamente pareceu cansar da vidinha fútil que vivia.

Depois disto não conseguimos conversa mais sobre muita coisa, pois a aula tinha iniciado. E tudo pareceu voltar ao normal até o sinal do segundo período. O sinal havia tocado, o professor do primeiro período já havia saído para sua próxima aula, mas ninguém entrou na nossa sala.

Dez minutos depois uma das secretárias apareceu e informou que a professora em questão havia passado mal e teve que sair da escola direto para o hospital. Como aquele foi uma situação que aconteceu durante o início da manhã, não havia um professor substituto e nós teríamos períodos livres até o intervalo.

Ah é, aquele estava sendo um dia cheio de surpresas e imprevistos. Até aquele momento todos eles tinham nos beneficiado de alguma forma, mas eu deveria saber que quando muitas coisas boas acontecem sem motivo, logo algo ruim vem e nos acerta com mesmo peso e intensidade.

Claro que com dois períodos livres ninguém ficou dentro da sala, nós não seríamos exceção. Estranhamente eu não me importei com a presença de Aoi entre nós três, ele era tolerável quando falava pouco. Mas de alguma forma ele mesmo parecia sentir como se não se encaixasse sozinho entre nós, disse que ia ao banheiro antes do final do primeiro período livre e já estávamos quase chegando no horário do intervalo e ele ainda não tinha dado as caras novamente; fato este que parecia estar enfurecendo Uruha.

Kai resmungou alguma desculpa e se afastou para ligar para Miyavi, não nos importamos porque o de covinhas tinha ultrapassado em muito o seu tempo sem algum tipo de contato com o namorado. Eu implicava que ele ficava pendurado demais em Takamasa, mas isto também não significava que eu desejasse que eles simplesmente descessem do oitenta para o oito.

Uruha e eu estávamos passando pelo vão que formava um corredor quase estreito demais entre a entrada de uma sala de aula da educação infantil, desocupada no turno da manhã e uma das escadarias que levava ao nível superior. Ali tinha um bebedor e, por hábito, Uruha se inclinou sobre o mesmo para tomar alguma água enquanto eu, como um bom vagabundo, me atirei no banco sem encosto que ficava contra a parede e ao lado do bebedor.

Não seria nada com grau relevante de importância se não fosse a luz natural que iluminava o corredor estranho ter tremido e dançado até ser quase completamente bloqueada. Dos dois lados. Havia três garotas postadas de cada lado, bloqueando a visibilidade e as saídas do corredor. Os risinhos cheios de deboche deixaram logo claro que aquela era exatamente a ideia delas, e suas intenções não eram nada boas.

As meninas da minha escola pertencem a uma raça sub-humana não classificada ainda em nenhum catálogo científico. Elas montam grupos que agem uns contra os outros como facções criminosas, elas brigam e implicam com alunos por diversão. Pior do que isto, elas lutam...sabem bater e também morder.

Nunca era uma boa coisa ser colocado em posição de desvantagem contra elas, e era assim que estávamos. Mesmo que eu não fizesse ideia –ainda- do motivo pelo qual elas escolherem a nós dois no dia de hoje; talvez apenas estivéssemos no lugar errado e na hora errada. E pior ainda era saber que mesmo sendo obviamente uma presa entre leoas e de ser vergonhosamente mais fraco do que qualquer uma delas, não poderia nem tentar bater em nenhuma delas.

Eu preferia que fossem valentões. E enfiaria o meu joelho no "saco" deles de um jeito que não ia ser gostoso, apanharia igual depois, mas teria deixado a minha marca.

Nós nos entreolhamos, assustados. Éramos dois, elas eram seis. Uruha era alto, mas era magrelo, qualquer uma delas aparentava ter mais força do que ele ali. Claro que eu só estou falando dele, eu não era pálio nem para fazer elas darem risada. Só o Aoi mesmo para conseguir a proeza de ficar com olho roxo por minha causa, eu era inteligente o suficiente para admitir que era mais invocado do que minha força física me permitia ser.

Não com elas é claro. Elas me davam medo.

– E aí meninas – cumprimentei olhando para os dois lados – Hum evidentemente nós estamos atrapalhando alguma coisa entre vocês né, vem Kou. – puxei a mão do mais alto para um dos lados.

Com sorte eu estaria certo e elas poderiam estar ali bufando umas com as outras e nós nem termos nada a ver com o assunto, não dava para saber ao certo quem pertencia a qual grupo e quais eram amigas e quais eram rivais. Tentei bravamente passar entre duas delas com Kouyou ao meu encalce, fingindo que não estava cagado de medo, mas é claro que isto não funcionou.

– Calminha aí tampinha. – a menina do meio disse ao me impedir de passar por elas com uma facilidade vergonhosa, me empurrando de volta para trás com um toque em peito.

– É. Por que a pressa, anão? – outra menina, que estava do outro lado do corredor fez eco para o mugido da coleguinha dela.

– Não deveríamos atormentar o menor. – ouvi uma delas sussurrar para a do meio.

Aquelas meninas não eram da nossa sala de aula, mas eu as conhecia de vista. Eram bonitas, quatro delas tinham características de descendência europeia. Mas eu não conseguia me lembrar do nome delas, na verdade, neste momento qualquer coisa que eu tentasse recordar agora parecia magicamente bloqueada pela fúria nos olhos claros da menina que estava na minha frente e tinha me impedido de passar.

– Então.. a que devemos a honra? – perguntei, não que ouvir o uma delas achava que eu não devia ser atormentado me deixasse mais tranquilo; elas eram malucas.

– Esse aí não é o garoto que chamou aquele ali de "gay" no meio do pátio algum tempo atrás. Qual o interesse do Aoi neles? – uma delas perguntou para a outra me ignorando.

– São dois viadinhos, o anão fica de enrosco com o cara estranho que um pano no rosto que anda sempre com Aoi. – outra prosseguiu.

– Isso daí deu um fora na Rebeca perfeitinha?

– O que o Aoi iria querer com dois frescos? – a outra perguntou.

Olhei para o Uruha porque era óbvio que iríamos continuar sendo ignorados. Verdade seja dita, estávamos claramente sendo julgados. E eu descobri que talvez fosse melhor manter a situação assim, estava louco para gritar e tentar um suicídio honroso ao correr e empurrar uma delas para fugir, mas sério... me parecia mais provável encontra ruma maneira de sair dali apenas as ouvindo até pegar algum gancho que pudesse usar contra elas mesmas.

– O cara ia para festas com Aoi; aquelas festas do Aoi. Ele não é um viadinho nojento. – outra disse, claramente sem fazer ideia de como eram "aquelas festas".

– Aoi nunca levou ninguém daqui para as festas. – uma delas disse em tom forçado de certeza. – Não seria esta coisa aí a acompanhar ele. Por que levaria um veado escroto para andar ao lado dele?

– Talvez porque ele aprecie boa companhia. – Uruha rosnou em alto e bom som.

Ah claro, continuar sendo ignorado não estava nos planos dele. Nós ainda estávamos inteiros e sem hematomas, estava me fodendo para o que elas estavam falando. Mas é claro que Uruha tinha que cair nas provocações.

– Olha, a mona ficou brabinha. – zombou uma delas.

– Vai me bater com a sua bolsinha? – prosseguiu outra.

– Onw será que a aberração deseja sair com Aoi? – ironizou a terceira fazendo uma onda de risadas maldosas nos atingir.

– Seria uma comédia muito boa de assistir. – e mais risos prosseguiram até que uma voz inesperada ecoou por trás da menina que estava à minha frente fazendo todas elas pararem.

– Eu gosto de comédia – ele disse – Tantas garotas reunidas e não me convidaram?

– Aoi? – a menina que estava à minha frente de virou para olhá-lo, e no movimento ficou claro que ele tinha nos visto ali e mais o outro grupo bloqueando a saída do outro lado.

– O que estão fazendo? – perguntou claramente com desagrado na voz.

E aquele era um momento em que se eu não estivesse morrendo de medo, daria muita risada. Sabe o único cara mais fraco do que eu para ser capaz de levar um olho roxo por um soco meu, esse cara estava olhando para aquelas garotas atormentadoras com o cenho franzido e falando no mesmo tom de um pai prestes a aplicar um severo castigo.

– Eu disse que não deveríamos importunar o menor. – aquela menina voltou a dizer baixinho.

– Nós não o importunamos. Eu só queria saber se aquele garoto saberia me dizer porque você não atende às minhas ligações e nem responde minhas mensagens.

– Não é pra encher o saco de nenhum deles. O motivo para ser ignorada é porque meu tempo com coisas importantes está tornando o meu tempo e paciência para futilidades pequenos demais. Pode espalhar isto entre as suas amigas.

– Que grosseria Aoi, aquele garoto estranho que entrou na escola este ano está estragando você. Está contaminando a sua cabeça, daqui um pouco você vai virar uma bicha igual esses dois. – desdenhou.

– Ah contaminou mesmo – disse em um gemido – Graças à alguma entidade que vai com a minha cara o Akira apareceu e contaminou minha cabeça. Vamos logo vocês dois. – chamou claramente impaciente.

Naquele momento a minha ficha caiu sobre o que realmente estava acontecendo ali. Entendi o motivo por todas nos olharem para Uruha de um jeito estranho até que ele e Kai trocaram de lugar. Não tinha sido apenas coincidência e nem um sinal de que tudo estava normal novamente.

Eu ouvia várias pessoas dizendo que o mundo era cruel, como se fosse algo que devesse ser temido; um estigma do qual nenhum de nós estaríamos safos. Mas eu me considerava uma pessoa de sorte por ainda não ter chegado perto de pessoas assim.

As pessoas em geral possuíam um dom muito bizarro de julgar, ou melhor pre julgar, as pessoas por suas aparências e por suas companhias. Uruha e Aoi passaram a impressão de uma amizade masculina embalada pelas festas para lá de exóticas que Aoi frequentava. De repente Kai e Miyavi passaram a ser a atração pornográfica da escola ao mesmo passo em que Aoi e Uruha se afastaram apesar de ainda estarem moderadamente no mesmo espaço físico.

Então minha conversa com Rebeca se tornou pública, obviamente. Espalharam apo aí que eu "dei um fora" na menina, mesmo que eu não visse a coisa desta forma. Ainda assim eu me tornei o ser que dispensou a melhor menina da escola e ninguém era cego a ponto de não me ver andando de mãos dadas com Reita para cima e para baixo.

E não tão pouco tempo depois nós chegamos em uma segunda-feira de manhã no carro do Aoi. Mesmo que tivesse sido eu mesmo que tivesse empurrado Aoi para conter Uruha, olhando para a forma como eles estavam alheios ao universo conversando novamente parecia meio íntima demais em um período em que Aoi estranhamente começou a se mostrar cansado da vida fútil que levava.

Eu tinha entendido que o que aquelas meninas queriam de verdade ali não era saber quem nós éramos; elas sabiam bem isso. O que elas queriam saber era o último "viadinho" do grupo era o que estava tirando Aoi do território delas. E foi estranhamente doloroso ter um vislumbre de que na verdade nenhuma delas parecia conhecer Aoi de verdade.

E eu dei um passo à frente na hora. O clima estava tenso demais para eu ficar me apegando a coisas pequenas tipo ser o Aoi ali. A coisa certa seria acusa-lo de ser perigoso de se ter por perto, mas a verdade era que eu estava bem agradecido por poder sair daquela cena estranha. Mesmo com todos os meus anos de birra e perseguição, me senti mais conhecedor daquele ser à nossa frente do que todas elas juntas.

Mas o pensamento morreu quando meu corpo travou pela falta de movimento de Uruha. Ele parecia tão raivoso com Yuu quanto as seis garotas que ele estava indo contra.

– Vem Kouyou. – chamei puxando seu braço pela união de nossas mãos, mas ele não se mexeu.

Uma das meninas atrás de nós começou a rir alto de um jeito maldoso, nada bom poderia sair daquilo. Evidentemente Aoi não era mais o foco de admiração daquelas garotas, e isto não as tornaria menos malucas. E se ele não era mais "o cara" entre elas, estaria na mesma desvantagem que nós dois, para mim era claro que deveríamos sair dali enquanto a oportunidade existia.

– Aoi prefere a companhia de garotos agora. – desdenhou de uma forma difícil de interpretar se era uma pergunta ou uma afirmação.

– Por favor vem logo, Kouyou. – foi a resposta dele esticando a mão para coloca-la sobre nossas mãos unidas e me ajudar a trazer ele para perto, mas Kouyou apenas soltou de minha mão afastando-se de nós.

– Eu não preciso da sua ajuda! – ele disse para Aoi.

Aí eu tive a certeza de que meu amigo, já não muito certo da cabeça, tinha pirado de vez e que nós iríamos morrer ali com certeza. Isso se não fosse o barulho a estridente do sinal colocar um fim naquilo, houve apenas o tempo dele tocar por completo e três segundos depois o tumulto de gente saindo de todas as salas ocupadas começou a encher os pátios, bem como os professores que os cruzariam para chegar a sala de descanso.

– Vem! – disse de forma firme, puxando Uruha na nossa direção pelo tecido da camiseta.

Caminhei até o palquinho em que nós sempre ficávamos e me certifiquei de soltar Kouyou apenas quando estávamos no lugar certo. Deveria ser a minha vez de comprar os lanches, mas eu não tinha vontade nenhuma de sair dali e nem fome para qualquer coisa e receoso ao mesmo tempo sobre sair sozinho e deixar a dupla sozinha sem supervisão.

– Que doideira! – suspirei.

– Elas são malucas. – Aoi justificou.

– Elas são horríveis. – corrigi.

– O que houve? – Reita perguntou assim que se aproximou.

– Fãs malucas do Aoi cercaram Uruha e eu. – respondi.

– Machucaram você? – perguntou preocupado. – Algumas destas meninas são quase criminosas.

– Não. Ironicamente Aoi chegou bem na hora. – disse.

– Não precisávamos dele, daríamos nosso jeito. – disse Uruha.

– Não daríamos nada. Você deixou que a provocação delas te atingisse.

– Só um obrigado serve, Uruha. – Aoi desdenhou.

– Obrigado Aoi, você ser o gigolo mais puto desta escola fez com que Ruki e eu ouvíssemos coisas desagradáveis desnecessariamente. – Uruha respondeu com ironia.

– Você não pode me acusar pela maldade que existe nelas! – Aoi pareceu perder rapidamente a paciência.

– É a sua futilidade que alimenta a maldade delas. – Uruha devolveu no mesmo ar irritado.

– Uru... – chamei tocando o braço fino a fim de fazer com que ele parasse, na minha cabeça não era o momento para discutir, pois estávamos nervosos... abalados pelo susto.

– Você desfila a pose de maior pegador do pedaço e fica com cada uma destas criaturas fúteis apenas uma vez e ri quando elas disputam para ver quem vai conseguir levar você duas vezes. Vai àquelas festas e as divulga como se fossem noites de gala em que nenhuma delas tem acesso apenas para ter um argumento a mais sobre como nenhuma delas é boa o bastante.

– Uruha, por favor, já chega. – pedi apertando mais seu braço contra meus dedos.

– Você tem razão – foi a vez de Aoi; sua voz estava mais calma –, uma parte de mim fica muito satisfeita por você ter finalmente entendido quem eu sou. – disse se levantando do canto de concreto em que tinha sentado, claramente dando a entender que se retiraria. – Só errou em uma coisa – prosseguiu – houve um ser fútil que eu quis levar comigo a todos os lugares, um idiota qualquer que conseguiu ficar comigo três vezes. Mas ele também não foi bom o bastante. – concluiu a última parte já a uma distância considerável.

– Aoi... – Reita chamou com certa preocupação.

– Aproveite seu namorado, depois daqui só vai ver ele à noite. Eu vou passar a tarde toda com você no Joe. – o moreno o dispensou rapidamente.

– Satisfeito? Quem fala o que quer, ouve o que não quer. – disse para Uruha que estava segurando e omitindo muito bem suas lágrimas.

– Não enche, Ruki. Desde quando você fica contra mim para ficar do lado do Aoi. Do Aoi. – repetiu.

– Eu tenho as minhas diferenças com ele, sim. Não gosto de passar tempo demais com Aoi e não consigo confiar nele, mas você desceu baixo Kouyou.

– Aoi não é uma pessoa fútil por mais que tenha se esforçado para conquistar esta fama. Você com certeza o magoou, Yuu nunca mais foi a nenhuma festa e nem deu atenção às maluquetes que correm atrás dele. Tem se afastado de tudo que faça estas pessoas fúteis ter acesso a ele. – disse Reita.

– Olha Akira, eu sei que é seu melhor amigo, mas Aoi não é esse santo que você está desenhando aí não. – alertei.

– Ele estava passando por uma fase, está melhor agora. Sinceramente, o Yuu que eu conheço não coloca nada disso em primeiro plano. A cabeça dele pensa em muitas outras coisas sérias antes disso, ele só se esforçou tanto para que ninguém percebesse que realmente ninguém percebe. – disse de forma simples.

– Eu não sou bom o bastante. – Uruha repetiu baixinho.

– Não é como se você permitisse saber, não é? – disse com sinceridade, vendo ele me olhar de forma curiosa. – Você montou um personagem que se adequava a vida de Aoi para entrar nela, disse tudo o que ele queria ouvir e fez tudo o que julgou que fosse de agrado dele, isso deu errado e então você escolheu realmente ser igual a ele. É obvio que você não é igual a ele e que isto também não deu certo, então agora você está fazendo de novo. Está dizendo e fazendo todas as coisas que possam de alguma forma atingir Aoi para forçar a ideia de que não gosta dele.

– Em que lição de moral você está tentando chegar, Ruki? – ele me perguntou sem paciência.

– Você está fazendo de novo, está omitindo-se por causa de Aoi. Seja para amá-lo ou mentir que o odeia você não está sendo você mesmo Kouyou. Nunca vai saber de verdadeiramente se é ou não bom o bastante se não deixar que ele conheça você de verdade. Poxa.

Depois disto Uruha se calou. O clima ficou tenso novamente e o sono não dormido da noite anterior estava me consumindo até as últimas energias, o mais alto olhou de mim para Reita e de nós para o pátio aberto e então se levantou com a desculpa de que iria ao banheiro e sumiu. Por um momento eu pensei que tinha falado demais também e quis ir atrás dele, mas Reita me apertou mais contra si.

– Vou roubar o seu discurso e repetir ele para o Aoi. – disse aleatoriamente.

– Que?

– Sabe, Aoi não me contou que ficou uma terceira vez com Uruha. – continuou. – Isto é interessante.

– Provavelmente porque não foi importante. – dei de ombros.

– Ah não. Aoi realmente não fica duas vezes com a mesma pessoa, isso é verídico sobre sua pessoa. Mesmo com Uruha ter acontecido duas vezes foi consequência de uma série de eventos, mas se eles ficaram uma terceira vez foi porque ele quis também. Ele não me contou porque sabia que eu pegaria no pé dele.

– Não venha com teorias de que ele pode vir a corresponder aos sentimentos do Uruha. Ou pelo menos não deixe o Uruha ouvir isto, vai doer menos.

– Ah não, claro que não. Eu adoraria que Aoi se apaixonasse por alguém e ficaria mais satisfeito ainda se este alguém fosse Kouyou, mas não. Mas é evidente que Uruha tem alguma espécie de poder sobre Aoi, ou não o convenceria a uma terceira vez nem se Uruha estivesse nu, de quatro em uma bandeja de prata.

– Qual a relevância disto então? – perguntei pouco entendendo as coisas que ele dizia.

– Eu ainda não sei. – respondeu apoiando o queixo no alto de minha cabeça. – Aquelas meninas foram muito cruéis?

– Só palavras de baixo nível. Elas foram cureis apenas com Uruha.

– Minha mãe apertou muito nesta tecla na conversa que ela quis ter comigo ontem.

– Sobre o que?

– A maldade que há no mundo e todos os preconceitos e dificuldades que a escolha de assumir-se causaria. Ela tem a tendência de sempre pensar nas coisas negativas, perguntou o que eu faria se você descobrisse que não queria mais suportar o peso de encarar o mundo nos julgando todos os dias.

– O mundo julga todo mundo todos os dias, não só os gays. – interrompi.

– Eu sei. Mas ela não acreditou em mim quando eu disse que você não desistiria. Nós vamos ficar juntos para sempre e este será o tempo pelo qual ela vai acreditar que você vai desistir e me fazer sofrer no dia seguinte. – concluiu rindo.

– Isto porque ela me odeia. – expliquei.

– Não, a vida conjugal dela não foi a melhor do mundo. Ah e ela está convicta de que a culpa do filho dela ser gay é toda sua. – riu.

– E é bom que seja. – desdenhei – se não a culpa, pelo menos o motivo para que assim permaneça. Bem veado e do meu lado. – joguei a mão para trás a fim de estapear alguma parte de seu corpo.

– Pelo tempo de uma vida. – repetiu.

– De duas. – corrigi, permitindo-me sorrir com o aperto do seu braço em minha cintura.

Amigos malucos, imprevistos na família, noites sem dormir, ajuda inesperada de pessoas inesperadas, ataques surpresas e um mundo maluco do lado de fora de casa. Pouco disso parecia importar em momentos em que Akira estava por perto. Eu achava de verdade que tudo sempre poderia acabar bem se ele estivesse ali.

No final daquele recreio voltei a encontrar Uruha na sala de aula. Aoi tinha levado suas coisas para outra classe e Kouyou se manteve calado demais durante o resto da aula e coube a mim explicar todo o tumulto para Kai. Tentei por vezes demais trazer Takashima de volta para a conversa, contudo isto se mostrou ser em vão. Ele parecia estar em outro mundo.

Uruha apenas silenciou. Eu me senti meio mal pelos próximos dez ou vinte minutos, pensando que talvez tivesse dito demais. Mas relaxei depois, era realmente convencido de que de amigos sempre se espera um conselho sincero e nada mais do que a sinceridade.

Eu não tinha sido muito bom nisto até parte deste ano. Relutei todas as vezes em que ele mesmo e Kai tentaram me fazer perceber quais eram as coisas que eu verdadeiramente sentia por Akira. Esta lição eu já tinha aprendido e sabia que Uruha era capaz de fazer isto muito melhor do que eu.

E um dia passou, e o silêncio dele perdurou. As brincadeiras espalhafatosas que almejavam atenção foram trocadas por sorrisos discretos que foram aumentando gradativamente com a sequência de dias que vieram depois.

Duas semanas depois ele me perguntou baixinho enquanto estávamos juntos no banheiro da escola, se eu realmente acreditava que alguém algum dia poderia amá-lo da forma como ele realmente era. Se haveria alguém que não o julgaria ou apontaria seus defeitos se se permitisse ser verdadeiramente transparente. Sorri com aquilo, era naquilo que o silêncio dele tanto pensava.

Ignorei o fato de saber que "alguém" em qualquer equação envolvendo Uruha significava na verdade Aoi. Disse-lhe que se ele não fizesse isto jamais descobriria, até porque não tinha motivo algum para um cara chato como eu ter encontrado uma pessoa que por algum motivo misterioso me acha interessante e um cara super dedicado como o Uruha, não.

Mas não disse isso, porque se abrisse a boca diria que se até um ser chamado Shiroyama Yuu tinha conseguido conquistar Kouyou, impossível Kouyou não conquistar alguém verdadeiramente. Não adiantaria dizer isto, pois ele continuaria desejando que esta pessoa fosse Aoi.

A forma como havia se omitido tanto para agradar como para reforçar o "ódio" por Yuu mostrava principalmente que Uruha era uma pessoa que sabia se doar por outra pessoa. Eu admirava isto, Reita também era um pouco assim, sabia que eu não era capaz de tanto. Kai também não era capaz, podia até perecer que sim, mas não. No fim o das covinhas sempre se colocaria em primeiro lugar e Miyavi era igual ao namorado.

Uruha poderia ser nosso maior exemplo de capacidade de amar alguém incondicionalmente. Eu teria achado isto um motivo para zoar ele até poucos meses atrás, hoje apenas me fazia desprezar quem não se permita ser amado por ele. Era uma coisa boba.

Depois deste dia, o Kouyou "palhaço" ficou cada vez menos evidente e o Kouyou que rolava aos tapas comigo por conta de um jogo de vídeo game voltou a surgir. Os shorts e as maquiagens espalhafatosas deram lugar a roupas de bom gosto e sombras sobreas. Até os óculos ele voltou a usar.

E mesmo que seus olhos nunca deixassem de seguir Aoi, suas ações não tinham mais o moreno como foco principal. Dia após dia, emendando semana em semana. Aquela guerra digital entre Reita e Uruha até aconteceu somente entre nós três, com Akira defendendo a minha honra ao derrotar Uruha o dia inteiro em todos os jogos.

Tudo tinha voltado ao normal, ou quase. Quase porque o nosso "normal" era antes de Kai e Miyavi andarem e respirarem como um único ser e eu me tornar uma pessoa que ainda acreditava que escola não é lugar para dar show exibicionista de sexo ao vivo, mas que também tinha descoberto que ninguém jamais ia até a biblioteca e muito menos na parte de trás do prédio em que a mesma ficava.

Lá era um lugar legal. Nem era nenhum crime deixar o grupo de lado um ou dois intervalos por semana para ficar a sós com Akira lá. Acompanhar Reita até o almoxarifado também já tinha sido acrescentado às minhas atividades "normais". Claro que nada disso chegava perto das vezes em que preferíamos ir para a casa dele do que para a minha no final de semana.

Aquele "faça o que quiser comigo" do Akira tinha virado quase um mantra que simplificava um acordo mudo que nos permitia explorar um o corpo do outro com toda liberdade para expressar as curiosidades e descobrir o desejo. Para os dois. Claro que com isto eu consegui perguntar para ele se já tinha feito sexo antes com alguém.

Sim. No ano anterior com uma menina. Segundo Reita serviu para que ambos respondessem dúvidas pertinentes; descobriram que eram apenas bons amigos. Isso antes, é claro. Depois ela disse que tinha conduzido aquela situação na esperança de conquista-lo, Akira tinha acreditado quando ela disse que seria unir o útil ao agradável; ela queria perder a virgindade e ele tinha dúvidas mais voltadas para si próprio e inclinações pessoais.

Eu admito que fiquei com ciúme em um primeiro momento, mas depois percebi que isto não estava diminuindo a importância das coisas que estávamos descobrindo juntos. Era eu que sentia o corpo dele vibrar cada vez que descobria alguma coisa que podia fazer com meu corpo que fazia o prazer se sobrepor à vergonha de gemer. Era eu que vibrava contra a pele arrepiada dele quando o grande descobridor da noite era eu.

E era ele que insistia em dizer que aquilo era duraria pelo tempo de uma vida. Depois algumas vezes ouvindo aquilo, a frase mudou para uma declaração que dizia que ele iria me amar para sempre. Era engraçado ao mesmo tempo em que era agradável, eu já estava respondendo aquela afirmação mentalmente. Cedo ou tarde isto acabaria escapando em voz alta, igual aos gemidos que eu não era capaz de conter.

A nossa nova determinação de "normal". Com um Uruha que tinha voltado a ser Uruha e um Aoi que, segundo Reita era o mesmo de sempre, mas para mim, parecia menos desprezível. Kai e Miyavi montando suas vidas como uma coisa só debaixo da proteção amistosa de Emi e Hiroki. E com Reita e eu finalmente encontrando uma rotina que funcionava para ambos e conseguia lidar bem com escola, trabalho, amigos e família.

Mas hoje não. Hoje era terça-feira e era véspera de um feriado, um inútil feriado em uma quarta-feira. Mais inútil que feriado bem no meio da semana era só feriado em domingo, é claro. Mas ali bem no meio da semana, aquela merda serve mais para cansar do que descansar. Não dava para sair, não dava para ficar acordado até tarde e ao mesmo tempo, não tinha muita opção de coisas para se fazer.

E para ajudar todos os canais de TV estavam anunciando uma forte tempestade, um temporal com rajadas de ventos cuja velocidade prometiam ultrapassar os 120km/h. Eu não acreditava muito em previsões meteorológicas, elas sempre estavam erradas. Na minha cabeça tudo seria exatamente como sempre, o céu cinza deixava claro o dia de chuva, mas eu não acreditava que aquela chuva boba se transformasse em um temporal. Se fosse, seria igual a todos os outros com dez ou quinze minutos de ventos fortes que gostavam de cantar enquanto batiam contra as paredes de concreto.

Eu e mais todo mundo. Miy, Kai e Hiroki pediram o carro de Emi emprestado para visitarem os pontos turísticos de alguma cidade vizinha. Minha mãe marcou com Joe de usarem o dia para discutirem alguns pontos legais dos contratos que eles tinham, Joe também estava louco para estudar uma lista de bandas alvo para trazerem para cidade a mãe do Miyavi deixaria minha mãe na casa do Joe logo cedo pela manhã antes de sair com os meninos.

Conversei com Uruha sobre coisas que ele pudesse querer fazer além de jogar vídeo game, mas ele me disse que talvez não pudesse ir à minha casa no dia seguinte. Perguntei se era coisa da família dele e ele apenas desconversou me perguntando sobre Reita.

Era claro que ele iria para a minha casa no feriado. Tsc, o que ele pensava?

Engraçado era que parecia ser exatamente por isto que apertou um bico cheio de consternações sem sentido e largou um gemido murmurado que dava som ao seu desagrado ferido. Bateu as mãos contra as coxas duas vezes e mordeu o lábio inferior, claramente pensando no que diria a seguir.

– Realmente há coisas que eu preciso fazer, Ruki. Eu preciso fazer. – Repetiu-se colando muita ênfase no "eu".

E antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa ele me deu as costas e foi embora com algum "te conto depois". Uma parte minha não queria saber depois, queria saber antes. Aquele bico cheio de queixas caladas me deixavam temeroso, eu queria saber antes e, se possível, evitar o depois de se concretizar. Mas outra parte de mim, que foi dominante, apenas o deixou ir.

A entonação cheia de profundidades que eu não conseguia alcançar apenas com ouvidos, dita com a voz naturalmente doce de Kouyou tinha peso igual, senão maior do que minhas dúvidas por causa de um bico. Era um recado claro daquele Uruha da nossa nova rotina, o que fazia as coisas por si e não para agradar o idiota que não estava nem aí para ele.

Por isso eu sabia que tinha que apenas deixa-lo ir e fazer o que bem entendesse. É claro que havia dúvidas, é claro que havia medo. Estas coisas nunca deixariam de existir, mas eu já tinha me metido demais nas escolhas de Uruha, já era hora de eu apenas o apoiar e acreditar na capacidade que Kouyou poderia ter de nos surpreender com qualquer coisa. Coisas positivas, eu esperava.

NOTAS:

Tipo... tem umas coisas sobre transito que são diferentes (na nomenclatura) em diferentes partes do país. Eu acho que o que aqui é chamado de "pisca" aqui é chamado de "seta" também. Em todo caso, elas indicam para que lado você vai (estacionar, "desestacionar", ultrapassar, dobrar à esquerda/direita...)

Maçã é rosa, mas fora isso a única coisa que eu conseguia pensar para ligar a algo vermelho a boca próprio Ruki ficou me atrapalhando então... foda-se.

Ruki espera coisas maduras do Kouyou, mas eu não sei ainda se será bem bem bem isso. Se não for é sempre motivo para Ruki e Kouyou rolarem no chão achando que estão brigando /corre